Uma
homenagem a Castro Alves.
Nesta primeira semana de julho, mês de Senhora Santana, minha memória foi
direcionada ao meu querido e saudoso irmão, Artur Oscar de Oliveira
Déda. E a lembrança ocorreu ao examinar meus implacáveis arquivos
e reler a Revista da Faculdade de Direito da Universidade Federal de
Sergipe, edição número 15, ano 1971. Nessa revista, às páginas
173/180, foi publicado o texto da palestra pronunciada por Artur
Oscar, no Auditório da Faculdade de Direito, em cerimônia
comemorativa ao centenário da morte do poeta Castro Alves.
Naquela
época , o nome de simãodienses abrilhantavam o corpo docente de
nossa Faculdade de Direito. Lá estavam o Dr. Belmiro Silveira Gois,
que lecionava Direito Civil I; e Artur Oscar, que ensinava Direito
Civil II. Na cadeira de Direito Internacional Público estava o Dr.
Joviniano de Carvalho Neto, filho do renomado jurista simãodiense
Dr. Carvalho Neto, que fora professor emérito daquela Faculdade.
Segundo
divulga o citado exemplar da Revista da UFS, a conferência
proferida pelo Prof. Artur Oscar “contou com a presença de
Professores e grande assistência de alunos”. O palestrante
apresentou um estudo sobre o poeta baiano Castro Alves, evidenciando
seu ideal libertário e sua luta contra a escravidão, com poemas que
tocavam a alma do povo, destacando-se: “Navio Negreiro” e “Vozes
d’África”.
Não
fui aluno escolar ou universitário do meu saudoso irmão, embora
tenha feito o curso de Direito, mas ele e meu pai foram meus
excepcionais mestres. Como eu era curioso, ficava boquiaberto
acompanhando os bate-papos culturais entre eles, e fazia perguntas e
recebia lições formidáveis, com orientações para ler bons
livros. Quando eu era jovem, não tínhamos televisão, nem telefones
celulares, mas tínhamos todo o tempo disponível para leitura, e
aproveitei muito isto, lendo livros clássicos da pequena biblioteca
de meu pai. Foi por orientação deles que me interessei pela poesia
de Castro Alves. E decorei estrofes de poemas que me impressionaram e
algumas delas são citadas na palestra de Artur.
Quando
meu pai (Carvalho Déda) publicou os livros “Simão Dias –
fragmentos de sua história” e “Brefácias e Burundangas
do Folclore Sergipano”, presenteei exemplares a colegas do Banco
do Nordeste e, invariavelmente, reproduzia na dedicatória o seguinte
trecho pinçado de uma estrofe tirada do poema “O Livro e a
América”, em que o magistral Castro Alves dedicava ao
Grêmio Literário”,
“Oh! Bendito o que semeia
Livros… livros à mão cheia…
E
manda o povo pensar!
O
livro caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É
chuva – que faz o mar.”
Do poema “Navio Negreiros”, nunca esqueci a estrofe em que o poeta
percebe a bandeira que “imprudente na gávea tripudiava”,
transformando-se em manto impuro, para cobrir tanta infâmia e
covardia. Eis a estrofe:
“ Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E
promessas divinas da esperança…
Tu
que, da liberdade após a guerra
Foste
hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…”
Sobre esta estrofe, fico a pensar o que escreveria o grande poeta, se
vivesse conosco na atualidade, e notasse que o nosso estandarte fora
indignamente raptado para transformar-se em manto de extremistas,
que estimulam o ódio e o preconceito.
...
Acredito
que as recordações que tive não sugiram do nada. É possível que tenha sido impulsionado pelo
inconsciente coletivo ou a sincronicidade, tudo despertado pela
proximidade da data em que o “Poeta dos Escravos”, em 06 de julho de 1871, com apenas 24
anos de vida produtiva, passou para o mundo
celestial. No próximo domingo perfaz
153 anos que nos deixou.
Pensando
também em homenagear o
grande poeta do Brasil,
transcrevo, a seguir, o texto escrito por meu saudoso irmão Artur
Oscar, e que serviu para sua
palestra em solenidade
realizada na UFS, em julho de 1971:
E para encerrar, expresso aqui minha alegria em relembrar esses acontecimentos para homenagear um baiano moço e genial, que usando a poesia, lutou bravamente contra a escravidão e na defesa da liberdade. Viva Castro Alves!
Aracaju,
04/07/2025
Beto
Déda