quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

 

Recordações da Rua João Pessoa.

 

Nos anos 50 e 60 do século passado, o centro comercial de Aracaju se  concentrava na Rua João Pessoa. Ali estavam as principais lojas, livrarias, cinemas e casas de lanches de nossa capital.

Lembro-me de algumas: “A Loja 4 e 400”, a "Livraria Regina", a "Joalheria Safira",  "A Moda" (no Edifício Mayara), "A Esquina da Economia", a "Loja P. Franco e Cia", a "Lanchonete Nossa Senhora do Socorro", o "Ponto Chic”,   o Hotel Marozzi,  e os cinemas Palace e Rio Branco.  O nome destas casas comerciais estão preservadas em minha memória em consequência de fatos que presenciei quando era garoto.   

 

A  “Loja 4 e 400” era o nome popular das Lojas Brasileiras, que foi, se não me engano,  a primeira loja de departamentos em nossa capital. Lembro-me que foi lá que, certa vez, meu pai me presentou com um brinquedo muito em voga na época: um estojo com soldadinhos de chumbo.  Antigamente muitos brinquedos eram fabricados com chumbo e amianto, materiais que anos depois foram considerados impróprios para tais usos, por serem nocivos à saúde. No lugar de chumbo e amianto  surgiram os brinquedos de plástico, ou no linguajar de então: brinquedos de matéria plástica.

Imagem do "Blog Minha Terra é Sergipe" de Armando Maynard


A Livraria Regina era o ponto de encontro dos intelectuais. Além do comércio de livros, ali também funcionava uma editora. Na oficina gráfica daquela livraria foram editadas, em 1967, as primeiras edições dos livros escritos por meu pai: “Brefáias e Burundangas do Folclore Sergipano” e “Simão Dias – Fragmentos de sua História”.  

 

Foto obtido no blog de Armando Maynard (Acervo de Indianara Melo Mota)



O “Ponto Chic”, ficava em frente ao oitão da Igreja São Salvador, e na esquina com a Rua Laranjeiras, no prédio que atualmente funciona a Delegacia Regional do Trabalho. Era um salão com muitas mesas e cadeiras, onde eram servidos café, sorvete e lanches; o local preferido por políticos,  intelectuais, artistas e estudantes da época.  Lembro-me da presença constante do pintor J. Inácio naquele local; foi ele que desenhou o rosto de meu pai, Carvalho Déda, e de meu irmão,  Artur Oscar. O pintor J. Inácio, ao traçar a caricatura de Artur, evidenciou ironicamente o “pomo-de-Adão”. Meu pai, ao ver o desenho, brincou com meu irmão, que cursava o quarto ano do curso de Direito,  escrevendo  ao lado o poema repentista:

“Na cara desse sujeito,
Vejo um mundo de Direito.
Na testa bem abaulada  
Reside toda a ciência,
Doutrina, jurisprudência:
Burrice pura e mais nada”
 
“Vejo no pau do nariz
A expressão bem feliz
De um aluno mediano,
Que graças a um estalo
No juízo de Gonçalo
Conquistou o quarto ano.”
 
“Bem no alto da gravata,
A natureza ingrata,
Por erro crasso ou preguiça.
Fez do gogó um umbigo
E depois disse consigo:
- É a borla da Justiça.”

 

foto do local onde funcionou o Ponto Chic (blog do Armando Maynard)

Também no final dos anos 50, quando eu e alguns colegas de Simão Dias iniciamos nossos estudos aqui em Aracaju, fomos tomar sorvete no Ponto Chic. Não é demais dizer que para nós, estudantes interioranos, foi um memorável acontecimento que ocupou nossos comentários durante a semana. Nessas conversas alegres eu falei, em tom de brincadeira, que enquanto escolhíamos sorvetes, um colega pediu um bolachão e uma cocada, lembrando de nossas preferências no torrão natal. O amigo não gostou do chiste, achou que eu o teria constrangido. Resultado: sem aceitar minha explicação de que não tive intenção de ofendê-lo, o colega ficou muito tempo sem falar comigo. Fiquei triste, vez que a simples lembrança dos petiscos de nossa terra -  o bolachão da Padaria Seu Oscar Rocha e a cocada de Dona Maria Itabaiana -  ainda hoje me deixa com água na boca. 

Outra lembrança daquela rua, foi uma confusão envolvendo um  deputado do interior,  conhecido como  Militão. Aconteceu uma discursão forte entre o referido deputado e um guarda de trânsito. Quase entram em agressões físicas. Para afrontar o guarda, o deputado estacionou sua camioneta em frente ao Ponto Chic, travando o trânsito. Foi uma confusão danada, até revólver diziam que apareceu. Ao saber disso,  saí do tumulto apavorado, apelando para “as pernas para que te quero”. Até hoje não sei o que  realmente aconteceu no final daquela briga.

A “Esquina da Economia”, era uma loja de calçados pertencente ao meu tio Paulo Déda. Ali ele vendia produtos finos, do sul do país, e também os de sua fábrica de calçados,  denominada “Sidon”. Os balconistas da sapataria, para dar melhor impressão aos clientes, pronunciavam  o nome da  marca de forma charmosa, como se fosse uma palavra inglesa e afirmavam com seriedade: - "Estes são os famosos  calçados da indústria Sáidon".

Propaganda da  Esquina da Economia


Do Hotel Marozzi, recordo-me que ali ficou hospedado o time do Flamengo. O atleta mais procurado para pedidos de autógrafos era o baixinho chamado Babá, que jogava na ponta-esquerda e não obstante sua baixa estatura (1,54m) era um craque goleador. Naquela época eu já torcia pelo Mengo, e não perdi a oportunidade: também colhi um autógrafo de craque baixinho. 

Panfleto do Hotel Marozzi (Imagem da Internet -Google)


O Cine Teatro Rio Branco me lembra um fato engraçado. Houve um tempo que aquele cinema exibia filmes pornôs e era frequentado por estudantes, a maioria do Colégio Atheneu. Certa tarde, um conhecido professor, talvez por engano, estava tranquilamente assistindo a um filme de safadeza. Um estudante gaiato reconheceu o professor e gritou: - "Olha quem está ali, com sua careca reluzente”, e citava o nome do professor. A estudantada fez ecoar a zombaria, gritando o nome do professor que, desconfiado e  segurando sua pastinha, sorrateiramente se picou do cinema, ouvindo a molecada apupar: "-Baixinho, careca e gosta de ver sacanagem!"

Nas noites dos dias de domingo, as lojas abriam as portas para mostrarem em suas vitrines os artigos para venda. A rua era bem frequentada, as pessoas gostavam de visitar as lojas  para ver as novidades e depois iam ao Cinema Palace.  O point dos jovens era nos jardins da praça Fausto Cardoso. Bons tempos!

Cine Palace (imagem do Blog :"Minha Terra é Sergipe de Armando Maynard)


Também naquela artéria, aconteceu outro fato memorável.  Ali era permitido o movimento de automóveis. O número maior era  dos carros da Volkswagen, os fusquinhas. Lembro-me de um causo que aconteceu com o Prof. Barretão, um  cientista sergipano que era conhecido por seu modo sincero, muito positivo, ao lidar com as pessoas. Em uma tarde de domingo, ele trafegava com seu fusca pela Rua João Pessoa e tinha pressa, porque iria atender uma paciente que precisava, com urgência, realizar exames de saúde. Aproximando-se da esquina da rua, notou em sua frente  outro carro dirigido por um jovem, que sem pressa, quase parando, acenava para  garotas que estavam na fila do Cine Palace. O Professor Barretão buzinou, pedindo pressa, mas o moço não atendeu; pelo contrário, colocou o braço pra fora do carro, indicando que passasse por cima. O professor, olhou bem para o atrevido, coçou seu vasto bigode, encostou o para-choque de seu fusca no carro do playboy e acelerou. Foi um ranger de pneus, com muita fumaça e barulho. O fusca amarelo do professor empurrou o carrinho do maçante garoto que foi ridiculamente arrastado  sob os apupos das pessoas que estavam na fila do cinema. E o playboy aprendeu a não caçoar de quem não conhece.

Essas são ligeiras lembranças do meu tempo de estudante na acolhedora Aracaju.


Aracaju, 29/01/2026

Beto Déda


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025


FELIZ NATAL! E que boas recordações abram teu sorriso...

 

Ao comemorarmos o dia do nascimento do Menino Jesus, desejamos Feliz Natal para todos, e que esteja presente, no semblante de cada um, a expressão de alegria, tal qual era a marca registrada do sorriso constante de um garoto simãodiense que vendia pipoca nos velhos tempos, o que lhe valeu um merecido apelido: “SORRINDO”.

Beto Déda com o uniforme de Papai Noel 

Então, desejo que a alegria de “Sorrindo” não falte no seu rosto, especialmente dos conterrâneos dos velhos tempos, para quem apresento, como estímulo, as lembranças gratas dos dias de festas natalinas na Avenida Coronel Loyola, em Simão Dias. 

Deste modo, repetindo como faço todos os anos, aqui relembro como comemorávamos o dia 24 de dezembro na citada avenida, conhecida como a antiga "Rua da Feira" de nossa terra:

a) Na avenida, dois bazares (cercadinhos expondo brinquedos e quinquilharias que seriam rifados) se destacavam: um, de Seu Cícero Guerra, e outro, das irmãs Lélia & Inês Carvalho. No cercadinho de Seu Cícero estavam as garotas Elza e Alaíde vendendo bilhetes, que seriam sorteados em uma roleta ornada com um boneco parecendo um Papai Noel anão. No Bazar de Lélia e Inês, o sorteio era realizado com a ajuda de um coelho que era solto depois da venda dos bilhetes e procurava abrigo em uma das casinhas numeradas no meio do bazar.                                                                                                                                                                                            

b) Para a alegria da garotada, lá estavam o carrossel, que chamávamos de “cavalinhos” de Seu Messias; os barcos (tipo de balanço em forma de barco) de Seu Polito; a “onda” e o grande balanço de Seu Raimundo. A meninada gritava pra valer de alegria;                                                                                                                    

c) Também tinha a hora de degustar a delícia das guloseimas: o saboroso pratinho de “arroz de galinha”; os confeitos de castanha, envoltos em papéis coloridos na forma de mini sombrinhas e barcos; as amorosas de Zé Pretinho e do Mudo do Areal. Ainda hoje nos faz salivar;                                                                                                                         

d) Para os adultos, estavam expostas as roletas enfeitadas de Seu Bia e Pedro Mendes; as mesas de "barrufo", e os jogos de dados e de baralho. Da "sabedoria" de muitos apreciadores de jogos, o pessoal costumava fazer piadas incríveis;                                                                                                                                                                                                                              

e) Inesquecível mesmo era: o odor dos fifós acessos com carbureto e, também, o cheiro das maçãs-do-amor; e tudo era misturado com o som das sanfonas e pandeiros que ficavam longe e perto, seguindo o vento e o rodar da "onda" e dos "cavalinhos".


Tudo isso nos provoca a alegre saudade de um Natal de criança.

Naqueles dias, na rua da feira, os conterrâneos se divertiam e interagiam até o amanhecer, com um único intervalo: à meia-noite a multidão se dirigia à Igreja Matriz para participar da Missa do Galo. Mas depois, a diversão na avenida prosseguia até o raiar do sol. 

Estas são lembranças inesquecíveis do dia de Natal na minha cidade, quando éramos garotos, ali a simplicidade era o comum, não tínhamos televisão, computador e nem celular e a comunicação e o sorriso eram coisas normais, que estreitavam os laços de amizades.

É desse modo que me alegro ao comemorar o Natal e, pensando nos amigos e amigas da época, transmito essas lembranças para que revivam alegremente aquele tempo.

Vale lembrar e alegrar, copiando o semblante do amigo conterrâneo, vendedor de pipocas que sorria o tempo todo.

Feliz Natal caros amigos e, especialmente, aquele abraço para o velho simãodiense apelidado de “Sorrindo”.

Aracaju, 24|12|2025

Beto Déda

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

 

Uma data inesquecível, uma crônica sobre uma anedota e golpe de estado.

 

O dia primeiro de dezembro tem um significado importante para nossa família: trata-se da data que comemoramos o nascimento do meu saudoso pai, José de Carvalho Déda. Ele nasceu em 1º de dezembro de 1898.

Neste fim de semana, lembrei-me mais uma vez de meu pai, ao ler, como sempre o faço, as crônicas escritas pelo cearense José Nilton Fernandes, que rememora fatos do seu tempo de criança na cidade de Aracati (CE). E a lembrança aconteceu porque o José Nilton tem o hábito de escrever fazendo comparações, e o faz com maestria.

Carvalho Déda dizia que o nordestino conversa fazendo comparações, de modo a ser melhor compreendido. Como folclorista, registrou um mundão de comparações em seu livro "Brefáias e Burundangas do Folclore Sergipano". Hoje, para comemorar o dia do seu nascimento, transcrevo um interessante artigo que ele escreveu em 1954, no qual faz uma pertinente comparação entre os acontecimentos políticos daquela época e a anedota do "Burro Carregado de Panelas".



Antes de mostrar o texto, é bom esclarecer que, naquele ano, nosso Brasil passava por uma grave crise política, gerando temerosa desconfiança, diante da possibilidade de um golpe militar, especialmente pela publicação do “Manifesto dos Coronéis”, um ato de insubordinação de militares contra o Presidente Getúlio Vargas, e que, na sequência de outros acontecimentos políticos, teve como consequência, ainda naquele ano, a deposição e o suicídio do Presidente Getúlio.  

Carvalho Déda escreveu o texto diante de uma declaração do General Góis Monteiro sobre a facilidade de golpe no Brasil. Como bom nordestino e estudioso do folclore fez uma interessante comparação.

Transcrevo o artigo:

      

“UM BURRO CARREGADO DE PANELAS

Escreveu Carvalho Déda *

Nós, sertanejos sergipanos, temos o hábito de conversar fazendo comparações. As conversas e os comentários, por mais importantes que sejam, têm melhor sabor quando temperados assim.

Se compararmos o Brasil atual como aquele burro da anedota, não vejam nisso nenhuma falta de patriotismo. São coisas de sertanejo, e o costume do cachimbo deixa a boca torta...

Eu não tenho aquele “jeitão” de contar anedotas, contudo vou tentar aquela do burro carregado de panelas, a propósito da situação atual: Conta-se que um ingênuo matuto conduzia um burro carregado de frágeis panelas de barro, quando, à certa altura, surgiu um gaiato que fingindo segredar algo na orelha da alimária e, sem que o dono percebesse, jogou a ponta do cigarro dentro da ouça do burro infeliz, que por sinal nunca em sua vida dera um coice. Aconteceu que, com o fogo na broca do ouvido, o manso animal virou o diabo: pulou, pinoteou, escouceou, atirou fora as panelas em cacarecos e “picou-se” no mundo desenfreadamente. O matuto queria uma explicação e perguntou ao gaiato: - Que diabo foi que você disse a meu burro? E o outro: - Disse-lhe apenas que a mãe dele havia morrido! E o camponês, exaltado: - Homem, isto é coisa que se diga a um burro carregado de panelas?!...

A historieta vem a propósito do recente depoimento do General Góis Monteiro, testemunha na ação de ressarcimento de danos proposta pela família do saudoso político paulista Dr. Armando de Sales Oliveira contra a União. Entre outras coisas, disse o General Góis: - “É facílimo dar um golpe no Brasil. Para se dar um golpe, basta o seguinte: um clima especial, um ministro político, o Ministro da Guerra aderir juntamente com o Chefe de Polícia, e, finalmente, um País desmoralizado...”

É o caso de perguntarmos, sertaneja e sergipanamente falando: - General, isto é coisa que se diga a um burro carregado de panelas?!..”   

*Texto escrito por Carvalho Déda, sob o pseudônimo Pakézo, publicado no jornal A Semana, edição de 20/02/1954.

 ...       

Ao reler esta antiga crônica, e cotejando com acontecimentos recentes, ficamos a pensar que alguns militares e políticos da atualidade ainda acreditavam na facilidade de dar um golpe. Não esperavam que confrontariam com pessoas que respeitam e lutam em defesa de princípios constitucionais. Os golpistas planejaram tudo e iniciaram os movimentos para impor uma ditadura aos brasileiros. Felizmente houve reação, o plano e os criminosos foram enfrentados, derrotados, condenados e já estão vendo o sol quadrado.

Hoje, essa anedota seria contada em um pitoresco texto, com título: “Um burro carregado de golpistas”. No qual se narraria que o animal, atormentado com o fogo na broca do ouvido, picou-se, desenfreadamente, pinoteando e trancafiando os golpistas nas celas da Papuda.  E finalizaria com a indagação:

 “Isto é coisa que se diga a um burro carregado de golpistas”.

 Aracaju, 01/12/2025

BETO DÉDA




sexta-feira, 28 de novembro de 2025

 

       Visitando ilustres historiadores.

 

Ontem, 27/11/2025, eu e as queridas amigas Amanda Santos e Cândida Oliveira tivemos a alegria de visitarmos o renomado historiador Ibarê Dantas e sua esposa Beatriz Góis Dantas, que é antropóloga e também ilustre escritora, ambos eméritos professores da Universidade Federal de Sergipe.



A visita foi programada pela conterrânea historiadora Amanda Santos e teve como objetivo colhermos autógrafos em livros publicados pelo casal de escritores.

Na ocasião, tivemos a alegria de colher o autógrafo do Prof. Ibarê em seu recém lançado livro “Florentino Telles de Menezes –Pensamento e Ação”; e a assinatura da Professora Beatriz em seu livro “Povos Indígenas em Sergipe- Contribuição à sua História”.




Foi uma tarde agradabilíssima, de muita conversa proveitosa, quando recebemos ensinamentos do admirável par de literatos sergipanos.

Ficamos imensamente agradecidos pela cortesia do gentil casal.

A professora Cândida Oliveira registrou o acontecimento em fotos que apresentamos acima.

 

Aracaju, 28/11/2025

BETO DÉDA

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

 Lágrimas, saudade e a promessa tardia....

Com pesar, tenho uma notícia triste para os parentes e amigos: a segunda-feira, dia 20 de outubro, foi um dia de lágrimas e de saudade para nossa família. O querido sobrinho Dílson Déda de Aquino passou dessa para a vida eterna. Ele tinha 57 anos de idade, era filho de minha irmã Helena Déda Aquino e do falecido esposo Valdenor Aquino.

O meu sobrinho estava hospitalizado há quinze dias e não conseguiu resistir a uma parada cardíaca fulminante.

Lembro-me, agora, do último encontro com ele, há poucos meses, na casa de minha irmã.
Eu e Dílson, em foto deste ano (acervo da sobrinha/neta Clara Déda).

Em uma boa conversa, relembrávamos fatos passados, dentre os quais uma festa religiosa que ocorreu em de 1974, na cidade de Paripiranga (BA), sua terra natal, quando ele era garoto. Sempre gostei de fotografias e registrei o saudoso sobrinho naquele dia, brincando alegremente com os primos na praça da Matriz de Paripiranga. Ele se interessou por essa informação e me pediu uma cópia da fotografia. Infelizmente esqueci de atendê-lo no tempo certo. Nestes dias de saudade, lembrei-me do pedido e passei a procurar a prometida foto em meus implacáveis arquivos. E para aliviar minha falha, consegui encontrá-la. Lamentando profundamente por ele não ter recebido a foto, reproduzo aqui para lembrança da família e dos amigos.





Nesta foto de 1974, Dilson é o mais alto, com os primos: Socorrinho e Betinho(Acervo Beto Déda)

No domingo passado, dia 26/10/2025, na Igreja Matriz de Nossa Senhora Sant’Ana, em Simão Dias, foi celebrada a missa de sétimo dia. Certamente ele foi acolhido com abraços pelos parentes que já estão no outro patamar da vida.

Segure na mão de Deus, meu querido sobrinho, e receba bênçãos...

Aracaju, 26/10/2025
Beto Déda

terça-feira, 2 de setembro de 2025

 

Um poeta amigo e um poema ao  Sol e  à Lua


Do meu amigo Paulo Rodrigues Alves recebi um poema bonito que ele escreveu recentemente sobre o amor entre o Sol e a Lua. O estimado Paulo é um companheiro que conheço há muito tempo, desde quando éramos jovens trabalhadores do Banco do Nordeste, nas cidades de Simão Dias e Aracaju.

Ele sempre foi um admirável poeta e, como tal, um sonhador que sabe escolher palavras e rimas para expressar seu sentimento. Nascido na cidade sergipana de Cedro de São João, sempre ligado à nossa cultura, é um imortal que honra a Academia Cedrense de Letras. Também faz parte de um movimento de apoio cultural da Academia Sergipana de Letras.

Em fevereiro de 2024, tive a felicidade de presenciar o lançamento do seu livro “Tendas de Minh’Alma”, uma pérola de poesias, que nos encantaram pelo esmero em selecionar cada tema que espraiava seus versos. Aqui no meu blog, em 19/02/2024, fiz comentários sobre aquele repertório de poesias.

Agora, ele usa sua verve poética e nos brinda com a beleza de um poema sobre o amor irradiante entre a Lua e o Sol, numa magia que nos faz lembrar o sentido do amor platônico: um amor distante, espiritual e quase impossível. Mesmo assim,   os amantes tiveram a rara felicidade concebida pelo Pai Celestial, ao lhes reservar no firmamento um instante de união, na passagem de um fenomenal eclipse.

Para conhecimento dos amigos e parentes, transcrevo aqui, com autorização o autor, o maravilhoso poema:


        O Sol e a Lua

                Poema de Paulo Rodrigues 



E palmas para o admirável poeta… 


Aracaju, 01/09/2025

Beto Déda






terça-feira, 26 de agosto de 2025

 

Uma visita agradável



Na manhã de sexta-feira passada, 22/08/2025, tive a alegria de receber em minha casa a visita da querida Prof.ª Amanda Santos, doutoranda em História na UFBA, acompanhada do pesquisador João Paulo. Ambos estão realizando um estudo sobre a cultura popular em Simão Dias: as Zabumbas, os Reisados e os Sambas de Roda. 

Histórica visita: Doutoranda Amanda entre João Paulo e Beto Déda


Não é pouco dizer a felicidade que tive em notar que aqueles jovens estão tentando resgatar a história de fatos folclóricos de nossa terra. E mais ainda, por me darem a honra de prestar-lhes algumas informações sobre lembranças de minha infância na Praça de São João, onde, com muita curiosidade, observava os acontecimentos e guardava em minha memória.

Aproveitei, ao máximo, o interesse dos pesquisadores e conversei das 8:30 às 12:30 horas, relembrando fatos da minha terra. De tanto conversar, acredito que tenham pensado que eu tinha "bebido água de chocalho" (termo popular que antigamente se utilizava para as pessoas que conversavam demais). 

Com os simpáticos entrevistadores, comentei sobre a Zabumba do Mestre Terto Mangueira, que percorria os bairros da cidade e acompanhava as procissões religiosas no interior do município. Zabumba era a denominação que se dava a um grupo musical em que constava de um bumbo, tocado pelo Mestre Terto Mangueira, uma gaita (flauta feita com tubo de bambu) soprada pelo baixinho Dicuri, e um triângulo, cuja batida era do galego Timbira. Nos dias de hoje, tais grupos musicais são denominadas “Bandas de Pífaros”. Mas, na linguagem popular do simãodiense, o nome era Zabumba, e a gaita de bambu é o que chamam de pífaro. Como eram muito usadas, especialmente pela meninada, inclusive eu, as gaitas eram expostas para venda na feira livre nos dias de sábado. Mas o nome era gaita, nada de pífaro, que era mais difícil de pronunciar…

Na entrevista, lembrei do tempo em que me divertia observando a apresentação de reisados no interior. Minhas lembranças são das apresentações realizadas nas noite de sábado, no povoado Areal, em frente ao armazém de Seu Antônio de Silva, pai Leninha que desde aquela época era minha namorada. O grupo do reisado era formado por jovens e adultos, com roupas e chapéus coloridos, enfeitados com fitas de papel de variadas cores. Além das moças, compunham o grupo os seguintes personagens: a “besta-fera”, o “boi-janeiro” e o “caboclo”, este era a figura principal do reisado. Inicialmente apresentavam as danças, ao som de zabumba, depois começava a luta em que a “besta-fera” matava o “boi-janeiro”. E ao final do grande espetáculo, o caboclo realiza a partilha do boi, em um formidável e divertido canto rimado. Lembro de alguns desses rimas, pronunciados com graça pelo caboclo, intercalando cada verso, após ouvir o coro se pronunciar: “Iaiá, ô Iaiá, Óia o boi que te dá!”:

“O mocotó, é pra quem dorme só…

O lugar das ‘vergonha’, é pra dona Totonha…

O redém, eu não dou a ninguém...

A rabada, é da rapaziada…

A tripa mais fina, é pra estas meninas…

A tripa gaiteira, é das muié solteira...

Tudo era divertimento, com muitos aplausos para cada verso e alguns apontavam para alguém da plateia, como se fosse a beneficiária de determinada parte do boi. E a pessoa aceitava alegremente a brincadeira em estrondosa gargalhada. A diversão encantava a todos.

Também conversei sobre as comemorações do carnaval, das festas  de largo, em comemoração ao Natal e ao Ano Novo. Entre outros fatos lembrei das festas juninas, dos cortejos de casamento na roça e,  também, no mês de junho, a “Festa do boi”, organizada por Seu Jove da Marinete, que ganhava um boi bravo de um fazendeiro e, ele junto com uma turma de jovens, ia buscar na fazenda do doador. Era uma correria pelas ruas da cidade, com ligeira e tosca semelhança à corrida de touros na Espanha. A rês era abatida e a carne era servida em churrasco, à noite, na casa de Seu Jove, na Praça Jackson Figueredo, com muita música e dança.

Não deixei de mencionar os populares blocos carnavalescos, liderados por Negão, engraxate, Domingos Bina e Jerônimo, bem como as máscaras de carnaval feitas com papel jornal colados em modelos que fazíamos com argila recolhida no Tanque Novo.

De ver-se que naquela época se dava valor à tradição cultural da terra. E lembrei que nossa cidade teve a grandeza de contar com a colaboração de pessoas que incentivavam e ensinavam a juventude a manter as tradições locais, no que diz respeito ao teatro amador, aos folguedos juninos e ao gosto pela música. E faço aqui minha homenagem a simãodienses ilustres, do meu tempo e que me recordo agora: D. Carmem Dantas, D. Clarita Santana, Prof.ª Olda do Prado Dantas, Seu Zeca Laranjeiras, Jerônimo Santa Bárbara e Mestre Raimundo Macedo.

Com tantas recordações que tenho, o tempo não foi suficiente para narrar o que guardo dos acontecimentos folclóricos de minha terra. Mas aproveitei muito a oportunidade e fiquei feliz ao conversar com esses desbravadores da história contemporânea.

Depois de tudo, na hora do almoço, Leninha e Rosa Luxemburgo, não pestanejaram em perguntar aos moços: “Como aguentaram tantas horas de conversas? Seu Beto conversa pelos cotovelos, parece uma matraca”. E eu, com meus botões, replicava: -Ora, pois...

Espero que minha longa e por vezes dispersa conversa não tenha esgotado a paciência dos pesquisadores e, se paciência ainda tiverem, aguardo que voltem para novas lembranças e consultas aos meus desorganizados e implacáveis arquivos.


Aracaju, 25/08/2025

Beto Déda