segunda-feira, 27 de maio de 2019



JOGANDO BOLA NO CAMPINHO DO BONFIM DE BAIXO E PESCANDO NO CAIÇÁ.

Há poucos dias estive revivendo momentos da boa terra em animada conversa com dois conterrâneos: Dr. João Pinto e Agripino Santos. Eles são filhos de saudosos e conhecidos simãodienses.

O João é filho do Seu Nelson Pinto de Mendonça, que foi um honorável prefeito de nossa cidade, sempre lembrado por seu comedimento e probidade administrativa.

Agripino é filho do popular e benquisto Seu Manoel da Marinete – e aqui cabe uma explicação para os mais jovens, especialmente meus netos:  marinete não é nome de pessoa, era o termo  que antigamente dávamos aos ônibus.

Seu Manoel trabalhava, em companhia de Seu Jove, Seu Zequinha e depois Seu Didi, na marinete que fazia o trajeto Simão Dias-Aracaju.

Agora passemos ao que conversei com os meus amigos.

Encontrei-me por acaso com o João Pinto no Shopping Jardins, aqui em Aracaju. Conversamos bastante, lembrando momentos vividos com seus irmãos Jorge e Eduardo Pinto, e também com meus primos Zé Carlos e Washington Déda. 

E nessas lembranças, ocorreu-me o tempo que, aos domingos, jogávamos bola no campinho que ficava no local que hoje é o Posto de Gasolina de familiares de Seu Ferreirinha. O campinho começava embaixo de um pé de amêndoa, no início da Ladeira do mestre Roque, um conhecido ferreiro local. Aproveitávamos o tronco do pé de amêndoa como uma das laterais da pequena trave. Era um campo diminuto e gramado tipo “capim-de-burro”, próprio para pelada com cinco guris de cada lado; guardava uma ligeira semelhança, em tamanho, aos atuais campos de futebol de salão.

O local onde antigamente jogávamos pelada. Antiga Rua de Lagarto ou Ladeira de Roque (Simão Dias) - Foto Map.Google.

 O nosso time tinha como técnico e responsável o Seu Liminha, pai dos amigos Tonho Amaral e  Zé Neri, que era um bom “football player”, termos em inglês que usávamos naqueles idos para designarmos os bons jogadores e dribladores.  Jogavam no nosso time: eu, Zé Neri, Eduardo Pinto, Jorge Pinto, Adilson de Jason e o João Pinto, este último, como era mais novo, ficava como reserva do goleiro.  O time adversário era variável, formado com amigos residentes no Bonfim. 
Seu Liminha era funcionário dos Correios e Telégrafos, casado com Dona Corina que era proprietária do Hotel que ficava na Praça Barão de Santa Rosa, em uma casa grande, cuja frente era revestida com bonitos azulejos portugueses.

No final de cada jogo, independentemente do resultado, nosso time ia até o Hotel e Seu Liminha, depois de elogios ou conselhos, nos servia água fria, refrescos acompanhados de gostosos quitutes e, para os mais crescidos, um golezinho de um licor muito saboroso, feito de jenipapo.

Até hoje, quando estalo entre os beiços o gosto do gole de um bom licor, lembro-me do nosso grande e sempre alegre técnico.
...

Com Agripino Santos a nossa conversa foi mediante mensagens, via internet, no Facebook. Ele mora Rua Mário de Eliseu, a mesma que residia seu pai, o popular Manoel da Marinete.

Atualmente aquela rua é denominada de Rua Ana Andrade, que começa na ponte sobre o Riacho Caiçá, conhecida como Ponte Mario de Eliseu.

A Rua Ana Andrade, antiga Rua Mario de Eliseu, e a ponte sobre o Rio Caiçá - Simão Dias - Foto Map-Google.

Lembro-me que aconteceu ali, justo no local daquela ponte, uma grande enchente do Caiçá que derrubou várias casas e destruiu parte do antigo prédio onde  funcionou o vapor de descaroçar algodão de Seu Pedro Valadares.

Na conversa com Agripino, lembrei-me de amigos que ali também residiam. Lembramo-nos do saudoso João Jacó, que era conhecido como João do Cinema, porque ele trabalhava no Cine Brasil e fazia tudo: pintava os cartazes, era o locutor que anunciava a programação e também revisava e projetava as fitas.  Disse-me Agripino que João era seu vizinho e costumava contar histórias sobre os cinemas de nossa cidade.

Recordamos os filhos de Seu Pedro Coelho que também morava ali. Entre eles os amigos Luiz e Benedito que eram assíduos frequentadores do Cine Ipiranga. Soube então que Luiz era casado com uma prima de Agripino. Em uma de minhas filmagens da antiga feira, eu fiz uma ligeira entrevista com Luiz.

No riacho Caiçá, ali sob aquela ponte, eu costumava pescar uns peixinhos conhecidos como chupa-pedra para coloca-los em vasos imitando aquário. Diversão e criatividade não faltavam.

Lembrei-me também que ali perto tinha a malhada de Sr. Norzinho Andrade, um idoso comerciante da antiga Rua da Feira, que era pai de José Silva Andrade, proprietário da casa comercial "O Lavrador". 


Na malhada do Sr. Norzinho tinha um tanque que eu costumava pescar. Certa tarde eu estava distraído na pesca, quando fui surpreendido por Seu Norzinho. Notando que eu estava pálido em decorrência do susto, olhou-me compreensivo e exclamou: 

- “Como você está pescando com anzol, não tem problema”. E concluía: “Não permitiria se a pesca fosse com uma rede. Então fique á vontade!”.

Não fiquei. Quando ele deu as costas, não vacilei em passar sebo nas canelas e iniciar uma carreira sem precedentes. Depois desse susto, nunca mais pesquei naquele tanque.

São lembranças de Simão Dias nos anos cinquenta.

Os amigos João Pinto e Agripino Santos ativaram minha memória. Sou imensamente agradecido pelo bom diálogo e as boas lembranças que tivemos. 

Aracaju, 27/05/2019
BETO DÉDA

segunda-feira, 6 de maio de 2019


MOMENTOS DE SAUDADE EM SIMÃO DIAS...



Recentemente estive em Simão Dias. Foi uma visita relâmpago, dessas que duram apenas algumas horas.

O dia foi chuvoso. Deu apenas para abraçar uma querida aniversariante e rever alguns parentes e amigos. 

No mais, foi passar rapidamente pelas ruas da cidade, sentindo a lembrança aflorar em cada esquina... Em seus jardins...  Em seus velhos prédios... 

Lembranças de saudosos familiares e amigos. Gente que partiu para outra dimensão, mas que conosco continuam revivendo em meus sonhos e em benditas recordações.

E, como sou um discreto sentimental, sem alarmes, cuidei de esconder meus olhos marejados de lágrimas atrás dos escuros óculos que eu usava...

Hoje, escolhi fotos do meu acervo para renovar a emoção e compartilhar com familiares e amigos, para que também relembrem seus parentes e os conterrâneos que alegremente conviveram naqueles recantos.

São fotografias que despertam nostalgia, mas que merecem ser lembradas.


Aracaju, 06/05/2019
BETO DÉDA

segunda-feira, 22 de abril de 2019


O VERÃO, AS TROVOADAS E AS LEMBRANÇAS DA BOA TERRA...

                Como o amigo de tio Paulo se meteu em uma saia justa...


Trovoadas e ventos fortes aconteceram recentemente em nosso Sergipe. Por intermédio da amiga Prof.ª Amanda Santos e de meu querido sobrinho César tomei conhecimento que choveu a cântaros em Simão Dias e que algumas ruas foram alagadas.

As chuvas de verão me trazem recordações dos meus tempos de criança e das brincadeiras com a meninada da Praça de São João. 

A revoada das tanajuras era motivo de encanto da gurizada. Caçávamos e selecionávamos as grandes formigas em latinhas de sardinha, cantando uma modinha muito apropriada, com o seguinte estribilho:

“Cai, cai tanajura, na panela de gordura...”

Aproveitávamos tudo para reforçar a diversão. As pequenas correntezas d’água eram interrompidas com bolos de lama, formando diminutas represas, onde impulsionávamos mini-balsas formadas com gravetos de tamarindeiros e folhas de eucalipto.  A terra úmida pela chuva era fértil em iscas para pescar; e fazíamos a colheita cavando os locais em que surgia um montinho de terra preta e molhada, onde as minhocas procuravam suspiro (dizíamos que era o local que as minhocas cagavam). 

Desfrutávamos os frescos pingos de chuva correndo nas sarjetas e espanando água nos colegas.

E quando penso na correnteza d’água nas sarjetas, vem logo em minha mente a figura de Tabaquinha, uma conhecida e pobre louca da cidade, que aproveitava a fartura de água corrente e, ali mesmo, no meio da rua, sob os apupos da garotada, levantava o encardido vestido e lavava as partes fracas...

As trovoadas em minha terra sempre significaram o aproveitamento da água da chuva dos telhados, que era guiada por bicas para grandes vasos de barro, chamados de porrões. Nos dias de trovoadas, com a abundância d’água, também era costume encher as caixas dos banheiros.

E assim, no campo fértil das recordações das trovoadas, minha mente é despertada por um causo que me foi contado por meu talentoso tio Paulo. É mais uma das centenas histórias “penosas” do meu inesquecível tio.
Foto de uma das minhas entrevistas com tio Paulo(1989).

Dizia ele que tinha um amigo e colega conhecido como Madeirinha, que era comerciante em nossa terra e reconhecido por seu excelente humor. Em um dia de trovoada, ele resolvera aproveitar as águas da chuva e encher a caixa do banheiro de sua casa.

Ele estava na loja com sua esposa e, notando o início da chuva, anunciou que iria até sua residência para encher os porrões e a caixa do banheiro. Concordando com a ideia, a gentil senhora sugeriu que a mocinha, sua secretária, o acompanhasse para ajudá-lo na tarefa.

A mocinha, conhecida na intimidade como Sayaiá, tinha cabelos curtos e meio aloirados; baixinha e recheada, com coxas aprumadas e pernas curtas; seus olhos eram verdes e bonitos, ligeiramente estrábicos (detalhe que na mocidade é um charme). Não era uma encantadora miss, mas  também não era de se deixar de ver e admirar... 

Pois bem. Os dois foram aproveitar a grandeza da chuva.

O comerciante passava o balde com água para Sayaiá que, em cima da escada, enchia a caixa do banheiro.

Depois de alguns baldes, o vestido da garota ficou encharcado, colando ao corpo, emoldurando o busto, mostrando os graciosos e pontudos seios e o encanto das coxas roliças e alvas.

O homem, embaixo da escada, admirava o espetáculo, mordendo os beiços.

Após encher a caixa, o Madeirinha não se conteve e sugeriu com a voz meio anasalada que necessitavam tomar um banho. Ele e ela. Os dois juntos.

Então, com um sorriso malandro e insinuante foi direto ao ponto:

- Eu ajudando você, como fizemos ao encher a caixa. Mas no nosso banho não vacilarei em lhe esfregar... Suas costas e coisa e tal...

A moça não deu ouvidos e desconversou:

- Eu? Quero o quê... Nem vem com essa! Cruz credo!

Receoso, o Madeirinha se recompôs e a moça saiu.

À noite, na hora do jantar, a mulher do comerciante tomou conhecimento do sucesso no trabalho de aproveitar as águas e sugeriu que Sayaiá tomasse banho.

 A inocente baixinha respondeu:

- Vou não...Hoje de tarde seu Madeirinha ficou tão contente com minha ajuda e até  me chamou pra tomar banho como ele, para inaugurar o novo chuveiro. Não concordei e disse que a inauguração era reserva especial da senhora. Fiz bem, né?

A respeitável senhora passou aquele olhar severo e reparador para o marido.

O fogoso comerciante, com um sorriso maroto, tentou disfarçar a saia justa dizendo, antes de sair de fininho da sala:

- Realmente eu sugeri que ela tomasse banho, porque ela parece que é portuguesa: não gosta disso...

E meu tio encerrava a história penosa, exclamando:

- Madeirinha era peia! – e ria muito, ajeitando os óculos no rosto redondo e fechando os olhos como a se lembrar de tudo.
...

Quando me lembro deste causo, na qualidade de fã de carteirinha do meu saudoso tio, eu também não deixo de proclamar:

-Tio Paulo era o tal!

Aracaju, 20 de abril de 2019.
Beto Déda

terça-feira, 26 de março de 2019


O MÊS DE MARÇO NOS FAZ LEMBRAR ARTUR E MARCELO.

No mês de março, duas datas são significativas para nossa família: os dias 2 e 11. Isto porque lembramos com muita saudade os aniversários de dois queridos familiares que já partiram para as esferas celestiais: no dia 2 de março de 1932 nasceu meu saudoso irmão Artur Oscar de Oliveira Déda; e no dia 11 de março de 1960 foi a data de nascimento do também inesquecível sobrinho Marcelo Déda Chagas.

Eles foram dois grandes parentes, merecidamente referenciados pela família e amigos, pela força, honradez e lealdade que espontaneamente nos lideravam e nos orientavam.

Sempre estiveram partilhando das reuniões da família, reforçando os laços de amizade, solidários nas alegrias e nas tristezas. E nesses encontros a palavra chave era relembrar os nossos antepassados, revivendo os bons momentos de familiares e lembrando os casos em que o humor era o ponto culminante.

Artur e Marcelo eram dois reconhecidos intelectuais e poetas encantadores. Deles guardo dois momentos emocionantes.  

Lembro-me, agora, de um dos últimos encontros que estivemos juntos: eu, Artur, Cláudio e Marcelo.

Naquele dia estávamos no apartamento de Marcelo e, ao ouvir o prosear  cultural deles, fiquei boquiaberto, maravilhado mesmo, ao presenciar a intelectualidade dos maravilhosos parentes. 

Foi naquele dia que Marcelo nos apresentou o rascunho do seu livro “Improvável Poética”. Empolgado, recitava versos e esclarecia os momentos que lhe inspirara cada poesia. Na época ele já estava debilitado pelo efeito da quimioterapia. Tinha dificuldade de folhear as páginas do rascunho do livro. E pediu-me que folheasse e passasse para ele os versos escolhidos, que ele lia e dialogava com Artur sobre o sentido de cada palavra. Em dado momento olhou-me com seu bonito sorriso e indicou a página que tinha uma surpresa: era a poesia “Cine Brasil”, em que escrevera uma dedicação especial: ”Para Beto Déda”.

A emoção me deixou mudo e encantado ao ouvir sua eloquente voz recitando versos que evocavam tempos de criança. Era o melhor presente que ele podia me conceder; especialmente porque os versos lembravam coisas de nossa Simão Dias. 

Lembrar os momentos vividos com Artur e Marcelo é um exercício que me faz bem. Mais do que parentes queridos, eles também eram amigos e tanto, daqueles que guardamos no lado esquerdo do peito, como diz os versos da música de Milton Nascimento:

Amigo é coisa pra se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do Coração.
...
Pois seja o que vier
Venha o que vier
Qualquer dia, amigo
Eu volto a te encontrar
Qualquer dia, amigo
A gente vai se encontrar
.


E para completar essas lembranças dos queridos Artur e Marcelo, reproduzo, a seguir, fotos de uma das reuniões da família em que comemoramos os aniversários dos dois grandes parentes. Foi um fato inesquecível, em que a simpatia deles irradiava felicidade para todos.







Aracaju, 26/03/2019
BETO DÉDA

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019


Tio Totonho: seus ditos e sua longevidade...

Recentemente dois fatos levaram-me a lembrar do meu saudoso tio Totonho, irmão de minha avó Olívia Déda.

 A primeira lembrança aconteceu ao ler um artigo de um jornalista, que em sua crítica às patifarias do atual governo, dizia que os mandatários do Brasil pensam que somos todos beócios.

Essa palavra me fez lembrar o meu tio Totonho. Ele costumava usar o termo beócio ao se referir aos seus desafetos, de modo a evidenciar as imbecilidades e ignorância por eles praticadas. Aí então, exclamava em voz alta, ritmado com o toque de sua bengala:

- Fulano de  tal, aquele beócio, continua cometendo imbecilidades...

Se vivo estivesse, certamente diria que beócios são os que estão em Brasília envergonhando o país.

No sentido oposto, quando queria elogiar alguém, passava a mão em volta da boca e dizia: “Belo Moço”. E repetia as palavras “belo moço”, elevando a cabeça para demonstrar sua sinceridade – tal e qual aparece entre tio João e meu irmão Washington Oscar, na foto que reproduzo abaixo. 

   

A segunda lembrança aconteceu diante de uma indagação realizada, via telefone, por meu bom primo Paulo César, lá da região do Jatobá, onde curte as ondas de uma bonita praia. Indagou o Paulo César qual o nome completo do nosso tio Totonho. Então as lembranças afloraram.

Meu tio era alto,espigando, simpático e

elegante mesmo. Pilhérico, mas tinha o
pavio curto. Quando pisavam em seus calos
a resposta era imediata e contundente.
O nome de batismo do meu tio era ANTÔNIO GARCIA SILVEIRA. Ele nasceu no dia 22 de fevereiro de 1882, na freguesia de Patrocínio do Coité, que hoje é o município denominado Paripiranga (Ba).   Era filho de José Alves dos Anjos e D. Maria Garcia Silveira. Ainda moço foi para casa de seus irmãos em Vila Nova da Rainha, que hoje e conhecida como a cidade de Senhor do Bonfim, no Estado da Bahia. Depois mudou-se para Salvador, onde foi trabalhar como operário em uma indústria têxtil. Casou-se, e algum tempo depois ficou viúvo. Veio morar em Simão Dias e aqui casou pela segunda vez. Passados alguns anos, sua mulher faleceu e passou a sofrer novamente com a solidão da viuvez.

Conheci meu tio Totonho quando ele morava no povoado Oiteiros, e vinha passar os fins de semana na casa de minha avó Olívia.  Quando chegava, portava uma longa barba branca que eu sempre admirava, mas a admiração durava pouco, porque a primeira coisa que ele fazia era ir ao barbeiro para cortá-la. Fazia isto na barbearia que ficava em frente à casa de tio João Déda, na Rua da Lama. O barbeiro era Seu Luiz, casado com uma filha de dona Jovem Nascimento e era pai de Manoel e Ulisses. Eu olhava para o rosto escanhoado do meu tio e indagava por que razão cortara sua bonita barba. E ele, passando a mão em volta da boca e depois coçando o gogó, respondia demonstrando impaciência:

“Ora, pois! Pra remoçar!”

A lembrança do tio me fez cultivar, quando passei dos cinquenta anos, a barbicha branca que até hoje conservo.

Depois que enviuvou, meu tio passou a morar na casa de minha avó. Gostava de tomar uns pileques e ia até o escritório de meu pai (na época o escritório de advocacia do meu pai ficava na Rua dos Ribeiros, entre as casas de Seu Agenor Viana e a de Gervásio, Arlinda e Amélia). Meu pai alugara aquela casa ao Seu Manoel Dantas, que era conceituado farmacêutico da cidade. Lembro-me bem que um dia meu tio Totonho apareceu no escritório e começou a falar alto, quase em tom de discurso. Eu não sabia do que se tratava, mas fiquei curioso com seu ar incisivo e eloquente. Meu pai notou minha curiosidade e fez um sinal, balançando a mão fechada com o dedo polegar em direção à boca, para indicar que o tio andara bebendo. Em seguida soube que o tom mordaz de sua fala era contra um desafeto.

Meu pai gostava muito do tio e cuidou dele quando minha avó faleceu. Depois, com a morte de papai, eu passei a cuidar do tio. Ele era pouco proseador, mas gostava de narrar piadas picantes. Tinha o pavio curto. Brabo mesmo! Ninguém tentasse pisar em seus calos que a resposta era incisiva e pontual. Pegava pra valer...

Lembro-me que em um domingo, meu irmão Artur esteve nos visitando em Simão Dias; ele e um colega juiz almoçaram em minha casa. Antes do almoço, tomamos um aperitivo e servi também ao meu tio. Conversávamos animadamente e repetimos a dose para todos. Artur olhou para o copo do meu tio e se preocupou. O velho já passava dos 90 anos, tomou a terceira dose e depois, olhando para Artur, disse que faria uma coisa que os mais novos não ousariam. Dobrou uma perna, formando um quatro, e simulou um balanço. Seu gesto dissipou a preocupação do meu irmão e todos sorriram com a faceirice do tio. E ele empinou a cabeça e vociferou: “Viu aí, danado!”

Certa vez apareceu para falar comigo um senhor que morava próximo à casa do tio (casa que aluguei ao Seu João Conceição Neto – João de D. Clarita - e que ficava no fundo de sua loja de tecidos).  Então o tal vizinho disse que eu teria que tomar uma providência, porque o velho ficava nu, se mostrando para o povo da rua. Fui verificar. 

Era uma tarde de calor infernal. A porta da casa estava fechada, mas o janelão estava aberto. O velho estava sentado em uma preguiçosa no fundo da sala, nu, mostrando a pela branca coberta de esvoaçantes cabelos cor de neve. Para se ver o velho tinha que ser curioso e perscrutar a casa olhando pela janela. Indaguei a outros moradores da rua e ninguém confirmou que o meu tio andava se expondo nu. Então fui até o reclamante e ele, com a cara mais lisa do mundo, disse que o pessoal não fora olhar da janela. Aí então eu fui tão impulsivo quanto meu tio: mandei o tal “amigo” procurar o que fazer e deixasse de se enxerir na janela dos vizinhos. Aconteceu então um pequeno entrevero, do jeito que, na época, eu gostava de aprontar...

Lá pelo começo dos anos setenta, surpreendentemente, esteve em Simão Dias um senhor simpático de nome Sizenando Silveira, que também era filho de um irmão de tio Totonho. Ficou hospedado na casa de tio Sininho. O Sizenando morava na cidade de São Paulo, onde era o titular do Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas - 2º Ofício.

Contava o Sizenando que foi graças aos safanões recebidos do tio Totonho que ele passou a estudar as primeiras letras. E mostrava-se realmente agradecido. Presenteou o tio com uma bonita e grande mala (adornada com selos dos países que tinha visitado) com ternos brancos de linho e um chapéu panamá. Além do mais, passou a mandar pelo correio uma mesada que, parece-me, correspondia a um salário mínimo. Não era pouca a alegria do meu tio. Passou a andar pelas ruas de Simão Dias, diariamente, usando  com elegância o terno (que ele chamava de fado branco) e o chapéu panamá. E sempre era visto em uma barbearia contando piadas picantes, que ele dizia ser de autoria de Camões ou do Bocage...

Certa vez a pessoa que cuidava da mesada do tio me informou que ele estava esbanjando dinheiro com raparigas da Ponta da Asa. Não dei atenção ao informe. Dias depois, estava trabalhando no BNB e recebi um recado que devia me dirigir com urgência ao beco entre o Banco e o Cartório de tio Sininho, para ver a presepada do Totonho.

Fui lá. Cheguei de mansinho, sem ser notado pelo tio, que estava ao lado de uma mulher. Ele com a braguilha aberta e a dona com a ponta do dedo tocava e sentia a flacidez do cansado pênis. Então ele levantava a cabeça e arrematava:

“Viu aí, danada! Toma...”

Em seguida, fechava a braguilha, guardando sua coisa sempre mole, e metia a mão no bolso para tirar uma cédula de cinco cruzeiros e pagar a paciente rapariga.
    
Retirei-me sem ser visto e aprovei a diversão do tio. Na época ele já tinha ultrapassado os noventa e poucos janeiros bem vividos. Para a pessoa que também protegia meu tio, falei para não se preocupar. O fato que presenciei tinha um grande valor para o querido idoso e, melhor ainda, não causava qualquer mal. Além do mais: demonstrava que ele não tinha perdido a esperança e nem demonstrava acanhamento em tentar fazer o que gostava.

No ano de 1975 fui trabalhar em Jequié-BA. Não tinha como levar o meu tio e ele passou a ser cuidado pelo primo Wellington de tia Vina, que o trouxe para Aracaju.

Em 1976, encontrei pela última vez com o querido tio Totonho. Não esqueço que foi a primeira vez que vi lágrimas descendo entre as rugas de seu quase centenário rosto. Ele estava abraçado com meu filho primogênito. E com ele também chorei.

Poucos meses depois, senti novamente o sal das lágrimas ao saber que meu tio-avô tinha ingressado em outra dimensão.

Aracaju, 25/02/2019

Beto Déda

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019




Breve histórico do jornal "A SEMANA”

Por Beto Déda
                                                   
       
        O sonho de meu pai, jornalista José de Carvalho Déda, era editar seu próprio jornal em Simão Dias. Sua pretensão foi concretizada em 1946, quando firmou contrato com uma tipografia existente na cidade para impressão de um periódico, que denominou “A Semana”.          

O primeiro número do semanário circulou em um domingo, dia 08 de setembro de 1946, sob a direção dele e de seu irmão Francino Silveira Déda. 

Em seu primeiro editorial, meu pai expressou a linha a ser seguida pelo novo jornal:


1ª pagina da edição de 08.09.1946
“Conhecemos o caminho a percorrer, como sabemos as dificuldades e dissabores que nos esperam nas encruzilhadas... Seguiremos, a despeito de tudo quanto vier antepor-se ao nosso caminho, sem desprezarmos jamais a nossa linha de conduta honrada, a nossa coragem cívica e sobretudo a nossa honestidade, único cabedal que herdamos dos nossos honrados ascendentes e queremos conservar intacto para partilharmos com os nossos descendentes. ‘A Semana’, esta folha que agora entregamos ao público de nossa terra, é e será, deste modo, um fruto da nossa honestidade, da nossa moderação e uma afirmação de que somos capazes de assumir a defesa dos interesses desta hospitaleira terra de S. Ana”. 



Nesta primeira fase, “A Semana” circulou aos domingos, até 29 de junho de 1947, quando sua edição foi interrompida por força do encerramento do contrato de impressão, devido a alienação e transferência da tipografia para outra cidade.  

Sem condições financeiras para adquirir uma gráfica, seus diretores tiveram que suportar a interrupção do jornal. Entretanto, Carvalho Déda não deixou de escrever em outros periódicos e de cultivar o sonho de dar continuidade ao seu jornal. Já no início dos anos cinqüenta, andou em busca de alguma tipografia usada, anunciando esse seu interesse entre amigos. Em carta de 05.11.1951, seu amigo Dr. Carvalho Neto respondia do Rio de Janeiro seu pedido de informação:

“Tenho procurado muito uma tipografia. Preços inacessíveis. Mesmo maquinaria velha está custando preço exorbitante. O Orlando Dantas comprou uma máquina velha – só a máquina – por cinqüenta mil cruzeiros. Não deixo, porém, de procurar”.  

A oportunidade surgiu em 27.02.1953, quando adquiriu o maquinário em Leilão Público na cidade de Propriá, mediante Carta de Arrematação assinada por Dr. João Fernandes de Britto.

Dispondo de oficinas próprias na Rua Dr. Joviniano de Carvalho, nº 37, em Simão Dias, Carvalho Déda, conhecido na cidade como seu Zeca Déda, voltou a editar “A Semana” sob sua direção e gerência, em 18 de julho de 1953, ocasião em que reafirmou a orientação doutrinária:


1ª página da edição de 18/07/1953 
“Houve um hiato que não desejamos, porque queremos vida longa. Nunca, porém, apagou-se no nosso espírito a vontade de prosseguirmos... Volta ‘A Semana’ a circular com roupagem nova, isto é, tamanho maior, maior tiragem, mais completa materialmente... A orientação doutrinária é a mesma. A nossa pena estará sempre a serviço do povo simãodiense... No que diz respeito à política, podemos assegurar que jamais nos afastaremos da verdadeira ética."

O jornal seguiu em frente, publicado sempre aos sábados, com o feitio literário, noticioso e combativo. Como jornalista versátil, escrevendo sobre variados temas, Carvalho Déda usava vários pseudônimos para evitar a repetição de seu nome em uma mesma edição. Assinava Leonardo de Vinci, na seção “Retratos Femininos”; Carlos Eugênio, na “Seara Sergipana”; Marco Aurélio em reportagens; Pakéso, em artigos políticos; João Sem Terra, na “Coluna dos Lavradores”; Lynce, nos “Aspectos da Cidade”; Cazuza e Caduda em alguns artigos.  Nunca assinou ou usou pseudônimo em suas xilogravuras nem na coluna “Política em Pequenas Doses” que escreveu, ininterruptamente, até a véspera de sua morte.

 

Para ilustrar o jornal, a partir de 1959, passou a fazer xilogravuras com perfis de personalidades da época. Fez mais de quatrocentas charges que satirizavam fatos de repercussão local, estadual e municipal em uma seção sob o título “A Piada da Semana”. Poucos dias antes de falecer, resolveu assinar o pseudônimo Zélis em duas xilogravuras, publicadas na edição nº 811, de 21.08.68. 

Um companheiro inseparável foi o seu irmão, jornalista Francino Silveira Déda (Tio Sininho), que escrevia, ininterruptamente, uma crônica semanal sobre assuntos variados. Junto com meu pai, participei de toda a história d'A Semana, trabalhando como jornaleiro, tipógrafo, repórter, articulista e diretor. Também colaboraram com artigos: Antônio Conde Dias, Clarita Santana, Max Neto, Artur Oscar de Oliveira Deda, W. F. Santos, Renato Nunes, João Lima Filho, José Osvaldo Machado e Silva, Edson Caetano, Edson Carvalho Oliveira, Luiz Santa Bárbara, Antonio Ferreira Filho, Cláudio Dinart Déda Chagas e José Aloísio Freire. Àquela época, muitos jovens simãodienses prestaram colaboração ao jornal como aprendiz, sob a orientação dos tipógrafos Silvio, Valter Carvalho Oliveira e Luiz Santa Barbara; lembro-me de todos: Luiz Carlos Santos (que se tornou tipógrafo profissional), Raul Vieira, Cláudio Déda, Osmar Barreto, Manoel de Dona Tude, Daniel Guimarães, José Américo Rodrigues e José Oliveira Santos (Zé de João Baia).

 “A Semana” circulou, sem interrupção, até meados de 1967, quando, por motivo de saúde, papai teve que interromper sua circulação. Deixou sob minha responsabilidade todo maquinário. Passei a utilizar a tipografia na realização de serviços de impressão sob encomenda: notas fiscais (conhecidas como “Seu talão vale um milhão”), bilhetes de rifas, panfletos, santinhos, rótulos de vinagre e de vinho etc.

 Dois meses após a interrupção, sem disfarçar a tristeza pela falta do jornal, papai começou a me convencer da necessidade do retorno de “A Semana”, em nova fase, na qual ele seria o diretor responsável e eu assumiria a direção administrativa e financeira. E para ser convincente apresentava uma relação de pessoas (tendo à frente Dr. Salustino Neto) que o procuravam para pedir a volta do jornal. Olhando-me com firmeza dizia em tom que soava como uma ordem: – A Semana deve voltar!

Realizei uma pesquisa para quantificar e identificar os assinantes, patrocinadores e anunciantes interessados. O resultado foi incentivador. Realmente fiquei impressionado com o interesse e o estímulo da população para a volta do jornal.

Combinamos, então, em ampliar e melhorar a edição. Assim é que, em 16 de dezembro de 1967, reapareceu “A Semana” com nova roupagem, continuando, todavia, sem alterar sua ética e a cuidadosa orientação democrática, em defesa da cidade.  Jamais esquecerei a satisfação que meu pai demonstrou à tardinha daquela sexta-feira, dia 15.12.67, quando lhe apresentei o primeiro exemplar da nova fase do jornal. Ele folheou página por página e, revelando sua alegria, voltou-se para mim e disse com entusiasmo: – Continuamos editando o melhor jornal do interior de Sergipe!

Seguimos com as edições e no dia 01.09.1968, um domingo, ele deixou sobre a mesa de trabalho seu último editorial para A Semana, em que escrevera sobre "Reformas".  No dia seguinte, 02 de setembro de 1968, ele faleceu, contando com 69 anos de idade.

Naquela semana, amargurando a dor da imensa perda, preparei a edição especial do dia 07.09.68, em que A Semana noticiou e prestou uma homenagem ao pranteado fundador e diretor.
1ª página do jornal A Semana, edição de 07.09.1968

Sob minha direção, o jornal continuou circulando, inclusive mantive  – embora sem jeito – as seções “Política em Pequenas Doses” e “A Piada da Semana” que eram da lavra do meu pai. Mas a edição do jornal não durou muito. Minha atividade profissional, como funcionário do Banco do Nordeste, impediu-me de continuar dedicando-me à direção e edição do semanário. Assim é que, sem outra opção, com imensa tristeza tive que fechar “A Semana”. Seu último número foi editado em 25 de janeiro de 1969. Conservei a tipografia, por seis anos, na esperança de surgir alguém que se interessasse em continuar com o jornal. Dissipou-se a esperança em 1975, quando, por falta de alternativa, tive que me desfazer de todo o maquinário, em virtude de minha transferência para a cidade baiana de Jequié, onde fui chefiar o Setor de Crédito Rural da Agência do BNB naquela localidade.  

Na verdade, editamos um bom jornal e que foi referencial na imprensa sergipana. Veja o que escreveu Luiz Antônio Barreto:

A Semana é uma escola, no sentido de que ela ensina a fazer jornal e a tratar as páginas dos jornais com a dignidade da boa notícia, do comentário justo, da denúncia e da cobrança necessários e acima das questões locais. Mais que isto, A Semana tem arte em suas páginas, seja pelas charges, caricaturas, ou seja, pelas ilustrações que fizeram de Carvalho Déda um artista, que aliou no batente do jornal muitas qualidades requeridas pelo jornalismo. (BARRETO, Luiz Antônio. Carvalho Déda no batente do jornal. In www.infornet.com.br, 05.12.2008).

 Vivi intensamente, desde os 12 anos de idade, a vida desse jornal. Em 1953, assim que a tipografia foi instalada, levado por meu pai, passei a frequentar as oficinas e a redação de “A Semana”. Fui aprendiz, tipógrafo, entregador dos exemplares nas casas dos assinantes, vendedor, cobrador, articulista, repórter, gerente e, por fim, diretor. É verdade que se tratava de um pequeno jornal de interior, em que tudo era feito artesanalmente, com muito esforço, dedicação e amor. Para mim, entretanto, foi e sempre será o maior e melhor jornal do mundo.  Foi naquela redação/oficina – ouvindo o ruído da impressora rotativa manual e sentindo o cheiro da tinta fresca de impressão, que tive um convívio inesquecível de rico aprendizado com meu saudoso pai.

Agora, passados tantos anos, revivo com saudade aqueles bons tempos e fico muito feliz com toda essa lembrança...

Carlos Alberto de Oliveira Déda (Beto Déda)

                 PS - Estas informações fazem parte da edição digitalizada de todos os                                  exemplares do jornal "A Semana", de 1946 a 1969,  dispostos em                                   quatro DVDs,  disponibilizados em bibliotecas de Sergipe.