sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

 

Escapando da frustração, tal qual a fina areia da Praça São João escoava entre os dedos de minha mão...


No centro da antiga e arborizada Praça São João, em Simão Dias, tinha um local onde, diariamente lá pelos anos 50, jogávamos bola. Era uma pequena área livre entre diversas árvores do parque e que, em consequência da pisada constante da garotada, se transformou em um campinho de areia fina.

Aquela praça ou parque era o ponto de reunião da meninada que residia na circunvizinhança. A maioria da garotada gostava de jogar bola (bolas de borracha, bolas de meia, velhas pelotas ou couraças e também com bolas de bexigas de boi, que pegávamos no matadouro municipal que ficava próximo.   

Recordo-me, agora, de uma manhã de domingo, quando aconteceu uma programada partida entre nossa turma e os colegas do bairro Bonfim. Era uma disputa importante entre times rivais e todos tinham interesse em participar da pelada.

Pois bem. Naquele domingo especial, não sei porque razão ou motivo, atrasei-me. Quando chequei no local, o grande “match” já tinha começado. Fiquei de fora, curtindo uma fossa desgraçada. Sentei-me próximo à linha do jogo, na sombra de um tamarindeiro, e frustrado, com as mãos apoiando o queixo, acompanhei de soslaio o movimento dos “players”. 

Amargurado e triste, peguei – inexplicavelmente – um pouco da fina areia da margem do campinho de pelada e senti que ela escapava rapidamente entre meus dedos, soltando poeira. Então, naquele momento, como se recebesse uma lição transcendental, pensei e gravei para sempre em minha memória que, da mesma forma que a areia fina escoava de minhas mãos, deveríamos deixar escapar de nossa mente as lembranças de fatos perturbadores.

 

Areia fina do campinho escoando entre os dedos.

 Acredito que naquele momento recebi um toque espiritual marcante, que não anulou, nem anula, meus sentimentos de dor, de tristeza ou melancolia, mas que tem o dom de amenizar as vicissitudes da vida e me conceder forças para enfrentá-las e seguir em frente, cuidando de novos desafios

Assim matutando, desviei meu pensamento da pelada, e fui brincar com bolas de gude, um jogo que chamávamos de “marraio”, em companhia dos amigos Simão de Seu Antônio Gomes e Sorrindo, o pipoqueiro. E apostávamos bolas de gude, estampas do sabonete Eucalol, ou as capas dos maços de cigarro Astória e Hollywood. E assim, superei a frustração e outras peladas surgiram...

Nas noites insones dos dias atuais, quando os pensamentos negativos batem à porta de minha mente, valho-me da velha e bendita lição e faço escoar os queixumes, do mesmo modo que fluiu de minhas mãos a fina areia do campinho de pelada do Parque de minha terra. 

O ensinamento continua sendo lembrado, mas não é tão fácil aplicá-lo. Muitas vezes ficamos de tal forma amargurados que nossa mente insiste em não se livrar.  Então, é preciso força para ir em frente e cuidar de novos desafios. Tudo na vida são momentos, quer de alegria ou tristeza, mas não devemos esquecer que TUDO PASSA.

E para concluir, transcrevo o que psicografou Chico Xavier e que reforça este meu meditar:


E a vida continua...

Aracaju, 20/02/2026

Beto Déda




2 comentários:

  1. Maravilhosa reflexão, tanto pela riqueza das minúcias trazidas do passado, quanto pelo exercício terapêutico que o senhor está propondo e que é bem ilustrado nos versos de Chico Xavier.

    Os ciclos da vida exigem de nós este tipo de postura. “A vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito”. Saber postar-se quando as “ondas pesadas” se aproximam de nós é fundamental. A certeza de que elas passarão e de que outras virão em seguida, nos dá maturidade, tranquilidade e experiência. Cada "nova onda" que chega nos encontrará mais fortes.

    O autor da vida quis que assim fosse para que este processo nos transformasse e não nos conformássemos enquanto o estado de plenitude não pudesse ser sentido em nosso íntimo.

    Parabéns, tio Beto. Vamos em frente!

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  2. denissondeda@yahoo.com.br20 de fevereiro de 2026 às 16:40

    Que texto magnífico, Tio Beto! Ler suas palavras foi como fazer uma viagem no tempo até a Simão Dias dos anos 50.
    Sua sensibilidade em transformar a frustração de ficar fora de uma pelada em uma metáfora tão poderosa — a areia fina da Praça São João escoando entre os dedos — é uma verdadeira lição de vida. É inspirador ver como um momento de "fossa" de infância se tornou a ferramenta que o senhor usa hoje para enfrentar as noites insones e as vicissitudes do cotidiano.
    Obrigado por compartilhar mais esse ensinamento sobre superação e sobre a importância de "fazer escoar" o que nos amargura para abrir espaço para novos desafios. Um forte abraço!

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