sexta-feira, 1 de julho de 2022

 

O popular Chico Bina



No correr desta semana, tomei conhecimento, com pesar, que o conterrâneo Francisco de Pádua Santos, conhecido popularmente como Chico Bina, faleceu no dia 17 de  junho.

Chico Bina era um amigo simãodiense que conheci quando eu ainda era rapazola e ele figurava como um dos dirigentes do futebol simãodiense. Ele e Benedito Araújo foram diretores do Vasco da Gama, que foi vencedor de uma campeonato realizado em Simão Dias, em 1956, no estádio José Barreto, situado no Bairro Bonfim. Na verdade não era um estádio, mas um gramado circundado por uma empanada branca, igual as laterais de pano que protegem os circos. Participaram do certame quatro times da cidade: Vasco, Flamengo, Vitória e Lira Santana.

Ao comemorar o título, os jogadores vascaínos pousaram para uma foto, com a faixa de campeões. E lá também estavam Chico Bina e Benedito Araújo, envergando suas respectivas faixas como dirigentes do time (V. foto abaixo).

O time do Vasco campeão do torneio realizado em Simão Dias,  em 1956 (Chico Bina está à direita). 


Eu era torcedor do Flamengo e, é claro, não me alegrei com a festa, muito embora tenha participado de um coquetel e lanche oferecidos pelo casal Benedito/Miralda na residência deles, onde saboreei um delicioso creme de chocolate. Naquela ocasião, percebendo minha tristeza, Chico me contentou, dizendo que o meu Flamengo, embora vencido, era um bom time, formado por jovens craques, entre os quais os irmãos Dié e Cessa.

Ele tinha uma Lanchonete e Bar na esquina da antiga Rua da Palha com a Rua Mulungu, atualmente denominadas Rua Marechal Deodoro e Rua Manoel de Carvalho. A lanchonete ficava ao lado do Açougue Municipal. Quando eu era adolescente, nos dias de sábado, após a distribuição do jornal “A Semana”, era ali que eu tomava café e ouvia o pilheriar de negociantes e magarefes sobre o preço da carne no açougue e as discussões sobre assuntos palpitantes da cidade. As mesas estavam sempre cheias e ouvia-se o barulho de muitas vozes em simultâneo. Mas o ambiente era bom e agradável.

Nas noites de verão, era costume de Chico se reunir com os amigos Demerval Guerra e Filadelfo Oliveira na Praça Barão de Santa Rosa, em frente a Igreja, para discutir assuntos de nossa sociedade. Muitas vezes éramos surpreendidos com a risada do simpático trio ao comentar um fato hilário acontecido na cidade.

Chico Bina era um homem cívico, idôneo, que gostava de ajudar as pessoas. Era conhecido por fazer um chá especial para curar hepatite, a doença do amarelão. Pessoas acometidas do mal, residentes na cidade e circunvizinhança, procuravam o chá de Seu Chico para combater a doença. Ele atendia com presteza.

Cidadão benquisto por todos, foi vereador do município, sempre defendendo os interesses dos menos favorecidos, com importantes atuações no legislativo municipal. Lembro-me agora de um  projeto de lei de sua lavra, para beneficiar a pobreza, através do abastecimento de água. Para isto previa a construção de quatro chafarizes na cidade: no Bairro Bonfim e nas ruas Santa Cruz, Louceiras e Alambique. Não obstante se tratar de um plano de cunho humanitário, o projeto não foi aprovado. Em seu lugar, a maioria dos vereadores aprovou o aumento dos subsídios do Prefeito, um ato inconstitucional, vez que tal aumento somente seria admissível no final de legislatura. Interrogado sobre o assunto, o Chico me disse que ficou frustrado, mas assegurou que não perdera o ânimo para continuar na luta pelos menos favorecidos.

Jornal "A Semana" e a notícia sobre o projeto dos chafarizes


Francisco de Pádua Santos – ou melhor: meu amigo Chico Bina – faleceu aos 90 anos de idade. Ele foi um simãodiense que não esqueço e que continua vivo em meus pensamentos.

Soube também que o Prefeito Municipal decretou luto oficial por três dias, em memória ao ilustre simãodiense. Merecida gratidão.

Para os familiares, especialmente para a amiga Débora Silva, transmito meu abraço solidário, com saudade.

 

Aracaju, 01 de julho de 2022.

Beto Déda



quarta-feira, 25 de maio de 2022

Um dia de reflexão


Hoje é um dia de reflexão. É tempo para matutar sobre as experiências desses oitenta e um anos de uma longa e boa caminhada pela estrada da vida. Certamente é a ocasião própria para avaliarmos o cabedal de feitos que realizamos por mais de oito décadas.

E o cabedal que aqui me refiro não são os teres ou bens que somos apenas fiéis depositários, e que não nos trará proveito no final da estrada da vida, ao ingressarmos no outro plano da vida. O que reflito agora são os bens infungíveis, com qualidades que refletem e marcam os acertos e os erros que praticamos na passagem dos tempos, ou seja, os atos que praticamos e tiveram repercussões boas ou ruins nas vidas das pessoas que convivem ou conviveram conosco, mesmo aquelas que tivemos ligeiros contatos. Mas não me limito a lembrar apenas das ações benéficas, meu subconsciente também se preocupa com os erros, as falhas, enganos e equívocos ao tratar com meus semelhantes, de modo a evitar que se repitam.

Por outro lado, também nesta data, passo a refletir sobre os dias atuais, e fico perplexo diante do infortúnio que se abate sobre a humanidade: as pandemias – Covid e Varíola -, a ameaça de guerra mundial e o reaparecimento de grupos que defendem o armamento, fomentam o preconceito, o ódio, a intolerância e o conflito.

Pensar em tais dissabores nos entristece e nos afastam das notícias divulgadas pelos meios de comunicação. Na atualidade, buscando me defender do estresse das notícias tristes, procuro abrigo em boas leituras e em assistir a interessantes documentários. Durante o dia, a maior diversão é usar o torno de madeira para realizar obras de artesanato. Preencho também um bom tempo cuidando das lavouras, plantando uma pequena área de milho, de hortaliças e de árvores da antiga mata Atlântida.

Artesanato de madeira


Plantio de milho
Plantação de Ipê 





Ao finalizar minha reflexão, devo deixar bem claro que não sou um pessimista, não mudei meu modo de pensar e acredito que saberemos sair deste pesadelo. Nosso povo certamente cuidará da mudança. E para reforçar aqueles que pensam como eu, afirmo que estamos unidos, que continuo firme na minha ideologia,

É isso. Apesar dos dissabores atuais, comemoro o início de mais uma etapa da vida, elevando os braços, com o indicador e o polegar da mão formando um ângulo de noventa graus, acreditando que em breve o Brasil voltará a ser feliz.

Aracaju, 25 de maio de 2022.

Beto Déda

sexta-feira, 8 de abril de 2022

 

A Reforma Agrária sob o olhar do jornalista Carvalho Déda.



O artigo “JOÃO SEM TERRA E O ZÉ POVO: a luta pela reforma agrária em Sergipe sob o olhar do jornalista JOSÉ DE CARVALHO DÉDA”, escrito pela doutoranda Amanda de Oliveira Santos, foi selecionado durante a II Jornada de História Agrária, organizado pela Associação Nacional de História – Seção Bahia e publicado recentemente, entre outros textos, no livro digital “AS CORES E O SANGUE: Memórias e Resistências no Brasil Rural”, editado no e-book pela Editora Zarte, com o apoio da PPGNEIM, Universidade Federal da Bahia, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e Universidade Estadual de Feira de Santana.

O livro que tem o artigo de Amanda

O texto da Prof.ª Amanda de Oliveira Santos abre a terceira parte do livro digital, discorrendo sobre a atuação do jornalista Carvalho Déda em defesa da população sertaneja e que criticava o menosprezo da cúpula política do país ao tratar sobre reforma agrária. A historiadora discorre sobre duas seções especiais (Coluna dos Lavradores e A Piada da Semana) publicadas por aquele jornalista no jornal “A Semana”, por ele editado em Simão Dias, e também no romance “Formigas de Asas”, em que denuncia a ganância dos latifundiários pelas terras de pequenos agricultores.

O texto de Amanda  no livro (Página 175 a 208)


Amanda Santos é diplomada como Mestra em História pela Universidade Federal de Sergipe e atualmente faz o curso de Doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Conheço essa inteligente historiadora desde o tempo que ela fazia o curso de graduação na UniAGES, de Paripiranga(BA). Desde aquele tempo, temos mantido longas conversações sobre a história de Simão Dias e também sobre o jornal A Semana, no qual tive uma inesquecível participação de 1953 a 1969 e fui seu diretor no último ano da sua edição. Amanda é de uma força de vontade exemplar. Ela planeja os objetivos e trabalha com denodo, pesquisando, visitando bibliotecas, arquivos públicos e entrevistando pessoas. É uma garota do interior que luta enfrentando o trabalho nos dias de feira da cidade, de modo a conseguir recursos para atingir suas metas e objetivos. É uma admirável guerreira que usa a leitura e o estudo como armas para concretizar seus sonhos e vontade.

Ela faz parte de um grupo de jovens que nos encantam pelo valoroso trabalho em preservar a história de Simão Dias. E lembro-me aqui de historiadores com publicações de recentes livros e artigos  sobre nossa terra berço: Jorge Bastos, Daniel Loiola e Edjan Alencar.

A atuação de Amanda de Oliveira Santos engrandece nossa cultura e é um exemplo formidável de que é possível atingir uma vontade quando se tem força para determinar objetivos e traçar metas para alcançá-lo.

Doutoranda Amanda em sua barraca na feira de Simão Dias
 recebendo a visita da Profª Lina Aras da UFBA.


Nosso abraço, parabenizando o trabalho dessa doutoranda que prioriza o estudo da história de nossa gente e de nossa terra berço. Nota dez, com louvor.


Aracaju, 08/04/2022

Beto Déda

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

 


A modinha de Seu Gervásio nas noites de lua.


São muitas as lembranças acumuladas em minha mente e o espaço maior corresponde ao tempo que era criança em minha terra natal: Simão Dias.

Agora mesmo, estava admirando o esplendor da lua e isto foi o toque para despertar recordações das noites enluaradas na Rua dos Ribeiros, local da casa de meus pais, onde nasci e passei minha infância e juventude.

Naquela época a iluminação elétrica das ruas era precária, dependia de um motor movido a óleo diesel que falhava com frequência, deixando a cidade às escuras. Assim, as noites enluaradas eram comemoradas com alegria por todos que residiam naquela rua.

Nessas agradáveis noites se reunia um alvoroçado grupo de crianças: meus irmãos, nossos primos e a garotada da redondeza. Algazarra não faltava. Brincávamos de “manja”, de “se esconder”, de “cipozinho queimado”, do “grilo”, e também de caubói, imitando os astros dos filmes de faroeste que passavam nos cinemas Ipiranga e Brasil: Bill Eliott (Red Ryder), Charles Starret (Durango Kid) e Rock Lane.

Mas a lembrança que me desperta hoje é a cantiga de Seu Gervásio. Ele era um senhor de baixa estatura, rosto pálido e bochechas flácidas, sempre usava um paletó surrado, um velho chapéu e gostava de pitar cigarro de palha. Fazia biscates: cortava lenha e transportava água para as casas. Ele morava com suas irmãs, Arlinda e Amélia, em uma casa antiga, de beira-e-bica, que ficava próxima a de meus pais. A casa era de adobe e apresentava pequenos buracos na parede, que passava a claridade do luar e permitia que avistássemos o que se passava na sala da frente.

A Rua Júlio Manoel de Oliveira, antiga Rua dos Ribeiros, em Simão Dias(SE).


A porta aberta também deixava a lua iluminar a sala. A luz de um candeeiro, em um quarto, divisava a réstia de D. Amélia conversando com sua irmã, que estava na sala em uma cadeira tipo preguiçosa. Próximo à porta de frente, em um banco, estava sentado Seu Gervásio, pitando um cigarro de palha e cantando sua canção predileta: “A festa de casamento”.

Ainda sei alguns trechos da letra daquela modinha, que meu cunhado  Haroldo costuma cantar. Com intuito de ativar a memória dos que conviveram aquele período de nossa simpática rua, ouso ativar a memória e transcrever algumas partes:

A Festa de Casamento

Fui convidado para uma festa de casamento

Da filha de um tenente da guarda nacional…

...

Lá tinha dança e comida com fartura

muito bolo, cocada e frituras…

...

Lá tinha uma moça, bonita e faceira,

dançava e levantava poeira... 

...

Percebendo nossos risos, Seu Gervásio interrompia seu engraçado cantar. Então resmungava, pegava seu velho chapéu, que sempre deixava sobre o banco, e se dirigia ao fogão de lenha para acender o cigarro de palha. Voltava até a soleira da porta. Firmava-se em uma perna só, amparando o ombro no portal, e pitava soltando fumaça, observando a correria da meninada. Depois, olhava para um lado e para o outro, bocejava e fechava a porta. Era sua hora de dormir...

...

Eram pessoas simples de outros tempos e que ainda hoje alegram as lembranças de nossa infância.


Aracaju, 16/01/2022

Beto Déda





sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

 

Festas Natalinas


Nesta semana, meu bom primo Paulo César Déda me telefonou para desejar um Bom Natal e aproveitou a oportunidade para despertar  lembranças das festas natalinas em Simão Dias, sugerindo com muita graça:

“Não deixe de passar pela Rua da Feira e rodar nos Cavalinhos de Seu Messias Cassimiro, balançar nos Barcos de Polito e sentir o cheiro forte do carbureto exalado pelos fifós das barracas de doces...”

A sugestão do primo me fez recordar do texto que postei aqui no Facebook, em dezembro de 2012. Transcrevo a seguir o que escrevi naquele ano, para despertar a imaginação dos que me seguem e também dos que viveram aqueles dias felizes.

Aracaju, 25/12/2021

Beto Déda



Natal em Simão Dias.


 (Texto escrito por Beto Déda em Dezembro de 2012)


O mês de dezembro é mágico, tem significados encantadores, despertando o amor e nos dando força para expandir alegrias. É o tempo de permitir que a imaginação tome conta da gente. E eu deixo a barba crescer e transformo o vovô/tio Beto em um desengonçado Papai Noel para levar um pouco de alegria aos meus netos, sobrinhos e a meninada da vizinhança do Lago Dourado. E isto me faz sentir feliz. Então, deixe-me contar essa: no último Natal, ouvi de uma criança dos arredores de meu sítio uma frase encantadora. Disse ela, apontando-me: - Olha, Papai Noel existe mesmo! Lá está ele! E rindo, externou uma alegria tão espontânea que me contagiou com sua linda emoção. São fatos que me estimulam a usar o mágico uniforme vermelho.


Papai Noel - Vovô Beto


Lá pelos anos cinquenta, em Simão Dias, a garotada conhecia que estávamos no mês de dezembro ao perceber o florido amarelado das acácias existentes no quintal do bangalô de Seu Pierre ou na Praça de São João. Era o tempo encantador do Natal e da crença em deixar os sapatos juntos, ao lado da cama, para o bom velhinho ali pôr o presente esperado. E eu acreditava nisso. Daí a minha grande decepção ao saber que aquilo era estória para enganar menino bobo. Então eu fui um bobão. Mas... Que se danem! Fui um bobo feliz acreditando no bom velhinho.

Os sete Déda: Celma, Cláudio, Aparecida,
Haroldina, Maria Eugênia, Beto e Carlos
Eugênio (Foto  do início dos anos 50).

Na tarde do dia de Natal, meu pai reunia os filhos, netos e sobrinhos lá em nossa casa. Ele tirava fotos e depois distribuía moedas novinhas, em partes iguais, para nos divertirmos na Rua da Feira. Naquela época a festa do Natal era comemorada no largo da feira, onde se concentravam os bazares de Seu Cícero e de Inês/Lélia, o carrossel de cavalinhos de Seu Messias, a Onda e o grande Balanço de Seu Raimundo, além das barracas de arroz-de-galinha, de confeitos de castanha em forma de barcos e sombrinhas em papel colorido, os jogos de roleta e barrufo. E tinha também o quebra-queixo de seu Antônio e a amorosa (uma espécie de refresco de maçã) do Zé Pretinho, que chamava os fregueses gritando: “
Ói a amorosa!” E apontando para a garrafinha, dizia: “É cheia... é cheia e é só quinhentos réis...”

Daquela festa de largo vem a lembrança inesquecível do som forte e fraco da sanfona e do pandeiro que ia e vinha, se distanciando e aproximando, de acordo com as voltas do carrossel e a posição do vento. E tinha o cheiro inconfundível dos fifós (candeeiros) de carbureto.



Outra lembrança marcante era o grande Balanço de Seu Raimundo. Cabiam mais de quinze crianças e o balançar era seguido de muito empurrão e gritos de alegria. O encarregado de balançar manualmente era um senhor moreno, muito forte, que pitava um engraçado cachimbo. Chamava-se Seu Braúna, era parecido com o ator hollywoodiano Woody Strode que atuava com John Wayne em faroestes dirigidos por John Ford ( O homem que matou o facínora).

Recordo-me que certa vez, logo ao chegar na Rua da Feira tive a curiosidade de jogar barrufo, pensando em aumentar meu cabedal. Apostei uma moeda e ganhei outra. Estimulado, joguei mais e também ganhei. Logo depois comecei a perder. E passei a jogar pensando em recuperar as moedas perdidas. Não restou nada, fiquei “quebrado”. Ainda era o começo da tarde e não me restara um só centavo para a festa que começava. Então, pensei em pedir mais moedas ao meu pai, que tinha uma sacolinha cheia de quinhentos réis. E lá fui eu ao escritório que, naquela época,  ficava na Rua dos Ribeiros em uma casa que era do Seu Hilário. Em resposta ao meu pedido, o velho fez outra indagação: onde gastara tão rápido as moedas que ele tinha me dado? Respondi:

“- Pensando em ganhar mais, joguei no barrufo e perdi tudo!”

Então recebi uma lição inesquecível:

 "- Nada de outras moedas e aprenda: jogo nunca mais!"


Naquele Natal minha salvação foi o tio Sissi. Fui até a Prefeitura, onde ele trabalhava, e exclamei com a mão estirada, de pedinte:“-Minha bênção, tio Sissi”. Ele rindo, olhando para minha mão pidona, me abençoou e me deu moedas suficientes para andar no balanço de Braúna, comer arroz de galinha, tomar amorosa e comer confeitos de castanha. E passar ao largo das bancas de barrufo, lembrando a lição importante do meu bom pai:

Jogar apostado, nem pensar!


Aracaju, 11/12/2012

Beto Déda

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

 

Um tempinho para você...


Como ninguém é de ferro – nem eu, que sou sentimental – hoje volto a pensar em você. E quando isto acontece, a saudade dos velhos tempos bate em meu ombro e não ouso olvidá-la.

Nesse instante, curtindo essa saudade dos bons tempos de nossa juventude em Simão Dias, vejo-me flertando e sorrindo de felicidade ao trocarmos frases românticas tiradas de almanaques da época. Curtíamos a simplicidade e inocência de adolescentes do interior.

Assim, envolto no manto das recordações, revejo as tardes de verão, quando sentávamos em cadeiras cobertas com almofadas coloridas e, fascinados, ouvíamos o cantar das cigarras e a beleza da revoada das andorinhas.

Como eram maravilhosos e esperados os encontros nos dias de domingo: matinês nos cinemas Ipiranga e Brasil; tardes dançantes no Caiçara Clube; as missas aos domingos e os passeios em volta da Igreja Matriz...

E não faltavam também as festinhas de aniversário em casas de família, com encontros nas salas de visitas, reservadas nessas ocasiões para rapazes e moças dançarem ao som de canções da Jovem Guarda – sem esquecer os embalos do Twist e do Rock and Holl de Tony e Cely Capello, e também as músicas românticas de Altemar Dutra –, tudo em discos Long Play tocados em radiolas embutidas em bonitos móveis da época.

No Cayçara Clube participávamos dos tradicionais bailes de Carnaval, de São João e da Festa da Padroeira Santana; além de apresentações de importantes orquestras em turnê pela região e, também, de festas beneficentes, das quais lembro-me agora de duas, organizadas por D. Carmem Dantas: “Uma noite no Havaí” e “Festa da Primavera”.

Os encontros culturais eram realizados quase que semanalmente, em uma casa vizinha ao sobrado de Seu Janjão, em reuniões promovidas pela AJIS (ASSOCIAÇÃO DE JOVENS IDEALISTAS SIMÃODIENSES), que contava com a participação ativa de moços intelectuais da terra, e que promovia Semanas Culturais no Cayçara Clube.

As lembranças embalam minha mente e me fazem matutar: porque você fica entediada ao ouvir tão alegres recordações?

Ah, como gostaria que me escutasse! E se alegrasse com as repetidas histórias que insisto em contar. Ficaria imensamente feliz ao ouvir com atenção suas observações e compartilharmos as lembranças de pessoas queridas, que participaram de nossas travessuras em acontecimentos alegres e marcantes da vida em nossa terra berço. Assim, eu saberia como você tem resistido a ausência do cantar das cigarras e o desaparecimento das esvoaçantes andorinhas.

Você sabia que as lembranças nos ajudam a enfrentar as marcas do tempo?

Não podemos esquecer a expressão latina “Tempus fugit”, que tem o sentido de que o tempo irreversivelmente passa, foge, voa. E ao passar, deixa muitas marcas, enfraquecendo-nos, realizando mudanças sem, contudo, alterar os sentimentos fortes que permanecem em nosso interior.

Então, pensando em você, vejo que o passar do tempo deixou marcas – mesmo que levemente – em seu lindo e querido rosto, mas tenho absoluta certeza que continuam em seu coração, incólumes: a bondade e a meiguice.

O exercício de felizes recordações nos dão força para enfrentar a insuportável amargura dos dias atuais. As notícias tristes são cumulativas e recorrentes: a pandemia, a perda de familiares e amigos; a perversidade de um presidente que fomenta o ódio e o uso de armas; a violência escancarada divulgada nos noticiários; e a amargura do nosso povo que voltou a sofrer com o desemprego e a fome.

Diante de um quadro tão horrendo – mesmo sem ignorá-lo e apoiando os que tentam nos livrar de tão danosa realidade – acredito que as lembranças de momentos felizes amenizarão tais dissabores, aproveitando cada dia, despreocupando-nos com o passar implacável do tempo em nossa descida na ladeira da vida.

Por fim, para não esquecer os momentos que trocávamos frases tiradas de velhos almanaques, veja esse pensamento de Mario Quintana:

“Viver é acalentar sonhos e esperanças, fazendo da fé a nossa inspiração maior. É buscar nas pequenas coisas, um grande motivo para ser feliz!”


Aracaju, 17/12/2021

BETO DÉDA





quarta-feira, 1 de dezembro de 2021


 

Carvalho Déda – lembrando a data do seu nascimento.





O dia primeiro de dezembro é muito especial para nossa família. É o dia que relembramos o nascimento do meu saudoso pai e mestre: José de Carvalho Déda, conhecido em Simão Dias e Paripiranga como Seu Zeca Déda.



Sempre nesta data, voltamos nossos pensamentos para ele, relembrando sua prodigiosa passagem por esta vida. Em Paripiranga-BA, em Simão Dias e no Estado de Sergipe ele marcou sua existência com muito estudo, trabalho, dedicação e civismo.



Sinto-me feliz em relembrá-lo. Hoje, são decorridos 123 anos do seu nascimento. Ele nasceu em 1º de dezembro de 1898, na cidade de Paripiranga-BA, filho de José Antônio de Carvalho Déda e D. Olívia Silveira Déda. 


Acostumei-me a ouvi-lo falar com entusiasmo sobre fases de sua juventude e dos amigos de lá. Quando eu era garoto, ele me levava em suas idas à terra natal e, recordo-me muito bem,  das visitas que fazíamos ao casarão do velho Sodré e à Livraria do Sr. Sebastião, que sempre me brindava com um livro de leitura para criança.




Carvalho Déda (Foto acervo Beto Déda)

Sem nunca esquecer sua origem, assim que ficou viúvo, passou a residir em Simão Dias, onde se casou com minha querida mãe, Maria Accyole Oliveira Déda. Passou a maior parte de sua vida nesta cidade, foram quase cinquenta anos, onde criou seus filhos, participou ativamente dos acontecimentos e criou grande vínculo de amizade. 


Iniciou seus trabalhos como sapateiro e, depois,  dono de pequena sapataria e loja. Trabalhava e estudava. Sua dedicação à leitura e ao estudo das causas públicas, como autodidata, facilitou o exercício de várias atividades: foi Delegado de Polícia, Prefeito da cidade, Vereador, Advogado Provisionado, Diretor do Grupo Escolar Fausto Cardoso, Inspetor Escolar Estadual, Deputado Estadual, eleito e com ativa participação em três legislaturas (1947-1950, 1951-1954, 1955-1958).



Dedicado à cultura, escreveu poesias, história e romance. Desde jovem seus textos foram publicados em diversos jornais. Como escritor, foram publicados os livros “Brefáias e Burundangas do Folclore Sergipano”, “Simão Dias -Fragmentos de sua História” e “Formigas de Asas”. Deixou inédito rascunho de um projeto de livro: “Memórias de Caduda”.



Tinha um apreço muito grande pela cidade de Simão Dias e fazia questão de dizer que era a “Cidade catita de meu coração”, onde tivera a felicidade de criar os filhos. Em seus textos publicados no jornal A SEMANA, por ele editado, percebe-se o cuidado e amor que tinha pela cidade que o acolheu.



Lembrar de Carvalho Déda me deixa maravilhado por sua vida exemplar de trabalhador, estudioso, autodidata, pesquisador, escritor, jornalista, advogado e de político  (com "P" maiúsculo), de sentimento cívico verdadeiro, que soube defender com honra o interesse dos menos favorecidos.



É bom relembrar, hoje, o dia 01 de dezembro de 1898, data que nasceu o meu querido mestre e pai.



Aracaju, 01/12/2021

BETO DÉDA