domingo, 13 de setembro de 2026

O idoso que  tentou  fisgar uma sereia...

          “Ontem, a tristeza quis se afastar...”

Contou-me um amigo que um senhor idoso ficou enfeitiçado ao ouvir a frase acima, em uma das versões em português da música “Yesterday” dos Beatles. Acreditando que a tristeza tinha realmente desaparecido, o velho resolveu extrapolar seus sentimentos e começou a bolar um plano maluco.

No auge de sua decrepitude, ele iniciou um mirabolante projeto para fisgar sua imaginária e sedutora sereia.

Inicialmente, procurou focalizar os principais pontos de referência de sua predileta diva. Soube que a tal “mulher peixe gostava de lugares frios, e que vivia em um quarto inundado de águas azuladas e frias, nas profundezas do mar Egeu. Também tomou conhecimento que a mitológica figura adorava mágicas canções e que, ao cantá-las, enfeitiçava e aprisionava os homens.

O ancião, além de meio maluco, também era curioso e sonhador. Pensando que a tristeza tinha se afastado – no dizer da canção “Yesterday” –  sentiu a irresistível curiosidade de conhecer os poderes da fantástica sereia. Ousou fazer um convite para receber uma visita de sua amada e recebeu a confirmação.

Então, começou seus preparativos para a captura da bela “mulher peixe”. Na verdade, seu interesse maior era pela metade do ente da mitologia grega, ou seja, a mulher; a outra parte, o peixe, deveria ficar para depois do ansioso encontro.

Ajeitou do melhor modo possível sua casa. Colocou um aparelho de ar-condicionado, daqueles que faz um frio capaz de causar resfriado. E procurou melhorar o seu antigo aparelho de som. Depois, passou a escolher melodias antigas que, pensava, seria a preferência de sua encantadora musa.

Tudo foi cuidadosamente preparado: o aparelho de ar condicionado foi ligado no ponto mais frio; aromatizou o ambiente com um perfume que lhe agradava e o som foi iniciado em volume suave.

De tal sorte aquele ambiente embriagou o velho, que ele abriu um sorriso largo, expressando seu contentamento e a certeza que resgataria a encantadora mulher, dominadora de seus sonhos.

Na hora aprazada, ele ficou ansioso. Mas a espera demorou e, apreensivo, o velho começou a sentir arrepios de frio e quase não ouvia as canções que fluíam de sua gasta radiola.  Mas alegrou-se ao perceber que a porta foi aberta e a maravilhosa diva entrou, acomodando-se lentamente em uma velha cadeira. 

Ela conferiu o ambiente, olhou ao redor, balançou a cabeça, indicando repulsa, e exclamou:

“Isto aqui está uma bagunça! E a música é brega! Não gostei! Necessário é uma profunda mudança, de modo a tornar convidativo, pelo menos com leve semelhança às maravilhas do meu lar no mar Egeu”. 

Dito isso, levantou-se e iniciou sua repentina saída. Na verdade, ela não gostara de nada mesmo. Procurou um pretexto e o encontrou na cafonice do ambiente. Daí a sua imediata saída, deixando para o apaixonado idoso a esperança de um ligeiro sorriso.

O velhote ficou pasmo e desapontado. Apoiou seu queixo na mão esquerda e entrou em profunda tristeza. Foi nesse momento que, para sua surpresa, ouviu o som da canção que tocava naquele momento. Era a citada música   “Yesterday”, dos Beatles, que completava a frase inicial deste texto:        “Ontem, a tristeza quis se afastar..  Mas, agora, ela veio para ficar...”

 O velho soltou um longo suspiro e largou sua feição decepcionada: baixou o beiço inferior, elevou os ombros e deu um silencioso riso. Reconheceu que a tristeza tinha voltado, mas não desistiria. Necessitava, apenas, de novos planos e continuar tentando concretizá-los.



Consta os seguintes versos na letra da música "Yesterday" dos Beatles (versão do site
 https://www.youtube.com/watch?v=Bft8m6uObP0&vl=pt-BR): 
"Ontem, a tristeza quis se afastar...
Mas, hoje, ela veio pra ficar...
Oh, sinto falta de voltar,
 Sem notar, eu não sou metade do que fui,
Tem um peso que não diminui...
Por que ela se foi?
Eu não sei, não quis falar...
Ontem, amar era um jogo pra  ganhar
Hoje, eu só queria voltar..."


...............................

Ao concluir sua narrativa, disse-me o amigo que o velho continua realmente procurando meios para burlar a melancolia e prosseguir na eterna ansiedade de conquistar sua imaginária sereia. Também fez questão de informar que  - para preservar a privacidade dos envolvidos - usou na história a figura de um ente da mitologia grega, descrito por Homero, nos livros "A Ilidia" e "A Odisseia", temas atuais de filmes, resenhas e músicas.

Por fim, sabendo que meu amigo narrador é muito criativo, fiquei na dúvida: será que realmente aconteceu um caso semelhante? Não sei! Mas parece-me verossímil. Será? 

Aracaju, 13\09\2026

Beto Déda