quinta-feira, 26 de março de 2026

 

A despedida de solteiro e uma lição inesquecível.

 

Ao ver algumas postagens recentes em que amigas mostravam fotos brindando taças com vinhos, lembrei-me de um fato ocorrido há mais de 60 anos, no Bar de Valério, em Simão Dias. Naquela época o Bar funcionava anexo ao prédio do Cine Brasil e, como a cidade ainda não contava com a energia de Paulo Afonso, o cinema tinha um motor próprio.  E o Bar também usava a energia do cinema. Depois das seções cinematográficas, o motor era desligado, e Valério passava a usar os candeeiros à querosene, de modo a continuar atendendo a clientela.   

Semanalmente, nas noites de sábado, depois do horário do cinema, aquele bar era o ponto de reunião de jovens para um bom papo e se tomar alguns drinques.

Pois bem, as fotos das conterrâneas fazendo brindes foi o gatilho para ativar minhas lembranças para uma inesquecível reunião que ocorreu no Bar de Valério no último sábado do mês de janeiro de 1963. Aquele encontro tinha um sentido especial:  era a comemoração da despedida de solteiros. Estavam em vésperas de casamento quatro companheiros de boemia: Brício Carvalho, apelidado de "o velho mó", Max Neto, o "boêmio culto", o primo Zé Carlos, "o esquisito", e Dr. Gildo Matos, que era chamado de "marajá".

Para testemunhar a despedida, entre outros, lembro-me agora que lá estávamos: eu, Eraldo Guerra e Gildo Fraga, todos sob a supervisão de Seu Valério, que cuidava para que nada nos faltasse.

Foi uma noite de boa conversa, muita alegria e os brindes que se repetiam a cada lembrança. E para não fugir do costume, sem pedantismo e com naturalidade, também eram abordados temas culturais e citações de pensamentos de Karl Marx, Jean-Paul Sartre, Shakespeare e de Vinicius de Morais (boas leituras era o divertimento da época). No decorrer da despedida, com tanta alegria e o evidente barulho dos brindes, as horas se passaram céleres e, ao se aproximar da meia-noite, o compreensivo Valério sugeria o encerramento, fechando o bar, cujas portas já estavam meio derreadas.  E a turma cambaleante se despediu na frente do bar, sem algazarra, para não perturbar os moradores da vizinhança, seguindo o conselho do Valério.

Na semana seguinte, escrevi um texto sobre o acontecimento, com o título “Despedida de Boêmios” para ser publicado no jornal “A Semana”, editado por meu pai.

Realmente o texto foi publicado na quarta página do referido jornal, edição de 02/02/1963.

Pela manhã daquele dia, quando entrei na redação do jornal, meu pai me chamou para perto de sua mesa de trabalho e, apontando para o artigo, disse-me em tom cordial: "Ontem, ao ler seu antigo, notei que você faz uma indevida apologia à bebida alcóolica. E isso não é bom" (meu pai era advogado, daí a sua preocupação e usar o termo jurídico "apologia", previsto no artigo 287 do Código Penal). Em seguida, aproveitou a oportunidade para uma ligeira sugestão, afirmando: "Rapaz, você é jovem e deve ter cuidado ao escrever, evitando defender e propagar o uso de bebidas, especialmente esse tal de Whisky, que o Max Neto apelida de Viscky...”. 

Olhei para meu pai, levantei os ombros, e com a cara de gaiato, repliquei: “E agora, já está publicado. Fazer o quê?” Então ele disse: “Nada a fazer! Li o texto e não censurei; permiti a publicação”. E balançando a cabeça, sem esconder seu inesquecível sorriso, concluiu o conselho: “Mas, doravante, seria bom evitar!”. 

Sem autoritarismo, de modo elegante e didático, com uma só cajadada meu mestre matou dois coelhos, ou seja, me passou duas importantes lições: a) sugeriu não fazer apologia à bebida alcóolica; b) mesmo discordando de parte do que escrevi, não usou a censura para inviabilizar a publicação. Para ele, deixar de publicar o artigo seria como tolher meu interesse em escrever para o jornal. Estava absolutamente certo. Uma lição para nunca esquecer.

É por estas e muitas outras razões que rezo pedindo graças dos céus para meu saudoso e querido pai, que foi um maravilhoso mestre e eterno amigo.

E para avivar essa lembrança, posto aqui a cópia do simplório texto que escrevi quando tinha 21 anos de idade. Se tiver um tempinho leia, e sinta com se divertiam jovens simãodienses no início dos anos 60.


Despedida de Boêmios

                      Escrito por Beto Déda, em 02/02/1963

Nuvem de fumaça...

Cigarros desprendem fumaça que contamina o ambiente.

A luz lúgubre de um candeeiro ilumina feições variadas e jovens. Algumas denotam amarguras; outras, tédio; e em muitas, a alegria.

Vários jovens procuram na mesa de um bar – onde a fumaça dos cigarros e do candeeiro confunde-se com o perfume dos aguardentes e com os sons dos brindes: -Ave César! – algo que quebre a monotonia do cotidiano.

Ouve-se o murmúrio de vozes. Nesse ambiente de alegria, onde os jovens se unem ao culto do grande Baco, discute-se: política, religião, sociedade, zomba-se de certos jovens misantrópicos e o que é mais comum: comenta-se e elogia-se a BOÊMIA.

No meio deste murmúrio, um jovem começa a falar, baseado em fontes demasiadamente seguras, a respeito de “materialismo”. E fala. Todos permanecem à escuta. E nesse profundo silêncio ouve-se apenas, em tão perfeita eloquência, as palavras de um boêmio culto. Surgem as perguntas. Imediatamente, com singular facilidade de raciocínio, desenvolve uma resposta segura, que por meio de formidáveis exemplos: CONVENCE!...

Quebra-se o silêncio. Retorna-se o antigo murmúrio.

Agora surgem os que gostam de poesia. Recita-se versos de amor, de saudade, de alegria. Alguém recita algo de Vinicius de Moraes; já outro prefere os belos sonetos du Bocage.

E sem que ninguém perceba, encerram-se as poesias e iniciam-se novos brindes. E grita-se: Viscky! Viscky! Surge uma boa gargalhada do boêmio culto. Mas... um bonachão, com seu tradicional charuto àquelas horas, não concorda com o barulho. Encerra-se. Segue o murmúrio.

Naquele lugar, em que se ouvia o riso de uma juventude madura, existia um pouco de saudade nas feições de cada um. Era a despedida. Ali, a maioria daqueles jovens se despediam da vida de solteiro. Eles, como nós da “turma” apelidávamos: o velho, o boêmio culto, o esquisito e o marajá seriam em breves dias pais de famílias. E naquele momento se despediam da vida de solteiro, da boêmia e finalmente de nós.

Sim, eles se despediam, de nós, de mim, do guerra e do gilfrá, que continuaríamos a procurar naquele ambiente alegre – onde a fumaça dos cigarros, do candeeiro e do próprio charuto do bonachão confundia-se com o bafo de whisky – uma válvula de escape para fugir do tédio que mata!...

Para vocês, amigos e ex-boêmios, desejamos uma boa sorte na nova forma de VIVER. 

(Texto de Beto Déda, usando o pseudônimo Berto, publicado no jornal A Semana, edição de 02/02/1963)

 

Cópia da do jornal "A Semana", com artigo Despedida de Boêmios

E para finalizar, aqui vai meu agradecimento as alegres conterrâneas que me despertaram lembranças de minha juventude.

Aracaju, 26/03/2026

Beto Déda