domingo, 13 de junho de 2021


As feiras livres em Simão Dias .


Recentemente tomei conhecimento de alterações no local da feira de Simão Dias. Dizem que o prédio do grande mercado foi interditado e o comércio que ali tinha abrigo (o talho da carne, a venda de farinha, de variados grãos etc.) passou a ser realizado ao ar livre, no largo da feira, em meio de barracas de frutas, verduras e outros produtos.

Também soube que, no primeiro sábado depois da interdição, ocorreu uma bagunça no largo da feira. Houve dificuldade dos fregueses encontrarem as barracas e a chuva comprometeu ainda mais as mudanças.

Este fato me fez lembrar de alguns momentos curiosos dos locais das feiras livres em minha terra. Em seu livro “Simão Dias – Fragmentos de sua história”, meu pai – Carvalho Déda – nos conta sobre a mudança da feira da cidade, que acontecia na Rua do Comércio Velho e que hoje é a Rua Cônego Andrade, e foi transferida para a Av. Coronel Loyola. A mudança causou os primeiros embates políticos da cidade e só terminou com a decisão de D. Pedro II, confirmando a alteração.

A feira ficou na Av. Coronel Loyola até os anos noventa, quando foi transferida para um local próximo ao bairro Bonfim, e que permanece até hoje.


Outro fato curioso, que também é narrado no livro de meu pai, foi sobre a primeira feira do interior do município, que ocorreu no povoado Curral dos Bois. A criação da referida feira causou uma disputa política violenta. No primeiro momento, a polícia derrubou casebres e barracas e acabou com comércio. Tempos depois a feira foi reinstalada e, com o passar de dois anos, surgiu nova disputa e aconteceu o pior: a polícia voltou a atacar o povoado em dia de movimento e queimou tudo, causando um grande horror e prejuízo aos pequenos comerciantes daquele local. Aconteceu um verdadeiro pandemônio e o professor Juvenal Oliveira, que também ali comerciava e sofreu irremediáveis prejuízos, descreveu em versos os acontecimentos da feira incendiada. O Prof. Juvenal era pai do também poeta Hermes de Andrade Oliveira.


E como um assunto leva a outro, me veio à memória a noite em que ocorreu o incêndio no mercado municipal, cujo prédio ficava na antiga feira da Av. Coronel Loyola, entre as lojas de Seu Antoninho Farofa e Seu Josino Barbosa. Em uma noite de sábado do mês de maio de 1961, ao passar pela avenida, o Sr. Floriano Nascimento notou a nuvem de fumaça que saia pelo telhado do mercado, anunciando um incêndio. Então, ele não vacilou e imediatamente incentivou as pessoas que por ali também passavam para debelarem o fogo. Sob seu comando, derrubaram as portas do velho mercado e, com muito esforço e determinação, conseguiram apagar o fogo. Foi uma ação heroica do meu bom e saudoso amigo Floriano e de anônimos cidadãos simaodienses. O jornal A Semana, no sábado seguinte, registrou o fato em sua primeira página, com a manchete: “INCÊNDIO NO MERCADO MUNICIPAL – Debelado o fogo por populares comandados pelo Sr. Floriano Nascimento”.


A notícia divulgada pelo jornal  "A Semana".


As feiras de nossa terra têm um mundo de histórias que merecem ser relembradas. Quando afloram em minha memória, faço questão registrar.


Aracaju, 13/06/2021

Beto Déda


quarta-feira, 26 de maio de 2021

 Meu computador pifou...

Beto Déda em 26~05~2021

Uma boa amiga me disse que estava sentindo minha ausência no meu blog e na minha página do Facebook e que, ontem, 25 de maio, muitos parentes e amigos se manifestaram ali, parabenizando-me pelo aniversário.

Cuidei de procurar um meio de ler cada mensagem e externar meu agradecimento, o que faço agora.

Mas torna-se necessário informar o motivo de minha ausência.

O velho computador cansou dos meus grosseiros toques em suas suaves teclas e deixou de trabalhar. Sua tela escureceu, negando-se a mostrar-me as fotos e mensagens postadas pelos amigos e amigas que sigo com prazer. Além disso, fiquei sem condições de escrever sobre as boas lembranças que me encorajam e me ajudam a esquecer as tristes notícias destes dias de pandemia.

Sobre o problema do meu computador, alguém tentou me acudir e aconselhou-me a usar o telefone celular. Ora pois! Não consigo me acostumar com a minúscula tecla do fone. Sou do tempo das antigas máquinas de datilografia, em que os teclados exigiam um toque mais forte. Acostumei-me com maior pressão nos dedos, daí a razão da recorrente troca de teclados do meu computador. Ademais, não consigo enxergar bem as letras no telefone e a formação de uma frase se torna uma tortura, o que invariavelmente resulta em constante duplicidade e troca de letras, além de surgirem palavras que não tive intenção de escrever.

Meu filho também procurou me ajudar e comprou um novo computador. Então surgiu outra dificuldade: a avançada tecnologia. Esgota-me a paciência ter que aprender novos programas. Engraçado a mudança que aconteceu comigo: antes, era um admirador de novidades, desvendando e estudando as novas técnicas e tentando aplicá-las; agora, não consigo encará-las e fujo delas, sem contudo deixar de admirar a habilidade dos jovens em dominá-las.

Então, diante desse desconforto, ao deparar-me com as mudanças do novo computador, resta-me, aos poucos e sem pressa, tentar conhecer apenas os programas mais simples, de modo a permitir a comunicação com os queridos parentes, colegas e amigos. Mas mesmo assim, não é fácil: as complicações também estão presentes nos programas que acreditava como mais acessíveis.

Neste momento, quando pretendo usar as novidade e o editor de textos, sinto dificuldade em externar meu pensamento, sempre atropelado pelas novas técnicas. Porém, como “ando devagar porque já tive pressa”, me contento ao lembrar que nos tempos de criança o empecilho era mil vezes maior: naquela época eu usava uma pequena lousa de pedra e um lápis também de pedra para aprender a escrever.

Hoje, levei um bom tempo para escrever este texto, mas não desisto, continuarei tentando melhorar. Então, aguardem sem pressa...

Justificada a ausência, aproveito o ensejo para agradecer as mensagens parabenizando-me pelo dia que comemorei meus 80 anos.

Um abraço,

Aracaju, 26/05/2021

Beto Déda


terça-feira, 9 de março de 2021

 

O cuscuz, o pica-pau e as histórias penosas de tio Paulo.

 

Nesta semana, em postagens via internet, duas pessoas fizeram-me relembrar do tio Paulo Déda.

Uma amiga, nordestina convicta, informou que gostava muito de saborear um bom cuscuz. E meu sobrinho João Déda apresentou uma foto de um pica-pau que estava em uma árvore nos arredores de sua casa.

Estas simples informações despertaram-me momentos de bom humor, quando eu escutava as histórias penosas contadas com muito estilo por meu saudoso tio. 

No final dos anos cinquenta, ainda estudante, fui filar um café na casa de tio Paulo. Estava saboreando biscoitos tipos “americanas” e “cabeça-de-frade”, quando tia Francisquinha apareceu com um apetitoso cuscuz.



Cuscuz quenos deixa com água na boca...


Então, embora sempre meio reservado, tentei disfarçar minha timidez, exclamando:

-Obá! Um gostoso cuscuz de milho...

Mal terminei de falar, alguém complementou:

- Ah! ah!... Se é cuscuz, não precisa dizer que é de milho... E a risada ecoou na sala.

Baixei a cabeça, no desespero de vergonha. Meu tio notou e imediatamente me socorreu, dizendo para o gaiato, mais ou menos o seguinte:

- Ei, madeirinha, o Beto está certo. O cuscuz não é só de milho. Também existe o cuscuz de arroz, que é uma delícia, muito apreciado em nossa Simão Dias. Você é de lá, devia saber!

A intervenção do tio me aliviou e lembrei o bom cuscuz de arroz feito por minha tia Nice – eu ajudava a moer o arroz em um pilão que até hoje ainda conservo.

Depois do café, tio Paulo sentou em uma cadeira de balanço, para acender seu charuto “Cesário”, e chamou-me para ficar ao seu lado. Enquanto enrolava entre os dedos o papel que envolvia o charuto, me contou dois fatos interessantes, envolvendo cuscuz e pica-pau. Repasso pra vocês.

Em nossa terra vivia um senhor muito respeitoso, pretenso intelectual, que tinha um cuidado enorme para não pronunciar expressões chulas. Certo dia ele foi convidado a jantar na casa de um honorável amigo. A mesa estava posta com variadas iguarias, entre as quais se destacava um delicioso cuscuz de milho, que ficara na ponta da mesa, longe dos curtos braços do respeitoso senhor. Então, ele resolveu pedir que lhe passassem o prato, usando um linguajar cuidadoso que não ferisse as ouças dos comensais. 

Selecionando cuidadosamente cada palavra, ele fez o pedido ao moço que estava próximo ao cuscuz:

- Garoto, por gentileza, passe-me esse prato de bundas-bundas...

No meio dos risos contidos, um idoso ficou levemente sufocado e, para seu alívio, expeliu um pouco do cuscuz que mastigava, borrifando o rosto do convidado.

Meu tio ria de sua história e acrescentava que aquele senhor tinha uma filha que fora muito bem educada, seguindo os preceitos do pai, especialmente no que diz respeito ao uso de um linguajar “escorreito”, evitando termos vulgares que sugerissem as partes pudentes do corpo humano.

O que se sabe é que em sala de aula, a moça foi ler um texto do Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato, e aplicou seu aprendizado. Naquele dia, seguindo orientação de seu respeitoso pai, alterou o título do livro, evitando pronunciar um palavrão.

Para ela o sítio era do “Pinica”- Pau Amarelo.

 

Aracaju, 09/03/2021

BETO DÉDA


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

 

Simão Dias na poesia de Marcelo Déda.

 

Sempre estou a sonhar com meu saudoso sobrinho Marcelo Déda. Foi o que aconteceu na noite deste sábado. Então, como que impulsionado, logo pela manhã reli o seu livro Improvável Poética, despertando velhas lembranças de nossa boa terra.

Certamente por saber o quanto me alegra relembrar coisas de Simão Dias, ele me dedica um poema que fala do Cine Brasil, das brincadeiras da meninada da época e de trechos de algumas ruas da cidade. E registra como os guris tomavam como tema de seus divertimentos os personagens de filmes do velho oeste americano, no caso o General Custer, que chefiava o sétimo regimento da cavalaria americana, e foi derrotado pelos índios liderados por Touro Sentado e Cavalo Louco, na batalha de Little Bighorn.

Embora tenha escrito em janeiro de 2013, ele lembra a antiga Rua do Coité, atual Rua Getúlio Vargas, trecho que vai do prédio que era o Cine Brasil até a entrada da Rua dos Ribeiros. Ali, logo à direita, passa por uma ruela e por fim, chegava-se à Praça de São João, que na época era arborizada com frondosos tamarindeiros, oitizeiros e um grande pé de eucalipto real.


 

Mesmo que pareçam enfadonhas, as lembranças que ainda vagam em minha mente me encantam e, talvez, despertem a curiosidade de alguém; de modo especial aos que viveram na boa terra nos velhos tempos.

Então, rasteio minha memória em gratas lembranças do tempo que eu era um garoto curioso e jornaleiro, entregando o jornal “A Semana” pela velha Rua do Coité (esta rua era assim denominada porque dava acesso à cidade baiana que antigamente tinha aquele nome e hoje é Paripiranga.

Assim é que fiz um passeio mental por aquela antiga rua, no trecho mencionado no poema de Marcelo, parando calmamente em frente a cada prédio. Um passeio nostálgico que, para mim, faz reviver locais e gratas pessoas que tivemos a alegria de conhecer.

E começo pelo prédio do antigo Cine Brasil, que foi inaugurado em 1953, por Durval Conceição, o primeiro proprietário. Depois, foi vendido para Seu Antônio Borges. Como era comum naquela época, era um prédio de espetáculos, que funcionava como cinema, teatro e também era o local de eventos culturais e reuniões solenes de formaturas.  Foi ali que aconteceu a cerimônia de conclusão do meu curso primário, em 1956. Com muita alegria recebi o diploma das mãos da saudosa Professora Rita Guimarães, que foi nossa mestra do curso no Grupo Escolar Fausto Cardoso. A Prof.ª Rita era esposa de Abel Jacob, que foi prefeito do município e Deputado Estadual.

Em frente ao Cine Brasil tinha o prédio do Lactário, que prestava assistência médica às parturientes. Em seguida a casa que morava o Mestre Bonifácio e também era a sede da filarmônica Lira Santana (anos depois, a casa foi reformada e passou ser o Fórum da cidade). No prédio vizinho funcionou o Círculo Operário – local de reunião da antiga União Beneficente Operária de Simão Dias – e também onde se recepcionavam os times de futebol de outras cidades que participavam de jogos no gramado José Barreto.

No mesmo trecho, estava a sede do Serviço de Alto-falantes TUPY, que era o sucesso da época, com aparelhos de transmissão nos principais pontos da cidade, com programas transmitidos por Floriano Nascimento, Demerval Guerra e Almir Fontes. Foi um importante meio de comunicação de nossa terra.

E lembro-me bem, da casa Seu Fenelon Góes, onde a Prof.ª  Silvina Prata Góes lecionava banca escolar e que ali estudei  e muito aprendi. Lembro-me que, entre outros, eram meus colegas: Dênio, filho de Dr. Belmiro, Zequinha, filho de Seu Joãozinho da Padaria, e João Barbosa, filho de Seu Josino Barbosa.

As recordações afloram e revejo com saudade as famílias que ali residiam, e relaciono as que agora me aparecem nas minhas lembranças daquela época:

O Dr. Belmiro Silveira Góes, ilustre simãodiense que foi Juiz de Direito da Comarca e depois desembargador do Tribunal de Justiça de Sergipe. Merecidamente, o fórum do Tribunal Regional Eleitoral da cidade, em sua homenagem, tem o seu nome.

Prof.ª Matilde Dortas, foi diretora do Grupo Escolar Fausto Cardoso na época que conclui o curso primário.

Benedito Macedo Freitas, pessoa muito estimada na cidade, quer como servidor do Posto de Saúde ou como desportista e defensor da Filarmônica Lira Santana.

Dona Tude, costureira, mãe de Marlene e Manoel, pessoa alegre e inesquecível, que nas noites de lua cheia, reunia o pessoal amigo e tocava maravilhosamente seu banjo. Parece até que estou ouvindo sua inconfundível gargalhada que se propagava por toda a rua.

E sigo com as lembranças, como se estivesse entregando jornal.

Pedro Gomes, que tinha um automóvel de aluguel; Antônio Borges,  dono cinema; Domingos Santos, empresário e genro de Seu Janjão; as irmãs Altas, que eram costureiras; Gênis Gomes, chefe do posto de Fomento Agrícola;  Juca Baeta, que tinha uma fábrica de calçados com o nome da filha Elenalda;  Antônio Gomes, funcionário do fisco estadual; Cícero Guerra, comerciante dono da Loja Três Américas; tio Paulo Déda,  dos calçados Sidon, de quem tenho gratas, saudosas e hilárias histórias penosas; Antônio Mascarenhas, do Cartório, Messias Fonseca, aposentado dos Correios; as irmãs Rosália e Néia, que apresentavam bonitos presépios no mês de dezembro  e faziam excelente licor de jenipapo; as irmãs de Marcos Ferreira. E finalizando o trecho, as casas cujos oitões davam acesso à Rua do Ribeiro: João Cândido, que fazia um bom mungunzá, arroz doce e mingau de puba, concorrendo no mesmo comércio de Dona Bigio;  João Coruja, o funileiro; João Broco, com sua bodega que me vendia as antigas lousas e lápis de pedra para escritas; e  Seu Lourival, parente de Seu Pierre e que tinha sítio de cocos na Barra dos Coqueiros.

E seguindo o roteiro da poesia, saímos da Rua do Coité e entramos na pequena travessa em que ficava o oitão do bangalô em frente à casa de Seu Pierre, que no quintal tinha um pé de acácias que botava cachos de flores anunciando a época das festas de fim de ano.

E por fim, a graciosa Praça de São João, com muitos tamarindeiros, oitizeiros e um grande eucalipto, que ficava quase em frente às residências de Zefinha de Zeca de Quincas e de dona Maria de Pedro Costa, que fazia deliciosos bolos.

São lembranças despertadas pelo sonho que tive sábado e a leitura da poesia de Marcelo, que conviveu comigo em Simão Dias em outros tempos (ele nasceu em 1960), mas sabia do meu gosto pelos fatos antigos que repetidas vezes narrava para ele.

No último poema do livro, com o título Tersites, acredito que Marcelo fez uma despedida de nossa terra, de nosso Sergipe, quando diz:

“Deixei os meus sertões

e vim.

Deixei-os? Não!

Carrego-os em mim:

a sua infinita aridez

seus desvarios de luz

sua espinhosa essência

sua deferência sutil

sua obediência astuta

suas feras ocultas

suas pedras impunes

que ferem as patas dos cavalos

e mordem a carne dos homens.”

...

 Tempo bom de lembrar.  Por isso, mais uma vez, resta-me fazer uma prece de agradecimento ao querido e inesquecível sobrinho.

Aracaju, 07/02/2021

Beto Déda

domingo, 27 de dezembro de 2020

 

Nadando no poço do Caiçá, em:

“um passado diverso e melhor”.

 

 

O livro “O queijo e os vermes” é um best-seller, no qual o historiador Carlo Ginzburg narra a perseguição sofrida por um moleiro italiano, conhecido como Menocchio, por causa de sua incomum cosmogonia, em processo movido pela Inquisição no século XVI. Ginzburg se aprofunda no estudo do processo, descobre e faz comparações das leituras e interpretações do perseguido moleiro, de modo a entender melhor o que se pensava naquela época, ou seja, o alcance histórico que aquele acontecimento descortinava.


Estive relendo o citado livro e, mais uma vez, deparei-me com uma interessante afirmação do citado historiador ao comentar as ideias do Menocchio, que contestava a Igreja rica e corrupta do seu tempo com a Igreja primitiva que, na visão dele, era pobre e pura. Afirma Ginzburg:


“Apenas nos períodos de aguda transformação social emerge a imagem, em geral mítica, de um passado diverso e melhor – um modelo de perfeição, diante do qual o presente aparece como declínio e degeneração”.


Pois bem. Nesta época em que vivemos dias de isolamento, diante dos efeitos de uma mortal pandemia, só nos descortina, inexoravelmente, um horizonte nebuloso, conforme previsão de respeitáveis médicos. E esta situação se agrava para os idosos – particularmente para mim,diante dos benditos quase oitenta anos alcançados – de modo que me contento com o encanto da visão que tenho do passado, em consonância com o que diz o historiador italiano.


Isto naturalmente acontece quando volto meus pensamentos ao tempo de criança, na primeira metade dos anos 50, vivendo nos arredores da Rua dos Ribeiros, em Simão Dias, em que aproveitava, com vigor, cada momento de encanto que a vida nos oferecia.


E repasso, aqui, as lembranças que tive nesta manhã ensolarada, aqui no Lago Dourado.


Recordo que nas manhãs quentes dos domingos sempre aconteciam as peladas na Praça de São João, usando como bola uma bexiga de boi inflada. Depois do jogo, íamos nos refrescar no poço do riacho Caiçá, perto do Matadouro, em uma baixada em frente ao sítio de seu Manoel do Curral.  A correnteza era límpida, transparente, dando a falsa ideia de que o poço era raso; fato que surpreendia os novatos que não sabiam nadar e eram socorridos pela meninada já escolada.




Ao me lembrar do banho no Caiçá, dispara em minha memória outra lembrança. Naquele tempo, o comum para as crianças era o uso de calças curtas, com suspensórios. A única calça comprida que eu tinha era a da farda do Grupo Escolar Fausto Cardoso. E era um pouco puída no fundilho, gasta de tanto descer deslizando no corrimão cimentado da escada do Grupo. 



Eu ansiava por usar calças compridas e algumas vezes, furtivamente, usava a calça da farda mesmo sem ir à escola. Um dia, depois da brincadeira de bola de gude, fui com a turma nadar. Depois do banho no refrescante poço, quando fui vestir a calça  foi que percebi que tinham dado nós nas pernas da farda e a umedeceram com água do Caicá, ou seja, aplicaram a famosa jabá, como era conhecida entre os nadadores daquela época. O pior é que tive que usar os dentes para desatar o nó de cada perna da calça. Enquanto desatava, babava e espumava de raiva, a molecada gritava ao longe:

“Então, Beto, a jabá tá doce ou salgada?”

Arre égua! Era salgada e tinha o ranço da água salobra do Caiçá!

Naquele dia fiquei fulo da vida, mas logo depois passamos a rir do acontecido e fomos comprar mangas no sítio do seu Manoel do Curral. Ele era um senhor sisudo, não tinha tempo para prosa com a meninada e nos causava certo receio: o pomar dele era intocável! Em outros sítios, cajus e mangas não eram comprados. Passávamos pelo meio do meio do arame farpado das cercas e pegávamos os frutos.  Em troca, as camisas eram marcadas com o rasgo provocado pelas farpas do arame. E os rasgos tinham a forma de um “L”, que a garotada interpretava como uma marca feita pela caipora, para sinalizar os meninos que se apropriavam de frutas de sítios que não lhes pertenciam.


Estas lembranças não têm preço... Não importa que me chamem de saudosista inveterado. E daí? Nesta época de infortúnios – de todos os tipos – temos que nos isolar. E o refrigério é reviver o passado, lembrando quando desfrutávamos uma infância e juventude com muita energia, força e felicidade.


É isso...  E a vida continua!


Aracaju, 27/12/2020

BETO DÉDA


sábado, 12 de dezembro de 2020

 

Os novos historiadores de Simão Dias.

 


Amanda e Vanessa
Nesta semana, ao reler o livro “O Queijo e os Vermes” do escritor italiano Carlo Ginzburg, conhecido como o pai da micro história, lembrei-me das jovens e queridas professoras Amanda Santos e Vanessa Nascimento. Elas estiveram me visitando há cerca de um ano para colherem informações sobre acontecimentos de nossa região. Depois de conhecerem um pouco dos meus implacáveis arquivos, passaram a observar os livros que tenho no escritório. Foi então que se detiveram na estante que guardo livros de autores estrangeiros. Recordo-me de suas feições alegres quando identificaram os que faziam parte de suas leituras no curso de Mestrado na Universidade Federal de Sergipe: dentro outros, os de Carlo Ginzburg e de Michel Foucault.


Fiquei feliz em notar que jovens de minha terra estão estudando, lendo e analisando acontecimentos históricos. E melhor ainda, fazem isto com cuidado, perscrutando fatos e registros que embasem seus estudos e trabalhos acadêmicos.


Louvo aqui essa juventude e de modo especial àqueles que nos honraram com suas visitas e da boa conversa que tivemos sobre fatos passados que aconteceram em Simão Dias e em Paripiranga. Em outras oportunidades, além de Amanda e Vanessa, também estiveram nos visitando as dedicadas historiadoras: Rose Oliveira, Vânia Souza, Ana Maria Ferreira Oliveira, Verônica Andrade, Edjan Alencar, Franciele Alves, Adilma Silva e a querida sobrinha e jornalista Yasmin Barreto Déda Chagas.  De igual forma tive a honra de receber o Prof. Jorge Bastos, que em breve estará lançando um livro sobre a História de Simão Dias.

E ao me lembrar dessa inteligente turma, com imensa alegria tomei conhecimento que minha querida e jovem amiga, Professora Amanda Santos, depois de concluir o curso de Mestrado na Universidade Federal de Sergipe, já foi classificada para cursar o Doutorado na Universidade Federal da Bahia. Não foi surpresa. Ela é uma guerreira e estudiosa nota 10 que, com inteligência, usa como arma os livros e a dedicação ao estudo de História. Amanda não descansa e, sempre ativa, participa, via internet, de conclaves em diversas Universidades brasileiras, apresentando trabalhos que evidenciam fatos históricos de nossa terra.


A nova  doutoranda Amanda Santos

Um abraço para os novos historiadores de Simão Dias e, de modo especial, à querida Amanda Santos.


Aracaju, 12/12/2020

Beto Déda

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

DATAS  INESQUECÍVEIS

 

No início deste mês de dezembro reverenciamos  dois queridos e saudosos familiares: José de Carvalho Déda e Marcelo Déda Chagas.


Na data de hoje, primeiro de dezembro, lembramos o dia do nascimento de José de Carvalho Déda – conhecido como Zeca Déda, meu pai e nosso grande mestre e orientador – que nasceu em 01/12/1898.

 

Amanhã, dois de dezembro, é dia de lembranças e orações pelo também querido Marcelo Déda, meu sobrinho, que há sete anos nos deixou.


Foram homens que se destacaram pelo caráter, dignidade e na luta em defesa da justiça e dos menos favorecidos.


Com saudades e sem esquecê-los, estamos orando por eles.


E lembrando os dois, repasso o que disse Marcelo sobre o avô em discurso de posse como Governador do Estado de Sergipe, em 1º de janeiro de 2007:


   “José de Carvalho Déda, Zeca Déda, autodidata, rábula, deputado estadual constituinte em quarenta e sete, deputado estadual por três mandatos, jornalista e folclorista. Era, no prosear roseano do grande mineiro, de uma raça de homens que o senhor não mais vê, mas eu vi ainda. Ele tinha conspeito, esse neologismo criado por Guimarães Rosa. Conspeito, consideração e peito, ele tinha um conspeito tão forte que perto dele até o doutor, o padre e o rico se compunham. Dele carrego o legado ou o carma da minha vocação política.”

 

Amanhã será celebrada uma missa virtual em sufrágio aos sete anos da partida do querido Marcelo Déda deste para outro plano.


 Segue o Convite:

 



 


Aracaju, 01/12/2020

Beto Déda