A despedida de solteiro e uma lição inesquecível.
Ao ver algumas postagens recentes em que amigas mostravam
fotos brindando taças com vinhos, lembrei-me de um fato ocorrido há mais de 60
anos, no Bar de Valério, em Simão Dias. Naquela época o Bar funcionava anexo ao
prédio do Cine Brasil e, como a cidade ainda não contava com a energia de Paulo
Afonso, o cinema tinha um motor próprio. E o Bar também usava a energia do cinema.
Depois das seções cinematográficas, o motor era desligado, e Valério passava a
usar os candeeiros à querosene, de modo a continuar atendendo a
clientela.
Semanalmente, nas noites de sábado, depois do
horário do cinema, aquele bar era o ponto de reunião de jovens para um bom papo
e se tomar alguns drinques.
Pois bem, as fotos das conterrâneas fazendo brindes
foi o gatilho para ativar minhas lembranças para uma inesquecível reunião que
ocorreu no Bar de Valério no último sábado do mês de janeiro de 1963. Aquele
encontro tinha um sentido especial: era
a comemoração da despedida de solteiros. Estavam em vésperas de casamento
quatro companheiros de boemia: Brício Carvalho, apelidado de "o velho
mó", Max Neto, o "boêmio culto", o primo Zé Carlos, "o
esquisito", e Dr. Gildo Matos, que era chamado de "marajá".
Para testemunhar a despedida, entre outros, lembro-me
agora que lá estávamos: eu, Eraldo Guerra e Gildo Fraga, todos sob a
supervisão de Seu Valério, que cuidava para que nada nos faltasse.
Foi uma noite de boa conversa, muita alegria e os brindes
que se repetiam a cada lembrança. E para não fugir do costume, sem pedantismo e
com naturalidade, também eram abordados temas culturais e citações de pensamentos
de Karl Marx, Jean-Paul Sartre, Shakespeare e de Vinicius de Morais (boas
leituras era o divertimento da época). No decorrer da despedida, com tanta
alegria e o evidente barulho dos brindes, as horas se passaram céleres e, ao se
aproximar da meia-noite, o compreensivo Valério sugeria o encerramento, fechando o bar, cujas portas já estavam meio derreadas. E a turma cambaleante se despediu na frente do
bar, sem algazarra, para não perturbar os moradores da vizinhança, seguindo o conselho
do Valério.
Na semana seguinte, escrevi um texto sobre o
acontecimento, com o título “Despedida de Boêmios” para ser publicado no jornal
“A Semana”, editado por meu pai.
Realmente o texto foi publicado na quarta página do
referido jornal, edição de 02/02/1963.
Pela manhã daquele dia, quando entrei na redação do
jornal, meu pai me chamou para perto de sua mesa de trabalho e, apontando para
o artigo, disse-me em tom cordial: "Ontem, ao ler seu antigo, notei que
você faz uma indevida apologia à bebida alcóolica. E isso não é bom" (meu pai era advogado, daí a sua preocupação e usar o termo jurídico "apologia", previsto no artigo 287 do Código Penal). Em seguida, aproveitou a oportunidade para uma ligeira sugestão, afirmando: "Rapaz, você
é jovem e deve ter cuidado ao escrever, evitando defender e propagar o uso de bebidas, especialmente esse tal de Whisky, que o Max Neto apelida de Viscky...”.
Olhei para meu pai, levantei os ombros, e com a
cara de gaiato, repliquei: “E agora, já está publicado. Fazer o quê?” Então ele disse:
“Nada a fazer! Li o texto e não censurei; permiti a publicação”. E balançando a
cabeça, sem esconder seu inesquecível sorriso, concluiu o conselho: “Mas,
doravante, seria bom evitar!”.
Sem autoritarismo, de modo elegante e didático, com
uma só cajadada meu mestre matou dois coelhos, ou seja, me passou duas importantes lições: a) sugeriu não fazer apologia à
bebida alcóolica; b) mesmo discordando de parte do que escrevi, não usou a
censura para inviabilizar a publicação. Para ele, deixar de publicar o artigo
seria como tolher meu interesse em escrever para o jornal. Estava absolutamente certo. Uma lição para nunca
esquecer.
É por estas e muitas outras razões que rezo pedindo
graças dos céus para meu saudoso e querido pai, que foi um maravilhoso
mestre e eterno amigo.
E para avivar essa lembrança, posto aqui a cópia do simplório texto que escrevi quando tinha 21 anos de idade. Se tiver um tempinho leia, e sinta com se divertiam jovens simãodienses no início dos anos 60.
Despedida
de Boêmios
Escrito por Beto Déda, em
02/02/1963
Nuvem
de fumaça...
Cigarros
desprendem fumaça que contamina o ambiente.
A luz
lúgubre de um candeeiro ilumina feições variadas e jovens. Algumas denotam amarguras;
outras, tédio; e em muitas, a alegria.
Vários
jovens procuram na mesa de um bar – onde a fumaça dos cigarros e do candeeiro confunde-se com o perfume dos aguardentes e com os sons dos brindes: -Ave César!
– algo que quebre a monotonia do cotidiano.
Ouve-se
o murmúrio de vozes. Nesse ambiente de alegria, onde os jovens se unem ao culto
do grande Baco, discute-se: política, religião, sociedade, zomba-se de
certos jovens misantrópicos e o que é mais comum: comenta-se e elogia-se a BOÊMIA.
No meio
deste murmúrio, um jovem começa a falar, baseado em fontes demasiadamente
seguras, a respeito de “materialismo”. E fala. Todos permanecem à
escuta. E nesse profundo silêncio ouve-se apenas, em tão perfeita eloquência,
as palavras de um boêmio culto. Surgem as perguntas. Imediatamente, com
singular facilidade de raciocínio, desenvolve uma resposta segura, que por meio
de formidáveis exemplos: CONVENCE!...
Quebra-se
o silêncio. Retorna-se o antigo murmúrio.
Agora
surgem os que gostam de poesia. Recita-se versos de amor, de saudade, de alegria.
Alguém recita algo de Vinicius de Moraes; já outro prefere os belos sonetos du
Bocage.
E sem
que ninguém perceba, encerram-se as poesias e iniciam-se novos brindes. E grita-se:
Viscky! Viscky! Surge uma boa gargalhada do boêmio culto. Mas... um bonachão,
com seu tradicional charuto àquelas horas, não concorda com o barulho.
Encerra-se. Segue o murmúrio.
Naquele
lugar, em que se ouvia o riso de uma juventude madura, existia um pouco de
saudade nas feições de cada um. Era a despedida. Ali, a maioria daqueles jovens
se despediam da vida de solteiro. Eles, como nós da “turma” apelidávamos: o
velho, o boêmio culto, o esquisito e o marajá seriam em breves dias pais de
famílias. E naquele momento se despediam da vida de solteiro, da boêmia e
finalmente de nós.
Sim, eles se despediam, de nós, de mim, do guerra e do gilfrá, que continuaríamos a procurar naquele ambiente alegre – onde a fumaça dos cigarros, do candeeiro e do próprio charuto do bonachão confundia-se com o bafo de whisky – uma válvula de escape para fugir do tédio que mata!...
Para vocês, amigos e ex-boêmios,
desejamos uma boa sorte na nova forma de VIVER.
(Texto
de Beto Déda, usando o pseudônimo Berto, publicado no jornal A Semana,
edição de 02/02/1963)
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| Cópia da do jornal "A Semana", com artigo Despedida de Boêmios |
E para finalizar, aqui vai meu agradecimento as
alegres conterrâneas que me despertaram lembranças de minha juventude.
Aracaju, 26/03/2026
Beto Déda
