segunda-feira, 10 de junho de 2019


A entrevista de um simãodiense ilustre.


Na noite deste sábado tive a satisfação de assistir à entrevista que Harildo Déda concedeu a Denny Fingergut no programa Perfil & Opinião da TVE-BA, em 05.06.2019.

Harildo Déda é um simãodiense admirável. Ele faz parte daquela selecionada turma dos que não fogem à luta. Embora beirando os 80 anos de idade e já esteja aposentado como professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ele não se afastou das atividades artísticas, continua se dedicando ao teatro, atuando como ator, diretor e professor.   Ele próprio confessa que sua atividade no mundo da arte cênica não é um trabalho, mas, sim, um fortificante que impulsiona sua vontade de viver.

Trata-se de um mestre em cena; um grande nome do teatro da Bahia. Sua história na arte baiana carrega cerca de 70 peças como ator e mais de 20 como diretor, além de uma grande marca como professor de artistas reconhecidos nacionalmente.

Há muito tempo que sou um fã de Harildo. A sua inteligência, seu modo de encarar a vida e de interpretá-la sempre foram motivos de minha admiração e respeito. E não era para menos, além do mais ele é simãodiense e é meu primo, filho dos meus queridos tios Paulo e Francisquinha.

Acompanhei, mesmo à distância, seu desempenho. Lembro-me agora de fatos que não fogem de minha memória. E repasso para os parentes e amigos. 

Quando Harildo estudava nos Estados Unidos, um jornal americano mostrou sua fotografia ilustrando matéria que elogiava o seu desempenho em uma peça que atuou no teatro da Universidade.

Quem me mostrou o jornal foi tio Paulo. Ele estava em sua loja de sapatos (“Esquina da Economia”), na Rua João Pessoa, aqui em Aracaju. Chamou-me até o balcão e irradiando orgulho disse: “Veja, Beto, os gringos estão elogiando o filho de um sapateiro brasileiro”. E meu tio se esforçava em pronunciar a palavra sapateiro em inglês (shoemaker), fazendo um beicinho muito engraçado e apontando para o próprio peito.

Em 1963 eu estudava em Salvador, fazia um curso pré-vestibular na Escola Politécnica da Bahia, patrocinado pela SUDENE e, à noite, cursava o último ano do curso científico no Colégio Duque de Caxias, no bairro Liberdade. Não tive contato com Harildo, mas soube – através de um rapaz da família Marcelino de Lagarto – que ele atuava com sucesso no teatro baiano. Fiquei empolgado com a notícia. Depois, em 1964, fui para Simão Dias. Harildo tinha ideias progressistas, atuando no teatro baiano. No início da ditadura, eu soube que ele passou um período no sítio de um amigo da família em nossa terra. Era uma época de medo. Eu também tive medo, porque fiz o curso patrocinado pela SUDENE e soube que um colega – que era filho de Paripiranga – tinha sido preso em Salvador. Em companhia daquele colega eu participara de movimentos pró reformas patrocinadas pelo Presidente João Goulart. Lembro-me da grande passeata da Praça da Sé até o Campo Grande, quando vibrei com o discurso de Seixas Dória, que era Governador de Sergipe.

Não esqueço também o dia em que fui pedir a colaboração de Harildo para fazer uma ligeira revisão na apostilha My English Book, que eu e o primo José Carlos Déda redigimos e fizemos a impressão  nas oficinas gráficas do Ginásio Industrial de Simão Dias (eu também era tipógrafo). Fiquei admirado com sua atenção em atender ao nosso pedido.

Quando tio Paulo morava na Rua de Estância, eu sempre apreciava uma pequena estante que tinha os livros de Harildo. Foi ali que li alguns livros de Júlio Verne e, pela primeira vez, li o livro Tom Sawyer, de Mark Twain.

São muitas as lembranças que gosto de rever. É por isto que dizem que tenho uma memória de elefante (não sei se a memória do elefante é realmente boa ou se é pelo tamanho da cabeça). A minha tem o tamanho limitado: uso chapéu nº 53 que é o tamanho próprio para crianças.  Minha avó Olívia, quando afagava meus cabelos, comparava minha cabeça com a de um alfinete, e rimava: “Beto, seu cocuruto é diminuto!”

Com o avanço da idade, passei a conversar demais relembrando o passado. Um exemplo está aqui e neste espaço, onde muito disse para anunciar a entrevista de Harildo à TVE-BA.

Vejam o vídeo, a seguir, e percebam a lembrança que ele teve dos locais de nossa terra, onde surgiu o despertar de seu interesse pela arte cênica. 

Harildo é um simãodiense que nos orgulha.

Aracaju, 09.06.2019
Beto Déda





quarta-feira, 5 de junho de 2019


A Ladeira de Roque.

Na última postagem, apresentei uma foto atual da antiga Rua de Lagarto, que nos velhos tempos era conhecida como a Ladeira de Roque. O Sr. Roque Macedo, que deu o nome popular àquela rua, era um artesão que morava no final da ladeira,  próximo ao oitão da casa de Dr. Gervásio de Carvalho Prata, na Praça da Matriz.

Logo depois de postar aquela fotografia, lembrei-me de uma tela pintada pelo artista sergipano Pedro Silva, datado de 1984, em que mostra uma paisagem antiga de Simão Dias: o antigo muro da residência do Cel. João Pinto, pai do Sr. Nelson Pinto de Mendonça, o início da Ladeira de Roque e, ao fundo, as centenárias palmeiras ladeando a torre da Igreja Matriz.

Quadro do pintor Pedro Silva - 1984 - Paisagem de Simão Dias:- início da Ladeira de Roque e a torre da Igreja Matriz.

Referido quadro, que orna a sala de visitas de minha casa,  foi-me presenteado pelo meu querido e saudoso irmão Artur Oscar. Assim, tenho uma admiração dupla desta bonita tela: o talento do artista sergipano  na  paisagem pintada e a lembrança de meu querido irmão.


Ainda sobre a Ladeira de Roque, antiga Rua de Lagarto, transcrevo a seguir um artigo escrito por meu pai no livro “SIMÃO DIAS - FRAGMENTOS DE SUA HISTÓRIA”-2ª Edição – página 175:

“O PRIMEIRO AUTOMÓVEL
Escrito por Carvalho Déda

Até o ano de 1920, o que havia, em Simão Dias, de mais luxo e conforto em transporte, era a liteira, uma espécie de camarinha de madeira leve, com portas laterais e pequenos postigos de ventilação, sustentada por dois varais compridos, onde eram atrelados dois burros, um adiante e outro atrás.
Por essa época apareceu o primeiro automóvel na cidade, que foi, no Estado, a terceira a possuir esse gênero de transporte. A primazia coube a Aracaju, seguida de Estância.
A primazia, em Simão Dias, coube ao Cel. Felisberto Prata, rico e progressista comerciante da praça.
Um dia, a cidade alvoroçou-se, repentinamente, com um estranho ruído de máquina e um fonfonar contínuo. Era um automóvel “Ford”, preto, novo, de capota conversível, correndo, aos trancos e barrancos, pelo calçamento irregular das ruas.
Uma surpresa! Poucos conheciam aquela espécie de veículo. A população inteira saiu de suas casas para ver a grande novidade.
Ao lado de um chofer empertigado e enfatuado, o Cel. Felisberto Prata, eufórico, cumprimentava os curiosos com seu chapéu duro, de palhinha. Era a sua entrada triunfal na cidade, depois de uma excursão recreativa pelo sul do país.
Durante alguns meses a cidade não comentava outra coisa. Surgiu o anedotário.
Conta-se que o ferreiro Roque Feliciano Macedo, lunático, constantemente preocupado com almas do outro mundo, lobisomem, mulas sem cabeça, e outras aparições sobrenaturais, havia deixado sua produção de alhos, a secar, espalhada em frente de sua casa, na Rua de Lagarto.
Ao ouvir o estranho barulho do “Ford”, correu para acudir a seus alhos. E qual não foi a sua surpresa ao deparar-se com a máquina preta, correndo por cima dos paus e pedras, sem lenha nem água! O “Ford” fez uma curva rápida, salvando os alhos do Mestre Roque, deixando este estupefato, sem compreender a “visagem”. Olhou por cima dos óculos sujos, persignou-se e gritou:  –Tá bêba, porca dos óios de vrido! Tu qué cumê meus áios?”


Estes são fatos de minha terra, bons de recordar.

Aracaju, 05/06/2019
BETO DÉDA

segunda-feira, 27 de maio de 2019



JOGANDO BOLA NO CAMPINHO DO BONFIM DE BAIXO E PESCANDO NO CAIÇÁ.

Há poucos dias estive revivendo momentos da boa terra em animada conversa com dois conterrâneos: Dr. João Pinto e Agripino Santos. Eles são filhos de saudosos e conhecidos simãodienses.

O João é filho do Seu Nelson Pinto de Mendonça, que foi um honorável prefeito de nossa cidade, sempre lembrado por seu comedimento e probidade administrativa.

Agripino é filho do popular e benquisto Seu Manoel da Marinete – e aqui cabe uma explicação para os mais jovens, especialmente meus netos:  marinete não é nome de pessoa, era o termo  que antigamente dávamos aos ônibus.

Seu Manoel trabalhava, em companhia de Seu Jove, Seu Zequinha e depois Seu Didi, na marinete que fazia o trajeto Simão Dias-Aracaju.

Agora passemos ao que conversei com os meus amigos.

Encontrei-me por acaso com o João Pinto no Shopping Jardins, aqui em Aracaju. Conversamos bastante, lembrando momentos vividos com seus irmãos Jorge e Eduardo Pinto, e também com meus primos Zé Carlos e Washington Déda. 

E nessas lembranças, ocorreu-me o tempo que, aos domingos, jogávamos bola no campinho que ficava no local que hoje é o Posto de Gasolina de familiares de Seu Ferreirinha. O campinho começava embaixo de um pé de amêndoa, no início da Ladeira do mestre Roque, um conhecido ferreiro local. Aproveitávamos o tronco do pé de amêndoa como uma das laterais da pequena trave. Era um campo diminuto e gramado tipo “capim-de-burro”, próprio para pelada com cinco guris de cada lado; guardava uma ligeira semelhança, em tamanho, aos atuais campos de futebol de salão.

O local onde antigamente jogávamos pelada. Antiga Rua de Lagarto ou Ladeira de Roque (Simão Dias) - Foto Map.Google.

 O nosso time tinha como técnico e responsável o Seu Liminha, pai dos amigos Tonho Amaral e  Zé Neri, que era um bom “football player”, termos em inglês que usávamos naqueles idos para designarmos os bons jogadores e dribladores.  Jogavam no nosso time: eu, Zé Neri, Eduardo Pinto, Jorge Pinto, Adilson de Jason e o João Pinto, este último, como era mais novo, ficava como reserva do goleiro.  O time adversário era variável, formado com amigos residentes no Bonfim. 
Seu Liminha era funcionário dos Correios e Telégrafos, casado com Dona Corina que era proprietária do Hotel que ficava na Praça Barão de Santa Rosa, em uma casa grande, cuja frente era revestida com bonitos azulejos portugueses.

No final de cada jogo, independentemente do resultado, nosso time ia até o Hotel e Seu Liminha, depois de elogios ou conselhos, nos servia água fria, refrescos acompanhados de gostosos quitutes e, para os mais crescidos, um golezinho de um licor muito saboroso, feito de jenipapo.

Até hoje, quando estalo entre os beiços o gosto do gole de um bom licor, lembro-me do nosso grande e sempre alegre técnico.
...

Com Agripino Santos a nossa conversa foi mediante mensagens, via internet, no Facebook. Ele mora Rua Mário de Eliseu, a mesma que residia seu pai, o popular Manoel da Marinete.

Atualmente aquela rua é denominada de Rua Ana Andrade, que começa na ponte sobre o Riacho Caiçá, conhecida como Ponte Mario de Eliseu.

A Rua Ana Andrade, antiga Rua Mario de Eliseu, e a ponte sobre o Rio Caiçá - Simão Dias - Foto Map-Google.

Lembro-me que aconteceu ali, justo no local daquela ponte, uma grande enchente do Caiçá que derrubou várias casas e destruiu parte do antigo prédio onde  funcionou o vapor de descaroçar algodão de Seu Pedro Valadares.

Na conversa com Agripino, lembrei-me de amigos que ali também residiam. Lembramo-nos do saudoso João Jacó, que era conhecido como João do Cinema, porque ele trabalhava no Cine Brasil e fazia tudo: pintava os cartazes, era o locutor que anunciava a programação e também revisava e projetava as fitas.  Disse-me Agripino que João era seu vizinho e costumava contar histórias sobre os cinemas de nossa cidade.

Recordamos os filhos de Seu Pedro Coelho que também morava ali. Entre eles os amigos Luiz e Benedito que eram assíduos frequentadores do Cine Ipiranga. Soube então que Luiz era casado com uma prima de Agripino. Em uma de minhas filmagens da antiga feira, eu fiz uma ligeira entrevista com Luiz.

No riacho Caiçá, ali sob aquela ponte, eu costumava pescar uns peixinhos conhecidos como chupa-pedra para coloca-los em vasos imitando aquário. Diversão e criatividade não faltavam.

Lembrei-me também que ali perto tinha a malhada de Sr. Norzinho Andrade, um idoso comerciante da antiga Rua da Feira, que era pai de José Silva Andrade, proprietário da casa comercial "O Lavrador". 


Na malhada do Sr. Norzinho tinha um tanque que eu costumava pescar. Certa tarde eu estava distraído na pesca, quando fui surpreendido por Seu Norzinho. Notando que eu estava pálido em decorrência do susto, olhou-me compreensivo e exclamou: 

- “Como você está pescando com anzol, não tem problema”. E concluía: “Não permitiria se a pesca fosse com uma rede. Então fique á vontade!”.

Não fiquei. Quando ele deu as costas, não vacilei em passar sebo nas canelas e iniciar uma carreira sem precedentes. Depois desse susto, nunca mais pesquei naquele tanque.

São lembranças de Simão Dias nos anos cinquenta.

Os amigos João Pinto e Agripino Santos ativaram minha memória. Sou imensamente agradecido pelo bom diálogo e as boas lembranças que tivemos. 

Aracaju, 27/05/2019
BETO DÉDA

segunda-feira, 6 de maio de 2019


MOMENTOS DE SAUDADE EM SIMÃO DIAS...



Recentemente estive em Simão Dias. Foi uma visita relâmpago, dessas que duram apenas algumas horas.

O dia foi chuvoso. Deu apenas para abraçar uma querida aniversariante e rever alguns parentes e amigos. 

No mais, foi passar rapidamente pelas ruas da cidade, sentindo a lembrança aflorar em cada esquina... Em seus jardins...  Em seus velhos prédios... 

Lembranças de saudosos familiares e amigos. Gente que partiu para outra dimensão, mas que conosco continuam revivendo em meus sonhos e em benditas recordações.

E, como sou um discreto sentimental, sem alarmes, cuidei de esconder meus olhos marejados de lágrimas atrás dos escuros óculos que eu usava...

Hoje, escolhi fotos do meu acervo para renovar a emoção e compartilhar com familiares e amigos, para que também relembrem seus parentes e os conterrâneos que alegremente conviveram naqueles recantos.

São fotografias que despertam nostalgia, mas que merecem ser lembradas.


Aracaju, 06/05/2019
BETO DÉDA

segunda-feira, 22 de abril de 2019


O VERÃO, AS TROVOADAS E AS LEMBRANÇAS DA BOA TERRA...

                Como o amigo de tio Paulo se meteu em uma saia justa...


Trovoadas e ventos fortes aconteceram recentemente em nosso Sergipe. Por intermédio da amiga Prof.ª Amanda Santos e de meu querido sobrinho César tomei conhecimento que choveu a cântaros em Simão Dias e que algumas ruas foram alagadas.

As chuvas de verão me trazem recordações dos meus tempos de criança e das brincadeiras com a meninada da Praça de São João. 

A revoada das tanajuras era motivo de encanto da gurizada. Caçávamos e selecionávamos as grandes formigas em latinhas de sardinha, cantando uma modinha muito apropriada, com o seguinte estribilho:

“Cai, cai tanajura, na panela de gordura...”

Aproveitávamos tudo para reforçar a diversão. As pequenas correntezas d’água eram interrompidas com bolos de lama, formando diminutas represas, onde impulsionávamos mini-balsas formadas com gravetos de tamarindeiros e folhas de eucalipto.  A terra úmida pela chuva era fértil em iscas para pescar; e fazíamos a colheita cavando os locais em que surgia um montinho de terra preta e molhada, onde as minhocas procuravam suspiro (dizíamos que era o local que as minhocas cagavam). 

Desfrutávamos os frescos pingos de chuva correndo nas sarjetas e espanando água nos colegas.

E quando penso na correnteza d’água nas sarjetas, vem logo em minha mente a figura de Tabaquinha, uma conhecida e pobre louca da cidade, que aproveitava a fartura de água corrente e, ali mesmo, no meio da rua, sob os apupos da garotada, levantava o encardido vestido e lavava as partes fracas...

As trovoadas em minha terra sempre significaram o aproveitamento da água da chuva dos telhados, que era guiada por bicas para grandes vasos de barro, chamados de porrões. Nos dias de trovoadas, com a abundância d’água, também era costume encher as caixas dos banheiros.

E assim, no campo fértil das recordações das trovoadas, minha mente é despertada por um causo que me foi contado por meu talentoso tio Paulo. É mais uma das centenas histórias “penosas” do meu inesquecível tio.
Foto de uma das minhas entrevistas com tio Paulo(1989).

Dizia ele que tinha um amigo e colega conhecido como Madeirinha, que era comerciante em nossa terra e reconhecido por seu excelente humor. Em um dia de trovoada, ele resolvera aproveitar as águas da chuva e encher a caixa do banheiro de sua casa.

Ele estava na loja com sua esposa e, notando o início da chuva, anunciou que iria até sua residência para encher os porrões e a caixa do banheiro. Concordando com a ideia, a gentil senhora sugeriu que a mocinha, sua secretária, o acompanhasse para ajudá-lo na tarefa.

A mocinha, conhecida na intimidade como Sayaiá, tinha cabelos curtos e meio aloirados; baixinha e recheada, com coxas aprumadas e pernas curtas; seus olhos eram verdes e bonitos, ligeiramente estrábicos (detalhe que na mocidade é um charme). Não era uma encantadora miss, mas  também não era de se deixar de ver e admirar... 

Pois bem. Os dois foram aproveitar a grandeza da chuva.

O comerciante passava o balde com água para Sayaiá que, em cima da escada, enchia a caixa do banheiro.

Depois de alguns baldes, o vestido da garota ficou encharcado, colando ao corpo, emoldurando o busto, mostrando os graciosos e pontudos seios e o encanto das coxas roliças e alvas.

O homem, embaixo da escada, admirava o espetáculo, mordendo os beiços.

Após encher a caixa, o Madeirinha não se conteve e sugeriu com a voz meio anasalada que necessitavam tomar um banho. Ele e ela. Os dois juntos.

Então, com um sorriso malandro e insinuante foi direto ao ponto:

- Eu ajudando você, como fizemos ao encher a caixa. Mas no nosso banho não vacilarei em lhe esfregar... Suas costas e coisa e tal...

A moça não deu ouvidos e desconversou:

- Eu? Quero o quê... Nem vem com essa! Cruz credo!

Receoso, o Madeirinha se recompôs e a moça saiu.

À noite, na hora do jantar, a mulher do comerciante tomou conhecimento do sucesso no trabalho de aproveitar as águas e sugeriu que Sayaiá tomasse banho.

 A inocente baixinha respondeu:

- Vou não...Hoje de tarde seu Madeirinha ficou tão contente com minha ajuda e até  me chamou pra tomar banho como ele, para inaugurar o novo chuveiro. Não concordei e disse que a inauguração era reserva especial da senhora. Fiz bem, né?

A respeitável senhora passou aquele olhar severo e reparador para o marido.

O fogoso comerciante, com um sorriso maroto, tentou disfarçar a saia justa dizendo, antes de sair de fininho da sala:

- Realmente eu sugeri que ela tomasse banho, porque ela parece que é portuguesa: não gosta disso...

E meu tio encerrava a história penosa, exclamando:

- Madeirinha era peia! – e ria muito, ajeitando os óculos no rosto redondo e fechando os olhos como a se lembrar de tudo.
...

Quando me lembro deste causo, na qualidade de fã de carteirinha do meu saudoso tio, eu também não deixo de proclamar:

-Tio Paulo era o tal!

Aracaju, 20 de abril de 2019.
Beto Déda

terça-feira, 26 de março de 2019


O MÊS DE MARÇO NOS FAZ LEMBRAR ARTUR E MARCELO.

No mês de março, duas datas são significativas para nossa família: os dias 2 e 11. Isto porque lembramos com muita saudade os aniversários de dois queridos familiares que já partiram para as esferas celestiais: no dia 2 de março de 1932 nasceu meu saudoso irmão Artur Oscar de Oliveira Déda; e no dia 11 de março de 1960 foi a data de nascimento do também inesquecível sobrinho Marcelo Déda Chagas.

Eles foram dois grandes parentes, merecidamente referenciados pela família e amigos, pela força, honradez e lealdade que espontaneamente nos lideravam e nos orientavam.

Sempre estiveram partilhando das reuniões da família, reforçando os laços de amizade, solidários nas alegrias e nas tristezas. E nesses encontros a palavra chave era relembrar os nossos antepassados, revivendo os bons momentos de familiares e lembrando os casos em que o humor era o ponto culminante.

Artur e Marcelo eram dois reconhecidos intelectuais e poetas encantadores. Deles guardo dois momentos emocionantes.  

Lembro-me, agora, de um dos últimos encontros que estivemos juntos: eu, Artur, Cláudio e Marcelo.

Naquele dia estávamos no apartamento de Marcelo e, ao ouvir o prosear  cultural deles, fiquei boquiaberto, maravilhado mesmo, ao presenciar a intelectualidade dos maravilhosos parentes. 

Foi naquele dia que Marcelo nos apresentou o rascunho do seu livro “Improvável Poética”. Empolgado, recitava versos e esclarecia os momentos que lhe inspirara cada poesia. Na época ele já estava debilitado pelo efeito da quimioterapia. Tinha dificuldade de folhear as páginas do rascunho do livro. E pediu-me que folheasse e passasse para ele os versos escolhidos, que ele lia e dialogava com Artur sobre o sentido de cada palavra. Em dado momento olhou-me com seu bonito sorriso e indicou a página que tinha uma surpresa: era a poesia “Cine Brasil”, em que escrevera uma dedicação especial: ”Para Beto Déda”.

A emoção me deixou mudo e encantado ao ouvir sua eloquente voz recitando versos que evocavam tempos de criança. Era o melhor presente que ele podia me conceder; especialmente porque os versos lembravam coisas de nossa Simão Dias. 

Lembrar os momentos vividos com Artur e Marcelo é um exercício que me faz bem. Mais do que parentes queridos, eles também eram amigos e tanto, daqueles que guardamos no lado esquerdo do peito, como diz os versos da música de Milton Nascimento:

Amigo é coisa pra se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do Coração.
...
Pois seja o que vier
Venha o que vier
Qualquer dia, amigo
Eu volto a te encontrar
Qualquer dia, amigo
A gente vai se encontrar
.


E para completar essas lembranças dos queridos Artur e Marcelo, reproduzo, a seguir, fotos de uma das reuniões da família em que comemoramos os aniversários dos dois grandes parentes. Foi um fato inesquecível, em que a simpatia deles irradiava felicidade para todos.







Aracaju, 26/03/2019
BETO DÉDA

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019


Tio Totonho: seus ditos e sua longevidade...

Recentemente dois fatos levaram-me a lembrar do meu saudoso tio Totonho, irmão de minha avó Olívia Déda.

 A primeira lembrança aconteceu ao ler um artigo de um jornalista, que em sua crítica às patifarias do atual governo, dizia que os mandatários do Brasil pensam que somos todos beócios.

Essa palavra me fez lembrar o meu tio Totonho. Ele costumava usar o termo beócio ao se referir aos seus desafetos, de modo a evidenciar as imbecilidades e ignorância por eles praticadas. Aí então, exclamava em voz alta, ritmado com o toque de sua bengala:

- Fulano de  tal, aquele beócio, continua cometendo imbecilidades...

Se vivo estivesse, certamente diria que beócios são os que estão em Brasília envergonhando o país.

No sentido oposto, quando queria elogiar alguém, passava a mão em volta da boca e dizia: “Belo Moço”. E repetia as palavras “belo moço”, elevando a cabeça para demonstrar sua sinceridade – tal e qual aparece entre tio João e meu irmão Washington Oscar, na foto que reproduzo abaixo. 

   

A segunda lembrança aconteceu diante de uma indagação realizada, via telefone, por meu bom primo Paulo César, lá da região do Jatobá, onde curte as ondas de uma bonita praia. Indagou o Paulo César qual o nome completo do nosso tio Totonho. Então as lembranças afloraram.

Meu tio era alto,espigando, simpático e

elegante mesmo. Pilhérico, mas tinha o
pavio curto. Quando pisavam em seus calos
a resposta era imediata e contundente.
O nome de batismo do meu tio era ANTÔNIO GARCIA SILVEIRA. Ele nasceu no dia 22 de fevereiro de 1882, na freguesia de Patrocínio do Coité, que hoje é o município denominado Paripiranga (Ba).   Era filho de José Alves dos Anjos e D. Maria Garcia Silveira. Ainda moço foi para casa de seus irmãos em Vila Nova da Rainha, que hoje e conhecida como a cidade de Senhor do Bonfim, no Estado da Bahia. Depois mudou-se para Salvador, onde foi trabalhar como operário em uma indústria têxtil. Casou-se, e algum tempo depois ficou viúvo. Veio morar em Simão Dias e aqui casou pela segunda vez. Passados alguns anos, sua mulher faleceu e passou a sofrer novamente com a solidão da viuvez.

Conheci meu tio Totonho quando ele morava no povoado Oiteiros, e vinha passar os fins de semana na casa de minha avó Olívia.  Quando chegava, portava uma longa barba branca que eu sempre admirava, mas a admiração durava pouco, porque a primeira coisa que ele fazia era ir ao barbeiro para cortá-la. Fazia isto na barbearia que ficava em frente à casa de tio João Déda, na Rua da Lama. O barbeiro era Seu Luiz, casado com uma filha de dona Jovem Nascimento e era pai de Manoel e Ulisses. Eu olhava para o rosto escanhoado do meu tio e indagava por que razão cortara sua bonita barba. E ele, passando a mão em volta da boca e depois coçando o gogó, respondia demonstrando impaciência:

“Ora, pois! Pra remoçar!”

A lembrança do tio me fez cultivar, quando passei dos cinquenta anos, a barbicha branca que até hoje conservo.

Depois que enviuvou, meu tio passou a morar na casa de minha avó. Gostava de tomar uns pileques e ia até o escritório de meu pai (na época o escritório de advocacia do meu pai ficava na Rua dos Ribeiros, entre as casas de Seu Agenor Viana e a de Gervásio, Arlinda e Amélia). Meu pai alugara aquela casa ao Seu Manoel Dantas, que era conceituado farmacêutico da cidade. Lembro-me bem que um dia meu tio Totonho apareceu no escritório e começou a falar alto, quase em tom de discurso. Eu não sabia do que se tratava, mas fiquei curioso com seu ar incisivo e eloquente. Meu pai notou minha curiosidade e fez um sinal, balançando a mão fechada com o dedo polegar em direção à boca, para indicar que o tio andara bebendo. Em seguida soube que o tom mordaz de sua fala era contra um desafeto.

Meu pai gostava muito do tio e cuidou dele quando minha avó faleceu. Depois, com a morte de papai, eu passei a cuidar do tio. Ele era pouco proseador, mas gostava de narrar piadas picantes. Tinha o pavio curto. Brabo mesmo! Ninguém tentasse pisar em seus calos que a resposta era incisiva e pontual. Pegava pra valer...

Lembro-me que em um domingo, meu irmão Artur esteve nos visitando em Simão Dias; ele e um colega juiz almoçaram em minha casa. Antes do almoço, tomamos um aperitivo e servi também ao meu tio. Conversávamos animadamente e repetimos a dose para todos. Artur olhou para o copo do meu tio e se preocupou. O velho já passava dos 90 anos, tomou a terceira dose e depois, olhando para Artur, disse que faria uma coisa que os mais novos não ousariam. Dobrou uma perna, formando um quatro, e simulou um balanço. Seu gesto dissipou a preocupação do meu irmão e todos sorriram com a faceirice do tio. E ele empinou a cabeça e vociferou: “Viu aí, danado!”

Certa vez apareceu para falar comigo um senhor que morava próximo à casa do tio (casa que aluguei ao Seu João Conceição Neto – João de D. Clarita - e que ficava no fundo de sua loja de tecidos).  Então o tal vizinho disse que eu teria que tomar uma providência, porque o velho ficava nu, se mostrando para o povo da rua. Fui verificar. 

Era uma tarde de calor infernal. A porta da casa estava fechada, mas o janelão estava aberto. O velho estava sentado em uma preguiçosa no fundo da sala, nu, mostrando a pela branca coberta de esvoaçantes cabelos cor de neve. Para se ver o velho tinha que ser curioso e perscrutar a casa olhando pela janela. Indaguei a outros moradores da rua e ninguém confirmou que o meu tio andava se expondo nu. Então fui até o reclamante e ele, com a cara mais lisa do mundo, disse que o pessoal não fora olhar da janela. Aí então eu fui tão impulsivo quanto meu tio: mandei o tal “amigo” procurar o que fazer e deixasse de se enxerir na janela dos vizinhos. Aconteceu então um pequeno entrevero, do jeito que, na época, eu gostava de aprontar...

Lá pelo começo dos anos setenta, surpreendentemente, esteve em Simão Dias um senhor simpático de nome Sizenando Silveira, que também era filho de um irmão de tio Totonho. Ficou hospedado na casa de tio Sininho. O Sizenando morava na cidade de São Paulo, onde era o titular do Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas - 2º Ofício.

Contava o Sizenando que foi graças aos safanões recebidos do tio Totonho que ele passou a estudar as primeiras letras. E mostrava-se realmente agradecido. Presenteou o tio com uma bonita e grande mala (adornada com selos dos países que tinha visitado) com ternos brancos de linho e um chapéu panamá. Além do mais, passou a mandar pelo correio uma mesada que, parece-me, correspondia a um salário mínimo. Não era pouca a alegria do meu tio. Passou a andar pelas ruas de Simão Dias, diariamente, usando  com elegância o terno (que ele chamava de fado branco) e o chapéu panamá. E sempre era visto em uma barbearia contando piadas picantes, que ele dizia ser de autoria de Camões ou do Bocage...

Certa vez a pessoa que cuidava da mesada do tio me informou que ele estava esbanjando dinheiro com raparigas da Ponta da Asa. Não dei atenção ao informe. Dias depois, estava trabalhando no BNB e recebi um recado que devia me dirigir com urgência ao beco entre o Banco e o Cartório de tio Sininho, para ver a presepada do Totonho.

Fui lá. Cheguei de mansinho, sem ser notado pelo tio, que estava ao lado de uma mulher. Ele com a braguilha aberta e a dona com a ponta do dedo tocava e sentia a flacidez do cansado pênis. Então ele levantava a cabeça e arrematava:

“Viu aí, danada! Toma...”

Em seguida, fechava a braguilha, guardando sua coisa sempre mole, e metia a mão no bolso para tirar uma cédula de cinco cruzeiros e pagar a paciente rapariga.
    
Retirei-me sem ser visto e aprovei a diversão do tio. Na época ele já tinha ultrapassado os noventa e poucos janeiros bem vividos. Para a pessoa que também protegia meu tio, falei para não se preocupar. O fato que presenciei tinha um grande valor para o querido idoso e, melhor ainda, não causava qualquer mal. Além do mais: demonstrava que ele não tinha perdido a esperança e nem demonstrava acanhamento em tentar fazer o que gostava.

No ano de 1975 fui trabalhar em Jequié-BA. Não tinha como levar o meu tio e ele passou a ser cuidado pelo primo Wellington de tia Vina, que o trouxe para Aracaju.

Em 1976, encontrei pela última vez com o querido tio Totonho. Não esqueço que foi a primeira vez que vi lágrimas descendo entre as rugas de seu quase centenário rosto. Ele estava abraçado com meu filho primogênito. E com ele também chorei.

Poucos meses depois, senti novamente o sal das lágrimas ao saber que meu tio-avô tinha ingressado em outra dimensão.

Aracaju, 25/02/2019

Beto Déda