terça-feira, 9 de março de 2021

 

O cuscuz, o pica-pau e as histórias penosas de tio Paulo.

 

Nesta semana, em postagens via internet, duas pessoas fizeram-me relembrar do tio Paulo Déda.

Uma amiga, nordestina convicta, informou que gostava muito de saborear um bom cuscuz. E meu sobrinho João Déda apresentou uma foto de um pica-pau que estava em uma árvore nos arredores de sua casa.

Estas simples informações despertaram-me momentos de bom humor, quando eu escutava as histórias penosas contadas com muito estilo por meu saudoso tio. 

No final dos anos cinquenta, ainda estudante, fui filar um café na casa de tio Paulo. Estava saboreando biscoitos tipos “americanas” e “cabeça-de-frade”, quando tia Francisquinha apareceu com um apetitoso cuscuz.



Cuscuz quenos deixa com água na boca...


Então, embora sempre meio reservado, tentei disfarçar minha timidez, exclamando:

-Obá! Um gostoso cuscuz de milho...

Mal terminei de falar, alguém complementou:

- Ah! ah!... Se é cuscuz, não precisa dizer que é de milho... E a risada ecoou na sala.

Baixei a cabeça, no desespero de vergonha. Meu tio notou e imediatamente me socorreu, dizendo para o gaiato, mais ou menos o seguinte:

- Ei, madeirinha, o Beto está certo. O cuscuz não é só de milho. Também existe o cuscuz de arroz, que é uma delícia, muito apreciado em nossa Simão Dias. Você é de lá, devia saber!

A intervenção do tio me aliviou e lembrei o bom cuscuz de arroz feito por minha tia Nice – eu ajudava a moer o arroz em um pilão que até hoje ainda conservo.

Depois do café, tio Paulo sentou em uma cadeira de balanço, para acender seu charuto “Cesário”, e chamou-me para ficar ao seu lado. Enquanto enrolava entre os dedos o papel que envolvia o charuto, me contou dois fatos interessantes, envolvendo cuscuz e pica-pau. Repasso pra vocês.

Em nossa terra vivia um senhor muito respeitoso, pretenso intelectual, que tinha um cuidado enorme para não pronunciar expressões chulas. Certo dia ele foi convidado a jantar na casa de um honorável amigo. A mesa estava posta com variadas iguarias, entre as quais se destacava um delicioso cuscuz de milho, que ficara na ponta da mesa, longe dos curtos braços do respeitoso senhor. Então, ele resolveu pedir que lhe passassem o prato, usando um linguajar cuidadoso que não ferisse as ouças dos comensais. 

Selecionando cuidadosamente cada palavra, ele fez o pedido ao moço que estava próximo ao cuscuz:

- Garoto, por gentileza, passe-me esse prato de bundas-bundas...

No meio dos risos contidos, um idoso ficou levemente sufocado e, para seu alívio, expeliu um pouco do cuscuz que mastigava, borrifando o rosto do convidado.

Meu tio ria de sua história e acrescentava que aquele senhor tinha uma filha que fora muito bem educada, seguindo os preceitos do pai, especialmente no que diz respeito ao uso de um linguajar “escorreito”, evitando termos vulgares que sugerissem as partes pudentes do corpo humano.

O que se sabe é que em sala de aula, a moça foi ler um texto do Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato, e aplicou seu aprendizado. Naquele dia, seguindo orientação de seu respeitoso pai, alterou o título do livro, evitando pronunciar um palavrão.

Para ela o sítio era do “Pinica”- Pau Amarelo.

 

Aracaju, 09/03/2021

BETO DÉDA


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

 

Simão Dias na poesia de Marcelo Déda.

 

Sempre estou a sonhar com meu saudoso sobrinho Marcelo Déda. Foi o que aconteceu na noite deste sábado. Então, como que impulsionado, logo pela manhã reli o seu livro Improvável Poética, despertando velhas lembranças de nossa boa terra.

Certamente por saber o quanto me alegra relembrar coisas de Simão Dias, ele me dedica um poema que fala do Cine Brasil, das brincadeiras da meninada da época e de trechos de algumas ruas da cidade. E registra como os guris tomavam como tema de seus divertimentos os personagens de filmes do velho oeste americano, no caso o General Custer, que chefiava o sétimo regimento da cavalaria americana, e foi derrotado pelos índios liderados por Touro Sentado e Cavalo Louco, na batalha de Little Bighorn.

Embora tenha escrito em janeiro de 2013, ele lembra a antiga Rua do Coité, atual Rua Getúlio Vargas, trecho que vai do prédio que era o Cine Brasil até a entrada da Rua dos Ribeiros. Ali, logo à direita, passa por uma ruela e por fim, chegava-se à Praça de São João, que na época era arborizada com frondosos tamarindeiros, oitizeiros e um grande pé de eucalipto real.


 

Mesmo que pareçam enfadonhas, as lembranças que ainda vagam em minha mente me encantam e, talvez, despertem a curiosidade de alguém; de modo especial aos que viveram na boa terra nos velhos tempos.

Então, rasteio minha memória em gratas lembranças do tempo que eu era um garoto curioso e jornaleiro, entregando o jornal “A Semana” pela velha Rua do Coité (esta rua era assim denominada porque dava acesso à cidade baiana que antigamente tinha aquele nome e hoje é Paripiranga.

Assim é que fiz um passeio mental por aquela antiga rua, no trecho mencionado no poema de Marcelo, parando calmamente em frente a cada prédio. Um passeio nostálgico que, para mim, faz reviver locais e gratas pessoas que tivemos a alegria de conhecer.

E começo pelo prédio do antigo Cine Brasil, que foi inaugurado em 1953, por Durval Conceição, o primeiro proprietário. Depois, foi vendido para Seu Antônio Borges. Como era comum naquela época, era um prédio de espetáculos, que funcionava como cinema, teatro e também era o local de eventos culturais e reuniões solenes de formaturas.  Foi ali que aconteceu a cerimônia de conclusão do meu curso primário, em 1956. Com muita alegria recebi o diploma das mãos da saudosa Professora Rita Guimarães, que foi nossa mestra do curso no Grupo Escolar Fausto Cardoso. A Prof.ª Rita era esposa de Abel Jacob, que foi prefeito do município e Deputado Estadual.

Em frente ao Cine Brasil tinha o prédio do Lactário, que prestava assistência médica às parturientes. Em seguida a casa que morava o Mestre Bonifácio e também era a sede da filarmônica Lira Santana (anos depois, a casa foi reformada e passou ser o Fórum da cidade). No prédio vizinho funcionou o Círculo Operário – local de reunião da antiga União Beneficente Operária de Simão Dias – e também onde se recepcionavam os times de futebol de outras cidades que participavam de jogos no gramado José Barreto.

No mesmo trecho, estava a sede do Serviço de Alto-falantes TUPY, que era o sucesso da época, com aparelhos de transmissão nos principais pontos da cidade, com programas transmitidos por Floriano Nascimento, Demerval Guerra e Almir Fontes. Foi um importante meio de comunicação de nossa terra.

E lembro-me bem, da casa Seu Fenelon Góes, onde a Prof.ª  Silvina Prata Góes lecionava banca escolar e que ali estudei  e muito aprendi. Lembro-me que, entre outros, eram meus colegas: Dênio, filho de Dr. Belmiro, Zequinha, filho de Seu Joãozinho da Padaria, e João Barbosa, filho de Seu Josino Barbosa.

As recordações afloram e revejo com saudade as famílias que ali residiam, e relaciono as que agora me aparecem nas minhas lembranças daquela época:

O Dr. Belmiro Silveira Góes, ilustre simãodiense que foi Juiz de Direito da Comarca e depois desembargador do Tribunal de Justiça de Sergipe. Merecidamente, o fórum do Tribunal Regional Eleitoral da cidade, em sua homenagem, tem o seu nome.

Prof.ª Matilde Dortas, foi diretora do Grupo Escolar Fausto Cardoso na época que conclui o curso primário.

Benedito Macedo Freitas, pessoa muito estimada na cidade, quer como servidor do Posto de Saúde ou como desportista e defensor da Filarmônica Lira Santana.

Dona Tude, costureira, mãe de Marlene e Manoel, pessoa alegre e inesquecível, que nas noites de lua cheia, reunia o pessoal amigo e tocava maravilhosamente seu banjo. Parece até que estou ouvindo sua inconfundível gargalhada que se propagava por toda a rua.

E sigo com as lembranças, como se estivesse entregando jornal.

Pedro Gomes, que tinha um automóvel de aluguel; Antônio Borges,  dono cinema; Domingos Santos, empresário e genro de Seu Janjão; as irmãs Altas, que eram costureiras; Gênis Gomes, chefe do posto de Fomento Agrícola;  Juca Baeta, que tinha uma fábrica de calçados com o nome da filha Elenalda;  Antônio Gomes, funcionário do fisco estadual; Cícero Guerra, comerciante dono da Loja Três Américas; tio Paulo Déda,  dos calçados Sidon, de quem tenho gratas, saudosas e hilárias histórias penosas; Antônio Mascarenhas, do Cartório, Messias Fonseca, aposentado dos Correios; as irmãs Rosália e Néia, que apresentavam bonitos presépios no mês de dezembro  e faziam excelente licor de jenipapo; as irmãs de Marcos Ferreira. E finalizando o trecho, as casas cujos oitões davam acesso à Rua do Ribeiro: João Cândido, que fazia um bom mungunzá, arroz doce e mingau de puba, concorrendo no mesmo comércio de Dona Bigio;  João Coruja, o funileiro; João Broco, com sua bodega que me vendia as antigas lousas e lápis de pedra para escritas; e  Seu Lourival, parente de Seu Pierre e que tinha sítio de cocos na Barra dos Coqueiros.

E seguindo o roteiro da poesia, saímos da Rua do Coité e entramos na pequena travessa em que ficava o oitão do bangalô em frente à casa de Seu Pierre, que no quintal tinha um pé de acácias que botava cachos de flores anunciando a época das festas de fim de ano.

E por fim, a graciosa Praça de São João, com muitos tamarindeiros, oitizeiros e um grande eucalipto, que ficava quase em frente às residências de Zefinha de Zeca de Quincas e de dona Maria de Pedro Costa, que fazia deliciosos bolos.

São lembranças despertadas pelo sonho que tive sábado e a leitura da poesia de Marcelo, que conviveu comigo em Simão Dias em outros tempos (ele nasceu em 1960), mas sabia do meu gosto pelos fatos antigos que repetidas vezes narrava para ele.

No último poema do livro, com o título Tersites, acredito que Marcelo fez uma despedida de nossa terra, de nosso Sergipe, quando diz:

“Deixei os meus sertões

e vim.

Deixei-os? Não!

Carrego-os em mim:

a sua infinita aridez

seus desvarios de luz

sua espinhosa essência

sua deferência sutil

sua obediência astuta

suas feras ocultas

suas pedras impunes

que ferem as patas dos cavalos

e mordem a carne dos homens.”

...

 Tempo bom de lembrar.  Por isso, mais uma vez, resta-me fazer uma prece de agradecimento ao querido e inesquecível sobrinho.

Aracaju, 07/02/2021

Beto Déda

domingo, 27 de dezembro de 2020

 

Nadando no poço do Caiçá, em:

“um passado diverso e melhor”.

 

 

O livro “O queijo e os vermes” é um best-seller, no qual o historiador Carlo Ginzburg narra a perseguição sofrida por um moleiro italiano, conhecido como Menocchio, por causa de sua incomum cosmogonia, em processo movido pela Inquisição no século XVI. Ginzburg se aprofunda no estudo do processo, descobre e faz comparações das leituras e interpretações do perseguido moleiro, de modo a entender melhor o que se pensava naquela época, ou seja, o alcance histórico que aquele acontecimento descortinava.


Estive relendo o citado livro e, mais uma vez, deparei-me com uma interessante afirmação do citado historiador ao comentar as ideias do Menocchio, que contestava a Igreja rica e corrupta do seu tempo com a Igreja primitiva que, na visão dele, era pobre e pura. Afirma Ginzburg:


“Apenas nos períodos de aguda transformação social emerge a imagem, em geral mítica, de um passado diverso e melhor – um modelo de perfeição, diante do qual o presente aparece como declínio e degeneração”.


Pois bem. Nesta época em que vivemos dias de isolamento, diante dos efeitos de uma mortal pandemia, só nos descortina, inexoravelmente, um horizonte nebuloso, conforme previsão de respeitáveis médicos. E esta situação se agrava para os idosos – particularmente para mim,diante dos benditos quase oitenta anos alcançados – de modo que me contento com o encanto da visão que tenho do passado, em consonância com o que diz o historiador italiano.


Isto naturalmente acontece quando volto meus pensamentos ao tempo de criança, na primeira metade dos anos 50, vivendo nos arredores da Rua dos Ribeiros, em Simão Dias, em que aproveitava, com vigor, cada momento de encanto que a vida nos oferecia.


E repasso, aqui, as lembranças que tive nesta manhã ensolarada, aqui no Lago Dourado.


Recordo que nas manhãs quentes dos domingos sempre aconteciam as peladas na Praça de São João, usando como bola uma bexiga de boi inflada. Depois do jogo, íamos nos refrescar no poço do riacho Caiçá, perto do Matadouro, em uma baixada em frente ao sítio de seu Manoel do Curral.  A correnteza era límpida, transparente, dando a falsa ideia de que o poço era raso; fato que surpreendia os novatos que não sabiam nadar e eram socorridos pela meninada já escolada.




Ao me lembrar do banho no Caiçá, dispara em minha memória outra lembrança. Naquele tempo, o comum para as crianças era o uso de calças curtas, com suspensórios. A única calça comprida que eu tinha era a da farda do Grupo Escolar Fausto Cardoso. E era um pouco puída no fundilho, gasta de tanto descer deslizando no corrimão cimentado da escada do Grupo. 



Eu ansiava por usar calças compridas e algumas vezes, furtivamente, usava a calça da farda mesmo sem ir à escola. Um dia, depois da brincadeira de bola de gude, fui com a turma nadar. Depois do banho no refrescante poço, quando fui vestir a calça  foi que percebi que tinham dado nós nas pernas da farda e a umedeceram com água do Caicá, ou seja, aplicaram a famosa jabá, como era conhecida entre os nadadores daquela época. O pior é que tive que usar os dentes para desatar o nó de cada perna da calça. Enquanto desatava, babava e espumava de raiva, a molecada gritava ao longe:

“Então, Beto, a jabá tá doce ou salgada?”

Arre égua! Era salgada e tinha o ranço da água salobra do Caiçá!

Naquele dia fiquei fulo da vida, mas logo depois passamos a rir do acontecido e fomos comprar mangas no sítio do seu Manoel do Curral. Ele era um senhor sisudo, não tinha tempo para prosa com a meninada e nos causava certo receio: o pomar dele era intocável! Em outros sítios, cajus e mangas não eram comprados. Passávamos pelo meio do meio do arame farpado das cercas e pegávamos os frutos.  Em troca, as camisas eram marcadas com o rasgo provocado pelas farpas do arame. E os rasgos tinham a forma de um “L”, que a garotada interpretava como uma marca feita pela caipora, para sinalizar os meninos que se apropriavam de frutas de sítios que não lhes pertenciam.


Estas lembranças não têm preço... Não importa que me chamem de saudosista inveterado. E daí? Nesta época de infortúnios – de todos os tipos – temos que nos isolar. E o refrigério é reviver o passado, lembrando quando desfrutávamos uma infância e juventude com muita energia, força e felicidade.


É isso...  E a vida continua!


Aracaju, 27/12/2020

BETO DÉDA


sábado, 12 de dezembro de 2020

 

Os novos historiadores de Simão Dias.

 


Amanda e Vanessa
Nesta semana, ao reler o livro “O Queijo e os Vermes” do escritor italiano Carlo Ginzburg, conhecido como o pai da micro história, lembrei-me das jovens e queridas professoras Amanda Santos e Vanessa Nascimento. Elas estiveram me visitando há cerca de um ano para colherem informações sobre acontecimentos de nossa região. Depois de conhecerem um pouco dos meus implacáveis arquivos, passaram a observar os livros que tenho no escritório. Foi então que se detiveram na estante que guardo livros de autores estrangeiros. Recordo-me de suas feições alegres quando identificaram os que faziam parte de suas leituras no curso de Mestrado na Universidade Federal de Sergipe: dentro outros, os de Carlo Ginzburg e de Michel Foucault.


Fiquei feliz em notar que jovens de minha terra estão estudando, lendo e analisando acontecimentos históricos. E melhor ainda, fazem isto com cuidado, perscrutando fatos e registros que embasem seus estudos e trabalhos acadêmicos.


Louvo aqui essa juventude e de modo especial àqueles que nos honraram com suas visitas e da boa conversa que tivemos sobre fatos passados que aconteceram em Simão Dias e em Paripiranga. Em outras oportunidades, além de Amanda e Vanessa, também estiveram nos visitando as dedicadas historiadoras: Rose Oliveira, Vânia Souza, Ana Maria Ferreira Oliveira, Verônica Andrade, Edjan Alencar, Franciele Alves, Adilma Silva e a querida sobrinha e jornalista Yasmin Barreto Déda Chagas.  De igual forma tive a honra de receber o Prof. Jorge Bastos, que em breve estará lançando um livro sobre a História de Simão Dias.

E ao me lembrar dessa inteligente turma, com imensa alegria tomei conhecimento que minha querida e jovem amiga, Professora Amanda Santos, depois de concluir o curso de Mestrado na Universidade Federal de Sergipe, já foi classificada para cursar o Doutorado na Universidade Federal da Bahia. Não foi surpresa. Ela é uma guerreira e estudiosa nota 10 que, com inteligência, usa como arma os livros e a dedicação ao estudo de História. Amanda não descansa e, sempre ativa, participa, via internet, de conclaves em diversas Universidades brasileiras, apresentando trabalhos que evidenciam fatos históricos de nossa terra.


A nova  doutoranda Amanda Santos

Um abraço para os novos historiadores de Simão Dias e, de modo especial, à querida Amanda Santos.


Aracaju, 12/12/2020

Beto Déda

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

DATAS  INESQUECÍVEIS

 

No início deste mês de dezembro reverenciamos  dois queridos e saudosos familiares: José de Carvalho Déda e Marcelo Déda Chagas.


Na data de hoje, primeiro de dezembro, lembramos o dia do nascimento de José de Carvalho Déda – conhecido como Zeca Déda, meu pai e nosso grande mestre e orientador – que nasceu em 01/12/1898.

 

Amanhã, dois de dezembro, é dia de lembranças e orações pelo também querido Marcelo Déda, meu sobrinho, que há sete anos nos deixou.


Foram homens que se destacaram pelo caráter, dignidade e na luta em defesa da justiça e dos menos favorecidos.


Com saudades e sem esquecê-los, estamos orando por eles.


E lembrando os dois, repasso o que disse Marcelo sobre o avô em discurso de posse como Governador do Estado de Sergipe, em 1º de janeiro de 2007:


   “José de Carvalho Déda, Zeca Déda, autodidata, rábula, deputado estadual constituinte em quarenta e sete, deputado estadual por três mandatos, jornalista e folclorista. Era, no prosear roseano do grande mineiro, de uma raça de homens que o senhor não mais vê, mas eu vi ainda. Ele tinha conspeito, esse neologismo criado por Guimarães Rosa. Conspeito, consideração e peito, ele tinha um conspeito tão forte que perto dele até o doutor, o padre e o rico se compunham. Dele carrego o legado ou o carma da minha vocação política.

 

Amanhã será celebrada uma missa virtual em sufrágio aos sete anos da partida do querido Marcelo Déda deste para outro plano.


 Segue o Convite:

 



 


Aracaju, 01/12/2020

Beto Déda



quarta-feira, 30 de setembro de 2020

A imensa saudade de “IOIÓ”

 

Na última quinta-feira de setembro, sentido imensa saudade, minhas lágrimas fluíram dos olhos, encharcando minha quase octogenária face. Naquele dia, partiu para o paraíso a minha bem-aventurada irmã Nancy, que carinhosamente chamávamos de Ioió.

Amenizei minha dor ao narrar para meus queridos sobrinhos momentos felizes que compartilhei com minha inesquecível irmã. A sua contagiante alegria, o otimismo e a bondade expressa em constante solidariedade que nos protegia sempre.  

Conservo em minha mente uma variedade de fatos marcantes que me encantam desde o tempo que eu era apenas um garotinho e ela já era minha protetora (a diferença de idade era de, aproximadamente, 12 anos). 

Lembro-me como se fosse hoje, o tempo que frequentei o curso infantil nas Escolas Reunidas Augusto Maynard, cujo prédio ficava na Rua Cônego Andrade, no trecho entre a padaria de Gumercindo e a casa do Senhor Nanô, pai de Betinho da Concord, quase em frente da casa que ela passou a residir, anos depois, quando se casou com Filadelfo.

Nancy era professora daquela escola e me protegia. Recordo-me de minha farda do curso infantil: camisa e calça curta de um tecido em xadrez com  listas vermelhas, seguras por suspensórios.  Qualquer perturbação que eu sentia, procurava arrimo em seus braços, exclamando em gritos estridentes: “Ioió! Ioió!”.

Naquele tempo, chamávamos Nancy de “Ioió”, que correspondia a uma corruptela do sobrenome Accioly. O nome de solteira dela era Nancy Accioly Déda. O Accioly vem de nossos ancestrais maternos que moravam no engenho Vazaringui, situado no município de Riachuelo. Nossa avó chamava-se Adele Accioly Oliveira e minha mãe era Maria Accioly de Oliveira, que repassou o sobrenome Accioly para nossa querida Nancy.

Benditas e sempre lembradas Accioly! Eu as homenageei, nomeando meus filhos Carla e Bruno e também minha neta Marina com o sobrenome Aciole (sem o “y” e o duplo “c”, igual ao que escrevi na minha primeira composição tipográfica – ver foto a seguir).

Minha primeira composição tipográfica no jornal A Semana, edição de 29.08.53 (Ao fazer a composição não localizei, nas caixas de letras de chumbo, o “Y” que deveria usar nas palavras Nancy e Accioly. E o revisor não viu).


Pois bem. Ouvíamos minha mãe chamar Nancy de Accioly e, pela lei do menor esforço, todos passamos a chamá-la de Ioió.

O interessante é que eu tinha um colega nas Escolas Reunidas, conhecido como João Bedefor, que fazia gozação de meus gritos chamando por minha irmã. Muito tempo depois, já rapazes, sempre que me encontrava, ele não perdia a oportunidade de perguntar sorrindo:

- “Já pediu, hoje, a ajuda da Profª. Ioió?”...

Então, fazendo de conta que a pergunta do colega e amigo João fosse feita agora, responderia:

 - “Pedi ajuda, sim!”.

E, como se conversasse presentemente, peço a minha saudosa Ioió que nos ajude – a mim e aos meus queridos sobrinhos – a suportar a dor de sua ausência física.

O certo é que amenizei minha saudade, cantando baixinho e comovido –  quase em murmúrio – os versos da canção Nancy”, de Bruno Arelli e Luiz Lacerda, muito em voga nos velhos tempos, interpretada por Carlos Galhardo:                

 “Somente poderia

A musa traduzir

 O nome que é poesia, Nancy”

 

Aracaju, 30 de setembro de 2020.

BETO DÉDA 

 



quarta-feira, 2 de setembro de 2020

 

RECORDAÇÕES DE MEU SAUDOSO PAI.

 

Nas primeiras horas da madrugada desta quarta-feira, dia 02 de setembro, surgiram lembranças de um dia inesquecível em minha vida. Não gosto de lembranças tristes, mas não posso esquecer os últimos dias de vida do meu saudoso pai, José de Carvalho Déda. Foi justamente há 52 anos, no alvorecer do dia 02 de setembro de 1968, que ele foi vítima de um enfarte fulminante e passou desta para outras paragens.

 

Lembro-me a amargura que me causou aquele desenlace. Eu tinha um convívio muito apegado ao meu pai. Desde garoto, com 12 anos de idade, com ele trabalhei no jornal “A Semana”.  Ele foi meu grande mestre e herói, orientando-me com exemplos formidáveis de sua vida de lutas.

 

Naquela triste semana, com o coração em prantos, cuidei da edição do jornal, com ampla reportagem sobre seu súbito falecimento. Não esqueço que, ao entrar na sala de redação, lá encontrei sobre sua mesa de trabalho o editorial e a xilogravura que ele preparara no domingo pela manhã, e que publiquei na edição que noticiou sua inesperada morte.

 

Passados tantos anos daqueles momentos tristes, continuo a lembrar e sonhar sempre  com ele, que continua vivo em minhas lembranças. É o meu herói imortal.

 

Recentemente, no final do mês de agosto, lembrei-me dele ao assistir na Televisão uma reportagem sobre Hiroshima, cidade japonesa que foi arrasada em 1945 por uma bomba atômica lançada pelos Estados Unidos.

 

A lembrança me ocorreu porque meu pai escreveu, em 1956, um artigo sobre aquele impiedoso bombardeio, com o título “Promessa de Caboclo”, publicado no jornal “Correio de Aracaju”, em 30/05/1956.

 

Para os que gostam de uma boa leitura, reproduzo abaixo aquele artigo, no qual meu pai descreve o problema da bomba atômica, comenta, com ironia, a artimanha dos americanos ao se aproveitarem do minério brasileiro e, a propósito, narra de modo chistoso uma historieta de nosso folclore. Vale a pena ler:

 

“A PROMESSA DO CABOCLO

 Escrito por CARVALHO DÉDA, em 30/05/1956

Há cerca de onze anos, numa manhã formosa de céu límpido, três aviões americanos sobrevoavam à grande altura, a cidade japonesa de Hiroshima.

Coisa trivial naqueles tempos de guerra. Aos olhos dos habitantes da cidade sobrevoada, parecia que aquela pequena esquadrilha realizava apenas um voo de reconhecimento. Mas não foi assim. Em dado momento, um estrondo infernal abalou toda a região, e um clarão intenso, ofuscante, trágico e diabólico iluminou a cidade de ponta a ponta. E num abrir e fechar de olhos Hiroshima ficou reduzida a uma cidade arrasada em cujo solo 250 mil corpos humanos jaziam completamente carbonizados.

O mundo tremeu apavorado. Naquela hora tremenda a era atômica atingia sua plenitude.

Não havia ainda se sumido o último eco da terrível explosão e as cúpulas das nações já se empenhavam no descobrimento do segredo atômico. Souberam que a "peste" era fabricada com monazita e sais de tório. Quem possuía um pouquinho daqueles fabulosos metais atômicos, tomava suas imediatas cautelas, guardando-as à sete chaves. Somente o Brasil, displicente, ingênuo e folgazão, continuava dormindo a sono solto e de pés espalhados nas coloridas praias de Guarapari, em cima das imensas reservas de matéria atômica!

Aquelas areias coloridas serviam para enfeitar as nossas praias e, quando muito para a fabricação dos incandescentes véus das petromax e para fazer pedras de isqueiro. Os americanos quiseram comprar nossas areias. Matutamos: — Pra quê?!... E chegamos a uma conclusão ingênua: — Bons sujeitos, estes americanos! Não tendo mais que fazer com tanto dinheiro, querem nos proteger comprando simples areias!   Pois, areia neles!...

Sucede que os bons sujeitos quiseram negócio seguro, e exigiram o preto no branco. — Seguro morreu de velho.

Firmou-se o acordo e o Brasil passou a vender suas reservas de monazita a preço de dez reis de mel coado. Mas eram favas contadas e o Brasil continuava sendo o país da fartura...

Tudo corria bem, até que um dia alguém botou a boca no mundo. Aquele acordo não podia prevalecer por mais tempo. O cumprimento da promessa de venda importava na saída, para começo de conversa, de 24 toneladas de monazita, quase de mão beijada! Matéria prima para a fabricação de bombas atômicas. 24 mil toneladas! E a bomba de Hiroshima pesava apenas 230 gramas!

E foi um bê-rê-rê dos diabos. Porcos na roça do Governo. Abriram-se os debates no Congresso e na imprensa. De um lado os que não se conformavam com o cumprimento da promessa. Ora bolas! Promessa só de Cristo!...

De outro lado os que se batem pelo cumprimento da palavra empenhada. — O boi pela ponta e o homem pela palavra... Promessa é dívida!...

E chegamos diante de um dilema: não pagar a promessa e fazer a palavra do Brasil desacreditada como palavra do cigano, ou mantê-la a todo custo, doa a quem doer.

 

xxx

 

Aí estão duas histórias. A triste, da Hiroshima arrasada com 250 gramas de droga, e a velha história do brasileiro que só fecha a porta depois de roubado. Mas, como história puxa história e conversa puxa conversa, vou contar uma historieta do nosso folclore:

Conta-se que um caboclo, precisando de chuva para o seu roçado, fez uma promessa ao santo da sua devoção. Daria ao santo o preço da venda da sua vaca de leite, se chovesse no seu roçado. Feita a promessa com todos os efes e erres da fé nordestina, a chuva caiu mesmo no roçado.

Agora, o que preocupava o caboclo era o pagamento da pesada promessa. Fora realmente insensato, prometendo tanto. Sua vaca, vendida pelo barato da época, valia 500 mil reis! Mas, promessa é dívida...

O caboclo matutou, coçou a barbicha, cuspia entre os dentes, pigarreou e resolveu pagar a promessa. Anunciou a venda da vaca. Espalhou aos quatro ventos que venderia a vaca pelo preço irrisório de 2 mil reis. Mas havia uma condição: quem comprasse a vaca era obrigado a comprar também um galo velho. Vaca e galo. E tabelou os preços: vaca, 2 mil réis, o galo 500 mil réis...

Como o exagerado preço do galo ficou equilibrado pelo baixo preço da vaca, a venda se realizou sem dificuldades, em conjunto, vaca e galo ao mesmo comprador.

Embolsado do preço da venda em conjunto, o caboclo correu aos pés do santo e depositou os 2 mil réis da vaca no mealheiro sagrado. Estava paga a promessa sem maiores sacrifícios para o caboclo. O santo resignou-se, por isso que, segundo a tradição popular, continuou chovendo na roça do esperto caboclo.

Não vai nesta historieta nenhuma insinuação velhaca ou capciosa, mas entendo que, se entregassem o rumoroso caso da dívida a um caboclo do sertão sergipano, ele resolveria a questão, condicionando a venda do tório à dos abacaxis que possuímos. Quem comprasse o nosso tório seria obrigado a comprar os abacaxis; abacaxis de todo o gênero. O tório ao preço de vaca, mas os abacaxis ao preço de galo.

Façam isto e deixem o resto por conta do caboclo.

 (Correio de Aracaju – nº 5.049 – 30-05-1956)

 

 Aracaju, 02/09/2020

BETO DÉDA

Fac-símile do artigo no jornal "Correio de Aracaju",de 30.05.1956 :