quarta-feira, 29 de junho de 2016


 

Minhas lembranças de hoje se voltam para as festas juninas em Simão Dias. E a memória me transporta para a Rua dos Ribeiros, onde morávamos. Era a noite das fogueiras, dos fogos de artifícios e das comidas típicas: milho cozido, milho assado, canjica, manauê e pamonha. Iguarias que ao lembrar fico com água na boca.


Parece até que estou vendo a imagem de meu pai, em frente à mesa de jantar, separando os fogos de artifícios comprados de seu Agenor, um fogueteiro que também morava em nossa rua, quase em frente à casa de minha avó Olívia. Meu pai fazia a separação, formando pequenas rumas de traques, chuvinhas, estrelinhas, foguetinhos, coiós e umas bombas que recebiam uma denominação curiosa, devido ao som do seu estampido: peido-de-velho. Depois da divisão, ele distribuía tudo entre os filhos e netos. Fazíamos uma algazarra imensa e éramos dominados por grande alegria.


Soltávamos os fogos em frente a nossa casa, local em que meu pai acendia a tradicional fogueira de lenha em pé (em forma de feixe). Aliás, poucas eram as casas que não tinham uma fogueira acessa no dia de São João. Quando a lenha queimava, então começavam os compadrios. Os garotos e garotas ficavam compadres, com as mãos dadas, rodando em volta das brasas que sobravam da fogueira e cantando mais ou menos o seguinte:


 

 São João dormiu e


 São Pedro acordou;


 Fulana é minha comadre

 Porque São João mandou...”

 
Logicamente eu me refiro aqui aos bons e tradicionais tempos de minha infância. Atualmente as coisas mudaram. As tradições vão sendo postergadas, as fogueiras já são raras e não fazem as canjicas e os bolos de milho como antigamente: tudo é produzido em padarias e supermercados. Não tem o sabor natural, aquele gostinho formidável do que era feito em casa, no fogão de lenha e no tacho (entre meus irmãos disputávamos quem se deliciava comendo a raspa do tacho após a feitura da canjica).
 
Carvalho Déda - desenho feito pelo artista
J. Inácio em 1956.
A tradição vai desaparecendo e surgindo moda nova, com músicas diferentes (e aqui pra nós, muitas de um mau gosto insuportável).  

 
Na verdade, não é de hoje que percebemos as mudanças nos festejos juninos. Lembro-me que, às vésperas das comemorações juninas de 1956, meu pai já percebia que a tradição começava a ser esquecida.  E escreveu um bonito artigo com o título “CADÊ SÃO JOÃO”, que foi publicado no jornal “A Semana”, edição de 09 de junho de 1956, e consta no livro COLETÂNIA - CARVALHO DÉDA - VIDA OBRA (Gráfica Editora J. Andrade, 2008 – p. 201/203).

E viva a festa de São João...
 
Aracaju, 23/06/2016
BETO DÉDA

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Na natureza nada se perde tudo se transforma.
 Quando ainda era garoto, recebi de meu pai um ensinamento jamais esquecido. Ao perceber que eu chorava pedindo um brinquedo, papai consolou-me sugerindo que observasse em volta e encontraria um mundo de diversões. Então, pegou-me pela mão, levou-me até o quintal de nossa casa e disse-me que ali eu poderia encontrar dezenas de brinquedos. E para justificar sua observação, pegou um cabo de vassoura, amarrou um barbante em forma de rédea e exclamou: “Aqui está um bonito e fogoso cavalo alazão. Brinque à vontade, cavalgando e dando asas a sua fértil imaginação”.
Vendo-me alegre, a galopar no meu primeiro cavalo de pau, meu pai aproveitou o ensejo e explicou-me a famosa frase atribuída ao químico francês Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. 
Nunca esqueci este ensinamento do meu bom pai. Aliás, a frase do famoso francês era do conhecimento comum de meus tios, que repetiam para mim. Tio Paulo me ensinou a transformar meias descartadas em bolas de futebol; com tio João aprendi a transformar cordão ou tiras de couro em tranças fortes e bonitas; tio Sininho, que tinha uma pequena oficina de marcenaria no quintal de sua casa, ensinou-me a tornear e fazer brinquedos de madeira (eu e o primo Zé Carlos fazíamos revólveres de madeiras, para brincar de caubói ou para trocá-los por mangas com os netos de Juca Matos).


Este maravilhoso aprendizado eu transmito sempre para meus filhos e netos. Também tenho minha oficina de “armengos”, onde me dedico a realizar transformações.  Transformo: tubos emprestáveis em “mensageiros do vento”, tabocas em torneiras automáticas; casco de coco em vaso de planta;  jornais lidos em barcos e aviões e também transformo pedaços de madeira em novidades que agradam as crianças.


 
O tronco de um cajueiro perdido foi transformado em dinossauros
Durante esta semana, observando um tronco de cajueiro morto, vislumbrei a oportunidade de realizar um trabalho de fajuto escultor. Com um cinzel e usando a imaginação, transformei o velho tronco carcomido de cupins em figuras que lembram dinossauros. Na verdade um “armengo” que serviu para a garotada brincar e usar a imaginação, lembrando os filmes infantis cujos temas são os dinossauros.
Ao notar a curiosidade e a satisfação da criançada, senti o doce encanto da alegria em saber que meu feito agradou. Então, lembrei-me do meu saudoso sogro, Antônio Bebém, que, ao admirar um “armengo” de minha fabricação, dizia com graça que me deixava feliz:
“Beto, você é um artista!”

Aracaju, 13/06/2016

Beto Déda

sábado, 4 de junho de 2016

LENDO “NAVIOS ILUMINADOS”, O ROMANCE DE RANULFO PRATA.
Recentemente, quando repousava no sítio Lago Dourado, divertindo-me com os netos nos trabalhos da pequena horta, ou mesmo “armengando” em minha bagunçada oficina de artesanato, aproveitei as horas vagas para ler o romance “Navios Iluminados”, do sergipano Ranulfo Prata. O livro foi um presente do amigo e colega Gilberto Duarte, que reside em São Paulo.
Foto de Ranulfo Prata - exposta na 5ª Edição do romance
Navios Iluminados - (Com Arte e Edusp)
 

O romancista Ranulfo Prata nasceu em Lagarto (SE), em 1896, e faleceu com apenas 46 anos, na cidade de Santos (SP), em 1942. Iniciou seus estudos em Sergipe e deu continuidade em Salvador, transferindo-se depois para o Rio de Janeiro, onde se formou em medicina. Exerceu atividade médica aqui em Aracaju e foi o responsável pela organização do gabinete radiológico, no governo Graccho Cardoso.
Anos depois fixou residência em Santos, clinicando na Santa Casa de Beneficência Portuguesa daquela cidade paulista. Nas horas vagas de seu trabalho como médico dedicou-se à literatura, escrevendo contos, documentários e os romances “O triunfo”; Dentro da  Vida, “O lírio na torrente” e “Navios Iluminados”.  
Capa da 5ª Edição do livro de Ranulfo Prata
“Navios iluminados” é um romance social dos anos 30, em que o autor sergipano narra a história de Severino, principal personagem, que deixa a cidade baiana de Patrocínio do Coité (hoje Paripiranga), fugindo da miséria que imperava no nordeste brasileiro daquela época. Na narrativa, o Severino foi tentar a vida no sul, trabalhando nas Docas de Santos (SP), local onde a pobreza e o sofrimento continuaram marcando seu triste destino. Ali ele presencia fatos que nos fazem lembrar as mazelas das sociedades industrializadas denunciadas por Karl Marx e Friedrich Engels (por favor, não confundam nem troquem Engels por Hegel – Georg Wilhelm Friedrich Hegel –, como fizeram, “por açodamento e burrice”, três promotores públicos de São Paulo ao justificarem a ilegal e arbitrária prisão preventiva do ex-presidente Lula).
O exemplar que o Gilberto me enviou de “Navios Iluminados” é a 5ª Edição, publicada em 2015 pela Universidade de São Paulo-USP (Com-Arte/Edusp), e é apresentada pela Professora Marisa Midori Deaecto, docente do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP.
Em sua apresentação, a Professora Marisa Midori afirma, com categoria, que Ranulfo Prata - ao descrever as vicissitudes da vida de Severino e de tantos outros pobres sofredores vindos de todas as partes -  insere o romance “Navios Iluminados” em outra vertente da literatura social: aquela que concebe os fatos dentro da categoria da luta de classes, na oposição clássica entre o capital e o trabalho ou entre o burguês e o operariado. E faz uma  indagação, ao dizer que este fato “nos conduz a uma questão insolúvel, talvez o grande dilema da humanidade, certamente, de todo historiador: afinal, o que pode o homem diante das estruturas que a um só tempo o sustentam e o oprimem?”
Trata-se ou não de uma questão sem solução? Não sei.  Mas a situação vivida por nosso Brasil nestes últimos dias nos leva a lutar contra as “estruturas” que lideram o golpe e nos encorajam a encontrar uma resposta que proteja os menos favorecidos e oprimidos.
Após a leitura de “Navios Iluminados”, percebo “que já era o tempo de se redescobrir a obra de tão raro quilate”, tal e qual previu a Profª Marisa Midori Deaecto, no encerramento da apresentação do romance. E ela tem absoluta razão...
Meus agradecimentos ao Gilberto por esse importante livro.

Aracaju, 04/06/2016

BETO DÉDA

terça-feira, 31 de maio de 2016


FESTEJANDO MEUS 75 ANOS.

Desde o dia 25 até ontem, estive no sítio Lago Dourado, distraindo-me com a família e, de modo especial, com meus queridos netos. Foi lá que tive a alegria de comemorar os meus 75 anos. Relembrei de muitas aventuras, de variados lugares e de pessoas queridas.

Foto do lago dourado, onde comemorei e relembrei meu 75 anos.
Na quietude do sítio, ao relembrar os meus 75 “maios”, revi a contabilidade dos “teres” e “haveres” do meu tesouro (e aqui faço uma ressalva: os “teres” e “haveres” que me refiro não são bens materiais; eles fazem parte de um patrimônio intangível e riquíssimo que guardo no meu trepidante coração: as lembranças das pessoas que comigo conviveram e convivem). Este valioso cabedal preservo com muito cuidado. Sempre estou a admirá-lo e, como um mago, faço essas pessoas rejuvenescerem e, revigoradas, tornam-se perenes no meu pensar.

As lembranças têm o dom especial de tornarem as pessoas imortais. No meu pensamento as pessoas queridas, que participaram da minha caminhada nesses 75 anos, continuam vivas, compartilhando meus bons e agradáveis momentos. Para mim são imortais.

Recordo-me, agora, de minha querida mãe, acariciando-me em seu colo, com um sorriso inigualável, contando-me como foi o dia em que nasci. Dizia ela que aconteceu em uma manhã chuvosa de um domingo de maio de 1941. Eu nascera sem demonstrar sinal de vida. A palmada na minha bunda não me fez chorar. Chamaram meu pai e ele, aflito, pegou um garfo e começou a bater forte em um prato, fazendo ruído junto ao meu ouvido. Foi o santo remédio, dizia ela, lembrando que eu abri os olhinhos pretos e comecei a chorar. Como se nota, demorei um pouquinho para entrar neste mundo.

Esse acontecimento justifica parte da minha lentidão em entender o que se passa em minha volta. Na linguagem dos jovens significa que demoro a perceber o toque da ficha que cai. É verdade, mas em termos.

Pois bem, o meu aniversário ocorreu quarta-feira passada, e um montão de pessoas amigas enviaram mensagens através do Facebook. Entretanto somente agora é que tive a alegria de ler e sentir o carinho de cada palavra ali expressa.

Mas a demora em perceber as mensagens não foi a minha lentidão de nascimento. O fato é que o sítio Lago Dourado não dispõe do serviço de internet. Somente hoje, quando cheguei em casa e liguei o computador, é que tive a alegria de ler as bondosas mensagens de parentes, amigos e amigas. Fiquei sensibilizado, muito feliz mesmo e, porque não dizer, senti o calor das lágrimas descendo sobre meu rosto. Lágrimas de alegrias. E isto foi muito bom: fiquei feliz.

Embora com um pouco de atraso, agradeço a todos que me honraram com suas manifestações de apreço.

Aracaju, 30/05/2016
BETO DÉDA

 

sexta-feira, 13 de maio de 2016


RASGARAM A CONSTITUIÇÃO PARA ANULAR MEU VOTO.

Meus pensamentos eram otimistas: acreditava que a democracia estava consolidada em nosso país. Ledo engano! Hoje, às vésperas de completar meus 75 anos, sinto-me amargurado ao presenciar a democracia ser covardemente golpeada. A faixa presidencial, instituída em 1910, foi açambarcada por um traidor golpista.
De 1988 a esta data vivíamos uma democracia. Hoje ela foi violada por golpistas apoiados por uma mídia partidária e interesseira, conhecida como PIG – Partido da Imprensa Golpista. Induziram uma parte da classe média – aquela que se julga elite e que nega sua origem – a aderir o golpe. Não passam de inocentes úteis àqueles que visam apenas assenhorear-se dos bens do país.
Rasgaram o meu voto e o de mais de 54 milhões de brasileiros. Fiquei amargurado, com raiva dos patifes que permitiram o ultraje à DEMOCRACIA.
É de se lamentar, ao perceber o símbolo da pátria sendo envergado por um presidente ilegítimo, usurpador e traidor.
Nossa democracia foi partida. Embora continue com pensamento democrata, lastimo, condeno e não respeito o pensamento daqueles que concordam e pugnaram para que o golpe ocorresse. Vão às favas com seus ideais nefastos e inconstitucionais.
Infelizmente passamos outra vez a fazer parte das “repúblicas das bananas”, tal qual o Paraguai e Honduras.  Nosso Brasil não merecia tal retrocesso. 
Prevalecendo os argumentos dos golpistas, qualquer Presidente – eleito democraticamente pelo voto direto do povo – será destituído quando discordar dos “interesses” da elite dominante e da sua imprensa subserviente. Os covardes, lesas-pátrias e inocentes úteis estarão disponíveis para apoiar a vil empreitada.  Desconjuro todos eles.
Mas não vamos esmorecer. 
Sem perder o fio condutor da democracia, vamos lutar para que seja restabelecido o meu voto e o de 54 milhões de brasileiros.
Como diz um verso do Hino Nacional - que era repetido por meu saudoso e querido sobrinho Marcelo Déda:
 “Verás que um filho teu não foge à luta”.
Aracaju, 13/05/2015
BETO DÉDA

sexta-feira, 6 de maio de 2016

LEMBRANÇAS DO MEU TEMPO NO BNB EM JEQUIÉ.
Convalescente de uma “virose”, eu passei esta semana revendo meus arquivos implacáveis que, desordenadamente, guardo-os em meu escritório.
Deparei-me, então, com duas folhas de uma edição de “O BENEBEANO”, um jornalzinho mural, que eu redigia e editava, expondo-o no mural de avisos das agências do Banco do Nordeste onde trabalhei; de modo especial em Simão Dias e Jequié.
Embora procurasse com atenção, debalde foram meus cuidados na busca de outros exemplares do jornalzinho. O único encontrado foi a primeira edição de “O BENEBEANO”, datado de outubro de 1978, quando eu trabalhava em  Jequié.   Mesmo assim, incompleto, com apenas duas páginas; a que constava os nomes da diretoria do BNB-Clube e o expediente do jornal não consegui encontrar. Apesar dos pesares é uma excelente recordação para mim e, acredito, para todos os colegas benebeanos que, naquela época,  comigo trabalharam na “Cidade Sol”.
Do BNB-Clube de Jequié tenho boas lembranças; especialmente das tardes de sábado, quando disputávamos peladas no terreno que clube adquiriu no Loteamento Cidade Nova, Bairro Kennedy. Destacavam-se no futebol os colegas Macdonald Assis, Sílvio Roberto e José Stefenson de Oliveira.  Lembro-me que em um desses jogos o Stefenson levou uma bolada na cabeça e perdeu os sentidos. Naquele dia ele não comandou o toque do “sambão”, que costumávamos ouvir degustando a cerveja paga pelos perdedores na pelada.
Na segunda página do jornal mural aparece a seção “Fofocas em Pequenas Doses”, em que faço humor com os colegas João Queiroz (de saudosa memória), Aventino, Chico Alves, Divan Carlos de Souza e Joel (que sabia nomear os jogadores das seleções brasileiras de todos os tempos).
Morei em Jequié por quase 6 anos: de 1975 até 1980. Neste momento, aguça-me a memória alguns fatos que relembro aos que conviveram comigo naqueles anos.
Naquela época circulava na cidade o “Jornal de Jequié”, dirigido por Eunísio Bonfim, e que fora fundado por seu cunhado e poeta Wilson Novais Silva, em 1945. Sempre que surgia uma oportunidade eu conversava com Eunísio sobre jornalismo e os trabalhos de edição de um jornal do interior. Fui convidado a realizar palestras para os alunos da Escolinha Prática de Jornalismo que ele dirigia. Conversei com os alunos da escolinha algumas vezes e abordei temas ligados ao tempo em que trabalhei no jornal “A Semana”, editado por meu pai, em Simão Dias, narrando detalhes de meu trabalho como tipógrafo, jornaleiro, repórter e diretor. Não conheci o poeta Wilson Novais Silva, mas lembro-me de admiráveis versos dele. Estavam expostos, em letras prateadas, na parede de um restaurante que servia maniçoba, prato muito conhecido e apreciado pelos sergipanos.
E por falar em restaurante, não me esqueço do “Restaurante Abruzzi” que funcionava na Avenida Rio Branco, de propriedade do imigrante italiano Mario, que tinha como sobrenome Aprilli ou Aprile. O cardápio constava de iguarias apreciáveis; destacando-se as pizzas e o melhor filé parmegiana que conheci em todos os tempos. Quando frequentava o restaurante gostava de conversar com o Sr. Mario e ele sempre falava da região onde nascera (ABRUZZI), cujo nome utilizou para denominar seu “ristorante”.
Durante o período que por lá morei, os prefeitos da cidade foram Landulfo Caribé, até 1977, e depois o Walter Sampaio. Mas o destaque mesmo era para o Caribé que era desportista, de fala espontânea e gozava de muito prestígio popular. Lembro-me que ele inaugurou uma praça – se não estou enganado, foi no bairro Jequiezinho – e lá colocou uma estátua em tamanho natural de um cavalo que fora campeão; não sei se de corrida ou pela raça. O fato é que o pessoal “tirava onda” do feito, designando o monumento de “INCITATUS”; lembravam o nome do cavalo que o Imperador Romano Calígula nomeou como senador e mandou construir uma estátua em mármore com um pedestal em marfim. Com seu carisma natural, Caribé fazia pouco caso das piadas, dizendo que se tratava de puro despeito da oposição.
Equipe da Associação Desportista Jequié - O goleiro era o
colega benebeano Edmílson Garcia
Jequié tinha um time de futebol (Associação Desportista Jequié), que foi fundado em 1969. Eu era torcedor e, aos domingos, frequentava o Estádio Valdomiro Borges. O time tinha como mascote um grande bode, que um torcedor levava para o campo, posicionando-se em frente à arquibancada. Durante certo tempo o goleiro do time era nosso colega Edmílson Garcia.  Lembro-me agora de uma partida entre o Jequié e o Bahia, em que o Edmílson fechou o gol. Não passava nada. O colega grandalhão pegava todas, inclusive os chutes certeiros dos artilheiros do “Baêa”. O jogo terminou empate e sem gol. Dias depois, o time de Jequié foi jogar na Fonte Nova. Na semana antes do jogo, o Edmílson dizia aos colegas do BNB que ia repetir a dose, fechar gol e aparecer na parte esportiva do programa Fantástico, na TV Globo. O fato é que o time do Jequié somente conseguiu segurar os companheiros do grande jogador Baiaco até o final do primeiro tempo. Depois de receber o segundo gol, o Edmílson encabulou e levou uma goleada inesquecível. A promessa do Garcia foi realizada ao contrário: apareceu na televisão, em edição nacional daquele domingo, como o goleiro mais vazado do mês. E o próprio Edmílson, com seu modo alegre de ver as coisas, fazia gozação do feito.
São muitas as lembranças alegres da cidade banhada pelo Rio de Contas.
 ARACAJU, 06/05/2016
BETO DÉDA



sexta-feira, 29 de abril de 2016


A ZABUMBA DE TERTO MANGUEIRA E A PROMESSA DE "CAÇULA BÊBA".
 
Disse-me uma amiga de Simão Dias que um estudante, seu colega, estava fazendo um estudo sobre as bandas de pífanos e indagou-me se eu conhecera alguma. Conheci e lembro-me bem de uma delas. Só que tem um detalhe, nos velhos tempos, em nossa terra, elas eram conhecidas como zabumbas. Compreendiam um instrumental composto por um bombo (zabumba), uma caixa de percussão e duas gaitas feitas de taboca ou bambu. Pífano é o apelido que dão às nossas gaitas (das quais o meu cunhado era tocador e fazia recital, conforme já mencionei e apresentei vídeo no facebook !!!!!).
   A Praça de São João em Simão Dias (Foto Beto Déda-1989)
 
Pois bem, nos meus tempos de criança, nas tardes de domingo, os adultos tiravam uma boa soneca em redes, cadeiras de balanço ou espreguiçadeiras, conhecidas como preguiçosas.  Enquanto isso, a meninada aguardava a chegada dos vendedores ambulantes de doces, que regularmente passavam pela Praça de São João.
Aparecia por lá o Seu Antônio, com seu gorrinho e avental azul-marinho, vendendo quebra-queixo, com seus sonoros gritos: “Olha o quebra-queixo da Bahia! Tá melhor do que ontem”. E apoiava o tabuleiro de zinco em um tripé e cortava o doce grudento em pequenas talhadas. Para cada pedaço que vendia por moedas de quinhentos reis (com efígie de Getúlio) ele dava o nome de um peixe que se pescava no Tanque Novo ou no Riacho Caiçá: o corte fino era chamado de “traíra” e o pedaço gordinho apelidava de “corró”.
Também aos domingos, invariavelmente, passava pela Rua dos Ribeiros e pelo Parque a Dona Maria Itabaiana, com um tabuleiro repleto de cocada de variados sabores e cores: branca, preta, alaranjada e cocada-puxa.
Só em me lembrar delas fico com água na boca. Uma delícia!
Logo depois, quando sol começava a esfriar, para nossa alegria, surgia a Zabumba de Terto Mangueira, um senhor moreno, alto e simpático. E na Praça de São João todos apareciam para se admirarem com o formidável som do instrumental caboclo. Mestre Terto, batendo o bombo, cadenciava a zabumba; Tonho de Filomena batia a caixa, enquanto Zé Dicuri e Timbira do Pife tocavam gaita e dançavam.
 A Zabumba do Mestre Terto era presença certa em muitos folguedos da época e sempre acompanhava as procissões de pagamento de promessa.
Lembro-me agora que acompanhei uma dessas procissões que contou com a participação da Zabumba do Mestre Terto.
A procissão aconteceu como pagamento de uma promessa feita por Caçula, mulher do Broco da Usina.  Na minha visão de garoto, Caçula era uma senhora simpática, de rosto comprido, sobrancelhas altas, com faces rubras e beiços meio carcomidos, pintados com batom bem vermelho. O cabelo era curto, meio ruivo e encaracolado, e usava brincos grandes e vistosos, descendo pelo pescoço comprido. Os olhos eram miúdos e avermelhados e as sobrancelhas altas. (E aqui pra nós, hoje, quando vejo a fotografia da genial economista portuguesa Profª. Maria da Conceição Tavares minhas lembranças se voltam pra Caçula do Broco, feições muitos parecidas – aliás, a única semelhança entre ambas –, embora a nossa conterrânea apresentasse evidentes sinais de sua amargurada vida).
Mas vamos ao caso.  A Caçula gostava de uma pinga. Das puras era o que ela mais consumia; o pileque ficava mais barato. Passou a ser conhecida pela meninada como  "Caçula Bêba”. Puxava fogo e rodava a saia. Quando sóbria confidenciava que tomava birita por duas razões: primeiro porque gostava realmente de pinga, e, segundo, porque o pileque servia de paliativo aos seus dissabores, fortalecendo-a para aturar os chamegos do Broco da Usina. Inveterou na cana e se viu em apuros. Por fim, cansada dos percalços do vício, fez uma promessa para deixar a bebida. E realmente deixou.
A promessa era organizar uma procissão e participar de uma missa no povoado Cachimbo. E ela cumpriu.
Foi realizada a procissão com acompanhamento de muitas pessoas e ao som da Zabumba do Mestre Terto. Eu acompanhei o cortejo, segurando na mão de minha tia Nice Enfermeira, atento ao som da gaita de Zé Dicuri e ao toque ritmado da zabumba.
Não esqueço o semblante de Caçula, com um véu cobrindo suas curtas madeixas, toda contraída, rezando e agradecendo por ter deixado a “marvada” pinga.
...
Mas há controvérsia sobre este desfecho. Liderados por Bilau Língua de Trapo, os de pouca fé diziam ter visto, dias depois, Caçula fazendo beicinho, emborcando a branquinha, babando, rodando a saia e, com os olhos miúdos e vermelhos, tecendo loas à Zabumba do Mestre Terto e prometendo organizar nova procissão.
Aracaju, 29/04/2016
BETO DÉDA