sexta-feira, 25 de maio de 2018



Um abraço pra você...

Hoje estou festejando meu aniversário. Como sempre, sinto-me feliz em recordar, mais uma vez, a história que me foi contada por minha saudosa mãe. 

Dizia ela que minha vida começou em uma manhã chuvosa do dia 25 de maio de 1941, na Rua dos Ribeiros, em Simão Dias. Cheguei ao mundo parecendo que não respirava e não chorei ao tomar a primeira palmada na bunda. Contou-me, balançando-me no colo, que eu só despertei e comecei a chorar, apresentando os sinais de vida, depois que meu pai, aflito, bateu com um garfo em um prato fazendo zoada junto ao meu ouvido.

Já decorreram setenta e sete anos daquela data e, ao comemorar, abro o meu tesouro de riquezas intangíveis, formadas pelas lembranças de fatos e pessoas que, de uma forma ou outra, moldaram o meu cabedal. Percebo que ao caminhar pela estrada da vida, neste último ano, novas experiências surgiram, aumentando os teres e haveres deste meu tesouro, e que foram ocasionadas pela positiva atuação das pessoas que convivo hoje, que se aliam aos imortais ensinamentos de queridos e inesquecíveis personagens de outrora.



Foto de hoje, com o chapéu de meu neto cobrindo a careca.
Na comemoração de hoje, não penso e nem pretendo parecer mais novo, nem mais velho do que sou. Fico contente e feliz ao comemorar meus 77 anos. Sou o que sou. Continuo adorando minha família, querendo bem aos amigos e amigas, lembrando os queridos que já se foram para outra dimensão e fazendo as coisas que me agradam: cantar no banheiro, assistir a bons filmes, cuidar das plantas que cultivo no meu sítio e fazer meus armengues em minha mini oficina de marcenaria. Além disso, gosto de compartilhar meus sonhos e feitos, usando este computador para escrever e transmitir aos parentes e amigos virtuais.



De sábios instrutores e parentes aprendi que o número 77 tem significados importantes. Na numerologia o número apresenta características do equilíbrio, que correspondente ao bom senso, ao espírito de liberdade e a capacidade de buscar a evolução maior na direção da Luz. 

A idade que atinjo é formada pela duplicidade do dígito sete, que é o número da harmonia, considerado místico, porque está presente na filosofia e literatura sagrada desde antiguidade até os dias de hoje.

Espero e creio que no decorrer dos meus setenta e sete anos, que inicia hoje, estejam presentes em meu espírito a defesa da liberdade, o equilíbrio, o bom senso diante de opiniões divergentes e que continue acreditando que Deus é Amor.

No mais, inverto a situação comum nos dias de aniversário e, com riso de orelha a orelha, mando um abraço fraterno para meus amores, de ontem e de hoje: todos os meus queridos parentes e amigos.

E que a paz e a alegria estejam presentes no lar de todos nós.

ARACAJU, 25 DE MAIO DE 2018 (Dia do meu aniversário)

BETO DÉDA

segunda-feira, 21 de maio de 2018



UM TROTE INESQUECÍVEL. 





Carteira de Estudante de Economia
Na tarde desta segunda-feira, 21 e maio, eu estava procurando um documento em meus arquivos e deparei-me com uma antiga carteira de estudante. Foi como um toque em minha memória para relembrar um fato engraçado e importante de minha vida. 

No final da primeira metade dos anos sessenta eu trabalhava como redator da Secretaria de Imprensa do Governo de Sergipe e comecei a estudar na Faculdade de Ciências Econômicas, cujo prédio ficava na Praça Camerino, aqui em Aracaju. 


Prédio da antiga Faculdade de Ciências Econômicas
Praça Camerino - Aracaju - Foto Google Maps
Naquela época os jovens que passavam no vestibular eram submetidos a um rigoroso trote. 

Fiz o vestibular e, depois de alguns dias, fui até a Faculdade pra saber o resultado. Lá chegando, alguns veteranos que me conheciam – e de antemão sabiam que eu tinha sido aprovado – sugeriram à turma encarregada do trote que não me deixassem escapar. 


E eles realmente não me deixaram fugir. Cortaram minha cabeleira com máquina zero, rasgaram minha camisa e entre outras gozações, derramaram sobre minha cabeça um balde de água misturada com pigmento de  óxido de ferro, deixando todo meu corpo banhado de vermelho. A alegria dominou o pátio do prédio da Faculdade.


Terminada a fuzarca, os veteranos liberaram os calouros. Eu morava na casa dos queridos Haroldo/Maura, que ficava na Rua de Boquim, próxima à Faculdade. Fui até lá e bati no portão. Minha irmã Maura veio atender e tomou um susto danado. Vendo-me com a cabeça raspada e o corpo todo coberto de pigmento vermelho, pensou que era sangue e que eu tinha sido atropelado em doloroso acidente. 

Notando seu semblante de surpresa e agonia, apressei-me em avisá-la que estava tudo bem e que aquilo fora um trote dos estudantes por ter sido aprovado no vestibular. Mas ela, apavorada, não me ouvia. E trêmula, gritava para Haroldo me socorrer... 

O Haroldo apareceu e seguiu-se um grande bafafá em que todos nós falávamos ao mesmo tempo. 

Somente depois de alguns instantes de desespero é que eles cuidaram de observar meu estado cômico. Então tudo foi devidamente esclarecido e terminou em incontidas gargalhadas.

Ainda hoje relembrei pra eles este fato, e nos divertimos muito, lembrando a aflição que tiveram depois do meu alegre trote.

Aracaju, 21 de maio de 2018.

Beto Déda



terça-feira, 15 de maio de 2018


Sonhando com você...


Na tarde do último domingo, 13 de maio, sonhei novamente que eu e você ainda éramos jovens.

Estávamos na Praça da Matriz em nossa terra natal. Você passeava tranquilamente. Belíssima! Quando lhe avistei, aproximei-me e, furtivamente, beijei seu rosto com carinho. Então pedi para segurar sua mão. Por trás do rubor de sua face, senti que você aquiesceu.

Andamos de mãos dadas, ouvindo o badalar dos sinos da Igreja e a voz das Filhas de Maria cantando o hino em louvor a Nossa Senhora que, cercada de luz, desceu dos Céus e apareceu aos três pastorzinhos de Fátima. E a alegria tomou conta do meu coração...

No sonho, você desapareceu e voltou depois. Estávamos novamente juntos, sentados em cadeiras de aço que, embora separadas, nos uniam como por magia. Ali, admirávamos as flores do jardim da praça. Citávamos um para o outro os pensamentos selecionados de almanaques e folhinhas de calendários.  Eram frases de pensadores ilustres, com ditos que nos tocavam; nosso diálogo evocava o encanto do amor e a beleza da vida. E seu olhar me enfeitiçava...

Na suavidade do meu sonho, essas lembranças quase reais reapareceram e foram estimuladas pelo cântico do hino de Nossa Senhora de Fátima, na voz dos Arautos do Evangelho, reproduzido em um rádio da vizinhança.

Ao despertar, não obstante a alegria provocada pelo sonho, aos poucos fui tomado por uma sensação de saudade, dessas que me acontecem nas tardinhas dos dias de domingo. 

Aí então, disfarcei minha emoção e enxuguei as duas lágrimas que ousaram umedecer com gotas de saudade minha pálida face...

Aracaju, 14 de maio de 2018.
Beto Déda






terça-feira, 8 de maio de 2018


MICHAEL KOHLHAAS - UM BOM FILME, UMA HISTÓRIA DE LUTA E O PENSAMENTO DE  UM CONSAGRADO JURISTA.


Nos dias cinzentos em que o Brasil vive, tento fugir das notícias dos canais da “imprensa marrom” e procuro entreter meu pensamento assistindo a antigos e bons filmes.

Acontece, porém, que algumas vezes deparo-me com fitas que tratam de situações que transportam meus pensamentos para fatos tristes dos dias atuais em nosso país.

Cartaz do filme baseado na novela de Kleist
Um bom filme que assisti recentemente tem como título Michael Kohlhaas – Justiça e Honra. O roteiro é baseado na obra-prima da literatura alemã, escrita por Heinrich von Kleist, que narra a injustiça cometida contra Michael Kohlhaas, um vendedor de cavalos que, inconformado com a violação sofrida, decide dedicar sua vida à luta pela conquista do direito e de sua honra.
   
O filme tem a direção do francês Arnaud des Pallières e o ator principal é  o dinamarquês Mads Mikkelsen. 

Esse filme me proporcionou algumas lembranças. Entre elas a de um livro que meu pai mantinha sempre em sua mesa de trabalho: A Luta pelo Direito, do jurista alemão Rudolf von Ihering, consagrado como uma das maiores expressões da ciência jurídica do século XIX.  Trata-se de uma obra indispensável a todos que se interessam pela direito e  lutam contra as injustiças.

Não tenho em meus arquivos o exemplar usado por meu pai, mas – seguindo seu exemplo – também passei a ser leitor do jurista alemão e mantenho em estante próxima ao meu computador o texto integral do livro, em edição mais nova.

Pois bem, na terceira parte de “A Luta pelo Direito”, Ihering lembra da obra de Kleist e apresenta o exemplo formidável da luta de Michael Kohlhaas  que “assumiu perante o mundo o dever de, com todas as suas forças, buscar o desagravo pela ofensa de que foi vítima e proteger os concidadãos contra futuras ofensas
.

Do livro de Rudolf von Ihering transcrevo, aqui, importantes mensagens, já utilizadas por mim em petições judiciais e que, agora,  se ajustam ao que vemos nesse nosso Brasil, que luta para não se transformar em um BraZil:

“Sempre que o arbítrio e a ilegalidade possam erguer a cabeça sem rebuços nem constrangimento, teremos um indício seguro de que aqueles a quem incumbe a defesa do direito omitiram-se no cumprimento do dever.”

...


Nenhuma injustiça praticada pelo homem, por mais grave que seja, aproxima-se, pelo menos para o senso moral não corrompido, daquela que a autoridade investida em suas funções pela graça de Deus comete ao violar o direito. Aquilo que nossa língua designa de forma tão adequada como o assassínio judiciário representa o pecado mortal do direito. O guardião da lei transforma-se em assassino. Seu ato equivale ao do médico que envenena o paciente, ao tutor que estrangula o pupilo.
...


“O fim do direito é a paz, o meio de que serve para consegui-lo é a luta. Enquanto o direito estiver sujeito às ameaças da injustiça – e isso perdurará enquanto o mundo for mundo – ele não poderá prescindir da luta. A vida do direito é a luta: luta dos povos, dos governos, das classes sociais, dos indivíduos.
...

PS. Qualquer semelhança com o que acontece no meio de nossa justiça é mera coincidência. Será?

ARACAJU, 08/05/2018

BETO DÉDA


quarta-feira, 25 de abril de 2018


AS PRERROGATIVAS DOS IDOSOS: UMA VISÃO EM DOIS TEMPOS.

Nos velhos e bons tempos de minha infância os pais dedicavam uma especial atenção à educação dos filhos, com importantes instruções sobre a dignidade, os bons costumes e, de modo especial, destacavam a virtude do respeito aos idosos.

Era comum entre as crianças de outrora tratar os idosos com muita atenção e deferência. O primeiro cumprimento quando nos dirigíamos às pessoas com idade era pedirmos a bênção, tal qual fazíamos com nossos pais e padrinhos.

Lembro-me que em noites de lua as crianças se reuniam nas calçadas da Rua dos Ribeiros para uma série de inocentes e agradáveis divertimentos. Mas tinha um momento em que as brincadeiras paravam. Era quando passava Sá Maria, uma senhora de idade, conhecida lavadeira, que carregava uma grande trouxa de roupas equilibrada na cabeça (naquela época era costume as lavadeiras pegarem nas casas as roupas sujas para lavarem no Açude Municipal).  Então, todos nós, respeitosamente, cumprimentávamos a simpática velhinha, pedindo sua bênção. E ela carinhosamente passava a mão em nossas cabeças e respondia: - Jesus abençoe todos vocês.

Era um respeito que se repetia com os velhinhos de nosso tempo e isto nos fazia um bem formidável. Mas, infelizmente, com o passar dos anos, tudo se modificou: a reverência aos idosos e, também, a reputação que se tinha dos laços familiares foram perdendo o crédito e desaparecendo. E o pior, o desrespeito passou a se tornar banal com divulgação ostensiva de ofensas aos idosos em noticiários e novelas transmitidas pelas redes de televisão. 

A desconsideração aos idosos se tornou tão escancarada que foi necessário se criar uma lei para proteger os velhinhos. Surgiu, então, o Estatuto do Idoso (Lei 10.741, de 01/10/2003), uma legislação que concede prerrogativas àqueles que atravessaram por mais de 60 anos as provações deste mundão de tormentas. 

Dentre as prerrogativas previstas em lei, destacam-se pontos importantes, assegurando aos idosos todas as oportunidades e facilidades para realização de seus direitos. Dentre as vantagens, destaca-se aquela que determina a todos os estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços darem preferência ao atendimento ao idoso, sendo as mais comuns nas filas de caixas, nos balcões de atendimentos ou na reserva de vagas em estacionamentos.

Não obstante se tratar de prerrogativas legais, o que se nota com certa frequência é a tentativa de alguns burlarem o efeito da lei. Não são raros os casos em que os dirigentes de estabelecimentos comerciais escolhem os caixas especiais, destinados aos idosos, para efetivarem o treinamento de novos funcionários. Aí, então, compromete-se a preferência legal, porque a inexperiência dos novatos torna o atendimento moroso, com filas maiores do que as normais.

Outro dia, fui a um supermercado fazer pequena compra. Como sou idoso procurei pagar em um caixa especial. Verifiquei que o responsável pelo caixa estava treinando uma funcionária novata e que a fila não andava. Desisti da compra e fui liberar o cartão de estacionamento do veículo. A moça encarregada disse que, embora o estacionamento fosse gratuito teria que pagar R$ 4,00, porque eu não tinha feito compras e já tinha passado um minuto do tempo permitido (permitem apenas 15 minutos).

Aleguei que não fizera a compra por culpa de demora do caixa especial. Mas que ia comprar qualquer coisa para evitar a multa. A moça, com a expressão de desdém, fez a advertência de que a compra teria que ser superior a R$ 20,00.

Ai, então, esperneei, fiquei brabo, minha pressão saiu do normal, mas protestei e fiz ver que não me conformava em suportar os efeitos da ofensa  dos patifes comerciantes gananciosos.

Foi uma confusão danada e, ao final, a lei de proteção ao idoso foi para as cucuias. E minha pressão... Bem, a pressão ultrapassou o limite e só foi regularizada com um bom calmante.

Moral da história: os acontecimentos envolvendo os idosos de hoje nos causam tristezas; melhor pensar nos tempos de minha infância, pedindo bênção a Sá Maria nas calçadas da Rua dos Ribeiros, em Simão Dias.

ARACAJU, 24 DE ABRIL DE 2018.

BETO DÉDA



terça-feira, 3 de abril de 2018


LONGE DA INTERNET E SONHANDO COM AS GAROTAS DOS BONS TEMPOS.

Estive ausente da internet e em especial das redes sociais já faz alguns dias. Estava no Lago Dourado, fazendo coisas próprias de aposentado. Procurando criar alguma novidade, tentando, sem parar, livrar minha mente daqueles que tentam empurrar nosso país para a intolerância e o fascismo.

Nestes últimos trinta dias eu procurei ficar longe das tendenciosas notícias dos comprometidos meios de comunicação e afastar-me das maldições dos que aqui, perto de nossa gente, mentem e atacam de modo impensado, deixando-nos perplexos, decepcionados e entristecidos.

Estamos vivendo momentos terríveis, com patifes tomando conta do país. Uma lástima!

Mas, lancemos as coisas ruins para longe. 

Na verdade, aproveitei o tempo para pensar em coisas boas. Toda tarde sentava-me à margem do Lago Dourado, apreciando os patos selvagens, os passarinhos, os peixes e os camaleões. Eram momentos que me embriagavam com a beleza do entardecer. Lindo que só vendo para sentir. Especialmente para quem já passou por muitos estágios da vida. Momentos maravilhosos, de prece e sossego.

Confesso que nas tardinhas, lá no Lago Dourado, deixava a porteira de minha memória livre para passarem as lembranças prazerosas dos bons tempos. Em uma das tardes, surgiram recordações de meninas e moças encantadoras que passaram por minha vida. As que comigo compartilharam brincadeiras e namoros na Rua dos Ribeiros e Praça da Matriz em minha terra. E também aquelas que passeavam pela Praça Fausto Cardoso, em Aracaju, ou no Bairro Barris, na cidade que chamávamos Bahia e que hoje é conhecida como Salvador. Sem esquecer as queridas e amadas garotas de Paripiranga, a famosa Paris baiana. Meninas e moças lindas, charmosas, com cabelos em tranças longas, ou encaracolados, com cortes frontais, tipo simpatia, macios ou crespos, todos bonitos e agradáveis de apalpar com as duas mãos.

Sentado no píer do Lago, pensei em  cada uma delas, as moreninhas, as loiras, as encantadoras cor de café; todas renasceram no meu pensamento, tal como viviam nos felizes anos de minha infância e juventude. Todas inesquecíveis e lembro os detalhes de cada uma delas. Lindas, amáveis e que o tempo não apaga de minha memória. As lembranças se repetiram em dias seguidos e renovaram minhas forças.

Então, na última tarde de devaneio, indaguei aos meus botões:

- Mas, por onde andam essas garotas?

Depois de uma pausa para  reflexão, percebi que não sei o destino da maioria delas. Certamente hoje estão todas mudadas fisicamente ou, talvez, algumas nem estejam em nosso mundo. O que sei é que, para mim, continuam todas elas meninas e garotas, lindas, sorridentes e esbanjando ternura e, tal qual antigamente, animando meu coração...

E lá, olhando o lento remanso das águas do lago, orei por todas elas, sem exceção, pois no meu pensamento continuam jovens, lindas, graciosas, alegres e amadas.

E elas enchem meu pensar de felicidades.


Aracaju, 03/04/2018
BETO DÉDA

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018


UM CANCIONEIRO ARGENTINO EM SIMÃO DIAS.


Nesta semana estiveram me visitando as amigas Amanda e Vanessa que vão fazer o mestrado em história na Universidade Federal de Sergipe. Conversamos sobre diversos temas ligados à história recente de Simão Dias e Paripiranga, onde elas residem.

Folheei minhas coleções de jornais para esclarecer alguns assuntos e deparei-me com fatos que, depois que elas saíram, fizeram-me recordar do final de 1968, quando eu trabalhava   no Banco do Nordeste, em minha terra natal. Naquela época, além de bancário eu era editor e diretor do jornal “A Semana”, fundado pelo meu saudoso pai, José de Carvalho Déda.

Lembro-me, como se fosse hoje,  que em uma tarde do final daquele ano, chegando à redação do jornal, o Luiz Santa Bárbara (que era o chefe das oficinas e repórter esportivo) disse-me que estava ali um artista argentino que queria falar comigo.

Então um senhor idoso apresentou-se como Antônio José, dizendo-se  artista profissional vindo de  Buenos Aires. Era um cancioneiro que pretendia se apresentar ao povo simãodiense em espetáculo a ser realizado no Cine Brasil. Esclareceu-me que seriam apresentadas canções românticas entrelaçadas com o bom humor de seu personagem brincalhão, denominado Chupetinha de Azucar.

Feita a apresentação, indagou-me se seria publicada uma nota sobre seu espetáculo e, para ilustrar o jornal, ofereceu emprestado um clichê com foto de seu show em uma sala do Lions Clube do Brasil. 

Publiquei a notícia do Cancioneiro Argentino, ilustrada com a foto, anunciando a apresentação para o dia 30/12/1968, uma segunda-feira.

Lembro-me que perguntei ao idoso artista por que escolhera segunda-feira, dia 30 de dezembro, para seu show. Ele respondeu que não foi possível outra data, porquanto o proprietário do cinema não abria mão dos dias de sexta-feira, sábado e domingo, porque eram noites sempre  comprometidos com programas lucrativos de exibição de filmes.  Restou-lhe, então, a segunda-feira.  

Sem saber, ou talvez sabendo, o seresteiro menosprezou a tradição de nossa gente, que se resguardava em evitar compromissos para a segunda-feira, ainda mais na antevéspera de ano novo, quando se poupava energias  para a grande festa no largo da rua da feira, virando a noite, em comemoração ao  início de 1969.

No domingo pela manhã, surpreendi o artista pregando pequenos anúncios nas palmeiras imperiais da praça. Usava pregos adquiridos na barraca de Geonides, filho de Anita Pichincha. Os cartazes anunciavam o espetáculo para a segunda-feira. 
  
Naquela época o Banco do Nordeste ficava na Rua do Coité, na esquina com a Rua Dr. Joviniano de Carvalho, em frente ao Bar de Valério, e na esquina ao lado ficava o prédio do Cine Brasil, de propriedade do Seu Antônio Resende.

Na noite daquela segunda-feira, todos os bancários, especialmente os que trabalhavam  no setor de crédito rural, fazíamos serão, para fechar o balanço anual da agência, de modo a remetê-lo para a direção geral do banco, em Fortaleza, no dia 31 de dezembro. 

Naquele tempo não existia computador e o trabalho era manual, com máquinas “facit”, utilizadas para calcular os encargos bancários sobre  os milhares de financiamentos concedidos pela agência.  Todos os benebeanos eram envolvidos nos trabalhos e não se permitia ausências, nem o gozo de férias no mês de dezembro.

Pois bem. Naquela noite, no andar superior do prédio do banco, escutávamos a voz do cancioneiro argentino sem, contudo, avaliarmos sua performance, isto porque não ouvíamos qualquer  manifestação da plateia.

Já tarde da noite, quando deixávamos os trabalhos, soubemos que o show tinha sido um fiásco. Fracasso de público. Apenas meia dúzia de gatos pingados. Com a bilheteria fraca, o resultado não dera para pagar o arrendamento do cinema. Ao perceber o insucesso, o proprietário da casa de espetáculos não vacilou em aplicar o provérbio popular: - Farinha pouca, meu pirão primeiro! E se apropriou da minguada renda.

Soubemos também que o cancioneiro ficara aflito diante da impossibilidade de pagar as despesas com sua estadia no Hotel dos Viajantes.

Saímos do banco e fomos a um bar no Bonfim de Baixo, tomar cerveja e saborear um bom tira-gosto. Lá estávamos: eu, Zé Carlos Déda, Gilberto Duarte, Zé Aloísio, Zé Maria, Heribaldo, Edson Freire, Adelmo Fontes e João de Mané Zabé; este último prestava serviços esparsos aos bancários.

Depois da primeira cerveja aberta, enviamos João de Mané Zabé à procura do cancioneiro para convidá-lo a cantar, tomar uma  cerveja e, ao final, receber da turma uma pequena renda, de modo o cobrir parte da despesa com o hotel.

Pouco depois, o João retornava com a notícia de que  o velho argentino não fora encontrado. E o porteiro do hotel informara que o artista, disfarçado em Chupetinha de Azucar,  escafedera, sem deixar vestígios de seu destino.

O portenho  pendurou no prego a conta das despesas de quatro dias,  registradas em notas que passaram a figurar entre os alfarrábios de despesas não pagas ao hotel. 

No outro dia, o insucesso do cancioneiro e seu desaparecimento foram assuntos em primeira pauta da cidade.

Surgiram, então, várias versões sobre o acontecido. Nenhuma confirmada.

 Diziam os fofoqueiros  que, na hora do frigir dos ovos,  o hotel  procurou se defender e o violão do cancioneiro ficou empenhado, garantindo o futuro resgate do débito...

Alguns informavam que o cancioneiro fora visto lá pelas bandas de Monte Santo, na Bahia, cantando músicas sacras em espanhol. Outros afirmavam que ele, incorporando o personagem Chupetinha de Azucar, se apresentava aos viajantes no navio Tupã no trajeto Propriá-Penedo, pelo Rio São Francisco.

E à noite, na praça da matriz, nos diários encontros em frente à Igreja Matriz, um trio de amigos inseparáveis (Fila, Dedé e Chico Bina) discutira por vários reuniões o destino do cancioneiro. Chegaram a duvidosa conclusão da possibilidade do portenho ter largado o personagem hilário de  Azucar e que estaria se apresentando  com outro nome no eixo  Recife/Fortaleza. Especulação sem fundamento, rechaçada por  pessoas de franco conhecimento.

Mas a verdade é que até hoje não foi sabido o destino do cancioneiro e o do seu violão.  Mesmo consultando conterrâneos que viveram aqueles dias, constatei que ainda não foi desfeita a controvérsia sobre o que realmente aconteceu.

 O que ficou patente, em minha terra, é que a segunda-feira não é um dia propício para show. Especialmente se for na antevéspera do Ano Novo.

Certamente o Chupetinha de Azucar nunca esqueceu essa assertiva. 



ARACAJU, 28/02/2018
BETO DÉDA