terça-feira, 3 de abril de 2018


LONGE DA INTERNET E SONHANDO COM AS GAROTAS DOS BONS TEMPOS.

Estive ausente da internet e em especial das redes sociais já faz alguns dias. Estava no Lago Dourado, fazendo coisas próprias de aposentado. Procurando criar alguma novidade, tentando, sem parar, livrar minha mente daqueles que tentam empurrar nosso país para a intolerância e o fascismo.

Nestes últimos trinta dias eu procurei ficar longe das tendenciosas notícias dos comprometidos meios de comunicação e afastar-me das maldições dos que aqui, perto de nossa gente, mentem e atacam de modo impensado, deixando-nos perplexos, decepcionados e entristecidos.

Estamos vivendo momentos terríveis, com patifes tomando conta do país. Uma lástima!

Mas, lancemos as coisas ruins para longe. 

Na verdade, aproveitei o tempo para pensar em coisas boas. Toda tarde sentava-me à margem do Lago Dourado, apreciando os patos selvagens, os passarinhos, os peixes e os camaleões. Eram momentos que me embriagavam com a beleza do entardecer. Lindo que só vendo para sentir. Especialmente para quem já passou por muitos estágios da vida. Momentos maravilhosos, de prece e sossego.

Confesso que nas tardinhas, lá no Lago Dourado, deixava a porteira de minha memória livre para passarem as lembranças prazerosas dos bons tempos. Em uma das tardes, surgiram recordações de meninas e moças encantadoras que passaram por minha vida. As que comigo compartilharam brincadeiras e namoros na Rua dos Ribeiros e Praça da Matriz em minha terra. E também aquelas que passeavam pela Praça Fausto Cardoso, em Aracaju, ou no Bairro Barris, na cidade que chamávamos Bahia e que hoje é conhecida como Salvador. Sem esquecer as queridas e amadas garotas de Paripiranga, a famosa Paris baiana. Meninas e moças lindas, charmosas, com cabelos em tranças longas, ou encaracolados, com cortes frontais, tipo simpatia, macios ou crespos, todos bonitos e agradáveis de apalpar com as duas mãos.

Sentado no píer do Lago, pensei em  cada uma delas, as moreninhas, as loiras, as encantadoras cor de café; todas renasceram no meu pensamento, tal como viviam nos felizes anos de minha infância e juventude. Todas inesquecíveis e lembro os detalhes de cada uma delas. Lindas, amáveis e que o tempo não apaga de minha memória. As lembranças se repetiram em dias seguidos e renovaram minhas forças.

Então, na última tarde de devaneio, indaguei aos meus botões:

- Mas, por onde andam essas garotas?

Depois de uma pausa para  reflexão, percebi que não sei o destino da maioria delas. Certamente hoje estão todas mudadas fisicamente ou, talvez, algumas nem estejam em nosso mundo. O que sei é que, para mim, continuam todas elas meninas e garotas, lindas, sorridentes e esbanjando ternura e, tal qual antigamente, animando meu coração...

E lá, olhando o lento remanso das águas do lago, orei por todas elas, sem exceção, pois no meu pensamento continuam jovens, lindas, graciosas, alegres e amadas.

E elas enchem meu pensar de felicidades.


Aracaju, 03/04/2018
BETO DÉDA

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018


UM CANCIONEIRO ARGENTINO EM SIMÃO DIAS.


Nesta semana estiveram me visitando as amigas Amanda e Vanessa que vão fazer o mestrado em história na Universidade Federal de Sergipe. Conversamos sobre diversos temas ligados à história recente de Simão Dias e Paripiranga, onde elas residem.

Folheei minhas coleções de jornais para esclarecer alguns assuntos e deparei-me com fatos que, depois que elas saíram, fizeram-me recordar do final de 1968, quando eu trabalhava   no Banco do Nordeste, em minha terra natal. Naquela época, além de bancário eu era editor e diretor do jornal “A Semana”, fundado pelo meu saudoso pai, José de Carvalho Déda.

Lembro-me, como se fosse hoje,  que em uma tarde do final daquele ano, chegando à redação do jornal, o Luiz Santa Bárbara (que era o chefe das oficinas e repórter esportivo) disse-me que estava ali um artista argentino que queria falar comigo.

Então um senhor idoso apresentou-se como Antônio José, dizendo-se  artista profissional vindo de  Buenos Aires. Era um cancioneiro que pretendia se apresentar ao povo simãodiense em espetáculo a ser realizado no Cine Brasil. Esclareceu-me que seriam apresentadas canções românticas entrelaçadas com o bom humor de seu personagem brincalhão, denominado Chupetinha de Azucar.

Feita a apresentação, indagou-me se seria publicada uma nota sobre seu espetáculo e, para ilustrar o jornal, ofereceu emprestado um clichê com foto de seu show em uma sala do Lions Clube do Brasil. 

Publiquei a notícia do Cancioneiro Argentino, ilustrada com a foto, anunciando a apresentação para o dia 30/12/1968, uma segunda-feira.

Lembro-me que perguntei ao idoso artista por que escolhera segunda-feira, dia 30 de dezembro, para seu show. Ele respondeu que não foi possível outra data, porquanto o proprietário do cinema não abria mão dos dias de sexta-feira, sábado e domingo, porque eram noites sempre  comprometidos com programas lucrativos de exibição de filmes.  Restou-lhe, então, a segunda-feira.  

Sem saber, ou talvez sabendo, o seresteiro menosprezou a tradição de nossa gente, que se resguardava em evitar compromissos para a segunda-feira, ainda mais na antevéspera de ano novo, quando se poupava energias  para a grande festa no largo da rua da feira, virando a noite, em comemoração ao  início de 1969.

No domingo pela manhã, surpreendi o artista pregando pequenos anúncios nas palmeiras imperiais da praça. Usava pregos adquiridos na barraca de Geonides, filho de Anita Pichincha. Os cartazes anunciavam o espetáculo para a segunda-feira. 
  
Naquela época o Banco do Nordeste ficava na Rua do Coité, na esquina com a Rua Dr. Joviniano de Carvalho, em frente ao Bar de Valério, e na esquina ao lado ficava o prédio do Cine Brasil, de propriedade do Seu Antônio Resende.

Na noite daquela segunda-feira, todos os bancários, especialmente os que trabalhavam  no setor de crédito rural, fazíamos serão, para fechar o balanço anual da agência, de modo a remetê-lo para a direção geral do banco, em Fortaleza, no dia 31 de dezembro. 

Naquele tempo não existia computador e o trabalho era manual, com máquinas “facit”, utilizadas para calcular os encargos bancários sobre  os milhares de financiamentos concedidos pela agência.  Todos os benebeanos eram envolvidos nos trabalhos e não se permitia ausências, nem o gozo de férias no mês de dezembro.

Pois bem. Naquela noite, no andar superior do prédio do banco, escutávamos a voz do cancioneiro argentino sem, contudo, avaliarmos sua performance, isto porque não ouvíamos qualquer  manifestação da plateia.

Já tarde da noite, quando deixávamos os trabalhos, soubemos que o show tinha sido um fiásco. Fracasso de público. Apenas meia dúzia de gatos pingados. Com a bilheteria fraca, o resultado não dera para pagar o arrendamento do cinema. Ao perceber o insucesso, o proprietário da casa de espetáculos não vacilou em aplicar o provérbio popular: - Farinha pouca, meu pirão primeiro! E se apropriou da minguada renda.

Soubemos também que o cancioneiro ficara aflito diante da impossibilidade de pagar as despesas com sua estadia no Hotel dos Viajantes.

Saímos do banco e fomos a um bar no Bonfim de Baixo, tomar cerveja e saborear um bom tira-gosto. Lá estávamos: eu, Zé Carlos Déda, Gilberto Duarte, Zé Aloísio, Zé Maria, Heribaldo, Edson Freire, Adelmo Fontes e João de Mané Zabé; este último prestava serviços esparsos aos bancários.

Depois da primeira cerveja aberta, enviamos João de Mané Zabé à procura do cancioneiro para convidá-lo a cantar, tomar uma  cerveja e, ao final, receber da turma uma pequena renda, de modo o cobrir parte da despesa com o hotel.

Pouco depois, o João retornava com a notícia de que  o velho argentino não fora encontrado. E o porteiro do hotel informara que o artista, disfarçado em Chupetinha de Azucar,  escafedera, sem deixar vestígios de seu destino.

O portenho  pendurou no prego a conta das despesas de quatro dias,  registradas em notas que passaram a figurar entre os alfarrábios de despesas não pagas ao hotel. 

No outro dia, o insucesso do cancioneiro e seu desaparecimento foram assuntos em primeira pauta da cidade.

Surgiram, então, várias versões sobre o acontecido. Nenhuma confirmada.

 Diziam os fofoqueiros  que, na hora do frigir dos ovos,  o hotel  procurou se defender e o violão do cancioneiro ficou empenhado, garantindo o futuro resgate do débito...

Alguns informavam que o cancioneiro fora visto lá pelas bandas de Monte Santo, na Bahia, cantando músicas sacras em espanhol. Outros afirmavam que ele, incorporando o personagem Chupetinha de Azucar, se apresentava aos viajantes no navio Tupã no trajeto Propriá-Penedo, pelo Rio São Francisco.

E à noite, na praça da matriz, nos diários encontros em frente à Igreja Matriz, um trio de amigos inseparáveis (Fila, Dedé e Chico Bina) discutira por vários reuniões o destino do cancioneiro. Chegaram a duvidosa conclusão da possibilidade do portenho ter largado o personagem hilário de  Azucar e que estaria se apresentando  com outro nome no eixo  Recife/Fortaleza. Especulação sem fundamento, rechaçada por  pessoas de franco conhecimento.

Mas a verdade é que até hoje não foi sabido o destino do cancioneiro e o do seu violão.  Mesmo consultando conterrâneos que viveram aqueles dias, constatei que ainda não foi desfeita a controvérsia sobre o que realmente aconteceu.

 O que ficou patente, em minha terra, é que a segunda-feira não é um dia propício para show. Especialmente se for na antevéspera do Ano Novo.

Certamente o Chupetinha de Azucar nunca esqueceu essa assertiva. 



ARACAJU, 28/02/2018
BETO DÉDA

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Os patifes estão trocando o nosso Brasil pelo “Brazil” que os outros querem.


Acontecimentos recentes fizeram-se recordar a leitura de um livro didático que, nos anos 50, fazia parte da grade curricular do Grupo Escolar Fausto Cardoso, em Simão Dias.

O texto descrevia uma reunião de patrícios que procuravam reunir forças para combater a invasão Holandesa, em episódio histórico conhecido como a Insurreição Pernambucana.

Nunca esqueci parte daquela leitura. E tento, agora, num esforço de memória, transmitir essa lembrança. O texto parece-me que dizia o seguinte:
“Na quietude do rancho, sob a luz lúgubre de um candeeiro, dizia André Vidal de Negreiros:
 Tudo perdido, meu caro João Fernandes Vieira... Tudo perdido... Olinda vai se tornar Holanda! É a simples troca de um ‘i’ em ‘a’. Olinda vai se tornar Holanda...”

O texto seguia demonstrando o interesse dos insurretos em lutarem para evitar que os holandeses consolidassem a invasão. Lutaram bravamente e conseguiram derrotar os invasores no ano de 1654, sob o comando de André Vidal de Negreiros, João Fernandes Vieira, Henrique Dias e Felipe Camarão.

Antigamente as lutas entre invasores e patriotas eram sangrentas, valendo-se de trabucos.

Hoje os ataques à nação acontecem sorrateiramente.

Com o passar dos tempos e diante de conquistas não consolidadas, os imperialistas e donos do capital mudaram a estratégia. Atualmente eles optaram em buscar aliados nos países que pretendem explorar. E utilizam todas as formas para conseguirem seus intentos. Favorecem estágios e cursos em seus domínios, especialmente para os que têm potencial para o poder (além de políticos eles agora investem em membros da justiça). Daí então – massageando o ego de alguns, acolhendo interesses de outros e, também, inflando os bolsos dos gananciosos – estimulam a adoção de medidas que lhe são favoráveis. Esta é a nova ideia que se tem da força imperialista que estimula golpes em países sul-americanos e, na atualidade, atinge a democracia brasileira.

No lugar de armas, utilizam métodos de lavagem cerebral, usam os meios de comunicação para o aliciamento dos incautos e fomentam ideologias e preferências na aplicação da justiça. Não é à toa que dão guarida a inversão dos normativos jurídicos, em absurdas teses que ofendem conceitos universalmente consolidados.  Então, robustecem aqueles que, em defesa do interesse dos donos do puder, atingem de modo contundente a frágil democracia brasileira. 



Na sequência de agressões não faltaram: a) o golpe contra uma presidente eleita; b) a assunção de um governo ilegítimo, formado por uma equipe desacreditada e com provas substanciais de corrupção; c) a entrega do patrimônio nacional para empresas estrangeiras; d) a redução de direitos, que acreditávamos de cláusula pétrea, da classe trabalhadora; e outros atos de lesa-pátria.

O pior é que os patifes anularam meu voto na última eleição. Agora, querem inviabilizar um direito que é meu (e o da maioria dos brasileiros) de escolher o presidente do meu país. E encontram força nos poderosos donos do capital, nos que sofreram lavagem cerebral do Tio Sam, nos que defendem o próprio umbigo, e naqueles da classe média que pouco se preocupam com a nação e, indiferentes, assistem as riquezas do país vilipendiadas pelo opressor imperialista.

Finalizando, sob a nuvem escura do nefasto arbítrio, lembro a leitura do meu tempo de criança, no Grupo Escolar Fausto Cardoso, e atualizo a frase de André Vidal de Negreiros:

Tudo perdido, tudo perdido. É a simples troca de um “S” por um “Z”, o Brasil vai se tornar “Brazil”.

Lamentavelmente, tudo como Tio Sam manda e quer...
  

Aracaju, 31/01/2018

BETO DÉDA

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Dezembro alegre.

Uma amiga indagou-me com insistência sobre minha ausência nas redes sociais durante o mês de dezembro. Com real apreensão, perguntou-me ela:

- Estás bem de saúde? Por onde andas? 

E eu respondi, cantarolando parte do hino das Filhas de Maria da paróquia de Simão Dias:

 - Estou “na luta forte e gloriosa do apostolado da aração”...

Na verdade a preocupação de minha amiga procede, especialmente porque sou idoso. Diante de minha ausência aqui, em que dou pitacos sobre o passado, a primeira indagação da preocupada amiga é se fui vítima de uma queda ou um desarranjo intestinal (males que levam pessoas de idade, como eu, desta para outra vida).

Recebendo o autógrafo de Artur
Felizmente nenhum desses males me ocorreu. Estava no sítio, cuidando dos jardins, criando armengues em minha oficina e brincando com meus filhos e netos. E ainda tive tempo de comparecer a dois eventos maravilhosos, com meus irmãos.

Laçamento do livro do irmão Artur
O lançamento da 2ª Edição do livro “História de Vários Tempos” de meu irmão, Artur Oscar de Oliveira Déda, que aconteceu no Museu da Gente Sergipana.








O casamento de Tainan
Com os irmãos Flamarion e Albérico
O casamento de minha querida sobrinha Tainan Déda (com Rômulo Melo), em que tive a honra de ser padrinho. O interessante é que o enlace de Tainan ocorreu no dia 9 de dezembro, ocasião em que eu e Leninha comemorávamos 48 anos de casados (casamos no dia 09 de dezembro de 1969).


E, no dia 24 de dezembro, como sempre acontece no Lago Dourado, usei meu traje de Papai Noel para alegrar meus netos e os garotos da redondeza.


Natal de 2017 no Lago Dourado

Tem muita gente que não gosta de falar sobre o Papai Noel. Alegam que é coisa de menino bobo. Respeito a opinião, mas, aqui para meus botões, quando eu era garoto eu acreditei no “bom velhinho” e colocava os sapatos na frente da cama para facilitar a entrega do presente, no decorrer da noite de Natal. E, com o passar dos tempos infantis, fiquei triste ao saber que “Papai Noel” era uma fantasia.

Mesmo assim, ainda continuo valorizando a imagem do bom velhinho pela alegria que transmite às crianças. Sei muito bem que o Papai Noel da fantasia não concorre com o Natal do Menino Jesus. Acredito que são aliados e, ambos, fazem a felicidade das crianças.

Daí porque me sinto feliz ao usar roupa de Noel e lembrar o nascimento de Jesus para meus netos e seus amiguinhos.   

Neste Natal, um lance me deixou muito feliz. É que uma garotinha olhou fixamente para mim e com indizível alegria voltou-se para mãe e disse:

- Olha mãe, Papai Noel realmente existe e é o Seu Beto.


Não pude evitar que duas furtivas lágrimas umedecessem as rugas de meu rosto quando ela carinhosamente me abraçou. 

Foi um dezembro feliz.


ARACAJU, 07/01/2018

BETO DÉDA

terça-feira, 21 de novembro de 2017


“DEIXA O LENÇO CAIR” E OS CARTÕES DE CUPIDO...

Na minha mocidade, em Simão Dias, havia um sentido romântico quando uma garota “deixava cair o lenço”. Era um gesto indicativo de que a mocinha dava uma chance para o moço continuar seus galanteios. Trocando em miúdos: quando a moça deixava cair o lenço dava uma brecha para o admirador continuar a cantada ou paquera. Na verdade era um reflexo do que se via em filmes de amor e em romances literários, muito lidos pela juventude da época.

O caso do lenço foi-me despertado ao ouvir a canção “Tua Cantiga”, do genial Chico Buarque, que contém os seguintes versos:

“Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar”

O certo é que ao ouvir o álbum “Caravanas” do Chico, relembrei fatos idílicos dos bons tempos em que, nas tardinhas dos dias de domingo, a calçada que circunda a Matriz de Santana era o tapete de desfile de lindas, queridas e saudosas garotas de minha terra.

As mocinhas de braços dados, em grupos de duas ou três, passeavam em volta da igreja e, perfilados junto ao meio-fio da calçada, ficávamos admirados com a beleza que elas irradiavam. E não faltavam os galanteios e os olhares furtivos e cativantes. Então, quando uma menina “deixava o lenço cair” a paquera se estendia com troca de frases sentimentais de  pensadores ilustres, lidas e decoradas de almanaques e de folhinhas de calendário.

Era assim, no passeio da Praça Barão de Santa Rosa de minha terra, que muitos jovens simãodienses  inciavam namoros que, depois, se transformaram em firmes e felizes casamentos.

Na impossibilidade de literalmente “deixar cair o lenço”, muitos romances foram iniciados com o uso de um cartão – “cartão do cupido” – que eu imprimia nas oficinas do jornal “A Semana” e vendia para os colegas inibidos oferecerem às jovens preferidas, no passeio da praça.

O cartão tinha frases cafonas declarando amor e as seguintes palavras em cada canto: SIM, NÃO, TALVEZ e NUNCA. Era só entregar o cartão à garota escolhida e pedir que ela dobrasse no canto que tivesse a palavra que lhe conviesse e devolvesse.


Não é demais dizer que, como bom comerciante, eu sempre aconselhava aos compradores sobre o óbvio: o cartão só podia ser usado uma vez! Vendia muito e tinha alguns bons fregueses, justamente os que não se saíam bem na abordagem romântica.

O certo e prazeroso é que o cartão foi um sucesso e alguns namoros por ele iniciados também se consolidaram em casamentos felizes.

Bons e inocentes tempos.

ARACAJU, 21/11/2017

BETO DÉDA

domingo, 22 de outubro de 2017

A moça bonita vestida de cigana.

Uma das coisas que gosto é ouvir música. Em minha oficina de armengues, no Lago Dourado, me divirto fazendo artesanato e ouvindo cópias de canções antigas que me foram presenteadas por meu querido cunhado Haroldo (aqui pra nós, uma revelação chistosa: ele adora dizer que já está velho e exagerar na demonstração dos efeitos  do abatimento resultante da idade).

Pois bem. Recentemente, ouvindo velhas canções que foram marcantes em minha mocidade, uma delas despertou em minha memória um acontecimento inesquecível, envolvendo uma garota que fingia ser cigana e trajava a indumentária típica das que se dizem capaz de ver o futuro.

Nos anos cinquenta, a feira de Simão Dias tinha tudo que um jovem como eu admirava: frutas regionais, doces, refrescos, bois de barro, pássaros, rumbeiras, repentistas e camelôs que vendiam garrafadas e unguentos de óleo do peixe elétrico.

Também por lá se apresentavam, em pequenas barracas circundadas por lonas, fenômenos como o bezerro de duas cabeças e magias com jogos de espelhos em que uma mulher se transformava em besta-fera (diziam que era uma moça que bateu na mãe e se transformou no monstro do “Pracatu”, ou melhor, do Paracatu, que é um povoado do nosso município).

Mas vamos deixar de divagação e passemos ao ponto chave de nossa lembrança.

Em uma determinada noite de natal, apareceu no largo da feira uma apresentação mambembe em que um tocador de violão dedilhava a música “Zíngara” enquanto uma garota – bonita,  morena  e usando os trajes de cigana – dançava o flamenco.

Depois da apresentação, a mocinha se dirigia às pessoas para ler o futuro. Graciosa, com os olhos ligeiramente estrábicos, ela não deixava de me olhar. E eu, talvez hipnotizado, não perdia um lance de sua beleza. Então ela se aproximou e, usando o sotaque característico, iniciou sua conversa chamando-me de gajão. Não deixei ela concluir a mensagem. Encantado, recitei parte do poema "Zíngara", de Olegário Mariano:

     “Vem, ó cigana bonita
       Ver o meu destino
       Que mistérios têm.

       Tu com os olhos
       De quem ver no acaso
       O amor da gente
       Põe em minhas mãos
       O teu olhar ardente...”

Ela atendeu sorridente. Fomos até um discreto beco e amparado no portal da loja de Seu Josino Barbosa, ao lado do prédio do antigo mercado, ela afagou minhas mãos e eu as dela. Tentou ler meu futuro e, para isto, deu tudo o que podia e lhe sobrava... 
No esforço para me agradar, sussurrou carinhosamente a previsão de meu futuro, dizendo que seria muito rico, preenchido por valores materiais significativos, muito valorizados por ela, sem contudo me impressionarem.

Mas – como era uma cigana de fantasia – seus presságios jamais se concretizaram: nunca fui comerciante, nem farmacêutico ou médico. E o pior, tenho uma dificuldade enorme em saber o nome de medicamentos, inclusive os seis que atualmente uso para controlar meu rebelde coração. 


Aquele devaneio não passou de uma noite de natal. Mas se tornou indelével em minha memória. O carinho daquele momento está gravado como a centelha de uma pérola que guardo no tesouro do meu acelerado coração.  E se torna redivivo quando ouço a canção “Zíngara”, da parceria de Olegário Mariano e Joubert Carvalho, interpretada por Gastão Formenti, um sucesso musical nos velhos tempos em Simão Dias.

São idílicas recordações que repasso para os amigos e aproveito o ensejo para postar o videoclipe que fiz com a artista baiana Rosa Luxemburgo, que em visita ao Lago Dourado se empolgou com nosso projeto e resolveu participar. 









Aracaju, 21/10/2017

BETO DÉDA

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Eu, artesão improvisado...

Na minha idade, o nada fazer provoca um estrago terrível, isto porque a mente sem ocupação é tragada pelos maus espíritos que dirigem os pensamentos para assuntos indesejados, onde proliferam o sofrimento, a depressão e, também, a maldade.

Sabendo disso – e em alguns momentos sofrendo também esse mal – procuro ocupar meu pensamento com uma variedade de mimos que açoitam para longe o que julgo maléfico.

Assim é que meu tempo é dividido entre escrever, ouvir boas músicas, conversar com amigos, cantar no banheiro e, em maior tempo, dedicar-me a tarefas como improvisado artesão.

O fato é que ocupo minha mente com muita distração. Em minha oficina de “armengues” tento aproveitar todo pedaço de madeira e esboçar um proveito. Um simples galho que sobrou da poda de um cajueiro, eu tento transformar em um brinquedo para meu neto.  E o melhor é que agindo assim desvio seus pensamentos da tela do celular, que nos dias atuais enfeitiça não só as crianças, mas também os adultos.

Nesta semana, depois de podar um cajueiro, notei que um galho poderia ser transformado em uma peça que lembrasse um dinossauro. Então serrei um pedaço, acrescentei outro e, como resultado, surgiu um uma mistura de camaleão e jacaré. Uma “escultura-armengue” do vovô Beto para povoar o vale dos dinossauros do meu querido neto.






E não foi só isto. Com um pouco de paciência, fiz duas mesinhas, torneando sobras de sarrafos de construção e usando duas toras de jaqueira que me foram ofertadas pelo sobrinho João Déda.



Também aproveitei um bueiro tubular de concreto e fiz uma nova “fonte dos desejos”, que orna o jardim do Lago Dourado.

Confesso que, na verdade, fico empolgado com minhas próprias realizações de "artesão-armengueiro”. Tanto é assim que pedi ao filho Bruno para fotografar meus feitos, que apresento aqui,  de modo a permitir que os amigos apreciem. E repitam o bondoso elogio de meu saudoso sogro, Seu Antônio Silva, que exclamava com ênfase ao apreciar meus trabalhos:

- Armengue de um artista...


Aracaju, 02/10/2017

BERO DÉDA