terça-feira, 22 de setembro de 2026

 

O louco e a cabroeira de alemães.

 

Lá pelo início dos anos 60, apareceu na antiga Rua dos Ribeiro, em Simão Dias, um senhor maluco que, por algum tempo, ficou hospedado na casa de uma senhora idosa, conhecida como Dona Jove. Não sei se eram parentes ou amigos.


Imagem  feita por minha filha Carla, usando a IA .



O louco era um senhor baixo, rosto redondo, feição de estresse, que sempre estava falando sozinho, lembrando coisas emboladas sobre a segunda guerra mundial. Não tenho confirmação disso, mas falavam que ele participara da guerra e que, como consequência, perdera o juízo. Daí suas conversas incompreensíveis sobre combates armados. Não era um maluco violento. Conversava baixo com ele próprio e, no mais, ficava observando o movimento na rua e sempre estava a advertir, aos que passavam à frente da casa de Dona Jove, que tivessem cuidado com os bandidos alemães que, no seu pensamento desvairado, invadiram a cidade. E exclamava, em voz alta:

“- Cuidado com a cabroeira de alemão nazista. Eles estão ali, próximo à malhada de Seu Pierre e metralham e matam todos que por ali passam...

De tanto falar sobre a cabroeira de alemães, passou a ser conhecido pelo apelido de “Cabroeira”.

Em determinada ocasião, diante do agravamento das maluquices sobre a guerra e o medo dos alemães, resolveram mandá-lo para tratamento no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, em Aracaju.

E para levá-lo, foi realizado um pedido a meu cunhado Haroldo Déda, que na época tinha uma caminhoneta, com cobertura de madeira na carroceria, utilizada para proteger o transporte dos calçados de sua fábrica Sidon. A cobertura era alta, e tinha bancos, de forma a permitir também o transporte de pessoas. Naquela época, eu estudava em Aracaju, e como morava na casa de Haroldo, era costume acompanhá-lo e ajudá-lo em suas viagens.

Pois bem, no dia ajustado, depois dos trabalhos na sapataria, Haroldo iniciou a viagem para Aracaju. Como a boleia já estava ocupada, eu e o “Cabroeira" viajamos na carroceria coberta da camioneta. Não esqueço da viagem e do receito que tive do maluco se irritar, caso notasse que eu estava rindo de suas fantasiosas conversas. Não era para menos, por que o maluco, em seu delírio, falava de si para si, em voz alta, como se estivesse participando de um combate, fazendo gestos com os braços, imitando portar um fuzil e apontava para imaginários alemães nazistas. Olhando para a estrada, exclamava, aturdido, como se estivesse atirando: “Toma cabroeira de alemão bandido...”. Era justamente nessa hora que eu escondia meu sorriso, por temer que o Cabroeira me confundisse com um imaginário alemão e me atacasse. Felizmente, não aconteceu...

No decorrer da viagem, surgiram momentos de silêncio; o louco parecia tranquilo, observando a paisagem que se renovava ao lado da estrada. Para mim, era o instante de sossego. Entretanto, a tranquilidade não demorava, era quebrada por novos palavreados desconexos, e o doido, voltava a exclamar: “Olhe, lá vem novamente a cabroeira de alemão...”

 E voltava a simular que portava uma arma e que atirava contra a poeira da estrada (naquele tempo, a rodovia Simão Dias-Aracaju não era asfaltada).

Durante o transcorrer da viagem, fiquei apreensivo. A tranquilidade só aconteceu quando chegamos em Aracaju, e o Cabroeira foi internado no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, no Bairro Getúlio Vargas, no prédio que hoje abriga o Presídio da Polícia Militar de Sergipe.

Soube depois, que nos primeiros dias no Hospital, o Cabroeira até manteve-se inofensivo, mas depois - diante dos tratos, ou maus-tratos,  recebidos - começou a se exasperar com os enfermeiros, apelidando-os de alemães nazista. Assim que o problema recrudesceu, ele foi forçado a usar camisa-de-força e depois passou a tomar choques elétricos na cabeça. O efeito dos eletrochoques teve como consequência seu alheamento a muitas coisas. Tornou-se calado, esqueceu a guerra e os alemães. Atendia todas as recomendações e tomou muitos remédios. Depois de algum tempo, voltou para Simão Dias e foi para sua casa, na zona rural.

Dizem, não comprovei, que Cabroeira ficou melancólico, mergulhado em silêncio, não dando importância a nada da vida. Comentava-se, em conversa miúda, que depois de tanto falar da guerra, ele voltou do manicômio parecendo ter sido vítima da desumanidade praticada em campo de concentração nazista.

 Por coincidência, alguns anos depois, em 29 de março de 1979, o Dr. José Machado de Souza, Secretário de Saúde do Estado de Sergipe, informou em entrevista ao Jornal de Sergipe:  

“A situação, hoje, do Adauto Botelho é mais desumana que alguns campos de concentração alemães, como por exemplo Treblinka”. O Secretário de Saúde referia-se aos locais criados pelos nazistas para eliminar judeus durante a Segunda Grande Guerra Mundial.

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Depois do sofrimento daquele pobre homem em um hospício, coincidentemente comparado a um campo de concentração nazista, não consegui saber qual foi o verdadeiro final de sua história, restou-me apenas ligeiras informações, não comprovadas, de que ele tinha esquecido completamente a "cabroeira de alemão" e restou-lhe somente uma profunda e incontrolada melancolia.

 

Aracaju, 18\09\2026

Beto Déda  

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