quinta-feira, 25 de agosto de 2016

OS BANHEIROS PÚBLICOS EM SIMÃO DIAS.

Provocado por estudantes que se dedicam ao estudo do passado recente de minha terra, repasso algumas lembranças do que faziam os jovens de Simão Dias nos anos 50 e 60. Não contávamos com televisão, nem telefone ou outas modernidades. Mesmo assim, vivemos um período em que a juventude fervilhava de ânimo por ensinamentos e diversão. Tempo em que os garotos construíam o próprio brinquedo e se divertiam fazendo teatro mambembe e toscas caixinhas de cinema; tempo de lúdicos bailes, dos namoros e das festinhas em casa de famílias. Tempo em que se exercitava a imaginação com boas leituras e ensaios culturais no Caiçara Clube, na Associação da Juventude Simãodiense (AJIS), no Cine Brasil e no Cine Ipiranga. Era uma época em que se jogava peteca e bola de meia nas calçadas e, na Praça de São João, brincávamos de bola de gude e jogávamos futebol com bola de meia, de borracha ou de bexiga de boi. Época de peraltices, saboreando tamarindos do Parque, os cajus e mangas “requisitados” nos sítios da redondeza e tomando banho no poço do riacho Caiçá.  E não faltavam as travessuras naturais da puberdade, admirando e namorando as garotas e perscrutando locais íntimos para admirar a beleza feminina, inclusive as coroas que frequentavam os banheiros públicos.
E quando falo em banheiro público, minha memória, espontaneamente, me encoraja a fixar neste ponto, de modo a me fazer acreditar que vale uma explicação.  
Nos anos 50 havia em nossa cidade alguns banheiros públicos, não banheiro no sentido que tem hoje: mictório ou aparelho sanitário; o sentido era quarto de banho, ou seja, local para as pessoas tomarem banho. E era público, não no sentido de “res publica” ou bem de domínio de pessoa jurídica de direito público interno. Era de uso do público, mas pertenciam a particulares, que lucravam com eles, cobrando uma taxa pelo uso.  O ingresso das pessoas acontecia por turno. Um horário para as mulheres e outro para os homens.  Lembro-me de dois desses banheiros: um, perto da Rua do Mulungu, ou Ponta da Asa, que ficava no quintal da casa onde funcionava a movelaria de Pedro Americano. No muro da casa tinha um grande reclame: Banheiro: 500$(quinhentos réis) por banho. E o outro, no trecho entre a Praça de São João e a Rua dos Ribeiros, no sítio de seu Pierre, localizado naquela travessa, em frente ao oitão da casa de dona Mariana (que hoje é um Hospital).

Quem administrava o banheiro do sítio de seu Pierre era o caseiro chamado Manoel. Ele era o encarregado de fazer a cobrança de uso, enchia a caixa d’água e fazia a limpeza depois que o banheiro era usado.
A meninada (e eu no meio) não perdia a oportunidade de olhar os trabalhos de limpeza dos banheiros depois de usados pelas coroas da proximidade. O interesse da garotada era olhar os vestígios deixados pelas banhistas, especialmente depois de se depilarem.  Os restos de pelos negros, loiros ou oxigenados – deixados próximo ao ralo do esgoto – causavam admiração e entusiasmo.
 – Belos pentelhos! Exclamava o primo Alfeu. E a frase era repetida em coro pela molecada.
Ao ouvir a zombaria, o zelador Manoel expulsava todos batendo com a vassoura molhada e gritando: - “Fora pivetes!”
A garotada se divertia. Era uma zorra...
Aracaju, 25/08/2016

BETO DÉDA

terça-feira, 23 de agosto de 2016

    
    O CAUSO DO PIDÃO INCORRIGÍVEL.


Neste fim de semana estivemos no Lago Dourado, reunidos com minha irmã Nancy, seus filhos e netos. Foi um dia agradabilíssimo. Nas conversas com os sobrinhos, um deles me mostrou uma fita de um humorista narrando o caso de um sacristão que era um chato pidão. Ri muito com a história e me lembrei de outra contada por tio Paulo.

Dizia meu tio que em Simão Dias tinha um gajo que era pedinte contumaz. Pedia tudo e usava todos os meios para conseguir qualquer coisa. Em um dia de sábado, meu tio estava na feira quando se aproximou o gajo, fazendo o gesto de todo pidão: mostrando a mão aberta e estirada para indicar solicitação. Chegou perto e foi dizendo: – Seu Palo me dê um trocadinho...

O tio coçou os bolsos e deu a resposta de sempre:

 – Madeirinha, não tenho nem um centavo no bolso. Perdoe..
.
O pedinte não perdoou e fez novo pedido:

 – Então me dê esse boné que tá na sua cabeça...

 – Não posso. O boné está protegendo minha careca do sol quente – respondeu meu tio.

O insistente pedinte olhou para o bolso da camisa de meu tio e voltou à carga:

 – Ora meu amigo, tenha paciência e me dê um cigarrinho desses que você tem no bolso.

 – Madeirinha, essa caixa que você vê no meu bolso não é cigarro, é um colírio que uso para desembaçar os olhos.

Diante da resposta, o pidão não esmaeceu, com as pontas dos dedos, segurou as pálpebras, arregalando os olhos, aproximou-se ainda mais do meu tio, e fez o último pedido:

 – Seu Palo, ponha três gotinhas aqui...

Dizia meu tio que a posição do pedinte era tão engraçada que mereceu o pronto atendimento.

Aracaju, 23/08/2016

BETO DÉDA

domingo, 14 de agosto de 2016

Presidenta ou Presidente? Gafe ou questão ideológica?
Recentemente a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, foi indagada por um de seus pares se preferia ser  chamada de “presidente” ou “presidenta” daquela corte de justiça. Com o um sorriso irônico, ela justificou primeiramente seu entendimento para depois externar sua opção, afirmando:
“Eu fui estudante e EU SOU AMANTE DA LÍNGUA PORTUGUESA. Acho que o cargo é de presidente, não é não?”
 
Ministra Cármen Lúcia quando ocorreu o fato polêmico
 A preferência por ser chamada de presidente não é passível de crítica. Porque ambas as formas estão corretas. Mas a justificativa da ministra foi um lamentável erro ou um “ato falho”, como diria o saudoso amigo Átila Lisa, ou seja, uma gafe, verdadeira mancada. Na verdade foi uma indiscrição que não se admite em pessoa que ocupará a direção de um dos poderes da república brasileira.
A forma como justificou sua resposta gerou uma série de interpretações: a) deselegância e maldade perante a Presidenta Dilma; b) ignorância do sentido do verbete “presidenta” em nossa língua; e c) agradar aos partidários do impeachment e revelar sua ideologia.
Não resta dúvida de que o vocábulo “PRESIDENTA” está presente em dicionários da língua portuguesa e enciclopédias, como substantivo feminino. A preferência de Dilma em ser chamada de presidenta expressa sua vontade de evidenciar o fato de que foi a primeira mulher a ser eleita como presidenta do Brasil. E o importante é que o vocábulo está absolutamente de acordo com lexicólogos de nossa língua. Neste sentido, vale lembrar que o verbete “Presidenta” consta em dicionários e enciclopédias, como substantivo feminino, com significado de: mulher que se elege presidente de um país (Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa); mulher que preside (Novo Dicionário da Língua Portuguesa-Aurélio), e mulher que exerce função de presidente (Nova Enciclopédia Delta Larousse).
De notar-se que a resposta da ministra repercutiu como uma maldade ou, no mínimo, uma deselegância com a Presidenta Dilma. E não foi pouco o vexame que a declaração causou nos meios sociais, especialmente agora, quando a população brasileira se acha dividida por atos de políticos e da mídia que tentam de todos os meios tomar o poder. O fato alcançou uma dimensão ainda maior diante da fase negativa e de incredulidade porque passa o Poder Judiciário, em grande parte decorrente de fatos e declarações equivocadas de alguns magistrados e ministros togados.
Nos bancos da faculdade e no exemplo de bons aplicadores do direito, aprendemos que o magistrado deve ser comedido no seu falar, especialmente diante de órgãos de divulgação.  A falta de prudência de um juiz, em seus atos e declarações, pode transparecer parcialidade e dar azo à interpretação de que estaria concedendo favorecimentos indevidos ou de ter ideologia preconceituosa. Lamentavelmente se tem conhecimento de que essa atitude vem acontecendo com frequência e o pior, servem de péssimo exemplo.
Para mim, no meu modo simples de pensar, acredito que a ministra cometeu um lamentável equívoco e que, doravante, certamente pensará duas vezes antes de soltar o verbo.
Por outro lado, diante desta polêmica, não posso negar que me lembrei do saudoso tio Paulo que, se vivo estivesse, aproveitaria para transformar a criticada justificativa em uma história “penosa”, transbordando humor.  E, não tenham dúvida,  eu escreveria tal "penosa" aqui, observando a devida cautela em trocar os nomes dos personagens...

Aracaju, 14/08/2016

BETO DÉDA

quarta-feira, 3 de agosto de 2016


TRÊS CAUSOS INESQUECÍVEIS CONTADOS POR TIO PAULO.

1) Zé Cágado vai à feira:

Nos anos 50, na cidade de Simão Dias, existiam muitas fábricas de calçados e diversas tendas de sapateiros, conhecidas como “futucas”, espalhadas pelas ruas da cidade. Meu tio Paulo era proprietário de um curtume no local conhecido por Aloque, que curtia couro de boi e pelicas de porco.  Era lá no Aloque que os proprietários de fábricas e “futucas” adquiriam couro para fazer calçados.

 Era costume dos sapateiros dizer que estavam indo ao Aloque comprar material para fazer obra, ou seja, comprar couro para fabricar calçados.

O artesão Zé Cágado tinha uma pequena fábrica de calçados na Rua da Lama. Ele era um senhor baixo, forte, simpático, gostava de esporte e apitava os jogos de futebol no gramado José Barreto de nossa cidade. Chistoso, gostava de pilheriar, contar boas piadas e apresentar sentido ambíguo às palavras comuns usadas por nosso povo.

Contava meu tio que aos sábados, sabendo dos gracejos de seu Zé Cágado, o pessoal esperava ele passar com uma cesta, em frente ao bar de Valério, descendo em direção à rua da feira (na época na Av. Cel. Loyola), e indagava aonde ele ia. A resposta já era conhecida e recebida com boas risadas. Respondia ele com graça, dando sua versão especial para os termos “material” e “fazer obra”, no sentido de “víveres” e “defecar”, respectivamente:

- Vou à feira, comprar material pra depois fazer obra...

...

2) O gago que trocava o “V” por “B”:

Esta história foi-me contada por meu tio Paulo, na época que não era considerado politicamente incorreto falar sobre gagueira. Transcrevo, aqui, apenas com fato histórico.

Conversávamos sobre um garoto fanho, filho de um sapateiro, quando ele me contou outro causo de um seu amigo que era gago e tinha dificuldade em pronunciar certas palavras, muitas vezes trocando o “V” por “B”. Quando ele ficava nervoso a gagueira aumentava, provocando vexame não só ao próprio como aos seus interlocutores que, por mais controle que tivessem, não disfarçavam o riso.

Contava meu tio que uma tarde, em sua loja de calçados “Triunfo”, no comércio de Simão Dias, alguns amigos discutiam sobre futebol; lá estavam Lulu, Barbosa, João Grande e Café. Foi quando surgiu um amigo comum que era gago, tal e qual os famosos Ari Barroso e Nelson Gonçalves. O gago era fanático por um time de futebol e no auge da discussão, a gagueira ficou incontrolável. Justo nesse momento entrou na loja uma senhorita e todos pararam de discutir para apreciar a moça. Era uma bonita garota conhecida do gago que, dirigindo-se a ele, falou:

  – Como vai o senhor, tudo bem?

E o gago, nervoso, respondeu, trocando o “V” pelo ”B”, deixando os amigos sem meios de controlar a risada:

–  Booou-bem, obriii-ga-ga-do!   Bo...bo-cê-ta-boa?

...

3) O idoso  que não lembrava dos bagos:

Com a peculiar maneira de contar seus causos, disse-me meu tio que no tempo em que morava em Simão Dias tomou conhecimento de um fato que o deixou preocupado. Ele tinha um amigo muito respeitoso e de idade avançada que, infelizmente, passara a sofrer do mal do esquecimento. Era uma doença que lhe ocasionava a perda de memória, possivelmente o início da enfermidade que hoje é conhecida como “Mal de Alzheimer”.

Com seus oitenta anos bem vividos, meu tio confidenciou-me que tinha receio de ficar como o ancião de nossa cidade. Então, contava-me que o amigo, que se aproximava dos noventa janeiros, começou agir de forma estranha e a fazer determinadas perguntas que demonstravam o início do terrível mal de perda de memória. Em uma manhã,  o idoso saiu nu pelo quintal de sua casa e foi fazer xixi no portão. Ali, sozinho, baixou a cabeça, olhou para as partes íntimas, pegou nos bagos, mexeu,  remexeu, fez aquele ar de indagação elevando as sobrancelhas e gritou para a sua esposa:   – “Massita, chega aqui depressa”. Quando a senhora se aproximou, ele  mostrou o saco dos bagos, lamentando-se:

-Veja, minha querida Massita, quando a gente fica velho aparece tudo que não presta em nossa corpo!

E puxando o flácido saco, concluiu:

“Olhe, aqui, o tamanho das bolas que nasceram agora debaixo de minha pinta...”

Aracaju, 03/08/2016

Beto Déda

segunda-feira, 25 de julho de 2016


Recordações do Bar de Abel.

Esta semana minha memória foi ativada pelo conterrâneo Claudiano Guimarães Santos, que postou em sua página no facebook uma fotografia de seu pai, Abel Jacó dos Santos, no IX-Congresso Nacional de Municípios, realizado no Paraná, em 1979. O saudoso amigo Abel era um comerciante muito querido pelo povo de Simão Dias. Inicialmente ele tinha uma alfaiataria, depois foi proprietário de uma movimentada lanchonete/bar situada na Rua Joviniano Carvalho, entre as lojas “As Três Américas”, de Cícero Guerra, e a ”A Predileta” de Elísia Montalvão. Era uma pessoa simples que, com muita simpatia, sabia conquistar amizades e cuidar de pessoas humildes, qualidades que facilitaram sua eleição como prefeito de nossa terra (1978) e, em seguida, deputado estadual. 


Nos bons tempos de minha juventude,  acompanhávamos os jogos de futebol carioca no Bar do Abel . Ele tinha um potente rádio do tamanho de uma televisão de 20 polegadas, que funcionava à bataria de carro. Nas tardes de domingo, ele colocava o rádio em uma mesa na calçada, em frente ao seu bar, e sintonizava na Rádio Nacional para que os fregueses ouvissem as narrações dos grandes embates do campeonato carioca. As mesas espalhadas na calçada ficavam lotadas. Foi lá que ouvi as transmissões dos jogos em que o Flamengo foi campeão em 1955(aliás, conquistou o tricampeonato).

Já nos anos 60, quando a cidade não contava com clube social, era no Bar do Abel que a turma se reunia para grandes comemorações, na base de cervejas geladíssimas e saborosos tira-gostos. Dos meus arquivos implacáveis e desorganizados pesquei três fotografias de acontecimento no famoso bar. Não estou
lembrado se foi uma reunião de aniversário ou despedida de um bancário. As fotos (tiradas pelo meu saudoso vizinho e amigo Barbosa Guimarães) nos lembram de vários amigos e, de modo especial, do Abel e de seu filho Claudiano (na época um garotinho).


Quando falo no bar de Abel, sempre me lembro do causo que aconteceu com o amigo Adelmo quando era garoto. Em uma tarde de domingo, quando eu ia ao Cine Ipiranga vender gibis na sessão de matinê, passei pelo bar e lá encontrei os amigos Adelmo e Joaquim. Estávamos conversando quando apareceu o Raimundo, um homenzarrão que gostava de uns pileques e era conhecido como Vitor Mature, por se parecer com o astro do cinema. Ele estava bebendo e quando bebia saía do seu comportamento normal e educado: passava a meter medo, se tornava enjoado, fazia e acontecia, encarava quem o desapontasse. Era bom de briga e naquele tarde ele estava querendo testar seus músculos. Depois de tomar mais alguns tragos, começou a provocar. Não encontrando adversários de sua idade e tamanho, cismou que os garotos Adelmo e Joaquim teriam de cantar. Diante da negativa dos meninos, ele pegou o Adelmo pelo braço e disse: “Agora você vai cantar uma canção de Nelson Gonçalves”. O garoto balançou a cabeça como negativa e falou que não sabia cantar. Mas o bebum não aceitou tal justificativa e determinou raivoso: “Vai cantar, sim! Comece a dar o tom. Vai, pirralho, dê o tom!”.
Mesmo meio assustado, o Adelmo fez um ar zombeteiro para atender a ordem do valentão e soltou o ar dos pulmões, cantarolando com inflexão nasalada:
“Tommmmmmmmmmmmmmmmm”
As gargalhadas dos que estavam no bar desviaram a atenção do implicante e Adelmo aproveitou esse descuido: livrou-se das mãos do agressor e se mandou...
Aracaju, 25/07/2016
BETO DÉDA

 

quarta-feira, 20 de julho de 2016


HISTÓRIAS “PENOSAS” PARA OS DE MAIOR IDADE.
Antes de qualquer coisa, aqui vai uma pergunta pertinente para os dias atuais: quando se inicia a maior idade para se ouvir histórias “penosas”? Com 14, 16 ou 18 anos?  Não sei e não entro na discussão. Como sou da velha guarda, melhor é que menores de 18 anos não leiam estas “mal escritas linhas”. 
Para meu tio Paulo, que gostava muito de contar tais histórias, a palavra "penosa" tinha o sentido especial, ou seja, dava ideia de coisa maliciosa, picante, sensual. Um simples fato da vida era transformado por ele em uma “história penosa”, que usava para abrir sorrisos e alegrar os ambientes.  Para ele tais histórias não serviam para os de menor idade.
 Em uma de minhas conversas com tio Paulo, lembrando coisas de nossa cidade, falei sobre as balas envolvidas com figurinhas de jogadores de futebol, vendidas logo após a seleção brasileira ser campeã mundial, em 1958. Então ele lembrou o caso das famosas “Balas Bil”.
Dizia ele que, naquela época, apareceu em Simão Dias uma engraçada senhora carioca, com um sotaque forte, que impressionava as pessoas.  Esta senhora foi até o Bar de Valério comprar umas Balas Bil, muito apreciadas pela garotada, para distribuir com seus sobrinhos. Foi atendida por seu João Fontes que era balconista do bar. Depois de distribuir as balas com a meninada foi fazer o pagamento. Espantou-se com o valor informado por seu João, e manifestou seu espanto, deixando admirados os que estavam no bar e ouviram suas palavras. Exclamou ela em tom de protesto, formando um cacófato, em que ficava evidente um termo (xibiu) que, em nossa região, tem  o sentido chulo de vulva:
 - Xiiii Bil está muito caro nesta terra...
...
Meu tio sabia dosar com graça os causos que contava e o fazia transbordando humor. Aqui vai outra história penosa. Contou-me que uma vez apareceu na cidade um sujeito esperto que dizia saber falar com os animais. Era apenas um ventríloquo. Ele tinha parentes que trabalhavam na Fazenda "Chora Menino" e foi em direção àquele local juntamente com um garoto guia. No meio da estrada, para impressionar o guia, começou a usar sua especialidade como ventríloquo e simulava conversar com os animais. Primeiro com o boi, depois com o porco e  em seguida com um jumento. O guia ficou boquiaberto com aquilo e pensou: “Não é que o danado sabe falar com os bichos”. Continuaram caminhando, mas, de repente, o garoto ficou apavorado. É que lá na frente estava sua ovelha preferida e que ele usava para aliviar suas comichões. O visitante olhou a ovelha e percebeu o apavoramento do guia. Então exclamou: “Olá, amiga ovelha, como meu guia vem lhe tratando?” E ele mesmo começou a resposta: “Ora, tem me usado...” Então o rapazola interrompeu imediatamente a conversa:
-Moço, é melhor não conversar com esta ovelha. É uma bicha mentirosa e considerada como a maior ‘levantadeira’ de aleive desta redondeza. Esqueça a lanzuda, converse com o pato...
...
Dando o dedo pé
E tinha a historia de um menino danado de Simão Dias, cheio de sardas, que de tudo fazia uma molequeira. Dizia meu tio que o garoto era tão safado que sabia fazer pornografia com o dedo do pé.  Mostrava o dedo do pé imitando o que outros fazia com o da mão. Tudo que lhe perguntava, ele respondia usando uma pulha ou um palavrão. A maior satisfação do garoto sardento foi quando começou a estudar inglês no ginásio. Ele ficou vidrado quando a professora começou a ensinar o verbo “To Be”, especialmente quando ouviu a pronúncia “tu-bi”, igual ao termo usado na cidade para designar o órgão genital feminino. Em determinado dia, vendo a Professora de Inglês passar, ele não se conteve e exclamou: “Lá vai um grande tubi”. A mãe ouviu, não gostou e reclamou. A justificativa do garoto foi imediata: “Ora, ora, estou aprendendo inglês e dizendo que a professora é um grande tubi, ou seja, um grande ser. Sacou?...
Certa vez, para provocá-lo, tio Paulo indagou: “Madeirinha, faça uma rima com a palavra anão”. O garoto pensou um pouco e, não encontrando melhor rima, saiu-se com essa: “Anão, anão mais com uma pinta destamanhão” . E fazia um gesto separando as mãos para demonstrar o “destamanhão”...
Aracaju, 20/07/2016

BETO DÉDA

terça-feira, 12 de julho de 2016

Lições do passado.
Recentemente, depois de ler um de meus textos, um amigo disse-me que eu tinha um estilo parecido com o do meu pai. Especialmente no que diz respeito à linguagem simples e direta. Não foi a primeira vez que me disseram isto. Nem é preciso dizer que fiquei demasiadamente feliz com a grata comparação.
De meu pai tive um aprendizado muito grande. Desde garoto me acostumei a ler e gostar do que ele escrevia. E tem um detalhe importante: como aprendiz e tipógrafo, eu fazia questão de compor os textos por ele escritos, juntando no componedor os tipos de chumbo para edição do jornal “A Semana”. Foi um treinamento valioso para minha formação.
Lembro-me, agora, de uma das mais gratas lições do meu pai. Estava certa tarde na sala da frente da redação do jornal, lendo um gibi. Meu pai aproximou-se, olhou o que eu estava lendo, foi até uma de suas estantes, pegou um livro e me disse: “Se você quer conhecer boas histórias, leia este livro”.  Era um dos exemplares de sua coleção do escritor Malba Tahan, com o título “Lendas do céu e da terra”. Fiquei encantando com a leitura do primeiro livro. Daí em diante eu comecei a ser um assíduo leitor e admirador do autor de “O Homem que Calculava”; passei também a conhecer os encantos da biblioteca de meu pai.
Tempos depois, no final dos anos cinquenta, quando eu era aluno interno do Ginásio Jackson de Figueiredo, voltei a lembrar da lição de meu pai. O diretor Benedito Oliveira designou-me a comparecer ao Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe para assistir à palestra “A arte de contar história”, proferida pelo professor catedrático do Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, Júlio Cesar de Mello e Souza, que era mais conhecido pelo pseudônimo Malba Tahan, que usava ao escrever suas famosas histórias.  
Para mim foi uma satisfação imensa e, até hoje, não esqueço uma parte da explanação do grande escritor, na qual ele dizia que o simples fato da saber escrever não era suficiente para ser um bom contador de história. E apresentou um exemplo que ficou inculcado em minha memória.  Tentarei passar para os amigos o que ouvi do grande Malba Tahan.
Dizia ele que um garoto estudante, que vivia na roça, aproximou-se do pai e perguntou o que significava o vocábulo “FENÔMENO”, termo que a professora pedira para ele descrever como dever de casa. O pai não era letrado, mas sabia das coisas e tinha sua maneira própria de se fazer entender. Então, pensou um pouco, olhou para o filho e disse:
- Está vendo esta vaca? E antes que o filho dissesse qualquer coisa, ele completou: “Ela não é um fenômeno”.
- Está vendo aquela casa? E acrescentou: “Ela também não é um fenômeno”
E ante o olhar interrogativo do filho, concluiu:
- Mas, quando você notar que esta vaca subiu no telhado daquela casa, aí meu filho, você estará diante de uma raridade, uma coisa fora do comum: um FENÔMENO.  E fatos como este  serão  merecedores de admiração porque se incluem entre os que têm natureza fenomenal.
Ao finalizar, o conferencista fez uma explanação sobre a importância do uso da simplicidade na forma de contar histórias.
...
Ainda aproveitando o gancho deste causo, veio-me à lembrança um fato que ocorreu quando eu trabalhava no Banco do Nordeste e participava na Direção Geral, em Fortaleza, de um treinamento para elaborar apostilhas sobre ensino à distância (no meu caso: Crédito Rural). O Banco contratara uma professora paulista para nos ensinar. Na primeira aula, ela fez uma preleção sobre a necessidade de usarmos uma linguagem simples, de modo a facilitar o entendimento. Aproveitei a oportunidade e narrei o exemplo que nos foi ensinado pelo famoso Malba Tahan.
Depois que contei o caso, um colega desatento perguntou qual o sentido daquele fato para o treinamento. Fiquei triste e atordoado diante daquela pergunta, isto porque deu a entender que a minha narrativa tinha sido impertinente.
Recuperei-me ao ouvir a professora paulista esclarecer a pertinência de minha intervenção, e o fez usando exemplo simples, tal qual o ensinamento do mestre do Colégio Pedro II.

São lições inesquecíveis de pessoas que enriqueceram nosso conhecimento.

Aracaju, 11/07/2016

BETO DÉDA