segunda-feira, 15 de julho de 2024

Novas lembranças do saudoso amigo Átila Lisa.

 

Sexta-feira passada, quando ocorreu a solenidade de lançamento da pedra fundamental da nova sede da Polícia Federal em Sergipe, nossas lembranças mais vez se voltaram para o saudoso amigo Átila de Meneses Lisa, que foi homenageado como um dos agentes pioneiros da Polícia Federal e integrante da corporação de Sergipe desde 1960.

O Agente Flávio Lisa discursa na solenidade de lançamento da Pedra Fundamental da nova sede da Polícia  Federal

Reconhecendo os serviços que prestou à cidade, o Município de Aracaju denominou o logradouro de acesso à futura Sede da Polícia Federal, no Bairro Coroa do Meio, com seu nome: “Rua Agente Federal Átila Lisa”.

Flávio, Carla e meus netos (Miguel e Marina) ao lado da placa em homenagem a Átila Lisa.

O Sr. Átila nasceu em 12/01/1940, dedicou sua vida laboral a serviço de segurança pública federal. Ainda jovem, serviu ao Exército e, logo depois, sendo reconhecido pelo seu bom desempenho e comportamento, foi trabalhar  na Companhia de Polícia do Exército de Salvador. Em seguida, foi para Brasília integrar o DFSP (Departamento Federal de Segurança Pública), que é a atual Polícia Federal. Na segunda metade dos anos 60 ele veio para Aracaju e aqui ficou até 12 de outubro de 2012, quando partiu para o plano celeste.

Conheci Seu Átila quando ele já estava aposentado, mas percebi que ele sempre teve um coração magnânimo e muito senso de justiça. Esta minha opinião é confirmada pelos que conheceram seu trabalho. Ele foi um exemplo como cidadão, esportista e como policial que sempre defendeu os Direitos Humanos. Com seu jeito humilde, cativava as pessoas e, assim, fez um grande círculo de amizades em Aracaju.

No campo esportivo, ele era um mestre no jogo de futebol de mesa (futebol de botão). Começou quando tinha 12 anos de idade e participou de diversos campeonatos realizados nos bairros de Salvador, sua cidade natal. Aqui em Aracaju, ele teve atuação formidável: foi Vice-Presidente da Liga Sergipana Futebol de Mesa por muitos anos e incentivador da organização daquele esporte no Brasil. Sua participação como atleta será sempre lembrada: campeão de diversos torneios “Nordestão” e, em 1970, ganhou o troféu como vencedor do Primeiro Campeonato Brasileiro de Futebol de Mesa.

 Lembro, agora, que em novembro de 2012, Seu Átila foi homenageado em Salvador, pela FBFM(Federação Brasileira de Futebol de Mesa), na abertura do Campeonato Nacional. Eu estava lá, a passeio, e me emocionei com a beleza da solenidade.  Sobre a homenagem escrevi um texto, em 19/11/2012, e postei meu blog (carlosalbertodeda.blogspot.com).

Flávio e Miguel (meu neto) ao lado do cartaz em  homenagem a Átila Lisa, novembro de 2012.

O saudoso amigo ao desencarnar, deixou sete inteligentes filhos: Alan, Alex, Flávio (meu querido genro), Charles, Sueli, Arley e Marcos Paulo. Transmitiu para eles uma boa educação e estímulo aos esporte. Os filhos são pessoas excelentes e conhecidos como aplicados atletas de futebol de mesa, que se destacam em campeonatos regionais e nacionais; e Flávio Lisa também já foi campeão brasileiro. Seguindo orientação do pai, Flávio e Alex também se tornaram Agentes da Polícia Federal.

Para o filho Alex Lisa, seu pai era um mestre e os filhos, desde pequeninos, aprenderam com ele importantes lições que os prepararam para a vida.

Do meu genro, Flávio Lisa, lembro essas emocionantes palavras:

“Ele sempre era conselheiro, torcedor fanático e entusiasta dos filhos. Uma certa feita, já nos seus últimos dias no hospital, em uma das frias e difíceis madrugadas, ele me chamou ao lado do leito e disse: “Meu pai (assim me chamava carinhosamente), pegue o meu troféu de Campeão Brasileiro e coloque na sua estante de troféus, que ele atrairá o seu...”

Não deu outra, pouco mais de um ano da sua passagem, eu subiria ao topo do pódio para ser Campeão Brasileiro, em novembro de 2013. A sua influência sobre mim foi tão marcante que segui a mesma profissão e desenvolvi o mesmo amor pelo mesmo esporte. Átila Lisa, meu herói, meu exemplo, meu amado pai, homem que sempre pregava e usava a palavra GENTILEZA”.

Justa e merecida homenagem que a comunidade aracajuana presta ao saudoso ÁTILA DE MENESES LISA.

Transmito aqui meu abraço a todos familiares, vez que, infelizmente, não pude comparecer à solenidade da pedra fundamental. E ativando estas minhas lembranças, certamente Seu Átila, no sagrado lugar que se encontra, com razão, deve ter repetido uma frase que sempre usava quando notava uma falha: “Isso foi uma Falta Técnica!

Aracaju, 15/07/2024

Beto Déda

 

terça-feira, 4 de junho de 2024

 

Um prêmio de consolação.

 

Muitas vezes um fato arquivado em nossa memória é despertado por um sonho seguido de uma simples palavra dita por alguém, como se ocorresse uma sincronicidade de pensamentos. 

Um dia desta semana, sonhei que estava feliz porque tinha sido ganhador de um prêmio. Pela manhã, estava em um Supermercado e encontrei-me com um antigo colega, que lembrou do tempo que ganhamos uma medalha por ter participado do time de futebol de salão do Colégio Atheneu. Embora não fosse titular, participei de algumas partidas como primeiro reserva.

Entre o meu sonho e a lembrança do amigo, aconteceu a “sincronicidade”, ou seja, um fenômeno descoberto pelo psicólogo suíço Carl Jung, ao estudar a relação significativa não causal entre dois fatos. Para aquele psicólogo “a sincronicidade revela a conexão significativa entre o mundo subjetivo e o objetivo”.

E para complementar essa conexão, quando chequei em casa e fui guardar um documento na gaveta da escrivaninha, vi um chaveiro e, mais uma vez, a memória foi despertada para um prêmio que recebi no final dos anos cinquenta. Repasso, com detalhes, como aconteceu esse prêmio.

Era tempo de férias, acordei-me cedo e calcei meu tênis tipo basqueteira – daqueles que tinham o cano longo e, ao lado do tornozelo, um pequeno protetor de borracha, com o nome do fabricante – e fui à redação do jornal A Semana. Era uma manhã ensolarada e, lembro-me como se fosse ontem, me alegrei quando vi a beleza dos raios do astro rei descendo inclinados ao   longo da Rua do Coité, em Simão Dias.  

Assim que cheguei na redação do jornal, passei a ler um almanaque ou a  revista “Seleções - Reading Digest” -  não estou seguro quanto à fonte - foi quando notei um anúncio de um órgão associado à Embaixada Italiana, que informava um concurso literário de redação. Fiquei interessado e resolvi concorrer.

Associei imediatamente a Itália à rua que nasci (antiga Rua dos Ribeiros), onde viveu nos velhos tempos um italiano que tentou mudar a denominação daquele logradouro. Embora o fato não tenha ocorrido no meu tempo, tomei conhecimento ao ouvir relatos de meu pai.

Antiga Rua dos Ribeiros que um italiano tentou mudar a denominação(Foto do acervo de Beto Déda)


Cuidei então de fazer o texto, descrevendo o estrangeiro e sua passagem por minha terra natal.

Como não tinha conhecido aquele gringo, usei a imaginação para descrevê-lo, me inspirando em um ator italiano, que não me lembro o nome, mas sua fisionomia estava presente nos seriados que passavam no Cine Ypiranga.  Usei a criatividade para dizer de suas atividades na cidade e o modo como tentou alterar o nome da rua que morava. Contava-me meu pai que o italiano fazia questão de demonstrar seu patriotismo, tanto é que, ao construir sua casa, colocou em frente uma placa com letras garrafais: “Rua da Itália”. Ao sair de Simão Dias, vendeu sua casa e fez questão de constar na escritura a localização: “situada na Rua da Itália nesta cidade”. Apesar de seu intento, o nome não pegou e a rua continuou a ser conhecida como Rua dos Ribeiros, que na atualidade tem  a denominação de Júlio Manoel de Oliveira.

Enviei a redação pelo correio. Tempos depois, não sei se passados um ou dois meses, Messias Carvalho, que era funcionário dos Correios, entregou-me uma caixinha de encomenda com um chaveiro e um bilhete que me enviara o patrocinador do concurso, no qual agradecia minha participação e concedia-me, a título de consolação, um pequeno prêmio: um chaveiro com a gravura do Coliseu Romano.

Na época eu tinha 19 anos e vibrei com o consolo recebido. Ainda bem que me deram atenção!

Pelo visto, um sonho, um ligeiro diálogo com um antigo colega e o abrir de uma gaveta fizeram-me recordar de um prêmio, um notável psicólogo suíço, um desconhecido italiano e do meu conterrâneo Messias Carvalho que foi sacristão e trabalhava nos Correios e Telégrafos.

Isso é o que os entendidos denominam de sincronicidade ou conexão significativa.

Aracaju, 03/06/2024

Beto Déda



terça-feira, 28 de maio de 2024

 

MEU ANIVERSÁRIO E A MENSAGEM DOS FAMILIARES E AMIGOS.

 

Nesse último sábado, comemorei mais um aniversário em companhia dos familiares. E a alegria foi contagiante.


                                Beto Déda e familiares comemorando seu aniversário.

A reunião familiar, os abraços recebidos e as mensagens que os parentes e amigos me enviaram correspondem a uma imensurável força que impulsiona nossos passos na nova etapa que se avizinha, depois dessa caminhada de 83 anos bem vividos na graça de Deus. 

Reflito agora, e agradeço, os dizeres alegres e promissores expressos por pessoas queridas. Acredito que essas manifestações positivas têm uma importância fundamental em despertar amor, fé e esperança. E afirmo assim porque, infelizmente, nos dias atuais, a humanidade enfrenta imensos dissabores por falta de amor, quando se nota um avanço terrível daqueles que propagam a mentira, o ódio, as guerras e a ganância, com a consequente destruição da biodiversidade, e os consequentes desastres ambientais, determinando dor e sofrimento para todo ser vivente. Precisamos, pois, de “esperança, coragem e fé”, como costuma repetir um conhecido jornalista pregador do espiritismo. 

Mas, afinal, no meu aniversário tive o prazer de muitos, muitos mesmo, contatos fervorosos que me deixaram com otimismo. Resta-me agradecer...

Um forte abraço de agradecimento a todos que me alegraram no dia que, mais uma vez, comemorei a data do meu nascimento.

Aracaju, 28/05/2024

BETO DÉDA

sábado, 11 de maio de 2024

 Uma homenagem ao mestre Harildo Déda.



O jornal A Tarde, edição de quarta-feira passada, dia 08/05/2024, no Caderno 2, em matéria sob o título "Ao mestre Déda, com carinho", presta uma homenagem ao saudoso mestre de teatro Harildo Déda, em reportagem sobre a estreia da série “Pequeno Gigante” nos canais digitais Claro TV, Google Play, iTubes, Vivo Play e Prime Vídeo.

A série tem 13 episódios e, embora seja ficcional, trata de problemas reais da cidade de Salvador, envolvendo debates políticos e problemas decorrentes da especulação no mercado imobiliário. Essa série foi desenvolvida e produzida na Bahia por profissionais baianos e contou com a presença do saudoso conterrâneo Harildo Déda como ator, interpretando o papel de um veterano na arte de manipular e iludir apadrinhados.

Na reportagem, cineasta Jarbas Éssi, que um dos roteiristas e assistente de direção da série, presta informações sobre a atuação do saudoso simãodiense, afirmando que Harildo Déda era: era um gigante no que fazia; sempre muito criativo, era um show no set de gravação; e acrescenta entre outras informações que Harildo deixa um legado também nessa obra, que foi uma das suas últimas aparições na tela”.

Sempre fui um fã de Harildo, desde os velhos tempos, e aqui neste site já escrevi sobre ele. Nos últimos anos antes dele passar para a vida eterna, mantivemos contatos via internet, quando tive as honra de saber que ele era um leitor assíduo dos meus textos e fazia comentários. Recordo agora que em conversas sobre o teatro em nossa terra, ele fazia questão de lembrar e elogiar a participação de D. Carmem Dantas e D. Clarita Santana na realização e direção de peças teatrais no Cine Teatro Ypiranga e no Cine Brasil.

Harildo foi um ilustre conterrâneo que nos orgulha e revive em nossas lembranças, o que me faz repetir aqui o subtítulo da reportagem do referido jornal baiano: Harildo Déda eterno.

Para os amigos e parentes posto a cópia da reportagem publicada pelo jornal A Tarde, que me foi enviada pelo querido Hilton Déda.


Cópia da página do jornal A Tarde que presta homenagem a Harildo Déda


No início de 2023, em sua última vez que esteve em Simão Dias, ele visitou o Museu Digital Enedina Chagas e a doutoranda Amanda Santos registrou a visita em fotos que apresento a seguir.


 
Harildo e Ézio Déda  no Museu Digital (Foto Amanda Santos) 

Harildo Déda e Amanda Santos no Museu Digital de Simão Dias(SE)
   


O mestre Harildo Déda revive eternamente em nossas lembranças.

Aracaju, 11/05/2024

Beto Déda



quarta-feira, 24 de abril de 2024

A proteção aos idosos e as vagas nos estacionamentos...

 

Conversando com um velho amigo sobre a lei de proteção aos idosos, e de modo especial sobre a reserva que a lei prevê para vagas nos estacionamentos públicos e privados, tomei conhecimento de fatos que nos deixam amargurados.



Sobre tais vagas, foi-me lembrado pelo amigo um fato que lhe ocorreu já decorridos alguns anos e que agora narro para conhecimento dos que me acompanham neste espaço.

Certa manhã, como fazia semanalmente, o meu velho amigo, que beirava os oitenta anos de idade, acompanhado de sua esposa, que também era idosa, foi a um supermercado e estacionou seu veículo em vaga especial, exercendo um direito previsto no Estatuto de Pessoas Idosas. Ele sempre mantinha em local visível de seu automóvel o cartão de licença expedido pelo órgão municipal de trânsito.  Fez as compras e tranquilamente voltou para casa.

Dias depois, recebeu um surpreendente documento do SMTT cobrando uma multa, por ter estacionado o veículo em vaga de idoso. Indignado com tal afronta ao seu direito, ele foi à repartição reclamar, esclarecendo que aconteceu um equívoco por parte do guarda que lavrou a multa.

Informou ao servidor da Secretaria de Trânsito que a licença estava exposta em lugar visível, que o carro lhe pertencia e tinha comprovantes de que naquele dia, na mesma hora, ele estava no tal mercadinho. Esclareceu que certamente o agente fiscalizador cometeu um engano ao registrar a indevida irregularidade e se ele tivesse um pouco de atenção teria visto o cartão no painel do veículo ou, se tivesse um tantinho de paciência, verificaria que as pessoas que estavam no veículo (motorista e passageira) eram idosos e proprietários do automóvel.

Ao ouvir tais esclarecimentos, o funcionário ponderou que possivelmente o cartão de licença estava vencido e que o prazo de validade era de dois anos.

Então o idoso teve a curiosidade de indagar qual a razão de tão curto prazo de validade, menor que o da carteira de habilitação de motorista. A resposta foi que indivíduos sem caráter utilizam cartões para estacionarem nas vagas destinadas aos idosos, razão pela qual a melhor solução é reduzir o prazo de validade, para prevenir essa usurpação.

Ora, ora pois! Percebe-se logo o absurdo da justificativa: para solucionar o problema, a solução é reduzir o prazo de validade do cartão, ou seja, os idosos é que serão punidos.  Durma-se com um barulho desses! Devido a uma exceção, pune-se todos os idosos, ao exigir a renovação breve da licença. Essa estúpida medida indica duas formas de ofensa: a primeira, por infernizar os idosos com a previsão da morte próxima; e a segunda, por pensarem que os idosos têm a doença rejuvenescedora de um personagem descrito pelo escritor Scott Fitzgerald em seu livro “O Curioso Caso de Benjamin Button”. 

Mas voltemos ao caso. Após ser orientado pelo impaciente servidor a apresentar recurso, o velho fez um cuidadoso relato, comprovando que ele próprio dirigia o veículo, anexando documentos irrefutáveis e esclarecendo que o princípio estabelecido pela legislação é proteger as pessoas idosas. Em seus arrazoados, informava em letras maiúsculas, em negrito:

SOU IDOSO E NÃO CONCORDO COM ESTA MULTA, APRESENTO PROVAS IMPORTANTES E TAMBÉM DEVO ESCLARECER QUE NÃO TENHO O DOM DE REJUVENESCIMENTO DO PERSONAGEM DO ROMANCE ESCRITO POR SCOTT FITZGERALD, NO LIVRO ‘O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON’.”

Ao entregar o recurso, a pessoa que o recebeu deixou o idoso companheiro desiludido e amargurado. O “barnabé” fez um gesto de desdém e afirmou que a turma recursal não iria ler e nem daria a mínima para os tais argumentos. E o pior é que aquele atendente tinha razão. Passados tantos anos, não se tem notícia do que foi decidido pelo SMTT.

O amigo ficou tão ofendido que pensou em apelar para o judiciário. Mas lembrou de seu problema cardíaco; pensou na contrariedade que seria relembrar, em audiências, a ofensa recebida.  Assim é que, embora reconhecendo a necessidade de lutar pelo direito, tão bem esclarecida pelo jurista alemão Rudolf von Ihering, em seu “A Luta Pelo Direito”, sentiu que seu problema de saúde falava mais alto e resolveu não iniciar uma demanda judicial.  Pagou para esquecer. Mas o pior é que não esqueceu; tanto é que permitiu que aqui registrasse seu protesto.   

Não são poucos os casos dos que procuram burlar a lei de proteção aos idosos. E não fica restrito aos órgãos do governo. Já comentei, em textos aqui publicados, a má vontade envolvendo alguns comerciantes: especialmente no que diz respeito a prioridade no atendimento. Relembro agora o caso de estabelecimentos comerciais que colocam nos caixas especiais para idosos os funcionários em treinamento, com pouca experiência, o que provoca atrasos no atendimento das pessoas protegidas pela lei.

Embora esse fato tenha acontecido há alguns anos, e que pequenas mudanças já ocorreram, fica aqui mais um registro, na esperança de que as autoridades pensem sobre isto e que façam prevalecer as prerrogativas legais que amparam os idosos.

Aracaju, 23/04/2024

Beto Déda


segunda-feira, 15 de abril de 2024

 

Ana Medina e Claudefranklin Monteiro lançam novo livro.

 

Ao entardecer da próxima quarta-feira, dia 17, o Museu da Gente Sergipana estará em festa, com o lançamento de mais um livro sobre a história de Sergipe: “AS EXÉQUIAS DO MONSENHOR OLYMPIO CAMPOS”, um trabalho de pesquisa dos escritores Ana Medina e Claudefranklin Monteiro.

Ainda não li o novo livro dos ilustres imortais da Academia Sergipana de Letras; então, lá estarei para adquirir, colher os autógrafos dos autores e, depois, ler com interesse o que dizem a respeito da trágica morte do religioso que se tornou notável político de nosso estado.

A história política de Sergipe foi maculada por um episódio sangrento, que envolveu o assassinato consecutivo de dois importantes personagens no início do século XX: o Deputado Federal Fausto Cardoso e o Senador Monsenhor Olímpio Campos.

Essa tragédia foi comentada em todo país, especialmente porque o ato de vingança praticado pelos filhos de Fausto Cardoso contra Olímpio Campos aconteceu no Rio de Janeiro, que na época era a capital do país.

Através de leituras, tomei conhecimento que no ano 1906 e seguintes a sociedade sergipana estava politicamente dividida entre os dois personagens históricos, envolvendo a disputa pelo governo do estado.

De Fausto Cardoso, além de ter lido sobre sua corajosa participação política, não me falta a lembrança de que seu nome honra a escola que estudei em Simão Dias: “Grupo Escolar Fausto Cardoso”.

De Olímpio Campos tenho a lembrança que meus ancestrais me informavam: foi ele que indicou meu avô, José Antônio de Carvalho - por sua capacidade de desempenho - para ocupar um cargo na Assembleia Legislativa de Sergipe.

Veja fotos capturados em redes sociais dos dois antagonistas políticos de Sergipe:

  

Olímpio Campos -assassinado em 09/11/1906

Fausto Cardoso -assassinado em 28/08/1906

O livro de Medina e Claudefranklin certamente avivará nossas lembranças da complicada e violenta política do início do século passado. Pelo conhecimento que tenho do trabalho dos ilustres escritores, acredito que nos trarão importantes informações sobre os dois personagens envolvidos em uma lastimável e sangrenta tragédia.

Se o bom Deus permitir estarei lá.

Aos amigos interessados em história, transmito o convite que recebi para o lançamento:

 



Aracaju, 15 de abril 2024

Beto Déda

terça-feira, 9 de abril de 2024

 

D. Sinhazinha Déda.

 

 

O dia 09 de abril é uma data importante para a família Oliveira Déda. Foi em 09 de abril de 1903 que nasceu – no engenho Vazaringui, em Riachuelo (SE) – a minha querida e saudosa mãe Maria Accioly de Oliveira, conhecida como Sinhazinha Oliveira, filha de Francisco José de Oliveira e Adele Accioly Oliveira.

Na segunda década do século passado, quando vovó Adele ficou viúva, levou a família para morar em Simão Dias. A viagem foi em carros-de-bois, e a família era constituída pelos filhos: Tarcísio José de Oliveira, Zeca Oliveira, Ester Amélia de Oliveira, Amereciana Oliveira e, a sobrinha/filha de criação, Eunice Barbosa de Oliveira.

Na sua juventude em Simão Dias, ela se destacou por seu interesse em participar de trabalhos comunitários e em ajudar ao próximo. Junto com outras jovens da cidade acompanhava o movimento feminista que começava a se propagar pelo país. Tinha um formidável conhecimento e gosto pela leitura. Uma das imagens que tenho é quando ela se sentava na varanda de nossa casa para leitura de algum livro. Certa vez ouvi ela comentando com minha irmã Nancy sobre o livro “Vidas Perdidas”, do grande simãodiense Carvalho Neto. Como resultado dessa recordação, já adulto, eu tive a oportunidade de ler o referido livro na biblioteca Epifânio Dória, aqui em Aracaju.

Sua atuação nos eventos públicos foi notícia em publicações do jornal A Luta, que era editado por Emílio Rocha. Veja abaixo nota de participação de D. Sinhazinha em evento comunitário divulgado pelo referido jornal, em 14.09.1923:



Recortes do jornal “A Luta”, editado em Simão Dias, com foto e menção a Sinhazinha Oliveira

 

Anos depois, casou-se com o jornalista Carvalho Déda, passando a ser conhecida como D. Sinhazinha Déda. Desse consórcio nasceram 8 filhos: Zilda (mãe do governador Marcelo Déda Chagas), Nanci, Artur Oscar, Maura, Helena, Carlos Eugênio, Carlos Alberto (Beto Déda) e Maria Eugênia.  


D. Sinhazinha Déda e seu esposo Carvalho Déda -1934 (foto acervo Beto Déda)

 

Em 1932, com o Decreto 21.076, do então presidente Getúlio Vargas, as mulheres brasileiras conquistaram o direito de votar. Assim é que, em 07 de abril de 1933, no afã de participar como eleitora, ela tirou seu título eleitoral:

Título de Eleitor de D. Sinhazinha Déda (acervo Beto Déda).

 

 

Sinhazinha Déda -1950 – (Foto acervo Beto Déda)

 

Ela tinha sido professora e sabia nos ensinar, especialmente no que diz respeito à redação e interpretação de textos. Em 1965, quando eu fiz o concurso para ingressar no Banco do Nordeste, comentei com ela sobre o tema da redação e ela me abraçou, afirmando que eu tinha interpretado bem o assunto e aguardasse com otimismo o resultado. Não deu outra: comemoramos alegres a minha aprovação entre os dez primeiros lugares.

Em nossa memória ficaram gravados, mesmo com o passar dos anos, os ensinamentos recebidos da querida Mãe Sinhazinha, como era chamada pelos netos. Em presença dos filhos e netos, ela faleceu em Aracaju, em 30/07/1988, e seu sepultamento ocorreu no Cemitério São João Batista, em Simão Dias.

Sua santa bondade, e seus ensinamentos perduram eternamente. Já escrevi sobre isto e vale aqui repetir para todos seus descendentes, na data que homenageamos o seu nascimento.

 Lembro-me agora, com saudade, de minha querida mãe embalando-me em seu colo, consolando-me de um dos meus choros inconsequentes. Eu já tinha noção da vida. Então, ela comentava que não entendia aquela minha reação efusiva em lágrimas. Argumentava que aquele procedimento não se ajustava ao que acontecera na manhã chuvosa daquele domingo do mês de maio, quando eu vim a “este vale de lágrimas”. E contava-me os detalhes. Eu nascera sem demonstrar sinal de vida. A simples palmada na bunda não me fizera chorar. Aflito com aquela situação, meu pai resolveu fazer ruído junto ao meu ouvido, batendo com um garfo em um prato, para me despertar. Foi o santo remédio, dizia ela, lembrando que eu abri os olhinhos pretos e comecei a chorar. Com esse precedente, argumentava ela, esperava-se que eu fosse um garoto resistente ao choro. Assim, não dava pra se entender porque eu sempre estava me esvaindo em prantos.

 

A verdade é que a minha reação retardada no dia do nascimento foi compensada depois, porque passei a chorar compulsivamente diante de qualquer dificuldade. De tal forma era meu choramingar que sempre estava sendo repreendido por meus pais. E fui sendo educado a controlar minhas emoções. Lembro-me, como se fosse hoje, o dia em que vendo minha mãe tentando consolar meu choro, meu pai disse-lhe: “Deixa chorar, é bom para os pulmões!”. Ela fitou-me com ternura e disse baixinho: “Larga esse choro filho, ou chorarei com você...” Senti profundamente o sentido de suas benditas palavras e, com as costas da mão, limpei as lágrimas. Só voltei a chorar copiosamente muito tempo depois, quando meu pai e ela partiram para outra dimensão da vida...

No livro de sua autoria ( História de Vários Tempos), meu saudoso irmão Artur Oscar de Oliveira Déda menciona lições recebidas de nossa mãe. Vejamos:

                          “ Aracaju em três tempos (páginas 29/30)”

“Eu gostava muito de ouvir as lembranças de minha mãe. Do seu tempo de menina em Riachuelo, no engenho Vazaringui pertencente a meus avós. Comprazo-me ainda hoje com essas recordações. Gostava principalmente da narrativa de viagens fluviais a Aracaju, numa lancha bem fechada, singrando o rio velozmente deixando escumas brancas por trás. A representação mental que eu fazia do objeto descrito absolutamente não correspondia à realidade conhecida muito tempo depois. E o rio que eu conhecia era o Caiçá, uma corrente de águas baixas, em certos pontos não mais que um filete escorregando suavemente sobre seixos pequeninos. A imaginação do ouvinte tornava a história emocionante. E ainda mais fascinante era a descrição do mar. Para facilitar o entendimento da criança curiosa, a narradora inteligente valia-se de uma metáfora: “Um Tanque-Novo sem fim!!!”.

                    ...

                 “A quem pertence os frutos pendentes (páginas                                  227/229):

                   

“Agora... lembrança me traz saudade de uma pessoa que tanto me influiu na formação da minha consciência, pelo espírito sereno e alma bondosa. Mãe mestra. Eu devia ter oito anos. Talvez um pouco mais, talvez um pouco menos. Sei que não era muito diferente dos outros de minha infância. Lembro-me, contudo, que revelei precocidade numa definição. Não propriamente pelo acerto da decisão tomada, mas pela capacidade de decidir. Manifestei-me resoluto diante do mesmo problema que, tantos anos depois, o professor não contribuiu para solucionar: o fruto da árvore vizinha, pendente pelo ramo que avançou para além do muro divisório dos nossos quintais, dele eu era legítimo dono. Não tinha dúvida e apetite não me faltava.

A árvore era uma romãzeira viçosa e o seu fruto delicioso. Para mim, na verdade, apetitoso mais pela aparência do que pelo sabor dos bagos refrescantes. (...)

Para exercício do meu pretenso direito de fruição, opunha-se o sério problema da altura. Tive que praticar estripulia. Numa engenharia improvisada, arquitetei uma geringonça formada por uma cadeira velha e sarrafos justapostos. Mesmo sem estabilidade, alcancei a meta, segurando o fruto. Mas a construção balançou; balançou forte. Desequilibrei-me. Entretanto, consegui girar para o lado mais favorável, aliviando a queda. Nada sofri. O que demonstra, pelo menos em parte, a razão do provérbio: “Ao menino e ao borracho, põe-lhes Deus a mão por baixo.” A barulheira do desabamento chamou a atenção de minha mãe, que prontamente acudiu, flagrando-me na “posse direta” da romã da vizinha, pessoa de seu afeto. Para ela, o problema não era nada jurídico, pois que ético, exclusivamente. Levou-me à presença da amiga. D. Conceição sorriu mansamente, recebeu a fruta e me devolveu logo. Magoado e choroso, olhei pra minha mãe, que consentiu. Hoje fico pensando como uma pessoa tão compassiva pudesse me dar tão dura lição! Quando voltamos, ela passava o dorso da mão sobre os olhos e, antes de entrar no quarto para recompor-se, liberou-me dos afazeres daquele dia.

O certo é que a lição de moral do passado viria a valer muitas vezes mais que a conferência jurídica do futuro.”

 

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Estas são lembranças que enriquecem o passar de pessoas inesquecíveis em nossa caminhada. Nos encantamos e revigoramos com estas lembranças. E, aqui para nós, não importo de dizer que os olhos marejam de saudade e alegria, um choro forte mesmo, com mistura do meu tempo de criança e de idoso, com soluço e riso, por comemorar a data que simboliza o dia do nascimento de minha mãezinha Sinhazinha Déda.

Aracaju, 09 de abril de 2024

Beto Déda