O louco e a cabroeira de alemães.
Lá pelo início dos anos 60,
apareceu na antiga Rua dos Ribeiro, em Simão Dias, um senhor maluco que, por
algum tempo, ficou hospedado na casa de uma senhora idosa, conhecida como Dona
Jove. Não sei se eram parentes ou amigos.
O louco era um senhor
baixo, rosto redondo, feição de estresse, que sempre estava falando sozinho,
lembrando coisas emboladas sobre a segunda guerra mundial. Não tenho
confirmação disso, mas falavam que ele participara da guerra e que, como
consequência, perdera o juízo. Daí suas conversas incompreensíveis sobre combates
armados. Não era um maluco violento. Conversava baixo com ele próprio e, no mais,
ficava observando o movimento na rua e sempre estava a advertir, aos que
passavam à frente da casa de Dona Jove, que tivessem cuidado com os bandidos alemães
que, no seu pensamento desvairado, invadiram a cidade. E exclamava, em voz alta:
“- Cuidado com a cabroeira de alemão nazista. Eles estão ali, próximo à
malhada de Seu Pierre e metralham e matam todos que por ali passam...”
De tanto falar sobre a
cabroeira de alemães, passou a ser conhecido pelo apelido de “Cabroeira”.
Em determinada ocasião,
diante do agravamento das maluquices sobre a guerra e o medo dos alemães, resolveram
mandá-lo para tratamento no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, em Aracaju.
E para levá-lo, foi
realizado um pedido a meu cunhado Haroldo Déda, que na época tinha uma caminhoneta, com
cobertura de madeira na carroceria, utilizada para proteger o transporte dos
calçados de sua fábrica Sidon. A cobertura era alta, e tinha bancos, de forma a permitir também o transporte de pessoas. Naquela época, eu estudava em Aracaju,
e como morava na casa de Haroldo, era costume acompanhá-lo e ajudá-lo em suas viagens.
Pois bem, no dia ajustado, depois dos trabalhos na sapataria, Haroldo iniciou a viagem para Aracaju. Como a boleia já estava ocupada, eu e o “Cabroeira" viajamos na carroceria coberta da camioneta. Não esqueço da viagem e
do receito que tive do maluco se irritar, caso notasse que eu estava rindo de suas
fantasiosas conversas. Não era para menos, por que o maluco, em seu delírio, falava
de si para si, em voz alta, como se estivesse participando de um combate,
fazendo gestos com os braços, imitando portar um fuzil e apontava para imaginários alemães nazistas. Olhando para a estrada, exclamava, aturdido,
como se estivesse atirando: “Toma
cabroeira de alemão bandido...”. Era justamente nessa hora que eu escondia
meu sorriso, por temer que o Cabroeira me confundisse com um imaginário alemão e me
atacasse. Felizmente, não aconteceu...
No decorrer da viagem,
surgiram momentos de silêncio; o louco parecia tranquilo, observando a paisagem
que se renovava ao lado da estrada. Para mim, era o instante de sossego.
Entretanto, a tranquilidade não demorava, era quebrada por novos palavreados
desconexos, e o doido, voltava a exclamar: “Olhe,
lá vem novamente a cabroeira de alemão...”
E voltava a simular que
portava uma arma e que atirava contra a poeira da estrada (naquele tempo, a rodovia
Simão Dias-Aracaju não era asfaltada).
Durante o transcorrer da
viagem, fiquei apreensivo. A tranquilidade só aconteceu quando chegamos em
Aracaju, e o Cabroeira foi internado no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, no
Bairro Getúlio Vargas, no prédio que hoje abriga o Presídio da Polícia Militar
de Sergipe.
Soube depois, que nos
primeiros dias no Hospital, o Cabroeira até manteve-se inofensivo, mas depois - diante dos tratos, ou maus-tratos, recebidos - começou a se exasperar com os enfermeiros, apelidando-os de alemães nazista. Assim
que o problema recrudesceu, ele foi forçado a usar camisa-de-força e depois
passou a tomar choques elétricos na cabeça. O efeito dos eletrochoques teve
como consequência seu alheamento a muitas coisas. Tornou-se calado, esqueceu a
guerra e os alemães. Atendia todas as recomendações e tomou muitos remédios. Depois
de algum tempo, voltou para Simão Dias e foi para sua casa, na zona rural.
Dizem, não comprovei, que
Cabroeira ficou melancólico, mergulhado em silêncio, não dando importância a
nada da vida. Comentava-se, em conversa miúda, que depois de tanto falar da
guerra, ele voltou do manicômio parecendo ter sido vítima da desumanidade praticada
em campo de concentração nazista.
Por coincidência, alguns anos depois, em 29 de
março de 1979, o Dr. José Machado de Souza, Secretário de Saúde do Estado de
Sergipe, informou em entrevista ao Jornal
de Sergipe:
“A situação, hoje, do Adauto Botelho é mais
desumana que alguns campos de concentração alemães, como por exemplo Treblinka”.
O Secretário de Saúde referia-se aos locais criados
pelos nazistas para eliminar judeus durante a Segunda Grande Guerra Mundial.
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Depois do sofrimento daquele pobre homem em um hospício, coincidentemente comparado a um campo de concentração nazista, não consegui saber qual
foi o verdadeiro final de sua história, restou-me apenas ligeiras informações, não comprovadas, de que ele tinha esquecido completamente a "cabroeira de alemão" e restou-lhe somente uma profunda e incontrolada melancolia.
Aracaju, 18\09\2026
Beto
Déda

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