terça-feira, 26 de março de 2019


O MÊS DE MARÇO NOS FAZ LEMBRAR ARTUR E MARCELO.

No mês de março, duas datas são significativas para nossa família: os dias 2 e 11. Isto porque lembramos com muita saudade os aniversários de dois queridos familiares que já partiram para as esferas celestiais: no dia 2 de março de 1932 nasceu meu saudoso irmão Artur Oscar de Oliveira Déda; e no dia 11 de março de 1960 foi a data de nascimento do também inesquecível sobrinho Marcelo Déda Chagas.

Eles foram dois grandes parentes, merecidamente referenciados pela família e amigos, pela força, honradez e lealdade que espontaneamente nos lideravam e nos orientavam.

Sempre estiveram partilhando das reuniões da família, reforçando os laços de amizade, solidários nas alegrias e nas tristezas. E nesses encontros a palavra chave era relembrar os nossos antepassados, revivendo os bons momentos de familiares e lembrando os casos em que o humor era o ponto culminante.

Artur e Marcelo eram dois reconhecidos intelectuais e poetas encantadores. Deles guardo dois momentos emocionantes.  

Lembro-me, agora, de um dos últimos encontros que estivemos juntos: eu, Artur, Cláudio e Marcelo.

Naquele dia estávamos no apartamento de Marcelo e, ao ouvir o prosear  cultural deles, fiquei boquiaberto, maravilhado mesmo, ao presenciar a intelectualidade dos maravilhosos parentes. 

Foi naquele dia que Marcelo nos apresentou o rascunho do seu livro “Improvável Poética”. Empolgado, recitava versos e esclarecia os momentos que lhe inspirara cada poesia. Na época ele já estava debilitado pelo efeito da quimioterapia. Tinha dificuldade de folhear as páginas do rascunho do livro. E pediu-me que folheasse e passasse para ele os versos escolhidos, que ele lia e dialogava com Artur sobre o sentido de cada palavra. Em dado momento olhou-me com seu bonito sorriso e indicou a página que tinha uma surpresa: era a poesia “Cine Brasil”, em que escrevera uma dedicação especial: ”Para Beto Déda”.

A emoção me deixou mudo e encantado ao ouvir sua eloquente voz recitando versos que evocavam tempos de criança. Era o melhor presente que ele podia me conceder; especialmente porque os versos lembravam coisas de nossa Simão Dias. 

Lembrar os momentos vividos com Artur e Marcelo é um exercício que me faz bem. Mais do que parentes queridos, eles também eram amigos e tanto, daqueles que guardamos no lado esquerdo do peito, como diz os versos da música de Milton Nascimento:

Amigo é coisa pra se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do Coração.
...
Pois seja o que vier
Venha o que vier
Qualquer dia, amigo
Eu volto a te encontrar
Qualquer dia, amigo
A gente vai se encontrar
.


E para completar essas lembranças dos queridos Artur e Marcelo, reproduzo, a seguir, fotos de uma das reuniões da família em que comemoramos os aniversários dos dois grandes parentes. Foi um fato inesquecível, em que a simpatia deles irradiava felicidade para todos.







Aracaju, 26/03/2019
BETO DÉDA

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019


Tio Totonho: seus ditos e sua longevidade...

Recentemente dois fatos levaram-me a lembrar do meu saudoso tio Totonho, irmão de minha avó Olívia Déda.

 A primeira lembrança aconteceu ao ler um artigo de um jornalista, que em sua crítica às patifarias do atual governo, dizia que os mandatários do Brasil pensam que somos todos beócios.

Essa palavra me fez lembrar o meu tio Totonho. Ele costumava usar o termo beócio ao se referir aos seus desafetos, de modo a evidenciar as imbecilidades e ignorância por eles praticadas. Aí então, exclamava em voz alta, ritmado com o toque de sua bengala:

- Fulano de  tal, aquele beócio, continua cometendo imbecilidades...

Se vivo estivesse, certamente diria que beócios são os que estão em Brasília envergonhando o país.

No sentido oposto, quando queria elogiar alguém, passava a mão em volta da boca e dizia: “Belo Moço”. E repetia as palavras “belo moço”, elevando a cabeça para demonstrar sua sinceridade – tal e qual aparece entre tio João e meu irmão Washington Oscar, na foto que reproduzo abaixo. 

   

A segunda lembrança aconteceu diante de uma indagação realizada, via telefone, por meu bom primo Paulo César, lá da região do Jatobá, onde curte as ondas de uma bonita praia. Indagou o Paulo César qual o nome completo do nosso tio Totonho. Então as lembranças afloraram.

Meu tio era alto,espigando, simpático e

elegante mesmo. Pilhérico, mas tinha o
pavio curto. Quando pisavam em seus calos
a resposta era imediata e contundente.
O nome de batismo do meu tio era ANTÔNIO GARCIA SILVEIRA. Ele nasceu no dia 22 de fevereiro de 1882, na freguesia de Patrocínio do Coité, que hoje é o município denominado Paripiranga (Ba).   Era filho de José Alves dos Anjos e D. Maria Garcia Silveira. Ainda moço foi para casa de seus irmãos em Vila Nova da Rainha, que hoje e conhecida como a cidade de Senhor do Bonfim, no Estado da Bahia. Depois mudou-se para Salvador, onde foi trabalhar como operário em uma indústria têxtil. Casou-se, e algum tempo depois ficou viúvo. Veio morar em Simão Dias e aqui casou pela segunda vez. Passados alguns anos, sua mulher faleceu e passou a sofrer novamente com a solidão da viuvez.

Conheci meu tio Totonho quando ele morava no povoado Oiteiros, e vinha passar os fins de semana na casa de minha avó Olívia.  Quando chegava, portava uma longa barba branca que eu sempre admirava, mas a admiração durava pouco, porque a primeira coisa que ele fazia era ir ao barbeiro para cortá-la. Fazia isto na barbearia que ficava em frente à casa de tio João Déda, na Rua da Lama. O barbeiro era Seu Luiz, casado com uma filha de dona Jovem Nascimento e era pai de Manoel e Ulisses. Eu olhava para o rosto escanhoado do meu tio e indagava por que razão cortara sua bonita barba. E ele, passando a mão em volta da boca e depois coçando o gogó, respondia demonstrando impaciência:

“Ora, pois! Pra remoçar!”

A lembrança do tio me fez cultivar, quando passei dos cinquenta anos, a barbicha branca que até hoje conservo.

Depois que enviuvou, meu tio passou a morar na casa de minha avó. Gostava de tomar uns pileques e ia até o escritório de meu pai (na época o escritório de advocacia do meu pai ficava na Rua dos Ribeiros, entre as casas de Seu Agenor Viana e a de Gervásio, Arlinda e Amélia). Meu pai alugara aquela casa ao Seu Manoel Dantas, que era conceituado farmacêutico da cidade. Lembro-me bem que um dia meu tio Totonho apareceu no escritório e começou a falar alto, quase em tom de discurso. Eu não sabia do que se tratava, mas fiquei curioso com seu ar incisivo e eloquente. Meu pai notou minha curiosidade e fez um sinal, balançando a mão fechada com o dedo polegar em direção à boca, para indicar que o tio andara bebendo. Em seguida soube que o tom mordaz de sua fala era contra um desafeto.

Meu pai gostava muito do tio e cuidou dele quando minha avó faleceu. Depois, com a morte de papai, eu passei a cuidar do tio. Ele era pouco proseador, mas gostava de narrar piadas picantes. Tinha o pavio curto. Brabo mesmo! Ninguém tentasse pisar em seus calos que a resposta era incisiva e pontual. Pegava pra valer...

Lembro-me que em um domingo, meu irmão Artur esteve nos visitando em Simão Dias; ele e um colega juiz almoçaram em minha casa. Antes do almoço, tomamos um aperitivo e servi também ao meu tio. Conversávamos animadamente e repetimos a dose para todos. Artur olhou para o copo do meu tio e se preocupou. O velho já passava dos 90 anos, tomou a terceira dose e depois, olhando para Artur, disse que faria uma coisa que os mais novos não ousariam. Dobrou uma perna, formando um quatro, e simulou um balanço. Seu gesto dissipou a preocupação do meu irmão e todos sorriram com a faceirice do tio. E ele empinou a cabeça e vociferou: “Viu aí, danado!”

Certa vez apareceu para falar comigo um senhor que morava próximo à casa do tio (casa que aluguei ao Seu João Conceição Neto – João de D. Clarita - e que ficava no fundo de sua loja de tecidos).  Então o tal vizinho disse que eu teria que tomar uma providência, porque o velho ficava nu, se mostrando para o povo da rua. Fui verificar. 

Era uma tarde de calor infernal. A porta da casa estava fechada, mas o janelão estava aberto. O velho estava sentado em uma preguiçosa no fundo da sala, nu, mostrando a pela branca coberta de esvoaçantes cabelos cor de neve. Para se ver o velho tinha que ser curioso e perscrutar a casa olhando pela janela. Indaguei a outros moradores da rua e ninguém confirmou que o meu tio andava se expondo nu. Então fui até o reclamante e ele, com a cara mais lisa do mundo, disse que o pessoal não fora olhar da janela. Aí então eu fui tão impulsivo quanto meu tio: mandei o tal “amigo” procurar o que fazer e deixasse de se enxerir na janela dos vizinhos. Aconteceu então um pequeno entrevero, do jeito que, na época, eu gostava de aprontar...

Lá pelo começo dos anos setenta, surpreendentemente, esteve em Simão Dias um senhor simpático de nome Sizenando Silveira, que também era filho de um irmão de tio Totonho. Ficou hospedado na casa de tio Sininho. O Sizenando morava na cidade de São Paulo, onde era o titular do Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas - 2º Ofício.

Contava o Sizenando que foi graças aos safanões recebidos do tio Totonho que ele passou a estudar as primeiras letras. E mostrava-se realmente agradecido. Presenteou o tio com uma bonita e grande mala (adornada com selos dos países que tinha visitado) com ternos brancos de linho e um chapéu panamá. Além do mais, passou a mandar pelo correio uma mesada que, parece-me, correspondia a um salário mínimo. Não era pouca a alegria do meu tio. Passou a andar pelas ruas de Simão Dias, diariamente, usando  com elegância o terno (que ele chamava de fado branco) e o chapéu panamá. E sempre era visto em uma barbearia contando piadas picantes, que ele dizia ser de autoria de Camões ou do Bocage...

Certa vez a pessoa que cuidava da mesada do tio me informou que ele estava esbanjando dinheiro com raparigas da Ponta da Asa. Não dei atenção ao informe. Dias depois, estava trabalhando no BNB e recebi um recado que devia me dirigir com urgência ao beco entre o Banco e o Cartório de tio Sininho, para ver a presepada do Totonho.

Fui lá. Cheguei de mansinho, sem ser notado pelo tio, que estava ao lado de uma mulher. Ele com a braguilha aberta e a dona com a ponta do dedo tocava e sentia a flacidez do cansado pênis. Então ele levantava a cabeça e arrematava:

“Viu aí, danada! Toma...”

Em seguida, fechava a braguilha, guardando sua coisa sempre mole, e metia a mão no bolso para tirar uma cédula de cinco cruzeiros e pagar a paciente rapariga.
    
Retirei-me sem ser visto e aprovei a diversão do tio. Na época ele já tinha ultrapassado os noventa e poucos janeiros bem vividos. Para a pessoa que também protegia meu tio, falei para não se preocupar. O fato que presenciei tinha um grande valor para o querido idoso e, melhor ainda, não causava qualquer mal. Além do mais: demonstrava que ele não tinha perdido a esperança e nem demonstrava acanhamento em tentar fazer o que gostava.

No ano de 1975 fui trabalhar em Jequié-BA. Não tinha como levar o meu tio e ele passou a ser cuidado pelo primo Wellington de tia Vina, que o trouxe para Aracaju.

Em 1976, encontrei pela última vez com o querido tio Totonho. Não esqueço que foi a primeira vez que vi lágrimas descendo entre as rugas de seu quase centenário rosto. Ele estava abraçado com meu filho primogênito. E com ele também chorei.

Poucos meses depois, senti novamente o sal das lágrimas ao saber que meu tio-avô tinha ingressado em outra dimensão.

Aracaju, 25/02/2019

Beto Déda

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019




Breve histórico do jornal "A SEMANA”

Por Beto Déda
                                                   
       
        O sonho de meu pai, jornalista José de Carvalho Déda, era editar seu próprio jornal em Simão Dias. Sua pretensão foi concretizada em 1946, quando firmou contrato com uma tipografia existente na cidade para impressão de um periódico, que denominou “A Semana”.          

O primeiro número do semanário circulou em um domingo, dia 08 de setembro de 1946, sob a direção dele e de seu irmão Francino Silveira Déda. 

Em seu primeiro editorial, meu pai expressou a linha a ser seguida pelo novo jornal:


1ª pagina da edição de 08.09.1946
“Conhecemos o caminho a percorrer, como sabemos as dificuldades e dissabores que nos esperam nas encruzilhadas... Seguiremos, a despeito de tudo quanto vier antepor-se ao nosso caminho, sem desprezarmos jamais a nossa linha de conduta honrada, a nossa coragem cívica e sobretudo a nossa honestidade, único cabedal que herdamos dos nossos honrados ascendentes e queremos conservar intacto para partilharmos com os nossos descendentes. ‘A Semana’, esta folha que agora entregamos ao público de nossa terra, é e será, deste modo, um fruto da nossa honestidade, da nossa moderação e uma afirmação de que somos capazes de assumir a defesa dos interesses desta hospitaleira terra de S. Ana”. 



Nesta primeira fase, “A Semana” circulou aos domingos, até 29 de junho de 1947, quando sua edição foi interrompida por força do encerramento do contrato de impressão, devido a alienação e transferência da tipografia para outra cidade.  

Sem condições financeiras para adquirir uma gráfica, seus diretores tiveram que suportar a interrupção do jornal. Entretanto, Carvalho Déda não deixou de escrever em outros periódicos e de cultivar o sonho de dar continuidade ao seu jornal. Já no início dos anos cinqüenta, andou em busca de alguma tipografia usada, anunciando esse seu interesse entre amigos. Em carta de 05.11.1951, seu amigo Dr. Carvalho Neto respondia do Rio de Janeiro seu pedido de informação:

“Tenho procurado muito uma tipografia. Preços inacessíveis. Mesmo maquinaria velha está custando preço exorbitante. O Orlando Dantas comprou uma máquina velha – só a máquina – por cinqüenta mil cruzeiros. Não deixo, porém, de procurar”.  

A oportunidade surgiu em 27.02.1953, quando adquiriu o maquinário em Leilão Público na cidade de Propriá, mediante Carta de Arrematação assinada por Dr. João Fernandes de Britto.

Dispondo de oficinas próprias na Rua Dr. Joviniano de Carvalho, nº 37, em Simão Dias, Carvalho Déda, conhecido na cidade como seu Zeca Déda, voltou a editar “A Semana” sob sua direção e gerência, em 18 de julho de 1953, ocasião em que reafirmou a orientação doutrinária:


1ª página da edição de 18/07/1953 
“Houve um hiato que não desejamos, porque queremos vida longa. Nunca, porém, apagou-se no nosso espírito a vontade de prosseguirmos... Volta ‘A Semana’ a circular com roupagem nova, isto é, tamanho maior, maior tiragem, mais completa materialmente... A orientação doutrinária é a mesma. A nossa pena estará sempre a serviço do povo simãodiense... No que diz respeito à política, podemos assegurar que jamais nos afastaremos da verdadeira ética."

O jornal seguiu em frente, publicado sempre aos sábados, com o feitio literário, noticioso e combativo. Como jornalista versátil, escrevendo sobre variados temas, Carvalho Déda usava vários pseudônimos para evitar a repetição de seu nome em uma mesma edição. Assinava Leonardo de Vinci, na seção “Retratos Femininos”; Carlos Eugênio, na “Seara Sergipana”; Marco Aurélio em reportagens; Pakéso, em artigos políticos; João Sem Terra, na “Coluna dos Lavradores”; Lynce, nos “Aspectos da Cidade”; Cazuza e Caduda em alguns artigos.  Nunca assinou ou usou pseudônimo em suas xilogravuras nem na coluna “Política em Pequenas Doses que escreveu, ininterruptamente, até a véspera de sua morte.

 

Para ilustrar o jornal, a partir de 1959, passou a fazer xilogravuras com perfis de personalidades da época. Fez mais de quatrocentas charges que satirizavam fatos de repercussão local, estadual e municipal em uma seção sob o título “A Piada da Semana”. Poucos dias antes de falecer, resolveu assinar o pseudônimo Zélis em duas xilogravuras, publicadas na edição nº 811, de 21.08.68. 

Um companheiro inseparável foi o seu irmão, jornalista Francino Silveira Déda (Tio Sininho), que escrevia, ininterruptamente, uma crônica semanal sobre assuntos variados. Junto com meu pai, participei de toda a história d'A Semana, trabalhando como jornaleiro, tipógrafo, repórter, articulista e diretor. Também colaboraram com artigos: Antônio Conde Dias, Clarita Santana, Max Neto, Artur Oscar de Oliveira Deda, W. F. Santos, Renato Nunes, João Lima Filho, José Osvaldo Machado e Silva, Edson Caetano, Edson Carvalho Oliveira, Luiz Santa Bárbara, Antonio Ferreira Filho, Cláudio Dinart Déda Chagas e José Aloísio Freire. Àquela época, muitos jovens simãodienses prestaram colaboração ao jornal como aprendiz, sob a orientação dos tipógrafos Silvio, Valter Carvalho Oliveira e Luiz Santa Barbara; lembro-me de todos: Luiz Carlos Santos (que se tornou tipógrafo profissional), Raul Vieira, Cláudio Déda, Osmar Barreto, Manoel de Dona Tude, Daniel Guimarães, José Américo Rodrigues e José Oliveira Santos (Zé de João Baia).

 “A Semana” circulou, sem interrupção, até meados de 1967, quando, por motivo de saúde, papai teve que interromper sua circulação. Deixou sob minha responsabilidade todo maquinário. Passei a utilizar a tipografia na realização de serviços de impressão sob encomenda: notas fiscais (conhecidas como “Seu talão vale um milhão”), bilhetes de rifas, panfletos, santinhos, rótulos de vinagre e de vinho etc.

 Dois meses após a interrupção, sem disfarçar a tristeza pela falta do jornal, papai começou a me convencer da necessidade do retorno de “A Semana”, em nova fase, na qual ele seria o diretor responsável e eu assumiria a direção administrativa e financeira. E para ser convincente apresentava uma relação de pessoas (tendo à frente Dr. Salustino Neto) que o procuravam para pedir a volta do jornal. Olhando-me com firmeza dizia em tom que soava como uma ordem: – A Semana deve voltar!

Realizei uma pesquisa para quantificar e identificar os assinantes, patrocinadores e anunciantes interessados. O resultado foi incentivador. Realmente fiquei impressionado com o interesse e o estímulo da população para a volta do jornal.

Combinamos, então, em ampliar e melhorar a edição. Assim é que, em 16 de dezembro de 1967, reapareceu “A Semana” com nova roupagem, continuando, todavia, sem alterar sua ética e a cuidadosa orientação democrática, em defesa da cidade.  Jamais esquecerei a satisfação que meu pai demonstrou à tardinha daquela sexta-feira, dia 15.12.67, quando lhe apresentei o primeiro exemplar da nova fase do jornal. Ele folheou página por página e, revelando sua alegria, voltou-se para mim e disse com entusiasmo: – Continuamos editando o melhor jornal do interior de Sergipe!

Seguimos com as edições e no dia 01.09.1968, um domingo, ele deixou sobre a mesa de trabalho seu último editorial para A Semana, em que escrevera sobre "Reformas".  No dia seguinte, 02 de setembro de 1968, ele faleceu, contando com 69 anos de idade.

Naquela semana, amargurando a dor da imensa perda, preparei a edição especial do dia 07.09.68, em que A Semana noticiou e prestou uma homenagem ao pranteado fundador e diretor.
1ª página do jornal A Semana, edição de 07.09.1968

Sob minha direção, o jornal continuou circulando, inclusive mantive  – embora sem jeito – as seções “Política em Pequenas Doses” e “A Piada da Semana” que eram da lavra do meu pai. Mas a edição do jornal não durou muito. Minha atividade profissional, como funcionário do Banco do Nordeste, impediu-me de continuar dedicando-me à direção e edição do semanário. Assim é que, sem outra opção, com imensa tristeza tive que fechar “A Semana”. Seu último número foi editado em 25 de janeiro de 1969. Conservei a tipografia, por seis anos, na esperança de surgir alguém que se interessasse em continuar com o jornal. Dissipou-se a esperança em 1975, quando, por falta de alternativa, tive que me desfazer de todo o maquinário, em virtude de minha transferência para a cidade baiana de Jequié, onde fui chefiar o Setor de Crédito Rural da Agência do BNB naquela localidade.  

Na verdade, editamos um bom jornal e que foi referencial na imprensa sergipana. Veja o que escreveu Luiz Antônio Barreto:

A Semana é uma escola, no sentido de que ela ensina a fazer jornal e a tratar as páginas dos jornais com a dignidade da boa notícia, do comentário justo, da denúncia e da cobrança necessários e acima das questões locais. Mais que isto, A Semana tem arte em suas páginas, seja pelas charges, caricaturas, ou seja, pelas ilustrações que fizeram de Carvalho Déda um artista, que aliou no batente do jornal muitas qualidades requeridas pelo jornalismo. (BARRETO, Luiz Antônio. Carvalho Déda no batente do jornal. In www.infornet.com.br, 05.12.2008).

 Vivi intensamente, desde os 12 anos de idade, a vida desse jornal. Em 1953, assim que a tipografia foi instalada, levado por meu pai, passei a frequentar as oficinas e a redação de “A Semana”. Fui aprendiz, tipógrafo, entregador dos exemplares nas casas dos assinantes, vendedor, cobrador, articulista, repórter, gerente e, por fim, diretor. É verdade que se tratava de um pequeno jornal de interior, em que tudo era feito artesanalmente, com muito esforço, dedicação e amor. Para mim, entretanto, foi e sempre será o maior e melhor jornal do mundo.  Foi naquela redação/oficina – ouvindo o ruído da impressora rotativa manual e sentindo o cheiro da tinta fresca de impressão, que tive um convívio inesquecível de rico aprendizado com meu saudoso pai.

Agora, passados tantos anos, revivo com saudade aqueles bons tempos e fico muito feliz com toda essa lembrança...

Carlos Alberto de Oliveira Déda (Beto Déda)

                 PS - Estas informações fazem parte da edição digitalizada de todos os                                  exemplares do jornal "A Semana", de 1946 a 1969,  dispostos em                                   quatro DVDs,  disponibilizados em bibliotecas de Sergipe. 

 





















quinta-feira, 13 de dezembro de 2018


Saudades de Carlinhos...


Nesta quinta-feira senti a dor da partida de mais um sobrinho para outra dimensão. O querido Carlos Eugênio, que carinhosamente chamávamos de Carlinhos, nos deixou e foi ao encontro de outros familiares que já estão em paragens celestiais.
Foto do meu querido sobrinho Carlinhos. 

Na angústia da cerimônia do desenlace, ocorreu-me o pensamento de uma conversa que tive, há muito tempo, com meu primo Edson Carvalho, filho de tio Sissi. Lembro-me que estávamos em Simão Dias e o Edson indagou-me se eu acreditava na vida eterna, na imortalidade da alma.

Não titubeei, respondi que acreditava sim; mas não me furtei em esclarecer que algumas vezes minha mente era inquietada por uma atroz dúvida sobre a espiritualidade.

Meu primo então me socorria com seu senso de homem de fé, com ensinamentos por ele recebidos nas missas de domingo na Igreja do Mosteiro de São Bento, na Av. Sete, em Salvador. Dizia ele que seria simples demais ousarmos pensar que a morte era o fim de tudo. E afirmava que pensar desta forma seria uma dor insuportável para aqueles que passavam pelo trágico momento de presenciarem o final da vida de uma pessoa querida. 

Edson tinha razão.

A esperança da continuidade da vida em outra dimensão se transforma em um bálsamo que nos conforta. É justamente nestes momentos de angústia, quando sentimos o peso da morte de quem amamos, que cresce nossa fé na espiritualidade e não duvidamos que, inexoravelmente, em qualquer momento estaremos nos unindo em outra dimensão.

Pensando assim é que sinto que o meu querido Carlinhos está, agora, no mundo dos espíritos, entre nossos ancestrais, comentando os acontecimentos recentes dos familiares que aqui ficaram. Não duvido que nossos desencarnados e saudosos parentes estejam felizes e sorridentes com o otimismo de meu sobrinho e seu inconfundível jeito alegre de encarar os problemas e de transformar cada momento em um ato de humor inteligente.

Guardo maravilhosas recordações de Carlinhos. De ontem e da atualidade. Entre as lembranças do passado, revejo, agora, o tempo que passamos umas férias na Fazenda “Baixão” de seus pais Chico/Malô, em Paripiranga. Isto faz muito tempo. Ele tinha mais ou menos a idade de meu neto (entre 9 e 10 anos).

Em uma manhã peguei uma espingarda e fui caçar codorna. Carlinhos me acompanhou. Com seu olhar encantador, pediu-me para dar uma olhada na espingarda. Curioso, pegou, mirou um alvo e, depois, pediu-me para atirar. No primeiro momento neguei. Ele não se deu por vencido e, com seu modo simpático -  inconfundível mesmo  – insistiu no pedido.

Antes de permitir que ele atirasse em uma fruta de mandacaru, tomei todas as precauções, explicando-lhe sobre o modo e os cuidados no uso da espingarda.  Não acertou, mas vibrou com a experiência. Recomendei-lhe, então, que não deveria falar sobre isto com sua mãe, para não preocupá-la. Concordou, com um olhar maroto. Quando voltamos à casa sede, a primeira reação dele foi contar aos irmãos sobre o seu primeiro tiro de espingarda. Não tardou a notícia chegar aos ouvidos de sua mãe.

Não é pouco dizer que minha querida irmã Malô não deixou de me censurar, mas não conteve o riso quando Carlinhos me defendeu, afirmando que não tive como evitar sua magia de pidão.

Naquela época eu me divertia fazendo aquarelas. E em determinada tarde subi uma serra que ficava em frente à casa sede da fazenda e comecei a pintar uma tela. Ao final da pintura, Carlinhos examinou cuidadosamente o quadro, disse que uma árvore não estava no lugar exato e, depois, externou seu fino humor crítico, exclamando:

Fazenda Baixão de Francisco Dias Lima - Pintura de Beto Déda 1978
- Tio, em sua pintura, a sede do “Baixão” foi transformada em uma raquete de pingue-pongue... e resumia sua crítica com uma estrondosa gargalhada. 

E ele tinha razão. Ainda hoje tenho uma cópia desse quadro, que por muito tempo ornamentou a sala de jantar da casa de seus pais em Paripiranga.

Na última vez que me encontrei com Carlinhos, ele estava sentindo o furor do triste mal que lhe consumia. Estava sentado em um sofá, em posição que não provocasse mais sofrimento. Ali conversamos muito e, não obstante o sofrimento por que passava, encantou-me com seu otimismo, fazendo pilhéria de cada assunto abordado e nos fazendo rir à vontade. Um exemplo inesquecível...

Meu sobrinho era um encanto de pessoa. E como acredito na vida eterna, sei que será recebido no lugar sagrado e que levará aos nossos saudosos familiares a mesma alegria que nos encantou aqui neste mundo.

Até breve meu querido...

Aracaju, 13/12/2018
BETO DÉDA

terça-feira, 4 de dezembro de 2018


Lembranças do canavial  de  Johnny.

Contavam os antigos que a feira da cidade de Simão Dias era realizada na Rua do Comércio Velho, que antes era conhecida como “Rua de Baixo”, e atualmente é denominada Rua Cônego Andrade. Em 1847 a feira foi mudada para a Avenida Cel. Loiola e, muito tempo depois, ocorreu  nova mudança e a feira passou para o bairro Bonfim, onde acontece até os dias de hoje. 

Tenho boas lembranças da Rua Cônego Andrade. Quando eu era criança andava muito por aquela rua, de modo especial porque ali ficava a casa do sempre lembrado tio Sissi, que era irmão de minha saudosa mãe. Depois, já adulto, quando me casei, passei a morar naquele local, em casa que ficava próxima das residências de meu tio e de Barbosa/Anita Guimarães, pais do grande amigo Clínio, “o apreciador da boa cerveja”.

Estas lembranças foram proporcionadas pela conversa que tive recentemente com meu querido primo Zé Carvalho, filho de tio Sissi, que me honrou com uma visita no Sítio Lago Dourado.

Conversei durante todo o dia com o primo Zé e, como sempre, lembramo-nos de grandes façanhas dos bons tempos de nossa terra. Entre outras coisas recordamos do convite de um amigo para visitamos o canavial e saborearmos a boa cana-de-açúcar da fazenda de sua família. Repasso o fato para quem gosta de ouvir minhas malucas e reais aventuras. 


Rua Cônego Andrade - largo onde era armado o carrossel de Seu Messias.
Lá pelo idos dos anos 50, o Sr. Messias Cassimiro - que morava na Rua do Sobrado -  armava o carrossel (conhecidos como “cavalinhos”) na Rua Cônego Andrade, no largo entre a Padaria de Seu Joãozinho, o sobrado de Seu Janjão  e a Casa de Seu Antônio da Jaqueira. O carrossel – movido aos empurrões – era uma festa para todos nós. 

Lembro-me bem de certa noite que estávamos juntos em frente aos “cavalinhos de Seu Messias”: eu, meu irmão Carlos e os primos Zé, Edson e Valter. Chupávamos roletes de cana-de-açúcar, comprados por tio Sissi.  Então se aproximou um amigo nosso, apelidado de grande Johnny, que participava de nossas brincadeiras e conversas.

Notando que gostávamos de roletes de cana, o Johnny nos convidou para ir ao canavial de seus familiares, lá pelas bandas do povoado Saco Grande.

Convite aceito, partimos no dia seguinte em direção ao canavial do Johnny. Seguimos pela Rua das Louceiras, passando pela casa de Zezé do Vapor, seguindo até a fazenda. Lá, abrimos a porteira e seguimos a estrada que levava à casa sede. Quando estávamos próximos da casa, avistamos o Johnny no canavial, que nos acenava, chamando-nos.

Atendendo ao chamamento, nos desviamos da estrada que levava à casa sede e cortamos caminho em direção ao canavial. Súbito, ouvimos o rude bravejar de uma pessoa que estava no alpendre da casa grande, chamando-nos até lá. Atendemos meio desconfiados e, ao aproximarmos, dava para vislumbrar um senhor que nos parecia alto, com grandes botas, roupa cáqui (marrom amarelada), chapéu baeta, uma taca na mão esquerda, batendo compassadamente na bota.

Então aquele senhor com o timbre de voz pronunciado entre os dentes, falou e nos deixou trêmulos:
- Como é que vocês penetram na propriedade alheia, sem convite, e se desviam da casa sede, em busca do canavial? Que ousadia é esta?

Não lembro se foi Edson ou Valter que explicou que tínhamos sido convidados pelo grande Johnny. 

O certo é que o argumento não foi aceito. O homem de roupa cáqui bateu forte com a taca na própria bota e determinou que cobríssemos o nossos rastros. Exclamou com rispidez:
- Puxem por ali!  FORA!  

Na verdade, soubemos depois, o homem não gostava só de roupa cáqui; também tinha uma predileção pela límpida e destilada “água” de suas canas. Mas não sabia aproveitar um bom gole e se alegrar com os  momentos da vida. Em sentido contrário, ao saborear a destilada, parece que o mal despertava em seu íntimo e ele cerrava os dentes e esbravejava, perdendo a alegria e a cordialidade.

Foi uma meia volta e volver apressado. Saímos rápido, lamentando por não podermos saborear os doces roletes da boa cana caiana. Mas a volta foi divertida, descobrindo alegria em cada ponto da estrada. Bisbilhotamos cada Santa Cruz e admiramos os passarinhos e o revoar de cada perdiz ou nambu. O passeio não foi perdido...

Naquela mesma noite nos encontramos com o grande Johnny que se desculpou e nos assegurou que teria dito ao senhor de roupa cáqui que éramos pessoas conhecidas e confirmara que tinha nos convidado. Para nos consolar, tentando contornar o mal entendido, disse que o senhor prometera que iria conversar com papai e com o tio Sissi para se desculpar pelo acontecido. 

Até hoje não sei se aconteceu a conversa prometida. Acredito que não. Para nós foi melhor não ter acontecido. 

O importante mesmo foi a justificativa do grande Johnny. Valeu mais que qualquer conversa de adulto e ele continuou sendo nosso amigo. Longe do canavial, é claro!

Aracaju, 04/12/2018.


Beto Déda

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Tocando em Frente, por Almir Sater



TOCANDO EM FRENTE.

Hoje amanheci ouvindo boas canções e voltei a me lembrar dos bons tempos quando eu criança em Simão Dias. E para não esquecer que, através do serviço de alto-falantes TUPY, mandava músicas para garotas amadas,  faço de conta que estou naquela época e – embora utilizando a moderna tecnologia de hoje – envio uma música muito bonita para as garotas que continuam em minhas eternas lembranças.

Para elas, transcrevo duas estrofes dessa linda canção “Tocando em frente”, de Almir Sater:

“Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz,
De ser feliz.”
...
“Ando devagar, porque já tive pressa
E levo esse sorriso, porque já chorei demais,
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz,
de ser feliz.”

Que ouçam a nossa canção preferida e nunca esqueçam que sou um inveterado romântico.

Beijo no coração...

Aracaju, 29/10/2018

BETO DÉDA


quinta-feira, 25 de outubro de 2018


UNIÃO PARA PRESERVAR A DEMOCRACIA.


Nunca pensei que ao chegar aos meus 77 anos iria presenciar, mais uma vez, uma grave ameaça à nossa democracia.  Infelizmente é a realidade. Prega-se abertamente a violência, o preconceito, a intolerância e o ataque descarado e ameaçador aos preceitos básicos de liberdade.

Nestes dias turbulentos que antecedem o segundo turno das eleições, devemos esquecer as divergências e pensar no melhor para nosso país: a Democracia. Ela está ameaçada, quase que diariamente, pela intolerância e pelo ódio. Isto é péssimo e deve ser objeto da atenção de todos os democratas, independentemente de cor partidária. E neste ponto, transcrevo aqui o texto compartilhado por um amigo e conterrâneo em sua página no facebook:

"Agora não se trata mais do PT e de Haddad ou de grupos progressistas. Trata-se da democracia ameaçada por Bolsonaro. Quem discordar dele é cadeia ou exílio. A opção é democracia ou violência oficial, a ditadura. Temos que salvar as liberdades senão conheceremos uma tragédia nacional".

Concordo com a mensagem acima. Não posso acreditar que o ódio a um partido político seja tão acentuado que leve as pessoas – que nos parecem tão equilibradas e de bom senso – a defenderem e apoiarem o candidato que prega a agressividade, que propaga o uso de armas, ofende as minorias, se opõe aos direitos dos trabalhadores e estimula a intolerância e a segregação.


Neste segundo turno da eleição, a intolerância dos seguidores do Bolsonaro nos deixa apreensivo. Recentemente fui vítima de um deles e presenciei a agressão a outras pessoas. Um absurdo. Não podemos aceitar esse clima de violência estimulado por esse candidato que, em seus pronunciamentos, incita a intolerância e, conscientemente, põe em risco os fundamentos democráticos previstos em nossa Carta Magna.




É tempo de união dos que pensam em um país democrático, independentemente de preferências partidárias.

Não tenhamos dúvida: Haddad é a solução.


Aracaju, 25/10/2018

BETO DÉDA