terça-feira, 15 de setembro de 2015


Lembranças do tempo do BNB e dos irmãos autistas de Lagarto.
 
Nos anos sessenta, a Agência do BNB em Simão Dias era uma das maiores em Crédito Rural do Nordeste. Seu zoneamento alcançava vários municípios de Sergipe e Bahia.
O número de clientes era tal que antes mesmo de iniciar o expediente a porta do Banco era tomada pela clientela, não obstante se ter uma rigorosa e programada agenda de atendimento.
A razão do grande número de interessados eram os baixos encargos dos financiamentos. O Banco financiava a atividade rural com juros 7% ao ano, e nem se falava em correção monetária. Tais financiamentos eram formalizados por contratos de mútuos, com um montão de cláusulas, alguns com pacto adjeto de hipoteca.  A única exceção era o empréstimo para aquisição de bovinos para engorda, realizado com base em uma Resolução nº 64, do Banco Central, e formalizado através de Nota Promissória, com juros de 12% ao ano. Somente após 1967, com o Decreto Lei 167, é que surgiram as Cédulas de Crédito Rural, nas quais se datilografavam as mesmas cláusulas dos contratos e não se admitiam rasuras.  
Máquina de calcular FACIT
Para atendimento de tantos clientes, a agência necessitava um número alto de funcionários. A razão disto é que naquela época todos os documentos e cálculos bancários eram realizados manualmente. Os registros dos cálculos de juros e movimentação dos empréstimos eram feitos em fichas com lápis grafite, conferidos, e depois datilografados e submetidos a nova conferência. De ver-se que tudo era realizado com auxílio apenas das máquinas de datilografia e das calculadoras Facit (máquinas com manivelas que, impulsionadas com o movimento dos dedos, realizavam operações de multiplicar e dividir).
 
Daí a razão pela qual nos concursos para bancários se exigia um razoável conhecimento de cálculos (porcentagem, juros e regra de três), redação, datilografia e contabilidade.
Nos dias de hoje os bancos contam com modernos computadores e dispensam parte da mão de obra. Com os caixas eletrônicos e a movimentação via internet, raramente temos contatos com o reduzido número de bancários.
 
Mas deixemos esta parte pra lá e vamos reavivar a memória com os causos que nos interessam.
 
Pessoal da Agência do BNB nos anos 60
Nos anos sessenta a Agência do BNB em Simão Dias contava com mais de trinta funcionários. O número de colegas era suficiente para realizarmos um campeonato interno de futebol de salão, patrocinado pelo BNB-Clube. O meu time era o Anápolis Futebol Clube (nome que eu sugeri), o grande campeão e que foi notícia no jornal “Comunicado ao Funcionalismo”, editado pela Assessoria de Relações Pública da direção geral do BNB em Fortaleza.
Anápolis Futebol Clube - Equipe campeã do Torneio BNB de Futebol de Salão
Em pé: Adelmo, Juraci e o cunhado de Dagoberto. Agachados: Dagoberto, Edson Caetano e Beto Déda(o artilheiro).

Naquele tempo, andavam pela cidade dois rapazes excepcionais de origem lagartense. Eram irmãos, ambos autistas. Não me recordo o nome deles, mas eram conhecidos como os andarilhos calculistas de Lagarto. Vagueavam por este Brasil afora, endurecendo o couro dos pés. Baixinhos, brancos, com cabelos desalinhados, usando chapéus de palha e calças com as pernas ligeiramente arregaçadas sem cobrir os pés descalços. Um tinha um olhar fixo e vago; o outro, com estrabismo, desviava os olhos para tudo em sua volta, demonstrando uma curiosidade incontrolável.  Um era calado; o outro conversava, era portador da síndrome do sábio ou savantismo (um distúrbio psíquico, com grande habilidade para cálculos matemáticos, instantâneos e com precisão).

Pois bem. Quando eles chegavam à Agência do BNB todos se reuniam para testar as habilidades do excepcional. Em um piscar de olhos, bastando saber a data do aniversário, ele dizia com exatidão o dia da semana em que a pessoa nascera. Com uma memória fantástica ele realizava os cálculos de multiplicar e dividir com uma rapidez impressionante, ganhando de longe para a Facit, que era operada pelo colega Mário Jorge, o mais rápido nos cálculos com referida máquina.

Posteriormente, a Agência recebeu a “moderníssima” máquina elétrica Divisumma GT24, que realizava rapidamente as operações de dividir e multiplicar. Aí, então, aguardamos com interesse o aparecimento dos simpáticos irmãos andarilhos, para se testar a rapidez e a precisão do moço calculista

Calculadora Divisumma GT24
 
 Quando surgiu a oportunidade, registramos em um papel os números com vários dígitos para a realização de operações de multiplicar e dividir. Ao tempo que digitávamos os números para a máquina, informávamos ao autista prodígio. Instantaneamente ele nos dava a resposta, que anotávamos em um papel, enquanto a Divisumma barulhenta agitava o mecanismo para, segundos depois, mostrar o resultado (com atraso, mas igualzinho ao já fornecido pelo excepcional). Ficávamos pasmos. Embora sofresse deficiências psíquicas, o rapaz de Lagarto era imbatível na rapidez e na precisão ao realizar cálculos matemáticos.

Daquela época a esta parte, nunca mais tive notícia dos andarilhos de Lagarto. Possivelmente, se vivo estiver, o autista sábio ainda realize os cálculos com precisão e maior rapidez que os modernos computadores.                                            

Por onde andarão os amigos irmãos autistas dos velhos tempos?





Aracaju, 15/09/2015

Beto Déda
 

terça-feira, 11 de agosto de 2015


       

O velho telefone do Aloque.

Nesta semana tomei conhecimento de que uma pessoa querida foi vítima de um motoqueiro delinquente que roubou seu telefone móvel celular.

Atualmente o celular passou a ter uso generalizado e os bandidos, diante da impunidade, deslizaram do furto para o roubo, ou seja, passaram – descaradamente e usando grave ameaça ou violência a pessoa – a subtrair coisa móvel alheia, para sí ou para outrem.

A lamentável notícia me fez pensar nas mudanças tecnológicas que ocorreram nestes últimos sessenta anos. 

Para os jovens de hoje – acostumados com a velocidade da informação via internet, utilizando o telefone celular, os modernos tablets e usufruindo uma imensa variedade de aparelhos sofisticados – difícil é imaginar como era diferente o nosso tempo de criança, em Simão Dias, no início dos anos 50.

Observando e usufruindo o conjunto de formidáveis mudanças, os setentões, como eu, não perdemos a oportunidade de lembrar como as coisas aconteciam em nossa infância.

Recordo-me que naquela época, em minha cidade, cozinhava-se exclusivamente em fogão de lenha; o uso de geladeira era limitadíssimo (aliás, só existia uma na casa de Dr. Aguiar e, parece-me, funcionava na base de querosene). No bar do Valério tinha uma câmara frigorífica, com salmoura, para fazer picolé e gelar refresco.

Era o tempo em que os estudantes das primeiras letras usavam lousa e lápis de pedra e os mais adiantados usavam pena e tinteiro.

A energia elétrica era rara, o uso mesmo era do candeeiro, da placa (tipo de lampião) ou da pretomax. A energia gerada pela usina de Paulo Afonso foi instalada em nossa cidade no ano de 1964.

Poucos automóveis trafegavam pelas ruas: o jipe de Dr. Salustino e o do Des. Gervásio, o caminhão, tipo pau-de-arara, de Antônio Barbadinho, que levava o pessoal para pegar o trem em Salgado, e o caminhão de carga chamado “luxinho” de Seu Joaquim Sotero.

O automóvel de aluguel era uma “fobica”, também conhecida como “ford bigode”, de Manuel Ventinha, um senhor narigudo que morava em frente  ADS(Associação Desportiva Simão-diense), clube que anos depois passou a ser chamado de Caiçara Clube. 




Naquela época não existia linha telefônica na cidade. Mas me lembro de que o tio Paulo Déda inovou, colocando um telefone de linha fixa entre o Aloque e a Sapataria. Era um telefone de parede, daqueles que se usava uma manivela pra fazer a chamada.

Naquele tempo, estimulados pela novidade do tio Paulo, brincávamos de telefone usando caixas de fósforo (parte em que ficam os palitos) interligadas por um pedaço de linha. Era uma experiência rudimentar de acústica e propagação de ondas sonoras, utilizando o principio adotado pelo italiano Antonio Meucci (reconhecido pelo Congresso dos Estados Unidos, em 2002, como o verdadeiro inventor do telefone, que antes acreditávamos ter sido inventado pelo escocês Graham Bell).

Era uma brincadeira comum dos garotos da época. O cuidado era esticar a linha de modo a facilitar a propagação do som. Um garoto falava próximo à caixa de fósforos, enquanto o outro colava a outra caixa ao ouvido.  

Foi justo em uma dessas brincadeiras que derrotei, com socos, um guri alto, chamado Zelito, que costumava me bater. Estava na Praça de São João brincando de telefone com o amigo Simão, quando apareceu o Zelito e quebrou a linha. Enfurecido e descontrolado esmurrei de tal forma o fanfarrão que, depois dessa, ele nunca mais me importunou. E esse fato ficou gravado em minha memória como o dia da desforra.
...

 Ainda sobre o telefone de tio Paulo; lembro-me que em 1969, quando fiz minha primeira viagem ao Rio de Janeiro, em conversa com minha saudosa prima Nice Déda – mãe de Eneide Déda e irmã de Necy – ouvi um relato interessante. Dizia ela que meu tio, logo depois de instalar seu telefone entre o cortume e a casa comercial, não perdia oportunidade de fazer gozação com as pessoas que usavam os vocábulos “linha” e “aparelho” (este último termo era sinônimo de telefone e de latrina). Minha prima narrava mais ou menos o seguinte:
Quando alguém ligava o telefone e indagava:

      - Alô! Quem está na linha?

O tio Paulo, com seu humor inconfundível, respondia:

     - O trem... O anzol... A agulha...

E complementava:

       - Você que está no “aparelho”: lembre-se de dar descarga depois de usá-lo...

E ria à beça

Aracaju, 03/08/2015          

Beto Déda

terça-feira, 21 de julho de 2015

Fazendo cinema com Wellington e teatro com Manuel de Dona Tude.


Rua Antônio Alexandrino, Simão Dias (Foto Beto Déda)
A casa de tia Vina Déda ficava na Rua Antônio Alexandrino, em Simão Dias. Antigamente aquela rua era chamada de Rua da Lama, porque ficava em uma região brejosa. Atualmente tem o nome de Rua Jairo do Prado Dantas.  A rua começava na esquina da casa do Sr. Zezé Saturnino, que ficava próxima à padaria de Gumercindo e se estendia até a bodega do Seu Gabino, situada na esquina da travessa que ia ao Tanque Novo. Lembro-me que naquele trecho moravam também as famílias de Seu José Cágado, de  Luiz Barbeiro, de  Lulu Italiano, de Pedro Cavaleiro e de meu tio João Déda, que era vizinho à Igreja Presbiteriana.
Foi justamente na sala da frente da casa de tia Vina que eu e o primo Wellington nos associamos e fabricamos o nosso cinema especial: um projetor de quadros de fitas de cinema. Era um modelo conhecido dos garotos curiosos da época. Uma caixa feita com madeira de embalagem de sabão-pintado (um tipo de sabão em barra muito conhecido), com uma lâmpada cheia de água (que funcionava como uma lente) e uma vela.   Colocava o quadro invertido em frente à lâmpada cheia de água, acendia a vela e a imagem saía por um orifício da caixa, sendo projetada na parede em frente.
Pois bem. Saíamos pela rua anunciando entre os garotos a sessão de “cinema” e cobrávamos centavos pelo ingresso. Era um sucesso. Os quadros mais solicitados: Marlene Dietrich, Bill Elliott, Monte Hale, Durango Kid (Charles Starrett), Smiley Burnette (chamado de Manequinha), Hopalong Cassidy, Lana Turner, Flash Gordon (Buster Crabber) e outros.
A sala de visitas da casa de tia Vina ficava lotada dos meninos da vizinhança. O cinema foi um sucesso enquanto durou o interesse pelos quadros repetidos. O encerramento foi decretado por minha tia depois de um entrevero que tivemos com os filhos de Seu Zezé Saturnino. Foi soco pra todo lado e um pontapé inesperado espatifou o nosso projetor.  
Mas o sucesso não se restringia à brincadeira do cinema de quadros. Também brincávamos de teatro. Nessa empreitada o sócio não era o primo Wellington, mas o amigo Manoel de Dona Tude (Naquela época associávamos sempre o nome do garoto aos seus pais ou mães: Wellington de Dona Vina, Beto de Seu Zeca Déda, Manoel de D. Tude, Hamilton de Seu Chico Ferreira, Júlio de Seu Pierre, Rubens de Seu João Cândido, Simão de Seu Antônio Gomes, Tonho de Manequinha e por aí vai...)
Dona Tude morava, então, no primeiro trecho da Rua do Coité, quase em frente à casa de Seu Antonio Barbadinho.
Trecho da Rua do Coité (Foto Beto Déda)
Pois bem.  Acertei com Manoel fazermos um teatro em sua casa. Iniciamos os preparativos e anunciamos para a meninada a noite de estreia e que  cobraríamos centavos pelo ingresso.  Trabalhando em sua máquina de costura, Dona Tude percebeu nosso movimento e, com seu riso encantador, nos deu todo apoio e, ainda mais: resolveu participar da peça. Ela tocava bandolim, fazia o fundo musical e nos orientou no roteiro, inclusive adicionando uma parte em que ela atuaria.
Sua participação acontecia no último ato, o mais engraçado de todos, que tinha o título chistoso de “A rumbeira e o pajem”. A música era uma rumba muito em voga na época. Dona Tude se pintava com muito alvaiade e um ruge bem vermelho, usava travesseiros para mostrar maior volume em partes do corpo. Eu era o pajem que acompanhava a rumbeira. Meu rosto também era pintado e eu segurava um abano (nada de leque fino, era um abano mesmo, daqueles de pindobas que se usava para ativar as brasas em fogão de lenha).
Anunciado o ato por Manoel, tocavam a rumba e entrava Dona Tude, dançando, engraçadíssima. Eu aparecia em seguida, com o abano, ventilando a traseira da rumbeira, que mexia as cadeiras de tal forma que a sala estremecia de tantas gargalhadas, inclusive ela própria, cuja risada era inconfundível. E me provocava:
- Abana pajem Beto, para aumentar o fogo!
Eu acelerava o ritmo da ventilação e ela empolgava todos com seu sacolejo jocoso.
Ainda hoje parece que estou ouvindo sua risada estrondosa e espontânea, acompanhando o delírio da plateia mirim.
Alegres e inesquecíveis dias...

Aracaju, 20/07/2015
Beto Déda

quarta-feira, 8 de julho de 2015


O refresco de maçã da dupla Wellington & Carlos.

Recentemente, revendo um programa do Chaves, humorista mexicano, em cena que  ele vendia sucos em uma barraquinha, lembrei-me de dois fatos guardados nos labirintos de minha memória.

1.  Suco ou refresco?
 
Quando eu trabalhava no BNB, eu e um colega fomos à cidade de Estância fazer uma inspeção em uma indústria de sucos. No escritório da firma, foi-nos servida uma jarra de suco de laranja.  Agradecido, olhei para o companheiro de equipe e exclamei:

- Que bom, agora vamos saborear um refresco...

Fui interrompido pelo gerente da empresa, que me corrigiu:

- Isto não é “refresco” é suco da melhor qualidade.

Minha resposta não tardou:

- Ora, ora, meu amigo. É uma pena que seja suco, porque o que gosto mesmo é de refresco.

Ouvindo esse diálogo, o colega indagou:

- Mas qual é a diferença?

Então o posudo gerente esclareceu que o suco era de melhor qualidade porque mais consistente, mais grosso, processado com bastante polpa de frutas.  Enquanto o tal “REFRESCO” é ralo, feito com menos polpa e de qualidade e sabor inferiores.

Retruquei que tudo era questão de gosto. Afirmei que minha preferência era pelo refresco e justifiquei. Quando eu criança em Simão Dias, sempre gostei de saborear os refrescos de frutas feitos por seu João Fontes, na sorveteria do Seu Valério. Era aguado, porque se economizava não só na polpa de frutas como também na quantidade açúcar. Mas era bom danado...

Mesmo assim, nunca deixei de respeitar as opiniões divergentes.  Tanto que, ainda hoje, em minha casa, democraticamente, peço para fazerem refresco pra mim e suco para os filhos.

1.  O refresco de Wellington e Carlos

No início dos anos 50, em Simão Dias, os garotos primavam pela criatividade em suas brincadeiras, muitas vezes procurando meios de melhorar sua mesada.  Neste sentido, lembro-me que, certa vez, Wellington, meu primo, e Carlos, meu irmão, se associaram para vender refresco em frente à feira dos animais, que ficava vizinho ao “Aloque” de tio Paulo (Rua das sete casas).

Em um caldeirão improvisado (igual ao do Chaves) eles faziam o refresco de maçã, uma mistura de água, açúcar e um aromatizante que  adquiriam na Farmácia de Seu Manoel Dantas. O negócio ia de vento em popa. Porém... ai porém... Eis que faltou na farmácia o produto  que dava sabor de maçã e cor vermelha ao refresco.

A falta do aromatizante não inibiu os jovens sócios. A criatividade estava sempre ao lado deles. E a solução era um produto substituo. Foram à farmácia de seu Manoel Dantas e compraram um pacote de anilina vermelha, dessas que se usam na tintura de tecidos. E fizeram o refresco com muito limão, açúcar e o tal corante.

No domingo, ao sair do culto evangélico, seu Manoel Dantas indagou se tia Vina estava tingindo roupas, referindo-se à aquisição feita por Wellington.

Com a indagação do farmacêutico, tia Vina se lembrou da folia dos meninos e da venda do refresco. Resultado: proibiu de continuarem com o comércio e determinou resolução da sociedade mirim.

Mas o pior é que não se podia dar um jeito no que já fora realizado. E o efeito foi devastador. No sábado seguinte, alguns feirantes já estavam marcados: mostravam manchas da tintura vermelha do refresco nas calças.

O corante escorrera no mijo, respingando e marcando a braguilha dos desatentos fregueses.

Aracaju, 07/07/2015

Beto Déda

terça-feira, 30 de junho de 2015


Os sapatos do Padre Pedro

 Recentemente, ao comentar minhas lembranças do Ginásio Jackson de Figueiredo, meu amigo e colega Ubiratan Mendes fez referência à memória da Professora Zamor de Melo e aproveitou a oportunidade para lembrar outro sergipano inesquecível: o Padre Pedro.
A Professora Zamor de Melo tinha origem em Aquidabã e era tia dos amigos benebeanos Antônio Carlos Melo Maynard, que foi meu colega nas Agências do Banco do Nordeste, em Simão Dias e em Aracaju, e Alberto Maynard, que foi o Chefe do Departamento de Auditoria na Direção Geral daquele banco, em Fortaleza.
O padre Pedro (Pedro Alves de Oliveira) era de Riachão Dantas.  Aqui em Aracaju ele notabilizou-se por sua fé e por seu trabalho de dedicação ao próximo. Seguia cuidadosamente os ensinamentos de Cristo, dedicando-se aos menos favorecidos. Ele foi considerado o sergipano mais importante dos últimos 100 anos, em enquete patrocinada pela TV Sergipe, no ano 2000. Seus familiares são personalidades do meio cultural sergipano: os artistas plásticos J. Inácio, seu irmão, e CAÃ, seu sobrinho; e o professor da Universidade Federal de Sergipe: Rafael Oliveira, também seu irmão.
O padre e a professora tinham em comum o respeito e a admiração do povo sergipano.
Padre Pedro
 Foto do  http://aracajuantigga.blogspot 
Conheci o Padre Pedro quando eu era aluno do Ginásio Jackson de Figueiredo, um colégio de ensino católico. Os alunos internos frequentavam a missa dominical na Catedral, ministrada pelo Bispo Dom Távora, conhecido como o bispo dos operários. O Padre Pedro ajudava nas festas da principal igreja do bispado. Todo ano, na véspera do domingo de páscoa, os estudantes faziam a confissão para comungarem na missa pascal. A Catedral ficava repleta de juventude e o confessionário do Padre Pedro era logo identificado pela longa fila de jovens. A moçada preferia se confessar com o padre que não esmiuçava nem procurava detalhes das faltas reveladas, ouvia de relance os pecados e recomendava que o pecador rezasse três padre-nossos e três ave-marias na contrição de não mais pecar, pedindo a absolvição dos erros cometidos. Padre Pedro era o exemplo de um verdadeiro sacerdote.
Certa vez, comentando sobre o comportamento de um vigário do interior sergipano, disse-me meu tio Paulo Déda que conhecera muitos padres, a maioria dedicados à religião, mas que um deles se distinguia por sua dedicação em seguir os ideais humanitários pregados por Jesus, especialmente no que dizia respeito à solidariedade aos indefesos e o amor aos pobres e humildes. Dizia ele, com absoluta razão, que esse padre chamava-se Pedro, seu conterrâneo de Riachão do Dantas. E, então, contou-me um fato curioso que repasso aqui.
Em um dia de inverno, estava meu tio em sua loja, Esquina da Economia, a conversar com o Sr. Camilo, que também era proprietário de uma casa comercial ali próximo. Observaram  que  em frente à loja o Padre Pedro prestava ajuda a um faminto mendigo. Com seu alhar perspicaz de sapateiro, o tio Paulo percebeu que o padre usava sapatos rotos, velhos mesmo. Convidou-o a entrar na loja e o convenceu a aceitar um par de sapatos novos como presente. O padre não teve como evitar a oferta, porque os sapatos velhos e furados causavam dores em seus pequenos pés devido a umidade, ocasionada pelas pisadas em calçadas molhadas, e as pedrinhas que entravam pelos buracos no solado. Agradecido, o padre aceitou o presente.
Na semana seguinte, meu tio constatou que o padre voltara a usar sapatos rotos. Não se conteve e perguntou o que tinha acontecido. E o bondoso padre disse que, em sua caminhada pelas ruas de Aracaju, deparou-se com um pobre trabalhador que usava sapatos velhos, ruins mesmo, e não se conteve: passou-lhe seus sapatos novos em troca dos velhos. Meu tio, sentindo a solidariedade aflorar na expressão do humilde conterrâneo, pegou novo par de calçados e relutou para que o padre os recebesse. Somente depois de muita conversa é que o bom Pedro concordou com o novo presente.
Mas foi a última vez porque, poucos dias depois, em passos ligeiros, o Padre Pedro passava em frente à loja, usando as inseparáveis batina preta e bolsa ao lado, calçando sapatos velhos e rotos.
E concluía meu tio:
- Esse era realmente um padre “santo”.
Aracaju, 29/06/2015
Beto Déda

sábado, 20 de junho de 2015


A Silabada e o apelo da colocação pronominal
 
Fui aluno de excelentes professoras no curso primário, no Grupo Escolar Fausto Cardoso, em Simão Dias. Foi lá que aprendi os primeiros ensinamentos escolares das inesquecíveis professoras: Olda do Prado Dantas, Iolanda Montalvão, Rita Guimarães e Mileta Oliveira.
 
Em 1957, realizei meu exame de admissão ao Ginásio Jackson de Figueiredo. Ao final de uma das provas orais, tive a alegria de ouvir da examinadora, Professora Zamor de Melo, um elogio merecido às minhas professoras do Grupo Fausto Cardoso.
Já estudando no Jackson, também tive a honra de ser aluno da Professora Zamor, que ensinava Português, e de sua irmã, Profª. Normélia Melo, que lecionava Matemática
.
Embora me dedicasse a acompanhar as lições de minhas mestras, a verdade é que, fora dos muros escolares, nunca tive tesão em me dedicar ao estudo cuidadoso de nossa gramática.
 
Nos primeiros dias no ginásio, em uma aula de Matemática, a Prof. Normélia determinou que eu lesse uma das questões para solução em sala de aula. Meio acanhado, levantei-me e comecei a ler:
- Determinar a medida do “IN...VO...LU...CRO”...
 
Fui imediatamente interrompido pela Professora, pedindo que pronunciasse cuidadosamente a última palavra.
 
Olhei para o livro e indaguei aos meus botões: - Que diabo de palavra é essa?
 
Vacilei um pouco e repeti: IN-VO-LUU-CRO, dando maior ênfase à sílaba “LU”, acreditando se tratar de uma palavra paroxítona.
 
Ouvi o zumbido do “UHHH” e as risadinhas da turma. Fiquei pálido. Amarelei. Com a cabeça baixa, a boca amarga, eu olhei para a professora que veio em meu socorro.
 
A Professora Normélia explicou-me, então, que aquela palavra era proparoxítona, ou seja, sua sílaba mais forte (sílaba tônica) é a terceira da direita para a esquerda, ensinando-me a pronúncia correta, que eu repeti para a turma: IN-VÓ-LU-CRO. Acrescentou ainda que o acento agudo na sílaba “”, antepenúltima sílaba, era um indicativo das palavras proparoxítonas.
 
Ciente da silabada cometida, a explicação da mestra foi o gancho para minha justificativa. Reanimei-me e esclareci que, infelizmente, a página do meu livro estava borrada e não aparecia o acento agudo, identificador das palavras proparoxítonas. Mostrei o livro à professora e fui redimido.
O certo é que em minha memória ficou gravado o vexame sofrido e nunca esqueci a pronúncia e o significado da tal palavra.
 
Ao me lembrar do tempo do Ginásio Jackson de Figueiredo e de regras de nossa gramática, recordo-me também de um fato pitoresco vivido pelo conterrâneo Jorge Almeida. Ele e muitos outros simãodienses foram meus colegas no internato daquele colégio.
 
Certa noite, depois de ser determinada a hora de silêncio, o Jorge continuou conversando e fazendo barulho no dormitório. O bedel, que cuidava da disciplina naquele local, percebendo que a norma do silencio fora desrespeitada, determinou o castigo: Jorge teria de ficar de pé, em frente à porta de entrada do dormitório.
 
O garoto se fez de rogado e não atendeu.
 
Então o encarregado falou grosso: - Vai atender ou não?
 
E a resposta do Jorge veio na forma da lição sobre colocação pronominal, aprendida na aula de Português daquele dia:
- Meu amigo, eu só vou porque PRÓCLISE pediu, MESÓCLISE implorou e ÊNCLISE determinou...
 
E o riso dominou a moçada do dormitório naquela noite, inclusive o bedel...
 
Aracaju, 18/06/2015
Beto Déda
 


terça-feira, 16 de junho de 2015


O fanho e a soda

Nos velhos tempos, quando tio Paulo tinha a fábrica de calçados SIDON, em Simão Dias, ele construiu sete casas para os operários, em área vizinha à loja da fábrica. A rua passou a ser conhecida como Rua das Sete Casas. Quando ele veio para Aracaju, transferiu a fábrica para um prédio que construiu na Rua Basílio Rocha, no Bairro Siqueira Campos, conhecido como bairro Aribé. Ali ele também ele construiu casinhas e quitinetes, anexos à fábrica, para facilitar a vida dos operários que vinham de Simão Dias.

Recentemente, em conversa com o querido sobrinho Déda, filho do meu cunhado Haroldo, ele lembrava um fato contado por tio Paulo.

Dizia meu tio que em uma das casas da fábrica, aqui em Aracaju, morava um jovem aprendiz de sapateiro que era fanho ou “foên”, como se dizia em Simão Dias. Além de parecer falar pelo nariz, o rapaz era dislálico, ou seja, sofria de um distúrbio da fala, apresentando dificuldade na articulação das palavras. Em sua pronúncia “foên” também trocava as letras, em consequência da dislalia. Dizia que estava aprendendo a fazer  “fapatu”, que gostava de “Tota-Tola” e tinha medo de “fapu”.

Para testar a pronúncia do garoto, tio Paulo provocava:
- Olá, Madeirinha, diga rápido, três vezes seguida, a frase: “Lombo cru”.
 Prestimoso e conhecendo o efeito da pronúncia rápida, o moço não se fazia de rogado, repetia a frase, trocando e omitindo letras, alterando o sentido.

Uma tarde, um colega do fanho pediu que ele fosse comprar um refrigerante SODA em um bar próximo ao prédio da fábrica, em frente à estação ferroviária.
 Com timidez, o garoto chegou ao bar e falou baixinho para a garçonete:
 - “Moça, eu quero uma fo...fo...da”.

Surpresa e duvidando do estranho pedido, a garçonete encarou o pobre mancebo e indagou o que realmente ele tinha pedido.

- Ora - disse ele - pedi a você uma foda, ligeirinho...

Ao ouvir a resposta e sentido que sua suspeita estava confirma, a moça fez um escarcéu danado e não tardou chegar o dono do bar que queria surrar o moço, pensando se tratar de um malandro tarado.

E ele não apanhou porque correu até a fábrica onde foi socorrido pelos colegas, que explicaram ao irritado proprietário do bar o distúrbio da fala do inocente “foên” que, dislálico, trocava a letra “S” por “F”.
 
Aracaju, 28/05/2015.
Beto Déda