Recordações da Rua João Pessoa.
Nos anos 50 e 60 do século passado, o centro comercial de Aracaju se concentrava na Rua João Pessoa. Ali estavam as principais lojas,
livrarias, cinemas e casas de lanches de nossa capital.
Lembro-me de algumas: “A Loja 4 e 400”, a "Livraria Regina", a "Joalheria Safira", "A Moda" (no Edifício
Mayara), "A Esquina da Economia", a "Loja P. Franco e Cia", a "Lanchonete Nossa
Senhora do Socorro", o "Ponto Chic”, o Hotel Marozzi, e os cinemas Palace e Rio Branco. O nome destas casas comerciais estão preservadas em minha memória em consequência de fatos que presenciei quando era garoto.
A “Loja 4 e 400” era o nome popular das Lojas Brasileiras, que foi, se não me engano, a primeira loja de departamentos em nossa capital. Lembro-me que foi lá que, certa vez, meu pai me presentou com um brinquedo muito em voga na época: um estojo com soldadinhos de chumbo. Antigamente muitos brinquedos eram fabricados com chumbo e amianto, materiais que anos depois foram considerados impróprios para tais usos, por serem nocivos à saúde. No lugar de chumbo e amianto surgiram os brinquedos de plástico, ou no linguajar de então: brinquedos de matéria plástica.
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| Imagem do "Blog Minha Terra é Sergipe" de Armando Maynard |
A Livraria Regina era o ponto de encontro dos intelectuais. Além do comércio de livros, ali também funcionava uma editora. Na oficina gráfica daquela livraria foram editadas, em 1967, as primeiras edições dos livros escritos por meu pai: “Brefáias e Burundangas do Folclore Sergipano” e “Simão Dias – Fragmentos de sua História”.
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| Foto obtido no blog de Armando Maynard (Acervo de Indianara Melo Mota) |
O “Ponto Chic”, ficava em frente ao oitão da Igreja São Salvador, e na esquina com a Rua Laranjeiras, no prédio que atualmente funciona a Delegacia Regional do Trabalho. Era um salão com muitas
mesas e cadeiras, onde eram servidos café, sorvete e lanches; o local preferido por políticos, intelectuais, artistas e estudantes da época. Lembro-me da presença constante do pintor J. Inácio naquele local; foi ele que desenhou o rosto de meu
pai, Carvalho Déda, e de meu irmão,
Artur Oscar. O pintor J. Inácio, ao traçar a caricatura de Artur, evidenciou ironicamente o
“pomo-de-Adão”. Meu pai, ao ver o desenho, brincou com meu irmão, que cursava o quarto ano do curso de Direito, escrevendo ao lado o poema repentista:
Vejo um mundo de Direito.
Na testa bem abaulada
Reside toda a ciência,
Doutrina, jurisprudência:
Burrice pura e mais nada”
A expressão bem feliz
De um aluno mediano,
Que graças a um estalo
No juízo de Gonçalo
Conquistou o quarto ano.”
A natureza ingrata,
Por erro crasso ou preguiça.
Fez do gogó um umbigo
E depois disse consigo:
- É a borla da Justiça.”
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| foto do local onde funcionou o Ponto Chic (blog do Armando Maynard) |
Também no final dos anos
50, quando eu e alguns colegas de Simão Dias iniciamos nossos estudos aqui em
Aracaju, fomos tomar sorvete no Ponto Chic. Não é demais dizer que
para nós, estudantes interioranos, foi um memorável acontecimento que ocupou
nossos comentários durante a semana. Nessas conversas alegres eu falei, em tom
de brincadeira, que enquanto escolhíamos sorvetes, um colega pediu um bolachão e
uma cocada, lembrando de nossas preferências no torrão natal. O amigo não
gostou do chiste, achou que eu o teria constrangido. Resultado: sem aceitar
minha explicação de que não tive intenção de ofendê-lo, o colega ficou muito tempo sem falar comigo. Fiquei triste, vez que a simples lembrança dos petiscos de nossa terra - o bolachão da Padaria Seu Oscar Rocha e a cocada de Dona Maria Itabaiana - ainda hoje me deixa com água na boca.
Outra lembrança daquela rua, foi uma confusão envolvendo um deputado do interior, conhecido como Militão. Aconteceu uma discursão forte entre o referido deputado e um guarda de trânsito. Quase entram em agressões físicas. Para afrontar o guarda, o deputado estacionou sua camioneta em frente ao Ponto Chic, travando o trânsito. Foi uma confusão danada, até revólver diziam que apareceu. Ao saber disso, saí do tumulto apavorado, apelando para “as pernas para que te quero”. Até hoje não sei o que realmente aconteceu no final daquela briga.
A “Esquina da Economia”,
era uma loja de calçados pertencente ao meu tio Paulo Déda. Ali ele vendia
produtos finos, do sul do país, e também os de sua fábrica de calçados, denominada “Sidon”. Os balconistas da sapataria, para dar melhor impressão aos clientes, pronunciavam o nome da marca de forma charmosa, como se fosse uma palavra inglesa e afirmavam com seriedade: - "Estes são os famosos calçados da indústria Sáidon".
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| Propaganda da Esquina da Economia |
Do Hotel Marozzi, recordo-me
que ali ficou hospedado o time do Flamengo. O atleta mais procurado para pedidos de autógrafos era o baixinho chamado Babá, que jogava na ponta-esquerda
e não obstante sua baixa estatura (1,54m) era um craque goleador. Naquela época eu já torcia pelo Mengo, e não perdi a oportunidade: também colhi um autógrafo de craque baixinho.
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| Panfleto do Hotel Marozzi (Imagem da Internet -Google) |
O Cine Teatro Rio Branco
me lembra um fato engraçado. Houve um tempo que aquele cinema exibia filmes
pornôs e era frequentado por estudantes, a maioria do Colégio Atheneu. Certa
tarde, um conhecido professor, talvez por engano, estava tranquilamente assistindo
a um filme de safadeza. Um estudante gaiato reconheceu o professor e gritou: - "Olha
quem está ali, com sua careca reluzente”, e citava o nome do professor. A estudantada fez ecoar a zombaria, gritando o nome do professor que, desconfiado e segurando sua
pastinha, sorrateiramente se picou do cinema, ouvindo a molecada apupar: "-Baixinho, careca e gosta de ver sacanagem!"
Nas noites dos dias de domingo, as lojas abriam as portas para mostrarem em suas vitrines os artigos para venda. A rua era bem frequentada, as pessoas gostavam de visitar as lojas para ver as novidades e depois iam ao Cinema Palace. O point dos jovens era nos jardins da praça Fausto Cardoso. Bons tempos!
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| Cine Palace (imagem do Blog :"Minha Terra é Sergipe de Armando Maynard) |
Também naquela artéria, aconteceu outro fato memorável. Ali era permitido o movimento de automóveis. O número maior era dos carros da Volkswagen, os fusquinhas. Lembro-me de um causo que aconteceu com o Prof. Barretão, um cientista sergipano que era conhecido por seu modo sincero, muito positivo, ao lidar com as pessoas. Em uma tarde de domingo, ele trafegava com seu fusca pela Rua João Pessoa e tinha pressa, porque iria atender uma paciente que precisava, com urgência, realizar exames de saúde. Aproximando-se da esquina da rua, notou em sua frente outro carro dirigido por um jovem, que sem pressa, quase parando, acenava para garotas que estavam na fila do Cine Palace. O Professor Barretão buzinou, pedindo pressa, mas o moço não atendeu; pelo contrário, colocou o braço pra fora do carro, indicando que passasse por cima. O professor, olhou bem para o atrevido, coçou seu vasto bigode, encostou o para-choque de seu fusca no carro do playboy e acelerou. Foi um ranger de pneus, com muita fumaça e barulho. O fusca amarelo do professor empurrou o carrinho do maçante garoto que foi ridiculamente arrastado sob os apupos das pessoas que estavam na fila do cinema. E o playboy aprendeu a não caçoar de quem não conhece.
Essas são ligeiras lembranças do meu tempo de estudante na acolhedora Aracaju.
Aracaju,
29/01/2026
Beto
Déda














