segunda-feira, 18 de junho de 2018


“Nóis  rico...”

O Café/Bar do amigo Chico Bina ficava na Rua da Palha, ao lado do antigo Açougue Municipal e quase em frente ao armazém que fora de Seu Dominguinhos e Dona Noquinha.

Nas manhãs dos dias de feira em Simão Dias (aos sábados e quartas), o ponto comercial do Chico era o local certo de encontro do pessoal que trabalhava no talho da carne verde e nos arredores. Era servido um café forte e gostoso sempre acompanhado do pão quentinho da padaria de Seu Oscar Rocha, que ficava na outra esquina, de frente para a Rua do Comércio e ao lado do início da Rua do Mulungu.


Ali era o meu ponto preferido para tomar café nas manhãs dos sábados, nos intervalos depois de dobrar e separar os exemplares do jornal “A Semana” para distribuição nas casas dos assinantes.

Eu saboreava o café com pão bem amanteigado e ficava atento, ouvindo com atenção a conversa do pessoal que lotava as diversas mesas. Os frequentadores falavam alto, faziam troça dos acontecimentos da cidade, discutiam os assuntos publicados no jornal e as pendengas políticas da localidade.

Os risos se multiplicavam quando por lá aparecia um contumaz e conhecido vociferador que não media palavras em maldizer a carestia ou meter o pau em político que lhe era adversário. O homem babava ao falar mal de alguma coisa. O pessoal gostava de ouvir e de rir com os disparates.


 Zé Povo: Sobe 'frecha'! Um dia puxarei a 
escada da tua usura!...
Xilogravura de meu pai, Carvalho Déda, sobre
o aumento da carne bovina. Página 2 do jornal
 "A Semana", edição de 28/11/1959.
Lembro-me que em certa manhã a discussão era entre comerciantes de gado e açougueiros, envolvendo o preço alto da arroba de boi e o consequente refugo de carne nas bancas do Açougue, como acontecera na última feira. A conversa ia se desenvolvendo e o pessoal começou a comentar o absurdo da inflação, que já assombrava os conterrâneos naquela época, e também a culpar os fazendeiros pela ganância. Então um dos participantes começou a defender os criadores de gado e afirmar que o grande causador era o governo.

Ao ouvir as ponderações do gajo defensor dos fazendeiros, um magarefe que tomava café misturado com o aguardente Genebra Guichard, saiu-se com essa:

- Qual’é, amizade, nessa sua defesa dos fazendeiros você parece aquele nosso conterrâneo que apelidávamos de “Nóis Rico”.

E complementou:

- Cuidado! Senão você vai ter que pagar sua conta da compra dos bois em dinheiro...

Mal terminou de falar, ouviram-se gargalhadas fortes nas mesas circunvizinhas.

Eu fiquei sem entender o que tinha dito o homem do café com Genebra e o motivo das risadas.

Aproximei-me de um dos presentes, um senhor idoso, muito conceituado, que falava mansamente e com sabedoria. Indaguei pra ele sobre a história daquele homem com o apelido de “Nóis Rico” e o motivo de tanto riso.

O interpelado olhou pra mim e, reconhecendo minha mocidade, disse que era um fato antigo e hilário, que os velhos marchantes da terra sempre lembravam. Então me contou o caso que repasso aqui, em um esforço de memória. De antemão, asseguro que tudo é verdade, comprovada em conversa com outros patrícios que viveram naquela época. 

Em muitas localidades de nosso município prevaleciam os minifúndios de agricultores. As pequenas propriedades se mostravam mais favoráveis e produtivas com o cultivo de lavouras do que com criação de gado. Os lavradores se sentiam orgulhosos do que faziam e, com o resultado do amanho de sua pequena gleba, mantinham suas famílias com dignidade. 

Acontece que, como toda regra tem exceção, não faltavam entre os donos de sítios, aqueles que ocupavam o terreno com pastagens e pequenos lotes de bovinos. Entre eles, estavam os que se dedicavam exclusivamente ao comércio, ou seja, intermediavam a compra de gado dos agropecuaristas e repassavam aos marchantes para abate e comercialização no Açougue Municipal.  Alguns deles se julgavam fazendeiros e agiam como se fossem senhores da Casa Grande. Acreditavam nisto e menosprezavam os pequenos lavradores. Desconheciam, certamente, que suas próprias convicções eram motivos de galhofas entre os que interagiam em seus negócios.

Pois bem; nos idos da primeira metade do século XX, em nossa cidade, vivia um pequeno proprietário rural que pensava e agia como se fosse um rico fazendeiro. Convicto de que fazia parte da elite, não tinha cerimônia em propagar sua pretendida classe e não perdia oportunidade em debochar daqueles que acreditava ser de classe inferior.

Quando estava no escritório de um conhecido latifundiário, ficava muito à vontade e costumava elogiar o cafezinho que lhe era servido, dizendo em voz alta:

  - “Isto é uma coisa que NÓIS RICO apreceia!

E o pessoal da Casa Grande se entreolhava e expressava o sorriso de mofa...

Repetiu tanto o "Nóis Rico" que passou a ser apelidado e conhecido por tal expressão.

Em uma tarde, o pretenso rico foi a uma grande fazenda comprar gado para abate. Foram ao pasto ele e o fazendeiro. Montado em um burro especial, com sela mineira coberta com uma pele lãzuda de carneiro e chapéu baeta de marca, ele seguia o rico proprietário da fazenda/engenho. Olhou em volta do gado pastando e exclamou para o fazendeiro, que esboçou um sorriso incrédulo:

-  Beleza de rebanho qui nóis rico gosta de apreiciá...

Depois de escolher alguns bois gordos, o comprador perguntou o preço, concordou com a quantia fixada e afirmou que pagaria depois do abate do gado.

Ouvindo a forma de pagamento proposta, o fazendeiro não concordou, exclamando com o sorriso de quem prega uma peça:

- Nada disso, "colega"! Nunca esqueça que “nóis” ricos não compramos fiado. Pagamos as compra no ato, em dinheiro vivo...

O suposto rico engoliu seco e desistiu da compra.

O pior é que o causo foi divulgado e passou a ser sempre lembrado em minha terra. Tal como fora mencionado no Bar de Chico Bina pelo marchante que gostava de café com aguardente.

 ...

Duvido que você não conheça um “Nóis Rico” em sua comunidade. Nos dias atuais é fácil identificá-los: eles estão desinibidos e não se acanham em se mostrar e agir como se fossem senhores da Casa Grande.
                               
            
Aracaju, 17 de junho de 2018.

Beto Déda

segunda-feira, 11 de junho de 2018


A MOSCA NO RETROPROJETOR.

Ao relembrar que foi em um mês de junho que comecei minha carreira de bancário, em Simão Dias, aproveito a oportunidade para ativar minha memória e repassar, aqui, para os colegas e amigos, causos alegres que ocorreram quando participei de diversos cursos e treinamentos realizados pelo banco.

No BNB trabalhei com muita dedicação e estudo. Participei de dezenas de cursos de especialização e seminários patrocinados pela Divisão de Treinamento (DITRE), que era chefiada pelo sempre lembrado Francisco Celestino de Melo e, depois, pelo companheiro José Luciano Braga.  Guardo boas lembranças deles.

Do Celestino tenho uma recordação especial e de muito humor, que aconteceu, em 1970, quando eu e o saudoso colega Sebastião Ferreira dos Santos (Tião), da Agência de Jequié, participávamos de um curso em Fortaleza. Estávamos conversando quando apareceu o Celestino.  

Com um sorriso de orelha a orelha, ele aproximou-se, pegou em meu braço e disse, apontando para Tião, que era de estatura menor que a dele:

 - Veja meu caro Déda, hoje para mim é um dia de excepcional felicidade, isto pelo prazer de cumprimentar um colega mais baixo que eu.  E não vou perder esta maravilhosa oportunidade...

Em seguida, estendendo a mão para Sebastião, exclamou em voz alta e rindo:

- Olá BAIXINHO, como vai você?

Em cena inesquecível, presenciei os dois colegas se abraçarem sorrindo, fazendo humor da própria estatura. Pequenos no tamanho, mas de corações gigantes.

De Luciano Braga, conservo em meus implacáveis arquivos uma correspondência oficial do BNB/DEPES-Ditre, de 29/10/1982, assinada por ele, agradecendo-me “pelo alto espírito profissional revelado” na elaboração do material a ser usado no Treinamento Programado à Distância (TPD) de Crédito Rural.

Mas vamos lembrar o caso do retroprojetor, que foi sui generis em atrapalhação e humor...

Balneário Iparama
Iparana - Caucaia - Fortaleza
Dos diversos cursos de especialização que eu participei, dois deles foram realizados em um balneário na praia de Iparana, município de Caucaia, que faz parte da região da grande Fortaleza. Parece-me que era um balneário do SESI, cedido ao BNB para realização de treinamentos. 

Lembro-me do Curso de Atualização em Crédito Rural, que foi realizado em 1973 naquele balneário. Nossa turma foi convidada – fugindo à grade principal do treinamento –  a  ouvir uma palestra a ser proferida por um militar, abordando o Sistema Nacional de Informações (SNI).


Estávamos sob o regime denominado pelos donos do poder como “Gloriosa Revolução de 64”, mas que era chamado nas conversas informais, à boca pequena, como ditadura ou golpe de 64.  E naquela época o temido sistema de informações funcionava em todos os órgãos federais, e o BNB não fugia à regra geral.

O palestrante era um militar reformado, ligado ao banco e que, disseram-me, era um homem simples, muito respeitado pelo pessoal da região.

O certo é que a tal palestra foi meio enfadonha e não despertou atenção aos ouvintes, não só pelo assunto abordado, mas talvez pela pouca experiência do palestrante na arte do magistério.

Aconteceu que, no decorrer da explanação do assunto, surgiu um fato interessante e engraçado que capturou do esquecimento aquela palestra, passando-a para área de inesquecível lembrança e que vale a pena relembrar. 

É que o militar, sem muita habilidade com retroprojetor, usava anotações em transparências que eram projetadas em uma tela. No decorre de sua fala, uma mosca pousou sobre o retroprojetor e a imagem foi projetada na tela. Ao perceber a intrusa, em vez de espantar a mosca que estava sobre aparelho de projeção, o palestrante começou a bater na tela com sua varinha (muitos militares gostavam de usar uma varinha), tentando fustigar a imagem do inseto (!!!)...
O palestrante fustigava a imagem da mosca na tela, enquanto o inseto permanecia imóvel sobre o retroprojetor.


Não é pouco dizer o murmúrio de gozação que se ouviu da turma. A situação vexatória demorou alguns segundos e só foi resolvida quando um senhor (ordenança do palestrante) espantou a mosca que estava sobre o retroprojetor.

O militar ficou meio pasmo, mas não perdeu a esportiva: encarou a turma e também riu da sua mancada. Talvez reconhecesse que realizar palestras e lidar com retroprojetor não era sua praia.

Certamente fora treinado no uso de outras máquinas...

Aracaju, 10 de junho de 2018.
Beto Déda

domingo, 3 de junho de 2018


Meu primeiro dia como bancário.


As lembranças que me acodem neste domingo se referem a fatos que ocorreram há 53 anos, quando eu era servidor do Estado de Sergipe e aluno da Faculdade de Ciências Econômicas.

No início de 1965 tomei conhecimento que o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) estava programando concurso em todo nordeste para ampliar seu quadro de funcionários.

Aqui em Sergipe as inscrições eram feitas na agência do BNB na cidade de Gararu. Eu e muitos outros estudantes fizemos a inscrição naquela localidade. Mas, diante do grande número de participantes, o concurso foi transferido para Aracaju. Realizamos as provas aqui, no prédio do Colégio Atheneu Sergipense. 

Fui aprovado entre os primeiros e imediatamente convocado para tomar posse na agência de Simão Dias, minha terra natal. Pedi exoneração do cargo que exercia no Governo do Estado (na ocasião eu era Oficial de Gabinete do Governador Celso Carvalho) e fui me tornar um benebeano (assim eram chamados os funcionários do BNB). 

Minha posse ocorreu no dia 16 de junho de 1965, ocasião em que os saudosos amigos José Carlos Macedo Déda (meu querido primo) e José Augusto Montalvão, que ali trabalhavam, me pregaram uma peça, ou melhor, um alegre trote para me recepcionarem. 

Mandaram-me perfilar como um recruta e depois, cerimoniosamente, disseram que eu devia assinar outra "importante" folha de presença. Peguei a caneta e, sem perceber o que ali estava escrito, assinei com indisfarçável alegria. Eles também rubricaram como se estivessem atestando minha presença. Em seguida, pronunciaram algumas palavras, em tom de discurso.

Não obstante a emoção do momento, o palavreado me pareceu estranho. Ao perceberem o movimento de minhas sobrancelhas, expressando perplexidade, sorriram bastante e esclareceram a gozação: mostraram-me a tal folha de presença, na qual se destacava no frontispício que se tratava de uma “Folha Suplementar do Setor Avacalhado”.


Ainda hoje conservo em meus arquivos o original desta folha de presença. E quando a vejo não consigo disfarçar o riso e a saudade daqueles colegas.

                                                        ...


Beto (de gravata) entrega placa em
homenagem a Montalvão pela aposentadoria.



O interessante é que, muitos anos depois, em outubro de 1987, na Agência Metro-Aracaju, em nome dos colegas, prestei uma homenagem ao amigo José Augusto Montalvão, no dia de sua aposentadoria. Foi uma cerimônia bonita, e eu tive a oportunidade de dizer algumas palavras, inclusive lembrando o dia em que ele e meu primo Zé Carlos Déda participaram de minha posse no Banco.  Uma coincidência formidável. Fui recepcionado por Montalvão no meu primeiro dia de trabalho e, muitos anos depois, o homenageei na sua despedida.

...


Mas, antes de concluir, resta ainda uma lembrança do meu primeiro dia como bancário. Na mesa do café da manhã, meu saudoso pai indagou-me como daria continuidade aos meus estudos. Tentei tranquilizá-lo e prometi que continuaria o curso de Ciências Econômicas. Informei que já tinha conversado com os professores e eles reconheceram que as faltas eram justificáveis; não seria motivo de reprovação. Eu teria que estudar os assuntos abordados em aula e participar das provas.
Passei a frequentar a faculdade apenas nas noites das sextas-feiras, quando me inteirava da matéria lecionada, assistia às aulas daquelas noites e participava das provas no final do mês.

Como não contávamos com as marinetes para Aracaju no período da tarde, então eu viajava nas sextas-feiras no caminhão do Seu Val, que transportava carne do sol para esta capital. Se não surgissem passageiros especiais, o Sr. Val permitia que eu viajasse na boleia do caminhão. Mas o normal era meu lugar na carroceria, sentado em cima da carne salgada. Ainda passei cerca de um ano e meio fazendo esse percurso de aventuras.

 Mas, não obstante o vigor de minha juventude, aquelas viagens me cansaram.  E para completar, o cheiro de carne do sol começou a me causar um enjoo tão desgraçado que não tive outro jeito: resolvi dar um tempo nas viagens do caminhão do açougueiro e tranquei minha matrícula na faculdade. 

 A verdade é que outros interesses também influenciaram minha decisão; entre eles os perfumes de inesquecíveis conterrâneas no passeio da Praça da Matriz. Daí então minhas sextas-feiras se tornaram imensamente felizes. 
  
Antes de encerrar esta narrativa, fico aqui a matutar com meus botões que certamente o leitor perguntará, com absoluta razão:

- Pera aí, cara! E a promessa que fizeste ao teu pai?

Então eu respondo que levei um longo tempo para cumprir. Com o passar dos anos, esqueci o desejo que tinha de cursar Engenharia na Escola Politécnica da Bahia e Ciências Econômicas aqui em Aracaju. No entanto, jamais olvidei a promessa que fiz ao meu pai e, também, nunca esqueci sua preferência pelo curso de Direito.
  
O fato é que, muitos anos depois, eu continuei os estudos e me formei como bacharel na Faculdade de Direito da UNIT e passei a exercer a advocacia, tal como meu pai e mestre me aconselhara. Pena é que a minha alegria não contou com sua presença, porque  muito tempo antes ele já tinha passado para a vida eterna.

Por razões óbvias, no caso que agora relembro não cabe qualquer justificativa para o prolongado tempo de cumprimento. Para mim ficou mais uma lição importante: promessa é dívida e deve ser paga com oportuna brevidade...

Aracaju, 03 de junho de 2018.
Beto Déda

sexta-feira, 25 de maio de 2018



Um abraço pra você...

Hoje estou festejando meu aniversário. Como sempre, sinto-me feliz em recordar, mais uma vez, a história que me foi contada por minha saudosa mãe. 

Dizia ela que minha vida começou em uma manhã chuvosa do dia 25 de maio de 1941, na Rua dos Ribeiros, em Simão Dias. Cheguei ao mundo parecendo que não respirava e não chorei ao tomar a primeira palmada na bunda. Contou-me, balançando-me no colo, que eu só despertei e comecei a chorar, apresentando os sinais de vida, depois que meu pai, aflito, bateu com um garfo em um prato fazendo zoada junto ao meu ouvido.

Já decorreram setenta e sete anos daquela data e, ao comemorar, abro o meu tesouro de riquezas intangíveis, formadas pelas lembranças de fatos e pessoas que, de uma forma ou outra, moldaram o meu cabedal. Percebo que ao caminhar pela estrada da vida, neste último ano, novas experiências surgiram, aumentando os teres e haveres deste meu tesouro, e que foram ocasionadas pela positiva atuação das pessoas que convivo hoje, que se aliam aos imortais ensinamentos de queridos e inesquecíveis personagens de outrora.



Foto de hoje, com o chapéu de meu neto cobrindo a careca.
Na comemoração de hoje, não penso e nem pretendo parecer mais novo, nem mais velho do que sou. Fico contente e feliz ao comemorar meus 77 anos. Sou o que sou. Continuo adorando minha família, querendo bem aos amigos e amigas, lembrando os queridos que já se foram para outra dimensão e fazendo as coisas que me agradam: cantar no banheiro, assistir a bons filmes, cuidar das plantas que cultivo no meu sítio e fazer meus armengues em minha mini oficina de marcenaria. Além disso, gosto de compartilhar meus sonhos e feitos, usando este computador para escrever e transmitir aos parentes e amigos virtuais.



De sábios instrutores e parentes aprendi que o número 77 tem significados importantes. Na numerologia o número apresenta características do equilíbrio, que correspondente ao bom senso, ao espírito de liberdade e a capacidade de buscar a evolução maior na direção da Luz. 

A idade que atinjo é formada pela duplicidade do dígito sete, que é o número da harmonia, considerado místico, porque está presente na filosofia e literatura sagrada desde antiguidade até os dias de hoje.

Espero e creio que no decorrer dos meus setenta e sete anos, que inicia hoje, estejam presentes em meu espírito a defesa da liberdade, o equilíbrio, o bom senso diante de opiniões divergentes e que continue acreditando que Deus é Amor.

No mais, inverto a situação comum nos dias de aniversário e, com riso de orelha a orelha, mando um abraço fraterno para meus amores, de ontem e de hoje: todos os meus queridos parentes e amigos.

E que a paz e a alegria estejam presentes no lar de todos nós.

ARACAJU, 25 DE MAIO DE 2018 (Dia do meu aniversário)

BETO DÉDA

segunda-feira, 21 de maio de 2018



UM TROTE INESQUECÍVEL. 





Carteira de Estudante de Economia
Na tarde desta segunda-feira, 21 e maio, eu estava procurando um documento em meus arquivos e deparei-me com uma antiga carteira de estudante. Foi como um toque em minha memória para relembrar um fato engraçado e importante de minha vida. 

No final da primeira metade dos anos sessenta eu trabalhava como redator da Secretaria de Imprensa do Governo de Sergipe e comecei a estudar na Faculdade de Ciências Econômicas, cujo prédio ficava na Praça Camerino, aqui em Aracaju. 


Prédio da antiga Faculdade de Ciências Econômicas
Praça Camerino - Aracaju - Foto Google Maps
Naquela época os jovens que passavam no vestibular eram submetidos a um rigoroso trote. 

Fiz o vestibular e, depois de alguns dias, fui até a Faculdade pra saber o resultado. Lá chegando, alguns veteranos que me conheciam – e de antemão sabiam que eu tinha sido aprovado – sugeriram à turma encarregada do trote que não me deixassem escapar. 


E eles realmente não me deixaram fugir. Cortaram minha cabeleira com máquina zero, rasgaram minha camisa e entre outras gozações, derramaram sobre minha cabeça um balde de água misturada com pigmento de  óxido de ferro, deixando todo meu corpo banhado de vermelho. A alegria dominou o pátio do prédio da Faculdade.


Terminada a fuzarca, os veteranos liberaram os calouros. Eu morava na casa dos queridos Haroldo/Maura, que ficava na Rua de Boquim, próxima à Faculdade. Fui até lá e bati no portão. Minha irmã Maura veio atender e tomou um susto danado. Vendo-me com a cabeça raspada e o corpo todo coberto de pigmento vermelho, pensou que era sangue e que eu tinha sido atropelado em doloroso acidente. 

Notando seu semblante de surpresa e agonia, apressei-me em avisá-la que estava tudo bem e que aquilo fora um trote dos estudantes por ter sido aprovado no vestibular. Mas ela, apavorada, não me ouvia. E trêmula, gritava para Haroldo me socorrer... 

O Haroldo apareceu e seguiu-se um grande bafafá em que todos nós falávamos ao mesmo tempo. 

Somente depois de alguns instantes de desespero é que eles cuidaram de observar meu estado cômico. Então tudo foi devidamente esclarecido e terminou em incontidas gargalhadas.

Ainda hoje relembrei pra eles este fato, e nos divertimos muito, lembrando a aflição que tiveram depois do meu alegre trote.

Aracaju, 21 de maio de 2018.

Beto Déda



terça-feira, 15 de maio de 2018


Sonhando com você...


Na tarde do último domingo, 13 de maio, sonhei novamente que eu e você ainda éramos jovens.

Estávamos na Praça da Matriz em nossa terra natal. Você passeava tranquilamente. Belíssima! Quando lhe avistei, aproximei-me e, furtivamente, beijei seu rosto com carinho. Então pedi para segurar sua mão. Por trás do rubor de sua face, senti que você aquiesceu.

Andamos de mãos dadas, ouvindo o badalar dos sinos da Igreja e a voz das Filhas de Maria cantando o hino em louvor a Nossa Senhora que, cercada de luz, desceu dos Céus e apareceu aos três pastorzinhos de Fátima. E a alegria tomou conta do meu coração...

No sonho, você desapareceu e voltou depois. Estávamos novamente juntos, sentados em cadeiras de aço que, embora separadas, nos uniam como por magia. Ali, admirávamos as flores do jardim da praça. Citávamos um para o outro os pensamentos selecionados de almanaques e folhinhas de calendários.  Eram frases de pensadores ilustres, com ditos que nos tocavam; nosso diálogo evocava o encanto do amor e a beleza da vida. E seu olhar me enfeitiçava...

Na suavidade do meu sonho, essas lembranças quase reais reapareceram e foram estimuladas pelo cântico do hino de Nossa Senhora de Fátima, na voz dos Arautos do Evangelho, reproduzido em um rádio da vizinhança.

Ao despertar, não obstante a alegria provocada pelo sonho, aos poucos fui tomado por uma sensação de saudade, dessas que me acontecem nas tardinhas dos dias de domingo. 

Aí então, disfarcei minha emoção e enxuguei as duas lágrimas que ousaram umedecer com gotas de saudade minha pálida face...

Aracaju, 14 de maio de 2018.
Beto Déda






terça-feira, 8 de maio de 2018


MICHAEL KOHLHAAS - UM BOM FILME, UMA HISTÓRIA DE LUTA E O PENSAMENTO DE  UM CONSAGRADO JURISTA.


Nos dias cinzentos em que o Brasil vive, tento fugir das notícias dos canais da “imprensa marrom” e procuro entreter meu pensamento assistindo a antigos e bons filmes.

Acontece, porém, que algumas vezes deparo-me com fitas que tratam de situações que transportam meus pensamentos para fatos tristes dos dias atuais em nosso país.

Cartaz do filme baseado na novela de Kleist
Um bom filme que assisti recentemente tem como título Michael Kohlhaas – Justiça e Honra. O roteiro é baseado na obra-prima da literatura alemã, escrita por Heinrich von Kleist, que narra a injustiça cometida contra Michael Kohlhaas, um vendedor de cavalos que, inconformado com a violação sofrida, decide dedicar sua vida à luta pela conquista do direito e de sua honra.
   
O filme tem a direção do francês Arnaud des Pallières e o ator principal é  o dinamarquês Mads Mikkelsen. 

Esse filme me proporcionou algumas lembranças. Entre elas a de um livro que meu pai mantinha sempre em sua mesa de trabalho: A Luta pelo Direito, do jurista alemão Rudolf von Ihering, consagrado como uma das maiores expressões da ciência jurídica do século XIX.  Trata-se de uma obra indispensável a todos que se interessam pela direito e  lutam contra as injustiças.

Não tenho em meus arquivos o exemplar usado por meu pai, mas – seguindo seu exemplo – também passei a ser leitor do jurista alemão e mantenho em estante próxima ao meu computador o texto integral do livro, em edição mais nova.

Pois bem, na terceira parte de “A Luta pelo Direito”, Ihering lembra da obra de Kleist e apresenta o exemplo formidável da luta de Michael Kohlhaas  que “assumiu perante o mundo o dever de, com todas as suas forças, buscar o desagravo pela ofensa de que foi vítima e proteger os concidadãos contra futuras ofensas
.

Do livro de Rudolf von Ihering transcrevo, aqui, importantes mensagens, já utilizadas por mim em petições judiciais e que, agora,  se ajustam ao que vemos nesse nosso Brasil, que luta para não se transformar em um BraZil:

“Sempre que o arbítrio e a ilegalidade possam erguer a cabeça sem rebuços nem constrangimento, teremos um indício seguro de que aqueles a quem incumbe a defesa do direito omitiram-se no cumprimento do dever.”

...


Nenhuma injustiça praticada pelo homem, por mais grave que seja, aproxima-se, pelo menos para o senso moral não corrompido, daquela que a autoridade investida em suas funções pela graça de Deus comete ao violar o direito. Aquilo que nossa língua designa de forma tão adequada como o assassínio judiciário representa o pecado mortal do direito. O guardião da lei transforma-se em assassino. Seu ato equivale ao do médico que envenena o paciente, ao tutor que estrangula o pupilo.
...


“O fim do direito é a paz, o meio de que serve para consegui-lo é a luta. Enquanto o direito estiver sujeito às ameaças da injustiça – e isso perdurará enquanto o mundo for mundo – ele não poderá prescindir da luta. A vida do direito é a luta: luta dos povos, dos governos, das classes sociais, dos indivíduos.
...

PS. Qualquer semelhança com o que acontece no meio de nossa justiça é mera coincidência. Será?

ARACAJU, 08/05/2018

BETO DÉDA