quarta-feira, 8 de julho de 2015


O refresco de maçã da dupla Wellington & Carlos.

Recentemente, revendo um programa do Chaves, humorista mexicano, em cena que  ele vendia sucos em uma barraquinha, lembrei-me de dois fatos guardados nos labirintos de minha memória.

1.  Suco ou refresco?
 
Quando eu trabalhava no BNB, eu e um colega fomos à cidade de Estância fazer uma inspeção em uma indústria de sucos. No escritório da firma, foi-nos servida uma jarra de suco de laranja.  Agradecido, olhei para o companheiro de equipe e exclamei:

- Que bom, agora vamos saborear um refresco...

Fui interrompido pelo gerente da empresa, que me corrigiu:

- Isto não é “refresco” é suco da melhor qualidade.

Minha resposta não tardou:

- Ora, ora, meu amigo. É uma pena que seja suco, porque o que gosto mesmo é de refresco.

Ouvindo esse diálogo, o colega indagou:

- Mas qual é a diferença?

Então o posudo gerente esclareceu que o suco era de melhor qualidade porque mais consistente, mais grosso, processado com bastante polpa de frutas.  Enquanto o tal “REFRESCO” é ralo, feito com menos polpa e de qualidade e sabor inferiores.

Retruquei que tudo era questão de gosto. Afirmei que minha preferência era pelo refresco e justifiquei. Quando eu criança em Simão Dias, sempre gostei de saborear os refrescos de frutas feitos por seu João Fontes, na sorveteria do Seu Valério. Era aguado, porque se economizava não só na polpa de frutas como também na quantidade açúcar. Mas era bom danado...

Mesmo assim, nunca deixei de respeitar as opiniões divergentes.  Tanto que, ainda hoje, em minha casa, democraticamente, peço para fazerem refresco pra mim e suco para os filhos.

1.  O refresco de Wellington e Carlos

No início dos anos 50, em Simão Dias, os garotos primavam pela criatividade em suas brincadeiras, muitas vezes procurando meios de melhorar sua mesada.  Neste sentido, lembro-me que, certa vez, Wellington, meu primo, e Carlos, meu irmão, se associaram para vender refresco em frente à feira dos animais, que ficava vizinho ao “Aloque” de tio Paulo (Rua das sete casas).

Em um caldeirão improvisado (igual ao do Chaves) eles faziam o refresco de maçã, uma mistura de água, açúcar e um aromatizante que  adquiriam na Farmácia de Seu Manoel Dantas. O negócio ia de vento em popa. Porém... ai porém... Eis que faltou na farmácia o produto  que dava sabor de maçã e cor vermelha ao refresco.

A falta do aromatizante não inibiu os jovens sócios. A criatividade estava sempre ao lado deles. E a solução era um produto substituo. Foram à farmácia de seu Manoel Dantas e compraram um pacote de anilina vermelha, dessas que se usam na tintura de tecidos. E fizeram o refresco com muito limão, açúcar e o tal corante.

No domingo, ao sair do culto evangélico, seu Manoel Dantas indagou se tia Vina estava tingindo roupas, referindo-se à aquisição feita por Wellington.

Com a indagação do farmacêutico, tia Vina se lembrou da folia dos meninos e da venda do refresco. Resultado: proibiu de continuarem com o comércio e determinou resolução da sociedade mirim.

Mas o pior é que não se podia dar um jeito no que já fora realizado. E o efeito foi devastador. No sábado seguinte, alguns feirantes já estavam marcados: mostravam manchas da tintura vermelha do refresco nas calças.

O corante escorrera no mijo, respingando e marcando a braguilha dos desatentos fregueses.

Aracaju, 07/07/2015

Beto Déda

terça-feira, 30 de junho de 2015


Os sapatos do Padre Pedro

 Recentemente, ao comentar minhas lembranças do Ginásio Jackson de Figueiredo, meu amigo e colega Ubiratan Mendes fez referência à memória da Professora Zamor de Melo e aproveitou a oportunidade para lembrar outro sergipano inesquecível: o Padre Pedro.
A Professora Zamor de Melo tinha origem em Aquidabã e era tia dos amigos benebeanos Antônio Carlos Melo Maynard, que foi meu colega nas Agências do Banco do Nordeste, em Simão Dias e em Aracaju, e Alberto Maynard, que foi o Chefe do Departamento de Auditoria na Direção Geral daquele banco, em Fortaleza.
O padre Pedro (Pedro Alves de Oliveira) era de Riachão Dantas.  Aqui em Aracaju ele notabilizou-se por sua fé e por seu trabalho de dedicação ao próximo. Seguia cuidadosamente os ensinamentos de Cristo, dedicando-se aos menos favorecidos. Ele foi considerado o sergipano mais importante dos últimos 100 anos, em enquete patrocinada pela TV Sergipe, no ano 2000. Seus familiares são personalidades do meio cultural sergipano: os artistas plásticos J. Inácio, seu irmão, e CAÃ, seu sobrinho; e o professor da Universidade Federal de Sergipe: Rafael Oliveira, também seu irmão.
O padre e a professora tinham em comum o respeito e a admiração do povo sergipano.
Padre Pedro
 Foto do  http://aracajuantigga.blogspot 
Conheci o Padre Pedro quando eu era aluno do Ginásio Jackson de Figueiredo, um colégio de ensino católico. Os alunos internos frequentavam a missa dominical na Catedral, ministrada pelo Bispo Dom Távora, conhecido como o bispo dos operários. O Padre Pedro ajudava nas festas da principal igreja do bispado. Todo ano, na véspera do domingo de páscoa, os estudantes faziam a confissão para comungarem na missa pascal. A Catedral ficava repleta de juventude e o confessionário do Padre Pedro era logo identificado pela longa fila de jovens. A moçada preferia se confessar com o padre que não esmiuçava nem procurava detalhes das faltas reveladas, ouvia de relance os pecados e recomendava que o pecador rezasse três padre-nossos e três ave-marias na contrição de não mais pecar, pedindo a absolvição dos erros cometidos. Padre Pedro era o exemplo de um verdadeiro sacerdote.
Certa vez, comentando sobre o comportamento de um vigário do interior sergipano, disse-me meu tio Paulo Déda que conhecera muitos padres, a maioria dedicados à religião, mas que um deles se distinguia por sua dedicação em seguir os ideais humanitários pregados por Jesus, especialmente no que dizia respeito à solidariedade aos indefesos e o amor aos pobres e humildes. Dizia ele, com absoluta razão, que esse padre chamava-se Pedro, seu conterrâneo de Riachão do Dantas. E, então, contou-me um fato curioso que repasso aqui.
Em um dia de inverno, estava meu tio em sua loja, Esquina da Economia, a conversar com o Sr. Camilo, que também era proprietário de uma casa comercial ali próximo. Observaram  que  em frente à loja o Padre Pedro prestava ajuda a um faminto mendigo. Com seu alhar perspicaz de sapateiro, o tio Paulo percebeu que o padre usava sapatos rotos, velhos mesmo. Convidou-o a entrar na loja e o convenceu a aceitar um par de sapatos novos como presente. O padre não teve como evitar a oferta, porque os sapatos velhos e furados causavam dores em seus pequenos pés devido a umidade, ocasionada pelas pisadas em calçadas molhadas, e as pedrinhas que entravam pelos buracos no solado. Agradecido, o padre aceitou o presente.
Na semana seguinte, meu tio constatou que o padre voltara a usar sapatos rotos. Não se conteve e perguntou o que tinha acontecido. E o bondoso padre disse que, em sua caminhada pelas ruas de Aracaju, deparou-se com um pobre trabalhador que usava sapatos velhos, ruins mesmo, e não se conteve: passou-lhe seus sapatos novos em troca dos velhos. Meu tio, sentindo a solidariedade aflorar na expressão do humilde conterrâneo, pegou novo par de calçados e relutou para que o padre os recebesse. Somente depois de muita conversa é que o bom Pedro concordou com o novo presente.
Mas foi a última vez porque, poucos dias depois, em passos ligeiros, o Padre Pedro passava em frente à loja, usando as inseparáveis batina preta e bolsa ao lado, calçando sapatos velhos e rotos.
E concluía meu tio:
- Esse era realmente um padre “santo”.
Aracaju, 29/06/2015
Beto Déda

sábado, 20 de junho de 2015


A Silabada e o apelo da colocação pronominal
 
Fui aluno de excelentes professoras no curso primário, no Grupo Escolar Fausto Cardoso, em Simão Dias. Foi lá que aprendi os primeiros ensinamentos escolares das inesquecíveis professoras: Olda do Prado Dantas, Iolanda Montalvão, Rita Guimarães e Mileta Oliveira.
 
Em 1957, realizei meu exame de admissão ao Ginásio Jackson de Figueiredo. Ao final de uma das provas orais, tive a alegria de ouvir da examinadora, Professora Zamor de Melo, um elogio merecido às minhas professoras do Grupo Fausto Cardoso.
Já estudando no Jackson, também tive a honra de ser aluno da Professora Zamor, que ensinava Português, e de sua irmã, Profª. Normélia Melo, que lecionava Matemática
.
Embora me dedicasse a acompanhar as lições de minhas mestras, a verdade é que, fora dos muros escolares, nunca tive tesão em me dedicar ao estudo cuidadoso de nossa gramática.
 
Nos primeiros dias no ginásio, em uma aula de Matemática, a Prof. Normélia determinou que eu lesse uma das questões para solução em sala de aula. Meio acanhado, levantei-me e comecei a ler:
- Determinar a medida do “IN...VO...LU...CRO”...
 
Fui imediatamente interrompido pela Professora, pedindo que pronunciasse cuidadosamente a última palavra.
 
Olhei para o livro e indaguei aos meus botões: - Que diabo de palavra é essa?
 
Vacilei um pouco e repeti: IN-VO-LUU-CRO, dando maior ênfase à sílaba “LU”, acreditando se tratar de uma palavra paroxítona.
 
Ouvi o zumbido do “UHHH” e as risadinhas da turma. Fiquei pálido. Amarelei. Com a cabeça baixa, a boca amarga, eu olhei para a professora que veio em meu socorro.
 
A Professora Normélia explicou-me, então, que aquela palavra era proparoxítona, ou seja, sua sílaba mais forte (sílaba tônica) é a terceira da direita para a esquerda, ensinando-me a pronúncia correta, que eu repeti para a turma: IN-VÓ-LU-CRO. Acrescentou ainda que o acento agudo na sílaba “”, antepenúltima sílaba, era um indicativo das palavras proparoxítonas.
 
Ciente da silabada cometida, a explicação da mestra foi o gancho para minha justificativa. Reanimei-me e esclareci que, infelizmente, a página do meu livro estava borrada e não aparecia o acento agudo, identificador das palavras proparoxítonas. Mostrei o livro à professora e fui redimido.
O certo é que em minha memória ficou gravado o vexame sofrido e nunca esqueci a pronúncia e o significado da tal palavra.
 
Ao me lembrar do tempo do Ginásio Jackson de Figueiredo e de regras de nossa gramática, recordo-me também de um fato pitoresco vivido pelo conterrâneo Jorge Almeida. Ele e muitos outros simãodienses foram meus colegas no internato daquele colégio.
 
Certa noite, depois de ser determinada a hora de silêncio, o Jorge continuou conversando e fazendo barulho no dormitório. O bedel, que cuidava da disciplina naquele local, percebendo que a norma do silencio fora desrespeitada, determinou o castigo: Jorge teria de ficar de pé, em frente à porta de entrada do dormitório.
 
O garoto se fez de rogado e não atendeu.
 
Então o encarregado falou grosso: - Vai atender ou não?
 
E a resposta do Jorge veio na forma da lição sobre colocação pronominal, aprendida na aula de Português daquele dia:
- Meu amigo, eu só vou porque PRÓCLISE pediu, MESÓCLISE implorou e ÊNCLISE determinou...
 
E o riso dominou a moçada do dormitório naquela noite, inclusive o bedel...
 
Aracaju, 18/06/2015
Beto Déda
 


terça-feira, 16 de junho de 2015


O fanho e a soda

Nos velhos tempos, quando tio Paulo tinha a fábrica de calçados SIDON, em Simão Dias, ele construiu sete casas para os operários, em área vizinha à loja da fábrica. A rua passou a ser conhecida como Rua das Sete Casas. Quando ele veio para Aracaju, transferiu a fábrica para um prédio que construiu na Rua Basílio Rocha, no Bairro Siqueira Campos, conhecido como bairro Aribé. Ali ele também ele construiu casinhas e quitinetes, anexos à fábrica, para facilitar a vida dos operários que vinham de Simão Dias.

Recentemente, em conversa com o querido sobrinho Déda, filho do meu cunhado Haroldo, ele lembrava um fato contado por tio Paulo.

Dizia meu tio que em uma das casas da fábrica, aqui em Aracaju, morava um jovem aprendiz de sapateiro que era fanho ou “foên”, como se dizia em Simão Dias. Além de parecer falar pelo nariz, o rapaz era dislálico, ou seja, sofria de um distúrbio da fala, apresentando dificuldade na articulação das palavras. Em sua pronúncia “foên” também trocava as letras, em consequência da dislalia. Dizia que estava aprendendo a fazer  “fapatu”, que gostava de “Tota-Tola” e tinha medo de “fapu”.

Para testar a pronúncia do garoto, tio Paulo provocava:
- Olá, Madeirinha, diga rápido, três vezes seguida, a frase: “Lombo cru”.
 Prestimoso e conhecendo o efeito da pronúncia rápida, o moço não se fazia de rogado, repetia a frase, trocando e omitindo letras, alterando o sentido.

Uma tarde, um colega do fanho pediu que ele fosse comprar um refrigerante SODA em um bar próximo ao prédio da fábrica, em frente à estação ferroviária.
 Com timidez, o garoto chegou ao bar e falou baixinho para a garçonete:
 - “Moça, eu quero uma fo...fo...da”.

Surpresa e duvidando do estranho pedido, a garçonete encarou o pobre mancebo e indagou o que realmente ele tinha pedido.

- Ora - disse ele - pedi a você uma foda, ligeirinho...

Ao ouvir a resposta e sentido que sua suspeita estava confirma, a moça fez um escarcéu danado e não tardou chegar o dono do bar que queria surrar o moço, pensando se tratar de um malandro tarado.

E ele não apanhou porque correu até a fábrica onde foi socorrido pelos colegas, que explicaram ao irritado proprietário do bar o distúrbio da fala do inocente “foên” que, dislálico, trocava a letra “S” por “F”.
 
Aracaju, 28/05/2015.
Beto Déda

 
O guardião fajuto, a memória fotográfica e o assassinato de “João Cândjo”
 
Dizia meu querido e saudoso sobrinho Marcelo Déda que eu era o guardião das lembranças da família. De igual modo, o escritor Odilon Cabral Machado, em uma de suas crônicas publicadas em blog da Infonet, reafirma esse meu o cuidado, comparando-me a “um destes templários cavaleiros medievais, trajando armadura invisível de guardião deste tesouro, conforme eterna promessa de missão, sem a qual, tudo estaria perdido, soterrado pela poeira do tempo, lacunas irrecuperáveis de voracidade da traça, tudo que é possível quando é permissiva a irresponsabilidade do homem”.
 
Fico honrado em divulgar o pensamento do sobrinho e do amigo escritor, porém tenho uma confidência a fazer: não fui um bom guardião. Perdi duas importantes fitas cassetes, com gravações de discursos de meu sobrinho Marcelo e com histórias hilariantes contadas por tio Paulo e por meu sogro Antônio de Silva.
 
Na década de 80, através do meu primo Zé Carvalho, que sempre viajava à Zona Franca de Manaus, eu adquiri um vídeo cassete JVC, que usava para assistir aos filmes do Vídeo Clube de Aracaju e gravar programas da TV local. Foi neste gravador de vídeo que gravei, da TV, a maioria dos programas políticos do saudoso sobrinho, desde quando ele foi candidato a prefeito de Aracaju. Lamentavelmente, por uma falha involuntária e até hoje amargurada, perdi a fita que continha importantes programas do querido Marcelo. E mais ainda, também perdi uma fita de áudio, gravada por mim, com antológicos causos contados por meu tio Paulo e meu Sogro, que se reversavam na posse do microfone.
 

Tela do artista Wellington Déda
Com essa confissão, nota-se que não fui nem sou um bom guardião, e de cavaleiro medieval, a que fui comparado pelo bom Odilon Cabral Machado, resta-me, para consolo, a minha semelhança com o personagem da tela “Cavaleiro da Triste Figura”, que embeleza uma das paredes de minha casa e foi pintado pelo parente e artista Wellington Déda. (Quando o quadro chegou em minha casa, perguntei ao neto Miguel: - Quem é esse? Não houve vacilo na resposta: - É o vovô Beto!).
 
Na verdade, para compensar a perdas das fitas, resta-me fustigar a memória e repetir as lembranças para os familiares. O pior, aqui pra nós, é que a repetição começou a encher-o-saco deles. Daí o motivo que passo a contar esses causos aos meus seguidores no facebook.
 
Dizia o saudoso amigo e colega do BNB Mário Jorge, casado com minha sobrinha Selma, que eu tenho uma memória fotográfica. E sacramentava: “Beto, você tem uma memória de Elefante”. Exagero do bondoso Mário Jorge. Apenas gosto de ativar as lembranças para que elas não tenham o mesmo destino das fitas cassete. E fico feliz quando encontro quem aprecie.
 
Agora, por exemplo, lembrei-me de mais um causo, contado por tio Paulo. Dizia ele que tinha um amigo não alfabetizado que costumava empolar as frases, fato que tornava sua conversa muito atrativa pela graça das pronúncias. Passou, então, a narrar dois momentos vividos com o amigo, sem deixar de imitar seus gestos e o modo de falar. Vejamos:
 
Certa vez o amigo chegou de mansinho e começou a dizer que o filho tinha feito uma reforma em sua casa. Com o ar compenetrado, afirmava vaidoso que foi uma obra porreta, realizada sem limitar despesas. 
E narrava os detalhes da reforma, com ligeiras pausas na pronúncia, como se quisesse, no seu estilo, evidenciar sua sabedoria na colocação pronominal: - “REBÔ...CÔLA”, “FÔR...RÔLA”, “PIN...TÔLA”, “ENCE..RÔLA” ... e “APRON...TÔLA”!...
 
Meu tio, então, concluía, afirmando que tinha vontade de dizer ao amigo que, com tantas “rôlas tolas”, o melhor era transformar a casa reformada em uma “gaiola”...

...

Em outra ocasião, esse engraçado senhor apareceu na loja de meu tio com os olhos esbugalhados de emoção. Ao pisar na soleira da porta já foi dizendo:
- Palo, você soube? O rádio anunciou agora mesmo que mataram João Cândjo...
 
Meu tio franziu a testa e indagou: -
Como foi isso? Sempre soube que ele era um homem pacato, de boa paz e que sempre soube cuidar tranquilamente de seus afazeres e comércio. Como aconteceu isso?
- Ora, Palo, dizem que foi questão política. Mandaram bala na cabeça...
 
Tio Paulo olhou para o amigo e disse: 

- Madeirinha, pelo que sei o João Cândido nunca foi político. O seu negócio sempre foi mungunzá e mingau. Você ouviu essa história direito? Mataram o nosso conhecido João Cândido de Simão Dias?
 
- Não, Palo. O fato aconteceu com o tal de João Candjo ou Kendjo, sei lá como se diz... Ele era o presidente dos estranjas americanos e sempre aparecia na televisão...
 
(Foi assim que meu tio tomou conhecimento do assassinato de John Kennedy, Presidente dos Estados Unidos da América, ocorrido em uma sexta-feira, 22 de novembro de 1963).
Aracaju, 14/05/2015
Beto Déda
 
 
A história “penosa” da escova e do AVC
 
 
Dizia meu tio Paulo que nos velhos tempos, em Simão Dias, morava um casal simpático que não economizava palavras ao exaltar a paixão que os dominava. Dir-se-ia, sem exagero, que se completavam. A união era perfeita e as carícias mútuas eram uma constante. Dificilmente afastavam-se por muito tempo.
 
Aconteceu, porém, que determinada semana a mulher teve que viajar até esta Capital para resolver problemas de saúde. O apaixonado marido não pode acompanhá-la, porque estava envolvido em inadiáveis problemas de seu trabalho.
 
Entristecido com a ausência da consorte, o marido revelava ao meu tio o desalento que sofria naquelas noites de solidão. Confidenciou que passara dois dias sem dormir e somente na terceira noite é que conseguiu conciliar o sono. E o fez usando um refrigério meio estranho, mas que surtira um efeito sonífero magistral.
 
Interessado em saber a solução encontrada, meu tio indagou qual foi o tal do “refrigério” encontrado pelo amigo.
 
Então, o apaixonado marido dizia em voz baixa: - Peguei uma escova negra e grande, daquelas que se limpa sapatos, e coloquei na cama ao meu lado.
 
E explicava que ao se deitar, para aliviar a saudade, ele alisava suavemente os pelos da escova, lembrando-se da intimidade da amada...
...
Dizia meu tio que muitos anos depois, a idade não arrefeceu o amor e as carícias mútuas do simpático casal. Os probleminhas – que se tornam grandes entraves entre amantes comuns – não perturbavam o afeto e a ternura que dominava o amor recíproco daquele casal. Viviam bem, se amavam e se completavam.
 
Mas, como nem tudo são flores, uma noite, a sorte não os favoreceu. Depois de trocarem juras de amor, o marido sofreu um preocupante AVC (Acidente Vascular Cerebral). Atordoado com o inesperado ataque, com a boca meio torta, o apaixonado cidadão, olhou tristonho para a amada esposa e com a fala pastosa disse que todo seu lado esquerdo estava ficando dormente e insensível.
 
Diante de tão triste informação, a prestimosa e querida mulher não pensou muito, nem perdeu tempo. Lembrou-se do velho ditado: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.

E, sem perdas de tempo, antecipando-se aos efeitos do acidente vascular que começava a atingir o lado esquerdo do marido, procurou defender o que lhe interessava: meteu a mão na braguilha do enfermo e passou os já amolecidos “documentos” para o lado direito...
 
Aracaju, 06/05/2015.
Beto Déda
 

 

A mão esquerda, o corrimboque e o cafezinho.
Em outros escritos meus, contei que eu sou um admirador incondicional de meus saudosos tios. Encantava-me com suas histórias e ficava feliz ao perceber a paciência que eles tinham em me ouvir e me orientar com exemplos simples e maravilhosos.
Certa vez eu conversava com meu tio Paulo a respeito do hábito de fumar e lembrei-lhe que tio João Déda era o único da família que gostava de cheirar rapé, conhecido como torrado, que era o fumo moído e comercializado por Maria Pixilim, que morava na Rua da Palha, atrás do Açougue, lá em Simão Dias.
Tio João carregava o rapé em um corrimboque, conhecido também como tabaqueiro, feito da extremidade da ponta de boi ou de bode, com tampa de madeira e um laço de couro para facilitar a abertura. Ele tinha todo cuidado com o torrado e não permitia que ninguém o retirasse da caixinha de forma incorreta. Se uma pessoa pedia uma pitada ele oferecia o rapé de modo que o pedinte sempre usasse os dedos da mão esquerda. Se a pessoa insistisse com a direita ele passava o corrimboque para o lado esquerdo, insinuando ao sujeito que a pitada deveria ser retirada com os dedos da mão esquerda.

Perguntei ao tio João a razão daquele cuidado e ele me explicava que os dedos da mão direita traziam impurezas, porque eram usados pelo homem para pegar coisas íntimas ao satisfazer suas necessidades físicas: fazer xixi, por exemplo. Para ele os dedos da mão esquerda tinham menor sujeira.
Cocei a cabeça, pensei um pouco e indaguei:
 - Meu tio... e se o pedinte for canhoto?
- Ora, respondeu ele, os que me pedem a pitada são amigos e conhecidos. Eu sei quem é canhoto e, neste caso, o corrimboque vai para os dedos da mão direita. 
Assim que contei esse fato, o tio Paulo, com seu jeito simpático, disse-me que conhecia esse hábito de tio João e contou-me o causo que repasso pra vocês.




Tio Paulo era o proprietário de casa de calçados “Esquina da Economia”, situada entre as ruas João Pessoa e São Cristóvão.  Sempre que tinha uma folga ele ia até a Padaria Nossa Senhora do Socorro, que ficava próximo, tomar um cafezinho e fumar um cigarro, que sempre ficava preso entre seus lábios. A padaria era movimentadíssima e servia muito café pequeno. Para se resguardar, meu tio sempre pegava a xícara com a mão esquerda. Dizia ele que poucos usavam a mão esquerda, então o lado direito da xícara era menos impuro.
Contava-me, então, o bom tio que certo dia ele estava todo concho tomando seu cafezinho quando, de repente, alguém tocou em seu ombro e falou:

- Oi, ‘Palo’, você é como eu, toma o cafezinho com a mão esquerda. Você também é canhoto?
Meu tio virou-se e constatou que a pergunta fora feita por um tipo popular da cidade, conhecido por TÔ TE AJEITADO, que usava paletó, camisa florida e gravata espalhafatosa; vendia bilhetes de loteria e tinha os beiços feridentos, parecendo que estavam acometidos de aftosa.

Tio Paulo olhou bem para os lábios feridos de TÔ TE AJEITANDO e, sem desfaçar o susto, soltou incontinenti a xícara no balcão. Daquele dia em diante deixou de tomar cafezinho com a mão esquerda...

Aracaju, 27/04/2015.

Beto Déda