segunda-feira, 30 de julho de 2018


Lembranças da Igreja Matriz e da Festa da Padroeira de Simão Dias.



No baú que guardo as recordações de minha vida, eu tenho um cuidado muito especial para as lembranças das Festas de Santana, Padroeira de Simão Dias.

Nestes últimos dias acompanhei as festividades em louvor à padroeira de minha terra através da Web-TV. E, então, minha memória foi ativada com lembranças encantadoras do tempo que eu era criança e, estimulado por minha saudosa Tia Nice Oliveira, participava ativamente das missas, novenas e catecismos realizados na Igreja Matriz.

Tia Nice era muito católica, tinha sido noviça em Convento na Bahia e fazia parte da Congregação Religiosa das Filhas de Maria de nossa paróquia.  Eu e meu saudoso sobrinho Marcelo Déda (convivemos na casa da querida tia) tivemos dela uma formidável educação religiosa. Marcelo era cerca de 20 anos mais novo que eu e chegou a ajudar nas cerimônias religiosas como coroinha. 

Conhecíamos todos os detalhes da igreja: a sacristia, os altares, o mezanino - local do órgão e o do coral - que dava acesso ao campanário onde ficavam o grande relógio e os sinos.  A torre era o local que despertava admiração, curiosidade e receio aos garotos daquela época. E o temor não era apenas da altura da torre. O que causava medo era o que se comentava sobre o aparecimento de almas penadas que assombravam os que ousavam subir as íngremes escadas fazendo barulho. A subida tinha que ser encarada com seriedade, cautelosamente,  pé ante pé, sem gracinhas e em silêncio.

Lembro-me que em algumas ocasiões acompanhei com atenção pintores se equilibrando em improvisados e elevados andaimes, renovando as cores das paredes, dos tetos e da torre. Ao saber de um acidente com um deles, passei a sentir medo (desconforto e ansiedade) diante de lugares altos: fato que até hoje me atormenta e causa-me arrepios.

Dos acontecimentos marcantes realizados na Matriz de nossa terra, não tenho dúvida de que a Festa de Santana está em primeiro lugar. Mas outros fatos religiosos de relevância aconteceram na paróquia simãodiense.


O mais lembrado e importante foi o Congresso Eucarístico Diocesano, realizado em 1953, quando o Cônego Afonso Medeiros Chaves era o pároco da cidade. Foi também a comemoração dos 50 anos de instalação do Apostolado da Oração da Paróquia. Um monumental acontecimento religioso, de repercussão regional, cujas cerimônias ocorreram no largo da antiga Praça Nicanor Leal (local onde hoje se realizam shows artísticos).

Lembro-me também das Missões realizadas nos povoados e pregadas pelo Frei Eliseu Vieira, da Ordem dos Carmelitas, e o Padre Sebastião Drago, Missionário do Coração de Maria. Ambos os sacerdotes também participaram dos preparativos e execução do Congresso Eucarístico de 1953 e conquistaram a simpatia de nosso povo pelo carinho e espírito de solidariedade com os menos favorecidos.

O Padre Sebastião Drago sempre marcou sua presença nas festas religiosas de nossa cidade, desde 1953, até a época em que o vigário de nossa paróquia era o Padre Mario Reis. Com o dom da palavra fácil e convincente, os sermões do Padre Drago eram ouvidos com absoluta atenção e respeito pelos fieis católicos de minha terra.

Festa de Santana de Simão Dias (1958)
Beto Déda, Heraldo Déda, Zé Valadares e Gilson de Seu Benevides.
Sempre gostei de participar da Festa de Santana. Na juventude não perdia a novena dos rapazes, e na adolescência, quando trabalhava no Banco do Nordeste, estive presente nas novenas dos bancários. Na época, a cidade contava com cerca de 40 bancários de dois bancos: o BNB e o Banco da Produção e Comércio. 

Outro ponto da Festa de Santana que não esqueço era a “Ladainha a Todos os Santos”, que na época era cantada pelo coro da Congregação das Filhas de Maria. O cântico era em latim. A missa também era celebrada em latim e o vigário celebrante ficava de costas para os fieis e de frente para o altar. Muito diferente da celebração moderna em que os padres ficam de frente para os fieis, que acompanham e entendem melhor o rito da missa, rezada no idioma pátrio.

Lembro-me do canto da ladainha em que o celebrante pronunciava o nome dos santos e o coro respondia: “Ora pro nobis”. Quando era mencionado  mais de um santo, a resposta vinha, também em latim, com o refrão no plural: “Orate pro nobis”.  De tanto ouvir a bonita ladainha aprendi a cantar e, ainda nos dias atuais, sempre estou a repetir.

Neste ano não estive presente à grande festa. Mas acompanhei via internet as novenas realizadas em nossa Igreja Matriz, em solenidades que anteciparam a grande missa e procissão do dia 26 de julho, dedicado à memória da avó de Jesus. 

E não me acanho em revelar que, em todas as nove noites, me emocionei muito. Especialmente ao ouvir os lindos e harmônicos hinos cantados pelo coral da igreja, discretamente localizado no mezanino. 

E mesmo de longe, tive a alegria de rever e me lembrar de pessoas queridas...



Aracaju, 30/07/2018
BETO DÉDA

quarta-feira, 18 de julho de 2018


Tourada no Matadouro de Simão Dias.
(Dedicado ao amigo Antônio de Manequinha)

Na tarde deste domingo, de minha oficina no Lago Dourado, admirei a beleza do resplandecer do sol ao ver serenar uma chuva fina que encharcou as folhas das plantações. Lembrei-me de meu pai e de uma tourada que aconteceu no matadouro municipal de minha terra.

Não sei precisar o ano desta minha lembrança. O que tenho certeza é que eu era muito novo, com idade de 8 e 10 anos, e que o fato aconteceu em uma tarde de  domingo,  depois de uma ligeira chuva, como os raios de sol refletindo nos pingos retidos nas folhas dos tamarindeiros da Praça de São João.

Parece até que estou a ouvir a voz de meu pai chamando-me para ir ver uma tourada no Matadouro da cidade. Fiquei deslumbrado com o convite e saímos pelo portão de fundos da casa em direção a Rua do Curral.

Nossa casa ficava na Rua dos Ribeiros. Era comprida, com quintal na parte dos fundos que fazia limite com a Praça de São João. Ali meu pai tinha construído um depósito e um portão de madeira – que era fechado com uma tramela e reforçado com um caibro atravessado  no meio, seguro por alças de ferro – que permitia o acesso à praça.

A Praça de São João ou Parque de São João era o meu ponto de brincadeiras com os meninos que moravam nas proximidades. Por lá passava todo gado para  abate  no matadouro municipal, que ficava perto, no final da Rua do Curral, em cuja entrada avistava-se o oitão da casa de Seu Zé Neves. 
A entrada da Rua do Curral e (à direita) a casa que era do Seu Zé Neves (Foto recente de Google Maps)

Naquele domingo o matadouro mostrava-se limpo, gradearam a areia úmida do curral e, em redor da entrada, pequenos comerciantes improvisaram barracas para venda de guloseimas. Em uma delas vendiam torresmos, pipocas e rapaduras.  Lembro-me bem que meu pai passou-me um pacote de pipocas e um tijolo de rapadura. Delícias para os guris simãodienses.

Final da Rua dol Curral - Local do antigo Matadouro (Foto recente do Google Maps)
O curral principal fora improvisado para tourada. O pessoal – magarefes, comerciantes de gado e alguns moradores da redondeza – ficava apoiado em cima das travessas de madeira. Eu também subi nas travessas e fiquei junto ao meu pai, que me dava segurança e reforçava meu equilíbrio. 


Em uma parte do curral, lembro-me bem, tinha um pano colorido, no formato de bandeira, colocado ali pelo homem com trajes surrados de toureiro. Até hoje não sei se aquela flâmula representava o México, a Espanha ou um país sul-americano.

Começou a exibição com a entrada de quatro bois grandes e enfezados. Deixaram apenas o que parecia mais bravo e os outros foram retirados da arena improvisada.

Durante o espetáculo ecoavam gritos e aplausos. Mas a surpresa é que o pessoal aplaudia o enfezado touro. A torcida era contra o  toureiro. 

Debalde foram os gritos pró touro. O moço – que falava com sotaque – tinha o corpo ágil e sabia se desviar dos chifres afiados. Com seu pano vermelho fez o touro babar de cansaço e, aí então, levantava os braços, empinava o peito, tirava o gorro sujo de lama e pedia aplauso. E foi atendido e reconhecido como bom toureador pelo pequeno público sentado nas travessas de madeira do curral.

O touro não foi sangrado. Estava enfezado e, se abatido, a carne ficaria escura. Então deixaram para abater junto com o gado destinado ao preparo da carne de sol, que Seu Val (gerente de salgamento no matadouro) transportava em seu caminhão, às sextas-feiras, para vender nos mercados de Aracaju. 

Durante vários dias a empolgante tourada foi motivo de histórias pela meninada da Praça de São João.

E brincávamos, imitando o toureiro e exclamando "Olé, tourôôôôô!”.

Ainda hoje, quando ouço o Passo Doble e a marchinha de carnaval sobre toureiro, lembro-me da tourada que aconteceu no matadouro de Simão Dias.

E lembrar coisas alegres não faz mal a ninguém...


Aracaju, 18/07/2018.

BETO DÉDA

quarta-feira, 11 de julho de 2018


A desmoralização do HABEAS CORPUS pelo próprio judiciário.


No último domingo a Nação brasileira presenciou mais uma vez o descalabro que vem sofrendo o judiciário, diante da postura de alguns representantes daquele importante poder da república.

O que se viu parecia inacreditável. A desmoralização de importante instituto jurídico patrocinada por um grupo do próprio poder judiciário. O ato do infausto grupelho elevou ao cume o descrédito que na atualidade atinge a nossa justiça. 

Juízes que se acham donos da verdade, que extrapolam suas prerrogativas, que pensam serem os eternos senhores dos processos, que não escondem preferências, que se dizem assoberbados e rejeitam ações envolvendo grupos que lhe são simpáticos, mas que não vacilam – mesmo depois de esgotada sua participação em lides – em ocupar momentos de suas férias para fragilizarem o mais importante remédio constitucional destinado a amparar a liberdade dos indivíduos: o instituto do Habeas Corpus.

Sem competência para a absurda atuação, juízes mantiveram contatos com policiais federais envolvidos/coniventes e sustaram, pelo tempo que acharam conveniente, o cumprimento de ordem judicial (no jargão jurídico conhecido como writ) emanada de autoridade superior (desembargador em exercício de plantão, representando o Tribunal Regional Federal da 4ª Região).

Absurdo e escândalo maior parece não ter sido presenciado neste nosso Brasil de tantas injustiças. O domingo, 08 de julho, será lembrado como o dia de horrores para o judiciário pátrio.

A expressão latina Habeas Corpus significa: que tenhas o teu corpo. No linguajar do direito tem o sentido de um instituto que cuida da liberdade individual; o direito de ir e vir. Este recurso jurídico teve sua  origem na Inglaterra, no ano de 1215, na “MAGNA CHARTA LIBERTATUM” outorgada por João Sem Terra à nação inglesa.  

Em nosso Brasil - Brasil com S(esse) -  o instituto do Habeas Corpus sempre foi respeitado; mesmo por aqueles que por meio da força das armas conquistaram o poder.

Para os mais novos, relembro aqui um fato importante ocorrido no final do ano de 1964, quando, em consequência de um golpe, o país era governado pelo poder das armas dos militares.

Naquela época, o Supremo Tribunal Federal – atendendo petição do advogado Sobral Pinto – concedeu Habeas Corpus ao governador de Goiás, Sr. Mauro Borges, que era opositor e vítima do governo militar. O fato foi considerado como uma bomba estourada nos meios políticos e gerou uma intensa preocupação para a nação, que antevia uma grave ameaça à independência dos Poderes da República.

Mas, afinal, o Habeas Corpus foi respeitado e a harmonia entre os poderes foi aparentemente preservada.  Os militares tiveram que engolir seco e utilizar outros meios (considerados arbitrários e contra o povo de Goiás) para defenestrar Mauro Borges do Governo daquele Estado.

Charge publicada no jornal "A Semana",
edição de 04/11/1964
O fato foi registrado no jornal “A Semana”, de Simão Dias, na edição de 04/11/1964, em uma charge de autoria do meu pai (Carvalho Déda) que mostrava a força do Habeas Corpus contra a espada do poder militar.

Nos dias atuais, por incrível que pareça, foram membros do próprio judiciário que ousaram desmoralizar o remédio constitucional de proteção ao indivíduo.

Se estivesse entre nós, diante do escândalo de domingo, certamente meu pai teria esculpido na madeira uma charge inimaginável para aquela época: a figura que representa a justiça – livrando um olho da venda que lhe cobre a visão e empunhando uma balança pesada, bruta, desequilibrada, com o fiel pendente para a direita – esmagando o instituto do Habeas Corpus.

Densas e pavorosas nuvens pairam sobre nosso país.

Aracaju, 11/07/2018
BETO DÉDA

terça-feira, 3 de julho de 2018


Artur: ontem, hoje e sempre.

Essa última semana de junho foi de grande emoção e tristeza para toda minha família.  É que na noite de sexta-feira, dia consagrado a São Pedro, meu querido irmão Artur Oscar partiu para o reino dos Céus. Seguiu os ditames da vida e foi ao encontro dos amigos e parentes que também partiram para outra esfera, deixando  imensa saudade.

Artur era um irmão e tanto – este “e tanto” tem um significado muito especial em minha terra: indica que é o máximo, que ultrapassa os limites, que é porreta, supimpa.  Ele ultrapassava os limites em preocupação e bondade com todos nós. E liderava toda a família; nos transmitia muita força e tranquilidade.

Artur Oscar Deda -Foto de 1953.
Na minha infância, o meu apoio era o irmão Carlos Eugênio (dois anos mais velho que eu), até o dia em que ele, ainda muito jovem, foi morar no Rio de Janeiro. Então, daí em diante, o meu protetor passou a ser o irmão Artur Oscar que, na intimidade de criança, chamávamos de Tutu. 

Ele era nove anos mais velho que eu e cuidou de minha instrução e orientação em conjunto com meus pais.  Em todos os momentos importantes de minha vida, o bom irmão esteve presente, apoiando-me, orientando-me, confraternizando as alegrias e amparando-me nos percalços da vida. Um irmão e tanto, que viverá eternamente na minha lembrança e na de todos nossos familiares.

Há poucos dias, conversávamos sobre assuntos de Simão Dias e nos lembramos dos vários artigos que ele escrevera para o jornal "A Semana", sobre cinema, poesia, as diversões da gente de nossa terra e também sobre futebol.

Artigo escrito por Artur Deda e
publicado no jornal "A Semana", em 03-07-1954
Ele gostava muito de acompanhar os jogos de futebol. E neste ponto havia uma ligeira divergência: ele era um grande torcedor do Vasco da Gama e eu flamenguista. Mas encarávamos isto com muita brincadeira e humor. 

Na atual Copa, quando ocorreu uma exaltada discussão sobre o árbitro do jogo entre Brasil e Suíça, lembrei-me dos velhos tempos em nossa cidade, quando a seleção brasileira enfrentou a equipe húngara, na Copa do Mundo de 1954.

Artur acompanhou o jogo pelo rádio na residência do Dr. Aguiar (Médico cirurgião), que era vizinho de tia Nice, na Rua do Coité. Eu e os colegas ouvíamos a narração no rádio da barbearia de Seu Zeca Barbeiro (oficial de justiça da comarca), que ficava perto, quase em frente ao Bar de Valério.


O Brasil perdeu para Hungria pelo placar de 4 x 2. Fiquei triste, quase chorando. Mas fui consolado pelo irmão que - seguindo a exaltação do brasileiro Mário Viana  -  culpou o árbitro bretão, Mr. Ellis, pela desclassificação do escrete canarinho. Naquela semana, usando o pseudônimo AROSDE, ele publicou no jornal (edição de 03/07/54, página 4) o artigo “Mr. Ellis derrotou o Brasil”.

Era minha intenção no decorrer desta semana escrever aqui sobre detalhes desses momentos vividos com ele.  Não o fiz divido a emoção da despedida eterna do bom irmão. Mas como a Copa de Mundo é assunto que está em pauta nos dias atuais, inclusive com abordagens intensas sobre a atuação dos árbitros, repasso para lembrança de amigos e parentes, o que ele – em seus vinte e poucos anos de idade – escreveu sobre a atuação do apitador naquela partida de 1954. 

Também repasso tópicos do seu pensamento expresso em discurso no Tribunal de Justiça de Sergipe, em agosto de 2017, quando foi homenageado no dia dos pais.



Nestes dias, relembrei com imensa saudade muitos momentos de alegria vividos como o querido Tutu.  Ele sempre foi um irmão e tanto que permanecerá imortal em nossos pensamentos. 

Aracaju, 03 de julho de 2018.

BETO DÉDA

segunda-feira, 18 de junho de 2018


“Nóis  rico...”

O Café/Bar do amigo Chico Bina ficava na Rua da Palha, ao lado do antigo Açougue Municipal e quase em frente ao armazém que fora de Seu Dominguinhos e Dona Noquinha.

Nas manhãs dos dias de feira em Simão Dias (aos sábados e quartas), o ponto comercial do Chico era o local certo de encontro do pessoal que trabalhava no talho da carne verde e nos arredores. Era servido um café forte e gostoso sempre acompanhado do pão quentinho da padaria de Seu Oscar Rocha, que ficava na outra esquina, de frente para a Rua do Comércio e ao lado do início da Rua do Mulungu.


Ali era o meu ponto preferido para tomar café nas manhãs dos sábados, nos intervalos depois de dobrar e separar os exemplares do jornal “A Semana” para distribuição nas casas dos assinantes.

Eu saboreava o café com pão bem amanteigado e ficava atento, ouvindo com atenção a conversa do pessoal que lotava as diversas mesas. Os frequentadores falavam alto, faziam troça dos acontecimentos da cidade, discutiam os assuntos publicados no jornal e as pendengas políticas da localidade.

Os risos se multiplicavam quando por lá aparecia um contumaz e conhecido vociferador que não media palavras em maldizer a carestia ou meter o pau em político que lhe era adversário. O homem babava ao falar mal de alguma coisa. O pessoal gostava de ouvir e de rir com os disparates.


 Zé Povo: Sobe 'frecha'! Um dia puxarei a 
escada da tua usura!...
Xilogravura de meu pai, Carvalho Déda, sobre
o aumento da carne bovina. Página 2 do jornal
 "A Semana", edição de 28/11/1959.
Lembro-me que em certa manhã a discussão era entre comerciantes de gado e açougueiros, envolvendo o preço alto da arroba de boi e o consequente refugo de carne nas bancas do Açougue, como acontecera na última feira. A conversa ia se desenvolvendo e o pessoal começou a comentar o absurdo da inflação, que já assombrava os conterrâneos naquela época, e também a culpar os fazendeiros pela ganância. Então um dos participantes começou a defender os criadores de gado e afirmar que o grande causador era o governo.

Ao ouvir as ponderações do gajo defensor dos fazendeiros, um magarefe que tomava café misturado com o aguardente Genebra Guichard, saiu-se com essa:

- Qual’é, amizade, nessa sua defesa dos fazendeiros você parece aquele nosso conterrâneo que apelidávamos de “Nóis Rico”.

E complementou:

- Cuidado! Senão você vai ter que pagar sua conta da compra dos bois em dinheiro...

Mal terminou de falar, ouviram-se gargalhadas fortes nas mesas circunvizinhas.

Eu fiquei sem entender o que tinha dito o homem do café com Genebra e o motivo das risadas.

Aproximei-me de um dos presentes, um senhor idoso, muito conceituado, que falava mansamente e com sabedoria. Indaguei pra ele sobre a história daquele homem com o apelido de “Nóis Rico” e o motivo de tanto riso.

O interpelado olhou pra mim e, reconhecendo minha mocidade, disse que era um fato antigo e hilário, que os velhos marchantes da terra sempre lembravam. Então me contou o caso que repasso aqui, em um esforço de memória. De antemão, asseguro que tudo é verdade, comprovada em conversa com outros patrícios que viveram naquela época. 

Em muitas localidades de nosso município prevaleciam os minifúndios de agricultores. As pequenas propriedades se mostravam mais favoráveis e produtivas com o cultivo de lavouras do que com criação de gado. Os lavradores se sentiam orgulhosos do que faziam e, com o resultado do amanho de sua pequena gleba, mantinham suas famílias com dignidade. 

Acontece que, como toda regra tem exceção, não faltavam entre os donos de sítios, aqueles que ocupavam o terreno com pastagens e pequenos lotes de bovinos. Entre eles, estavam os que se dedicavam exclusivamente ao comércio, ou seja, intermediavam a compra de gado dos agropecuaristas e repassavam aos marchantes para abate e comercialização no Açougue Municipal.  Alguns deles se julgavam fazendeiros e agiam como se fossem senhores da Casa Grande. Acreditavam nisto e menosprezavam os pequenos lavradores. Desconheciam, certamente, que suas próprias convicções eram motivos de galhofas entre os que interagiam em seus negócios.

Pois bem; nos idos da primeira metade do século XX, em nossa cidade, vivia um pequeno proprietário rural que pensava e agia como se fosse um rico fazendeiro. Convicto de que fazia parte da elite, não tinha cerimônia em propagar sua pretendida classe e não perdia oportunidade em debochar daqueles que acreditava ser de classe inferior.

Quando estava no escritório de um conhecido latifundiário, ficava muito à vontade e costumava elogiar o cafezinho que lhe era servido, dizendo em voz alta:

  - “Isto é uma coisa que NÓIS RICO apreceia!

E o pessoal da Casa Grande se entreolhava e expressava o sorriso de mofa...

Repetiu tanto o "Nóis Rico" que passou a ser apelidado e conhecido por tal expressão.

Em uma tarde, o pretenso rico foi a uma grande fazenda comprar gado para abate. Foram ao pasto ele e o fazendeiro. Montado em um burro especial, com sela mineira coberta com uma pele lãzuda de carneiro e chapéu baeta de marca, ele seguia o rico proprietário da fazenda/engenho. Olhou em volta do gado pastando e exclamou para o fazendeiro, que esboçou um sorriso incrédulo:

-  Beleza de rebanho qui nóis rico gosta de apreiciá...

Depois de escolher alguns bois gordos, o comprador perguntou o preço, concordou com a quantia fixada e afirmou que pagaria depois do abate do gado.

Ouvindo a forma de pagamento proposta, o fazendeiro não concordou, exclamando com o sorriso de quem prega uma peça:

- Nada disso, "colega"! Nunca esqueça que “nóis” ricos não compramos fiado. Pagamos as compra no ato, em dinheiro vivo...

O suposto rico engoliu seco e desistiu da compra.

O pior é que o causo foi divulgado e passou a ser sempre lembrado em minha terra. Tal como fora mencionado no Bar de Chico Bina pelo marchante que gostava de café com aguardente.

 ...

Duvido que você não conheça um “Nóis Rico” em sua comunidade. Nos dias atuais é fácil identificá-los: eles estão desinibidos e não se acanham em se mostrar e agir como se fossem senhores da Casa Grande.
                               
            
Aracaju, 17 de junho de 2018.

Beto Déda

segunda-feira, 11 de junho de 2018


A MOSCA NO RETROPROJETOR.

Ao relembrar que foi em um mês de junho que comecei minha carreira de bancário, em Simão Dias, aproveito a oportunidade para ativar minha memória e repassar, aqui, para os colegas e amigos, causos alegres que ocorreram quando participei de diversos cursos e treinamentos realizados pelo banco.

No BNB trabalhei com muita dedicação e estudo. Participei de dezenas de cursos de especialização e seminários patrocinados pela Divisão de Treinamento (DITRE), que era chefiada pelo sempre lembrado Francisco Celestino de Melo e, depois, pelo companheiro José Luciano Braga.  Guardo boas lembranças deles.

Do Celestino tenho uma recordação especial e de muito humor, que aconteceu, em 1970, quando eu e o saudoso colega Sebastião Ferreira dos Santos (Tião), da Agência de Jequié, participávamos de um curso em Fortaleza. Estávamos conversando quando apareceu o Celestino.  

Com um sorriso de orelha a orelha, ele aproximou-se, pegou em meu braço e disse, apontando para Tião, que era de estatura menor que a dele:

 - Veja meu caro Déda, hoje para mim é um dia de excepcional felicidade, isto pelo prazer de cumprimentar um colega mais baixo que eu.  E não vou perder esta maravilhosa oportunidade...

Em seguida, estendendo a mão para Sebastião, exclamou em voz alta e rindo:

- Olá BAIXINHO, como vai você?

Em cena inesquecível, presenciei os dois colegas se abraçarem sorrindo, fazendo humor da própria estatura. Pequenos no tamanho, mas de corações gigantes.

De Luciano Braga, conservo em meus implacáveis arquivos uma correspondência oficial do BNB/DEPES-Ditre, de 29/10/1982, assinada por ele, agradecendo-me “pelo alto espírito profissional revelado” na elaboração do material a ser usado no Treinamento Programado à Distância (TPD) de Crédito Rural.

Mas vamos lembrar o caso do retroprojetor, que foi sui generis em atrapalhação e humor...

Balneário Iparama
Iparana - Caucaia - Fortaleza
Dos diversos cursos de especialização que eu participei, dois deles foram realizados em um balneário na praia de Iparana, município de Caucaia, que faz parte da região da grande Fortaleza. Parece-me que era um balneário do SESI, cedido ao BNB para realização de treinamentos. 

Lembro-me do Curso de Atualização em Crédito Rural, que foi realizado em 1973 naquele balneário. Nossa turma foi convidada – fugindo à grade principal do treinamento –  a  ouvir uma palestra a ser proferida por um militar, abordando o Sistema Nacional de Informações (SNI).


Estávamos sob o regime denominado pelos donos do poder como “Gloriosa Revolução de 64”, mas que era chamado nas conversas informais, à boca pequena, como ditadura ou golpe de 64.  E naquela época o temido sistema de informações funcionava em todos os órgãos federais, e o BNB não fugia à regra geral.

O palestrante era um militar reformado, ligado ao banco e que, disseram-me, era um homem simples, muito respeitado pelo pessoal da região.

O certo é que a tal palestra foi meio enfadonha e não despertou atenção aos ouvintes, não só pelo assunto abordado, mas talvez pela pouca experiência do palestrante na arte do magistério.

Aconteceu que, no decorrer da explanação do assunto, surgiu um fato interessante e engraçado que capturou do esquecimento aquela palestra, passando-a para área de inesquecível lembrança e que vale a pena relembrar. 

É que o militar, sem muita habilidade com retroprojetor, usava anotações em transparências que eram projetadas em uma tela. No decorre de sua fala, uma mosca pousou sobre o retroprojetor e a imagem foi projetada na tela. Ao perceber a intrusa, em vez de espantar a mosca que estava sobre aparelho de projeção, o palestrante começou a bater na tela com sua varinha (muitos militares gostavam de usar uma varinha), tentando fustigar a imagem do inseto (!!!)...
O palestrante fustigava a imagem da mosca na tela, enquanto o inseto permanecia imóvel sobre o retroprojetor.


Não é pouco dizer o murmúrio de gozação que se ouviu da turma. A situação vexatória demorou alguns segundos e só foi resolvida quando um senhor (ordenança do palestrante) espantou a mosca que estava sobre o retroprojetor.

O militar ficou meio pasmo, mas não perdeu a esportiva: encarou a turma e também riu da sua mancada. Talvez reconhecesse que realizar palestras e lidar com retroprojetor não era sua praia.

Certamente fora treinado no uso de outras máquinas...

Aracaju, 10 de junho de 2018.
Beto Déda

domingo, 3 de junho de 2018


Meu primeiro dia como bancário.


As lembranças que me acodem neste domingo se referem a fatos que ocorreram há 53 anos, quando eu era servidor do Estado de Sergipe e aluno da Faculdade de Ciências Econômicas.

No início de 1965 tomei conhecimento que o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) estava programando concurso em todo nordeste para ampliar seu quadro de funcionários.

Aqui em Sergipe as inscrições eram feitas na agência do BNB na cidade de Gararu. Eu e muitos outros estudantes fizemos a inscrição naquela localidade. Mas, diante do grande número de participantes, o concurso foi transferido para Aracaju. Realizamos as provas aqui, no prédio do Colégio Atheneu Sergipense. 

Fui aprovado entre os primeiros e imediatamente convocado para tomar posse na agência de Simão Dias, minha terra natal. Pedi exoneração do cargo que exercia no Governo do Estado (na ocasião eu era Oficial de Gabinete do Governador Celso Carvalho) e fui me tornar um benebeano (assim eram chamados os funcionários do BNB). 

Minha posse ocorreu no dia 16 de junho de 1965, ocasião em que os saudosos amigos José Carlos Macedo Déda (meu querido primo) e José Augusto Montalvão, que ali trabalhavam, me pregaram uma peça, ou melhor, um alegre trote para me recepcionarem. 

Mandaram-me perfilar como um recruta e depois, cerimoniosamente, disseram que eu devia assinar outra "importante" folha de presença. Peguei a caneta e, sem perceber o que ali estava escrito, assinei com indisfarçável alegria. Eles também rubricaram como se estivessem atestando minha presença. Em seguida, pronunciaram algumas palavras, em tom de discurso.

Não obstante a emoção do momento, o palavreado me pareceu estranho. Ao perceberem o movimento de minhas sobrancelhas, expressando perplexidade, sorriram bastante e esclareceram a gozação: mostraram-me a tal folha de presença, na qual se destacava no frontispício que se tratava de uma “Folha Suplementar do Setor Avacalhado”.


Ainda hoje conservo em meus arquivos o original desta folha de presença. E quando a vejo não consigo disfarçar o riso e a saudade daqueles colegas.

                                                        ...


Beto (de gravata) entrega placa em
homenagem a Montalvão pela aposentadoria.



O interessante é que, muitos anos depois, em outubro de 1987, na Agência Metro-Aracaju, em nome dos colegas, prestei uma homenagem ao amigo José Augusto Montalvão, no dia de sua aposentadoria. Foi uma cerimônia bonita, e eu tive a oportunidade de dizer algumas palavras, inclusive lembrando o dia em que ele e meu primo Zé Carlos Déda participaram de minha posse no Banco.  Uma coincidência formidável. Fui recepcionado por Montalvão no meu primeiro dia de trabalho e, muitos anos depois, o homenageei na sua despedida.

...


Mas, antes de concluir, resta ainda uma lembrança do meu primeiro dia como bancário. Na mesa do café da manhã, meu saudoso pai indagou-me como daria continuidade aos meus estudos. Tentei tranquilizá-lo e prometi que continuaria o curso de Ciências Econômicas. Informei que já tinha conversado com os professores e eles reconheceram que as faltas eram justificáveis; não seria motivo de reprovação. Eu teria que estudar os assuntos abordados em aula e participar das provas.
Passei a frequentar a faculdade apenas nas noites das sextas-feiras, quando me inteirava da matéria lecionada, assistia às aulas daquelas noites e participava das provas no final do mês.

Como não contávamos com as marinetes para Aracaju no período da tarde, então eu viajava nas sextas-feiras no caminhão do Seu Val, que transportava carne do sol para esta capital. Se não surgissem passageiros especiais, o Sr. Val permitia que eu viajasse na boleia do caminhão. Mas o normal era meu lugar na carroceria, sentado em cima da carne salgada. Ainda passei cerca de um ano e meio fazendo esse percurso de aventuras.

 Mas, não obstante o vigor de minha juventude, aquelas viagens me cansaram.  E para completar, o cheiro de carne do sol começou a me causar um enjoo tão desgraçado que não tive outro jeito: resolvi dar um tempo nas viagens do caminhão do açougueiro e tranquei minha matrícula na faculdade. 

 A verdade é que outros interesses também influenciaram minha decisão; entre eles os perfumes de inesquecíveis conterrâneas no passeio da Praça da Matriz. Daí então minhas sextas-feiras se tornaram imensamente felizes. 
  
Antes de encerrar esta narrativa, fico aqui a matutar com meus botões que certamente o leitor perguntará, com absoluta razão:

- Pera aí, cara! E a promessa que fizeste ao teu pai?

Então eu respondo que levei um longo tempo para cumprir. Com o passar dos anos, esqueci o desejo que tinha de cursar Engenharia na Escola Politécnica da Bahia e Ciências Econômicas aqui em Aracaju. No entanto, jamais olvidei a promessa que fiz ao meu pai e, também, nunca esqueci sua preferência pelo curso de Direito.
  
O fato é que, muitos anos depois, eu continuei os estudos e me formei como bacharel na Faculdade de Direito da UNIT e passei a exercer a advocacia, tal como meu pai e mestre me aconselhara. Pena é que a minha alegria não contou com sua presença, porque  muito tempo antes ele já tinha passado para a vida eterna.

Por razões óbvias, no caso que agora relembro não cabe qualquer justificativa para o prolongado tempo de cumprimento. Para mim ficou mais uma lição importante: promessa é dívida e deve ser paga com oportuna brevidade...

Aracaju, 03 de junho de 2018.
Beto Déda