quarta-feira, 19 de setembro de 2018



A Praça de São João, Seu Nia e a festa dos Lambe-sujos e Caboclinhos.

Em minha infância a Praça de São João, em Simão Dias, foi meu mundo de brincadeiras, de fantasias e de encantos. Naquele local eu vi e participei de inesquecíveis acontecimentos, a maioria deles pontilhados pela aventura e alegria comum aos garotos da época. Diversão não faltava.

Nesta semana, depois do prazer da leitura de um bom livro, minha memória foi despertada para fatos que ocorreram na saudosa Praça ou Parque São João, no início dos anos 50.

O ponto que despertou minha memória para a praça foi um rapaz podando uma árvore e que caçoou de minhas advertências para evitar que cortasse o galho em que estava sentado.

Narrei para o improvisado lenhador o caso de um conterrâneo que, ao podar uma árvore da Praça São João, caiu junto com o galho (se descuidou e se sentou na extremidade que estava sendo cortada!).  Fraturou o braço e passou a ser chamado de “Hosana das Alturas”. E a queda foi motivo de gozação por muito tempo entre os moradores do local.

Na mente de um septuagenário de boa memória, uma lembrança leva a outra. E surgiram outras recordações que repasso aqui.

Lembrei-me também da aventura do amigo Hélio de Seu Otávio que, com medo de um boi cara preta, subiu em um pé de tamarindo e depois não sabia descer. Passou a chorar e gritar pedindo socorro. Seus gritos foram ouvidos pela saudosa Teté (Tefinha Alves) que chamou um senhor forte, conhecido como Seu Nia, e com ajuda dele socorreram o garoto.

Teté era uma querida amiga de minha família e morava na Rua do Coité, nas proximidades da Praça de São João.

Seu Nia era um negro simpático e muito comunicativo que trabalhava como magarefe e salgava carne do sol no matadouro municipal. Ele era de Laranjeiras e conhecia muito bem a tradição das festas daquele município sergipano. Falava muito dos folguedos de sua terra e, diante do interesse e curiosidade dos que lhe escutavam, organizou uma festa dos “Lambe-sujos e Caboclinhos” em nossa cidade. Uma verdadeira apresentação teatral a céu aberto.

O palco dos festejos era a Praça de São João. Tudo planejado e ensaiado com a devida antecedência. Na praça, no local onde jogávamos bola, foram erguidas as tendas ou ocas com varas de bambus trazidas da Fazenda “Chora Menino” do Desembargador Gervásio Prata. 

Rapazes e meninos da redondeza foram chamados para representarem os grupos dos negros e dos índios. Os representantes dos índios eram pintados com uma tinta parecida com “roxo e terra”, ornamentados com penas variadas e armados com arco e flecha. Os que representavam os Lambe-sujos eram pintados com uma mistura de melaço e uma tinta preta, que deixava a pele brilhante, e portavam uma foice de madeira.  O cacique dos índios era Pedro, filho de Dona Balbina, e o chefe dos negros era Seu Nia.

Participei dos ensaios e ainda hoje me lembro do refrão dos cânticos de ambos os lados. Os Lambe-sujos gritavam: “Samba negro, que branco não vem cá. E se vier pau há de levar!”. Enquanto o refrão dos caboclinhos era: “Prender negro? Rei dos Caboclos!”.

Fiz todos os preparativos para sair como um caboclinho. Além de participar dos ensaios, juntei as mais bonitas penas de galinhas, patos e pavões para fazer o cocar e as vestes de índio. 
O Caboclinho Beto

Mas não deu certo. Eu era muito magro, sofria da vesícula e minha mãe não aprovou minha pretensão. Justificou a desaprovação alegando que a tinta vermelha na minha pele poderia  provocar uma reação em meu frágil organismo. Fui forçado a entender sua preocupação e tive que repassar para o amigo Miraldo (filho de Zefinha de Zeca de Quincas) as penas escolhidas e bonitas que tinha colecionado. E o Miraldo não me poupou da inveja ao vê-lo com trajes de índio.

A festa ocorreu em uma tarde de domingo.  Lembro-me que no portão de minha casa foram colocadas várias cadeiras para meus pais e meus irmãos se sentarem e assistirem o desenrolar da batalha.

Era uma apresentação formidável, narrando a batalha que teve como origem o rapto de uma índia pelos negros. No centro da Praça, começava o embate entre o Cacique (Pedro de Dona Balbina) e o Chefe dos Negros (Seu Nia). O índio era o vencedor, libertava a princesa e aprisionava os negros. Então os caboclinhos saíam guiando os lambe-sujos para pedir aos assistentes uma moeda para alforria.

A festa dos Lambe-sujos não se tornou tradição em nossa terra, mas o espetáculo a céu aberto programado por Seu Nia se tornou um fato inesquecível para muitos rapazes e meninos que viveram naquela época nos arredores da Praça de São João.

Tais lembranças enriquecem o cabedal do meu viver e relembrá-las equivale a um prazer imenso; renovam minhas forças. Não é à toa que os meus familiares percebem o brilho nos meus olhos quando me dedico a recordar os bons tempos.

Aracaju, 19/09/2018.
BETO DÉDA


domingo, 19 de agosto de 2018


Jove da Marinete e a Corrida de Touro.

A Praça de São João ou Parque Cel. Zacarias de Carvalho era o meu mundo de brincadeiras. Embora o ponto máximo das distrações dos garotos fossem as peladas de futebol, muitas outras brincadeiras surgiam em determinados momentos. O que se pensasse de distração a meninada da redondeza improvisava com sucesso. A imaginação fluía e brincávamos pra valer. 

Nos dias de sextas-feiras era comum a passagem pelo parque de novilhos para abate no Matadouro. E vez por outra as peladas eram interrompidas por um boi arisco, desgarrado do rebanho, cujas marradas causavam medo. Também surgiam touros com um pedaço de couro cobrindo a testa (boi careta), indicativo de que era bravo, espalhando poeira ao pisotear o torrão duro antes de avançar contra o transeunte mais próximo. A correria era generalizada e a salvação era subir nos pés de tamarindo, abundantes na praça.

Na verdade acontecia quase que semanalmente uma corrida de touros na Praça de São João. Lembro-me, agora, que quando se festejava as festas juninas acontecia uma corrida de touro patrocinada pelo Jove da Marinete.

Não era igual e nem de longe chegava aos pés à "Corrida de Touros" realizada na cidade espanhola de Pamplona, em homenagem a São Firmino e que fora propagada pelo grande escritor norte-americano Ernest Hemingway no livro “O Sol Nasce Sempre” (The Sun  Also Rises).

Também não era uma festa tipo “Farra do Boi”, que acontece no Espírito Santo, e que atualmente é muito combatida e considerada ilegal (crime previsto no artigo 32 da Lei federal 9.605/98).

A corrida do boi de Jove da Marinete era mais simples: compreendia conduzir um novilho (apenas um mesmo) para abate no Matadouro. Transmito para os patrícios um pouco do que me lembro dessa corrida e de seu patrocinador.

O nome dele não provinha do deus Júpiter, da mitologia romana, também  chamado de Jove (Jovis). O nosso “Jove” era produto da lei do menor esforço para o seu nome correto: JOVINIANO, que tinha o sobrenome SANTOS.

Em nossa terra é comum juntar ao apelido o nome do pai ou a profissão do indivíduo. Eu, por exemplo, sou conhecido como Beto de Zeca Déda; o João de Jacó, que trabalhava no Cine Brasil, era chamado de João do Cinema. Do mesmo modo Joviniano dos Santos era o Jove da Marinete. Ele foi o primeiro motorista da marinete que fazia o trajeto Simão Dias-Aracaju,  e exerceu a profissão desde os idos de 1931 até abril de 1960. Mudaram os proprietários das empresas,  mas o motorista continuou sendo o Jove.

Antiga marinete que fazia a linha S.Dias/Aracaju.
Lembro-me também de dois antigos auxiliares de Jove: Zequinha, o cobrador, e Manuel (que morava no Areal) o encarregado  das malas, arrumadas no bagageiro que ficava em cima da marinete.

Jove era um homem alegre, boêmio, popular, muito estimado em nossa terra por ricos e pobres, idosos e crianças. Foi ele que criou uma festa junina em sua casa e que se tornou tradição em nossa cidade. Tinha baile e eram servidos pratos típicos, inclusive churrasco de um boi oferecido por um fazendeiro local.

O fazendeiro oferecia o novilho, mas ficava por conta do Jove o transporte do boi para o Matadouro.

- Ótimo! Dizia ele, e acrescentava: Vamos pegar o boi na unha...

E juntava uma boa turma que gostava da fuzarca e todos à pé – acompanhados por meninos em gritaria (eu inclusive) – faziam a corrida do touro desde a fazenda até Matadouro, passando pelas ruas da cidade, numa correria engraçada e que não deixava de meter medo aos que temiam o boi. Era diversão pura.

Não tinha a riqueza nem o risco da Corrida de Touros de Pamplona, mas acredito que a alegria dos que participavam não era inferior aos que desfrutavam da festa espanhola. Eu senti isto...

Até o ano de 1959, a corrida de touro, o churrasco e a festa de São João aconteceram com muita alegria na casa de Jove da Marinete em Simão Dias.

Em abril de 1960, ele sofreu um mal súbito e faleceu no dia 22 daquele mesmo mês, uma sexta-feira. Deixou saudade e, hoje,  revive na lembrança dos conterrâneos que brincaram na festa de São João em sua casa e participaram da corrida de touro por ele patrocinada. 

jj   






    










Jove da Marinete é uma referência quando se fala de pessoa popular em nossa terra.

A alegria dele era contagiante. Vale lembrá-lo.

Aracaju, 19/08/2018.
Beto Déda

segunda-feira, 30 de julho de 2018


Lembranças da Igreja Matriz e da Festa da Padroeira de Simão Dias.



No baú que guardo as recordações de minha vida, eu tenho um cuidado muito especial para as lembranças das Festas de Santana, Padroeira de Simão Dias.

Nestes últimos dias acompanhei as festividades em louvor à padroeira de minha terra através da Web-TV. E, então, minha memória foi ativada com lembranças encantadoras do tempo que eu era criança e, estimulado por minha saudosa Tia Nice Oliveira, participava ativamente das missas, novenas e catecismos realizados na Igreja Matriz.

Tia Nice era muito católica, tinha sido noviça em Convento na Bahia e fazia parte da Congregação Religiosa das Filhas de Maria de nossa paróquia.  Eu e meu saudoso sobrinho Marcelo Déda (convivemos na casa da querida tia) tivemos dela uma formidável educação religiosa. Marcelo era cerca de 20 anos mais novo que eu e chegou a ajudar nas cerimônias religiosas como coroinha. 

Conhecíamos todos os detalhes da igreja: a sacristia, os altares, o mezanino - local do órgão e o do coral - que dava acesso ao campanário onde ficavam o grande relógio e os sinos.  A torre era o local que despertava admiração, curiosidade e receio aos garotos daquela época. E o temor não era apenas da altura da torre. O que causava medo era o que se comentava sobre o aparecimento de almas penadas que assombravam os que ousavam subir as íngremes escadas fazendo barulho. A subida tinha que ser encarada com seriedade, cautelosamente,  pé ante pé, sem gracinhas e em silêncio.

Lembro-me que em algumas ocasiões acompanhei com atenção pintores se equilibrando em improvisados e elevados andaimes, renovando as cores das paredes, dos tetos e da torre. Ao saber de um acidente com um deles, passei a sentir medo (desconforto e ansiedade) diante de lugares altos: fato que até hoje me atormenta e causa-me arrepios.

Dos acontecimentos marcantes realizados na Matriz de nossa terra, não tenho dúvida de que a Festa de Santana está em primeiro lugar. Mas outros fatos religiosos de relevância aconteceram na paróquia simãodiense.


O mais lembrado e importante foi o Congresso Eucarístico Diocesano, realizado em 1953, quando o Cônego Afonso Medeiros Chaves era o pároco da cidade. Foi também a comemoração dos 50 anos de instalação do Apostolado da Oração da Paróquia. Um monumental acontecimento religioso, de repercussão regional, cujas cerimônias ocorreram no largo da antiga Praça Nicanor Leal (local onde hoje se realizam shows artísticos).

Lembro-me também das Missões realizadas nos povoados e pregadas pelo Frei Eliseu Vieira, da Ordem dos Carmelitas, e o Padre Sebastião Drago, Missionário do Coração de Maria. Ambos os sacerdotes também participaram dos preparativos e execução do Congresso Eucarístico de 1953 e conquistaram a simpatia de nosso povo pelo carinho e espírito de solidariedade com os menos favorecidos.

O Padre Sebastião Drago sempre marcou sua presença nas festas religiosas de nossa cidade, desde 1953, até a época em que o vigário de nossa paróquia era o Padre Mario Reis. Com o dom da palavra fácil e convincente, os sermões do Padre Drago eram ouvidos com absoluta atenção e respeito pelos fieis católicos de minha terra.

Festa de Santana de Simão Dias (1958)
Beto Déda, Heraldo Déda, Zé Valadares e Gilson de Seu Benevides.
Sempre gostei de participar da Festa de Santana. Na juventude não perdia a novena dos rapazes, e na adolescência, quando trabalhava no Banco do Nordeste, estive presente nas novenas dos bancários. Na época, a cidade contava com cerca de 40 bancários de dois bancos: o BNB e o Banco da Produção e Comércio. 

Outro ponto da Festa de Santana que não esqueço era a “Ladainha a Todos os Santos”, que na época era cantada pelo coro da Congregação das Filhas de Maria. O cântico era em latim. A missa também era celebrada em latim e o vigário celebrante ficava de costas para os fieis e de frente para o altar. Muito diferente da celebração moderna em que os padres ficam de frente para os fieis, que acompanham e entendem melhor o rito da missa, rezada no idioma pátrio.

Lembro-me do canto da ladainha em que o celebrante pronunciava o nome dos santos e o coro respondia: “Ora pro nobis”. Quando era mencionado  mais de um santo, a resposta vinha, também em latim, com o refrão no plural: “Orate pro nobis”.  De tanto ouvir a bonita ladainha aprendi a cantar e, ainda nos dias atuais, sempre estou a repetir.

Neste ano não estive presente à grande festa. Mas acompanhei via internet as novenas realizadas em nossa Igreja Matriz, em solenidades que anteciparam a grande missa e procissão do dia 26 de julho, dedicado à memória da avó de Jesus. 

E não me acanho em revelar que, em todas as nove noites, me emocionei muito. Especialmente ao ouvir os lindos e harmônicos hinos cantados pelo coral da igreja, discretamente localizado no mezanino. 

E mesmo de longe, tive a alegria de rever e me lembrar de pessoas queridas...



Aracaju, 30/07/2018
BETO DÉDA

quarta-feira, 18 de julho de 2018


Tourada no Matadouro de Simão Dias.
(Dedicado ao amigo Antônio de Manequinha)

Na tarde deste domingo, de minha oficina no Lago Dourado, admirei a beleza do resplandecer do sol ao ver serenar uma chuva fina que encharcou as folhas das plantações. Lembrei-me de meu pai e de uma tourada que aconteceu no matadouro municipal de minha terra.

Não sei precisar o ano desta minha lembrança. O que tenho certeza é que eu era muito novo, com idade de 8 e 10 anos, e que o fato aconteceu em uma tarde de  domingo,  depois de uma ligeira chuva, como os raios de sol refletindo nos pingos retidos nas folhas dos tamarindeiros da Praça de São João.

Parece até que estou a ouvir a voz de meu pai chamando-me para ir ver uma tourada no Matadouro da cidade. Fiquei deslumbrado com o convite e saímos pelo portão de fundos da casa em direção a Rua do Curral.

Nossa casa ficava na Rua dos Ribeiros. Era comprida, com quintal na parte dos fundos que fazia limite com a Praça de São João. Ali meu pai tinha construído um depósito e um portão de madeira – que era fechado com uma tramela e reforçado com um caibro atravessado  no meio, seguro por alças de ferro – que permitia o acesso à praça.

A Praça de São João ou Parque de São João era o meu ponto de brincadeiras com os meninos que moravam nas proximidades. Por lá passava todo gado para  abate  no matadouro municipal, que ficava perto, no final da Rua do Curral, em cuja entrada avistava-se o oitão da casa de Seu Zé Neves. 
A entrada da Rua do Curral e (à direita) a casa que era do Seu Zé Neves (Foto recente de Google Maps)

Naquele domingo o matadouro mostrava-se limpo, gradearam a areia úmida do curral e, em redor da entrada, pequenos comerciantes improvisaram barracas para venda de guloseimas. Em uma delas vendiam torresmos, pipocas e rapaduras.  Lembro-me bem que meu pai passou-me um pacote de pipocas e um tijolo de rapadura. Delícias para os guris simãodienses.

Final da Rua dol Curral - Local do antigo Matadouro (Foto recente do Google Maps)
O curral principal fora improvisado para tourada. O pessoal – magarefes, comerciantes de gado e alguns moradores da redondeza – ficava apoiado em cima das travessas de madeira. Eu também subi nas travessas e fiquei junto ao meu pai, que me dava segurança e reforçava meu equilíbrio. 


Em uma parte do curral, lembro-me bem, tinha um pano colorido, no formato de bandeira, colocado ali pelo homem com trajes surrados de toureiro. Até hoje não sei se aquela flâmula representava o México, a Espanha ou um país sul-americano.

Começou a exibição com a entrada de quatro bois grandes e enfezados. Deixaram apenas o que parecia mais bravo e os outros foram retirados da arena improvisada.

Durante o espetáculo ecoavam gritos e aplausos. Mas a surpresa é que o pessoal aplaudia o enfezado touro. A torcida era contra o  toureiro. 

Debalde foram os gritos pró touro. O moço – que falava com sotaque – tinha o corpo ágil e sabia se desviar dos chifres afiados. Com seu pano vermelho fez o touro babar de cansaço e, aí então, levantava os braços, empinava o peito, tirava o gorro sujo de lama e pedia aplauso. E foi atendido e reconhecido como bom toureador pelo pequeno público sentado nas travessas de madeira do curral.

O touro não foi sangrado. Estava enfezado e, se abatido, a carne ficaria escura. Então deixaram para abater junto com o gado destinado ao preparo da carne de sol, que Seu Val (gerente de salgamento no matadouro) transportava em seu caminhão, às sextas-feiras, para vender nos mercados de Aracaju. 

Durante vários dias a empolgante tourada foi motivo de histórias pela meninada da Praça de São João.

E brincávamos, imitando o toureiro e exclamando "Olé, tourôôôôô!”.

Ainda hoje, quando ouço o Passo Doble e a marchinha de carnaval sobre toureiro, lembro-me da tourada que aconteceu no matadouro de Simão Dias.

E lembrar coisas alegres não faz mal a ninguém...


Aracaju, 18/07/2018.

BETO DÉDA

quarta-feira, 11 de julho de 2018


A desmoralização do HABEAS CORPUS pelo próprio judiciário.


No último domingo a Nação brasileira presenciou mais uma vez o descalabro que vem sofrendo o judiciário, diante da postura de alguns representantes daquele importante poder da república.

O que se viu parecia inacreditável. A desmoralização de importante instituto jurídico patrocinada por um grupo do próprio poder judiciário. O ato do infausto grupelho elevou ao cume o descrédito que na atualidade atinge a nossa justiça. 

Juízes que se acham donos da verdade, que extrapolam suas prerrogativas, que pensam serem os eternos senhores dos processos, que não escondem preferências, que se dizem assoberbados e rejeitam ações envolvendo grupos que lhe são simpáticos, mas que não vacilam – mesmo depois de esgotada sua participação em lides – em ocupar momentos de suas férias para fragilizarem o mais importante remédio constitucional destinado a amparar a liberdade dos indivíduos: o instituto do Habeas Corpus.

Sem competência para a absurda atuação, juízes mantiveram contatos com policiais federais envolvidos/coniventes e sustaram, pelo tempo que acharam conveniente, o cumprimento de ordem judicial (no jargão jurídico conhecido como writ) emanada de autoridade superior (desembargador em exercício de plantão, representando o Tribunal Regional Federal da 4ª Região).

Absurdo e escândalo maior parece não ter sido presenciado neste nosso Brasil de tantas injustiças. O domingo, 08 de julho, será lembrado como o dia de horrores para o judiciário pátrio.

A expressão latina Habeas Corpus significa: que tenhas o teu corpo. No linguajar do direito tem o sentido de um instituto que cuida da liberdade individual; o direito de ir e vir. Este recurso jurídico teve sua  origem na Inglaterra, no ano de 1215, na “MAGNA CHARTA LIBERTATUM” outorgada por João Sem Terra à nação inglesa.  

Em nosso Brasil - Brasil com S(esse) -  o instituto do Habeas Corpus sempre foi respeitado; mesmo por aqueles que por meio da força das armas conquistaram o poder.

Para os mais novos, relembro aqui um fato importante ocorrido no final do ano de 1964, quando, em consequência de um golpe, o país era governado pelo poder das armas dos militares.

Naquela época, o Supremo Tribunal Federal – atendendo petição do advogado Sobral Pinto – concedeu Habeas Corpus ao governador de Goiás, Sr. Mauro Borges, que era opositor e vítima do governo militar. O fato foi considerado como uma bomba estourada nos meios políticos e gerou uma intensa preocupação para a nação, que antevia uma grave ameaça à independência dos Poderes da República.

Mas, afinal, o Habeas Corpus foi respeitado e a harmonia entre os poderes foi aparentemente preservada.  Os militares tiveram que engolir seco e utilizar outros meios (considerados arbitrários e contra o povo de Goiás) para defenestrar Mauro Borges do Governo daquele Estado.

Charge publicada no jornal "A Semana",
edição de 04/11/1964
O fato foi registrado no jornal “A Semana”, de Simão Dias, na edição de 04/11/1964, em uma charge de autoria do meu pai (Carvalho Déda) que mostrava a força do Habeas Corpus contra a espada do poder militar.

Nos dias atuais, por incrível que pareça, foram membros do próprio judiciário que ousaram desmoralizar o remédio constitucional de proteção ao indivíduo.

Se estivesse entre nós, diante do escândalo de domingo, certamente meu pai teria esculpido na madeira uma charge inimaginável para aquela época: a figura que representa a justiça – livrando um olho da venda que lhe cobre a visão e empunhando uma balança pesada, bruta, desequilibrada, com o fiel pendente para a direita – esmagando o instituto do Habeas Corpus.

Densas e pavorosas nuvens pairam sobre nosso país.

Aracaju, 11/07/2018
BETO DÉDA

terça-feira, 3 de julho de 2018


Artur: ontem, hoje e sempre.

Essa última semana de junho foi de grande emoção e tristeza para toda minha família.  É que na noite de sexta-feira, dia consagrado a São Pedro, meu querido irmão Artur Oscar partiu para o reino dos Céus. Seguiu os ditames da vida e foi ao encontro dos amigos e parentes que também partiram para outra esfera, deixando  imensa saudade.

Artur era um irmão e tanto – este “e tanto” tem um significado muito especial em minha terra: indica que é o máximo, que ultrapassa os limites, que é porreta, supimpa.  Ele ultrapassava os limites em preocupação e bondade com todos nós. E liderava toda a família; nos transmitia muita força e tranquilidade.

Artur Oscar Deda -Foto de 1953.
Na minha infância, o meu apoio era o irmão Carlos Eugênio (dois anos mais velho que eu), até o dia em que ele, ainda muito jovem, foi morar no Rio de Janeiro. Então, daí em diante, o meu protetor passou a ser o irmão Artur Oscar que, na intimidade de criança, chamávamos de Tutu. 

Ele era nove anos mais velho que eu e cuidou de minha instrução e orientação em conjunto com meus pais.  Em todos os momentos importantes de minha vida, o bom irmão esteve presente, apoiando-me, orientando-me, confraternizando as alegrias e amparando-me nos percalços da vida. Um irmão e tanto, que viverá eternamente na minha lembrança e na de todos nossos familiares.

Há poucos dias, conversávamos sobre assuntos de Simão Dias e nos lembramos dos vários artigos que ele escrevera para o jornal "A Semana", sobre cinema, poesia, as diversões da gente de nossa terra e também sobre futebol.

Artigo escrito por Artur Deda e
publicado no jornal "A Semana", em 03-07-1954
Ele gostava muito de acompanhar os jogos de futebol. E neste ponto havia uma ligeira divergência: ele era um grande torcedor do Vasco da Gama e eu flamenguista. Mas encarávamos isto com muita brincadeira e humor. 

Na atual Copa, quando ocorreu uma exaltada discussão sobre o árbitro do jogo entre Brasil e Suíça, lembrei-me dos velhos tempos em nossa cidade, quando a seleção brasileira enfrentou a equipe húngara, na Copa do Mundo de 1954.

Artur acompanhou o jogo pelo rádio na residência do Dr. Aguiar (Médico cirurgião), que era vizinho de tia Nice, na Rua do Coité. Eu e os colegas ouvíamos a narração no rádio da barbearia de Seu Zeca Barbeiro (oficial de justiça da comarca), que ficava perto, quase em frente ao Bar de Valério.


O Brasil perdeu para Hungria pelo placar de 4 x 2. Fiquei triste, quase chorando. Mas fui consolado pelo irmão que - seguindo a exaltação do brasileiro Mário Viana  -  culpou o árbitro bretão, Mr. Ellis, pela desclassificação do escrete canarinho. Naquela semana, usando o pseudônimo AROSDE, ele publicou no jornal (edição de 03/07/54, página 4) o artigo “Mr. Ellis derrotou o Brasil”.

Era minha intenção no decorrer desta semana escrever aqui sobre detalhes desses momentos vividos com ele.  Não o fiz divido a emoção da despedida eterna do bom irmão. Mas como a Copa de Mundo é assunto que está em pauta nos dias atuais, inclusive com abordagens intensas sobre a atuação dos árbitros, repasso para lembrança de amigos e parentes, o que ele – em seus vinte e poucos anos de idade – escreveu sobre a atuação do apitador naquela partida de 1954. 

Também repasso tópicos do seu pensamento expresso em discurso no Tribunal de Justiça de Sergipe, em agosto de 2017, quando foi homenageado no dia dos pais.



Nestes dias, relembrei com imensa saudade muitos momentos de alegria vividos como o querido Tutu.  Ele sempre foi um irmão e tanto que permanecerá imortal em nossos pensamentos. 

Aracaju, 03 de julho de 2018.

BETO DÉDA

segunda-feira, 18 de junho de 2018


“Nóis  rico...”

O Café/Bar do amigo Chico Bina ficava na Rua da Palha, ao lado do antigo Açougue Municipal e quase em frente ao armazém que fora de Seu Dominguinhos e Dona Noquinha.

Nas manhãs dos dias de feira em Simão Dias (aos sábados e quartas), o ponto comercial do Chico era o local certo de encontro do pessoal que trabalhava no talho da carne verde e nos arredores. Era servido um café forte e gostoso sempre acompanhado do pão quentinho da padaria de Seu Oscar Rocha, que ficava na outra esquina, de frente para a Rua do Comércio e ao lado do início da Rua do Mulungu.


Ali era o meu ponto preferido para tomar café nas manhãs dos sábados, nos intervalos depois de dobrar e separar os exemplares do jornal “A Semana” para distribuição nas casas dos assinantes.

Eu saboreava o café com pão bem amanteigado e ficava atento, ouvindo com atenção a conversa do pessoal que lotava as diversas mesas. Os frequentadores falavam alto, faziam troça dos acontecimentos da cidade, discutiam os assuntos publicados no jornal e as pendengas políticas da localidade.

Os risos se multiplicavam quando por lá aparecia um contumaz e conhecido vociferador que não media palavras em maldizer a carestia ou meter o pau em político que lhe era adversário. O homem babava ao falar mal de alguma coisa. O pessoal gostava de ouvir e de rir com os disparates.


 Zé Povo: Sobe 'frecha'! Um dia puxarei a 
escada da tua usura!...
Xilogravura de meu pai, Carvalho Déda, sobre
o aumento da carne bovina. Página 2 do jornal
 "A Semana", edição de 28/11/1959.
Lembro-me que em certa manhã a discussão era entre comerciantes de gado e açougueiros, envolvendo o preço alto da arroba de boi e o consequente refugo de carne nas bancas do Açougue, como acontecera na última feira. A conversa ia se desenvolvendo e o pessoal começou a comentar o absurdo da inflação, que já assombrava os conterrâneos naquela época, e também a culpar os fazendeiros pela ganância. Então um dos participantes começou a defender os criadores de gado e afirmar que o grande causador era o governo.

Ao ouvir as ponderações do gajo defensor dos fazendeiros, um magarefe que tomava café misturado com o aguardente Genebra Guichard, saiu-se com essa:

- Qual’é, amizade, nessa sua defesa dos fazendeiros você parece aquele nosso conterrâneo que apelidávamos de “Nóis Rico”.

E complementou:

- Cuidado! Senão você vai ter que pagar sua conta da compra dos bois em dinheiro...

Mal terminou de falar, ouviram-se gargalhadas fortes nas mesas circunvizinhas.

Eu fiquei sem entender o que tinha dito o homem do café com Genebra e o motivo das risadas.

Aproximei-me de um dos presentes, um senhor idoso, muito conceituado, que falava mansamente e com sabedoria. Indaguei pra ele sobre a história daquele homem com o apelido de “Nóis Rico” e o motivo de tanto riso.

O interpelado olhou pra mim e, reconhecendo minha mocidade, disse que era um fato antigo e hilário, que os velhos marchantes da terra sempre lembravam. Então me contou o caso que repasso aqui, em um esforço de memória. De antemão, asseguro que tudo é verdade, comprovada em conversa com outros patrícios que viveram naquela época. 

Em muitas localidades de nosso município prevaleciam os minifúndios de agricultores. As pequenas propriedades se mostravam mais favoráveis e produtivas com o cultivo de lavouras do que com criação de gado. Os lavradores se sentiam orgulhosos do que faziam e, com o resultado do amanho de sua pequena gleba, mantinham suas famílias com dignidade. 

Acontece que, como toda regra tem exceção, não faltavam entre os donos de sítios, aqueles que ocupavam o terreno com pastagens e pequenos lotes de bovinos. Entre eles, estavam os que se dedicavam exclusivamente ao comércio, ou seja, intermediavam a compra de gado dos agropecuaristas e repassavam aos marchantes para abate e comercialização no Açougue Municipal.  Alguns deles se julgavam fazendeiros e agiam como se fossem senhores da Casa Grande. Acreditavam nisto e menosprezavam os pequenos lavradores. Desconheciam, certamente, que suas próprias convicções eram motivos de galhofas entre os que interagiam em seus negócios.

Pois bem; nos idos da primeira metade do século XX, em nossa cidade, vivia um pequeno proprietário rural que pensava e agia como se fosse um rico fazendeiro. Convicto de que fazia parte da elite, não tinha cerimônia em propagar sua pretendida classe e não perdia oportunidade em debochar daqueles que acreditava ser de classe inferior.

Quando estava no escritório de um conhecido latifundiário, ficava muito à vontade e costumava elogiar o cafezinho que lhe era servido, dizendo em voz alta:

  - “Isto é uma coisa que NÓIS RICO apreceia!

E o pessoal da Casa Grande se entreolhava e expressava o sorriso de mofa...

Repetiu tanto o "Nóis Rico" que passou a ser apelidado e conhecido por tal expressão.

Em uma tarde, o pretenso rico foi a uma grande fazenda comprar gado para abate. Foram ao pasto ele e o fazendeiro. Montado em um burro especial, com sela mineira coberta com uma pele lãzuda de carneiro e chapéu baeta de marca, ele seguia o rico proprietário da fazenda/engenho. Olhou em volta do gado pastando e exclamou para o fazendeiro, que esboçou um sorriso incrédulo:

-  Beleza de rebanho qui nóis rico gosta de apreiciá...

Depois de escolher alguns bois gordos, o comprador perguntou o preço, concordou com a quantia fixada e afirmou que pagaria depois do abate do gado.

Ouvindo a forma de pagamento proposta, o fazendeiro não concordou, exclamando com o sorriso de quem prega uma peça:

- Nada disso, "colega"! Nunca esqueça que “nóis” ricos não compramos fiado. Pagamos as compra no ato, em dinheiro vivo...

O suposto rico engoliu seco e desistiu da compra.

O pior é que o causo foi divulgado e passou a ser sempre lembrado em minha terra. Tal como fora mencionado no Bar de Chico Bina pelo marchante que gostava de café com aguardente.

 ...

Duvido que você não conheça um “Nóis Rico” em sua comunidade. Nos dias atuais é fácil identificá-los: eles estão desinibidos e não se acanham em se mostrar e agir como se fossem senhores da Casa Grande.
                               
            
Aracaju, 17 de junho de 2018.

Beto Déda