quarta-feira, 22 de março de 2017

BREVES LEMBRANÇAS DOS CINEMAS EM SIMÃO DIAS.

Dia desses fui indagado pelo professor e pesquisador conterrâneo Jorge Bastos sobre os cinemas de nossa terra. Gostei da indagação porque sempre fui fã da conhecida sétima arte. Frequentei com assiduidade o Cine Ypiranga e o Cine Brasil em minha terra natal e, também, os das cidades em que morei: em Aracaju (os cinemas Rex, Rio Branco, Vitória e Palace), em Salvador (o Guarani, o Excelsior e o Capri) e em Jequié (o Cine Auditório e o Cine Jequié).

Ultimamente assisto aos filmes na televisão ou no computador. E o bom filme, o que acho supimpa, eu costumo ver repetidas vezes, como é o caso dos dirigidos pelos geniais Fellini e John Ford. E quando faço isto, minha paciente Leninha indaga: - Quer decorar?

Tenho boas recordações dos cinemas de minha terra e algumas delas eu relembro aqui para os amigos.

Contava meu saudoso pai que quando o cinema teve início em nossa cidade, as fitas eram projetadas manualmente, em locais improvisados, e que as pessoas interessadas, além de pagar o ingresso, tinham que levar suas próprias cadeiras para assistirem às fitas confortavelmente sentadas.

O Cine-Jornal - folha editada pelo
Cine-Theatro Sylvio Romero
Naquele tempo predominavam as apresentações teatrais. Em 1918, foi inaugurado o Theatro Sylvio Romero, na Rua do Espinheiro, construído pelo o Cel. Felisberto Prata. Em 1921, aquela casa de espetáculos foi adaptada à projeção de filmes e passou a ser chamada de “Cine-Theatro Sylvio Romero”. Em 1923, sob a liderança de Arivaldo Prata (filho do Cel. Felisberto), surgiu o jornalzinho Cine-Jornal, que trazia logo abaixo do seu título a importante informação: “Folha de interesses locais e destinada a propaganda cinematográfica, editada pelo Cine-Theatro Sylvio Romero”.

Na década de 30, a aparelhagem do cinema foi vendida e surgiu na cidade o Cine Elite, que durou poucos anos.

O jornal “A Luta”, de Emílio Rocha, publicou várias notícias sobre o cinema em nossa terra.

Em 1943 o Sr. Pierre Freitas adquiriu nova aparelhagem e o prédio do Cine Theatro Sylvio Romero,  que mudou de nome, passando a ser denominado Cine Teatro Ypiranga.

Dez anos depois, em 1953, foi inaugurado um novo cinema na cidade, construído pelo Sr. Durval Conceição, com o nome de Cine Brasil.

Posteriormente o Cine Brasil foi vendido ao Sr. Antônio Borges; e o Cine Ypiranga vendido ao Sr. Edinho de Lagarto.  Com o passar dos anos e diante da concorrência da televisão, os cinemas fecharam.

Hoje temos apenas boas recordações daquelas casas de espetáculos. 

Aqui mesmo, já fiz relatos de minha presença no Cine Ypiranga, vendendo gibis, editados pela “Rio Gráfica Editora”, que meu irmão Carlos representava  em Simão Dias.

Ao falar sobre os cinemas de nossa terra, o principal fato que me vem à mente é o desabamento da “geral” do Cine Ypiranga. Em nossa terra, denominava-se “GERAL” a parte superior do cinema, com bancos desconfortáveis, e que se cobrava um valor menor pelo ingresso; era o local preferido pelos que tinham o hábito de soltar gases mal cheirosos e sonoros, ou seja, peidos fedorentos e estrondosos.
O Cine Ypiranga no traço e na lembrança de Beto Déda

Em uma noite de sábado, dia de feira na cidade, em 1961, o cinema estava lotado. Era exibido o filme brasileiro “A morte comanda o cangaço”. A fita mostrava uma luta sangrenta patrocinada pelos cangaceiros. Tiros, fumaça das armas, barulheira da artilharia dos jagunços e a plateia atenta, vibrando de emoção. Envolvidos no alvoroço da filmagem, os espectadores não notaram, de imediato, o estranho ruído e a fina poeira que desprendia da “Geral”.

Pois bem. Assim que perceberam que o som e a poeira não correspondiam aos efeitos especiais do filme, mas era o sinal de que a “geral” estava desabando, aí a plateia iniciou uma louca debandada no escuro, procurando saídas pela frente ou pelos fundos, por traz da tela, em direção à Rua dos Pinicos (era assim mesmo que era conhecida a rua que passava por trás do cinema).

Os que estavam nas filas próximas à entrada, seguiram a liderança de Dr. Fraga e Seu Manequinha, que eram pessoas bem conhecidas e admiradas na cidade. Eram corpulentos, então, diante do pânico, meteram as barrigas na grande porta da frente, quebrando os ferrolhos, escancarando-as em bandas, para dar passagem aos aflitos seguidores. O tumulto foi grande, mas, felizmente, não houve vítimas. Muitos perderam sapatos, chinelas e até chapéu, no entanto, nunca perderam o bom humor ao comentar a cena, sempre caprichando em satirizar o que se passou com cada um, sem esquecerem, ao final, mencionar a frase que se tornou frequente naqueles dias: “A morte comanda o cangaço, mas não comandou o Cine Ypiranga”...

O Cine Brasil na lembrança e no traço de Beto Déda
Lembro-me, agora, de outro fato que aconteceu no Cine Brasil e me foi contado por uma pessoa que admiro muito e que se viu em uma verdadeira “saia justa”. Certa noite o amigo foi ao cinema com sua mulher. Antes de iniciar o filme, foi projetado um documentário sobre uma tribo de índios no Xingu. A fita exibia indígenas nus, com as intimidades expostas. O recatado casal não gostou do que via e tentou sair discretamente. Quando se aproximavam da saída, foram abordados por seu Antônio, proprietário do cinema, que exclamou em voz alta, mencionando o nome do amigo, para que todos ouvissem:

 - “Meu amigo (...) se eu soubesse que nesta fita apareciam índios nus eu não permitiria a projeção...”

Surpreendidos pela quebra de privacidade da cautelosa saída, o envergonhado casal esgueirou-se porta a fora, ouvindo as gargalhadas e os gritos dos espectadores em consequência da espalhafatosa declaração do dono do cinema.

Aracaju, 22/03/2017


BETO DÉDA

segunda-feira, 13 de março de 2017

O  JORNAL  “PAPAGAIO DO FUTURO”


Há poucos dias tive o prazer de dialogar com o conterrâneo Delso Oliveira Andrade, filho de Damaris e neto de Seu Chiquinho Vito, que moravam na Avenida Coronel Loyola, antiga Rua da Feira, em Simão Dias.  O Delso saiu de nossa cidade quando era jovem para estudar em outras plagas e hoje ele reside no Vale do Cariri, no Ceará, elaborando projetos para desenvolvimento de pequenos produtores rurais.

Nossa conversa aconteceu via internet. Foi quando tomei conhecimento que, no início dos anos 80, jovens inteligentes, irrequietos e de vanguarda editaram, em Simão Dias, um interessante jornal com o título “PAPAGAIO DO FUTURO”, duplicado em mimeógrafo e divulgado com razoável tiragem.

Naquela época eu morava em Jequié, daí a razão de não saber da existência daquele jornal. Somente agora, passados quase 37 anos, mediante troca de mensagens com o Delso Andrade, recebi cópias dos dois primeiros números do jornalzinho, que reproduzo aqui para lembrança dos mais velhos e conhecimento dos mais jovens.
O jornalzinho era editado por Delso e outros líderes estudantis da época, todos com ideias novas e que sabiam expressar opinião sobre os problemas locais ou mesmo criticar os atos políticos dos dois partidos antagonistas existentes na cidade: os “Jacarés”, liderado por Dr. Celso Carvalho, e os Crocodilos, sob a liderança de Antônio Valadares.
  

Eram responsáveis e colaboradores do jornal os garotos: Delso Andrade, Humberto Oliveira, Marco Aurélio Déda, Marcelo Déda, José Silva, Enaldo Valadares,  Flamarion Déda, Gonzaga Varjão, Belivaldo Chagas, Écio Déda, Cícero Guerra Neto, Osvaldo Abreu e João Antônio Guerra.

No bate-papo que mantive com Delso, obtive informações de causos interessantes envolvendo os editores do jornal. Dele recebi autorização e repasso aos amigos do Facebook a interpretação que faço de alguns casos.

O primeiro deles refere-se a um entrevero que aconteceu entre um político e Humberto Oliveira, em decorrência de um artigo que criticava um grupo partidário. Na discussão, Humberto disse que o político era “bitolado”, então o homem ficou bravo, disse que não era, fez a maior zoada e depois, quando se acalmou, virou-se para o Prof. Udilson e indagou: - “O que significa mesmo essa tal palavra bitolado?”...

Em uma das edições do jornal, meu sobrinho Marco Déda escreveu um artigo com o título “Câmara dos Camarões”, no qual criticava os discursos e o desempenho dos vereadores da terra. Um edil leu o jornal, não gostou do artigo, vociferou contra os jovens e os ameaçou de dar bofetadas. Não passou de uma bazófia...

Como sempre aconteceu com os órgãos de imprensa, a opinião de alguns leitores sobre o jornal mudava em consequência dos artigos publicados: quando fazia críticas aos “Jacarés” era aplaudido pelos “Crocodilos”; e vice-versa. E isto acontecia também quando se criticava fatos que não envolviam políticos.

Um exemplo  de mudança de opinião ocorreu com o pároco daquela época: na missa de um domingo ele elogiou os editores do jornal e fez uma oração pedindo a Deus que iluminasse a cabeça daqueles jovens. No domingo seguinte, depois que o jornalzinho publicou um artigo criticando a administração do Cemitério – que estava sob a responsabilidade da paróquia – o padre ficou irritadíssimo e fez um duro pronunciamento censurando os jovens e afirmando que o “Papagaio do Futuro” era um panfleto difamador...

A lustração do “Papagaio do Futuro” era feita por Enaldo, filho de Nadinho do Bar Vesúvio. Em uma matéria que o jornalzinho criticava a atuação da diretoria do Caiçara Clube, o Enaldo apresentou uma interessante e cômica caricatura de um dos antigos diretores. Foi um sucesso. Em função desse artigo os jovens estudantes passaram a ter vez na diretoria do clube.

Conversei também com outros editores do jornal, entre eles o meu irmão Flamarion Déda (conhecido pelos familiares como Toínho). Cotou-me um fato interessante. Disse-me ele que certo dia a rapaziada teve um susto muito grande ao saber que o juiz da cidade (Dr. Emídio Nascimento) queria conversar com eles. Acreditavam que estariam movendo um processo contra os editores do jornal. Os mais pessimistas pensavam que seriam presos. Apreensivos, os jovens foram conversar com o juiz.  E naquele momento, em frente a autoridade máxima do judiciário da cidade, os estudantes tentavam desfaçar o receio. Cada um ao seu modo demonstrava seu estresse: esfregando as mãos para limpar o suor frio; piscando os olhos, intermitentemente, sem controle; mordendo as unhas, ou balançando as pernas como se tivesse com sezão.  E também tinha aquele que olhava cada colega com o riso maroto, aguardando o que diria o meritíssimo.  

Então surgiu a surpresa: o Dr. Emídio disse que queria conhecê-los para parabenizá-los pelo acerto em publicarem o jornalzinho. E o juiz cumprimentou cada um. 

Ufa! Foi um alívio formidável. Os estudantes recuperaram o fôlego que saíram confiantes do Fórum Gervásio Prata.

Não obstante sua curta duração, o "Papagaio do Futuro" empolgou os leitores de minha terra e, ao relembrar aqui sua passagem, fico imensamente feliz em notar que seus editores se tornaram importantes líderes  nas diversas atividades que escolheram. 

Todos eles são simãodienses que merecem nosso reconhecimento.

ARACAJU, 13/03/2017

BETO DÉDA

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O carnaval e os foliões de Simão Dias.
Pensando em aliviar o amargor que passa nosso país na atualidade, o bom mesmo é lembrar os antigos carnavais e ouvir os frevos de Capiba. 

Nos velhos tempos em minha terra natal era comum, nos dias que antecediam o carnaval, as crianças pegarem argila no Tanque Novo, reservatório de água que abastecia a cidade, para fazer moldes de máscaras. Esculpia-se na argila um rosto e, quando o barro endurecia, colavam-se várias folhas de jornais sobre o molde que, depois de certo tempo de secagem e de uma ligeira pintura, o papelão transformava-se em uma interessante máscara de carnaval. Fiz muitas máscaras usando essa técnica elementar. 
Lembro-me que, no carnaval de 1960, meu pai usou a argila do Tanque Novo para moldar e fazer uma máscara de Jânio Quadros. No domingo de carnaval, com paletó azul-marinho, gravata, uma vassoura na mão e a máscara do Jânio, eu saí pelas ruas de Simão Dias cantando a marchinha “O homem da vassoura vem aí”.   Fazia muito calor naquele dia e, para amenizar, tomei alguns goles de aguardente Zinebra. O resultado final foi uma ressaca sem limites... Para meus pais eu disse que ficara desarranjado por ter tomado água quente do Tanque Novo. Minha mãe olhou-me com sorriso e perguntou:
- “Bem, agora o pessoal está dando o nome de Tanque Novo a aguardente, não é?
Fiz um beicinho de desconsolo e o resultado já era esperado: na noite daquele dia não fui ao baile do Caiçara Clube.
Mas como uma lembrança leva a outra, recordo-me que em fevereiro de 2013, escrevi neste blog sobre os filósofos foliões de minha terra. 
Dos bons carnavais de Simão Dias, guardo lembranças de conterrâneos que marcaram presença.
Dentre eles, os notáveis batuqueiros Negão e Tonho do Areal, ambos engraxates. O Negão era um talento em batucar com a escova em sua caixa de limpar sapatos, que ficava na calçada do açougue municipal, confronte a redação do jornal “A Semana”. O Tonho do Areal tinha sua caixa de engraxar perto do Bar de Valério. Ambos eram bons foliões. Com um detalhe, o Negão mancava, tinha um problema na perna e não podia sambar, seu forte era cantar e batucar. Enquanto o Tonho era um grande re-bo-la-dor e, quando o bloco passava pela Rua do Sobrado, ele cantava pra sua mulher, que se chamava Luzia, a marcha de Braguinha:
  “Anda, Luzia,
    Pega um pandeiro, vem pro carnaval
    Anda, Luzia
    Que essa tristeza lhe faz muito mal...”


Outro inesquecível folião chamava-se Pedro Retraído, sobrenome que recebera por ser um homem reservado, que mais escutava que falava. Era um senhor de meia idade, galego, alto, magro, com um bigodinho aprumado, olhos meio caídos, fala mansa e de poucas palavras.

Sóbrio, sem ser tímido, Seu Pedro Retraído animava os carnavais da cidade transfigurando-se em dois personagens ao mesmo tempo. Fazia isto traçando uma linha divisória em seu próprio corpo, do alto da cabeça, passando pela metade do nariz indo até a virilha. De um lado, o direito, era ele próprio, com sua feição normal e o olhar perdido no horizonte. Cobria essa parte do corpo com metade de paletó, de camisa e de  calça, e no pé um sapato preto e branco. Do outro lado, o esquerdo, era o inverso: cortava o cabelo rente, com máquina zero, até a linha divisória, raspava uma sobrancelha, parte do bigode e pintava essa face do rosto com uma espécie de cera branca. Nesse lado do corpo mostrava uma camiseta sem manga, calção parecendo cueca samba canção, deixava a perna comprida nua e usava uma chinela no pé. Trazia pendurado na cintura um pinico com doce de leite, imitando cocô de criança. E na boca, do lado esquerdo, soprava um apito chamado “língua de sogra”. 
Com seu lado sério intocado, sem uma única palavra, lá ia ele pelas ruas da cidade com seu inconfundível andar de longas pernas. Parava em cada esquina e, pelo lado esquerdo de sua boca, soprava o apito língua de sogra, estirando-o em direção aos curiosos. Depois, com uma pequena colher de pau, saboreava um pouco do doce de leite que estava no pinico...
Despreocupado, o Retraído filosofava e encarnava a simbologia da dualidade, da dúvida e da contradição existentes na humanidade. Em sua fantasia, ele representava a tristeza e a alegria, o feio e o bonito, o bem e o mal, a pobreza e a riqueza, a verdade e a falsidade, a luz e as trevas, a seriedade e o devaneio. Sua exposição esbanjava filosofia. Inesquecível...
...
Nos anos cinquenta, a situação estava difícil aqui no Nordeste. O povo vivia com a barriga amarrada ao espinhaço. Mesmo assim, nossa gente não deixou de brincar nas ruas e no clube da cidade.
Intrigado com aquela contradição, especialmente com as despesas do carnaval, meu pai, jornalista Carvalho Déda, procurou saber como era possível se comemorar um carnaval tão animado, tão sacudido e tão rebolado, quando a cidade se debatia numa crise danada. E perguntava:
-Como aquela gente conseguiu fazer uma festa tão porreta sem dinheiro? 
Para entender essa façanha, ele entrevistou o folião Domingos Bina, que na quarta-feira de cinzas estava ressacado, no oitão do Cine Brasil, acocorado, fazendo cruz na boca. O diálogo foi o seguinte, publicado na seção “Aspectos da Cidade”, que ele escrevia sob o pseudônimo de Lynce no jornal “A Semana” (Edição de 18.02.1956),  no artigo que teve o título: “A Filosofia de Domingos Bina”:
“ – Como se faz carnaval sem dinheiro, “seu” Domingos?
O “filósofo” respondeu sem pestanejar: – Oxente! É só pegá um pedaço de papelão, fazê dele um funil, chamá Negão e Alfredo Engraxate, metê a cara na rua e a turma acompanha. Todo mundo sai atrás do funil...
- Mas “seu” Domingos, (insisti) sem correr nada no funil?
Com um riso malandro, o filósofo da bandurra explicou: - Basta oiá pro funil! Todo mundo já ta avinhado!...
 E a última pergunta: - Mas "seu" Domingos, bom carnaval sem dinheiro? E a religião como é?
O "filósofo" não titubeou: - Oxente! Depois de feito, Deus dá um jeito!...”
...
Estas são lembranças e lições de vida de inesquecíveis foliões e “filósofos” de minha terra.
Hoje, pensando e lembrando deles, não me resta dúvida de que eram pessoas ricas em sabedorias e faziam de seu humor carnavalesco o contraponto ao amargor de seus desencantos. Sem querer, eles expressavam o pensamento do grande criador de Carlitos, o imortal Charles Chaplin, que dizia ao comentar sobre o humorismo e a seriedade:
 “O humorismo alivia-nos das vicissitudes da vida, ativando o nosso senso de proporção e revelando-nos que a seriedade exagerada tende ao absurdo.”
São fatos que nos alegram e relembrá-los não faz mal a ninguém.
E viva a alegria para esquecer os dissabores que, na atualidade, recebemos diariamente goela abaixo.
ARACAJU, 22/02/2017
BETO DÉDA

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Meu sonho frustrado de violonista e a performance de meus sobrinhos-netos.

Recentemente estive em Salvador, revendo os lugares que frequentei na primeira metade dos anos 60 quando estudei no Colégio Duque de Caxias, no Bairro Liberdade. Foi lá que conclui meu curso científico. Naquela época, também participei do curso preparatório para o vestibular de engenharia, patrocinado pela SUDENE e realizado na Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, no Bairro Federação.  Pela manhã participava do curso pré-vestibular e, à noite, concluía o curso Científico.   

Na época, morava na Praça Rockfeller, próximo a Praça das Piedade, em Barris, no apartamento que denominamos de “República dos Carvalho & Oliveira”, residência de jovens parentes. Todos muito unidos, responsáveis e que tínhamos como “presidente” o querido primo Zé Carvalho Oliveira.

Foi ali que tive minha grande frustração como violonista. Com as economias do valor da bolsa de estudos que recebia da SUDENE, comprei um bonito violão na loja “Duas Américas”, na Rua Chile. Pretendia aprender a tocar, mas fui forçado, por decreto do “presidente da república”, a me desfazer, incontinenti, do instrumento.  O primo Zé justificou seu “decreto” como um ato preventivo, destinado a evitar prejuízos ao tempo que eu dedicaria aos estudos. O decreto era determinante: “Desfaz do violão ou volta pra Simão Dias”.  E eu segui à risca, desistindo de aprender música. No mesmo dia presenteei o violão a uma colega sergipana do curso pré-vestibular.

Não é pouco dizer que até hoje fico pensando porque não tive o tesão necessário para espantar esse episódio e ter insistido na aprendizagem musical. Sobre esta minha aventura, dediquei algumas linhas, aqui postadas em 21/10/2012, com o título “E o mundo perdeu um grande violonista”.

Pois bem. Depois de reviver essas lembranças, de volta a Aracaju, encontrei uma resposta formidável para compensar minha frustração. O conforto reparador surgiu aqui nas redes sociais, ao perceber que dois queridos sobrinhos realizaram meu sonho, ao dedilharem com maestria o pinho. Para mim, que além de pai corujão, também sou um tio coruja, fico babando, ao ver e ouvir o desempenho dos garotos Tarcísio e Daniel Oliveira como exímios violonistas.

Peço permissão aos dois queridos sobrinhos-netos para replicar para os parentes e amigos o vídeo feito por eles e postado no Youtube. Eles tocam com maestria a cansão “Romance de amor” (ver no seguinte site:
https://www.youtube.com/watch?v=wyfbGJYZoM0).

Não é demais dizer que estou feliz. E fico mais alegre ainda, ao pensar no tamanho da felicidade de seus pais (Marco-Neire) e de sua avó (minha querida irmã Nancy).

E o primo Zé Carvalho – que agora deve usar um fio dental, porque já não existem as camisas “volta ao mundo” para ele tirar linhas para limpar os dentes – certamente estará dizendo:

- Tudo no seu devido tempo!


ARACAJU, 10/02/2017

BETO DÉDA

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

As garotas de minha rua e a dança do “es-qui-tim-pam-pã”

Muitas vezes minha cachola é surpreendida com lembranças chistosas de minhas peraltices na Rua dos Ribeiros, em Simão Dias. Lá pelas três horas da madrugada de hoje, acordei-me com recordações de meus amores platônicos com as garotas da vizinhança.

Em nossa rua o número de meninas suplantava o de pivetes. E elas enchiam de alegria as noites, com suas brincadeiras inesquecíveis: “cipozinho-queimado”, “boca-de-forno", “cadê-o-grilo”, “manja”, “esconde-esconde”, “pinto-galo”, “adivinhações”, “rodas” e uma dança chamada “isquitim-pampã”.

Lembrei-me, então, da garotinha meiga que gostava de brincar de “pinto-galo”. Para presenteá-la e fazer-me notar, resolvi colher sementes da árvore mucunã, conhecidas como olho-de-boi. Colhi cinco sementes bonitas, muito apreciadas pelas meninas no jogo “pinto-galo” (em que, com a mão direita, atirava-se uma pedra ou semente para o ar e a amparava, depois de recolher ligeiramente outra pedra para o lado da mão esquerda apoiada no chão em forma de “U” invertido). Não esqueço o gesto simples da simpática garota, levando os dois dedos à boca, como a me dirigir um beijo de agradecimento. Beleza pura!

Das brincadeiras próprias de meninos uma delas me recordo com alegria. Era coisa simplória, dessas que tem na imaginação o principal ingrediente: guiar um arco de pneu gasto, fazendo-o girar com um gancho de arame. E deixava o pensamento voar, com se estivesse andando em uma potente motocicleta ou dirigindo um robusto carro “studebaker”. Eu corria pelas calçadas, fazendo rolar o arco de pneu, imitando o ronco de um carro e fazendo curvas quase impossíveis, especialmente quando notava que estava sendo observado por uma de minhas garotas encantadoras. 
  
Na solidão dessa madrugada insone, lembrei-me do dia que brinquei de esconde-esconde acompanhando uma menina que eu simpatizava. Ela era esperta e eu compartilhei do seu esconderijo. Ficamos os dois juntinhos e, ao ouvimos a gritaria da meninada, já saindo do escondido, a esperta segurou em minha mão e me aconselhou:

 - “Agora devemos fazer xixi”.

 Ela fez e eu também. 

E sua sugestão tinha sentido. Para sortear os participantes que teriam que se esconder, fazia-se um sorteio, com as seguintes palavras, com intervalo em cada sílaba, apontando para cada um dos contendores:

“Pan-da-ro-le-ta,
 pan-da-pi-ta,
 pi-ta-pir-ru-je...
 Vá-pra-ca-ma dor-mir,
que-não-ti-que-ro a-qui.
Vá fa-zer xi-xi”

Seguimos à risca a última recomendação da regra da manja: fizemos xixi.

Depois, lembrei-me para valer daquela garota risonha, que adorava dançar e aprendia com facilidade os passos de qualquer folguedo. Ela era maravilhosa e se esmerava em danças ligeiras. Mas o bom mesmo era apreciá-la dando saltinhos, com as mãos nas cadeiras, quase de cócoras, levantando a saia e  cantarolando a dança em voga entre meninas da época. Os passos tinham uma ligeira semelhança com a dança dos cossacos. As crianças adotaram um nome esquisito para a dança: “is-qui-tim-pam-pã”, por reproduzir o ritmo da música que orientava os passos. E a garota sabia cantar, pronunciando com simpatia cada sílaba, sonorizando seus ritmados saltinhos.
Vê-la cantar e dançar o “is-qui-tim-pam-pã”, espanando o vestido, era um verdadeiro espetáculo. Beleza pura!

As calçadas da Rua dos Ribeiros guardam causos inesquecíveis.

E minha noite insone se transformou em um agradável despertar de felizes recordações.

ARACAJU, 27/01/2017

BETO DÉDA

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017


Lembranças do Ginásio Jackson de Figueiredo e de João Gilberto
Ubiratan Mendes foi meu contemporâneo no Ginásio Jackson de Figueiredo e posteriormente foi meu colega dos velhos tempos do Banco do Nordeste. Atualmente é um amigo e tanto no Facebook. Sou um seguidor assíduo de suas postagens inteligentes, divertidas e de muito bom gosto, quer nos seus escritos ou na excelência das músicas que partilha.
Pois bem. No mês de dezembro passado, o Ubiratan Mendes – conhecido entre os íntimos como Bira – mandou-me um mensagem no qual me lembrava de que João Gilberto, o grande cantor, violonista, compositor e gênio da música popular brasileira tinha estudado no Ginásio Jackson de Figueiredo aqui em Aracaju.
Na semana passada meu cunhado Haroldo Déda reativou minha memória, com a mesma indagação sobre a passagem do grande compositor no ginásio dirigido pelo saudoso casal Benedito e D. Judite Oliveira.
Lembro-me muito bem que lá pelo final dos anos 50 (entre 1959 e 1960) o João Gilberto esteve no Jackson, fazendo uma visita aos diretores e com eles jantou. A sala de jantar dos diretores era guarnecida com janelas com vidros, e dava para o pátio do recreio, onde ficavam os alunos internos, que observavam a elegância dos diretores em suas refeições. No dia em que o genial compositor esteve por lá, eu e alguns colegas nos posicionamos para observar o ilustre visitante na sala de jantar, conversando com o Prof. Benedito e Dona Judite.
Naquela época o João Gilberto era um nome conhecido entre os colegas e bedéis  que gostavam de música. Era o tempo do início da “bossa nova”, do lançamento do disco em 78 rotações, com a canção “Chega de Saudade”. Não é demais dizer que tínhamos orgulho de estudar em um ginásio que teve como aluno o famoso músico.
Muitos anos depois, o João Gilberto fez apresentações aqui em Aracaju, no Teatro Ateneu e no EMES. Sempre recordando o tempo em que estudou no Jackson e prestando homenagens aos Diretores.
Lembro-me que na apresentação no EMES ele recordou de alguns colegas e fez questão de elogiar a inteligência do seu amigo Ezequiel Monteiro, notável intelectual sergipano, que também foi aluno daquela escola.
No tempo que fui interno no Jackson, participei de um conjunto musical que usava o serviço de alto-falante do Ginásio e tocava sambas da época. Eu era o tocador improvisado e medíocre do afoxé ou do ganzá. Às vezes a turma, timidamente, cantarolava o “Chega de Saudade” que marcou o início da bossa nova.
Certa vez, depois de apresentação de uma canção, sofremos uma ligeira e talvez merecida vaia de alguns colegas. Tomei o microfone e fiz a defesa do conjunto. Pouco depois, um bedel transmitia uma mensagem de D. Judite, elogiando o musical e nosso pronunciamento. Ficamos todos conchos com a aprovação recebida da diretoria do Ginásio.
Ainda hoje sou um fã incondicional desse magnifico músico, que para alguns críticos tem uma personalidade intrigante, meio maluco em seu perfeccionismo, mas que é um gênio não resta a menor dúvida. E o que é melhor: ele nunca esqueceu que foi aluno do Ginásio Jackson de Figueiredo e sempre elogiou aquele estabelecimento de ensino.
Foi bom me lembrar de minha escola e do genial João Gilberto. E agradeço isto ao colega Bira e ao querido cunhado Haroldo.
Aracaju, 12/01/2017


BETO DÉDA

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Momentos de alegrias

Nos últimos dias estive ausente do movimento de Aracaju. Fui me abrigar e renovar as frágeis ideias lá pelas bandas do Mosqueiro.

Minha mente sempre foi irrequieta em busca de conhecer novidades sem, contudo, esquecer os bons momentos vividos no passado e dele tirar proveitos que me alegrem e me estimulem na caminhada pela estrada da vida.

É no sítio Lago Dourado que a imaginação encontra o ambiente propício para realizações, quer inovando ou mesmo relembrando feitos de minha infância ao realizar trabalhos artesanais para agradar os familiares, especialmente os queridos netos.

Alguns dias atrás, para ornamentar nosso laguinho de carpas, eu equipei a roda d’água com um boneco de madeira que, aparentemente, faz movimentar a roda, de modo a oxigenar a água do pequeno lago. Tudo fabricado na minha oficina de “armengues”.

O boneco da Roda d'Água

O boneco, parecido com um mané-gostoso, já tem um apelido: “Sem Direitos”. Assim ele é apelidado diante da semelhança com o trabalhador sem a proteção da CLT – normas trabalhistas satanizadas pelo governo golpista do Temer –, ou seja: não descansa, não tem aumento salarial,  nem o décimo terceiro e não tem direito a férias.

O trabalho artesanal serve como divertido exemplo de protesto contra os que pretendem desmoralizar a Consolidação das Leis do Trabalho. 


Mas deixemos o mal para os de pouca fé e passemos a cuidar de momentos mais agradáveis. 

Na verdade, para mim o Lago Dourado tem sido realmente um estímulo para renovar um pouco da criatividade que sobrava nos velhos tempos. Tanto é assim que reservei os últimos dias de 2016 para divertir-me lá no sítio, ao lado de familiares, renovando minhas emoções.


Papai Noel Beto e a garotada em 24/12/2016

Repetindo o que faço há vários anos, no Natal enverguei meu traje vermelho de Papai Noel e partilhei minha felicidade com os  netos e a garotada da vizinhança. 

A alegria contagiou todos.




"É bom e agradável ver unidos os irmãos".
E mudamos de ano, repetindo o salmo 133 de David, enaltecendo a beleza da união fraterna. 


Foram momentos lindos e inesquecíveis que, aqui para nós, me deixaram concho de felicidade. 

O sentimento foi de tal intensidade que me faz rogar ao bom Deus para que, durante este ano que se inicia, estenda idêntica alegria para todos os meus parentes e amigos.

Aracaju, 04/01/2017

Beto Déda