quarta-feira, 2 de setembro de 2020

 

RECORDAÇÕES DE MEU SAUDOSO PAI.

 

Nas primeiras horas da madrugada desta quarta-feira, dia 02 de setembro, surgiram lembranças de um dia inesquecível em minha vida. Não gosto de lembranças tristes, mas não posso esquecer os últimos dias de vida do meu saudoso pai, José de Carvalho Déda. Foi justamente há 52 anos, no alvorecer do dia 02 de setembro de 1968, que ele foi vítima de um enfarte fulminante e passou desta para outras paragens.

 

Lembro-me a amargura que me causou aquele desenlace. Eu tinha um convívio muito apegado ao meu pai. Desde garoto, com 12 anos de idade, com ele trabalhei no jornal “A Semana”.  Ele foi meu grande mestre e herói, orientando-me com exemplos formidáveis de sua vida de lutas.

 

Naquela triste semana, com o coração em prantos, cuidei da edição do jornal, com ampla reportagem sobre seu súbito falecimento. Não esqueço que, ao entrar na sala de redação, lá encontrei sobre sua mesa de trabalho o editorial e a xilogravura que ele preparara no domingo pela manhã, e que publiquei na edição que noticiou sua inesperada morte.

 

Passados tantos anos daqueles momentos tristes, continuo a lembrar e sonhar sempre  com ele, que continua vivo em minhas lembranças. É o meu herói imortal.

 

Recentemente, no final do mês de agosto, lembrei-me dele ao assistir na Televisão uma reportagem sobre Hiroshima, cidade japonesa que foi arrasada em 1945 por uma bomba atômica lançada pelos Estados Unidos.

 

A lembrança me ocorreu porque meu pai escreveu, em 1956, um artigo sobre aquele impiedoso bombardeio, com o título “Promessa de Caboclo”, publicado no jornal “Correio de Aracaju”, em 30/05/1956.

 

Para os que gostam de uma boa leitura, reproduzo abaixo aquele artigo, no qual meu pai descreve o problema da bomba atômica, comenta, com ironia, a artimanha dos americanos ao se aproveitarem do minério brasileiro e, a propósito, narra de modo chistoso uma historieta de nosso folclore. Vale a pena ler:

 

“A PROMESSA DO CABOCLO

 Escrito por CARVALHO DÉDA, em 30/05/1956

Há cerca de onze anos, numa manhã formosa de céu límpido, três aviões americanos sobrevoavam à grande altura, a cidade japonesa de Hiroshima.

Coisa trivial naqueles tempos de guerra. Aos olhos dos habitantes da cidade sobrevoada, parecia que aquela pequena esquadrilha realizava apenas um voo de reconhecimento. Mas não foi assim. Em dado momento, um estrondo infernal abalou toda a região, e um clarão intenso, ofuscante, trágico e diabólico iluminou a cidade de ponta a ponta. E num abrir e fechar de olhos Hiroshima ficou reduzida a uma cidade arrasada em cujo solo 250 mil corpos humanos jaziam completamente carbonizados.

O mundo tremeu apavorado. Naquela hora tremenda a era atômica atingia sua plenitude.

Não havia ainda se sumido o último eco da terrível explosão e as cúpulas das nações já se empenhavam no descobrimento do segredo atômico. Souberam que a "peste" era fabricada com monazita e sais de tório. Quem possuía um pouquinho daqueles fabulosos metais atômicos, tomava suas imediatas cautelas, guardando-as à sete chaves. Somente o Brasil, displicente, ingênuo e folgazão, continuava dormindo a sono solto e de pés espalhados nas coloridas praias de Guarapari, em cima das imensas reservas de matéria atômica!

Aquelas areias coloridas serviam para enfeitar as nossas praias e, quando muito para a fabricação dos incandescentes véus das petromax e para fazer pedras de isqueiro. Os americanos quiseram comprar nossas areias. Matutamos: — Pra quê?!... E chegamos a uma conclusão ingênua: — Bons sujeitos, estes americanos! Não tendo mais que fazer com tanto dinheiro, querem nos proteger comprando simples areias!   Pois, areia neles!...

Sucede que os bons sujeitos quiseram negócio seguro, e exigiram o preto no branco. — Seguro morreu de velho.

Firmou-se o acordo e o Brasil passou a vender suas reservas de monazita a preço de dez reis de mel coado. Mas eram favas contadas e o Brasil continuava sendo o país da fartura...

Tudo corria bem, até que um dia alguém botou a boca no mundo. Aquele acordo não podia prevalecer por mais tempo. O cumprimento da promessa de venda importava na saída, para começo de conversa, de 24 toneladas de monazita, quase de mão beijada! Matéria prima para a fabricação de bombas atômicas. 24 mil toneladas! E a bomba de Hiroshima pesava apenas 230 gramas!

E foi um bê-rê-rê dos diabos. Porcos na roça do Governo. Abriram-se os debates no Congresso e na imprensa. De um lado os que não se conformavam com o cumprimento da promessa. Ora bolas! Promessa só de Cristo!...

De outro lado os que se batem pelo cumprimento da palavra empenhada. — O boi pela ponta e o homem pela palavra... Promessa é dívida!...

E chegamos diante de um dilema: não pagar a promessa e fazer a palavra do Brasil desacreditada como palavra do cigano, ou mantê-la a todo custo, doa a quem doer.

 

xxx

 

Aí estão duas histórias. A triste, da Hiroshima arrasada com 250 gramas de droga, e a velha história do brasileiro que só fecha a porta depois de roubado. Mas, como história puxa história e conversa puxa conversa, vou contar uma historieta do nosso folclore:

Conta-se que um caboclo, precisando de chuva para o seu roçado, fez uma promessa ao santo da sua devoção. Daria ao santo o preço da venda da sua vaca de leite, se chovesse no seu roçado. Feita a promessa com todos os efes e erres da fé nordestina, a chuva caiu mesmo no roçado.

Agora, o que preocupava o caboclo era o pagamento da pesada promessa. Fora realmente insensato, prometendo tanto. Sua vaca, vendida pelo barato da época, valia 500 mil reis! Mas, promessa é dívida...

O caboclo matutou, coçou a barbicha, cuspia entre os dentes, pigarreou e resolveu pagar a promessa. Anunciou a venda da vaca. Espalhou aos quatro ventos que venderia a vaca pelo preço irrisório de 2 mil reis. Mas havia uma condição: quem comprasse a vaca era obrigado a comprar também um galo velho. Vaca e galo. E tabelou os preços: vaca, 2 mil réis, o galo 500 mil réis...

Como o exagerado preço do galo ficou equilibrado pelo baixo preço da vaca, a venda se realizou sem dificuldades, em conjunto, vaca e galo ao mesmo comprador.

Embolsado do preço da venda em conjunto, o caboclo correu aos pés do santo e depositou os 2 mil réis da vaca no mealheiro sagrado. Estava paga a promessa sem maiores sacrifícios para o caboclo. O santo resignou-se, por isso que, segundo a tradição popular, continuou chovendo na roça do esperto caboclo.

Não vai nesta historieta nenhuma insinuação velhaca ou capciosa, mas entendo que, se entregassem o rumoroso caso da dívida a um caboclo do sertão sergipano, ele resolveria a questão, condicionando a venda do tório à dos abacaxis que possuímos. Quem comprasse o nosso tório seria obrigado a comprar os abacaxis; abacaxis de todo o gênero. O tório ao preço de vaca, mas os abacaxis ao preço de galo.

Façam isto e deixem o resto por conta do caboclo.

 (Correio de Aracaju – nº 5.049 – 30-05-1956)

 

 Aracaju, 02/09/2020

BETO DÉDA

Fac-símile do artigo no jornal "Correio de Aracaju",de 30.05.1956 :



 


domingo, 30 de agosto de 2020

 

Humor  nos jornais e nas redes sociais.

 

Nesta semana andei relendo antigos jornais de minha terra. No jornal “A IDEIA”, que era editado em 1883, se tem notícia que em Simão Dias, naquele ano, já existia um ativo teatro. Soube disso ao ler a seção humorística, publicada na edição nº 6, de 06.05.1883, daquele jornal. Repasso aquela notícia para os que gostam de história e de humor:

“ Certo roceiro, sem conhecer dos costumes da cidade, teve que assistir a representação de certo drama.

Em um dos intervalos sai e procura uma das esquinas do teatro e ali se põe a mijar. Um cambista então se lhe aproxima e com um bilhete na mão oferece-lhe uma cadeira. Mas ele não vendo a cadeira de que lhe falavam, responde desconfiado:

- Senhor, obrigado, eu mijo de pé mesmo, é mais bom.”.



Naquele ano o teatro funcionava em uma casa na Rua do Comércio Velho, hoje conhecida como Rua Cônego Andrade. 

Nas minhas pesquisas sobre os jornais simãodienses, notei que em quase todos eles havia uma seção humorística. Quando não tinha uma parte específica para anedotas, o humor era bem utilizado em algumas notícias do cotidiano da cidade. No jornal “A Semana”, por exemplo, o humor esteve sempre em suas páginas, quer através de uma seção de anedotas ou nas xilogravuras de Carvalho Déda, na seção “Piada da Semana”.

Atualmente, muitas notícias políticas, divulgadas pelos jornais, alimentam os humoristas e também se transformam em um elenco formidável de piadas nas redes sociais.

Recentemente, a notícia de que o Presidente, ao visitar Aracaju, colocou um anão nos braços, pensando se tratar de uma criança, foi motivo de um montão de piadas por este país afora.

Este fato me fez lembrar o humor do meu querido primo Zé, que era mestre em contar piadas de um imaginário estudante chamado Joãozinho, personagem pitoresco que gostava de linguagem chula. Há muito tempo meu primo me contou uma piada que repasso para os amigos.

O Joãozinho estava em sala de aula e a professora fazia perguntas aos alunos, usando como mote as letras do alfabeto. Sabendo que Joãozinho era escandaloso, reservou para ele uma letra que dificultasse o uso de palavra de sentido obsceno. Então fez a seguinte pergunta:

- Joãozinho diga uma palavra começada com a letra “A”.

O desbocado Joãozinho pensou, pensou. Demorou um pouco. Sentiu dificuldade em encontrar, em seu vasto vocabulário chulo, uma palavra iniciada com a letra “A”. Mas não perdeu a oportunidade. Então,  decidiu inovar e responder com uma explicação safada:

- Professora: já sei!  A palavra é ANÃO, mas com uma p... deste tamanho. E abria os braços para mostrar a potência do anão.

Se esta piada fosse contada hoje, certamente meu primo comentaria:

- Como diria o moleque Joãozinho, esse negócio de pôr anão nos braços não é uma boa...

 Aracaju, 30/08/2020

BETO DÉDA


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

A RUA DOS RIBEIROS EM SIMÃO DIAS

Na semana passada, o colega Paulo Afonso, que reside em Fortaleza, ao ler o meu último texto sobre as lembranças de artesãos simãodienses, enviou mensagem dizendo que os personagens ali mencionados eram quase idênticos aos que atuaram em sua terra natal, SOUSA-PB. Acrescentou, ainda, que gostou de saber que havia em Simão Dias uma Rua dos Ribeiros e, em tom de brincadeira, indagou: “Quem sabe se essa família homenageada não tinha raízes em meu torrão natal?”.

A mensagem do meu amigo foi o sinal para rever meus implacáveis arquivos, para procurar alguma informação sobre os membros da família RIBEIRO, que na época deram o nome popular à rua que eu nasci.

Primeiramente, lembrei-me que tinha lido uma notícia sobre um jovem Ribeiro em jornais antigos que me foram remetidos pelos Professores e Historiadores Jorge Bastos e Amanda Santos. Como não localizei as cópias que eles me enviaram, consultei o site da Hemeroteca Digital na Biblioteca Nacional Virtual e ali encontrei um arquivo com dois exemplares do jornal “A Ideia”, editado em nossa terra, edições de 25-03-1883 e de 06-05-1883, nos quais constam notícias sobre Tibúrcio RIBEIRO, que o jornal diz se tratar de moço esperançoso, inteligente e probo que prestou provas e foi aprovado e nomeado para exercer cargo no Tesouro Provincial.



Depois, realizei uma minuciosa pesquisa no livro “Simão Dias – Fragmentos de sua história”, escrito por meu pai, e constatei que a denominação popular daquela rua teve como origem as diversas residências naquele local de membros da tradicional família Ribeiro. Nas páginas daquele livro encontrei registros de pessoas daquela família que participaram efetivamente de nossa história, conforme transmito a seguir.

Nos arquivos da Câmara Municipal foi encontrada uma lista de vereadores, encimada com a seguinte legenda: “Relação dos cidadãos que foram vereadores neste município durante a extinta monarquia”. Entre os relacionados estavam Domingos José RIBEIRO e Manuel José RIBEIRO.

O jornal “A Ideia”, edição nº 295, de 19-04-1882, registra que Maximiliano RIBEIRO foi um dos oradores no enterro do Major Manuel de Carvalho Carregosa, na Capelinha do Engenho Mercador.

No período de 1862 a 1872, o Sr. José de Matos RIBEIRO cuidou das rendas da Igreja e fazia a devida aplicação, apresentando, periodicamente, rigorosa prestação de contas perante a justiça civil. Naquela época a Igreja era ligada ao Estado e os negócios da Freguesia eram administrados por cidadãos católicos praticantes, de reputação ilibada. Em nossa terra, naquela época, os administradores dos negócios da Igreja eram conhecidos como “Fabriqueiros de Santana”.

Em 1882, o Matadouro Municipal foi construído e administrado por um particular, o Sr. Domingos José RIBEIRO, conforme concessão e obrigações estabelecidas na Resolução nº 1.164, de 04-05-1880, do Governo Provincial.

Em 1889, Manuel José RIBEIRO era o Presidente da Câmara Municipal. Dez anos depois, em 1899, a Câmara de Vereadores foi presidida por outro membro da família Ribeiro: o Vereador Antônio RIBEIRO.

O Alferes Vicente José RIBEIRO era um austero juiz da cidade que, em 1888, julgou um litígio envolvendo o agricultor Galdino Conceição e que despertou o interesse popular pelo ridículo de que se revestiu. Esse caso chistoso foi por muito tempo comentado pelos mais velhos. Repasso o fato, tal e qual nos conta meu pai em seu livro:

O agricultor Galdino Conceição recebera em seus pastos, de um vizinho, uma égua russa esquadrinhada, isto é, aleijada dos quadris. E uma poldra ‘melada’, filha da mesma égua. Convencionado o preço do aluguel, o dono dos animais pagou adiantadamente.

Antes de findar o prazo do aluguel, Galdino Conceição entendeu ter direito sobre os animais, em face de a égua haver cruzado com um jumento reprodutor de sua propriedade, e que, para ele, estava ‘pejada’.

Terminado prazo convencionado, não quis devolver os animais ao dono, alegando direito à futura “cria”, decidindo não entregá-los até que a égua parisse e criasse o produto nos seus pastos, para, depois, saber quanto restava ao outro.

O dono legítimo esgotou todos os meios suasórios.

O certo é que Galdino Conceição foi levado à Pretoria pelo advogado José Leopoldino da Silveira Collête, sendo o Juiz o austero Alferes Vicente José Ribeiro.

A audiência atraiu muita gente, que sentia imenso prazer em ouvir Galdino Conceição expender o seu direito nos mínimos detalhes, inclusive representando o ato sexual dos animais, de que proveio seu direito à futura “cria”.

O advogado José Collête contestou as alegações do réu, o fazendo com refinada ironia, ressaltando o estado valetudinário da égua “esquadrinhada”, imprópria para atos daquela natureza.

Passando aos meios conciliatórios determinados por lei, o austero juiz houve o caso como conciliado, como consta da ata, ficando o réu Galdino Conceição obrigado a entregar os animais ao seu dono, e este obrigado a pagar 10 mil réis ao réu, “caso a dita égua venha a parir burro vivo”. (Carvalho Déda - Simão Dias – Fragmentos de sua história – – 2ª Edição-2008 - Gráfica Editora J. Andrade – pag. 117/118).

 

 

Com esta pesquisa, é de se reconhecer as razões porque antigamente a rua que nasci era denominada popularmente de Rua dos Ribeiros.

 Entretanto, neste meu procurar, nada encontrei que informasse que a origem daquela família tenha sido a cidade de Sousa-PB, torrão natal do meu colega Paulo Afonso. Mas não posso descartar sua dúvida. 

De igual modo não é de se desprezar a possibilidade de que um RIBEIRO simãodiense tenha fixado residência na cidade paraibana do "Vale dos Dinossauros".


ARACAJU, 05/08/2020.

BETO DÉDA.

sexta-feira, 24 de julho de 2020


O compasso e a lembrança dos artesãos simãodienses.


O compasso que uso nos trabalhos de marcenaria quebrou. Como estamos em tempo de pandemia, recolhido em isolamento social e sem condições de pessoalmente comprar um novo, resolvi fazer o meu próprio instrumento  para traçar circunferências.

O compasso que fiz para uso nos trabalhos com artesanato.


Ao fazer o arco de zinco para regular meu armengado compasso, lembrei-me de três funileiros que conheci em Simão Dias nos velhos tempos: Luiz Coruja, João Coruja e Zé Aleijado. Este último tinha sua tenda na Rua da Feira, próximo à Prefeitura e à Loja Predileta de D. Elisa Montalvão. Os outros moravam perto da casa de meus pais.

O mais antigo deles era Seu Luiz Coruja, que residia na própria tenda em uma casa com telhado beira e bica, na Rua do Coité, fazendo esquina com o prolongamento da Rua dos Ribeiros, em frente a casa de Seu João Cândido e, do outro lado da rua, a bodega de João Brôco, que era vizinho de D. Soriana. Naquele local, muitos anos depois, Seu Cipriano construiu sua casa para morar.

Quando conheci Seu Luiz Coruja ele já era um senhor idoso, pai de João que o seguiu na arte de funileiro. Trabalhavam com folhas de flandres, transformando-as em candeeiros, funis, cafeteiras, canecos, frigideiras, caçarolas e outros apetrechos dos mais variados tipos.  Naquela época, os utensílios de cozinha eram de barro, de madeira, de zinco ou folha de flandres. Tudo feito por artesãos da terra.

Seu João Coruja, quando o pai faleceu, passou sua tenda e moradia para a Praça de São João, no mesmo trecho onde outros conhecidos trabalhadores tinham suas oficinas e residências. Lembro-me deles: Seu Manequinha, o ferreiro; Seu Zé Budu, aguadeiro; Seu Benevides, o barbeiro, e o mecânico Barreto. Todos eles tinham filhos, mais ou menos na minha idade e que eram nossos amigos e companheiros de traquinagem.

Eu admirava o trabalho de todos eles e passava horas observando os cuidados e os macetes que empregavam em sua faina diária.  Serviram-me de experiência; como aconteceu hoje ao cortar e preparar um pedaço de zinco para fazer a gambiarra reguladora do meu compasso.

E agora, ao escrever este texto, acredito que reativarei a memória de pessoas que viveram aquela época e, juntos nesta lembrança, certamente estaremos prestando uma homenagem aos saudosos artesãos de nossa terra.

Aracaju, 23 de julho de 2020.
BETO DÉDA

sexta-feira, 10 de julho de 2020


CURIOSIDADES SOBRE O QUE É RELATIVO EM CONTRADIÇÃO AO ABSOLUTO.


Hoje estou a meditar sobre curiosidades que me despertavam interesse no tempo que eu era jovem e me divertia lendo textos curiosos publicados nos gibis, almanaques ou em uma revista denominada “Seleções Reader’s Digest” (esta sempre chegava a minhas mãos com grande atraso).

Entre outros assuntos curiosos, eu gostava de ler textos que tratassem sobre a relatividade em contradição ao radical "absoluto" das coisas. Assim é que me lembrei de algumas curiosidades que repasso, aqui e agora, com base nos limites do que guarda minha quase octogenária cachola.

A primeira delas refere-se a um fato que aconteceu com um herói inglês. Era um soldado admirado durante a segunda guerra mundial por sua reconhecida coragem em desativar minas enterradas pelo inimigo no campo de batalha. Ele enfrentava com invejável calma os perigos de uma súbita explosão ao desarmar as bombas. Sua bravura era considerada absoluta, nada o amedrontava. Infelizmente a vulnerabilidade de sua enorme coragem foi dramaticamente revelada quando ele foi chamado para desativar uma bomba na cidade de Londres. O petardo fora descoberto em um buraco próximo a um abrigo. Pouco depois de o soldado entrar no local para iniciar o desmonte, os companheiros, que o seguiam à distância, foram surpreendidos com a corrida desesperada do herói, afastando-se do local. Trêmulo, sem desfaçar o nervosismo, justificou que não desativaria a bomba porque próximo ao local estava uma "terrível" barata. Ele tinha um medo incontrolável daquele tipo de inseto. Aí então aconteceu que a coragem absoluta do laureado herói foi para o brejo. Uma simples barata era uma das exceções a demonstrar o relativismo de sua bravura.

Outra curiosidade sobre este tema aconteceu com o cientista inglês Isaac Newton, que cuidou da lei da atração dos corpos. No tempo que estudei no Atheneu Sergipense, lembrávamos, com muito humor, que a lei da atração da gravidade fora descoberta quando o cientista estava embaixo de uma macieira e uma maçã caiu e bateu em sua cabeça. E deduzíamos: se fosse uma jaca,  ele  que estaria fodido...

Alegoria à porta dos gatinhos(Beto Déda)
Pois bem. Dizem que o Isaac Newton mantinha em seu laboratório uma gatinha de estimação, que ficava rosnando na porta para entrar ou sair. O cientista então fez uma abertura na porta para a gatinha passar sem lhe incomodar. Pouco tempo depois, a gata pariu quatro lindos gatinhos e o cientista não vacilou: fez mais quatro buracos na porta, de modo que a gata e seus filhotes não o incomodassem no vai e vem. Não atentou que pela mesma passagem, reservada à gata, também passariam os filhotes. Ao cuidar das passagens dos gatinhos, a inteligência absoluta do cientista fora desativada.

Estas curiosidades me lembram do saudoso Célio Loureiro, colega do BNB, ilustre advogado e professor cearense. Em suas aulas de Direito Bancário ele sempre orientava para não nos enganarmos com normas ditas como absolutas. E quando alguém mencionava algo como absoluto, ele advertia  dizendo: “Em termos...”. Então apresentava exceções que relativizavam a regra.

Aliás, o iluminado Albert Einstein, que desenvolveu a teoria da relatividade, dizia que tudo é relativo. Absoluto mesmo só a velocidade da luz.

Tais curiosidades nos levam a pensar melhor sobre as pessoas, sem exageros, o que nos traz à memória o que dizia o escritor Mark Twain, ao afirmar que até um relógio parado está certo pelo menos duas vezes em um mesmo dia. O que é confirmado pela piada do doido que auxiliou um inteligente senhor a usar o pneu sobressalente que não tinha parafusos. O maluco resolveu o problema tirando um parafuso de cada um dos três pneus bons, de modo que o carro, com três parafusos em cada roda, chegasse até um borracheiro. O dono do automóvel, impressionado com a ideia, indagou: “Como pode, dizem que você é maluco? Então, sem pestanejar, o mentecapto  respondeu: “Posso ser doido, mas não sou burro!"... 

São chistosas curiosidades para acalmar os dias de isolamento social provocado pelo Coronavírus e lembrar os ditos populares:

"Nem tudo que reluz é ouro!"
"Nem tudo que balança cai!"

Aracaju, 10/07/2020
BETO DÉDA

sexta-feira, 19 de junho de 2020


Refletindo sobre a triste atualidade

Recentemente, ao comemorar meu aniversário, dediquei alguns momentos a matutar sobre a triste atualidade que vivemos.

Beirando os oitenta anos, nunca pensei que, diante de tantos avanços da ciência, a humanidade tivesse que se recolher em suas casas para se proteger da praga do Novo Coronavírus, que já contaminou milhões de pessoas e ceifou milhares de vidas.

O fato é que, nestes últimos meses,  passamos a viver em confinamento, seguindo as cautelas recomendadas pelas autoridades médicas para evitar a contaminação que pode ser fatal.

O uso de máscaras protetoras passou a ser comum, o que me faz lembrar o tempo em que brincava imitando o caubói Durango Kid, cuja máscara era apenas um lenço preto cobrindo o nariz e a boca.

O pior é que além da pandemia também temos que enfrentar outra praga de origem nacional: os nefastos e desrespeitosos atos de um presidente com "vocação ditatorial", que fomenta o ódio, defende a luta armada entre irmãos, estimula ações antidemocráticas, ameaça outros poderes da república e difunde o coronavírus. "Vade retro Satana!".


O  meu velho torno em ação.
Longe de queridos parentes e amigos, tento esquecer o terror que nos assombra e ocupo meu tempo me distraindo em minha tenda de gambiarras, usando o velho torno para dar forma à madeira, fazendo peças para presentear meus filhos e netos. 



Passei a ser um  artesão de armengues.


Algumas peças que torneei
O certo é que me envolvo de tal modo nestes afazeres que o dia passa rápido. À noite evito as notícias e só ligo a televisão para assistir a filmes escolhidos ou fazer uma leitura de temas amenos. 


Diante de tais pragas, a melhor recomendação é continuar em confinamento e procurar um meio para  aliviar o estresse. E orar ao bom Deus para que nosso povo se livre logo de tais calamidades.



Aracaju, 18/06/2020

Beto Déda











segunda-feira, 16 de março de 2020


Sonhando com o tempo que era jornaleiro.

Costumo dormir pouco, mas o tempo de sono é suficiente para sonhos bons e pesadelos.
Muitas vezes acordo assustado com pesadelos, possível efeito colateral dos medicamentos para o coração.
 Mas, na noite de ontem, não fui vítima de um sonho agitado.
 Minha madorna foi serena e alegre.
Sonhei com fatos dos anos cinquenta em minha terra: quando eu era o jovem jornaleiro que entregava o jornal “A Semana”, editado e dirigido por meu pai. O jornal circulava aos sábados, dia em que me acordava com os primeiros raios de sol surgindo no alto da Igreja Matriz. Andava por todas as ruas da cidade e conhecia cada casa e seus habitantes.
Meu caminhar era planejado: saía de uma rua para outra e voltava à redação do jornal para pegar nova braçada do semanário.  Lembro-me que em cada rua encontrava os que acordavam cedo e ansiosos aguardavam a entrega do jornal; eram pessoas idosas e que me recebiam com um largo sorriso. Uma recepção que, para mim, correspondia a um mundão de felicidade.
Mas, para a maioria dos assinantes, eu entregava o jornal colocando-o por baixo da porta da frente das casas.  Depois de percorrer todas as ruas da cidade e feita a entrega, aí então era a hora de tomar um bom café no Bar e Lanchonete do Seu Chico Bina, que ficava ao lado do Açougue Municipal.  Café forte e quentinho acompanhado de um delicioso pão amanteigado, que Seu Chico pegava na Padaria Central, de Seu Oscar Rocha.  Uma delícia!  Atualmente não fazem um pão tão bom, como antigamente.
Depois, voltava à redação do jornal para vender exemplares avulsos aos leitores da cidade e da zona rural. E eram muitos, todos meus conhecidos e bons amigos.
Lembro-me que uma vez um assíduo leitor, que também era colecionador do jornal, chegou tarde à redação e ficou muito triste ao saber que a edição daquela semana estava esgotada. Então ele me persuadiu a procurar na tipografia algum exemplar perdido. Atendi ao seu pedido e encontrei cópias iniciais de páginas separadas, que chamávamos “prova”, utilizadas para fazer as correções na arrumação dos tipos de chumbo. Passei para o interessado as páginas com rabiscos feitos por meu pai, indicando os erros na composição dos textos. Nunca esqueci o semblante alegre e agradecido daquele leitor.

Beto Déda distribuindo o jornal "A Semana"
pelas ruas de Simão Dias, nas manhãs frias dos dias de sábado.
(Montagem e traços do próprio) 
O sonho que tive ontem ativou minha memória.
 Embora não tenha fotografias da época que era jornaleiro, as imagens do sonho incentivaram-me a recortar fotos, rabiscar e fazer montagens de modo a retratar meus 14 e 15 anos, quando entregava “A Semana” nas manhãs frias do mês de julho, em Simão Dias, na primeira metade dos anos 50.

E, aqui pra nós, o resultado da fotomontagem me deixou feliz, especialmente por mostrar-me abraçando uma porção do querido jornal de minha terra.

O bom mesmo é que isto faz com que a alegria e o sorriso voltem à nossa mente, de modo a nos ajudar a afastar o pensamento da triste atualidade nacional e nos proteger da nefanda loucura praticada pelos que atualmente governam o país.

Aracaju, 16/03/2020
BETO DÉDA