quarta-feira, 3 de agosto de 2016


TRÊS CAUSOS INESQUECÍVEIS CONTADOS POR TIO PAULO.

1) Zé Cágado vai à feira:

Nos anos 50, na cidade de Simão Dias, existiam muitas fábricas de calçados e diversas tendas de sapateiros, conhecidas como “futucas”, espalhadas pelas ruas da cidade. Meu tio Paulo era proprietário de um curtume no local conhecido por Aloque, que curtia couro de boi e pelicas de porco.  Era lá no Aloque que os proprietários de fábricas e “futucas” adquiriam couro para fazer calçados.

 Era costume dos sapateiros dizer que estavam indo ao Aloque comprar material para fazer obra, ou seja, comprar couro para fabricar calçados.

O artesão Zé Cágado tinha uma pequena fábrica de calçados na Rua da Lama. Ele era um senhor baixo, forte, simpático, gostava de esporte e apitava os jogos de futebol no gramado José Barreto de nossa cidade. Chistoso, gostava de pilheriar, contar boas piadas e apresentar sentido ambíguo às palavras comuns usadas por nosso povo.

Contava meu tio que aos sábados, sabendo dos gracejos de seu Zé Cágado, o pessoal esperava ele passar com uma cesta, em frente ao bar de Valério, descendo em direção à rua da feira (na época na Av. Cel. Loyola), e indagava aonde ele ia. A resposta já era conhecida e recebida com boas risadas. Respondia ele com graça, dando sua versão especial para os termos “material” e “fazer obra”, no sentido de “víveres” e “defecar”, respectivamente:

- Vou à feira, comprar material pra depois fazer obra...

...

2) O gago que trocava o “V” por “B”:

Esta história foi-me contada por meu tio Paulo, na época que não era considerado politicamente incorreto falar sobre gagueira. Transcrevo, aqui, apenas com fato histórico.

Conversávamos sobre um garoto fanho, filho de um sapateiro, quando ele me contou outro causo de um seu amigo que era gago e tinha dificuldade em pronunciar certas palavras, muitas vezes trocando o “V” por “B”. Quando ele ficava nervoso a gagueira aumentava, provocando vexame não só ao próprio como aos seus interlocutores que, por mais controle que tivessem, não disfarçavam o riso.

Contava meu tio que uma tarde, em sua loja de calçados “Triunfo”, no comércio de Simão Dias, alguns amigos discutiam sobre futebol; lá estavam Lulu, Barbosa, João Grande e Café. Foi quando surgiu um amigo comum que era gago, tal e qual os famosos Ari Barroso e Nelson Gonçalves. O gago era fanático por um time de futebol e no auge da discussão, a gagueira ficou incontrolável. Justo nesse momento entrou na loja uma senhorita e todos pararam de discutir para apreciar a moça. Era uma bonita garota conhecida do gago que, dirigindo-se a ele, falou:

  – Como vai o senhor, tudo bem?

E o gago, nervoso, respondeu, trocando o “V” pelo ”B”, deixando os amigos sem meios de controlar a risada:

 Booou-bem, obriii-ga-ga-do!   Bo...bo-cê-ta-boa?

...

3) O idoso  que não lembrava dos bagos:

Com a peculiar maneira de contar seus causos, disse-me meu tio que no tempo em que morava em Simão Dias tomou conhecimento de um fato que o deixou preocupado. Ele tinha um amigo muito respeitoso e de idade avançada que, infelizmente, passara a sofrer do mal do esquecimento. Era uma doença que lhe ocasionava a perda de memória, possivelmente o início da enfermidade que hoje é conhecida como “Mal de Alzheimer”.

Com seus oitenta anos bem vividos, meu tio confidenciou-me que tinha receio de ficar como o ancião de nossa cidade. Então, contava-me que o amigo, que se aproximava dos noventa janeiros, começou agir de forma estranha e a fazer determinadas perguntas que demonstravam o início do terrível mal de perda de memória. Em uma manhã,  o idoso saiu nu pelo quintal de sua casa e foi fazer xixi no portão. Ali, sozinho, baixou a cabeça, olhou para as partes íntimas, pegou nos bagos, mexeu,  remexeu, fez aquele ar de indagação elevando as sobrancelhas e gritou para a sua esposa:   – “Massita, chega aqui depressa”. Quando a senhora se aproximou, ele  mostrou o saco dos bagos, lamentando-se:

-Veja, minha querida Massita, quando a gente fica velho aparece tudo que não presta em nossa corpo!

E puxando o flácido saco, concluiu:

Olhe, aqui, o tamanho das bolas que nasceram agora debaixo de minha pinta...”

Aracaju, 03/08/2016

Beto Déda

segunda-feira, 25 de julho de 2016


Recordações do Bar de Abel.

Esta semana minha memória foi ativada pelo conterrâneo Claudiano Guimarães Santos, que postou em sua página no facebook uma fotografia de seu pai, Abel Jacó dos Santos, no IX-Congresso Nacional de Municípios, realizado no Paraná, em 1979. O saudoso amigo Abel era um comerciante muito querido pelo povo de Simão Dias. Inicialmente ele tinha uma alfaiataria, depois foi proprietário de uma movimentada lanchonete/bar situada na Rua Joviniano Carvalho, entre as lojas “As Três Américas”, de Cícero Guerra, e a ”A Predileta” de Elísia Montalvão. Era uma pessoa simples que, com muita simpatia, sabia conquistar amizades e cuidar de pessoas humildes, qualidades que facilitaram sua eleição como prefeito de nossa terra (1978) e, em seguida, deputado estadual. 


Nos bons tempos de minha juventude,  acompanhávamos os jogos de futebol carioca no Bar do Abel . Ele tinha um potente rádio do tamanho de uma televisão de 20 polegadas, que funcionava à bataria de carro. Nas tardes de domingo, ele colocava o rádio em uma mesa na calçada, em frente ao seu bar, e sintonizava na Rádio Nacional para que os fregueses ouvissem as narrações dos grandes embates do campeonato carioca. As mesas espalhadas na calçada ficavam lotadas. Foi lá que ouvi as transmissões dos jogos em que o Flamengo foi campeão em 1955(aliás, conquistou o tricampeonato).

Já nos anos 60, quando a cidade não contava com clube social, era no Bar do Abel que a turma se reunia para grandes comemorações, na base de cervejas geladíssimas e saborosos tira-gostos. Dos meus arquivos implacáveis e desorganizados pesquei três fotografias de acontecimento no famoso bar. Não estou
lembrado se foi uma reunião de aniversário ou despedida de um bancário. As fotos (tiradas pelo meu saudoso vizinho e amigo Barbosa Guimarães) nos lembram de vários amigos e, de modo especial, do Abel e de seu filho Claudiano (na época um garotinho).


Quando falo no bar de Abel, sempre me lembro do causo que aconteceu com o amigo Adelmo quando era garoto. Em uma tarde de domingo, quando eu ia ao Cine Ipiranga vender gibis na sessão de matinê, passei pelo bar e lá encontrei os amigos Adelmo e Joaquim. Estávamos conversando quando apareceu o Raimundo, um homenzarrão que gostava de uns pileques e era conhecido como Vitor Mature, por se parecer com o astro do cinema. Ele estava bebendo e quando bebia saía do seu comportamento normal e educado: passava a meter medo, se tornava enjoado, fazia e acontecia, encarava quem o desapontasse. Era bom de briga e naquele tarde ele estava querendo testar seus músculos. Depois de tomar mais alguns tragos, começou a provocar. Não encontrando adversários de sua idade e tamanho, cismou que os garotos Adelmo e Joaquim teriam de cantar. Diante da negativa dos meninos, ele pegou o Adelmo pelo braço e disse: “Agora você vai cantar uma canção de Nelson Gonçalves”. O garoto balançou a cabeça como negativa e falou que não sabia cantar. Mas o bebum não aceitou tal justificativa e determinou raivoso: “Vai cantar, sim! Comece a dar o tom. Vai, pirralho, dê o tom!”.
Mesmo meio assustado, o Adelmo fez um ar zombeteiro para atender a ordem do valentão e soltou o ar dos pulmões, cantarolando com inflexão nasalada:
“Tommmmmmmmmmmmmmmmm”
As gargalhadas dos que estavam no bar desviaram a atenção do implicante e Adelmo aproveitou esse descuido: livrou-se das mãos do agressor e se mandou...
Aracaju, 25/07/2016
BETO DÉDA

 

quarta-feira, 20 de julho de 2016


HISTÓRIAS “PENOSAS” PARA OS DE MAIOR IDADE.
Antes de qualquer coisa, aqui vai uma pergunta pertinente para os dias atuais: quando se inicia a maior idade para se ouvir histórias “penosas”? Com 14, 16 ou 18 anos?  Não sei e não entro na discussão. Como sou da velha guarda, melhor é que menores de 18 anos não leiam estas “mal escritas linhas”. 
Para meu tio Paulo, que gostava muito de contar tais histórias, a palavra "penosa" tinha o sentido especial, ou seja, dava ideia de coisa maliciosa, picante, sensual. Um simples fato da vida era transformado por ele em uma “história penosa”, que usava para abrir sorrisos e alegrar os ambientes.  Para ele tais histórias não serviam para os de menor idade.
 Em uma de minhas conversas com tio Paulo, lembrando coisas de nossa cidade, falei sobre as balas envolvidas com figurinhas de jogadores de futebol, vendidas logo após a seleção brasileira ser campeã mundial, em 1958. Então ele lembrou o caso das famosas “Balas Bil”.
Dizia ele que, naquela época, apareceu em Simão Dias uma engraçada senhora carioca, com um sotaque forte, que impressionava as pessoas.  Esta senhora foi até o Bar de Valério comprar umas Balas Bil, muito apreciadas pela garotada, para distribuir com seus sobrinhos. Foi atendida por seu João Fontes que era balconista do bar. Depois de distribuir as balas com a meninada foi fazer o pagamento. Espantou-se com o valor informado por seu João, e manifestou seu espanto, deixando admirados os que estavam no bar e ouviram suas palavras. Exclamou ela em tom de protesto, formando um cacófato, em que ficava evidente um termo (xibiu) que, em nossa região, tem  o sentido chulo de vulva:
 - Xiiii Bil está muito caro nesta terra...
...
Meu tio sabia dosar com graça os causos que contava e o fazia transbordando humor. Aqui vai outra história penosa. Contou-me que uma vez apareceu na cidade um sujeito esperto que dizia saber falar com os animais. Era apenas um ventríloquo. Ele tinha parentes que trabalhavam na Fazenda "Chora Menino" e foi em direção àquele local juntamente com um garoto guia. No meio da estrada, para impressionar o guia, começou a usar sua especialidade como ventríloquo e simulava conversar com os animais. Primeiro com o boi, depois com o porco e  em seguida com um jumento. O guia ficou boquiaberto com aquilo e pensou: “Não é que o danado sabe falar com os bichos”. Continuaram caminhando, mas, de repente, o garoto ficou apavorado. É que lá na frente estava sua ovelha preferida e que ele usava para aliviar suas comichões. O visitante olhou a ovelha e percebeu o apavoramento do guia. Então exclamou: “Olá, amiga ovelha, como meu guia vem lhe tratando?” E ele mesmo começou a resposta: “Ora, tem me usado...” Então o rapazola interrompeu imediatamente a conversa:
-Moço, é melhor não conversar com esta ovelha. É uma bicha mentirosa e considerada como a maior ‘levantadeira’ de aleive desta redondeza. Esqueça a lanzuda, converse com o pato...
...
Dando o dedo pé
E tinha a historia de um menino danado de Simão Dias, cheio de sardas, que de tudo fazia uma molequeira. Dizia meu tio que o garoto era tão safado que sabia fazer pornografia com o dedo do pé.  Mostrava o dedo do pé imitando o que outros fazia com o da mão. Tudo que lhe perguntava, ele respondia usando uma pulha ou um palavrão. A maior satisfação do garoto sardento foi quando começou a estudar inglês no ginásio. Ele ficou vidrado quando a professora começou a ensinar o verbo “To Be”, especialmente quando ouviu a pronúncia “tu-bi”, igual ao termo usado na cidade para designar o órgão genital feminino. Em determinado dia, vendo a Professora de Inglês passar, ele não se conteve e exclamou: “Lá vai um grande tubi”. A mãe ouviu, não gostou e reclamou. A justificativa do garoto foi imediata: “Ora, ora, estou aprendendo inglês e dizendo que a professora é um grande tubi, ou seja, um grande ser. Sacou?...
Certa vez, para provocá-lo, tio Paulo indagou: “Madeirinha, faça uma rima com a palavra anão. O garoto pensou um pouco e, não encontrando melhor rima, saiu-se com essa: “Anão, anão mais com uma pinta destamanhão” . E fazia um gesto separando as mãos para demonstrar o “destamanhão”...
Aracaju, 20/07/2016

BETO DÉDA

terça-feira, 12 de julho de 2016

Lições do passado.
Recentemente, depois de ler um de meus textos, um amigo disse-me que eu tinha um estilo parecido com o do meu pai. Especialmente no que diz respeito à linguagem simples e direta. Não foi a primeira vez que me disseram isto. Nem é preciso dizer que fiquei demasiadamente feliz com a grata comparação.
De meu pai tive um aprendizado muito grande. Desde garoto me acostumei a ler e gostar do que ele escrevia. E tem um detalhe importante: como aprendiz e tipógrafo, eu fazia questão de compor os textos por ele escritos, juntando no componedor os tipos de chumbo para edição do jornal “A Semana”. Foi um treinamento valioso para minha formação.
Lembro-me, agora, de uma das mais gratas lições do meu pai. Estava certa tarde na sala da frente da redação do jornal, lendo um gibi. Meu pai aproximou-se, olhou o que eu estava lendo, foi até uma de suas estantes, pegou um livro e me disse: “Se você quer conhecer boas histórias, leia este livro”.  Era um dos exemplares de sua coleção do escritor Malba Tahan, com o título “Lendas do céu e da terra”. Fiquei encantando com a leitura do primeiro livro. Daí em diante eu comecei a ser um assíduo leitor e admirador do autor de “O Homem que Calculava”; passei também a conhecer os encantos da biblioteca de meu pai.
Tempos depois, no final dos anos cinquenta, quando eu era aluno interno do Ginásio Jackson de Figueiredo, voltei a lembrar da lição de meu pai. O diretor Benedito Oliveira designou-me a comparecer ao Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe para assistir à palestra “A arte de contar história”, proferida pelo professor catedrático do Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, Júlio Cesar de Mello e Souza, que era mais conhecido pelo pseudônimo Malba Tahan, que usava ao escrever suas famosas histórias.  
Para mim foi uma satisfação imensa e, até hoje, não esqueço uma parte da explanação do grande escritor, na qual ele dizia que o simples fato da saber escrever não era suficiente para ser um bom contador de história. E apresentou um exemplo que ficou inculcado em minha memória.  Tentarei passar para os amigos o que ouvi do grande Malba Tahan.
Dizia ele que um garoto estudante, que vivia na roça, aproximou-se do pai e perguntou o que significava o vocábulo “FENÔMENO”, termo que a professora pedira para ele descrever como dever de casa. O pai não era letrado, mas sabia das coisas e tinha sua maneira própria de se fazer entender. Então, pensou um pouco, olhou para o filho e disse:
- Está vendo esta vaca? E antes que o filho dissesse qualquer coisa, ele completou: “Ela não é um fenômeno”.
- Está vendo aquela casa? E acrescentou: “Ela também não é um fenômeno”
E ante o olhar interrogativo do filho, concluiu:
- Mas, quando você notar que esta vaca subiu no telhado daquela casa, aí meu filho, você estará diante de uma raridade, uma coisa fora do comum: um FENÔMENO.  E fatos como este  serão  merecedores de admiração porque se incluem entre os que têm natureza fenomenal.
Ao finalizar, o conferencista fez uma explanação sobre a importância do uso da simplicidade na forma de contar histórias.
...
Ainda aproveitando o gancho deste causo, veio-me à lembrança um fato que ocorreu quando eu trabalhava no Banco do Nordeste e participava na Direção Geral, em Fortaleza, de um treinamento para elaborar apostilhas sobre ensino à distância (no meu caso: Crédito Rural). O Banco contratara uma professora paulista para nos ensinar. Na primeira aula, ela fez uma preleção sobre a necessidade de usarmos uma linguagem simples, de modo a facilitar o entendimento. Aproveitei a oportunidade e narrei o exemplo que nos foi ensinado pelo famoso Malba Tahan.
Depois que contei o caso, um colega desatento perguntou qual o sentido daquele fato para o treinamento. Fiquei triste e atordoado diante daquela pergunta, isto porque deu a entender que a minha narrativa tinha sido impertinente.
Recuperei-me ao ouvir a professora paulista esclarecer a pertinência de minha intervenção, e o fez usando exemplo simples, tal qual o ensinamento do mestre do Colégio Pedro II.

São lições inesquecíveis de pessoas que enriqueceram nosso conhecimento.

Aracaju, 11/07/2016

BETO DÉDA

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Conversando com Guilé, a vovó do caroço.
Esta semana lembrei-me da conterrânea Guilhermina, também conhecida por Guilé, ao admirar o desempenho da atriz americana Ann Ransey na comédia “Throw Momma from the Train”. No referido filme, a feição da atriz apresenta uma boa semelhança com a Guilé. A diferença é que a amiga simãodiense era mais simpática. A personagem interpretada por Ransey exigia um desempenho que demonstrasse uma constante intolerância e raiva. Não era o caso de Guilé; sua agressividade não era contínua: aflorava quando era importunada pelas crianças da escola que ficava próxima à sua casa. 
 
 
Dona Guilé era uma senhora baixinha, ligeiramente cacunda, de rosto enrugado, voz rouca devido ao aumento da tireóide (bócio). Morava em uma travessa entre as ruas Santana e Estância, bem atrás do Grupo Escolar Fausto Cardoso, em Simão Dias. Ela parecia ser uma pessoa sofrida, mas muito disposta, do tipo que não leva desaforo pra casa. Não tolerava insultos e ficava pê da vida quando os meninos lhe chamavam de “vovó do caroço”, apelido derivado de sua idade e do aparente nódulo que tinha no pescoço. Quando ela ouvia o inditoso apelido, o pau troava, chovia palavrões e a mãe da garotada era quem sofria os impropérios da ofendida “vovó”.
Em minha memória, vejo a Guilé caminhando curvada, a passos lentos, escolhendo onde firmar os pequenos pés, calçados em alpercatas fabricadas por “chiquiteiros” conterrâneos. Sempre usava um vestido de chita e um cinto fino, que ela afivelava um pouco acima da cintura, próximo aos seios. 
De vez em quando ela aparecia na casa de meu sogro, na Rua de Santana. Eu gostava de prosear com D. Guilé e, logicamente, isto acontecia quando ela estava calma. Certa vez perguntei-lhe se já tivera algum namorado. Rindo, respondeu-me que sim; mas que o ajuntamento não durou muito tempo. As qualidades pouco recomendáveis do amante forçaram o desenlace. Teve que largá-lo. E com um gesto peculiar, torcendo o beiço para o lado esquerdo da boca, onde lhe faltavam alguns dentes, ela relacionou os defeitos do gajo. E o fez puxando pelos erres e com tal desembaraço que indicava ter decorado de tanto repetir:
  - O traste era bonitinho, mas também era comedor, bebedor, jogador, fumador, namorador, cantor, dançador e conversador. Tinha um papo que era uma esparrela: me fez cair no logro. Quando percebi, fechei a porta e mandei o desgraçado pra longe. Vai-te, pinima!
Certo dia eu estava tomando uma cerveja e ela chegou de mansinho pelo portão da casa de meu sogro, que dava para travessa onde ela morava. Pilheriando, perguntei se ela queria um copo da “loura” geladinha. Ao recusar a oferta, acrescentou uma informação inesperada. Disse-me, demonstrando seriedade, que só tomava um único e diário cálice do “Conhaque Alcatrão de São João da Barra”. E justificou que bebia exclusivamente como remédio, com intuito de revigorar os nervos, inibir a falta de apetite e expandir a alegria.
Ao perceber meu indisfarçado riso, aproximou-se e confidenciou:
 - Preste atenção, meu rapaz, eu bebo apenas um tiquinho do bom remédio que, por sinal, também é usado por pessoas de muita leitura e largo conhecimento. 
Em seguida, para justificar ainda mais o uso do conhaque, apresentou um exemplo surpreendente, ao afirmar em voz baixa, quase ao pé do meu ouvido:
- Dona Dinha – que é uma pessoa inteligente, sabe escrever na máquina e trabalha no ofício de escrituras – bebe diariamente uma dose dessa bebida para expandir sua alegria.
Neste ponto eu não controlei o riso. E ela não gostou, saiu com a cara de poucas amigas, sem responder de onde obtivera tal informação...
Pelo que sei da Dinha, ela sempre foi e continua sendo abstêmia e alegre. Naquela época, contei-lhe este fato e rimos à vontade.
Na verdade as lembranças de Guilé me alegram. Especialmente por ser ela uma das minhas personagens inesquecíveis de Simão Dias, e que, do mesmo modo, certamente permanece na memória da garotada do Grupo Escolar Fausto Cardoso dos anos sessenta/setenta.
Valeu a pena a lembrança que a atriz americana me despertou.
Aracaju, 06/07/2016.

BETO DÉDA

quarta-feira, 29 de junho de 2016


 

Minhas lembranças de hoje se voltam para as festas juninas em Simão Dias. E a memória me transporta para a Rua dos Ribeiros, onde morávamos. Era a noite das fogueiras, dos fogos de artifícios e das comidas típicas: milho cozido, milho assado, canjica, manauê e pamonha. Iguarias que ao lembrar fico com água na boca.


Parece até que estou vendo a imagem de meu pai, em frente à mesa de jantar, separando os fogos de artifícios comprados de seu Agenor, um fogueteiro que também morava em nossa rua, quase em frente à casa de minha avó Olívia. Meu pai fazia a separação, formando pequenas rumas de traques, chuvinhas, estrelinhas, foguetinhos, coiós e umas bombas que recebiam uma denominação curiosa, devido ao som do seu estampido: peido-de-velho. Depois da divisão, ele distribuía tudo entre os filhos e netos. Fazíamos uma algazarra imensa e éramos dominados por grande alegria.


Soltávamos os fogos em frente a nossa casa, local em que meu pai acendia a tradicional fogueira de lenha em pé (em forma de feixe). Aliás, poucas eram as casas que não tinham uma fogueira acessa no dia de São João. Quando a lenha queimava, então começavam os compadrios. Os garotos e garotas ficavam compadres, com as mãos dadas, rodando em volta das brasas que sobravam da fogueira e cantando mais ou menos o seguinte:


 

 São João dormiu e


 São Pedro acordou;


 Fulana é minha comadre

 Porque São João mandou...”

 
Logicamente eu me refiro aqui aos bons e tradicionais tempos de minha infância. Atualmente as coisas mudaram. As tradições vão sendo postergadas, as fogueiras já são raras e não fazem as canjicas e os bolos de milho como antigamente: tudo é produzido em padarias e supermercados. Não tem o sabor natural, aquele gostinho formidável do que era feito em casa, no fogão de lenha e no tacho (entre meus irmãos disputávamos quem se deliciava comendo a raspa do tacho após a feitura da canjica).
 
Carvalho Déda - desenho feito pelo artista
J. Inácio em 1956.
A tradição vai desaparecendo e surgindo moda nova, com músicas diferentes (e aqui pra nós, muitas de um mau gosto insuportável).  

 
Na verdade, não é de hoje que percebemos as mudanças nos festejos juninos. Lembro-me que, às vésperas das comemorações juninas de 1956, meu pai já percebia que a tradição começava a ser esquecida.  E escreveu um bonito artigo com o título “CADÊ SÃO JOÃO”, que foi publicado no jornal “A Semana”, edição de 09 de junho de 1956, e consta no livro COLETÂNIA - CARVALHO DÉDA - VIDA OBRA (Gráfica Editora J. Andrade, 2008 – p. 201/203).

E viva a festa de São João...
 
Aracaju, 23/06/2016
BETO DÉDA

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Na natureza nada se perde tudo se transforma.
 Quando ainda era garoto, recebi de meu pai um ensinamento jamais esquecido. Ao perceber que eu chorava pedindo um brinquedo, papai consolou-me sugerindo que observasse em volta e encontraria um mundo de diversões. Então, pegou-me pela mão, levou-me até o quintal de nossa casa e disse-me que ali eu poderia encontrar dezenas de brinquedos. E para justificar sua observação, pegou um cabo de vassoura, amarrou um barbante em forma de rédea e exclamou: “Aqui está um bonito e fogoso cavalo alazão. Brinque à vontade, cavalgando e dando asas a sua fértil imaginação”.
Vendo-me alegre, a galopar no meu primeiro cavalo de pau, meu pai aproveitou o ensejo e explicou-me a famosa frase atribuída ao químico francês Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. 
Nunca esqueci este ensinamento do meu bom pai. Aliás, a frase do famoso francês era do conhecimento comum de meus tios, que repetiam para mim. Tio Paulo me ensinou a transformar meias descartadas em bolas de futebol; com tio João aprendi a transformar cordão ou tiras de couro em tranças fortes e bonitas; tio Sininho, que tinha uma pequena oficina de marcenaria no quintal de sua casa, ensinou-me a tornear e fazer brinquedos de madeira (eu e o primo Zé Carlos fazíamos revólveres de madeiras, para brincar de caubói ou para trocá-los por mangas com os netos de Juca Matos).


Este maravilhoso aprendizado eu transmito sempre para meus filhos e netos. Também tenho minha oficina de “armengos”, onde me dedico a realizar transformações.  Transformo: tubos emprestáveis em “mensageiros do vento”, tabocas em torneiras automáticas; casco de coco em vaso de planta;  jornais lidos em barcos e aviões e também transformo pedaços de madeira em novidades que agradam as crianças.


 
O tronco de um cajueiro perdido foi transformado em dinossauros
Durante esta semana, observando um tronco de cajueiro morto, vislumbrei a oportunidade de realizar um trabalho de fajuto escultor. Com um cinzel e usando a imaginação, transformei o velho tronco carcomido de cupins em figuras que lembram dinossauros. Na verdade um “armengo” que serviu para a garotada brincar e usar a imaginação, lembrando os filmes infantis cujos temas são os dinossauros.
Ao notar a curiosidade e a satisfação da criançada, senti o doce encanto da alegria em saber que meu feito agradou. Então, lembrei-me do meu saudoso sogro, Antônio Bebém, que, ao admirar um “armengo” de minha fabricação, dizia com graça que me deixava feliz:
“Beto, você é um artista!”

Aracaju, 13/06/2016

Beto Déda