quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013


 


A criatividade de ontem e de hoje.
 

Encanta-me apreciar as habilidades de meus netos no uso do tablet (uma espécie de computador portátil). O uso de tais instrumentos facilita a atividade motora das mãos das crianças e, dizem, estimulam a criatividade.

 
A lousa ou pedra de escrever dos anos 40/50.
 

O que percebo é uma grande diferença do que acontecia nos velhos tempos, lá pelo início dos anos 50. O meu “tablet” era uma pequena lousa de pedra em que, usando um lápis também de pedra, praticava caligrafia e desenhos, além de me divertir brincando de forca. A minha pedra de escrever sempre estava rachada, parecendo casco de tartaruga, o que dificultava a escrita. Mas minha professora, Ana Santa Rosa, dizia que devíamos usar a criatividade e nos estimulava a praticar a separação de sílabas, de modo a nos livrar das fissuras da lousa. Usávamos o lápis de pedra e depois de feita a escrita e conferida pela professora, tudo era apagado usando uma pequena planta transparente e rica em água, chamada popularmente de “tripa de macaco”. Assim que chegávamos à escola de Prof. Ana,  íamos até o quintal e colhíamos um molho da pequena planta limpadora. Algumas meninas usavam como apagador um vidrinho com água, diziam que era mais higiênico. Mas não faltavam aqueles que, escondidos da professora,  usavam o cuspe para a “limpeza”, o que era nojento pra caramba...

Com o progresso, surgiram as penas de escrever, acompanhadas de tinteiros. Inicialmente eram usadas por alunos mais adiantados.  E as carteiras das salas de aula tinham um local próprio para se colocar os tinteiros. Raras eram as mãos e fardas que não traziam as marcas de tintas.



A verdade é que os poucos recursos de ontem era um estímulo à criatividade. E todas as crianças procuravam inovar em brincadeiras. De um simples cabo de vassoura, fazíamos um cavalo de pau e galopávamos empolgados como estivéssemos em um fogoso mangalarga. Um arco de pneu com um pequeno arame condutor se transformava em um formidável brinquedo, rolando pelas ruas. Uma tábua, tendo rolimãs como rodas, se transformava em uma veloz Ferrari. E na oficina de papai, com uma serra, transformávamos um pedaço de madeira em um revólver para brincar de caubói, com o famoso grito de “mãos-ao-alto”.

Para angariar alguns trocados, meu irmão Carlos fazia belíssimas gaiolas de madeira e arame, com contas e outros balangandãs. Eu aproveitava os restos de madeira, fazia miniaturas de gaiolas, usando toda a criatividade para enfeitar ao máximo e, depois, vendia aos colegas do Grupo Escolar Fausto Cardoso. Os trocados serviam para comprar os queimados (balas de mel) vendidos por D. Rosália.


 
O Cartão de Cupido

Nas oficinas do jornal “A semana”, para reforçar a mesada, usava o pequeno prelo e imprimia “Cartões de Cupido” para vender aos colegas nas tardes de domingo. Os cartões eram usados pelos garotos inibidos – e eu era um deles – para abordar as meninas no passeio da Praça da Matriz. Era só entregar o cartão à garota escolhida e pedir que dobrasse o ângulo certo e devolvesse. Como bom comerciante, pensando nas próximas vendas, sempre aconselhava aos compradores sobre o óbvio: o cartão só podia ser usado uma vez, assim deveriam comprar uma boa quantidade. Vendia muito e tinha fregueses certos.
 

A criatividade era usada sem parcimônia e às vezes com um pouco de “astúcia” infantil. Narro, aqui, uma delas.
 
Cartaz do seriado A Deusa de Joba,
 com Clyde Beatty e Elaine Shepard
 Nos sábados, em nossa terra, o pensamento da garotada era ir ao Cine Ipiranga, que na época exibia o seriado A Deusa de Joba, com Clyde Betty e Elaine Shepard. Certa vez, um de nossos amigos, que morava na Praça de São João, dizia, tristonho, para mim e meu irmão Carlos, que ia perder o grande episódio do seriado porque não tinha dinheiro para pagar o ingresso. O pouco que sua mãe dispunha era para comprar feijão. Diante dessa dificuldade, unimos os pensamentos em criar uma solução mágica para o problema: conseguir o feijão, sem gastar um tostão.  Acertamos os detalhes e fomos à feira. O colega perguntava ao comerciante quanto custava um quilo de feijão e os três, ao mesmo tempo, enchiam as mãos de amostras dos grãos que não voltavam ao saco, mas sim à mochila do pretenso comprador. Depois de passarmos por diversas barracas, fazendo a indagação do preço e pegando as amostras, tínhamos a quantidade de feijão necessária. Tudo conseguido sob o olhar desinteressado dos feirantes, sem gastar os trocados que foram utilizados no ingresso do amigo ao cinema.
Dias depois soubemos que a mãe do colega reclamou da compra. A bronca era o feijão irregular, uma mistura danada, parecendo “feijão de cego”. E o pau cantou...
O fato é que o garoto e sua mãe comeram feijão misturado. Ele levou umas chineladas, mas não perdeu o episódio das aventuras de Baru e sua irmã, em a Deusa de Joba.
 
Era assim nos velhos tempos. As dificuldades estimulavam a criatividade e nos levavam a um mundo de sonhos e fantasias. Acredito que hoje, mesmo com o desenvolvimento tecnológico, surgem novos estímulos. Os garotos não perderam a criatividade e com talento não deixam de criar fantásticos mundos na procura de diversões e de soluções para seus problemas modernos.
 
É o que vejo, com meu olhar de avô coruja, observando o que fazem meus queridos netos.
 


Aracaju, 21/02/2013

Beto Déda

sábado, 16 de fevereiro de 2013



O carnaval, a seca e os foliões “filósofos” de Simão Dias.


 
 Passei esses dias de carnaval com meus filhos e netos no sítio Lago Dourado, curtindo o convívio da família e observando os efeitos da seca que maltrata o Nordeste. O triste efeito da falta de chuvas também nos atinge e transformou o nosso pequeno lago, que era um bonito cartão postal, em uma feia poça d’água estagnada..

 Acontece, porém, que os estragos da seca não aniquilaram a alegria carnavalesca e não faltaram as brincadeiras dos netos com fantasias, confetes e serpentinas, contagiando-nos e nos trazendo recordações dos carnavais de Simão Dias.

Nos dias atuais, diante do problema da seca, muitos são os que se mostram arredios aos festejos momescos. Acreditam que diante da situação climática adversa razão não existe para ativar o reino da folia. Os argumentos contra os foliões não são exclusivos do momento atual. Não é de agora que tais manifestações são ouvidas.

Mas nem todos pensam assim. Conheci e conheço muita gente que não concorda com essa restrição. Para os que gostam da folia, o carnaval é o momento certo para amenizar as vicissitudes da vida. E mesmo passando dificuldades o povo não deixa de brincar.

Dos velhos tempos em minha terra natal, guardo lembranças de tipos que marcaram sua presença pela singularidade nas brincadeiras nos carnavais.
Negão engraxando sapato e fazendo samba.

Dentre eles, os notáveis batuqueiros Negão e Tonho do Areal, ambos engraxates. Negão era um talento em batucar com a escova em sua caixa de limpar sapatos, que ficava na calçada do açougue municipal, confronte a redação do jornal “A Semana”. Tonho do Areal tinha sua caixa de engraxar perto do Bar de Valério. Ambos eram bons foliões. Com um detalhe, o Negão mancava, tinha um problema na perna e não podia sambar, seu forte era cantar e batucar. Enquanto o Tonho era um grande re-bo-la-dor e, quando o bloco passava pela Rua do Sobrado, ele cantava pra sua mulher, que se chamava Luzia, a marcha de Braguinha:

     “Anda, Luzia,
    Pega um pandeiro, vem pro carnaval
    Anda, Luzia
   Que essa tristeza lhe faz muito mal...”
 
Naquela época a situação estava difícil aqui no Nordeste e o povo vivia com a barriga amarrada ao espinhaço. Mesmo assim, nossa gente não deixou de brincar nas ruas e no clube da cidade.


Artigo de Carvalho Déda sobre
a filosofia de domingos Bina

Intrigado com aquela contradição, especialmente com as despesas do carnaval, meu pai procurou saber como era possível se comemorar um carnaval tão animado, tão sacudido, tão rebolado e tão afunilado, quando a cidade se debatia numa crise danada. E perguntava pra seus botões: como aquela gente conseguiu fazer uma festa tão porreta sem dinheiro?  

Para entender essa façanha, entrevistou o folião Domingos Bina, que na quarta-feira de cinzas estava ressacado, no oitão do Cine Brasil, acocorado, fazendo cruz na boca. O diálogo foi o seguinte, publicado na edição do jornal “A Semana”, em 18.02.1956, em artigo sob o pseudônimo de Lynce: “A Filosofia de Domingos Bina”:

 
 – Como se faz carnaval sem dinheiro, “seu” Domingos?

O “filósofo” respondeu sem pestanejar: – Oxente! É só pegá um pedaço de papelão, fazê dele um funil, chamá Negão e Alfredo Engraxate, metê a cara na rua e a turma acompanha. Todo mundo sai atrás do funil...

- Mas “seu” Domingos, (insisti) sem correr nada no funil?

Com um riso malandro, o filósofo da bandurra explicou: - Basta oiá pro funil! Todo mundo já ta avinhado!...
 
E a última pergunta: - Mas "seu" Domingos, bom carnaval sem dinheiro? E a religião como é?
 
O "filósofo" não titubeou: - Oxente! Depois de feito, Deus dá um jeito!...

 
Outro inesquecível folião era o Pedro Retraído, sobrenome que recebera por ser um homem reservado, que mais escutava que falava. Era um senhor de meia idade, galego, alto, magro, com um bigodinho aprumado, olhos meio caídos, fala mansa e de poucas palavras. Sóbrio, sem ser tímido, animava os carnavais da cidade transfigurando-se, ao mesmo tempo, em dois personagens. Ele traçava uma linha divisória em seu próprio corpo, do alto da cabeça, passando pela metade do nariz indo até a virilha. De um lado, o direito, era ele próprio, com sua feição normal e o olhar perdido no horizonte. Cobria essa parte do corpo com paletó, camisa, calça e um sapato. Do outro lado, o esquerdo, era o inverso: cortava o cabelo rente com máquina zero até a linha divisória, raspava uma sobrancelha, parte do bigode e pintava essa face do rosto com uma espécie de cera branca. Nesse lado do corpo mostrava uma camiseta sem manga, calção parecendo cueca samba canção, deixava a perna comprida nua e usava uma chinela no pé. Trazia pendurado na cintura um pinico com doce de leite, imitando cocô de criança. E na boca, do lado esquerdo, soprava um apito chamado “língua de sogra”.  
 
Com seu lado sério intocado, sem uma única palavra, lá ia ele pelas ruas da cidade com seu inconfundível andar de longas pernas. Parava em cada esquina e, pelo lado esquerdo de sua boca, soprava o apito língua de sogra, estirando-o em direção aos curiosos.

Sem querer, o Retraído filosofava e encarnava a simbologia da dualidade, da dúvida e da contradição existentes na humanidade. Em sua fantasia, ele representava a tristeza e a alegria, o feio e o bonito, o bem e o mal, a pobreza e a riqueza, a verdade e a falsidade, a luz e as trevas, a seriedade e a folgança. Sua  exposição esbanjava filosofia. 
 
Não me resta dúvida de que o inesquecível Pedro Retraído era rico em sabedoria e fazia de seu humor carnavalesco o contraponto de sua seriedade. Sem querer, ele expressava o pensamento do grande criador de Carlitos, o imortal Charles Chaplin, que dizia ao comentar sobre o humorismo e a seriedade exagerada:
 
O humorismo alivia-nos das vicissitudes da vida, ativando o nosso senso de proporção e revelando-nos que a seriedade exagerada tende ao absurdo.

 

São lições de vida de inesquecíveis foliões  e “filósofos” de minha terra.

Aracaju, 13/02/2013

Beto Déda

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013


O magro e a “magrela”.



Há poucos dias estava tentando ensinar minha querida neta Marina a pedalar sua bicicleta. Notei sua dificuldade em se equilibrar, por não alcançar os pedais. A sua bicicleta era grande, própria para adultos. Pensei em presenteá-la com uma menor. Aliás, esse era o presente que sempre tive alegria em oferecer aos meus sobrinhos e filhos. E o gosto por esse tipo de presente tem uma razão especial, que passo a contar agora.


Eu, o magro, com a farda do
Grupo Escolar Fausto Cardoso 
Sempre fui magro, mas na infância minha magreza era maior. Ao olhar pra mim, sem camisa, facilmente dava para visualizar os ossos e contar as costelas. Essa falta de musculatura e o realce da aparência óssea era motivo de riso dos colegas. Muitos se aproveitavam de minha aparência física  para me apelidarem de “esqueleto humano”. Outros, olhando-me de cima a baixo, diziam que – com aquele corpo esquelético – a minha vida seria curta. A verdade é que ao ouvir tais comentários meus protestos não faltavam, chegando até as vias de fato, embora muitas vezes saísse em desvantagem por falta de condições físicas.

De todos os comentários, o que mais se fixou em minha memória foi o dia que, passando pela Rua do Coité, uma senhora me chamou e, apalpando minhas costas e mostrando as partes salientes dos ossos da pá, olhou para as amigas e disse:

- Tão magro, olhem as espáduas dele, são tão salientes que parecem espingardas. Ou serão asas nascendo? Para onde vai com essas espingardas, Beto? Vai voar?
E as risadas me atordoaram. Não briguei, nada respondi e não tive raiva da boa senhora. Fiquei triste, muito triste mesmo, por ser tão magro, por causar aquela impressão seguida do comentário impensado de uma pessoa que sempre reverenciei e que não deixei de continuar admirando...

Meu porte físico também me causou outros constrangimentos, dentre eles foi não ter uma bicicleta que, por coincidência, os jovens hoje chamam de “magrela”.

Efíngie de Getúlio Vargas
Aprendi a pedalar com meu irmão Carlos. Naquela época, em Simão Dias, as pessoas alugavam as bicicletas que eram expostas na Rua do Coité, em frente ao prédio do Lactário, que hoje é o Fórum Gervásio Prata. Cada cinco minutos de aluguel custava “quinhentos-réis” ou cinquenta centavos, moeda cunhada com a efígie Getúlio Vargas.

Apesar de meu físico, gostava muito de bicicletas e fiz o possível para aprender a pedalar. Assim que conseguia um trocado, lá estava eu, magricela, andando na “magrela” alugada.

Quando passei a dominar o pedal e o guidão, fui até a redação do jornal “A Semana” e pedi ao meu querido pai que comprasse uma bicicleta pra mim. Ele me olhou com cuidado, pensou e respondeu constrangido:
- Não posso lhe atender e isso é para seu bem. Você não soube que recentemente seu colega Júlio, filho de Pierre, caiu de uma bicicleta e quebrou o braço?  E note que ele é um garoto forte. Pois bem, essa não é uma boa ideia pra você, que é magrinho...


Argumentei que já sabia andar, que tinha mais equilíbrio que o Júlio e que nada ia acontecer. Mas não fui persuasivo. Meu físico não ajudara e a verdade é que meu pedido não foi feito na ocasião oportuna.
O fato é que, mesmo sem a aprovação de meus pais, continuei pedalando as bicicletas alugadas.

Meses depois, quando chegou setembro e os estudantes do grupo escolar Fausto Cardoso começaram a ensaiar para o desfile do dia da pátria, foi formado um grupo de ciclistas (alguns alunos que tinham a felicidade de possuírem bicicletas) que deveriam ir à frente do desfile.  Sabendo disso eu não me contive. Tinha que arranjar uma bicicleta para desfilar. Alugar não era possível, por ser demais oneroso devido a quantidade de horas. Então resolvi apelar para minha querida tia Lucila.

Eu sabia que o Zé Carlos, meu primo, tinha uma bicicleta. Ele estava estudando em Aracaju. Fui até a casa de tio Sininho, procurei tia Lucila e, com a cabeça baixa, esfregando os dedos, fiz o pedido:

Tia Lucila
-Tia Lucila, a senhora poderia me emprestar a bicicleta de Zé Carlos para eu desfilar no dia 7 de setembro? Eu tenho cuidado e logo depois do desfile eu devolvo sem um arranhão...
O sorriso carinhoso estampado na face de tia Lucila nunca saiu de minha mente. Com uma alegria imensa, consegui a bicicleta.

No dia da independência eu desfilei garboso, envergando a farda do grupo escolar, portando uma faixa verde/amarela que me destacava como ciclista. E pedalando a “magrela” do primo Zé Carlos, eu acenei alegre e agradecido para tia Lucila. Foi um dia inesquecível...

Aracaju, 04/02/2013

Beto Déda

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013


 Outras histórias do saudoso colega compadre.

 
Minhas recordações da última semana foram do amigo de infância conhecido como Compadre. Ele também foi meu colega de trabalho no Banco do Nordeste do Brasil, o BNB, tanto na Agência de Simão Dias, como em Aracaju, onde aconteceram outros não menos curiosos fatos que aqui relato.


Anúncio no jornal  "A Semana" da Escola de
 Datilografia que o Compadre não frequentou.
Contrariando a característica de bancário, o Compadre não gostava de redigir e nem sabia datilografar. Mesmo assim era ele quem cuidava de todas as correspondências da Agência e dos malotes recebidos e expedidos para a  Direção Geral. Certa vez deparei-me com ele “catando milho” em uma máquina de datilografia, com o nariz quase raspando o teclado, devido a sua miopia. Indaguei a razão daquela dificuldade em tentar datilografar. Disse-me que estava atendendo, disciplinadamente, a uma determinação do gerente que, mesmo sabendo de sua falta de habilidade – pois não tinha frequentado a Escola de Datilografia do Prof. Geonilde –  determinara que ele datilografasse um texto. Naquele dia o compadre não cuidou dos malotes, seu único trabalho foi tentar cumprir a determinação do impertinente administrador. Só conseguiu no final do expediente da tarde. E o texto datilografado foi exibido como um troféu pelo implicante gerente.
...

Na agência de nossa terra, Compadre nos impressionava com suas brincadeiras e demonstrações inusitadas. Nas tardes frias do inverno, durante o expediente interno, ele chegava para a turma e dizia:

- Agora é o momento certo para lavar minhas entranhas...

Então ele bebia quase um litro de água, fazia um movimento com a barriga, debruçava-se na janela e regurgitava todo o líquido que tinha solvido. E com seu olhar engraçado exclamava: - Obá!...
Depois, demonstrava sua força, parando as compridas hélices dos potentes ventiladores usando seus fortes e grossos dedos.

...


O Compadre pugilista parecia
com o ator Mickey Rooney
(Copyright :© DR)
Dizia ele que fora lutador de boxe no Rio de Janeiro. Contava que inicialmente tinha sido um sparring e seu nariz fora quebrado para melhor desempenhar o esporte. Confirmava-se, assim, sua fama de menino bom de murro, fato que já narrei nesse blog, em 25.10.2012, quando ele nocauteou um adversário em uma briga em partida de futebol na Praça São João.

Pois bem. Em uma tarde, ao ouvir alguém duvidar de sua atuação como pugilista, ele resolveu fazer uma demonstração. Para isto, me fez um esquisito apelo:

- Compadre Beto, me ajude a demonstrar a verdade pra esse infiel. Você pode dar um murro em meu nariz? Vamos, compadre, mande o soco!

Diante da minha negativa, ele mesmo aplicou um forte murro no próprio nariz, que ficou bem vermelho. Ao perceber os risos que a cena causou, ele então esfregou o nariz para um lado e para o outro e esclareceu:

- Ficou um pouco vermelho por falta de exercício.  É coisa normal em qualquer pugilista...

E saiu gargalhando com seu jeito inimitável.
...

Um dia Compadre chegou ofegante a minha mesa de trabalho. Sua dificuldade em respirar não fora ocasionada pela subida brusca da escada íngreme, de estreitos degraus, que dava acesso ao setor rural da agência do BNB em Simão Dias.  Sua perturbação tinha sido ocasionada por um acidente que tivera com um cão de propriedade do juiz de direito da cidade. Com os olhos arregalados ele contou-me o acontecido, mais ou menos assim:  

- Compadre Beto, eu vinha quase em frente ao Açougue quando o diabo do cachorro do Juiz me atacou. Quando ele veio latindo em minha direção, com a bocarra aberta para me morder, eu enfiei a mão na boca dele, agarrei sua língua e puxei com força. Quase saiu todo o esôfago do danado. Aí soltei e ele correu com o grunhindo de dor em direção à casa do dono. Não sei se sobrevive. Dizem que o Juiz vai usar a caneta contra mim, diante do que fiz ao seu feroz animal de estimação. Será verdade?

Felizmente, diante inusitado revide sofrido pelo inquieto animal, nada aconteceu ao grande Compadre.
...

Já aposentado, ele morava em Aracaju. Em uma noite chegou seu filho em casa, assustado, contando que fora agredido por um malandro que lhe roubara o relógio.  O Compadre pegou o carro e saiu pelo bairro em procura do larápio.  Chegou a um barzinho e lá estava o manhoso. Tendo o filho confirmado a autor do crime, ele não titubeou: apontou o revólver para o meliante, o fez entrar no carro e o levou para delegacia. No caminho, após amansá-lo, olhando nos olhos do ladrão e o cutucando com o cano da arma, afirmou:

-Olha aqui, seu fio do cabrunco, se eu souber que você apareceu nesta região ou perturbou meu filho, eu vou atrás de você onde estiver e lhe pego de jeito, seu merda. O cuidado agora vai ser seu, vagabundo!

Entregou o bandido à polícia e nunca mais o malandro voltou importunar no seu bairro.

Assim era o meu saudoso e bom amigo Compadre: alegre, irreverente, bondoso, brincalhão, mas que nunca levou desaforo pra casa.

Aracaju, 30/01/2013

Beto Déda

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013


As curiosas aventuras de um colega inesquecível.

 

Em minhas recordações existe um amigo de infância que tem lugar de destaque. Cultivava as amizades com sua bondade e boa fé. A todos ele chamava de compadre, razão pela qual ele passou a ser conhecido por esse apelido. Era forte, baixo, pele alva, sofria de uma ligeira miopia, cabeça grande com cabelos cheios e lisos. Expandia coragem, tinha o pavio meio curto e não levava desaforo pra casa. Dizia meu primo Zé Carvalho que tanto ele como suas travessuras pareciam com as do jovem artista de cinema chamado Mickey Rooney. Além de tudo foi personagem de casos curiosos que merecem ser lembrados. E aqui recordo alguns deles.

O grupo escolar de Simão Dias estava um reboliço naquele início de setembro dos anos cinquenta. Com maior intensidade do que em dias comuns, as professoras exigiam dos alunos maior dedicação à aprendizagem dos fatos históricos da pátria.


O Prédio do Grupo Escolar Fausto Cardoso
A turma do primeiro ano ficava no salão do meio, cujas janelas davam para a praça da matriz, de onde os alunos tinham a visão da igreja e do cata-vento que bombeava água de um poço.  Alguns meninos daquela sala se destacavam pelas travessuras que aprontavam no dia-a-dia. Um deles era o colega Compadre.  Tal e qual a gurizada da época, ele costumava falar alguns palavrões, dentre os quais sobressaía a expressão de uso comum entre os sergipanos:  cabrunco!” e “ô fio do cabrunco!” Quando se queria expressar espanto ou dimensionar um grande ou grave acontecido falava-se : -“Ô cabrunco! Também era a palavra de ordem para demonstrar qualquer aborrecimento e xingar uma pessoa: “Fulano de tal, aquele “fio do cabrunco...!”.

A professora da classe era Dona Olda, dedicada e prestimosa mestra, querida por todos os alunos. Seu método de ensino era infalível. Paciente com os pupilos, sempre tentava auxiliar nas dificuldades. Quando notava um vacilo, ela prontamente dava uma ajuda, iniciando a resposta e deixando sempre a última palavra ou sílaba para ser dita pelo aluno. Assim, se ela perguntava aos estudantes quem era o Presidente do Brasil e notava qualquer demora na resposta, então a ajuda era certa: “O Presidente do Brasil é Getúlio VAR...” e em uma só voz os estudantes gritavam a última sílaba: “GAS”.

Naquele dia a Prof. Olda estava iniciando a aula com uma revisão dos principais fatos de nossa História. E começou perguntando à classe: “Em que ano aconteceu o descobrimento do Brasil?” Houve um ligeiro silêncio dos mais aplicados, porque a classe ainda estava no sussurro inicial dos alunos retardados se arrumando nas carteiras. Ela então deu a ajuda: “O Brasil foi descoberto no ano de um mil e QUINHEN...  E ouviu-se a resposta uníssona completando a última sílaba :  TOS”.
Pedro Álvares Ca...

Enquanto isso, sentado na última fila de carteiras, no fundo da sala, alheio aos ensinamentos, nosso Compadre discutia animadamente com outro amigo. Percebendo a distração, a Prof. Olda dirigiu-se a ele, indagando: “Quem descobriu o Brasil?” Nada de resposta. Tão envolvido na troca de figurinhas, o colega não percebeu a pergunta, provocando na bondosa professora sua reação natural de ajuda, enfatizando: “Quem descobriu o Brasil foi Pedro Álvares CA...” Nada de resposta. Advertido pelo vizinho e meio atordoado, Compadre ouviu apenas a Professora indagar: “Foi CA...” e a resposta veio sem demora e impensada: “...BRUNCO, foi o CABRUNCO!” E a risada explodiu na classe.

Percebendo a mancada, ele apressou-se em pedir mil desculpas. Depois de ouvir uma cuidadosa reprimenda da querida professora, ele baixou a cabeça demonstrando arrependimento e, com a humildade que sempre o caracterizou, atendeu a recomendação de copiar dez vezes um texto sobre a inconveniência de dizer palavrões.
 

Em uma manhã, lá pelas nove horas, a classe foi perturbada pelo inusitado som de um motor. Curioso, o Compadre se aproximou da janela de onde se via a torre da igreja e o cata-vento. Olhou para cima e avistou um pequeno avião. Imediatamente ouviu-se seu estridente grito:
Um Teco-teco no campo de aviação

- Turma, um teco-teco vai pousar no campo! Vamos ver? Eu estou indo..

 Para evitar a debandada, a professora fechou a porta da sala e convocou todos a tomarem seus lugares. Nada continha a curiosidade da meninada e o Compadre liderou a turma. A janela foi a saída procurada. Foi o primeiro a pular, seguido pela maioria, todos se dirigindo ao campo de aviação que ficava lá pelas bandas do Bonfim de baixo. Ver de perto o aeroplano foi o ponto alto daquela manhã e serviu de comentário na cidade durante toda a semana. De volta ao Grupo Escolar, a professora impôs um castigo a todos: redigir um texto sobre o avião pousando na cidade. Dizem que o colega só redigiu cinco linhas. Redigi não era a praia dele...

 

Nas tardes de domingo, depois da matinê no cine Ipiranga, a meninada ia à praça da matriz, com roupa domingueira. Para impressionar, os garotos besuntavam os cabelos com brilhantina ou óleo “Glostora”, uma novidade da loja “Três Américas”, de Seu Cícero Guerra. Admirado com o brilho dos cabelos do meu primo Zé, o colega não se conteve e perguntou o que ele usara para o cabelo ficar certinho e brilhante daquela forma. Brincalhão e presepeiro, o Zé não perdeu a oportunidade e foi logo ensinando:
 
O óleo lustra móveis
- O famoso ‘Óleo de Peroba’, meu compadre. Depois que passei a usar esse óleo as meninas estão dando sopa. É um sucesso! Use e você vai se dar bem.

No domingo seguinte, lá estava o amigo risonho com o cabelo arrumado, brilhante e com o inconfundível cheiro do óleo usado para polir móveis. Somente depois é que ele percebeu a brincadeira e ficou picado da vida, arrebentando o conhecido linguajar para o desconfiado Zé: - Esse cara é um gozador do cabrunco!

 

São lembranças de um querido e saudoso amigo que foi companheiro de muitas brincadeiras de infância e que ao recordá-las nos alegra e ao mesmo tempo marejam nossos olhos com gotas de saudade...

Aracaju, 22/01/2013.

Beto Déda

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013


O possesso


 
Há muito tempo, quando eu era garoto, ouvi de um querido tio o curioso caso de um sujeito que foi considerado possuído pelo demônio. Tentarei transcrevê-lo,  aqui, com esforço para transmitir mais ou menos o que ouvi do bondoso irmão de minha mãe.

O fato aconteceu no mês de julho – que os simãodienses chamam de mês de Santana – no início dos anos cinquenta, envolvendo um senhor de quarenta e poucos anos de idade. Ele tinha pele alva, pescoço comprido, um grande gogó e costas um pouco envergadas. Era conhecido como Janu da Várzea.

 Naquele dia ele acordara mais cedo que do costume. Acendeu o fogo, tomou um ligeiro café e aguardou que a densa neblina dissipasse, deixando lugar para o sol, que nascia meio tímido, derramar seus primeiros raios luminosos sobre as matas da Várzea da Isca. Selou o cavalo e galopou em direção à cidade.

Naquela semana Simão Dias estava em festa. Acontecia o novenário em homenagem a Nossa Senhora Santana, padroeira da cidade. As casas estavam repletas de visitantes. Raras as famílias que não recebiam parentes e amigos em seus hospitaleiros lares. Na Rua do Coité, a residência de D. Tefinha não era exceção. Ela recebia a costumeira visita dos donos da casa, alugada sob a condição de abrigar a família do proprietário nas festas tradicionais da cidade: Natal, Ano Novo, Semana Santa, festa de Santana e no dia de eleição.

Janu era sobrinho do dono da casa e também ali se hospedava. Ele chegou cedo, amarrou seu cavalo no quintal e foi cuidar de alguns negócios pendentes, como também comprar o que lhe era indispensável em seu sítio: sal, querosene e café.

Para almoço daquele dia, D. Tefinha tinha temperado, de véspera, em uma grande frigideira de barro, apetitosos lombos. Lá pelas onze e meia, depois dos trabalhos de arrumação da casa, é que o fogo de lenha foi reativado para o preparo do almoço, inclusive os saborosos lombos. O cheiro dos petiscos invadia a casa, estimulando o apetite de todo pessoal, especialmente de Janu, que desde cedinho tomara apenas um rápido café.

Quando o relógio da Matriz disparou o toque das doze badaladas, anunciando o meio-dia, soou o foguetório na Praça Barão de Santas Rosa e a banda Lira Santana, tocando seus tradicionais dobrados, desfilou pela Rua do Coité. O povo saía à rua para apreciar a fuzarca. Na casa de D. Tefinha não era diferente, todos estavam à porta, alegres aplaudindo a banda, menos Janu que fora até o quintal cuidar do cavalo que desamarrara.  




A ausência de Janu foi notada por Alice, uma solteirona que morava na vizinhança e que era vidrada no coroa. Ela foi procurá-lo no interior da casa. Assim que adentrou ao corredor, deparou-se com o Janu que, ao senti sua presença, saiu apavorado da cozinha em direção à sala, onde começou a dar tremendos pulos, com as faces contorcidas, os olhos querendo saltar das órbitas e a expressão de terror. Apavorada com aquele quadro dantesco, Alice gritou pedindo socorro.

Todos invadiram a sala e, estupefatos diante do que viam, exclamaram quase uníssonos: - Acuda, o homem está possuído pelo demônio! Em meio a gritaria infernal, D. Tefinha iniciou imediatamente uma ladainha de exorcismo:

- Ave Sant’Ana, cheia de graça, rogai ao Bom Jesus para ajudar ao pobre Janu que está com o encosto do espírito da mal.

Enquanto todos rezavam, o Janu rolava pelo chão da sala, grunhindo, com as mãos no pescoço, as unhas dilacerando os músculos, já ficando roxo. Justo naquele momento entra na casa o Bão, um experiente e idoso negro que morava na Rua do Curral. Percebendo a cena, sem retardar, ele bradou, pedindo ajuda ao tio de Janu, Seu Chico Pereira:

- Chega Chico, deixa de rezar e vamos levantar o homem que ele não está com nenhum encosto de cabouco, me ajuda aqui.  Venha!


Com muito esforço, os dois levantaram o quase desvalido “possesso”. O Bão deu um forte tapa nas costas do Janu que, escancarando a boca, vomitou um baita pedaço de lombo. O espanto foi geral. Seguido de um ligeiro silêncio, quebrado pela voz de tenor do irreverente Bão:

- Taí o demo que ele engoliu. Um pedação de lombo. Tava com fome, meu fio?

Superado o susto, com um riso amarelo e desconfiado, Janu esclareceu tudo. Sentindo o cheiro apetitoso do lombo, ele não se conteve e, aproveitando a saída do pessoal para apreciar a banda, foi até a cozinha, destampou o aribé e pegou um pedaço de lombo. Quando ouviu os passos de Alice, tentou se livrar da carne e gulosamente engoliu o pedaço de uma só vez. Foi a conta. Engasgou, ficou sem ar, apavorou-se e quase morreu. E o gostoso lombo transformou-lhe em um “possesso”, apesar de ser um fervoroso devoto de Nossa Senhora Santana.

Naquela época muitos acreditaram que foi a santa padroeira de Simão Dias quem guiou o experiente negro Bão até a casa de D. Tefinha. Mas havia controvérsia...

Aracaju, 15/01/2013

Beto Déda

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


O uniforme de bancário e o incrível problema do uso de meias.

 
Em recente conversa com meu colega aposentado José Amâncio Neto, fui estimulado a escrever sobre as lembranças do tempo que trabalhei no Banco do Nordeste. Os causos são muitos, no entanto, ele e os amigos José Raimundo Araújo e Juarez Morais Chaves têm melhores condições para descrevê-los. Conheço-os bem e sei que lhes sobejam talento e conhecimento de nosso idioma e que eles já escrevem interessantes histórias dos velhos tempos.

Mesmo assim, aqui estão alguns fatos que transmito também para conhecimento de meus queridos netos, especialmente do pequenino Miguel, que não gosta de usar meias.




Minha nomeação como funcionário do BNB.
Comecei a trabalhar no BNB em 1965. Antes disso eu trabalhara como redator da Secretaria de Imprensa do Estado de Sergipe e como Oficial de Gabinete do Governador Celso Carvalho. Exonerado de meus trabalhos junto ao Governo do Estado, tomei posse na agência do BNB em Simão Dias, em 18.05.1965. Naquela época o gerente era o Luciano Cardoso, que além de bancário era um grande desportista. Estimulou o futebol de nossa terra e foi o principal articulador da construção de um campo de futebol que foi batizado com seu nome.
A gozação da folha de presença

 
No dia da minha posse fui acolhido pelos saudosos colegas José Carlos Macedo Déda e José Augusto Montalvão que me pregaram uma peça, uma espécie de trote para o bancário calouro: fizeram-me assinar em uma folha suplementar de presença do “Setor Avacalhado”. Ainda hoje guardo como lembrança a dita folha de presença assinada por mim e que também recebeu as assinaturas dos inesquecíveis colegas (Foto ao lado).

 

Funcionários da Agência do BNB
em Simão Dias nos anos sessenta
Naquele tempo, o banco era exigente na forma de vestir de seus funcionários: era obrigatório usar sapatos com meias, calça social, com cinturão, camisas de mangas três/quarto e gravata. Nos primeiros dias de trabalho, cedinho, lá estava eu sentado à mesa de minha casa, tomando café, quando meu pai, olhando-me cuidadosamente, indagou por que eu estava sem a gravata. Respondi que não estava esquecido e que faria uso dela no Banco, assim que ali chegasse. Meu pai balançou a cabeça, discordando de minha resposta, dizendo que se eu resolvera ser bancário teria de atender todas as formalidades exigidas pelo banco e me orgulhar disso. Assim, deveria sair de casa usando o traje de trabalho, de modo a evitar um possível esquecimento. Daquele dia em diante, até a minha aposentadoria, segui o conselho do meu pai.

O caso de uso de meias

Colegas do Setor Rural do BNB 
nos anos setenta (eu com um grande
bigode estou sentado à direita)
Muito tempo depois, lá pelos meados dos anos setenta, em uma determinada agência, presenciei uma situação difícil por que passou um colega que, por força de um problema momentâneo de saúde, não podia usar meias. Era um excelente funcionário da carteira rural e trabalhava sob minha direção. O gerente da Agência era exigente e muitas vezes implicava com os funcionários. Fazia confusão por questões insignificantes, razão pela qual passou a ser conhecido  como o espalha brasa. O fato é que, talvez sabendo da situação do colega, ele orientou o chefe do setor de pessoal a verificar quem não estava usando meias. Assim, por incrível que pareça, foi exigido que, antes de assinar a folha de presença, todo funcionário teria que levantar o pé e mostrar que estava usando meias. Um verdadeiro absurdo! O pior é que o bom colega chefe de serviços passou a ser chamado de cheira chulé.

Pois bem. Como era de se esperar, confirmado que um funcionário do meu setor estava sem usar meias, o gerente me chamou e determinou que eu exigisse o uso do uniforme completo, de modo a evitar o “corte de seu ponto”, ou seja, considerá-lo como faltoso ao serviço. Como já sabia do problema de saúde do colega, expliquei que se tratava de um benebeano excelente e produtivo, que estava com problema nos pés e que sua ausência traria prejuízos ao atendimento da clientela (era grande a quantidade de agricultores na agência naquele momento). E percebendo de que nada valeram minhas explicações, só me restou encarar o problema aplicando minha fórmula de resolver absurdos: neguei-me a acatar a decisão dizendo claramente:
"-Nem que a vaca tussa eu farei isso!”.

As faíscas daquela discussão escaparam da gerência e muitos ouviram o bafafá... A verdade é que depois desse entrevero deixou-se de inspecionar os pés dos funcionários daquela agência. E dei de ombros ao saber que o implicante iria comunicar à Direção Geral a falta de meias do colega e a minha decisão.

Passados alguns dias, estava eu substituindo o dito gerente quando tomei conhecimento de uma correspondência da Sede em resposta à informação dele sobre o assunto. Era um memorando escrito pelo próprio Chefe de Departamento de Pessoal (DEPES), cuja fonte da máquina de datilografia tinha a forma de manuscrito, que era sua marca registrada, conhecida em todo o banco naquela época. O memorando, curto e conclusivo, trazia apenas uma indagação esclarecedora, redigida mais ou menos nos seguintes termos:
“Será que essa gerência não tem assuntos mais importantes para tratar do que o uso de meias por seus funcionários?”.
Com o devido respeito à indagação do DEPES, mostrei o memorando aos demais colegas da Agência, inclusive, quando de seu retorno, ao titular responsável por aquela resposta. A reação dele? Nem queira saber. A minha, era de pura gozação...
 
Depois daquele incidente, nunca mais soube de exigência de uso de cinto ou de meia no ambiente de trabalho. Somente lá pelos anos oitenta é que o banco liberou o uso da gravata, que passou a ser exigida apenas para os administradores nas capitais, em ambientes com ar condicionado. Para mim, independentemente da exigência, seguindo a orientação de meu pai, continuei usando paletó e gravata até o dia de minha aposentadoria...

 Aracaju, 03/01/2013

Beto Déda