quarta-feira, 6 de março de 2024

 As aventuras de um tropeiro capa-bode.

 

Nos anos setenta do século passado, conheci um simãodiense arretado, que costumava me contar suas aventuras, num prosear agradável. E eu não economizava tempo em ouvi-lo.

Quando o conheci já era um senhor idoso, ainda forte, estatura média, cabelos e bigode brancos, um rosto rosado, quase redondo, com marcas levemente deixadas por uma antiga varíola. Certamente quem o conheceu sabe que ele esbanjava simpatia e muita idoneidade.

Já estava aposentado e marcara sua vida com muitos afazeres, dentre os quais destacava sua lide como tropeiro, cuidando de transportar mercadorias pelos sertões de Sergipe e Bahia, utilizando para isso seu comboio de vinte e tantos animais. A atividade lhe deu o apelido: Tropeiro. No tempo em que ele era moço, o transporte de mercadorias era realizado no lombo de burras ou em carro de bois; era assim porque naquela época não havia estradas no interior e poucos eram os veículos motorizados. Sua especialidade era transportar para o sertão: açúcar, sal e aguardente; e, nas viagens de retorno, requeijão, carne do sol e cereais. 

Sempre gostei de puxar conversa com o velho Tropeiro, de modo a conhecer suas aventuras e um pouco da história de nossa região.  

Encontrava-me com ele, às tardinhas, nos bancos da praça de Matriz, perto do Bar Abrigo, local em que ele aguardava pacientemente a hora da missa ou da novena. Era tempo suficiente para ele contar seus causos com detalhes.  

Certo dia, em uma de nossas conversas, perguntei sobre os perigos que passou em suas andanças pelo sertão. Contou-me que nunca viajava sozinho, sempre era acompanhado por dois rapazes, que o ajudavam no trato com os animais e também na segurança. Os dois ajudantes eram pessoas de confiança, que sabiam lidar com adversidades, filhos de famílias da terra.  Um chamava-se Tonho Totó e o outro era apelidado de Tiziu.  

Não conheci o Tiziu, mas me lembro do Tonho Totó. Encontrei-o várias vezes conversando com o velho Tropeiro na rua da feira. O Totó já tinha ultrapassado a meia idade: era baixinho, franzino, com aparência do cantor francês Charles Aznavour, usava um chapéu de palha surrado, sua calça era de algodão branco, meia coronha (tipo salta riacho), e calçava um pé com um "roló" (botina de couro cru) e no outro usava um chinelo de sola, o que me fazia supor que ele tinha sido vítima de algum acidente. Seu físico e forma de proceder não revelavam sua valentia interior.

O velho Tropeiro confiava e admirava muito seus ajudantes e não perdia oportunidade em divulgar a coragem e a fidelidade daqueles moços.  E contou-me um fato macabro que teve sua vida em perigo. Repasso agora para os amigos.

Em uma época de chuvas, ele saiu de Simão Dias em direção a Usina Pinheiros, na região do vale do Cotinguiba, para pegar uma carga de açúcar e aguardente. No meio do caminho, o ajudante Tiziu foi acometido de uma febre conhecida como "maleita", que o obrigou a ficar se recuperando em um rancho próximo à cidade de Frei Paulo e por lá ficou durante um mês. Sem contar com aquele ajudante, a tropa prosseguiu até o vale do Cotinguiba. Lá chegando e efetuada a aquisição de mercadorias, o velho Tropeiro sentiu a necessidade de contratar um novo auxiliar. Foi quando lhe apresentaram um sujeito grandalhão e forte, com o estranho nome de Facinoroso, mas que, pela lei do menor esforço, era chamado de Facci. A recomendação foi de alguém em uma das estalagens perto do engenho Pinheiros. Contratado temporariamente o substituto de Tiziu, o comboio retornou para Simão Dias.  

O novo ajudante demonstrava saber lidar com a tropa, mas deixava transparecer alguma dúvida sobre seu comportamento; detalhe que foi discretamente sentido pelo experiente Tropeiro. Na viagem de volta tiveram que fazer acampamento e pernoitar à beira do rio Vaza Barris, próximo a cidade de Pinhão. Atravessar o rio à noite, com a burras carregadas, não era recomendável. Acenderam um fogo e o velho foi se agasalhar e dormir sobre uma pele de carneiro, deixando o Totó e Facci a conversarem.  

Depois de muita conversa em que revelava sua astuciosa maldade e acreditando que Totó concordava, o Facci tentou convencê-lo a formarem uma aliança contra o Tropeiro, apresentando um plano em que previa “imobilizar” o idoso, roubar a mercadoria e os animais para vender no sertão da Bahia.  O Totó deu corda ao manhoso, objetivando conhecer melhor o que ele pretendia, de modo a se preparar  para combatê-lo na hora certa.

 O Facci programou o plano macabro para a meia-noite e foram se deitar. Uma hora depois, o Totó sorrateiramente foi acordar o velho Tropeiro e contou o que estava para acontecer. Então, combinaram efetuar uma defesa eficaz e fingiram dormir.

À meia-noite, quando o Facci deu o sinal para iniciar a tragédia e caminhou em direção ao local em que o velho fingia dormir, o Totó barrou sua caminhada, deferindo-lhe uma forte cacetada, nocauteando o manhoso grandalhão. Em seguida, o velho e seu auxiliar amararam o bandido, deram uma pisa, forçando-o a contar seus malefícios. Deixaram o malfeitor surrado e lambuzado de melaço, à beira de um formigueiro.  

Na manhã seguinte, atravessaram com segurança o Vaza-Barris e seguiram para Simão Dias. 

Tropeiro atravessando  o rio com a tropa(Rabisco em desenho da rede social)

O velho Tropeiro esclareceu que - dias depois, ao conversar com sua comadre Zefa Andarilha - soube que apareceu na cidade de Pinhão um sujeito maltrapilho, com hematomas e pinicado de formiga, em busca de transporte para a localidade Serra Negra, na Bahia. O boato é que ele fora se abrigar nas terras do Coronel João Maria, no atual município baiano de Pedro Alexandre. 

E concluía sua narrativa informando que, em terras sergipanas, nunca mais se ouviu falar no tal de Facinoroso, também conhecido como Facci.


Aracaju, 06/03/2024

Beto Déda





segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

 Os poemas de Paulo Rodrigues Alves.

 

No dia 22 de janeiro passado, eu tive a alegria de presenciar dois importantes momentos da vida de meu amigo e poeta Paulo Rodrigues Alves: sua posse na cadeira do Movimento de Apoio Cultural Antônio Garcia Filho, da Academia Sergipana de Letras(ASL); e o lançamento do seu livro de poesias “Tendas de Minh’ Alma”.


 

Paulo Rodrigues Alves (Contracapa do livro)

Paulo faz parte do grupo de estimados amigos que tenho desde os bons tempos que trabalhamos no Banco Nordeste (BNB), agência de Simão Dias. É uma pessoa querida, que sempre nos causa admiração pela sua inteligência e idoneidade. Executa seus trabalhos com muita dedicação e, nas horas vagas, é leitor assíduo de bons livros e é um bom poeta com muito senso de humanidade.

Lembro-me, desde o tempo que trabalhamos em minha terra, que ele já se destacava não só pela eficiência e seriedade em trabalhos rurais como Fiscal Orientador e Técnico Agrícola do BNB, mas também por sua cultura, quando apresentava e era aplaudido por seus belíssimos poemas declamados na Associação de Jovens Idealistas Simãodienses. Marcou presença nos acontecimentos culturais da época.

No mesmo sentido teve sua atuação em Aracaju, onde também trabalhamos juntos no Banco do Nordeste. Com esforço, trabalhando e estudando, ele formou-se em Economia, e continuou sua atuação crescente na atividade cultural. Foi premiado em diversos concursos de poesia. Em sua terra natal – Cedro de São João – foi o fundador e presidente da Academia Cedrense de Letras e Arte. 

Dele recebi, em primeira mão, poemas inéditos e plenos de sabedoria. Maravilha, mesmo!

Recentemente, em justo exame, reconhecendo as qualidades intelectuais de Paulo Rodrigues Alves, a Academia Sergipana de Letras(ASL) o aprovou para assumir uma cadeira no Movimento de Apoio Cultural daquele sodalício. Na cerimônia de posse, bem concorrida, fiquei alegre ao saber que Paulo assumia a cadeira que tem como patrono o grande sergipano Epifânio Dória, que tive a honra de conhecê-lo no tempo que ele era secretário do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe; o Sr. Epifânio Dória era amigo de meu pai; eu costumava transportar correspondências deles.

Tenho certeza que a ASL escolheu um bom e produtivo acadêmico. 

Não é demais dizer que meu amigo Paulo é um incentivador de criações e cultivador do intelecto, além da poesia, sempre gostou de boas músicas: dedica-se também a dedilhar um bandolim e executa com maestria canções antigas, participando em atividades musicais em cerimônias religiosas. 

O seu livro “Tendas de Minh’Alma” é um encanto para se ler e para se deliciar com sua mágica em escolher, arrumar e rimar as palavras, dando um sentido profundo em cada verso. E com o cuidado que lhe peculiar, esclarece em textos bem escritos, como a musa lhe inspirou em alguns poemas. O que demonstra seu tino em saber prosear.

O livro de |Paulo Rodrigues Alves



Fiquei imensamente feliz em presenciar a beleza da concorrida reunião que aplaudiu o êxito do bom amigo naquela tarde e, depois, me encantei ao ler  "Tendas de Minh'Almas"...


Vejam alguns versos que pincei do livro de Paulo:

Recordando o pai:

"Nesta hora, a remar, cantar - ele seguia,

E eu achava lindo o seu contentamento!   

Quantas lições, meu pai, o senhor me transmitia,

No grande amor à lida, em busca do sustento! "   

    

Comentando o descaso para com os trabalhadores:

                          “Como se não bastasse a mais-valia

A produzir escravos mundo afora,

Poucos veem no operário a primazia,

Fazendo sua esperança ir-se embora”

 

Sobre o espelho e o envelhecer: 

“Espelho, no passado davas-me alegria,

 Eras mui gentil e bela companhia,

 Que me enchia de orgulho ao dirigir-lhe o olhar,

Porque no meu semblante expunhas juventude,

Á minha face davas traços de saúde,

De quem tem longa vida e a virtude de amar.

 

Contrariamente, espelho, agora expões meus danos,

Os desgastes sofridos no correr dos anos,

De forma que a ti só um soslaio dirijo

Para ver as rugas dum ser alquebrado,

Mesmo sendo feliz com todo o meu passado,

Porque semeei paz – esta paz que inda vivo...”


 E a beleza dos poemas se espalham pelo novo livro. Bom, muito bom mesmo!

Meus parabéns e um fraternal abraço para Paulo, sua esposa Maria Auxiliadora e seus filhos Ana, Paulo e Valéria.

E para meus parentes e amigos que gostam de poesia, recomendo a leitura do livro do nosso ilustre sergipano. 

 

Aracaju, 19/02/2024

Beto Déda.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

 

O Careca e a peruca, o Baixinho cantor, e o ancião de três pernas...

 

Nesta semana minhas recordações se voltaram mais uma vez para tipos populares que viveram em Simão Dias e faziam parte das anedotas da juventude de então.

 E três personagens se destacam: o artesão de peruca, o lavrador que cantava nas missas e o ancião superdotado.

 O Careca

 O primeiro deles, o Careca, nasceu no município de Paripiranga e quando atingiu a maioridade foi para o Sul em busca de trabalho. Lá aprendeu a arte, se tornou um artesão de mão cheia, reformando móveis e estofados. Era de porte médio, forte, de cabeça redonda e careca (a perda de cabelos, diziam, era consequência do excesso de testosterona). Na capital paulista, se interessou em cobrir sua cabeça lisa com uma peruca cara e bem trabalhada. Justificava sua preferência afirmando que a peruca o embelezava e o protegia do frio.

O  Careca e a peruca (rabiscos de Beto Déda)


Com o passar dos tempos, o Careca sentiu saudades do Nordeste. Voltou. Veio montar seu negócio em Simão Dias. Ele era um artesão impecável e não lhe faltava serviço. Fabricava e restaurava com perfeição colchões de mola, sofás e poltronas. No seu trabalho diuturno não usava a peruca, para evitar o transtorno da poeira e do suor. Passou a usá-la em ocasiões especiais: casamentos, batizados e missas. E não o incomodava a curiosidade e o chiste do pessoal ao avistá-lo com seu topete novo. – Bolas! Dizia ele com um leve sorriso e, sem falha, aos domingos a peruca voltava a aparecer.

 O fato é que, naquela época, quando um jovem começava a perder o cabelo, a turma não vacilava e mandava comprar uma peruca igual a que o Careca usava na missa aos domingos.

Na atualidade, os que têm um campo de pouso de mosquitos na cabeça estão fazendo implante capilar. E os topetes postiços passaram reinar nas cabeças dos descabelados.


O Baixinho cantor

Naqueles idos, além da curiosa presença do homem da peruca, também era constante nas missas e novenas celebradas na Igreja Matriz a presença de um agricultor baixinho, de voz forte que entoava os hinos sacros, embolando o sonoro canto das religiosas Filhas de Maria. A inconfundível e forte voz do Baixinho era conhecida por todos que frequentavam as cerimonias religiosas, mas causava certo transtorno, motivo de marotos comentários.

O canto dos maravilhosos hinos sagrados era ouvido à distância, propagado pelo serviço de alto-falante que ficava na torre da Igreja e, ao fundo, se ouvia o tom de voz do Baixinho.

 Entre os jovens daquele tempo, os que desafinavam no canto eram sósias do Baixinho cantor e nas brigas entre meninos e meninas – em que os contendores apresentavam diferença de tamanho – os atiçadores aconselhavam o mais baixo a pegar uma cadeira e mandar peia, como fazia o cantor da igreja...

 

O Gê três pernas  

Também naquele tempo, um senhor idoso era muito conhecido pelos jovens de Simão Dias pelo seu tamanho e modo de caminhar. Diziam que era um superdotado, tinha o órgão genital exagerado, tipo Kid Bengala. Daí o denominarem de Gê três pernas. Ele era um velho alto, magro, cabelos ruivos, com as costas ligeiramente pendidas para frente e um caminhado característico, como se estive arrastando algo entre as pernas.

 Se não me engano o senhor Gê trabalhava em um dos ginásios da cidade e os estudantes costumavam acompanhar seus engraçados passos e o saudavam com um sonoro: “ –Olá, senhor três pernas!”  Ao que ele retrucava, meio irritado, apontando com o indicador suas partes baixas: “–É da natureza! Quer ver?”.  Ninguém queria ver e a turma se embolava de rir. Então o idoso prosseguia  sua caminhada, balançando a terceira perna com capricho...

 

Estas são lembranças de gente simples de minha terra, que vez por outra repassam em minha memória.

 

Aracaju, 22/01/2024

Beto Déda

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

 

O Natal no Lago Dourado: ontem e hoje…



Passei a noite de Natal de 2023 em companhia de familiares, aqui no Lago Dourado.


Desde o triste período da pandemia, não compartilhamos o Natal com os amiguinhos de meus netos. Confesso que isto me deixou meio desconsolado, porque eu também me sentia criança e revivia neles o meu tempo feliz ao comemorar as festas de fim de ano em Simão Dias.


A comemoração do Natal no Lago Dourado começou há dezessete anos. E tudo aconteceu porque, naquela época, descobri que minha netinha tinha medo do Papai Noel que se apresentava no Shopping Rio Mar.


Tentei convencê-la a perder o medo e o melhor resultado foi a promessa que fiz em me transformar em um alegre Papai Noel. Prometido e feito: comprei a fantasia no dia 22 de dezembro de 2006, enfrentando o alvoroço do comércio naquela semana natalina. E então, na véspera do Natal, minha neta me ajudou a vestir a roupa do bom velhinho e festejamos com alegria a data do nascimento de Jesus Cristo.


A felicidade que sentimos nos incentivou a repetir a comemoração e, daquele ano em diante, sempre no dia 24 de dezembro, vestia a roupa de Papai Noel para divertir meus netos e seus amiguinhos da região do Lago Dourado.


E assim as comemorações de Natal continuaram a acontecer até 2019. No ano seguinte, em 2020, surgiu a terrível pandemia que ceifou tantas vidas de parentes e amigos, e as comemorações natalinas com a presença das crianças deixaram de acontecer no Lago Dourado.


Na atualidade, as meninas e meninos que compartilhavam da festividade já estão crescidos, e meu novo neto (Carlinhos), que conta apenas com 6 meses de idade, ainda não tem noção da alegria da homenagem à data do nascimento do Menino Jesus. Diante de tal realidade, não aconteceu mais uma vez o Natal da criançada no Lago Dourado.


Na noite de Natal\2023, durante a ceia com familiares – as canções natalinas despertaram-me lembranças e me emocionaram – então prometi a mim mesmo que, com a graça do Menino Jesus, voltarei a vestir o uniforme vermelho do bom velhinho e comemorarei o Natal de 2024, alegrando meu neto Carlinhos e as crianças dos arredores do Lago Dourado.

Hoje, revendo e comparando algumas fotos das comemorações passadas, lembrei-me mais uma vez de uma citação do Padre Antônio Vieira, que interpretou com maestria o entrelaçamento entre o presente, o passado e o futuro. Reproduzo aqui o pensamento do consagrado padre, filósofo e escritor português, que conviveu em nosso país na época da colonização:

Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro.”


A esperança é que o bom Deus nos livre de outros nefastos males, e que nos favoreça com outras comemorações de Natal para que o futuro seja promissor.


Nas fotografias das comemorações natalinas, que reproduzo aqui, nota-se quanto é verdadeiro o pensamento do Padre Antônio Vieira: a evolução das personagens retratadas evidencia o entrelaçamento entre o presente, o passado e o futuro.





























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AS FOTOS ACIMA RETRATAM AS COMEMORAÇÕES DO PASSADO. 


Papai Noel Beto em Dez/2023



Natal de 2023-




Aracaju, 28/12/2023

BETO DÉDA

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

“Avião”, um personagem dos velhos tempos de minha terra.

 

 

Em minha oficina de armengues, no Lago Dourado, costumo ligar o rádio em uma estação que reproduz músicas antigas e, ontem, ouvi uma velha canção de Anísio Silva que me despertou lembranças de um personagem popular que viveu em Simão Dias, lá pelos anos 60. Era conhecido pelo apelido: “Avião”.

 

Conto para você quem foi esse interessante personagem.

 

Precisamente no ano de 1964, eu regressei à minha terra, depois de concluir o terceiro ano do curso científico no Colégio Estadual Duque de Caxias, em Salvador (Ba), e voltei a ser repórter do jornal A Semana, no qual também, vez por outra, me atrevia a escrever uma crônica, usando o pseudônimo Berto.

 

Naquela época, em encontros com jovens colegas, notei que um senhor meio louco e pedinte, com cerca de 60 anos de idade, conhecido na cidade pelo apelido de “Avião”, era sempre mencionado pelos jovens. E as frases e o vocabulário desconexos usados pelo velho maluco eram repetidos pela garotada. Lembro-me agora do termo "consistir", que para ele significava flertar, namorar. Assim é que os jovens falavam quando alguém começava um namoro ou flerte: "Fulana está 'consistindo' com sicrano". 

 

Pois bem, naquele tempo eu tinha lido o livro "Dom Quixote de La Mancha", de Cervantes, e notei que o velho “Avião” era alto, magro, barba rala, sempre usando um bastão, perambulando pelas ruas de Simão Dias, parecendo os desenhos de Gustavo Doré, que ilustrava o Cavaleiro de Triste Figura.

         

Avião no bar da Ponta da Asa (Traços da lembrança de Beto Déda

Foi em consequência dessa fantasiosa semelhança que resolvi conhecer melhor aquele andarilho que impressionava os jovens simãodienses. Procurei entrevistá-lo, para escrever um texto e publicar no jornal A Semana. Pensado e feito. Na edição de 18-07-1964 daquele jornal, tracei o perfil do velho “Avião” na seção "Um personagem, uma história".

 

Sobre esse texto, minha memória guarda com detalhes o encontro que tive com aquele personagem. Aconteceu em um bar na Ponta da Asa, onde funcionava um melhor cabaré da cidade, quase no final da Rua do Mulungu. Era início de noite e o baile do cabaré ainda não começara. Avião estava sentado em um banco, batendo cadenciadamente seu bastão, com o olhar fixo para o alto, enquanto o rádio do bar tocava, coincidentemente, o bolero “Tudo Foi Ilusão”, de Laert Santos e Arcilino Tavares, na voz de Anísio Silva, gravado em 1956.

 

Ao me sentar ao seu lado, ele imediatamente disse-me que estava com uma ligeira dor de barriga e pediu que eu pagasse uma dose de aguardente “Zinebra Guichard” que, naquela época, diziam ser muito boa para o alegado incômodo. Percebi que a tal dor era apenas um pretexto. Mesmo assim, pedi duas doses: uma pra ele e outra pra mim.  Enquanto conversávamos, ele bebeu em pausados goles, saboreando lentamente o gosto apurado da cachaça. Foi uma conversa pouco elucidativa para se conhecer a história do interessante velho. Ele não dizia coisa com coisa. Perguntei o seu nome e ele deu de ombros. Não lembrava. Esclareceu que o chamavam de “Avião”, mas esse era o apelido de seu cavalo, um pangaré magro que morreu atropelado na Rua do Alambique, próximo do terreno de Antônio Fundão e a casa de Mané de Zabé. Depois, talvez pelo efeito da aguardente, começou a cantar modinhas antigas, entre sorrisos e soluços. Parecia emocionado, voltou a batucar com o cajado no chão e bloqueou as velhas lembranças. Naquele momento, senti que era o instante de encerramos a entrevista.

 

Lembro-me, muito bem, que uma frequentadora do Cabaré, conhecida como Maria Paciência, estava encostada ao balcão, acompanhando a entrevista e percebendo o insucesso de minhas indagações, fez um sinal me informando que queria falar comigo. 

 

A bondosa atenção de Maria Paciência, que sempre fez jus ao seu segundo nome, foi para mim um privilégio. Aguardou que terminasse a malograda entrevista e, então, contou-me que certa noite tivera contato com um sertanejo que reconheceu “Avião”. O moço disse-lhe que o velho era lavrador e morava em um sítio lá para os lados de Bom Conselho, mas que ficou tantã da cabeça quando tomou conhecimento de que a sua amada mulher o tinha traído e fugido com um aventureiro que passara pela região. Inconformado com sua sorte e envergonhado, largou tudo, pegou seu cavalo e desapareceu do local. Perdeu a memória e o juízo, andou perambulando e veio parar em Simão Dias.

 

Com as informações adicionais de Paciência, escrevi o texto, que reproduzo abaixo. 

 

 

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Artigo escrito por Beto Déda e publicado no jornal "A Semana", edição de 18/07/1964, fl.04.

Devo esclarecer que, pouco tempo depois da publicação do artigo, soube que o estranho e simpático “Avião” desapareceu da cidade, surgindo a notícia de que, tal qual seu pangaré, fora vítima de um atropelamento, passando desta para outra dimensão. 

 

Mas, como todos os fatos são motivos de longas discursões em cidades do interior, o destino final de “Avião” motivou controvérsias. Meu amigo Joaquim Vitorino, por exemplo, divergia do referido atropelamento, e afirmava que o velho voltou para os arredores de Bom Conselho, recuperou a memória e conquistou outra mulher. Que seja! Até hoje, torço que tenha ocorrido a versão de Vitorino. 

 

Por fim, para não esquecer os velhos tempos da Ponta da Asa, também é bom ouvir o bolero de Anísio Silva, música muito tocada naquele ambiente.




O bolero "Tudo Foi ilusão" tocado na Ponta da Asa 






Aracaju, 12/11/2023
BETO DÉDA