quarta-feira, 28 de agosto de 2019



Simão Dias e as rumbeiras do circo.
O boato de ontem: tal e qual o “Fake News” de hoje.

Muitas são as histórias curiosas sobre os circos que passaram por minha terra natal. Algumas delas são fatos que realmente aconteceram e ficaram marcados em minha memória.

Era comum, naquela época, nossa cidade ser visitada por circos de grande, médio e pequeno porte. Já comentei por aqui a passagem do Circo Nerino, com deslumbrantes espetáculos ainda hoje lembrados por conterrâneos que viveram aqueles dias.

Nesta semana lembrei-me, e comentei com pessoas próximas, um causo que aconteceu com um pequeno circo que armou sua gasta empanada no bairro Bonfim de Baixo, na antiga Praça Nicanor Leal, nas proximidades do local onde hoje tem uma quadra de futebol de salão. Foi um acontecimento chistoso envolvendo esperteza e malícia do homem encarregado da propaganda do circo.

Com uma modesta lista de espetáculos, a grande atração do circo era a apresentação de rumbeiras.  As garotas sabiam realmente dançar a rumba e mostrar seus dotes físicos usando os trajes exigidos para demonstrar o acentuado sensualismo do ritmo da dança afro-cubana.

Uma das rumbeiras cativava os pensamentos dos jovens simãodienses, não só pelo trejeito na dança, como também por sua sensualidade, sua beleza morena, brejeira, de coxas roliças, quadris proporcionais, bunda maravilhosamente saliente e busto escultural. Era uma daquelas beldades de deixar o queixo caído até o do mais presunçoso dos jovens daquela época.

A verdade é que, nos primeiros dias, aquele circo recebeu uma razoável plateia. Mas no final do sexto espetáculo, o gerente financeiro circense percebeu que a reduzia grana que ficava na bilheteria não justificava a continuidade dos trabalhos em nossa cidade. O número de espectadores se reduzira a um minguado grupo de admiradores das rumbeiras e aos garotos que tinham entrada franca por acompanharem o palhaço pelas ruas da cidade, batendo pedras e fazendo coro aos anúncios das atrações de cada espetáculo. Um fracasso inconteste.

Para realizar a última apresentação, o responsável pela divulgação do circo bolou uma estratégia sórdida, ardilosa mesmo, de modo a proporcionar a presença de um considerável público e de abarrotar a bilheteria com grana fácil. Seu plano era divulgar um boato chamariz para reforçar as gavetas da bilheteria. Planejava uma mentira a ser divulgada boca a boca para estimular a presença dos espectadores; tudo nos moldes que os patifes usam hoje nas redes sociais e foi utilizado nas eleições para Presidente da República em 2018, com a denominação de “FAKE NEWS”, expressão em inglês que em tradução livre significa notícia falsa.

Pois bem. Apresentado com detalhes, o plano foi aprovado e posto em prática na antevéspera do prematuro encerramento das apresentações do circo. O embusteiro procurou os pontos principais da cidade, onde os boatos tomavam tamanhos e se espalhavam pela cidade: no entorno das mesas de sinucas e nas cadeiras de espera das barbearias. Justo naqueles locais, ele aproximou-se de conhecidos boateiros e deu a entender que o último espetáculo do circo seria exclusivamente para homens, porque as rumbeiras apresentariam um show especial. Coisa bonita, sensual e só pra homem ver.

Foi um prato feito para os que apreciavam a divulgação de boatos.

(E aqui eu faço uma pausa e indago aos meus botões: - Quem eram eles? Os boateiros... Quem? Quem? Deixa pra lá!)

O plano deu certo. A notícia do show especial para homens se propagou com a velocidade do vento. Logo era o assunto principal das centenas de operários nas fábricas de calçados da cidade – que não eram poucas – a Sidon, de meu tio Paulo Déda, a Marise de Jason Gois, a Elenalda de Juca Baeta, a Saturnino de Seu Zezé, a tenda de Seu Zé Cágado e outras casas de fabrico de sandálias chiquitas. Do mesmo modo aconteceu nas alfaiatarias, entre os comerciários, os funcionários públicos e também outros trabalhadores da Rua da Feira. E todos falavam e imaginavam que a principal rumbeira iria se despir lentamente, peça por peça, enquanto dançava, de modo a deixar o pessoal boquiaberto, babando.

À tarde do dia da apresentação, o palhaço saiu às ruas anunciado as conhecidas atrações, inclusive evidenciando os encantos das rumbeiras, sem, contudo, expressar qualquer novidade sobre o que aconteceria no palco, nem sobre restrições à entrada do circo. Mas, pelo tom que evidenciava a atuação das dançarinas, deixava a entender que os boatos tinham um lastro de verdade.  

O fato é que naquele dia o circo esgotou os ingressos, com a plateia constituída exclusivamente por homens. Não ficou uma cadeira vazia e, nas pranchas da geral, cada lugar foi disputado aos empurrões. Muitos rapazes preferiram ficar em pé, procurando um local próximo ao picadeiro.  Estavam ávidos para apreciarem a nudez da bailarina.

Começou o espetáculo com as apresentações de estilo. Logo depois, quando chegou a hora das rumbeiras e todos esperavam o monumental stripetease, o gerente do circo apareceu no palco e com a postura de contrariedade, pegou o microfone e iniciou um discurso penoso, dizendo-se surpreendido com aquela plateia exclusivamente masculina e que soubera que um desairoso boato tinha surgido na cidade, indicando que as rumbeiras se apresentariam desnudas. E com a cara de choro, dizia-se vítima de um atentado e escarneceu da leviandade. Com eloquência, afirmou que tinha sido covardemente apunhalado pela maledicência, vez que o circo era sua família e as rumbeiras, suas filhas.

- Nunca – disse ele - nunca mesmo permitiria tal aviltamento e baixaria no espetáculo circense, que era seu lar. 

Então, com a cara mais deslavada do mundo, pedia compreensão da plateia para a “infâmia” divulgada por fofoqueiros!!!

E foi aplaudido com palmas e assobios, iniciadas por um ajuntamento de ajudantes (mata-cachorros) do circo, que se meteram no meio da plateia. Tudo então correu como programado.

E as rumbeiras apresentaram a dança rebolando e ouvindo os aplausos da galera enganada.

Não demorou muito e logo surgiram os apupos (vaias com gritos) de grande parte dos espectadores, liderados pela turma de um rapaz forte, conhecido pelo apelido de “Fedô Horríve”, que transportava mercadorias para as barracas da feira. Inconformado por ter sido enganado e puto da vida por não presenciar a nudez da famosa artista, ele gritava – e era acompanhado por sua turma rebelada – repetindo um slogan conhecido, já adotado em situação de engodo em casa de distração de nossa cidade:

- “Meu dinheiro está no fogo e o gerente do circo é um manhoso!”

Aracaju, 27/08/2019.
Beto Déda

quinta-feira, 27 de junho de 2019


Tardes de verão e o açude de Simão Dias...

Neste último final de semana, ao ler minhas lembranças sobre o campinho de peladas próximo à Ladeira de Roque e de minhas façanhas na ponte de Mário de Eliseu, uma de minhas queridas sobrinhas me fez uma indagação importante:

- “Então, tio Beto, suas brincadeiras de garoto não ficavam circunscritas à Praça de São João?”

Pensei um pouco antes de responder, avaliando o alcance da pergunta da graciosa sobrinha e me lembrei de outra indagação que me fora feita pela Professora Judite, diretora do Ginásio Jackson de Figueiredo, daqui de Aracaju, no final dos anos 50.

Em uma das férias de fim de ano, D. Judite e Professor Benedito foram passar uns dias em Caldas do Jorro, uma estância hidromineral baiana, no município de Tucano. E na viagem de volta passaram por Simão Dias, logo depois da hora do almoço, no início de uma tarde quente de verão, quando a cidade apresentava aquele aspecto de sonolência.

Era justamente nesta hora que as ruas ficavam quase desertas, porque o calor provocado pelo sol forte forçava as pessoas ficarem em casa: os mais velhos procuravam um local mais ventilado para uma tranquila madorna em uma rede ou cadeira preguiçosa; enquanto os mais jovens se dedicavam a brincadeiras que não perturbassem o sossego dos que descansavam.

O fato é que os professores ficaram curiosos, estranhando as ruas estreitas e desertas que davam à minha cidade um aspecto de sonolência e tristeza.

Então, quando começou o ano letivo, D. Judite falou-me que tinha conhecido minha terra e fez-me uma indagação mais ou menos nas seguintes palavras:

- Passei por sua cidade, olhei a quietude das ruas estreitas e fiquei a pensar na triste monotonia daquele povo. Como e onde vocês se divertem ali?

Olhei bem para ela e para o Professor Benedito, que estava ao lado, então respondi – usando o palavreado simples de garoto, repetindo uma lição que recebi de meu pai – que as pessoas do interior, diante das dificuldades, usam sempre a imaginação para se divertir e descobre um montão de brincadeiras em coisas simples, transformando tudo em alegria, sensação que sobeja nos meninos e meninas de minha terra. Aliás, uma primazia que se estende a todos que vivem no interior.

Os saudosos diretores trocaram olhares esboçando um alegre sorriso, daqueles que nos animam por parecerem elogiar. E balançaram a cabeça a indicar que concordavam com o que dizemos. Esta passagem permanece em minha mente até hoje.

Contei este fato a minha sobrinha, para justificar que embalados pela criatividade eu e meus colegas espraiamos nossas peraltices por toda a cidade. Certamente a maioria das recordações abrange a Praça de São João e os arredores da Rua dos Ribeiros, local da residência de meus pais e onde nasci.

Mas é bom esclarecer que a Simão Dias de meus tempos de criança não era tão grande. Basta lembrar que alguns lugares que naquela época eram matas e pastagens, onde caçávamos passarinhos, pescávamos lambaris e colhíamos frutas, hoje são bairros residenciais.

Procurávamos diversão em todos os cantos: na cidade e seus arredores.

Nas manhãs dos domingos de verão, depois de disputarmos uma boa pelada no gramado José Barreto, no Bairro Bonfim, íamos até o açude tomar banho em um poço que denominávamos “Mariquita”, que ficava em lado oposto ao local onde as lavadeiras trabalhavam.



No açude, junto ao paredão que represava a água, tinha uma cobertura com bancas para lavagem de roupas. Naquele tempo as lavadeiras pegavam as trouxas de roupas nas casas das famílias para lavarem no açude.  À noite, era comum ver as lavadeiras passarem pelas ruas da cidade equilibrando grandes trouxas de roupas na cabeça.

Na época não existia água encanada e os reservatórios (porrões) não davam para lavar as roupas em casa. Os porrões eram abastecidos com água do Açude e do Tanque Novo, fornecidas por aguadeiros que guiavam comboios de jegues, transportando água em barris ou grandes latas de querosene (marca “jacaré”).  Lembro-me de um dos aguadeiros que conduzia os jegues solfejando músicas conhecidas. Se não me engano era chamado de “Aguadeiro Corró”. Ele fazia isso soprando uma folha da planta fícus benjamina entre os dentes. Assoviava e musicava admiravelmente. Era um moço negro, baixo, gordinho, que causava simpatia e admiração. A garotada tentava imitá-lo usando a folha de fico na tentativa de assoviar.

Recordo-me também da época do ano que vicejavam as frutinhas araçás mirins nas terras que margeiam o açude.  Era o tempo em que a garotada, meninos e meninas, nas tardes de domingo, íamos até o açude colher as frutas miúdas e amarelinhas.



A diversão era saborear as gostosas araçás e juntá-las em pequenas capangas ou em cestinhas de vime.

Lembro-me ainda de uma garota travessa e criativa que, não tendo a vasilha para colheita, usava a própria saia para acondicionar as frutinhas.

E ao segurar a saia suspensa em forma de saco, notando que estávamos observando seus movimentos, ela fingia que não nos via e elevava graciosamente a saia, de modo a deixar aparecer suas roliças coxas.  

Era um espetáculo lindo e inesquecível. E não faltavam os sonoros assobios:  fiu...fiu!  

Aracaju, 27/06/2019
Beto Déda

segunda-feira, 10 de junho de 2019


A entrevista de um simãodiense ilustre.


Na noite deste sábado tive a satisfação de assistir à entrevista que Harildo Déda concedeu a Denny Fingergut no programa Perfil & Opinião da TVE-BA, em 05.06.2019.

Harildo Déda é um simãodiense admirável. Ele faz parte daquela selecionada turma dos que não fogem à luta. Embora beirando os 80 anos de idade e já esteja aposentado como professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ele não se afastou das atividades artísticas, continua se dedicando ao teatro, atuando como ator, diretor e professor.   Ele próprio confessa que sua atividade no mundo da arte cênica não é um trabalho, mas, sim, um fortificante que impulsiona sua vontade de viver.

Trata-se de um mestre em cena; um grande nome do teatro da Bahia. Sua história na arte baiana carrega cerca de 70 peças como ator e mais de 20 como diretor, além de uma grande marca como professor de artistas reconhecidos nacionalmente.

Há muito tempo que sou um fã de Harildo. A sua inteligência, seu modo de encarar a vida e de interpretá-la sempre foram motivos de minha admiração e respeito. E não era para menos, além do mais ele é simãodiense e é meu primo, filho dos meus queridos tios Paulo e Francisquinha.

Acompanhei, mesmo à distância, seu desempenho. Lembro-me agora de fatos que não fogem de minha memória. E repasso para os parentes e amigos. 

Quando Harildo estudava nos Estados Unidos, um jornal americano mostrou sua fotografia ilustrando matéria que elogiava o seu desempenho em uma peça que atuou no teatro da Universidade.

Quem me mostrou o jornal foi tio Paulo. Ele estava em sua loja de sapatos (“Esquina da Economia”), na Rua João Pessoa, aqui em Aracaju. Chamou-me até o balcão e irradiando orgulho disse: “Veja, Beto, os gringos estão elogiando o filho de um sapateiro brasileiro”. E meu tio se esforçava em pronunciar a palavra sapateiro em inglês (shoemaker), fazendo um beicinho muito engraçado e apontando para o próprio peito.

Em 1963 eu estudava em Salvador, fazia um curso pré-vestibular na Escola Politécnica da Bahia, patrocinado pela SUDENE e, à noite, cursava o último ano do curso científico no Colégio Duque de Caxias, no bairro Liberdade. Não tive contato com Harildo, mas soube – através de um rapaz da família Marcelino de Lagarto – que ele atuava com sucesso no teatro baiano. Fiquei empolgado com a notícia. Depois, em 1964, fui para Simão Dias. Harildo tinha ideias progressistas, atuando no teatro baiano. No início da ditadura, eu soube que ele passou um período no sítio de um amigo da família em nossa terra. Era uma época de medo. Eu também tive medo, porque fiz o curso patrocinado pela SUDENE e soube que um colega – que era filho de Paripiranga – tinha sido preso em Salvador. Em companhia daquele colega eu participara de movimentos pró reformas patrocinadas pelo Presidente João Goulart. Lembro-me da grande passeata da Praça da Sé até o Campo Grande, quando vibrei com o discurso de Seixas Dória, que era Governador de Sergipe.

Não esqueço também o dia em que fui pedir a colaboração de Harildo para fazer uma ligeira revisão na apostilha My English Book, que eu e o primo José Carlos Déda redigimos e fizemos a impressão  nas oficinas gráficas do Ginásio Industrial de Simão Dias (eu também era tipógrafo). Fiquei admirado com sua atenção em atender ao nosso pedido.

Quando tio Paulo morava na Rua de Estância, eu sempre apreciava uma pequena estante que tinha os livros de Harildo. Foi ali que li alguns livros de Júlio Verne e, pela primeira vez, li o livro Tom Sawyer, de Mark Twain.

São muitas as lembranças que gosto de rever. É por isto que dizem que tenho uma memória de elefante (não sei se a memória do elefante é realmente boa ou se é pelo tamanho da cabeça). A minha tem o tamanho limitado: uso chapéu nº 53 que é o tamanho próprio para crianças.  Minha avó Olívia, quando afagava meus cabelos, comparava minha cabeça com a de um alfinete, e rimava: “Beto, seu cocuruto é diminuto!”

Com o avanço da idade, passei a conversar demais relembrando o passado. Um exemplo está aqui e neste espaço, onde muito disse para anunciar a entrevista de Harildo à TVE-BA.

Vejam o vídeo, a seguir, e percebam a lembrança que ele teve dos locais de nossa terra, onde surgiu o despertar de seu interesse pela arte cênica. 

Harildo é um simãodiense que nos orgulha.

Aracaju, 09.06.2019
Beto Déda





quarta-feira, 5 de junho de 2019


A Ladeira de Roque.

Na última postagem, apresentei uma foto atual da antiga Rua de Lagarto, que nos velhos tempos era conhecida como a Ladeira de Roque. O Sr. Roque Macedo, que deu o nome popular àquela rua, era um artesão que morava no final da ladeira,  próximo ao oitão da casa de Dr. Gervásio de Carvalho Prata, na Praça da Matriz.

Logo depois de postar aquela fotografia, lembrei-me de uma tela pintada pelo artista sergipano Pedro Silva, datado de 1984, em que mostra uma paisagem antiga de Simão Dias: o antigo muro da residência do Cel. João Pinto, pai do Sr. Nelson Pinto de Mendonça, o início da Ladeira de Roque e, ao fundo, as centenárias palmeiras ladeando a torre da Igreja Matriz.

Quadro do pintor Pedro Silva - 1984 - Paisagem de Simão Dias:- início da Ladeira de Roque e a torre da Igreja Matriz.

Referido quadro, que orna a sala de visitas de minha casa,  foi-me presenteado pelo meu querido e saudoso irmão Artur Oscar. Assim, tenho uma admiração dupla desta bonita tela: o talento do artista sergipano  na  paisagem pintada e a lembrança de meu querido irmão.


Ainda sobre a Ladeira de Roque, antiga Rua de Lagarto, transcrevo a seguir um artigo escrito por meu pai no livro “SIMÃO DIAS - FRAGMENTOS DE SUA HISTÓRIA”-2ª Edição – página 175:

“O PRIMEIRO AUTOMÓVEL
Escrito por Carvalho Déda

Até o ano de 1920, o que havia, em Simão Dias, de mais luxo e conforto em transporte, era a liteira, uma espécie de camarinha de madeira leve, com portas laterais e pequenos postigos de ventilação, sustentada por dois varais compridos, onde eram atrelados dois burros, um adiante e outro atrás.
Por essa época apareceu o primeiro automóvel na cidade, que foi, no Estado, a terceira a possuir esse gênero de transporte. A primazia coube a Aracaju, seguida de Estância.
A primazia, em Simão Dias, coube ao Cel. Felisberto Prata, rico e progressista comerciante da praça.
Um dia, a cidade alvoroçou-se, repentinamente, com um estranho ruído de máquina e um fonfonar contínuo. Era um automóvel “Ford”, preto, novo, de capota conversível, correndo, aos trancos e barrancos, pelo calçamento irregular das ruas.
Uma surpresa! Poucos conheciam aquela espécie de veículo. A população inteira saiu de suas casas para ver a grande novidade.
Ao lado de um chofer empertigado e enfatuado, o Cel. Felisberto Prata, eufórico, cumprimentava os curiosos com seu chapéu duro, de palhinha. Era a sua entrada triunfal na cidade, depois de uma excursão recreativa pelo sul do país.
Durante alguns meses a cidade não comentava outra coisa. Surgiu o anedotário.
Conta-se que o ferreiro Roque Feliciano Macedo, lunático, constantemente preocupado com almas do outro mundo, lobisomem, mulas sem cabeça, e outras aparições sobrenaturais, havia deixado sua produção de alhos, a secar, espalhada em frente de sua casa, na Rua de Lagarto.
Ao ouvir o estranho barulho do “Ford”, correu para acudir a seus alhos. E qual não foi a sua surpresa ao deparar-se com a máquina preta, correndo por cima dos paus e pedras, sem lenha nem água! O “Ford” fez uma curva rápida, salvando os alhos do Mestre Roque, deixando este estupefato, sem compreender a “visagem”. Olhou por cima dos óculos sujos, persignou-se e gritou:  –Tá bêba, porca dos óios de vrido! Tu qué cumê meus áios?”


Estes são fatos de minha terra, bons de recordar.

Aracaju, 05/06/2019
BETO DÉDA

segunda-feira, 27 de maio de 2019



JOGANDO BOLA NO CAMPINHO DO BONFIM DE BAIXO E PESCANDO NO CAIÇÁ.

Há poucos dias estive revivendo momentos da boa terra em animada conversa com dois conterrâneos: Dr. João Pinto e Agripino Santos. Eles são filhos de saudosos e conhecidos simãodienses.

O João é filho do Seu Nelson Pinto de Mendonça, que foi um honorável prefeito de nossa cidade, sempre lembrado por seu comedimento e probidade administrativa.

Agripino é filho do popular e benquisto Seu Manoel da Marinete – e aqui cabe uma explicação para os mais jovens, especialmente meus netos:  marinete não é nome de pessoa, era o termo  que antigamente dávamos aos ônibus.

Seu Manoel trabalhava, em companhia de Seu Jove, Seu Zequinha e depois Seu Didi, na marinete que fazia o trajeto Simão Dias-Aracaju.

Agora passemos ao que conversei com os meus amigos.

Encontrei-me por acaso com o João Pinto no Shopping Jardins, aqui em Aracaju. Conversamos bastante, lembrando momentos vividos com seus irmãos Jorge e Eduardo Pinto, e também com meus primos Zé Carlos e Washington Déda. 

E nessas lembranças, ocorreu-me o tempo que, aos domingos, jogávamos bola no campinho que ficava no local que hoje é o Posto de Gasolina de familiares de Seu Ferreirinha. O campinho começava embaixo de um pé de amêndoa, no início da Ladeira do mestre Roque, um conhecido ferreiro local. Aproveitávamos o tronco do pé de amêndoa como uma das laterais da pequena trave. Era um campo diminuto e gramado tipo “capim-de-burro”, próprio para pelada com cinco guris de cada lado; guardava uma ligeira semelhança, em tamanho, aos atuais campos de futebol de salão.

O local onde antigamente jogávamos pelada. Antiga Rua de Lagarto ou Ladeira de Roque (Simão Dias) - Foto Map.Google.

 O nosso time tinha como técnico e responsável o Seu Liminha, pai dos amigos Tonho Amaral e  Zé Neri, que era um bom “football player”, termos em inglês que usávamos naqueles idos para designarmos os bons jogadores e dribladores.  Jogavam no nosso time: eu, Zé Neri, Eduardo Pinto, Jorge Pinto, Adilson de Jason e o João Pinto, este último, como era mais novo, ficava como reserva do goleiro.  O time adversário era variável, formado com amigos residentes no Bonfim. 
Seu Liminha era funcionário dos Correios e Telégrafos, casado com Dona Corina que era proprietária do Hotel que ficava na Praça Barão de Santa Rosa, em uma casa grande, cuja frente era revestida com bonitos azulejos portugueses.

No final de cada jogo, independentemente do resultado, nosso time ia até o Hotel e Seu Liminha, depois de elogios ou conselhos, nos servia água fria, refrescos acompanhados de gostosos quitutes e, para os mais crescidos, um golezinho de um licor muito saboroso, feito de jenipapo.

Até hoje, quando estalo entre os beiços o gosto do gole de um bom licor, lembro-me do nosso grande e sempre alegre técnico.
...

Com Agripino Santos a nossa conversa foi mediante mensagens, via internet, no Facebook. Ele mora Rua Mário de Eliseu, a mesma que residia seu pai, o popular Manoel da Marinete.

Atualmente aquela rua é denominada de Rua Ana Andrade, que começa na ponte sobre o Riacho Caiçá, conhecida como Ponte Mario de Eliseu.

A Rua Ana Andrade, antiga Rua Mario de Eliseu, e a ponte sobre o Rio Caiçá - Simão Dias - Foto Map-Google.

Lembro-me que aconteceu ali, justo no local daquela ponte, uma grande enchente do Caiçá que derrubou várias casas e destruiu parte do antigo prédio onde  funcionou o vapor de descaroçar algodão de Seu Pedro Valadares.

Na conversa com Agripino, lembrei-me de amigos que ali também residiam. Lembramo-nos do saudoso João Jacó, que era conhecido como João do Cinema, porque ele trabalhava no Cine Brasil e fazia tudo: pintava os cartazes, era o locutor que anunciava a programação e também revisava e projetava as fitas.  Disse-me Agripino que João era seu vizinho e costumava contar histórias sobre os cinemas de nossa cidade.

Recordamos os filhos de Seu Pedro Coelho que também morava ali. Entre eles os amigos Luiz e Benedito que eram assíduos frequentadores do Cine Ipiranga. Soube então que Luiz era casado com uma prima de Agripino. Em uma de minhas filmagens da antiga feira, eu fiz uma ligeira entrevista com Luiz.

No riacho Caiçá, ali sob aquela ponte, eu costumava pescar uns peixinhos conhecidos como chupa-pedra para coloca-los em vasos imitando aquário. Diversão e criatividade não faltavam.

Lembrei-me também que ali perto tinha a malhada de Sr. Norzinho Andrade, um idoso comerciante da antiga Rua da Feira, que era pai de José Silva Andrade, proprietário da casa comercial "O Lavrador". 


Na malhada do Sr. Norzinho tinha um tanque que eu costumava pescar. Certa tarde eu estava distraído na pesca, quando fui surpreendido por Seu Norzinho. Notando que eu estava pálido em decorrência do susto, olhou-me compreensivo e exclamou: 

- “Como você está pescando com anzol, não tem problema”. E concluía: “Não permitiria se a pesca fosse com uma rede. Então fique á vontade!”.

Não fiquei. Quando ele deu as costas, não vacilei em passar sebo nas canelas e iniciar uma carreira sem precedentes. Depois desse susto, nunca mais pesquei naquele tanque.

São lembranças de Simão Dias nos anos cinquenta.

Os amigos João Pinto e Agripino Santos ativaram minha memória. Sou imensamente agradecido pelo bom diálogo e as boas lembranças que tivemos. 

Aracaju, 27/05/2019
BETO DÉDA

segunda-feira, 6 de maio de 2019


MOMENTOS DE SAUDADE EM SIMÃO DIAS...



Recentemente estive em Simão Dias. Foi uma visita relâmpago, dessas que duram apenas algumas horas.

O dia foi chuvoso. Deu apenas para abraçar uma querida aniversariante e rever alguns parentes e amigos. 

No mais, foi passar rapidamente pelas ruas da cidade, sentindo a lembrança aflorar em cada esquina... Em seus jardins...  Em seus velhos prédios... 

Lembranças de saudosos familiares e amigos. Gente que partiu para outra dimensão, mas que conosco continuam revivendo em meus sonhos e em benditas recordações.

E, como sou um discreto sentimental, sem alarmes, cuidei de esconder meus olhos marejados de lágrimas atrás dos escuros óculos que eu usava...

Hoje, escolhi fotos do meu acervo para renovar a emoção e compartilhar com familiares e amigos, para que também relembrem seus parentes e os conterrâneos que alegremente conviveram naqueles recantos.

São fotografias que despertam nostalgia, mas que merecem ser lembradas.


Aracaju, 06/05/2019
BETO DÉDA

segunda-feira, 22 de abril de 2019


O VERÃO, AS TROVOADAS E AS LEMBRANÇAS DA BOA TERRA...

                Como o amigo de tio Paulo se meteu em uma saia justa...


Trovoadas e ventos fortes aconteceram recentemente em nosso Sergipe. Por intermédio da amiga Prof.ª Amanda Santos e de meu querido sobrinho César tomei conhecimento que choveu a cântaros em Simão Dias e que algumas ruas foram alagadas.

As chuvas de verão me trazem recordações dos meus tempos de criança e das brincadeiras com a meninada da Praça de São João. 

A revoada das tanajuras era motivo de encanto da gurizada. Caçávamos e selecionávamos as grandes formigas em latinhas de sardinha, cantando uma modinha muito apropriada, com o seguinte estribilho:

“Cai, cai tanajura, na panela de gordura...”

Aproveitávamos tudo para reforçar a diversão. As pequenas correntezas d’água eram interrompidas com bolos de lama, formando diminutas represas, onde impulsionávamos mini-balsas formadas com gravetos de tamarindeiros e folhas de eucalipto.  A terra úmida pela chuva era fértil em iscas para pescar; e fazíamos a colheita cavando os locais em que surgia um montinho de terra preta e molhada, onde as minhocas procuravam suspiro (dizíamos que era o local que as minhocas cagavam). 

Desfrutávamos os frescos pingos de chuva correndo nas sarjetas e espanando água nos colegas.

E quando penso na correnteza d’água nas sarjetas, vem logo em minha mente a figura de Tabaquinha, uma conhecida e pobre louca da cidade, que aproveitava a fartura de água corrente e, ali mesmo, no meio da rua, sob os apupos da garotada, levantava o encardido vestido e lavava as partes fracas...

As trovoadas em minha terra sempre significaram o aproveitamento da água da chuva dos telhados, que era guiada por bicas para grandes vasos de barro, chamados de porrões. Nos dias de trovoadas, com a abundância d’água, também era costume encher as caixas dos banheiros.

E assim, no campo fértil das recordações das trovoadas, minha mente é despertada por um causo que me foi contado por meu talentoso tio Paulo. É mais uma das centenas histórias “penosas” do meu inesquecível tio.
Foto de uma das minhas entrevistas com tio Paulo(1989).

Dizia ele que tinha um amigo e colega conhecido como Madeirinha, que era comerciante em nossa terra e reconhecido por seu excelente humor. Em um dia de trovoada, ele resolvera aproveitar as águas da chuva e encher a caixa do banheiro de sua casa.

Ele estava na loja com sua esposa e, notando o início da chuva, anunciou que iria até sua residência para encher os porrões e a caixa do banheiro. Concordando com a ideia, a gentil senhora sugeriu que a mocinha, sua secretária, o acompanhasse para ajudá-lo na tarefa.

A mocinha, conhecida na intimidade como Sayaiá, tinha cabelos curtos e meio aloirados; baixinha e recheada, com coxas aprumadas e pernas curtas; seus olhos eram verdes e bonitos, ligeiramente estrábicos (detalhe que na mocidade é um charme). Não era uma encantadora miss, mas  também não era de se deixar de ver e admirar... 

Pois bem. Os dois foram aproveitar a grandeza da chuva.

O comerciante passava o balde com água para Sayaiá que, em cima da escada, enchia a caixa do banheiro.

Depois de alguns baldes, o vestido da garota ficou encharcado, colando ao corpo, emoldurando o busto, mostrando os graciosos e pontudos seios e o encanto das coxas roliças e alvas.

O homem, embaixo da escada, admirava o espetáculo, mordendo os beiços.

Após encher a caixa, o Madeirinha não se conteve e sugeriu com a voz meio anasalada que necessitavam tomar um banho. Ele e ela. Os dois juntos.

Então, com um sorriso malandro e insinuante foi direto ao ponto:

- Eu ajudando você, como fizemos ao encher a caixa. Mas no nosso banho não vacilarei em lhe esfregar... Suas costas e coisa e tal...

A moça não deu ouvidos e desconversou:

- Eu? Quero o quê... Nem vem com essa! Cruz credo!

Receoso, o Madeirinha se recompôs e a moça saiu.

À noite, na hora do jantar, a mulher do comerciante tomou conhecimento do sucesso no trabalho de aproveitar as águas e sugeriu que Sayaiá tomasse banho.

 A inocente baixinha respondeu:

- Vou não...Hoje de tarde seu Madeirinha ficou tão contente com minha ajuda e até  me chamou pra tomar banho como ele, para inaugurar o novo chuveiro. Não concordei e disse que a inauguração era reserva especial da senhora. Fiz bem, né?

A respeitável senhora passou aquele olhar severo e reparador para o marido.

O fogoso comerciante, com um sorriso maroto, tentou disfarçar a saia justa dizendo, antes de sair de fininho da sala:

- Realmente eu sugeri que ela tomasse banho, porque ela parece que é portuguesa: não gosta disso...

E meu tio encerrava a história penosa, exclamando:

- Madeirinha era peia! – e ria muito, ajeitando os óculos no rosto redondo e fechando os olhos como a se lembrar de tudo.
...

Quando me lembro deste causo, na qualidade de fã de carteirinha do meu saudoso tio, eu também não deixo de proclamar:

-Tio Paulo era o tal!

Aracaju, 20 de abril de 2019.
Beto Déda