Escapando
da frustração, tal qual a fina areia da Praça São João escoava entre os dedos de
minha mão...
No centro da antiga e arborizada Praça São João,
em Simão Dias, tinha um local onde, diariamente lá pelos anos 50, jogávamos
bola. Era uma pequena área livre entre diversas árvores do parque e que, em
consequência da pisada constante da garotada, se transformou em um campinho de
areia fina.
Aquela praça ou parque era o ponto de
reunião da meninada que residia na circunvizinhança. A maioria da garotada
gostava de jogar bola (bolas de borracha, bolas de meia, velhas pelotas ou
couraças e também com bolas de bexigas de boi, que pegávamos no matadouro
municipal que ficava próximo.
Recordo-me, agora, de uma manhã
de domingo, quando aconteceu uma programada partida entre nossa turma e os
colegas do bairro Bonfim. Era uma disputa importante entre times rivais e todos
tinham interesse em participar da pelada.
Pois bem. Naquele domingo especial, não sei porque razão ou motivo, atrasei-me. Quando chequei no local, o grande “match” já tinha começado. Fiquei de fora, curtindo uma fossa desgraçada. Sentei-me próximo à linha do jogo, na sombra de um tamarindeiro, e frustrado, com as mãos apoiando o queixo, acompanhei de soslaio o movimento dos “players”.
Amargurado e triste, peguei – inexplicavelmente
– um pouco da fina areia da margem do campinho de pelada e senti que ela
escapava rapidamente entre meus dedos, soltando poeira. Então, naquele momento,
como se recebesse uma lição transcendental, pensei e gravei para sempre em
minha memória que, da mesma forma que a areia fina escoava de minhas mãos,
deveríamos deixar escapar de nossa mente as lembranças de fatos perturbadores.
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| Areia fina do campinho escoando entre os dedos. |
Acredito
que naquele momento recebi um toque espiritual marcante, que não anulou, nem
anula, meus sentimentos de dor, de tristeza ou melancolia, mas que tem o dom de
amenizar as vicissitudes da vida e me conceder forças para enfrentá-las e
seguir em frente, cuidando de novos desafios
Assim matutando, desviei meu pensamento
da pelada, e fui brincar com bolas de gude, um jogo que chamávamos de “marraio”,
em companhia dos amigos Simão de Seu Antônio Gomes e Sorrindo, o
pipoqueiro. E apostávamos bolas de gude, estampas do sabonete Eucalol, ou as
capas dos maços de cigarro Astória e Hollywood. E assim, superei a frustração e outras peladas surgiram...
Nas noites insones dos dias atuais,
quando os pensamentos negativos batem à porta de minha mente, valho-me da velha
e bendita lição e faço escoar os queixumes, do mesmo modo que fluiu de
minhas mãos a fina areia do campinho de pelada do Parque de minha terra.
O ensinamento continua sendo lembrado, mas
não é tão fácil aplicá-lo. Muitas vezes ficamos de tal forma amargurados que
nossa mente insiste em não se livrar. Então,
é preciso força para ir em frente e cuidar de novos desafios. Tudo na vida são
momentos, quer de alegria ou tristeza, mas não devemos esquecer que TUDO PASSA.
E para concluir, transcrevo o que psicografou Chico Xavier e que reforça este meu meditar:
E a vida continua...
Aracaju,
20/02/2026
Beto
Déda

