sexta-feira, 9 de novembro de 2012


Os bois de barro, o artesão, a gangorra, os coelhos e a "esperteza" na venda de um tacho...

 

Meus netos brincando na fazendinha 
que eu fiz, lembrando meu tempo de criança.

Neste fim de semana prolongado estivemos no Lago Dourado compartilhando de muita diversão com meus filhos e netos.  Para meu neto Miguel eu fiz uma fazendinha igual a que fazia no meu tempo de criança no quintal de minha casa, em Simão Dias. A diferença é que atualmente os brinquedos são de plástico, enquanto no meu tempo os animais domésticos e a mobílias das casas de bonecas eram feitas de argila, tudo muito bem feito. Comprávamos os bois de barro na feira da cidade, em dias de sábado, a um artesão que conhecíamos como “Saco do Pia”, nome possivelmente derivado do povoado onde ele morava. Sobre este senhor conta meu cunhado Haroldo que certa vez chegou pra ele e perguntou se venderia todo o estoque de brinquedos de barro; o artesão recusou o negócio e usou um argumento surpreendente, afirmando mais ou menos o seguinte:
- Vendo não, moço. Se eu vender agora a um único freguês, ficarei sem ter o que fazer aguardando a hora de voltar para meu sítio. Vou ficar com a cabeça pra cima, rodando que nem pinhão! Esse negócio eu não faço...
A verdade é que o senhor “Saco do Pia” se sentia feliz tanto em fazer seu artesanato como também conversar com cada um de seus fregueses. O que se deduz daquela justificativa é que o seu propósito maior não era o “vil metal”, interessava-se mais na divulgação de sua arte e em fazer feliz um maior número de crianças. Parece-me – no meu imaginário infantil que ainda hoje conservo – que a justificativa daquele simplório artesão estava absolutamente certa. E a prova disto é que ainda hoje, setentão, fico alegre lembrando-me da arte do  Saco do Pia...  
A casinha de madeira que eu mesmo construí
(eu carpinteiro) para minha neta Marina

É assim que curto a realidade, participando das diversões dos meus netos, comparando-as com as vividas por mim no passado. E nessa brincadeira, a memória passeia pelo quintal da casa da Rua dos Ribeiro onde minha imaginação descobria um mundo de fantasia transformando coisas simples em divertimento.

Certa vez surgiu na cidade um parque de diversões, instalado na Praça Barão de Santa Rosa. Serviu-me de estímulo para fazer um “parquinho” em nosso quintal. Armei um balanço, fiz uma gangorra e improvisei um carrossel (duas tábuas que eram usadas em andaime rolando sobre dois cortiços). Era o bastante para meu parque funcionar e os possíveis defeitos foram superados pela minha imaginação fértil de criança.  O pior é que caí da gangorra, o “galo” cantou em minha testa e o parque foi “desmontado”.
Lembro-me também que lá em nosso quintal criamos coelhos. Bonitos, brancos e “produtivos”. Quando menos esperávamos lá estavam os lindos e alvos coelhinhos saindo das tocas/ninhos (buracos no chão do quintal). Era uma alegria imensa que tínhamos ao defrontarmos com aqueles maravilhosos filhotes. Pena que a quantidade de buracos feitas no quintal ameaçava o alicerce dos muros, o que obrigou meu pai a se desfazer dos animais.
Mesmo sem autorização de tia Esterzinha, eu costumava guardar a ração dos coelhos em um tacho de cobre, cuja utilidade maior era cozinhar canjica e fazer doce de batata. Quando não utilizado, o tacho criava um azinhavre, de cor verde, resultante da oxidação do cobre, o que dava uma aparência de coisa imprestável. Pois bem. Nas minhas conversas com colegas de brincadeira, soube que o Sr. Cipriano, que tinha um armazém ali na Praça de São João, além comprar castanhas, também comprava qualquer coisa de cobre. Lembrei-me então do nosso tacho e não vacilei. Lá fui eu até a loja vendê-lo. “Seu” Cipriano olhou o tacho e com um bondoso sorriso disse-me:
-Ora, Beto, esse tacho está novo, apesar do azinhavre. Uma boa lavagem com sal e vinagre limpa tudo, deixando-o luzidio, da cor alaranjada, parecendo novo. O que eu compro são peças velhas, quebradas.  Não vou comprar esse não! Acredito que sua mãe não sabe dessa venda. Não é?
Saí desconfiado, aborrecido, mas bolando outro jeito de efetuar a venda. Chegando em casa, peguei um martelo e amassei o tacho, deixando-o quase descaraterizado. Embrulhei o amassado e fui ao armazém, com cuidado, perscrutando o momento em que “Seu” Cipriano não estivesse por lá. Confirmado que naquela hora quem cuidava do armazém era a esposa dele, Dona Zifinha, que nada sabia de nossa conversa. Então, efetuei a venda do que restou do tacho. Com parte do dinheiro recebido comprei uma jaca mole e voltei pra casa. Quando passava pelo parque vislumbrei os colegas de pelada que estavam sentados embaixo de um pé de tamarindo. Percebi que eles falavam alguma coisa e olhavam insistentemente para mim. Ficaram de pé e começaram a correr para cortarem minha passagem.  A intenção deles era clara e não vacilei, disparei em direção ao portão de minha casa. Alcançaram-me antes de lá chegar. A jaca foi ao chão e todos, inclusive eu, comemos avidamente os doces bagos. Reclamar?  Só depois de saborear a jaca! Foi o que fiz logo em seguida, com troca de sopapos com as mãos grudando de visgo...
Passados alguns dias, quando toda a família estava almoçando, Tia Esterzinha falou que ia fazer um doce de batata e que não tinha achado o tacho. E indagou:
- Será que roubaram? Como é de cobre talvez tenham vendido ao ferro velho. Vou perguntar ao Cipriano.
Pronto. Entrei em desespero e comecei a chorar escandalosamente, oferecendo a mão para receber a reprimenda, gritando:
-Ai meu Deus! Fui eu. Eu vendi e estou arrependido...
A reprovação daquele ato serviu-me como disciplina e me deu a noção exata de que a “esperteza” que utilizei não passou de um ardil, um artifício para lograr proveito. Aprendi a lição!

E muitos anos depois, lá pelos anos 80, ouvi de um político mineiro, o Dr. Aureliano Chaves, uma frase que se tornou famosa e que cai como uma luva no caso que acabo de narrar. Disse ele:
"A esperteza, quando é muita, vira bicho e come o dono." 
 
 Aracaju, 09/11/2012
Beto Déda

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Eu, professor de inglês e a visita do americano...

Outro dia, ouvindo as façanhas de um técnico de futebol falando seu inglês macarrônico em propaganda de refrigerante, lembrei-me do tempo de minha juventude quando fui professor de inglês.


Naquela época, a criação de curso ginasial no interior do Sergipe exigia a contribuição de pessoas que pudessem improvisar a tarefa de ensinar, e isto acontecia divido da dificuldade de se encontrar professores especializados.  

A partir de 1964, dei minha colaboração ao Ginásio Industrial Dr. Carvalho Neto, em Simão Dias.

Naquele ano eu estava em Simão Dias e meu primo José Carlos Déda, que já prestava sua colaboração como professor de Inglês, incentivou-me a ensinar, então falou com a direção do ginásio e convidaram-me a fazer parte do corpo docente. Passei a ensinar inglês e matemática. Na verdade, gostava mais de cuidar dos números de que do idioma.  Mesmo assim não fugi ao dever de colaborar e o fiz com todo empenho, imitando e assumindo a forma de professor, até no uso de um guarda-pó, tal qual usava o grande Prof. Leão Magno, que foi meu mestre de matemática no Colégio Ateneu. 
 
Juntamente com o primo José Carlos discutimos a dificuldade que os alunos do interior enfrentavam para adquirir os livros didáticos. E tentamos solucionar esse problema, editando nosso próprio livro. Como eu era tipógrafo, bolamos então editá-lo ali mesmo, no Ginásio, em uma pequena oficina tipográfica destinada ao ensino de Artes Gráficas. Sem descuidarmos do programa exigido pelo MEC, bolamos um livreto (espécie de cartilha ou ABC em inglês), evidenciando o básico, abrangendo principalmente conversação inicial, um pouco de gramática e exercícios. Tudo do modo mais simples possível. Para realizar algumas versões, que serviriam de leitura, pedimos ajuda ao primo Harildo, que estudara nos Estados Unidos, e conhecia muito bem o idioma do "Tio Sam".


Capa da edição original do livro que editamos nas
Oficinas Gráficas do Ginásio Industrial de Simão Dias, em 1964.

Conseguimos o consentimento da diretoria e passamos aos trabalhos da edição. Zé Carlos cuidara de organizar e datilografar os temas discutidos e eu, na qualidade de tipógrafo, a realizar os trabalhos gráficos (composição e impressão) do livro.  Foi precisamente no mês de junho de 1964 que concluímos a edição, que tinha o título pomposo: My English Book. O lançamento foi feito no salão do próprio ginásio, com a presença de alunos e seus pais. Não sei como expressar a alegria que tivemos naquele dia. Ainda hoje conservo cuidadosamente o original, com uma dedicatória impressa que fiz pra Leninha, que era minha aluna/namorada e hoje minha esposa. Também guardo comigo uma cópia feita três décadas depois, em 1998, pelo saudoso primo Zé Carlos, usando um computador e impressora, mas mantendo as mesmas características do original.
Dedicatória a Leninha, impressa na
Gráfica onde foi editado o livro.


Como professor improvisado, meu objetivo era transmitir o pouco do meu inglês macarrônico (ou inglês de beira de cais, como dizia o Prof. José Franklin). Preocupava-me em ensinar o básico mesmo, de modo que soubessem se expressar em situações especias, como: ter fome, sede, pedir ajuda, entrar, sentar, ficar de pé, ler, escrever, perguntar o nome, etc. E o fazia com aquela pronúncia que, eu mesmo reconhecia, deixava a desejar e fazia meu primo Zé Carlos sorrir a vontade.


O maior aperto que senti aconteceu em certa tarde, quando estava em sala de aula e recebi o chamado da Profª. Iolanda para ir até a sala da diretoria.  Lá chegando, fui apresentado a um americano chamado David Júnior, que viera prestar serviços em Simão Dias, como Voluntário da Paz, no âmbito de convênio firmado entre o Brasil e os Estados Unidos. Feitas as apresentações, alguém sugeriu que ele fosse até a minha sala para conhecer a turma.  O David começava a se comunicar em nosso idioma e somente com esforço e boa vontade é que dava para se entender o que dizia ou pretendia dizer. Enquanto eu, pelo contrário, pouco entendia ou me fazia entender com meu inglês macarrônico. Iniciado um ligeiro diálogo, procurei ganhar tempo. Parece-me que fiquei branco tal qual meu guarda-pó, mas logo recuperei a cor e o fôlego. Então, pensei com meus botões: "vou usar as frases básicas aplicadas na sala de aulas, tomar a iniciativa e não deixar o americano iniciar conversa em inglês, senão tô ferrado".


Fomos à sala.  Lá chegando, a turma ficou de pé e eu prontamente exclamei: Sit down, please! Todos atenderam. Convidei o David a sentar na fila da frente; e o fiz balançando a cabeça de lado, indicando a direção com nos filmes de cowboy, e dizendo: "Come on, my friend, sit down  here, please!".
Imediatamente passei a explicar aos alunos que aquele rapaz era um americano que viera prestar serviços em nossa terra e que certamente seria professor do ginásio. E aproveitando a oportunidade pediríamos a ele para ler uma pequena lição de nosso livro de modo a conhecermos melhor a pronúncia. E olhando para o David, entregando-lhe o nosso livro, disse, pausadamente: "Please, friend, stand up, open the book at page ... and read".


O David amarelou, levantou-se e com as mãos trêmulas abriu o livro e fez a leitura numa velocidade impressionante. O seu nervosismo me deixou à vontade, senhor da situação. Pedi então que lesse mais divagar (slowly) e ele o fez ainda tremendo. Agradeci e sem mais conversa levei-o de volta à sala da diretoria. Aliviado, voltei à classe e comentei que o americano ficara emocionado e precisava de um gole de água com açúcar. E a risada foi geral.


Continuei até o final daquele semestre ensinando o meu inglês “de beira de cais”, acreditando na possibilidade de pensarem que eu sabia o idioma. E dizia com meus botões, usando o inglês macarrônico tal e qual o usado pelo técnico Joel Santana em uma recente propaganda de refrigerante:

 “-...Pode to be?”.


 


Aracaju, 31.10.2012


Beto Déda


quinta-feira, 25 de outubro de 2012


 A Praça de São João, as tanajuras, o Caiçá e as sanguessugas


Em Simão Dias, um dos locais preferidos pelas crianças era Parque Cel. Zacarias de Carvalho, conhecido como Praça São João, porque ali estava localizado o Cemitério São João Batista. Havia muitas árvores: tamarindeiros, fícus benjamim, acácias-amarelas, eucaliptos e um frondoso pé de “olho de boi”. No centro do parque tinha um monumento que a criançada chamava de estátua. Era um obelisco comemorativo ao primeiro centenário da Freguesia de Santana de Simão Dias.


Os tamarindos do parque

Das árvores do parque a maiores lembranças são os frutos dos tamarindeiros e as sementes de “olho de boi”.


 Os tamarindos maduros nós chamávamos de “chocolate” ou simplesmente “chocó”, pela cor marrom-escuro, lembrando a semente do cacau. Com eles fazíamos um ponche azedinho e muito gostoso. Quando queríamos atrapalhar a filarmônica “Lira Santana” chupávamos ostensivamente bajes de tamarindo, deixando os músicos com água na boca, dificultando o sopro dos instrumentos. Era subindo nos tamarindeiros que nos protegíamos do gado que levavam para o Matadouro municipal. Certa feita o garoto Hélio, que morava em um sítio próximo ao Hospital, subiu até o alto de um tamarindeiro e não soube descer. Começou a chorar e gritar, chamando a atenção de todos que por ali passavam. Foi nossa querida Teté (Tefinha) que procurou ajudá-lo, chamando o Seu Nia para descer o traquina. O velho Nia era um senhor forte que trabalhava no Matadouro, fazendo carne de sol, era o responsável pela organização da festa dos caboclinhos ali no parque.
A sementes de "Olho de boi"


As sementes de “olho de boi” são compactas, lisas e bonitas. Usávamos para pregar sustos nos colegas, e o fazíamos tocando-as quentes nos braços dos desprevenidos, depois de esfregarmos no cimento para esquentá-las com o atrito. Diziam que era medicinal e o santo remédio pra curar terçol.  As meninas usavam para brincar de “pinto-galo”.



"Cai, cai, tanajura na panela de gordura..."

Em dias de chuva a praça era invadida por saúvas voadoras, e cantávamos:
“Cai, cai tanajura na panela de gordura...”.  Então espetávamos as grandes formigas em um palito para escutar o ruído característico da flexão das asas, como se fossem helicópteros. E admirados, olhávamos Serafim, o garoto mais alto da turma, assar as tanajuras em um foguinho de folhas secas e comê-las, deliciando-se. Muitos anos depois é que soube que em restaurantes chiques de Nova Iorque um prato de formigas torradas era muito apreciado e custava uma fortuna...

A pelota ou couraça

No parque tinha uma área sem árvores, onde jogávamos futebol. As peladas eram disputadas com bola de borracha ou com bexiga de boi, que pegávamos no matadouro municipal que ficava ali perto. Raramente usávamos a pelota, uma bola de couro com um rasgo por onde passava o pito da câmara de ar. Era ali onde disputávamos boas partidas e que também rolavam brigas de socos.


Certa vez, jogando a turma do parque contra o time do Bonfim, o nosso “beque” Delmo deu uma “estrompa” no atacante adversário e iniciaram uma forte discussão, em posição de briga, com os punhos cerrados. Alguém marcou um traço no chão, entre eles, dizendo que cada lado representava a mãe do contendor.  Ambos pisaram nos lados opostos, com xingamentos, sem, contudo, iniciarem os sopapos. Então, o garoto do Bonfim, oferecendo o rosto, caiu na besteira de mandar o Delmo dar o primeiro tapa. Este não vacilou e mandou um forte soco no queixo do adversário, que caiu sem sentidos. Aflitos, pensávamos que o garoto tinha morrido. E fomos chamar o Xinoca, experiente jogador do Cruzeiro. Ele olhou a “vítima” e disse categórico:


 Foi um nocaute. Tá desmaiado”.  Salpicou água no rosto do incauto, reanimando-o. E tudo voltou ao normal.   


Depois dos jogos íamos tomar banho no poço do Riacho Caiçá, que ficava por trás do Matadouro. A água era transparente e funcionava como uma grande lupa, com aparência de poço raso, confundindo os que desconhecessem sua fundura. Com o movimento dos nadadores o pó do fundo se espalhava, tornava a água um pouco escura e o resíduo de lama grudava em nosso corpo. Diziam alguns que a lama do riacho tinha propriedades medicinais. E víamos alguns trabalhadores do matadouro passando a lama nas axilas para curar a sovaqueira. Mas o que se propagava na cidade é que no riacho tinha o caramujo vetor da doença barriga d’água (esquistossomose). Daí a preocupação que os pais tinham em não permitir que os filhos tomassem banho no Caiçá. Lá em casa, tia Esterzinha usava um modo singular de saber se tínhamos tomado banho no riacho: passava a unha na pele do braço para ver se estava impregnada do pó do Caiçá. Caso fosse positivo o castigo era severo...
A Sanguessuga


Outro lugar que tomávamos banho era o tanque (barreiro) do sítio de Seu Hilário. Lembro-me da última vez que fui ali, acompanhando meu irmão e primos. Estávamos alegremente tomando banho quando de repente notei alguma coisa estranha na pele de minha barriga. Assombrado, gritando e chorando percebi que três imensas sanguessugas estavam grudadas sugando meu sangue. O escândalo dos meus gritos despertou a atenção dos demais que vieram ao meu socorro. O mais velho da turma, o Fefeu, disse:


É sanguessuga, não pode retirar, senão os dentes seguem nas veias e chega ao coração, matando...”


 E vendo meu desespero, tranquilizava-me: - “Fique frio, magrão, aqui mesmo termos a solução para o problema. Vamos...”


E fomos ali mesmo na roça de Seu Hilário, onde ele pegou uma folha de  fumo, molhou com cuspe e passou levemente sobre as sanguessugas. Pronto, o remédio foi eficaz, as sugadoras caíram uma por uma, aliviando-me. Limpei as lágrimas e esbocei um sorriso, quando o galego exclamou:


“- Magro desse jeito, chorão e perdendo sangue... você não vai se criar!


E eu respondi, ainda soluçando: “Vou me criar sim, seu pelanca! E a gargalhada foi geral...


Imediatamente, o grande Fefeu não perdeu a oportunidade e com seus olhos bem abertos, aprontou mais uma, gritando:


 “-Turma, corre que lá vem seu Hilário com uma espingarda de tiro de sal!”


Foi aquela correria, passando com rapidez pela cerca de arrame farpado. Já na estrada, o lourão, puxando o cabelo de lado, dizia que se enganou. E todos saíam rindo a vontade...
Eta, tempo bão!



Aracaju, 24/10/2012


Beto Déda

domingo, 21 de outubro de 2012


Como o mundo perdeu um grande violonista

 

Em uma tarde desta semana, depois de fazer um brinquedo para meu neto, fui descansar no píer que eu, carpinteiro amador, construí no Lago Dourado. Apreciando a paisagem bonita, pensava como seria bom se eu soubesse tocar violão para, naquele momento, dedilhando o pinho, transmitir aos ouvidos a beleza já deslumbrada pelo sentido da visão.  E assim pensando, lembrei-me do amigo Átila Lisa, que faleceu recentemente. Ele era o pai de meu genro Flávio e, também, avô de meus netos Miguel e Marina. Toda vez que Seu Átila aparecia por aqui, passávamos horas lembrando os tempos de nossa juventude. Certa vez contei pra ele as minhas primeiras experiências vividas em Salvador e a frustração que tive ao tentar aprender a tocar violão. E lembro aqui como tudo aconteceu.

No inicio de 1963 eu estudava no Colégio Ateneu, em Aracaju, cursando o Científico. Como em Sergipe não existia Faculdade de Engenharia, a SUDENE realizou aqui um concurso para concessão de bolsa de estudo aos estudantes interessados em estudar em Salvador, onde concluiriam o científico e participariam de um curso pré-vestibular na Escola Politécnica da Bahia. Fiz o concurso, fui aprovado e me mandei para Salvador, morar no apartamento de meus primos, que chamávamos de “República dos Oliveira & Carvalho”.   Éramos seis e mais uma secretária, de nome Marisete, que cuidava da  cozinha e de outros afazeres domésticos. Quem administrava a “República” era o Presidente Zé, o mais velho dos “republicanos”.

“A “República” ficava na Rua Rockefeller, em Barris. Passei a estudar, pela manhã, fazendo o curso patrocinado pela SUDENE na Escola Politécnica da Bahia, que ficava no Bairro Federação; à noite, cursava o Científico no Colégio Duque de Caxias, no Bairro Liberdade (não consegui vaga para estudar no Colégio Central, que fica próximo). Durante a tarde ficava no apartamento, estudando.

Quando recebi a primeira grana da bolsa da SUDENE foi uma alegria imensa. Paguei o valor da mensalidade da “república”, separei o valor dos gastos com merenda e ônibus e, com o restante, comprei um bonito violão para iniciante, marca “Di Giorgio”, na loja Duas Américas, que ficava na Rua Chile.

Estava todo concho com a aquisição. Naquele mesmo dia passei a tarde dedilhando o violão, seguindo as recomendações de um folheto, que dizia ensinar a tocar em 30 dias. No fim da tarde, com muita boa vontade já dava para sair algum som aproveitável. Mal suspeitava que meu projeto musical estivesse próximo da derrocada.

Pois bem! À noite, quando todos os “republicanos” assistiam a um programa na TV, a secretária Marisete, apontando para a cozinha, onde eu estava, disse:

 Aquele ali comprou um violão e passou a tarde tocando... Estudar que é bom, necas...”

Ouvindo isso, entrei na sala e o “Presidente” Zé, terminando de passar entre os seus dentes um fio de sua camisa “volta ao mundo”, perguntou-me se era verdade a informação de Marisete. Respondi: “Sim, em termos...” E ponderei que se tratava de um belo instrumento, que tinha sido barato e que não atrapalhara meus estudos naquela tarde, nem seria problema no futuro. O grande Zé não foi na minha conversa. E sentenciou:

Meu chapa, você veio pra estudar ou pra tocar violão. Se quer aprender a tocar violão volte pra Simão Dias e se matricule na escola do Maestro Raimundo Macedo. Para ficar aqui terá que se desfazer desse tal violão. E tem mais, o prazo para se livrar do instrumento só é até a noite de amanhã. A decisão é sua...”

Decreto de “presidente” é para se respeitar, senão a república vai pro brejo. No dia seguinte fui à Escola Politécnica com o violão debaixo do braço. Procurei a colega sergipana Lindinalva, que no dia anterior tinha ido comigo à loja e também comprara um cavaquinho. Ela sabia tocar o instrumento. Perguntei se ela queria comprar o violão. Diante da resposta que não tinha dinheiro, entreguei-lhe o bendito instrumento para ela pagar se pudesse ou se quisesse. Ela ficou meio sem graça e eu - meio amargurado - mas imensamente agradecido por ela ter aceitado o instrumento.

A verdade é que, depois deste acontecido, perdi o interesse em aprender a tocar instrumentos. Mas nunca descurei de escutar uma boa música e de cantar no banheiro. Invariavelmente, ao abrir o chuveiro, solto meus pulmões e o ruído da água descendo mistura-se com o desafinado som do meu cantar...

...

Muitos anos depois, contando esta história à filha do querido amigo e primo Zé, ela olhou para o pai e falou:

- Painho porque foi tão exigente? É de se pensar que, com seu “decreto”, Simão Dias perdeu um grande violonista...

E eu completava: “Simão Dias, não! O Mundo perdeu um grande músico...” E caíamos em uma risada sem limites...

Aracaju, 19/10/2012

Beto Déda

segunda-feira, 15 de outubro de 2012


A ameaça de empastelamento do jornal “A SEMANA”

 

Narrarei para vocês um dos fatos inesquecíveis de minha vida, ocorrido quando eu contava com 12 anos de idade.

Foi precisamente numa manhã de domingo, dia 06 de setembro de 1953, quando eu e meu pai estávamos na redação do jornal “A Semana”, situado na Rua Dr. Joviniano de Carvalho, nº 37, em Simão Dias. Ele estava datilografando um artigo sobre o deputado Francisco Porto, a ser publicado na edição do sábado seguinte, na seção “Seara Sergipana”, na qual usava o pseudônimo de Carlos Eugênio (inspirado no nome de meu irmão).

Como era domingo, as portas da redação do jornal estavam fechadas e lá estávamos somente eu e meu pai. Ouvimos bater e meu pai mandou verificar quem era. Voltei assustado, exclamando: “É o Pedro Cuia e outras pessoas... parece que estão feridos”. Papai também se assustou. Foi atendê-los pessoalmente. Lá estavam cerca de dez pessoas. Sentaram-se em volta de sua mesa de trabalho e passaram a contar a triste desventura, mostrando, além das escoriações nos rostos, suas costas roxas das pancadas recebidas. Curioso, ouvi atentamente o que narraram. O fato é que na noite anterior eles tinham sido arbitrariamente presos pela polícia local, comandada pelo Sargento Isidoro, e levados para as margens do rio Vaza-Barris, onde foram perversa e covardemente surrados e lá deixados. A razão disto: por andarem à noite pela cidade, sem documentos.
Papai anotava tudo, não só para seus cuidados como advogado, como também para a reportagem de “A Semana”, que seria publicada no sábado seguinte, com sua assinatura, “para evitar que a outros fosse atribuída a redação da notícia” e recebessem injustas represálias. Deixou tudo providenciado e, na segunda-feira, viajou a Aracaju, para continuar seu trabalho como deputado na Assembleia Legislativa.

 Na terça-feira, antes do meio-dia, estávamos na oficina do jornal, quando minha irmã Helena, pálida e aflita, chegou exclamando “- A polícia vai invadir o jornal! Vamos embora. Já fechei as portas da frente. Gente, vamos, depressa!”.  Naquela época, quando papai viajava, era Helena quem cuidava da tipografia e do escritório. Ela recebera a notícia de que a polícia iria invadir e empastelar o jornal, para evitarem a publicação de reportagem sobre a agressão sofrida pelos rapazes. Quando saímos, constatamos muitas pessoas em frente ao Cartório de tio Sininho. Soubemos, então, que quando o Sargento Isidoro e seu destacamento se dirigiam ao jornal, percebendo que um dos rapazes agredidos prestava depoimento, invadiram o Cartório do 2º Ofício, destruindo peças processuais e, pela segunda vez, espancaram uma de suas vítimas.  A violência praticada ali e a presença de muita gente na rua desviaram a intenção dos arbitrários policiais. Desistiram de invadirem o jornal. Do cartório, voltaram a se aquartelar.

Embora naquela ocasião o delegado civil da cidade fosse o Sr. Otávio Andrade, sabia-se, por fontes seguras, que ele não estava envolvido nos acontecimentos e que, “desde alguns dias, o Sargento vinha desobedecendo aquela autoridade”. Aliás, naquele mesmo dia, o Sr. Otávio foi ao Cartório prestar solidariedade ao tio Sininho.

O fato teve uma grande repercussão na cidade. Algumas pessoas sugeriram invadir o quartel para  desarmar e prender os policiais, ideia que felizmente não foi adiante pelos riscos óbvios de uma tragédia de maiores dimensões...

Na Assembleia Legislativa, meu pai fez um longo pronunciamento, denunciando as irregularidades policiais praticadas em nossa cidade. Seu veemente discurso recebeu apoio do plenário, com grande repercussão em todo estado. Também fora enviado telegrama de deputados  ao Ministro da Justiça, informando os acontecimentos. O certo é que as providências foram tomadas imediatamente: um delegado regional foi nomeado e o destacamento anterior foi conduzido ao quartel-geral em Aracaju.

 A cidade voltou à tranquilidade na quinta-feira, dia 10 de setembro de 1953, quando tomou posse o novo delegado regional, Capitão Petronilo Lima, que imediatamente iniciou o inquérito contra os policiais arbitrários.  

No sábado, 12/09/53, o jornal “A Semana” trazia as seguintes manchetes, na primeira e quarta páginas:

 “INCRÍVEIS CENAS DE GESTAPO NAS BARRANCAS DA VAZA-BARRIS – ESPANCAMENTO DE INOFENSIVOS OPERÁRIOS – A CIDADE REVOLTADA – UM MENOR ACAMADO. PNEU! PNEU!

Por Carvalho Déda

Um jornal do povo não pode silenciar fatos quando a cidade, de ponta a ponta, se manifesta revoltada contra as cenas brutais da noite de sábado, cuja responsabilidade recai positivamente no destacamento local, senão no seu comandante, Sargento José Isidoro. Doze rapazes foram agarrados e levados numa camioneta para as barrancas do Vaza-barris, na altura da Fazenda Riachão, onde sofreram incríveis sevícias. Quase todos operários...(Ao lado, cópia da primeira página do jornal "A Semana").
          (...)

“ULTRAJE À JUSTIÇA!... AFRONTA À SOCIEDADE!... AS FAÇANHAS DE UM SARGENTO DE POLÍCIA - PONTA-PÉS.

 POLICIAIS ARMADOS INVADEM O CARTÓRIO DO 2ª OFÍCIO E RASGAM UM PROCESSO – UMA DAS VÍTIMAS ESPANCADA DENTRO DO RECINTO DO CARTÓRIO – COMO REPERCUTIRAM OS FATOS NA CAPITAL DO ESTADO – VEEMENTE PROTESTO DO DEPUTADO CARVALHO DÉDA NA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA - APOIO E SOLIDARIEDADE DA ASSEMBLEIA AO POVO SIMÃNDIENSE – O TRIBUNAL DE JUSTIÇA EM SESSÃO PLENA REUNIU-SE SECRETAMENTE PARA ASSENTAR MEDIDAS EM DEFESA DO JUDICIÁRIO ULTRAJADO – “A SEMANA” ESTEVE AMEAÇADA DE EMPASTELAMENTO -   A PRESENÇA DO CAPITÃO PETRONILO FAZ RESTABELECER A TRANQUILIDADE.
(Ao lado, cópia da 4ª página d'A SEMANA,edição de 12 de setembro de 1953)

 

Naquele dia o jornal era esperado com grande ansiedade. A edição histórica esgotou logo cedo e fiquei satisfeito porque meu serviço de jornaleiro foi rápido. E logo depois estava eu comendo um gostoso prato de mungunzá no bar de “Seu” João Cândido, ouvindo os comentários do pessoal sobre os desvarios dos policiais...

Aracaju, 15 de outubro de 2012

Beto Déda

quinta-feira, 11 de outubro de 2012


Cavalgando, caindo e tomando conhaque de alcatrão...

 
Tio João Déda
Recentemente tenho dedicado parte dos fins de semana a ensinar meus netos e sobrinhos a andarem em um bonito cavalo mestiço da raça pônei/piquira, que dei o nome de “Guri”. A alegria deles fez-me lembrar do meu tempo de criança, quando tio João Déda me ensinou a cavalgar. Aliás, foi ele quem ensinou muitos sobrinhos a andar a cavalo. Pois bem, aos domingos, cedinho, lá estava eu na casa dele, tentando acompanhá-lo em passeio ao povoado “Pau de Leite”, onde ele tinha uma pequena propriedade, chamada “Candeal”. O bom tio não resistia ao meu olhar pidão e lá íamos, cavalgando alegremente, eu, ele e o primo Armando.

A feira do “Pau de Lei” acontecia aos domingos, era onde merendávamos um amanteigado bolachão de canela com caldo de cana e o meu tio tomava uma dose de uma bebida chamada “Rabo de Galo” e cheirava um rapé, torrado por Maria Pixilim, que tirava de um corrimboque (tabaqueira feita da ponta de boi).  Nas bodegas daquela região era costume presenciar alguém lendo em voz alta o jornal “A Semana”, sendo ouvido por outras pessoas. Eu me alegrava com aquilo e vez por outra me deparava com algum freguês que, na sábado, comprava-me jornal avulso. Eu era o jornaleiro do semanário editado por meu pai.

    Tio João ensinando Olívia Déda a cavalgar 
Voltávamos à tarde e tia Pequena nos aguardava com um gostoso de almoço. Lembro-me que em um domingo meu tio indagou-me se gostava de feijão preto (seria servida uma feijoada). Respondi prontamente:
- Gosto sim, mas tem um problema...
 
 - Que problema? Interrompeu-me, sorrindo.
 
 - É que fica difícil saber quando uma mosca cai no prato, porque a cor dela se confunde com o feijão.  Respondi meio encabulado.
 
 Minha resposta provocou em meu tio uma larga risada, compartilhada por todos ali presentes.  Ainda hoje parece que vejo seu modo de sorrir. Inesquecível mesmo...

Quando não participávamos da cavalgada, cuidávamos de levar os cavalos para a malhada de Dr. Salustino, que ficava logo depois do posto fiscal e da ponte sobre o riacho Caiçá, na estrada real Simão Dias-Paripiranga. Foi justamente num desses acontecimentos que ruiu minha fama de bom montador de cavalo. Vou contar como aconteceu.

Em uma tarde de domingo, esperamos a chegada de meu tio para levarmos os animais para a o sítio de Dr. Salustino. Nesse dia lá estavam vários garotos, entre eles o primo Wellington e nosso amigo Simão (diziam que seu nome foi uma homenagem de seus pais à nossa cidade). O maior número de garotos impunha que cada cavalo levasse dois. Eu montava um cavalo mangalarga e, na garupa, ia o Simão, pouco afeito à montaria. E lá fomos nós.  Quando chegamos em frente à malhada, o cavalo assustou-se com inesperada e estridente buzina de uma caçamba que passava velozmente por perto. Com o espanto do cavalo, o Simão desequilibrou-se, caiu, e como estava se segurando em mim, levou-me também na queda. Bati com a cabeça em uma pedra e perdi os sentidos. Lembro-me que aos poucos, como saísse do nada, ressuscitando, comecei a ouvir vozes na escuridão: “Oi Beto, acorda! Vejam, ele está acordando e olhando pra gente!. Saindo da escuridão, eu olhava para baixo e começava a enxergar meus pés   e a  ver a minha alpercata de sola e raspa de pneu, comum naquela época. Recobrei os sentidos e, ainda meio tonto, fomos soltar os animais.
No caminho de volta, passamos pelo riacho Caiçá para lavar as mãos, usando as frutinhas de uma frondosa árvore ali existente, que chamávamos “Sabonete”, porque suas sementes faziam espuma quando as esfregávamos nas mãos. Lavei minha cabeça, molhando bem o local do ligeiro ferimento causado pela queda. Depois, por sugestão de Wellington – que era o mais velho da turma – fomos a uma bodega da rua do curral, procurar um lenitivo para minha tontura. O senhor que nos atendeu, disse que não tinha “Melhoral” (o remédio do jingle: Melhoral, melhoral, é bom e não faz mal!). Então, o bodegueiro recomendou, e eu tomei, um pouco de Conhaque de Alcatrão de São João da Barra, indicado para curar todos os males. Com o gole do conhaque minha tontura se agravou e os companheiros me levaram para casa. Fui direto para cama, vomitando que nem um urubu novo, como dizia Haroldo. Mamãe ficou aflita, chamaram Dr. Aguiar que recomendou minha tia Nice aplicar-me uma injeção de Super-Glicose-A.
À noite, já um pouco aliviado, recebi a visita de tio João que foi logo exclamando:
 - Como aconteceu isso? Logo você, que eu acreditava ser um dos melhores cavaleiros da turma!.


Para os familiares, minha fama de bom montador tinha ido para o brejo. Não adiantaram minhas justificativas de que fora o Simão que caiu e me levou com ele. Amargurei uma longa quarentena sem poder andar a cavalo. Quando arriscava a pedir permissão a papai, sempre ouvia a resposta negativa, lembrando a queda que levei. Meses depois, diante de meus pedidos e das constantes justificativas de que fora derrubado, o tio João resolveu reconsiderar. Disse-me, entretanto, que para voltar a andar a cavalo teria que ter o consentimento de meu pai. Então, fui conversar com ele. Contei com detalhes como aconteceu a queda e afirmei, insistentemente, que eu era seguro na montaria. Não sei se foram meus argumentos, ou as explicações que ele recebera anteriormente de meu tio, que o levaram a consentir com meu pedido.  Vibrei com a resposta de papai e voltei a cavalgar, sem esquecer-me de aplicar, daquele dia em diante, a lição duramente aprendida com o Simão: não permitir a parceria de quem quer que fosse à garupa de meu cavalo. E com tio João e o primo Armando continuamos fazendo inesquecíveis passeios...

São fatos que ficaram registrados na minha memória de garoto e que voltam à lembrança como se fossem hoje. E lembrá-los me deixa alegre e com saudade...

Aracaju, 08/10/2012


Beto Déda

sábado, 6 de outubro de 2012


Uma aventura no Povoado Ilhota

 Neste fim de semana, ouvindo minha secretária Rosa falando sobre a surra que dera em seu filho, ocorreu-me a lembrança da primeira e única sova que levei, merecidamente, do meu saudoso pai. Aconteceu no início dos anos 50, quando eu contava com mais ou menos 11 anos de idade. E tudo ocorreu por causa de um “presente” que nos foi oferecido, com a melhor das intenções, por D. Zefinha, que morava na casa de tia Nice. Vou contar como aconteceu.

Naquela época, D. Zefinha era professora de uma escola rural no povoado Ilhota, no município de Simão Dias. Certo dia, ela e tia Nice preparavam-se para ida àquele povoado, onde iriam arrumar o prédio onde funcionava a escola. Eu e meu primo Wellington (dois anos mais velho que eu) estávamos brincando por ali e presenciamos as conversas sobre os preparativos para o passeio. Percebendo nosso interesse, elas prometeram que nos levariam. O certo é que conversaram com mamãe e tia Vina e, no dia seguinte, fomos ao passeio.  

Na Ilhota, o fato marcante foi a admiração que tivemos ao ver uma jumenta e seu filhote pastando ao lado do prédio escolar. O jeguinho era uma beleza de deixar qualquer garoto admirado, enquanto a mãe-jumenta mancava e tinha uma bicheira na coxa esquerda, defeitos que nos causavam dó, mas que acreditávamos passíveis de recuperação. Compartilhando de minha curiosidade, Wellington não se conteve e foi indagar quem era o dono daqueles animais. D. Zefinha disse que não tinham dono, apareceram ali na escola há algum tempo e, sorrindo, fez uma oferta sem maiores pretensões: - “Se vocês quiserem, o filhote é de Beto, que é o mais novo, e a jega é sua, porque você é mais velho”.  Lembro-me que pulamos de alegria. Não sabíamos, nem tampouco D. Zefinha, que aquela oferta em tom de brincadeira traria resultados surpreendentes e doloridos para nossas mãos.

Voltamos para cidade no início da tarde daquele mesmo dia. À noite fui à casa de vovó Olívia, na Rua dos Ribeiros, e lá estavam meu irmão Carlos e os primos Alfeu e Wellington. Assim que fui me aproximando, Alfeu, o mais velho da turma, foi dizendo: - “É verdade o que Wellington tá dizendo? Vocês ganharam uma jumenta e o filhote?”. Confirmada a indagação, Alfeu tratou do plano de ir buscar os animais. Planejamos tudo. Fomos todos à casa de Gervásio, o aguadeiro, irmão de Arlinda, e alugamos um jegue, para servir de montaria e facilitar a vinda dos outros, afirmava Alfeu.


Os aventureiros: Carlos, Alfeu, Beto e Wellington
No sábado cedinho, sem avisar a ninguém, partimos para Ilhota. Alfeu, no comando, Carlos com subcomandante, Wellington e eu como comandados. E rumamos à aventura. Como era o mais novo tinha direito a ir sempre montado na garupa do jegue alugado, com os demais sempre se reversando na frente. O Alfeu, mais sabido, passava mais tempo montado e só descia quando as reclamações dos companheiros tomavam ares de motim.

Chegamos à Ilhota e ficamos em frente à escola rural, cuidando dos animais. Poucas lembranças restam do tempo que passamos no povoado. Recordo-me apenas de uma cena: estávamos sentados no alpendre da escola, todos tentando reavivar um passarinho sofrê, que fora vítima do badogue de um dos aventureiros. Não deu certa a tentativa e foi uma frustração para todos.

Enquanto isso, em nossas casas, os familiares estavam em agonia, sem saber onde andávamos. Não aparecemos para o almoço e somente à tardinha é que tiveram notícia. O Gervásio apareceu por lá em busca do seu jegue e informara a tia Esterzinha o nosso plano de ir à Ilhota.  Mandaram pessoas nos encontrar, mas foi providência em vão...

 A volta para casa foi cansativa, o enfado do dia era visível no rosto de cada um. Mas voltamos trazendo a jumenta, o filhote e o jegue de Gervásio.  Mal sabíamos o que nos esperavam...

Chegamos ao anoitecer, exaustos. Alfeu e Wellington cuidaram de guardar os animais. Eu e Carlos fomos para casa. Em frente ao bangalô de Seu Pierre, encontramos Haroldo e Artur que, entre sorrisos e mangação, avisavam que papai nos aguardava e a palmatória já estava preparada (na verdade era um tamanco). Foi o sinal para eu começar a chorar.

Fomos pela Praça de São João, entramos em casa pelo portão dos fundos. Sorrateiramente nos escondemos embaixo da grande mesa de jantar. Papai logo chegou e aí eu já desaguava em choro. Fui o primeiro e ser chamado, indagado, advertido pela aflição causada à família e, por fim, surrado com meia dúzia de bolos dados com a parte lisa do tamanco. Depois foi a vez de Carlos. Papai o mandou abrir a mão. Ele não abriu. Diante da ameaça de receber os bolos por cima dos dedos, cedeu. Mas não chorou, embora eu, embaixo da mesa, gritasse insistentemente, entre soluços: - “Chora Carlos, chora!” Por ser mais velho recebeu uma dúzia de bolos, mas não chorou. Com a décima segunda pancada, duas longas lágrimas desceram pelos olhos. Depois do acontecido, esse feito foi contado com sucesso na reunião da turma. E Carlos, satisfeito, empinava o nariz...

Tio João Déda cuidou de disciplinar Alfeu e Wellington. Parece que também receberam uns cocorotes. Alfeu, por ser o mais velho e o comandante da turma, foi obrigado a levar os animais de volta. No dia seguinte, quando nos reunimos na casa de vovó, disse ele que não foi até a Ilhota. Deixou os jegues no tanque da missão, na saída da cidade. E dava uma gostosa risada, balançando a cabeça para tirar os cabelos louros dos olhos...

Pouco depois, soubemos que os animais foram apreendidos pela Prefeitura e, parece-me, levados a leilão.

E assim aconteceu nossa aventura na Ilhota  e a inesquecível surra de tamanco liso...

Aracaju, 06/10/2012

Beto Déda