O idoso que tentou fisgar
uma sereia...
“Ontem, a tristeza quis se afastar...”
Contou-me um amigo que um senhor idoso
ficou enfeitiçado ao ouvir a frase acima, em uma das versões em português da
música “Yesterday” dos Beatles. Acreditando que a tristeza tinha realmente
desaparecido, o velho resolveu extrapolar seus sentimentos e começou a bolar um
plano maluco.
No auge de sua decrepitude, ele iniciou
um mirabolante projeto para fisgar sua imaginária e sedutora sereia.
Inicialmente, procurou focalizar os principais
pontos de referência de sua predileta diva. Soube que a tal “mulher peixe” gostava
de lugares frios, e que vivia em um quarto inundado de águas azuladas e frias,
nas profundezas do mar Egeu. Também tomou conhecimento que a mitológica figura
adorava mágicas canções e que, ao cantá-las, enfeitiçava e aprisionava os homens.
O ancião, além de meio maluco, também era curioso e sonhador. Pensando que a tristeza tinha se afastado – no dizer da canção “Yesterday” – sentiu a irresistível curiosidade de conhecer os poderes da fantástica sereia. Ousou fazer um convite para receber uma visita de sua amada e recebeu a confirmação.
Então, começou seus preparativos para a captura da bela “mulher peixe”. Na verdade, seu interesse maior era pela metade do ente da mitologia grega, ou seja, a mulher; a outra parte, o peixe, deveria ficar para depois do ansioso encontro.
Ajeitou do melhor modo possível sua
casa. Colocou um aparelho de ar-condicionado, daqueles que faz um frio capaz de
causar resfriado. E procurou melhorar o seu antigo aparelho de som. Depois, passou a escolher melodias antigas que, pensava, seria a preferência de sua
encantadora musa.
Tudo foi cuidadosamente preparado: o aparelho de ar condicionado foi ligado no ponto mais frio; aromatizou o ambiente com um perfume que lhe agradava e o som foi iniciado em volume suave.
De tal sorte aquele ambiente embriagou
o velho, que ele abriu um sorriso largo, expressando seu contentamento e a
certeza que resgataria a encantadora mulher, dominadora de seus sonhos.
Na hora aprazada, ele ficou ansioso. Mas a espera demorou e, apreensivo, o velho começou a sentir arrepios de frio e quase não ouvia as canções que fluíam de sua gasta radiola. Mas alegrou-se ao perceber que a porta foi aberta e a
maravilhosa diva entrou, acomodando-se lentamente em uma velha cadeira.
Ela conferiu o ambiente, olhou ao
redor, balançou a cabeça, indicando repulsa, e exclamou:
“Isto aqui está uma bagunça! E a música
é brega! Não gostei! Necessário é uma profunda mudança, de modo a tornar
convidativo, pelo menos com leve semelhança às maravilhas do meu lar no mar Egeu”.
Dito isso, levantou-se e iniciou
sua repentina saída. Na verdade, ela não gostara de nada mesmo. Procurou um
pretexto e o encontrou na cafonice do ambiente. Daí a sua imediata saída,
deixando para o apaixonado idoso a esperança de um ligeiro sorriso.
O velhote ficou pasmo e desapontado. Apoiou seu queixo na mão esquerda e entrou em profunda tristeza. Foi nesse momento que, para sua surpresa, ouviu o som da canção que tocava naquele momento. Era a citada música “Yesterday”, dos Beatles, que completava a frase inicial deste texto: “Ontem, a tristeza quis se afastar... Mas, agora, ela veio para ficar...”
O velho soltou um longo suspiro e largou sua feição decepcionada: baixou o beiço inferior, elevou os ombros e
deu um silencioso riso. Reconheceu que a tristeza tinha voltado, mas não
desistiria. Necessitava, apenas, de novos planos e continuar tentando concretizá-los.
Ao concluir sua narrativa, disse-me o amigo que o velho continua realmente procurando meios para burlar a melancolia e prosseguir na eterna ansiedade de conquistar sua imaginária sereia. Também fez questão de informar que - para preservar a privacidade dos envolvidos - usou na história a figura de um ente da mitologia grega, descrito por Homero, nos livros "A Ilidia" e "A Odisseia", temas atuais de filmes, resenhas e músicas.
Por fim, sabendo que meu amigo narrador é muito criativo, fiquei na dúvida: será que realmente aconteceu um caso semelhante? Não sei! Mas parece-me verossímil. Será?
Aracaju, 13\09\2026
Beto
Déda

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