sexta-feira, 13 de maio de 2016


RASGARAM A CONSTITUIÇÃO PARA ANULAR MEU VOTO.

Meus pensamentos eram otimistas: acreditava que a democracia estava consolidada em nosso país. Ledo engano! Hoje, às vésperas de completar meus 75 anos, sinto-me amargurado ao presenciar a democracia ser covardemente golpeada. A faixa presidencial, instituída em 1910, foi açambarcada por um traidor golpista.
De 1988 a esta data vivíamos uma democracia. Hoje ela foi violada por golpistas apoiados por uma mídia partidária e interesseira, conhecida como PIG – Partido da Imprensa Golpista. Induziram uma parte da classe média – aquela que se julga elite e que nega sua origem – a aderir o golpe. Não passam de inocentes úteis àqueles que visam apenas assenhorear-se dos bens do país.
Rasgaram o meu voto e o de mais de 54 milhões de brasileiros. Fiquei amargurado, com raiva dos patifes que permitiram o ultraje à DEMOCRACIA.
É de se lamentar, ao perceber o símbolo da pátria sendo envergado por um presidente ilegítimo, usurpador e traidor.
Nossa democracia foi partida. Embora continue com pensamento democrata, lastimo, condeno e não respeito o pensamento daqueles que concordam e pugnaram para que o golpe ocorresse. Vão às favas com seus ideais nefastos e inconstitucionais.
Infelizmente passamos outra vez a fazer parte das “repúblicas das bananas”, tal qual o Paraguai e Honduras.  Nosso Brasil não merecia tal retrocesso. 
Prevalecendo os argumentos dos golpistas, qualquer Presidente – eleito democraticamente pelo voto direto do povo – será destituído quando discordar dos “interesses” da elite dominante e da sua imprensa subserviente. Os covardes, lesas-pátrias e inocentes úteis estarão disponíveis para apoiar a vil empreitada.  Desconjuro todos eles.
Mas não vamos esmorecer. 
Sem perder o fio condutor da democracia, vamos lutar para que seja restabelecido o meu voto e o de 54 milhões de brasileiros.
Como diz um verso do Hino Nacional - que era repetido por meu saudoso e querido sobrinho Marcelo Déda:
 “Verás que um filho teu não foge à luta”.
Aracaju, 13/05/2015
BETO DÉDA

sexta-feira, 6 de maio de 2016

LEMBRANÇAS DO MEU TEMPO NO BNB EM JEQUIÉ.
Convalescente de uma “virose”, eu passei esta semana revendo meus arquivos implacáveis que, desordenadamente, guardo-os em meu escritório.
Deparei-me, então, com duas folhas de uma edição de “O BENEBEANO”, um jornalzinho mural, que eu redigia e editava, expondo-o no mural de avisos das agências do Banco do Nordeste onde trabalhei; de modo especial em Simão Dias e Jequié.
Embora procurasse com atenção, debalde foram meus cuidados na busca de outros exemplares do jornalzinho. O único encontrado foi a primeira edição de “O BENEBEANO”, datado de outubro de 1978, quando eu trabalhava em  Jequié.   Mesmo assim, incompleto, com apenas duas páginas; a que constava os nomes da diretoria do BNB-Clube e o expediente do jornal não consegui encontrar. Apesar dos pesares é uma excelente recordação para mim e, acredito, para todos os colegas benebeanos que, naquela época,  comigo trabalharam na “Cidade Sol”.
Do BNB-Clube de Jequié tenho boas lembranças; especialmente das tardes de sábado, quando disputávamos peladas no terreno que clube adquiriu no Loteamento Cidade Nova, Bairro Kennedy. Destacavam-se no futebol os colegas Macdonald Assis, Sílvio Roberto e José Stefenson de Oliveira.  Lembro-me que em um desses jogos o Stefenson levou uma bolada na cabeça e perdeu os sentidos. Naquele dia ele não comandou o toque do “sambão”, que costumávamos ouvir degustando a cerveja paga pelos perdedores na pelada.
Na segunda página do jornal mural aparece a seção “Fofocas em Pequenas Doses”, em que faço humor com os colegas João Queiroz (de saudosa memória), Aventino, Chico Alves, Divan Carlos de Souza e Joel (que sabia nomear os jogadores das seleções brasileiras de todos os tempos).
Morei em Jequié por quase 6 anos: de 1975 até 1980. Neste momento, aguça-me a memória alguns fatos que relembro aos que conviveram comigo naqueles anos.
Naquela época circulava na cidade o “Jornal de Jequié”, dirigido por Eunísio Bonfim, e que fora fundado por seu cunhado e poeta Wilson Novais Silva, em 1945. Sempre que surgia uma oportunidade eu conversava com Eunísio sobre jornalismo e os trabalhos de edição de um jornal do interior. Fui convidado a realizar palestras para os alunos da Escolinha Prática de Jornalismo que ele dirigia. Conversei com os alunos da escolinha algumas vezes e abordei temas ligados ao tempo em que trabalhei no jornal “A Semana”, editado por meu pai, em Simão Dias, narrando detalhes de meu trabalho como tipógrafo, jornaleiro, repórter e diretor. Não conheci o poeta Wilson Novais Silva, mas lembro-me de admiráveis versos dele. Estavam expostos, em letras prateadas, na parede de um restaurante que servia maniçoba, prato muito conhecido e apreciado pelos sergipanos.
E por falar em restaurante, não me esqueço do “Restaurante Abruzzi” que funcionava na Avenida Rio Branco, de propriedade do imigrante italiano Mario, que tinha como sobrenome Aprilli ou Aprile. O cardápio constava de iguarias apreciáveis; destacando-se as pizzas e o melhor filé parmegiana que conheci em todos os tempos. Quando frequentava o restaurante gostava de conversar com o Sr. Mario e ele sempre falava da região onde nascera (ABRUZZI), cujo nome utilizou para denominar seu “ristorante”.
Durante o período que por lá morei, os prefeitos da cidade foram Landulfo Caribé, até 1977, e depois o Walter Sampaio. Mas o destaque mesmo era para o Caribé que era desportista, de fala espontânea e gozava de muito prestígio popular. Lembro-me que ele inaugurou uma praça – se não estou enganado, foi no bairro Jequiezinho – e lá colocou uma estátua em tamanho natural de um cavalo que fora campeão; não sei se de corrida ou pela raça. O fato é que o pessoal “tirava onda” do feito, designando o monumento de “INCITATUS”; lembravam o nome do cavalo que o Imperador Romano Calígula nomeou como senador e mandou construir uma estátua em mármore com um pedestal em marfim. Com seu carisma natural, Caribé fazia pouco caso das piadas, dizendo que se tratava de puro despeito da oposição.
Equipe da Associação Desportista Jequié - O goleiro era o
colega benebeano Edmílson Garcia
Jequié tinha um time de futebol (Associação Desportista Jequié), que foi fundado em 1969. Eu era torcedor e, aos domingos, frequentava o Estádio Valdomiro Borges. O time tinha como mascote um grande bode, que um torcedor levava para o campo, posicionando-se em frente à arquibancada. Durante certo tempo o goleiro do time era nosso colega Edmílson Garcia.  Lembro-me agora de uma partida entre o Jequié e o Bahia, em que o Edmílson fechou o gol. Não passava nada. O colega grandalhão pegava todas, inclusive os chutes certeiros dos artilheiros do “Baêa”. O jogo terminou empate e sem gol. Dias depois, o time de Jequié foi jogar na Fonte Nova. Na semana antes do jogo, o Edmílson dizia aos colegas do BNB que ia repetir a dose, fechar gol e aparecer na parte esportiva do programa Fantástico, na TV Globo. O fato é que o time do Jequié somente conseguiu segurar os companheiros do grande jogador Baiaco até o final do primeiro tempo. Depois de receber o segundo gol, o Edmílson encabulou e levou uma goleada inesquecível. A promessa do Garcia foi realizada ao contrário: apareceu na televisão, em edição nacional daquele domingo, como o goleiro mais vazado do mês. E o próprio Edmílson, com seu modo alegre de ver as coisas, fazia gozação do feito.
São muitas as lembranças alegres da cidade banhada pelo Rio de Contas.
 ARACAJU, 06/05/2016
BETO DÉDA



sexta-feira, 29 de abril de 2016


A ZABUMBA DE TERTO MANGUEIRA E A PROMESSA DE "CAÇULA BÊBA".
 
Disse-me uma amiga de Simão Dias que um estudante, seu colega, estava fazendo um estudo sobre as bandas de pífanos e indagou-me se eu conhecera alguma. Conheci e lembro-me bem de uma delas. Só que tem um detalhe, nos velhos tempos, em nossa terra, elas eram conhecidas como zabumbas. Compreendiam um instrumental composto por um bombo (zabumba), uma caixa de percussão e duas gaitas feitas de taboca ou bambu. Pífano é o apelido que dão às nossas gaitas (das quais o meu cunhado era tocador e fazia recital, conforme já mencionei e apresentei vídeo no facebook !!!!!).
   A Praça de São João em Simão Dias (Foto Beto Déda-1989)
 
Pois bem, nos meus tempos de criança, nas tardes de domingo, os adultos tiravam uma boa soneca em redes, cadeiras de balanço ou espreguiçadeiras, conhecidas como preguiçosas.  Enquanto isso, a meninada aguardava a chegada dos vendedores ambulantes de doces, que regularmente passavam pela Praça de São João.
Aparecia por lá o Seu Antônio, com seu gorrinho e avental azul-marinho, vendendo quebra-queixo, com seus sonoros gritos: “Olha o quebra-queixo da Bahia! Tá melhor do que ontem”. E apoiava o tabuleiro de zinco em um tripé e cortava o doce grudento em pequenas talhadas. Para cada pedaço que vendia por moedas de quinhentos reis (com efígie de Getúlio) ele dava o nome de um peixe que se pescava no Tanque Novo ou no Riacho Caiçá: o corte fino era chamado de “traíra” e o pedaço gordinho apelidava de “corró”.
Também aos domingos, invariavelmente, passava pela Rua dos Ribeiros e pelo Parque a Dona Maria Itabaiana, com um tabuleiro repleto de cocada de variados sabores e cores: branca, preta, alaranjada e cocada-puxa.
Só em me lembrar delas fico com água na boca. Uma delícia!
Logo depois, quando sol começava a esfriar, para nossa alegria, surgia a Zabumba de Terto Mangueira, um senhor moreno, alto e simpático. E na Praça de São João todos apareciam para se admirarem com o formidável som do instrumental caboclo. Mestre Terto, batendo o bombo, cadenciava a zabumba; Tonho de Filomena batia a caixa, enquanto Zé Dicuri e Timbira do Pife tocavam gaita e dançavam.
 A Zabumba do Mestre Terto era presença certa em muitos folguedos da época e sempre acompanhava as procissões de pagamento de promessa.
Lembro-me agora que acompanhei uma dessas procissões que contou com a participação da Zabumba do Mestre Terto.
A procissão aconteceu como pagamento de uma promessa feita por Caçula, mulher do Broco da Usina.  Na minha visão de garoto, Caçula era uma senhora simpática, de rosto comprido, sobrancelhas altas, com faces rubras e beiços meio carcomidos, pintados com batom bem vermelho. O cabelo era curto, meio ruivo e encaracolado, e usava brincos grandes e vistosos, descendo pelo pescoço comprido. Os olhos eram miúdos e avermelhados e as sobrancelhas altas. (E aqui pra nós, hoje, quando vejo a fotografia da genial economista portuguesa Profª. Maria da Conceição Tavares minhas lembranças se voltam pra Caçula do Broco, feições muitos parecidas – aliás, a única semelhança entre ambas –, embora a nossa conterrânea apresentasse evidentes sinais de sua amargurada vida).
Mas vamos ao caso.  A Caçula gostava de uma pinga. Das puras era o que ela mais consumia; o pileque ficava mais barato. Passou a ser conhecida pela meninada como  "Caçula Bêba”. Puxava fogo e rodava a saia. Quando sóbria confidenciava que tomava birita por duas razões: primeiro porque gostava realmente de pinga, e, segundo, porque o pileque servia de paliativo aos seus dissabores, fortalecendo-a para aturar os chamegos do Broco da Usina. Inveterou na cana e se viu em apuros. Por fim, cansada dos percalços do vício, fez uma promessa para deixar a bebida. E realmente deixou.
A promessa era organizar uma procissão e participar de uma missa no povoado Cachimbo. E ela cumpriu.
Foi realizada a procissão com acompanhamento de muitas pessoas e ao som da Zabumba do Mestre Terto. Eu acompanhei o cortejo, segurando na mão de minha tia Nice Enfermeira, atento ao som da gaita de Zé Dicuri e ao toque ritmado da zabumba.
Não esqueço o semblante de Caçula, com um véu cobrindo suas curtas madeixas, toda contraída, rezando e agradecendo por ter deixado a “marvada” pinga.
...
Mas há controvérsia sobre este desfecho. Liderados por Bilau Língua de Trapo, os de pouca fé diziam ter visto, dias depois, Caçula fazendo beicinho, emborcando a branquinha, babando, rodando a saia e, com os olhos miúdos e vermelhos, tecendo loas à Zabumba do Mestre Terto e prometendo organizar nova procissão.
Aracaju, 29/04/2016
BETO DÉDA

sexta-feira, 22 de abril de 2016


O AMIGO GILBERTO E AS LEMBRANÇAS DE MINHA TERRA.
Há alguns dias tive a satisfação de conversar com o meu amigo Gilberto Duarte através do telefone. Gilberto é um bom mineiro que conheço desde os velhos tempos do Banco do Nordeste, quando trabalhávamos em Simão Dias. Ele é uma pessoa calma e de lhaneza no trato. Sempre tranquilo e com abordagens serenas e inteligentes.
 
Tínhamos muita coisa em comum, especialmente o hábito da boa leitura. Líamos muito e gostávamos de discutir literatura, algumas vezes saboreando uma taça de vinho “San Raphael”, que comprávamos na Padaria do Gumercindo.
Certo domingo à tarde, na Pensão de Dona Miné, tomamos um porre de vinho e passei a discursar sobre algum acontecimento local, gerando ligeiros protestos de alguns hóspedes. Um dos reclamantes era um Sargento que exercia o cargo de Delegado Regional da cidade e que dizia ser amigo de nossa turma. Naquela tarde, ele ouvia um rádio que transmitia futebol. Fez a reclamação de longe, tentando modificar a voz para que não o identificássemos. Mas foi percebido e na mesma semana o Gilberto deu o troco.
O Sargento costumava ouvir músicas sertanejas bem cedinho e o fazia com o som do rádio nas alturas. Então, o Gilberto gritou, fazendo entender que não sabia de onde vinha o som: “Dona Miné, fala para esse mouco desligar o rádio, isso não é hora!”    O Sargento ouviu, desligou o rádio e, depois, caladinho, sem tocar no assunto do meu discurso e do som do rádio, apareceu para tomar café na mesa que o Gilberto estava. E participou desconfiado das conversas matinais...
Em algumas ocasiões, quando eu ia fazer alguma cobertura para o jornal “A Semana”, o Gilberto me acompanhava e também escrevia notícias, inclusive policiais, colhendo informações do Sargento-Delegado. Escrevia muito bem.
Na conversa que tivemos recentemente, o Gilberto viu o vídeo que fiz sobre a feira de Simão Dias e lembrou-se também de um fato muito engraçado que o tio Sininho me narrara. Repasso pra vocês tal qual o fizera para o Gilberto nos velhos tempos.
Sempre à noite, depois do jantar eu ia até a casa do meu tio para conversar amenidades e aprender seus ensinamentos. Após o café, ele fica na cabeceira da mesa pitando seu cachimbo e, calmamente, comentava os acontecimentos da cidade. O meu tio não escapava ao dom humorístico e chistoso que sempre esteve presente entre os membros de nossa família. Não é demais dizer que eu ficava vidrado em seus comentários e ria das suas intervenções sobre minhas gafes e erros. Não me esqueço de muitas delas.
Em uma noite de sábado ele pediu-me que eu lesse em voz alta um artigo do jornal. O artigo versava sobre a feira. Fiz pose e comecei a ler a notícia, mas logo passei a gaguejar e titubeando li a frase “OS ‘FERREIROS’ protestaram contra...” Então ele me interrompeu e pediu que eu repetisse a frase. Reafirmei e ele ensinou:
-Que ferreiros que nada, garoto! Não notou que a palavra tem apenas um erre. Parece até que seu pensamento está voltado apenas para a foice e a enxada que Manequinha e Altamiro venderam recentemente pra seu pai. Preste atenção e lembre-se: ‘FEREIRO’ vem de feira, com apenas um ‘R’; enquanto ‘FERREIRO’ vem de ferro, com erre dobrado. Preste atenção e aprenda!
E tirava o cachimbo da boca e dava uma boa gargalhada que eu alegremente compartilhava... E aprendia!
Foto Beto Déda da antiga feira de Simão Dias.
 Naquela mesma noite ele contou-me um fato muito engraçado. Dizia ele que estava todo concho na Avenida Coronel Loiola fazendo a feira do dia de sábado. Em frente à barraca de Seu Félix, ele começou a sentir um forte desconforto provocado por excesso de gases na barriga. Discretamente, olhou para um lado e para outro e, no meio da algazarra comum, liberou os gases que o incomodavam. Dizia ele que foi um "pum" desses meio silenciosos que o popular chama de “puxa facão”: um simples “fisssuuup”. Aliviado do incômodo, ainda olhando de lado, ele ouviu o protesto do Seu Félix:
- Êta molecada sem educação, soltam esses puns fedorentos na presença de um homem com seu Sininho. Tenham respeito! Fora molecada! E batia com força no saco de feijão, tapando as narinas e enxotando os meninos.
Velhos tempos, alegres dias...
Aracaju, 21/04/2016
BETO DÉDA

sexta-feira, 8 de abril de 2016



LEMBRANÇAS DO CIRCO NERINO E OUTROS ACONTECIMENTOS CIRCENSES EM SIMÃO DIAS.

Na última semana, quando escrevi sobre o serviço de alto-falantes de nossa cidade, dois fatos levaram-me a recordar de espetáculos circenses que aconteceram em nossa terra. Primeiro foi a lembrança de um vídeo com o saudoso Floriano Nascimento (fita em VHS que infelizmente ainda não consegui recuperar); depois foi um comentário do primo Heraldo Déda sobre o Circo Nerino.

Na entrevista que fiz com o Floriano, conversarmos sobre os serviços de alto-falantes existentes em de Simão Dias nos anos 50 e, de modo especial a TUPY, que tinha um horário dedicado ao programa “A Crônica do Dia”. Eram lidos artigos escritos sobre a cidade, muitos deles de autoria de meu pai e de tio Sininho.

Conservo em meus arquivos o original de um dos artigos escritos por meu pai e lido pelos locutores da Tupy: “Simão Dias e o Circo Nerino”. Ao escrevê-la meu pai usou o pseudônimo: Tio João.

O Nerino foi o maior circo que se apresentou em nossa cidade. Não só pelo tamanho, como pela variedade e qualidade do espetáculo, quer no picadeiro ou nas peças teatrais. Daquele tempo, recordo-me de alguns pontos marcantes: o palhaço Figurinha, a apresentação dos cavalos amestrados e uma peça teatral denominada “A louca do jardim”. Em um dos atos dessa peça aparecia uma das artistas, interpretando a louca, com os cabelos desgrenhados e que, a um só tempo, chorava e dava longas gargalhadas. Durante algum tempo, quando deparávamos com uma garota em exagerado choro, apelidávamos de “louca do jardim”, lembrando a personagem bipolar da peça circense.

Outra lembrança era a cestinha de vime, que bonitas garotas do circo portavam para vender guloseimas entre os espectadores. Foi a primeira vez que presenciei a venda de maçãs em Simão Dias: maçãs vermelhas, “in natura”, que irradiavam um perfume inconfundível (as frutas de hoje não exalam o cheiro como as de antigamente), e maçãs embebecidas em caldas de açúcar com anilina vermelha, espetadas em palitos de picolé, conhecidas como maçãs do amor. Tudo, mas tudo mesmo era uma novidade maravilhosa para os meninos, como eu, tabaréus do interior.

Depois do Nerino, muitos circos de menor tamanho se apresentaram na cidade. Cada estreia era motivo de contentamento para a gurizada. Geralmente os circos menores anunciavam os espetáculos por meio de seus palhaços, que percorriam as ruas da cidade, no alto de pernas de pau, empunhando um megafone artesanal (um cone de zinco parecendo um funil) para ampliar o som. O palhaço era seguido pela meninada, batendo pedras entre as mãos e cantando em coro. Lembro-me que eu também participei da turma que acompanhava o palhaço.

Certa vez, juntei-me aos colegas de futebol da Praça de São João: Tonho e João de Seu Manequinha, Miraldo de dona Zifinha, Sorrindo, Rosalvo, Zelito e outros. Fomos todos ao bairro Bonfim, onde o circo estava armado, para acompanhar o palhaço pelas ruas da cidade, batendo pedrinhas e respondendo suas chamadas em canto uníssono:
Oh, raia o sol, suspende a lua:
Olha o palhaço no meio da rua.

 Hoje tem espetáculo?
Tem sim, senhor!

Começa às oito horas de noite?
Começa sim, senhor!

Tem goiabada?
Tem sim, senhor!

 Tem marmelada?
Tem sim, senhor!

E o palhaço o que é?
Ladrão de mulher!

Arrocha meninada!

Ihhhhhhhhh (gritava a garotada). E ouvia-se o incentivo do palhaço: “Mais um pouquinho, turma...”, “Mas um bocadinho... E nossos gritos e o som da batida de pedras ecoavam pelas ruas de Simão Dias.

 Depois, o palhaço pintava o pulso de cada garoto com uma marca de tinta preta, de modo a permitir a entrada grátis no circo.

Naquele dia, eu fiz um esforço medonho enquanto tomava banho, de modo a não molhar o pulso e evitar que a marca desaparecesse.
Mas à noite, quando me preparava para o café com o delicioso cuscuz de milho ralado, minha mãe notou que meu pulso estava sujo. Olhou com cuidado e uma de minhas irmãs exclamou:

- É a marca dos meninos que batem pedra e gritam acompanhando o palhaço. Com essa marca entram no circo sem pagar.
Minha mãe desaprovou meu comportamento, levou-me ao lavatório próximo à sala de jantar, lavou meu pulso, apagou a bendita marca e passou-me um sermão.

Naquela noite não saí de casa. No entanto, embora fosse fã de espetáculos circenses, não fiquei chateado. O melhor já tinha acontecido, quando juntamente com meus colegas da Praça de São João acompanhei o palhaço, cantando alegremente e batendo pedrinhas na palma da mão.
Foram momentos de imensa alegria e que ainda hoje permanecem indeléveis em minha memória.

(PS – Estas lembranças eu dedico aos amigos e companheiros dos velhos tempos e, de modo especial, ao saudoso Floriano Nascimento).

ARACAJU, 08/04/2016
BETO DÉDA

A seguir cópia do artigo escrito meu pai. Vejam que beleza de artigo:


 
Primeira página da crônica escrita por Carvalho Déda: Simão Dias e o Circo Nerino.
 


Página 2 da crônica escrita por Carvalho Déda: Simão Dias e o Circo Nerino.

Página 3 da crônica  escrikto por Carvalho Déda: Simão Dias e o Circo Nerino.

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 7 de abril de 2016


AS PIRUETAS DE MEU NETO E AS LEMBRANÇAS DA CANÇÃO "MEU PRIMEIRO AMOR" TOCADA NO SERVIÇO DE ALTO-FALANTES TUPY.
 
Domingo passado, meu neto brincava sozinho e – fingindo que não estava me vendo – fazia caretas e gestos para que eu percebesse e risse.
 
 
Lembrei-me, então, que nos velhos tempos, eu fazia também minhas palhaçadas para admiração dos outros, sem demonstrar que os via, embora de soslaio me certificasse de que era percebido.
 
 Recordo-me, agora, das piruetas esquisitas que fiz para impressionar minha primeira namorada. Eu devia ter 12 anos de idade e a garotinha morava próximo a minha casa, na Rua dos Ribeiros. Era o tempo em que o namoro acontecia através da troca de discretos olhares. Somente depois de muita conversa e aproveitando-se de um descuido, conseguia-se um ligeiro e roubado beijo. Coisas dos meninos daquela época.
 
As lembranças de minhas peripécias como iniciante galanteador fizeram vir à memória dois pontos interessantes dos bons tempos: a canção “Meu Primeiro Amor”, cantada por Cascatinha e Inhana, e o serviço de alto-falantes denominado “TUPY”, que nos anos 50 funcionava em Simão Dias e tocava aquela saudosa música.
 
 A sede da Tupy ficava na Rua do Coité, em uma sala estreita, com um batente alto, próximo à casa de Dr. Belmiro Gois. O serviço de som era transmitido por diversos alto-falantes, distribuídos em pontos estratégicos da cidade: na Rua do Coité (em frente ao Bar de Valério), no Bonfim (em frente à casa de Dão Rodrigues), na Rua do Pastinho (em frente à tenda de Seu Caboclo), na Rua da Feira (entre a Prefeitura e a Loja de Elísia Montalvão) e outros lugares. Os principais locutores eram Floriano Nascimento e Demerval Guerra.
 
As pessoas iam à sede da Tupy, pagavam uma pequena taxa e faziam bilhetes parabenizando os aniversariantes e dedicando músicas de cantores de sucesso (Emilinha Borba, Orlando Silva, Marlene, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Sílvio Caldas, Carlos Galhardo, Ângela Maria, Ataulfo Alves e outros não menos apreciados). Os rapazes trocavam delicadezas com as moças, oferecendo músicas e enviando mensagens codificadas.
 
Não obstante minha pouca idade, lembro-me que mais de uma vez fui até a sede da Tupy e, sorrateiramente, deixava sobre o balcão, próximo ao locutor, um bilhete dedicando uma música para minha primeira namorada. E ficava atento, esperando que transmitissem a minha mensagem e tocassem a música escolhida.
Com um sorriso largo, olhando a garota a pouca distância, ouvíamos o inesquecível timbre de voz do Floriano Nascimento, ao anunciar minha mensagem:
- Para a garota de olhos meigos da Rua dos Ribeiros vai esta canção que lhe dedica um jovem admirador...
 
E rolavam o disco de Sílvio Caldas: “A Deusa da minha rua”.
 
 Acontecia, então, a apoteose do meu devaneio ao perceber o leve sorriso dos olhos meigos aprovando meu galanteio...
 
Aracaju, 02/04/2016
BETO DÉDA

quarta-feira, 16 de março de 2016


Relembrando o Grupo Escolar Fausto Cardoso.
Na última sexta-feira, dia 11, estive em Simão Dias, participando da Abertura da Exposição Fotográfica Déda Presente (Fotografias de Janaína Santos e de Marcelo Déda). A solenidade aconteceu no Grupo Escolar Fausto Cardoso, onde Marcelo estudou e naquele dia, se vivo estivesse, ele completaria 56 anos de idade.


A data foi escolhida para iniciar a fase itinerante da Exposição Fotográfica que homenageia a história de um homem e gestor público que, com apenas 53 anos de vida, realizou mudanças significativas na vida dos sergipanos.
 
Foi uma homenagem bonita, com interpretação de poemas de autoria de Marcelo e apresentação da orquestra de jovens do Bairro Santa Maria, de Aracaju, que ele foi um grande incentivador.
 
Não é demais dizer que me emocionei com as palavras dos oradores e, de modo especial, as de Belivaldo Chagas ao lembrar as brincadeiras dele e do meu saudoso sobrinho quando eram alunos daquela escola.  

 

O Grupo Escolar Fausto Cardoso nos encanta pela tradição do bom ensino e nos orgulha saber que alisaram seus bancos conterrâneos ilustres que honram Sergipe: políticos (governadores, senadores, prefeitos, deputados e vereadores), juristas (desembargadores, juízes e advogados), intelectuais (atores, poetas, escritores e jornalistas). Muitos deles imortalizados em Academias de Letras do nosso Estado. 
 
Já escrevi para os amigos do facebook e os leitores desse blog  algumas lembranças de nossa tradicional casa de ensino. Repasso algumas delas para avivar a memória dos conterrâneos.
 
Dizem os mais velhos que aquele prédio foi construído no século passado, lá pelos anos 20, e que a águia que encima o seu topo representava a marca do governo Graccho Cardoso. Era, e ainda hoje é, um prédio imponente, com suas escadarias, cujos corrimãos, também de cimento, deslizávamos em rápidas descidas, puindo os fundilhos de nossas fardas.
 
Muitas são as recordações que tenho do velho grupo escolar. Para início, vamos lembrar o hino e do jornalzinho de nossa escola.
O Canto Orfeônico

Além das aulas normais do curso primário, a querida Prof. Olda do Prado Dantas também ensinava canto orfeônico. E suas aulas transbordavam bondade e alegria. Aprendíamos os hinos pátrios e outros cantos, dentre os quais o que chamávamos de “pastorzinho que solfejava”, de refrão inesquecível:
“Havia um pastorzinho, que vivia a cantar: dó-ré-mi-fá...fá-fá... dó-ré...ré-ré... sol-fá-mi...mi-mi... do-ré-mi-fá...fá-fa”

Todos os dias, no início e no final do turno, tia Vina Déda ou d. Rosália tocava o sino e todos os alunos perfilavam-se no grande corredor para cantar o hino escolhido para dia (Hino Nacional, da Independência, da Bandeira etc.), culminando sempre com o hino do próprio grupo, de letra do meu saudoso pai, que além de outras atividades era inspetor escolar e foi diretor daquele Grupo. Relembro aqui os versos de nosso hino:
 "Somos do Grupo Fausto Cardoso/
Disciplinados estudantes.
Cada estudante, um corajoso
E cada mestre, um bandeirante.

 
A escola chama, a pátria quer
Que a juventude venha aprender/
Os nossos livros são os instrutores
Que nos ensinam a combater.

 
A pátria quer que o juvenil,
Estudioso e varonil,
Seja a defesa do Brasil."
 
E cantávamos, com muito garbo, sob a regência da querida professora Olda. Bons tempos, felizes dias...

O jornalzinho “O Ideal”
 Embora não tenha sido do meu tempo, dizem os que ali passaram em épocas anteriores, que o grupo escolar tinha um jornalzinho, intitulado “O IDEAL”, fundado no ano de 1934 pelos alunos do 4ª ano e publicado sob a supervisão do diretor da escola.
 
 É verdade! Sua publicação se estendeu até a primeira metade dos anos 40, conforme atesta o exemplar que escapou da voraz ação do tempo; uma edição de 1º/Out/1942, época que a cidade tinha o nome de Anápolis.
 
No ano de 1942 a diretoria do jornalzinho era composta dos seguintes alunos: o diretor era José Rosa Montalvão, irmão de Hélio, de Iolanda e tio de José Carlos Montalvão; o secretário era José Matias Neto – sobrinho de Francisco Matias–; o tesoureiro era Alexandre Cardoso da Silva, filho do José Leonel, irmão de Pedro, Cecília e Rita Cardoso.
 
Escreveram nesse exemplar que conservo em meus arquivos (número 36, de 1º/out/42): além dos diretores, os seguintes alunos: Valdeci Oliveira Fonseca (filha de Messias Fonseca, gerente dos Correios/Telegrafo), Maria Conceição Santos, Josefa Correia Santos, Marieta Fonseca, Valdeci Guerra (filha de Cícero Guerra), Zaíra Oliveira (filha de Milton Oliveira), Mariolanda, Francisco Teles e Diógenes Carvalho. Também tem um artigo de meu pai: “Reminiscências Anapolitanas”. Ele era o diretor do Grupo Escolar, orientador e supervisor do jornalzinho e nesse artigo usou o pseudônimo CARDÉ (sílabas iniciais de Carvalho da).

Vejam a seguir fotografias de formaturas dos anos 40 e 50 e as páginas do jornalzinho do Grupo Escolar Fausto Cardoso, de Simão Dias, que na época era denominada “Anápolis”.
Aracaju, 15/03/2016
Beto Déda


Turma de 1941

 


Turma de 1953
 
Primeira página da jornal O Ideal - do Grupo Escolar Fausto Cardoso. O artigo "Reminiscências Anapolitanas" foi escrito por Carvalho Déda, que era o Diretor do Grupo Escolar e que incentivou a publicação do jornalzinho.


Nesta segunda página, nota-se o Expediente do jornal, com os nomes dos alunos dirigentes, e notícias escritas pelos estudantes.

Na 3ª página vemos também outras notas e artigos escritos por estudantes.


Na 4ª página, o Balancete da prestação de contas e outros artigos escritos pelos alunos.