segunda-feira, 15 de abril de 2024

 

Ana Medina e Claudefranklin Monteiro lançam novo livro.

 

Ao entardecer da próxima quarta-feira, dia 17, o Museu da Gente Sergipana estará em festa, com o lançamento de mais um livro sobre a história de Sergipe: “AS EXÉQUIAS DO MONSENHOR OLYMPIO CAMPOS”, um trabalho de pesquisa dos escritores Ana Medina e Claudefranklin Monteiro.

Ainda não li o novo livro dos ilustres imortais da Academia Sergipana de Letras; então, lá estarei para adquirir, colher os autógrafos dos autores e, depois, ler com interesse o que dizem a respeito da trágica morte do religioso que se tornou notável político de nosso estado.

A história política de Sergipe foi maculada por um episódio sangrento, que envolveu o assassinato consecutivo de dois importantes personagens no início do século XX: o Deputado Federal Fausto Cardoso e o Senador Monsenhor Olímpio Campos.

Essa tragédia foi comentada em todo país, especialmente porque o ato de vingança praticado pelos filhos de Fausto Cardoso contra Olímpio Campos aconteceu no Rio de Janeiro, que na época era a capital do país.

Através de leituras, tomei conhecimento que no ano 1906 e seguintes a sociedade sergipana estava politicamente dividida entre os dois personagens históricos, envolvendo a disputa pelo governo do estado.

De Fausto Cardoso, além de ter lido sobre sua corajosa participação política, não me falta a lembrança de que seu nome honra a escola que estudei em Simão Dias: “Grupo Escolar Fausto Cardoso”.

De Olímpio Campos tenho a lembrança que meus ancestrais me informavam: foi ele que indicou meu avô, José Antônio de Carvalho - por sua capacidade de desempenho - para ocupar um cargo na Assembleia Legislativa de Sergipe.

Veja fotos capturados em redes sociais dos dois antagonistas políticos de Sergipe:

  

Olímpio Campos -assassinado em 09/11/1906

Fausto Cardoso -assassinado em 28/08/1906

O livro de Medina e Claudefranklin certamente avivará nossas lembranças da complicada e violenta política do início do século passado. Pelo conhecimento que tenho do trabalho dos ilustres escritores, acredito que nos trarão importantes informações sobre os dois personagens envolvidos em uma lastimável e sangrenta tragédia.

Se o bom Deus permitir estarei lá.

Aos amigos interessados em história, transmito o convite que recebi para o lançamento:

 



Aracaju, 15 de abril 2024

Beto Déda

terça-feira, 9 de abril de 2024

 

D. Sinhazinha Déda.

 

 

O dia 09 de abril é uma data importante para a família Oliveira Déda. Foi em 09 de abril de 1903 que nasceu – no engenho Vazaringui, em Riachuelo (SE) – a minha querida e saudosa mãe Maria Accioly de Oliveira, conhecida como Sinhazinha Oliveira, filha de Francisco José de Oliveira e Adele Accioly Oliveira.

Na segunda década do século passado, quando vovó Adele ficou viúva, levou a família para morar em Simão Dias. A viagem foi em carros-de-bois, e a família era constituída pelos filhos: Tarcísio José de Oliveira, Zeca Oliveira, Ester Amélia de Oliveira, Amereciana Oliveira e, a sobrinha/filha de criação, Eunice Barbosa de Oliveira.

Na sua juventude em Simão Dias, ela se destacou por seu interesse em participar de trabalhos comunitários e em ajudar ao próximo. Junto com outras jovens da cidade acompanhava o movimento feminista que começava a se propagar pelo país. Tinha um formidável conhecimento e gosto pela leitura. Uma das imagens que tenho é quando ela se sentava na varanda de nossa casa para leitura de algum livro. Certa vez ouvi ela comentando com minha irmã Nancy sobre o livro “Vidas Perdidas”, do grande simãodiense Carvalho Neto. Como resultado dessa recordação, já adulto, eu tive a oportunidade de ler o referido livro na biblioteca Epifânio Dória, aqui em Aracaju.

Sua atuação nos eventos públicos foi notícia em publicações do jornal A Luta, que era editado por Emílio Rocha. Veja abaixo nota de participação de D. Sinhazinha em evento comunitário divulgado pelo referido jornal, em 14.09.1923:



Recortes do jornal “A Luta”, editado em Simão Dias, com foto e menção a Sinhazinha Oliveira

 

Anos depois, casou-se com o jornalista Carvalho Déda, passando a ser conhecida como D. Sinhazinha Déda. Desse consórcio nasceram 8 filhos: Zilda (mãe do governador Marcelo Déda Chagas), Nanci, Artur Oscar, Maura, Helena, Carlos Eugênio, Carlos Alberto (Beto Déda) e Maria Eugênia.  


D. Sinhazinha Déda e seu esposo Carvalho Déda -1934 (foto acervo Beto Déda)

 

Em 1932, com o Decreto 21.076, do então presidente Getúlio Vargas, as mulheres brasileiras conquistaram o direito de votar. Assim é que, em 07 de abril de 1933, no afã de participar como eleitora, ela tirou seu título eleitoral:

Título de Eleitor de D. Sinhazinha Déda (acervo Beto Déda).

 

 

Sinhazinha Déda -1950 – (Foto acervo Beto Déda)

 

Ela tinha sido professora e sabia nos ensinar, especialmente no que diz respeito à redação e interpretação de textos. Em 1965, quando eu fiz o concurso para ingressar no Banco do Nordeste, comentei com ela sobre o tema da redação e ela me abraçou, afirmando que eu tinha interpretado bem o assunto e aguardasse com otimismo o resultado. Não deu outra: comemoramos alegres a minha aprovação entre os dez primeiros lugares.

Em nossa memória ficaram gravados, mesmo com o passar dos anos, os ensinamentos recebidos da querida Mãe Sinhazinha, como era chamada pelos netos. Em presença dos filhos e netos, ela faleceu em Aracaju, em 30/07/1988, e seu sepultamento ocorreu no Cemitério São João Batista, em Simão Dias.

Sua santa bondade, e seus ensinamentos perduram eternamente. Já escrevi sobre isto e vale aqui repetir para todos seus descendentes, na data que homenageamos o seu nascimento.

 Lembro-me agora, com saudade, de minha querida mãe embalando-me em seu colo, consolando-me de um dos meus choros inconsequentes. Eu já tinha noção da vida. Então, ela comentava que não entendia aquela minha reação efusiva em lágrimas. Argumentava que aquele procedimento não se ajustava ao que acontecera na manhã chuvosa daquele domingo do mês de maio, quando eu vim a “este vale de lágrimas”. E contava-me os detalhes. Eu nascera sem demonstrar sinal de vida. A simples palmada na bunda não me fizera chorar. Aflito com aquela situação, meu pai resolveu fazer ruído junto ao meu ouvido, batendo com um garfo em um prato, para me despertar. Foi o santo remédio, dizia ela, lembrando que eu abri os olhinhos pretos e comecei a chorar. Com esse precedente, argumentava ela, esperava-se que eu fosse um garoto resistente ao choro. Assim, não dava pra se entender porque eu sempre estava me esvaindo em prantos.

 

A verdade é que a minha reação retardada no dia do nascimento foi compensada depois, porque passei a chorar compulsivamente diante de qualquer dificuldade. De tal forma era meu choramingar que sempre estava sendo repreendido por meus pais. E fui sendo educado a controlar minhas emoções. Lembro-me, como se fosse hoje, o dia em que vendo minha mãe tentando consolar meu choro, meu pai disse-lhe: “Deixa chorar, é bom para os pulmões!”. Ela fitou-me com ternura e disse baixinho: “Larga esse choro filho, ou chorarei com você...” Senti profundamente o sentido de suas benditas palavras e, com as costas da mão, limpei as lágrimas. Só voltei a chorar copiosamente muito tempo depois, quando meu pai e ela partiram para outra dimensão da vida...

No livro de sua autoria ( História de Vários Tempos), meu saudoso irmão Artur Oscar de Oliveira Déda menciona lições recebidas de nossa mãe. Vejamos:

                          “ Aracaju em três tempos (páginas 29/30)”

“Eu gostava muito de ouvir as lembranças de minha mãe. Do seu tempo de menina em Riachuelo, no engenho Vazaringui pertencente a meus avós. Comprazo-me ainda hoje com essas recordações. Gostava principalmente da narrativa de viagens fluviais a Aracaju, numa lancha bem fechada, singrando o rio velozmente deixando escumas brancas por trás. A representação mental que eu fazia do objeto descrito absolutamente não correspondia à realidade conhecida muito tempo depois. E o rio que eu conhecia era o Caiçá, uma corrente de águas baixas, em certos pontos não mais que um filete escorregando suavemente sobre seixos pequeninos. A imaginação do ouvinte tornava a história emocionante. E ainda mais fascinante era a descrição do mar. Para facilitar o entendimento da criança curiosa, a narradora inteligente valia-se de uma metáfora: “Um Tanque-Novo sem fim!!!”.

                    ...

                 “A quem pertence os frutos pendentes (páginas                                  227/229):

                   

“Agora... lembrança me traz saudade de uma pessoa que tanto me influiu na formação da minha consciência, pelo espírito sereno e alma bondosa. Mãe mestra. Eu devia ter oito anos. Talvez um pouco mais, talvez um pouco menos. Sei que não era muito diferente dos outros de minha infância. Lembro-me, contudo, que revelei precocidade numa definição. Não propriamente pelo acerto da decisão tomada, mas pela capacidade de decidir. Manifestei-me resoluto diante do mesmo problema que, tantos anos depois, o professor não contribuiu para solucionar: o fruto da árvore vizinha, pendente pelo ramo que avançou para além do muro divisório dos nossos quintais, dele eu era legítimo dono. Não tinha dúvida e apetite não me faltava.

A árvore era uma romãzeira viçosa e o seu fruto delicioso. Para mim, na verdade, apetitoso mais pela aparência do que pelo sabor dos bagos refrescantes. (...)

Para exercício do meu pretenso direito de fruição, opunha-se o sério problema da altura. Tive que praticar estripulia. Numa engenharia improvisada, arquitetei uma geringonça formada por uma cadeira velha e sarrafos justapostos. Mesmo sem estabilidade, alcancei a meta, segurando o fruto. Mas a construção balançou; balançou forte. Desequilibrei-me. Entretanto, consegui girar para o lado mais favorável, aliviando a queda. Nada sofri. O que demonstra, pelo menos em parte, a razão do provérbio: “Ao menino e ao borracho, põe-lhes Deus a mão por baixo.” A barulheira do desabamento chamou a atenção de minha mãe, que prontamente acudiu, flagrando-me na “posse direta” da romã da vizinha, pessoa de seu afeto. Para ela, o problema não era nada jurídico, pois que ético, exclusivamente. Levou-me à presença da amiga. D. Conceição sorriu mansamente, recebeu a fruta e me devolveu logo. Magoado e choroso, olhei pra minha mãe, que consentiu. Hoje fico pensando como uma pessoa tão compassiva pudesse me dar tão dura lição! Quando voltamos, ela passava o dorso da mão sobre os olhos e, antes de entrar no quarto para recompor-se, liberou-me dos afazeres daquele dia.

O certo é que a lição de moral do passado viria a valer muitas vezes mais que a conferência jurídica do futuro.”

 

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Estas são lembranças que enriquecem o passar de pessoas inesquecíveis em nossa caminhada. Nos encantamos e revigoramos com estas lembranças. E, aqui para nós, não importo de dizer que os olhos marejam de saudade e alegria, um choro forte mesmo, com mistura do meu tempo de criança e de idoso, com soluço e riso, por comemorar a data que simboliza o dia do nascimento de minha mãezinha Sinhazinha Déda.

Aracaju, 09 de abril de 2024

Beto Déda







terça-feira, 19 de março de 2024

“Simãodinidade – História e Memória”

Em conversa com o Prof. Joaldo Moraes, tomei conhecimento e recebi o convite para participar de um importante evento, denominado “Simãodinidade – História e Memória”, a ser realizado na próxima quinta-feira, dia 21 de março, às 19 horas, no Memorial Municipal de Simão Dias, localizado na Praça José Barreto, antiga Praça de São João.

A cerimônia compreenderá vários atos, com inauguração da “Galeria Personalidade da Nossa Gente” e reapresentação da exposição “O Mundo de Carvalho Déda”.



Certamente será um acontecimento que reavivará a memória de nossa terra.

Fiquei imensamente agradecido pelo convite e farei o possível para comparecer.

 

 Aracaju, 19/03/2024

Beto Déda

quarta-feira, 6 de março de 2024

 As aventuras de um tropeiro capa-bode.

 

Nos anos setenta do século passado, conheci um simãodiense arretado, que costumava me contar suas aventuras, num prosear agradável. E eu não economizava tempo em ouvi-lo.

Quando o conheci já era um senhor idoso, ainda forte, estatura média, cabelos e bigode brancos, um rosto rosado, quase redondo, com marcas levemente deixadas por uma antiga varíola. Certamente quem o conheceu sabe que ele esbanjava simpatia e muita idoneidade.

Já estava aposentado e marcara sua vida com muitos afazeres, dentre os quais destacava sua lide como tropeiro, cuidando de transportar mercadorias pelos sertões de Sergipe e Bahia, utilizando para isso seu comboio de vinte e tantos animais. A atividade lhe deu o apelido: Tropeiro. No tempo em que ele era moço, o transporte de mercadorias era realizado no lombo de burras ou em carro de bois; era assim porque naquela época não havia estradas no interior e poucos eram os veículos motorizados. Sua especialidade era transportar para o sertão: açúcar, sal e aguardente; e, nas viagens de retorno, requeijão, carne do sol e cereais. 

Sempre gostei de puxar conversa com o velho Tropeiro, de modo a conhecer suas aventuras e um pouco da história de nossa região.  

Encontrava-me com ele, às tardinhas, nos bancos da praça de Matriz, perto do Bar Abrigo, local em que ele aguardava pacientemente a hora da missa ou da novena. Era tempo suficiente para ele contar seus causos com detalhes.  

Certo dia, em uma de nossas conversas, perguntei sobre os perigos que passou em suas andanças pelo sertão. Contou-me que nunca viajava sozinho, sempre era acompanhado por dois rapazes, que o ajudavam no trato com os animais e também na segurança. Os dois ajudantes eram pessoas de confiança, que sabiam lidar com adversidades, filhos de famílias da terra.  Um chamava-se Tonho Totó e o outro era apelidado de Tiziu.  

Não conheci o Tiziu, mas me lembro do Tonho Totó. Encontrei-o várias vezes conversando com o velho Tropeiro na rua da feira. O Totó já tinha ultrapassado a meia idade: era baixinho, franzino, com aparência do cantor francês Charles Aznavour, usava um chapéu de palha surrado, sua calça era de algodão branco, meia coronha (tipo salta riacho), e calçava um pé com um "roló" (botina de couro cru) e no outro usava um chinelo de sola, o que me fazia supor que ele tinha sido vítima de algum acidente. Seu físico e forma de proceder não revelavam sua valentia interior.

O velho Tropeiro confiava e admirava muito seus ajudantes e não perdia oportunidade em divulgar a coragem e a fidelidade daqueles moços.  E contou-me um fato macabro que teve sua vida em perigo. Repasso agora para os amigos.

Em uma época de chuvas, ele saiu de Simão Dias em direção a Usina Pinheiros, na região do vale do Cotinguiba, para pegar uma carga de açúcar e aguardente. No meio do caminho, o ajudante Tiziu foi acometido de uma febre conhecida como "maleita", que o obrigou a ficar se recuperando em um rancho próximo à cidade de Frei Paulo e por lá ficou durante um mês. Sem contar com aquele ajudante, a tropa prosseguiu até o vale do Cotinguiba. Lá chegando e efetuada a aquisição de mercadorias, o velho Tropeiro sentiu a necessidade de contratar um novo auxiliar. Foi quando lhe apresentaram um sujeito grandalhão e forte, com o estranho nome de Facinoroso, mas que, pela lei do menor esforço, era chamado de Facci. A recomendação foi de alguém em uma das estalagens perto do engenho Pinheiros. Contratado temporariamente o substituto de Tiziu, o comboio retornou para Simão Dias.  

O novo ajudante demonstrava saber lidar com a tropa, mas deixava transparecer alguma dúvida sobre seu comportamento; detalhe que foi discretamente sentido pelo experiente Tropeiro. Na viagem de volta tiveram que fazer acampamento e pernoitar à beira do rio Vaza Barris, próximo a cidade de Pinhão. Atravessar o rio à noite, com a burras carregadas, não era recomendável. Acenderam um fogo e o velho foi se agasalhar e dormir sobre uma pele de carneiro, deixando o Totó e Facci a conversarem.  

Depois de muita conversa em que revelava sua astuciosa maldade e acreditando que Totó concordava, o Facci tentou convencê-lo a formarem uma aliança contra o Tropeiro, apresentando um plano em que previa “imobilizar” o idoso, roubar a mercadoria e os animais para vender no sertão da Bahia.  O Totó deu corda ao manhoso, objetivando conhecer melhor o que ele pretendia, de modo a se preparar  para combatê-lo na hora certa.

 O Facci programou o plano macabro para a meia-noite e foram se deitar. Uma hora depois, o Totó sorrateiramente foi acordar o velho Tropeiro e contou o que estava para acontecer. Então, combinaram efetuar uma defesa eficaz e fingiram dormir.

À meia-noite, quando o Facci deu o sinal para iniciar a tragédia e caminhou em direção ao local em que o velho fingia dormir, o Totó barrou sua caminhada, deferindo-lhe uma forte cacetada, nocauteando o manhoso grandalhão. Em seguida, o velho e seu auxiliar amararam o bandido, deram uma pisa, forçando-o a contar seus malefícios. Deixaram o malfeitor surrado e lambuzado de melaço, à beira de um formigueiro.  

Na manhã seguinte, atravessaram com segurança o Vaza-Barris e seguiram para Simão Dias. 

Tropeiro atravessando  o rio com a tropa(Rabisco em desenho da rede social)

O velho Tropeiro esclareceu que - dias depois, ao conversar com sua comadre Zefa Andarilha - soube que apareceu na cidade de Pinhão um sujeito maltrapilho, com hematomas e pinicado de formiga, em busca de transporte para a localidade Serra Negra, na Bahia. O boato é que ele fora se abrigar nas terras do Coronel João Maria, no atual município baiano de Pedro Alexandre. 

E concluía sua narrativa informando que, em terras sergipanas, nunca mais se ouviu falar no tal de Facinoroso, também conhecido como Facci.


Aracaju, 06/03/2024

Beto Déda





segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

 Os poemas de Paulo Rodrigues Alves.

 

No dia 22 de janeiro passado, eu tive a alegria de presenciar dois importantes momentos da vida de meu amigo e poeta Paulo Rodrigues Alves: sua posse na cadeira do Movimento de Apoio Cultural Antônio Garcia Filho, da Academia Sergipana de Letras(ASL); e o lançamento do seu livro de poesias “Tendas de Minh’ Alma”.


 

Paulo Rodrigues Alves (Contracapa do livro)

Paulo faz parte do grupo de estimados amigos que tenho desde os bons tempos que trabalhamos no Banco Nordeste (BNB), agência de Simão Dias. É uma pessoa querida, que sempre nos causa admiração pela sua inteligência e idoneidade. Executa seus trabalhos com muita dedicação e, nas horas vagas, é leitor assíduo de bons livros e é um bom poeta com muito senso de humanidade.

Lembro-me, desde o tempo que trabalhamos em minha terra, que ele já se destacava não só pela eficiência e seriedade em trabalhos rurais como Fiscal Orientador e Técnico Agrícola do BNB, mas também por sua cultura, quando apresentava e era aplaudido por seus belíssimos poemas declamados na Associação de Jovens Idealistas Simãodienses. Marcou presença nos acontecimentos culturais da época.

No mesmo sentido teve sua atuação em Aracaju, onde também trabalhamos juntos no Banco do Nordeste. Com esforço, trabalhando e estudando, ele formou-se em Economia, e continuou sua atuação crescente na atividade cultural. Foi premiado em diversos concursos de poesia. Em sua terra natal – Cedro de São João – foi o fundador e presidente da Academia Cedrense de Letras e Arte. 

Dele recebi, em primeira mão, poemas inéditos e plenos de sabedoria. Maravilha, mesmo!

Recentemente, em justo exame, reconhecendo as qualidades intelectuais de Paulo Rodrigues Alves, a Academia Sergipana de Letras(ASL) o aprovou para assumir uma cadeira no Movimento de Apoio Cultural daquele sodalício. Na cerimônia de posse, bem concorrida, fiquei alegre ao saber que Paulo assumia a cadeira que tem como patrono o grande sergipano Epifânio Dória, que tive a honra de conhecê-lo no tempo que ele era secretário do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe; o Sr. Epifânio Dória era amigo de meu pai; eu costumava transportar correspondências deles.

Tenho certeza que a ASL escolheu um bom e produtivo acadêmico. 

Não é demais dizer que meu amigo Paulo é um incentivador de criações e cultivador do intelecto, além da poesia, sempre gostou de boas músicas: dedica-se também a dedilhar um bandolim e executa com maestria canções antigas, participando em atividades musicais em cerimônias religiosas. 

O seu livro “Tendas de Minh’Alma” é um encanto para se ler e para se deliciar com sua mágica em escolher, arrumar e rimar as palavras, dando um sentido profundo em cada verso. E com o cuidado que lhe peculiar, esclarece em textos bem escritos, como a musa lhe inspirou em alguns poemas. O que demonstra seu tino em saber prosear.

O livro de |Paulo Rodrigues Alves



Fiquei imensamente feliz em presenciar a beleza da concorrida reunião que aplaudiu o êxito do bom amigo naquela tarde e, depois, me encantei ao ler  "Tendas de Minh'Almas"...


Vejam alguns versos que pincei do livro de Paulo:

Recordando o pai:

"Nesta hora, a remar, cantar - ele seguia,

E eu achava lindo o seu contentamento!   

Quantas lições, meu pai, o senhor me transmitia,

No grande amor à lida, em busca do sustento! "   

    

Comentando o descaso para com os trabalhadores:

                          “Como se não bastasse a mais-valia

A produzir escravos mundo afora,

Poucos veem no operário a primazia,

Fazendo sua esperança ir-se embora”

 

Sobre o espelho e o envelhecer: 

“Espelho, no passado davas-me alegria,

 Eras mui gentil e bela companhia,

 Que me enchia de orgulho ao dirigir-lhe o olhar,

Porque no meu semblante expunhas juventude,

Á minha face davas traços de saúde,

De quem tem longa vida e a virtude de amar.

 

Contrariamente, espelho, agora expões meus danos,

Os desgastes sofridos no correr dos anos,

De forma que a ti só um soslaio dirijo

Para ver as rugas dum ser alquebrado,

Mesmo sendo feliz com todo o meu passado,

Porque semeei paz – esta paz que inda vivo...”


 E a beleza dos poemas se espalham pelo novo livro. Bom, muito bom mesmo!

Meus parabéns e um fraternal abraço para Paulo, sua esposa Maria Auxiliadora e seus filhos Ana, Paulo e Valéria.

E para meus parentes e amigos que gostam de poesia, recomendo a leitura do livro do nosso ilustre sergipano. 

 

Aracaju, 19/02/2024

Beto Déda.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

 

O Careca e a peruca, o Baixinho cantor, e o ancião de três pernas...

 

Nesta semana minhas recordações se voltaram mais uma vez para tipos populares que viveram em Simão Dias e faziam parte das anedotas da juventude de então.

 E três personagens se destacam: o artesão de peruca, o lavrador que cantava nas missas e o ancião superdotado.

 O Careca

 O primeiro deles, o Careca, nasceu no município de Paripiranga e quando atingiu a maioridade foi para o Sul em busca de trabalho. Lá aprendeu a arte, se tornou um artesão de mão cheia, reformando móveis e estofados. Era de porte médio, forte, de cabeça redonda e careca (a perda de cabelos, diziam, era consequência do excesso de testosterona). Na capital paulista, se interessou em cobrir sua cabeça lisa com uma peruca cara e bem trabalhada. Justificava sua preferência afirmando que a peruca o embelezava e o protegia do frio.

O  Careca e a peruca (rabiscos de Beto Déda)


Com o passar dos tempos, o Careca sentiu saudades do Nordeste. Voltou. Veio montar seu negócio em Simão Dias. Ele era um artesão impecável e não lhe faltava serviço. Fabricava e restaurava com perfeição colchões de mola, sofás e poltronas. No seu trabalho diuturno não usava a peruca, para evitar o transtorno da poeira e do suor. Passou a usá-la em ocasiões especiais: casamentos, batizados e missas. E não o incomodava a curiosidade e o chiste do pessoal ao avistá-lo com seu topete novo. – Bolas! Dizia ele com um leve sorriso e, sem falha, aos domingos a peruca voltava a aparecer.

 O fato é que, naquela época, quando um jovem começava a perder o cabelo, a turma não vacilava e mandava comprar uma peruca igual a que o Careca usava na missa aos domingos.

Na atualidade, os que têm um campo de pouso de mosquitos na cabeça estão fazendo implante capilar. E os topetes postiços passaram reinar nas cabeças dos descabelados.


O Baixinho cantor

Naqueles idos, além da curiosa presença do homem da peruca, também era constante nas missas e novenas celebradas na Igreja Matriz a presença de um agricultor baixinho, de voz forte que entoava os hinos sacros, embolando o sonoro canto das religiosas Filhas de Maria. A inconfundível e forte voz do Baixinho era conhecida por todos que frequentavam as cerimonias religiosas, mas causava certo transtorno, motivo de marotos comentários.

O canto dos maravilhosos hinos sagrados era ouvido à distância, propagado pelo serviço de alto-falante que ficava na torre da Igreja e, ao fundo, se ouvia o tom de voz do Baixinho.

 Entre os jovens daquele tempo, os que desafinavam no canto eram sósias do Baixinho cantor e nas brigas entre meninos e meninas – em que os contendores apresentavam diferença de tamanho – os atiçadores aconselhavam o mais baixo a pegar uma cadeira e mandar peia, como fazia o cantor da igreja...

 

O Gê três pernas  

Também naquele tempo, um senhor idoso era muito conhecido pelos jovens de Simão Dias pelo seu tamanho e modo de caminhar. Diziam que era um superdotado, tinha o órgão genital exagerado, tipo Kid Bengala. Daí o denominarem de Gê três pernas. Ele era um velho alto, magro, cabelos ruivos, com as costas ligeiramente pendidas para frente e um caminhado característico, como se estive arrastando algo entre as pernas.

 Se não me engano o senhor Gê trabalhava em um dos ginásios da cidade e os estudantes costumavam acompanhar seus engraçados passos e o saudavam com um sonoro: “ –Olá, senhor três pernas!”  Ao que ele retrucava, meio irritado, apontando com o indicador suas partes baixas: “–É da natureza! Quer ver?”.  Ninguém queria ver e a turma se embolava de rir. Então o idoso prosseguia  sua caminhada, balançando a terceira perna com capricho...

 

Estas são lembranças de gente simples de minha terra, que vez por outra repassam em minha memória.

 

Aracaju, 22/01/2024

Beto Déda

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

 

O Natal no Lago Dourado: ontem e hoje…



Passei a noite de Natal de 2023 em companhia de familiares, aqui no Lago Dourado.


Desde o triste período da pandemia, não compartilhamos o Natal com os amiguinhos de meus netos. Confesso que isto me deixou meio desconsolado, porque eu também me sentia criança e revivia neles o meu tempo feliz ao comemorar as festas de fim de ano em Simão Dias.


A comemoração do Natal no Lago Dourado começou há dezessete anos. E tudo aconteceu porque, naquela época, descobri que minha netinha tinha medo do Papai Noel que se apresentava no Shopping Rio Mar.


Tentei convencê-la a perder o medo e o melhor resultado foi a promessa que fiz em me transformar em um alegre Papai Noel. Prometido e feito: comprei a fantasia no dia 22 de dezembro de 2006, enfrentando o alvoroço do comércio naquela semana natalina. E então, na véspera do Natal, minha neta me ajudou a vestir a roupa do bom velhinho e festejamos com alegria a data do nascimento de Jesus Cristo.


A felicidade que sentimos nos incentivou a repetir a comemoração e, daquele ano em diante, sempre no dia 24 de dezembro, vestia a roupa de Papai Noel para divertir meus netos e seus amiguinhos da região do Lago Dourado.


E assim as comemorações de Natal continuaram a acontecer até 2019. No ano seguinte, em 2020, surgiu a terrível pandemia que ceifou tantas vidas de parentes e amigos, e as comemorações natalinas com a presença das crianças deixaram de acontecer no Lago Dourado.


Na atualidade, as meninas e meninos que compartilhavam da festividade já estão crescidos, e meu novo neto (Carlinhos), que conta apenas com 6 meses de idade, ainda não tem noção da alegria da homenagem à data do nascimento do Menino Jesus. Diante de tal realidade, não aconteceu mais uma vez o Natal da criançada no Lago Dourado.


Na noite de Natal\2023, durante a ceia com familiares – as canções natalinas despertaram-me lembranças e me emocionaram – então prometi a mim mesmo que, com a graça do Menino Jesus, voltarei a vestir o uniforme vermelho do bom velhinho e comemorarei o Natal de 2024, alegrando meu neto Carlinhos e as crianças dos arredores do Lago Dourado.

Hoje, revendo e comparando algumas fotos das comemorações passadas, lembrei-me mais uma vez de uma citação do Padre Antônio Vieira, que interpretou com maestria o entrelaçamento entre o presente, o passado e o futuro. Reproduzo aqui o pensamento do consagrado padre, filósofo e escritor português, que conviveu em nosso país na época da colonização:

Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro.”


A esperança é que o bom Deus nos livre de outros nefastos males, e que nos favoreça com outras comemorações de Natal para que o futuro seja promissor.


Nas fotografias das comemorações natalinas, que reproduzo aqui, nota-se quanto é verdadeiro o pensamento do Padre Antônio Vieira: a evolução das personagens retratadas evidencia o entrelaçamento entre o presente, o passado e o futuro.





























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AS FOTOS ACIMA RETRATAM AS COMEMORAÇÕES DO PASSADO. 


Papai Noel Beto em Dez/2023



Natal de 2023-




Aracaju, 28/12/2023

BETO DÉDA