Um
tempinho para você...
Como
ninguém é de ferro – nem
eu, que sou sentimental – hoje
volto
a pensar
em você. E quando isto acontece, a saudade dos velhos tempos
bate em meu ombro e não ouso olvidá-la.
Nesse
instante, curtindo essa saudade dos bons tempos de nossa juventude em
Simão Dias, vejo-me flertando e sorrindo de felicidade ao trocarmos
frases românticas tiradas de almanaques da época. Curtíamos a
simplicidade e inocência de adolescentes do interior.
Assim,
envolto no manto das recordações, revejo as tardes de verão,
quando sentávamos em cadeiras cobertas com almofadas coloridas e,
fascinados, ouvíamos o cantar das cigarras e a beleza da revoada das
andorinhas.
Como
eram maravilhosos e esperados os encontros nos dias de domingo:
matinês nos cinemas Ipiranga e Brasil; tardes dançantes no Caiçara
Clube; as missas aos domingos e os passeios em volta da Igreja
Matriz...
E
não faltavam também as festinhas de aniversário em casas de
família, com encontros nas salas de visitas, reservadas nessas
ocasiões para rapazes e moças dançarem ao som de canções da
Jovem Guarda – sem esquecer os embalos do Twist e do Rock and Holl
de Tony e Cely Capello, e também as músicas românticas de Altemar
Dutra –, tudo em discos Long Play tocados em radiolas embutidas em
bonitos móveis da época.
No
Cayçara Clube participávamos dos tradicionais bailes de Carnaval,
de São João e da Festa da Padroeira Santana; além de apresentações
de importantes orquestras em turnê pela região e, também, de
festas beneficentes, das quais lembro-me agora de duas, organizadas
por D. Carmem Dantas: “Uma noite no Havaí” e “Festa da
Primavera”.
Os
encontros culturais eram realizados quase que semanalmente, em uma
casa vizinha ao sobrado de Seu Janjão, em reuniões promovidas pela
AJIS (ASSOCIAÇÃO DE JOVENS IDEALISTAS SIMÃODIENSES), que contava
com a participação ativa de moços intelectuais da terra, e que
promovia Semanas Culturais no Cayçara Clube.
As
lembranças embalam minha mente e me fazem matutar: porque você fica
entediada ao ouvir tão alegres recordações?
Ah,
como gostaria que me escutasse! E se alegrasse com as repetidas
histórias que insisto em contar. Ficaria imensamente feliz ao ouvir
com atenção suas observações e compartilharmos as lembranças de
pessoas queridas, que participaram de nossas travessuras em
acontecimentos alegres e marcantes da vida em nossa terra berço.
Assim, eu saberia como você tem resistido a ausência do cantar das
cigarras e o desaparecimento das esvoaçantes andorinhas.
Você
sabia que as lembranças nos ajudam a enfrentar as marcas do tempo?
Não
podemos esquecer a expressão latina “Tempus fugit”, que tem o
sentido de que o tempo irreversivelmente passa, foge, voa. E ao
passar, deixa muitas marcas, enfraquecendo-nos, realizando mudanças
sem, contudo, alterar os sentimentos fortes que permanecem em nosso
interior.
Então,
pensando em você, vejo que o passar do tempo deixou marcas –
mesmo que levemente – em seu lindo e querido rosto, mas tenho
absoluta certeza que continuam em seu coração, incólumes: a
bondade e a meiguice.
O exercício de felizes recordações nos dão força para enfrentar a
insuportável amargura dos dias atuais. As notícias tristes são
cumulativas e recorrentes: a pandemia, a perda de familiares e
amigos; a perversidade de um presidente que fomenta o ódio e o uso
de armas; a violência escancarada divulgada nos noticiários; e a
amargura do nosso povo que voltou a sofrer com o desemprego e a
fome.
Diante
de um quadro tão horrendo – mesmo sem ignorá-lo e apoiando os
que tentam nos livrar de tão danosa realidade – acredito que as lembranças de momentos felizes amenizarão tais dissabores,
aproveitando cada dia, despreocupando-nos com o passar implacável
do tempo em nossa descida na ladeira da vida.
Por
fim, para não esquecer os momentos que trocávamos frases tiradas
de velhos almanaques, veja esse pensamento de Mario Quintana:
“Viver
é acalentar sonhos e esperanças, fazendo da fé a nossa inspiração
maior. É buscar nas pequenas coisas, um grande motivo para ser
feliz!”
Aracaju,
17/12/2021
BETO
DÉDA