quinta-feira, 24 de janeiro de 2013


As curiosas aventuras de um colega inesquecível.

 

Em minhas recordações existe um amigo de infância que tem lugar de destaque. Cultivava as amizades com sua bondade e boa fé. A todos ele chamava de compadre, razão pela qual ele passou a ser conhecido por esse apelido. Era forte, baixo, pele alva, sofria de uma ligeira miopia, cabeça grande com cabelos cheios e lisos. Expandia coragem, tinha o pavio meio curto e não levava desaforo pra casa. Dizia meu primo Zé Carvalho que tanto ele como suas travessuras pareciam com as do jovem artista de cinema chamado Mickey Rooney. Além de tudo foi personagem de casos curiosos que merecem ser lembrados. E aqui recordo alguns deles.

O grupo escolar de Simão Dias estava um reboliço naquele início de setembro dos anos cinquenta. Com maior intensidade do que em dias comuns, as professoras exigiam dos alunos maior dedicação à aprendizagem dos fatos históricos da pátria.


O Prédio do Grupo Escolar Fausto Cardoso
A turma do primeiro ano ficava no salão do meio, cujas janelas davam para a praça da matriz, de onde os alunos tinham a visão da igreja e do cata-vento que bombeava água de um poço.  Alguns meninos daquela sala se destacavam pelas travessuras que aprontavam no dia-a-dia. Um deles era o colega Compadre.  Tal e qual a gurizada da época, ele costumava falar alguns palavrões, dentre os quais sobressaía a expressão de uso comum entre os sergipanos:  cabrunco!” e “ô fio do cabrunco!” Quando se queria expressar espanto ou dimensionar um grande ou grave acontecido falava-se : -“Ô cabrunco! Também era a palavra de ordem para demonstrar qualquer aborrecimento e xingar uma pessoa: “Fulano de tal, aquele “fio do cabrunco...!”.

A professora da classe era Dona Olda, dedicada e prestimosa mestra, querida por todos os alunos. Seu método de ensino era infalível. Paciente com os pupilos, sempre tentava auxiliar nas dificuldades. Quando notava um vacilo, ela prontamente dava uma ajuda, iniciando a resposta e deixando sempre a última palavra ou sílaba para ser dita pelo aluno. Assim, se ela perguntava aos estudantes quem era o Presidente do Brasil e notava qualquer demora na resposta, então a ajuda era certa: “O Presidente do Brasil é Getúlio VAR...” e em uma só voz os estudantes gritavam a última sílaba: “GAS”.

Naquele dia a Prof. Olda estava iniciando a aula com uma revisão dos principais fatos de nossa História. E começou perguntando à classe: “Em que ano aconteceu o descobrimento do Brasil?” Houve um ligeiro silêncio dos mais aplicados, porque a classe ainda estava no sussurro inicial dos alunos retardados se arrumando nas carteiras. Ela então deu a ajuda: “O Brasil foi descoberto no ano de um mil e QUINHEN...  E ouviu-se a resposta uníssona completando a última sílaba :  TOS”.
Pedro Álvares Ca...

Enquanto isso, sentado na última fila de carteiras, no fundo da sala, alheio aos ensinamentos, nosso Compadre discutia animadamente com outro amigo. Percebendo a distração, a Prof. Olda dirigiu-se a ele, indagando: “Quem descobriu o Brasil?” Nada de resposta. Tão envolvido na troca de figurinhas, o colega não percebeu a pergunta, provocando na bondosa professora sua reação natural de ajuda, enfatizando: “Quem descobriu o Brasil foi Pedro Álvares CA...” Nada de resposta. Advertido pelo vizinho e meio atordoado, Compadre ouviu apenas a Professora indagar: “Foi CA...” e a resposta veio sem demora e impensada: “...BRUNCO, foi o CABRUNCO!” E a risada explodiu na classe.

Percebendo a mancada, ele apressou-se em pedir mil desculpas. Depois de ouvir uma cuidadosa reprimenda da querida professora, ele baixou a cabeça demonstrando arrependimento e, com a humildade que sempre o caracterizou, atendeu a recomendação de copiar dez vezes um texto sobre a inconveniência de dizer palavrões.
 

Em uma manhã, lá pelas nove horas, a classe foi perturbada pelo inusitado som de um motor. Curioso, o Compadre se aproximou da janela de onde se via a torre da igreja e o cata-vento. Olhou para cima e avistou um pequeno avião. Imediatamente ouviu-se seu estridente grito:
Um Teco-teco no campo de aviação

- Turma, um teco-teco vai pousar no campo! Vamos ver? Eu estou indo..

 Para evitar a debandada, a professora fechou a porta da sala e convocou todos a tomarem seus lugares. Nada continha a curiosidade da meninada e o Compadre liderou a turma. A janela foi a saída procurada. Foi o primeiro a pular, seguido pela maioria, todos se dirigindo ao campo de aviação que ficava lá pelas bandas do Bonfim de baixo. Ver de perto o aeroplano foi o ponto alto daquela manhã e serviu de comentário na cidade durante toda a semana. De volta ao Grupo Escolar, a professora impôs um castigo a todos: redigir um texto sobre o avião pousando na cidade. Dizem que o colega só redigiu cinco linhas. Redigi não era a praia dele...

 

Nas tardes de domingo, depois da matinê no cine Ipiranga, a meninada ia à praça da matriz, com roupa domingueira. Para impressionar, os garotos besuntavam os cabelos com brilhantina ou óleo “Glostora”, uma novidade da loja “Três Américas”, de Seu Cícero Guerra. Admirado com o brilho dos cabelos do meu primo Zé, o colega não se conteve e perguntou o que ele usara para o cabelo ficar certinho e brilhante daquela forma. Brincalhão e presepeiro, o Zé não perdeu a oportunidade e foi logo ensinando:
 
O óleo lustra móveis
- O famoso ‘Óleo de Peroba’, meu compadre. Depois que passei a usar esse óleo as meninas estão dando sopa. É um sucesso! Use e você vai se dar bem.

No domingo seguinte, lá estava o amigo risonho com o cabelo arrumado, brilhante e com o inconfundível cheiro do óleo usado para polir móveis. Somente depois é que ele percebeu a brincadeira e ficou picado da vida, arrebentando o conhecido linguajar para o desconfiado Zé: - Esse cara é um gozador do cabrunco!

 

São lembranças de um querido e saudoso amigo que foi companheiro de muitas brincadeiras de infância e que ao recordá-las nos alegra e ao mesmo tempo marejam nossos olhos com gotas de saudade...

Aracaju, 22/01/2013.

Beto Déda

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013


O possesso


 
Há muito tempo, quando eu era garoto, ouvi de um querido tio o curioso caso de um sujeito que foi considerado possuído pelo demônio. Tentarei transcrevê-lo,  aqui, com esforço para transmitir mais ou menos o que ouvi do bondoso irmão de minha mãe.

O fato aconteceu no mês de julho – que os simãodienses chamam de mês de Santana – no início dos anos cinquenta, envolvendo um senhor de quarenta e poucos anos de idade. Ele tinha pele alva, pescoço comprido, um grande gogó e costas um pouco envergadas. Era conhecido como Janu da Várzea.

 Naquele dia ele acordara mais cedo que do costume. Acendeu o fogo, tomou um ligeiro café e aguardou que a densa neblina dissipasse, deixando lugar para o sol, que nascia meio tímido, derramar seus primeiros raios luminosos sobre as matas da Várzea da Isca. Selou o cavalo e galopou em direção à cidade.

Naquela semana Simão Dias estava em festa. Acontecia o novenário em homenagem a Nossa Senhora Santana, padroeira da cidade. As casas estavam repletas de visitantes. Raras as famílias que não recebiam parentes e amigos em seus hospitaleiros lares. Na Rua do Coité, a residência de D. Tefinha não era exceção. Ela recebia a costumeira visita dos donos da casa, alugada sob a condição de abrigar a família do proprietário nas festas tradicionais da cidade: Natal, Ano Novo, Semana Santa, festa de Santana e no dia de eleição.

Janu era sobrinho do dono da casa e também ali se hospedava. Ele chegou cedo, amarrou seu cavalo no quintal e foi cuidar de alguns negócios pendentes, como também comprar o que lhe era indispensável em seu sítio: sal, querosene e café.

Para almoço daquele dia, D. Tefinha tinha temperado, de véspera, em uma grande frigideira de barro, apetitosos lombos. Lá pelas onze e meia, depois dos trabalhos de arrumação da casa, é que o fogo de lenha foi reativado para o preparo do almoço, inclusive os saborosos lombos. O cheiro dos petiscos invadia a casa, estimulando o apetite de todo pessoal, especialmente de Janu, que desde cedinho tomara apenas um rápido café.

Quando o relógio da Matriz disparou o toque das doze badaladas, anunciando o meio-dia, soou o foguetório na Praça Barão de Santas Rosa e a banda Lira Santana, tocando seus tradicionais dobrados, desfilou pela Rua do Coité. O povo saía à rua para apreciar a fuzarca. Na casa de D. Tefinha não era diferente, todos estavam à porta, alegres aplaudindo a banda, menos Janu que fora até o quintal cuidar do cavalo que desamarrara.  




A ausência de Janu foi notada por Alice, uma solteirona que morava na vizinhança e que era vidrada no coroa. Ela foi procurá-lo no interior da casa. Assim que adentrou ao corredor, deparou-se com o Janu que, ao senti sua presença, saiu apavorado da cozinha em direção à sala, onde começou a dar tremendos pulos, com as faces contorcidas, os olhos querendo saltar das órbitas e a expressão de terror. Apavorada com aquele quadro dantesco, Alice gritou pedindo socorro.

Todos invadiram a sala e, estupefatos diante do que viam, exclamaram quase uníssonos: - Acuda, o homem está possuído pelo demônio! Em meio a gritaria infernal, D. Tefinha iniciou imediatamente uma ladainha de exorcismo:

- Ave Sant’Ana, cheia de graça, rogai ao Bom Jesus para ajudar ao pobre Janu que está com o encosto do espírito da mal.

Enquanto todos rezavam, o Janu rolava pelo chão da sala, grunhindo, com as mãos no pescoço, as unhas dilacerando os músculos, já ficando roxo. Justo naquele momento entra na casa o Bão, um experiente e idoso negro que morava na Rua do Curral. Percebendo a cena, sem retardar, ele bradou, pedindo ajuda ao tio de Janu, Seu Chico Pereira:

- Chega Chico, deixa de rezar e vamos levantar o homem que ele não está com nenhum encosto de cabouco, me ajuda aqui.  Venha!


Com muito esforço, os dois levantaram o quase desvalido “possesso”. O Bão deu um forte tapa nas costas do Janu que, escancarando a boca, vomitou um baita pedaço de lombo. O espanto foi geral. Seguido de um ligeiro silêncio, quebrado pela voz de tenor do irreverente Bão:

- Taí o demo que ele engoliu. Um pedação de lombo. Tava com fome, meu fio?

Superado o susto, com um riso amarelo e desconfiado, Janu esclareceu tudo. Sentindo o cheiro apetitoso do lombo, ele não se conteve e, aproveitando a saída do pessoal para apreciar a banda, foi até a cozinha, destampou o aribé e pegou um pedaço de lombo. Quando ouviu os passos de Alice, tentou se livrar da carne e gulosamente engoliu o pedaço de uma só vez. Foi a conta. Engasgou, ficou sem ar, apavorou-se e quase morreu. E o gostoso lombo transformou-lhe em um “possesso”, apesar de ser um fervoroso devoto de Nossa Senhora Santana.

Naquela época muitos acreditaram que foi a santa padroeira de Simão Dias quem guiou o experiente negro Bão até a casa de D. Tefinha. Mas havia controvérsia...

Aracaju, 15/01/2013

Beto Déda

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


O uniforme de bancário e o incrível problema do uso de meias.

 
Em recente conversa com meu colega aposentado José Amâncio Neto, fui estimulado a escrever sobre as lembranças do tempo que trabalhei no Banco do Nordeste. Os causos são muitos, no entanto, ele e os amigos José Raimundo Araújo e Juarez Morais Chaves têm melhores condições para descrevê-los. Conheço-os bem e sei que lhes sobejam talento e conhecimento de nosso idioma e que eles já escrevem interessantes histórias dos velhos tempos.

Mesmo assim, aqui estão alguns fatos que transmito também para conhecimento de meus queridos netos, especialmente do pequenino Miguel, que não gosta de usar meias.




Minha nomeação como funcionário do BNB.
Comecei a trabalhar no BNB em 1965. Antes disso eu trabalhara como redator da Secretaria de Imprensa do Estado de Sergipe e como Oficial de Gabinete do Governador Celso Carvalho. Exonerado de meus trabalhos junto ao Governo do Estado, tomei posse na agência do BNB em Simão Dias, em 18.05.1965. Naquela época o gerente era o Luciano Cardoso, que além de bancário era um grande desportista. Estimulou o futebol de nossa terra e foi o principal articulador da construção de um campo de futebol que foi batizado com seu nome.
A gozação da folha de presença

 
No dia da minha posse fui acolhido pelos saudosos colegas José Carlos Macedo Déda e José Augusto Montalvão que me pregaram uma peça, uma espécie de trote para o bancário calouro: fizeram-me assinar em uma folha suplementar de presença do “Setor Avacalhado”. Ainda hoje guardo como lembrança a dita folha de presença assinada por mim e que também recebeu as assinaturas dos inesquecíveis colegas (Foto ao lado).

 

Funcionários da Agência do BNB
em Simão Dias nos anos sessenta
Naquele tempo, o banco era exigente na forma de vestir de seus funcionários: era obrigatório usar sapatos com meias, calça social, com cinturão, camisas de mangas três/quarto e gravata. Nos primeiros dias de trabalho, cedinho, lá estava eu sentado à mesa de minha casa, tomando café, quando meu pai, olhando-me cuidadosamente, indagou por que eu estava sem a gravata. Respondi que não estava esquecido e que faria uso dela no Banco, assim que ali chegasse. Meu pai balançou a cabeça, discordando de minha resposta, dizendo que se eu resolvera ser bancário teria de atender todas as formalidades exigidas pelo banco e me orgulhar disso. Assim, deveria sair de casa usando o traje de trabalho, de modo a evitar um possível esquecimento. Daquele dia em diante, até a minha aposentadoria, segui o conselho do meu pai.

O caso de uso de meias

Colegas do Setor Rural do BNB 
nos anos setenta (eu com um grande
bigode estou sentado à direita)
Muito tempo depois, lá pelos meados dos anos setenta, em uma determinada agência, presenciei uma situação difícil por que passou um colega que, por força de um problema momentâneo de saúde, não podia usar meias. Era um excelente funcionário da carteira rural e trabalhava sob minha direção. O gerente da Agência era exigente e muitas vezes implicava com os funcionários. Fazia confusão por questões insignificantes, razão pela qual passou a ser conhecido  como o espalha brasa. O fato é que, talvez sabendo da situação do colega, ele orientou o chefe do setor de pessoal a verificar quem não estava usando meias. Assim, por incrível que pareça, foi exigido que, antes de assinar a folha de presença, todo funcionário teria que levantar o pé e mostrar que estava usando meias. Um verdadeiro absurdo! O pior é que o bom colega chefe de serviços passou a ser chamado de cheira chulé.

Pois bem. Como era de se esperar, confirmado que um funcionário do meu setor estava sem usar meias, o gerente me chamou e determinou que eu exigisse o uso do uniforme completo, de modo a evitar o “corte de seu ponto”, ou seja, considerá-lo como faltoso ao serviço. Como já sabia do problema de saúde do colega, expliquei que se tratava de um benebeano excelente e produtivo, que estava com problema nos pés e que sua ausência traria prejuízos ao atendimento da clientela (era grande a quantidade de agricultores na agência naquele momento). E percebendo de que nada valeram minhas explicações, só me restou encarar o problema aplicando minha fórmula de resolver absurdos: neguei-me a acatar a decisão dizendo claramente:
"-Nem que a vaca tussa eu farei isso!”.

As faíscas daquela discussão escaparam da gerência e muitos ouviram o bafafá... A verdade é que depois desse entrevero deixou-se de inspecionar os pés dos funcionários daquela agência. E dei de ombros ao saber que o implicante iria comunicar à Direção Geral a falta de meias do colega e a minha decisão.

Passados alguns dias, estava eu substituindo o dito gerente quando tomei conhecimento de uma correspondência da Sede em resposta à informação dele sobre o assunto. Era um memorando escrito pelo próprio Chefe de Departamento de Pessoal (DEPES), cuja fonte da máquina de datilografia tinha a forma de manuscrito, que era sua marca registrada, conhecida em todo o banco naquela época. O memorando, curto e conclusivo, trazia apenas uma indagação esclarecedora, redigida mais ou menos nos seguintes termos:
“Será que essa gerência não tem assuntos mais importantes para tratar do que o uso de meias por seus funcionários?”.
Com o devido respeito à indagação do DEPES, mostrei o memorando aos demais colegas da Agência, inclusive, quando de seu retorno, ao titular responsável por aquela resposta. A reação dele? Nem queira saber. A minha, era de pura gozação...
 
Depois daquele incidente, nunca mais soube de exigência de uso de cinto ou de meia no ambiente de trabalho. Somente lá pelos anos oitenta é que o banco liberou o uso da gravata, que passou a ser exigida apenas para os administradores nas capitais, em ambientes com ar condicionado. Para mim, independentemente da exigência, seguindo a orientação de meu pai, continuei usando paletó e gravata até o dia de minha aposentadoria...

 Aracaju, 03/01/2013

Beto Déda

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013


Minhas aventuras como cobrador de “A Semana”.


Recentemente eu, Cláudio e Marcelo estivemos explicando à querida Yasmim como era editado o jornal “A Semana”, em Simão Dias. E isto me trouxe lembranças que repasso aqui, para conhecimento de meus não menos queridos netos.


 
O componedor e a caixa de tipos de chumbo.
No início dos anos cinquenta, eu e meu irmão Carlos Eugênio éramos garotos quando papai levou-nos para iniciarmos nosso aprendizado nas oficinas do jornal “A Semana”. O primeiro mestre foi o tipógrafo Sílvio, um rapaz que viera de Propriá acompanhando o novo maquinário ali adquirido. Começamos a aprender a arte de composição tipográfica, decorando a posição das letras móveis de chumbo no tabuleiro. A lição seguinte foi aprender a usar o componedor, que era uma peça de metal onde colocávamos os tipos formando as palavras. Depois de muito treinamento com letras de fontes grandes, passamos a compor pequenas notícias que eram incorporadas ao “boneco” do jornal.

Minha primeira composição tipográfica
(A Semana edição de 29.08.53)

Outra composição tipográfica também inesquecível.
(A Semana, edição de 23/04/55)
Nunca esqueci a minha primeira composição. Duas razões marcam esta lembrança: primeiro, por se tratar da comemoração do aniversário de minha querida irmã Nancy; segundo, a alegria de ver publicada no jornal a minha primeira composição tipográfica. Outra publicação inesquecível aconteceu depois, quando fiz a composição com a notícia (redação feita com ajuda de papai) do casamento dos queridos Maura/Haroldo .


 Vivi intensamente os trabalhos realizados nas oficinas do jornal, primeiro como auxiliar de tipógrafo, compondo, cortando as resmas de papel e dobrando-os na forma como seriam impressas. Também fui jornaleiro, entregando os exemplares pela cidade, fazendo as vendas avulsas e anualmente efetuando a cobrança das assinaturas e reclames. Para efetivarmos os recebimentos fazíamos a  impressão de talonários com recibos, posteriormente preenchidos por meu pai, ficando a tarefa de cobrança sob meu encargo.

Xilogravura de publicada em 31.08.63
A cobrança era tranquila e os assinantes me atendiam com presteza. O valor da assinatura não acompanhava a inflação da época e nem correspondia aos gastos com o jornal. E papai fazia piada sobre isto, publicando xilogravura sobre a “falta de carestia” na cobrança do semanário. O valor era realmente baixo e somente um ou outro apresentava ligeira dificuldade no pagamento, que era vencida por minha implacável irreverência de garoto. De todos os assinantes um era extremamente cuidadoso com a pontualidade nos pagamentos. Era um funcionário público zeloso e, como o fazia em sua faina como servidor federal, também na sua atividade privada era exigente nos prazos dos deveres e dos haveres. Seu lema era pagar em dia e receber no prazo certo. Contabilizava tudo.
Pois bem. Em uma tarde noite, do inicio do ano, quando eu começava a fechar as portas da redação do jornal, chega o referido zeloso senhor, para efetuar o pagamento de sua assinatura. Embora conhecendo a rigidez que cuidava de suas obrigações, tentei convencê-lo a efetuar o pagamento no dia seguinte, lembrando-lhe que já estava escurecendo e já tinha apagado a petromax (uma espécie de lampião, de uso comum na cidade que na ocasião não tinha energia elétrica). Não convencido de minhas observações, retrucou:

- Mas Beto, eu peço o favor de receber hoje. Olhe, já dei baixa em minha contabilidade e o dinheiro já saiu do meu caixa. Eu não tolero fazer estorno. Atenda-me, por favor!

Seu olhar suplicante foi convincente. E sob a fumaça e a luz lúgubre de um candeeiro (acender a petromax era trabalhoso) recebi o valor da assinatura. Passei-lhe o recibo e ele  saiu contente com seu caminhado inconfundível, com um pé no sapato e outro no chinelo.  Sem dúvida era o mais pontual pagador de “A Semana”.
...

O jornal tinha boa circulação em nossa região e eu cuidava da cobrança não só de Simão Dias, como também de Lagarto, Riachão do Dantas e Paripiranga. Naquela época, a cobrança em Paripiranga era feita na sexta-feira, e o transporte usado para aquela cidade baiana era o caminhão de Seu Antônio Barbadinho.

A cobrança em Lagarto era feita às segundas-feiras, dia da grande feira da cidade. Eu viajava na marinete de seu Josino. Saía às 5 horas da manhã. Teve um dia que a marinete estava lotada, muita gente viajando em pé, inclusive eu. Enjoei e vomitei sujando a camisa de um colega de pelada da Praça de São João, chamado Pneu. Ele deu uma bronca de arrepiar. E eu pálido, mal consegui expressar minha desculpa, mostrando também minha camisa e o talão de recibos de assinaturas sujos com restos de vômito. Foi um vexame.

Ainda em Lagarto, outro fato inesquecível. Fui a uma casa muito bonita e luxuosa de um assinante que, parece-me, era dono do cinema da cidade. Quando entrei na casa escorreguei na cerâmica lisa e encerada e dei com a “padaria” ao chão, deslizando e ouvindo a risada das pessoas ali presentes. Uma baita queda!  Depois, contando esse deslizamento a minha mãe, ela riu muito e me abraçou com carinho. Valeu a queda pela ternura transmitida por minha saudosa mãe. Uma beleza. 

...

Em Riachão do Dantas também aconteceu uma inesquecível aventura. Para realizar a cobrança naquela cidade eu viajava de marinete até Lagarto e de lá pegava um caminhão pau de arara. Certa vez, quando eu já contava com meus 17 anos de idade,  em uma das cobranças em Riachão, encontrei-me com o colega Zé Almeida, que comigo estudava no Colégio Jackson Figueiredo e que muitos anos depois também foi meu colega no BNB. Zé Almeida morava naquela cidade e ajudara-me a identificar os assinantes, além de me oferecer um almoço na residência de seu pai, o Deputado José Almeida Fontes. À tardinha, após efetuar as cobranças, voltei a Lagarto no mesmo caminhão pau de arara. Na viagem, aconteceu uma perigosa briga.Um dos passageiros gritou, tirando gracejo ao avistar uma moça que trabalhava em um terreno próximo a estrada. Outro passageiro que dava a entender ser parente da moça ofendida encarou o ofensor e iniciaram um bate-boca raivoso. Então um deles sacou uma pistola (tipo garrucha de dois tiros) e mirou o adversário. Todo pessoal se abaixou, menos eu, que estava sentado em frente ao passageiro ameaçado e fui por ele agarrado como escudo. Em uma agonia sem precedentes, debalde tentei me desvencilhar do briguento. A sorte é que o caminhão parou para cobrar as passagens. Consegui me livrar da posição de escudo e pulei, não sei como, do caminhão. A algazarra aumentou, com os passageiros gritando e pulando do pau-de-arara. Foi quando, inesperadamente, ouvi a voz de Almeida, chamando-me para entrar num jipe de um amigo que com ele ia para Lagarto. Nem vacilei e de um só pulo já estava no rústico veículo, que naquela situação parecia ser o mais confortável dos automóveis. Foi a salvação. Até hoje, não sei o final daquele bafafá entre os desafetos viajantes. E sempre que me encontro com o Almeida menciono aquele fato, lembrando que ele me salvou de uma inusitada aflição.

Estas são algumas das muitas aventuras dos velhos tempos. Se o bom Deus me favorecer em tempo, paciência e engenho para usar o teclado, outras lembranças eu relatarei para meus queridos netos.

Aracaju, 03/01/2013

Beto Déda

terça-feira, 11 de dezembro de 2012


O Natal em Simão Dias, o Papai Noel e aprendendo a não apostar.


O desengonçado Papai Noel
O mês de dezembro é mágico, tem significados encantadores, despertando o amor e nos dando força para expandir alegrias. É o tempo de permitir que a imaginação tome conta da gente. E eu deixo a barba crescer e transformo o vovô/tio Beto em um desengonçado Papai Noel para levar um pouco de alegria aos meus netos, sobrinhos e a meninada da vizinhança do Lago Dourado. E isto me faz sentir feliz. Então, deixe-me contar essa: no último Natal, ouvi de uma criança dos arredores de meu sítio uma frase encantadora. Disse ela, apontando-me: - Olha, Papai Noel existe mesmo! Lá está ele! E rindo, externou uma alegria tão espontânea que me contagiou com sua linda emoção. São fatos que me estimulam a usar o mágico uniforme vermelho. 

Lá pelos anos cinquenta, em Simão Dias, a garotada conhecia que estávamos no mês de dezembro ao perceber o florido amarelado das acácias existentes no quintal do bangalô de Seu Pierre ou na Praça de São João.  Era o tempo encantador do Natal e da crença em deixar os sapatos juntos, ao lado da cama, para o bom velhinho ali pôr o presente esperado. E eu acreditava nisso. Daí a minha grande decepção ao saber que aquilo era estória para enganar menino bobo.  Então eu fui um bobão. Mas... Que se danem! Fui um bobo feliz acreditando no bom velhinho. 

 Foto da garotada em um  Natal dos anos 50
Na tarde do dia de Natal, meu pai reunia os filhos, netos e sobrinhos lá em nossa casa. Ele tirava fotos e depois distribuía moedas novinhas, em partes iguais, para nos divertirmos na Rua da Feira. Naquela época a festa do Natal era comemorada no largo da feira, onde se concentravam os bazares de Seu Cícero e de Inês/Lélia, o carrossel de cavalinhos de Seu Messias, a Onda e o grande Balanço de Seu Raimundo, além das barracas de arroz-de-galinha, de confeitos de castanha em forma de barcos e sobrinhas em papel colorido, os jogos de roleta e barrufo. E tinha também o quebra-queixo de seu Antônio e a amorosa (uma espécie de refresco de maçã) do Zé Pretinho, que chamava os fregueses gritando: “Ói a amorosa!” E apontando para a garrafinha, dizia: “É cheia... é cheia e é só quinhentos réis...”

Daquela festa de largo vem a lembrança inesquecível do som forte e fraco da sanfona e do pandeiro que ia e vinha, se distanciando e aproximando, de acordo com as voltas do carrossel e a posição do vento. E tinha o cheiro inconfundível dos fifós (candeeiros) de carbureto.
Woody Strode que parecia com Braúna

Outra lembrança marcante era o grande Balanço de Seu Raimundo. Cabiam mais de quinze crianças e o balançar era seguido de muito empurrão e gritos de alegria. O encarregado de balançar manualmente era um senhor moreno, muito forte, que pitava um engraçado cachimbo. Chamava-se Seu Braúna, era parecido com o ator hollywoodiano Woody Strode que atuava com John Wayne em faroestes dirigidos por John Ford ( O homem que matou o facínora).    

Recordo-me que certa vez, logo ao chegar na Rua da Feira tive a curiosidade de jogar barrufo, pensando em aumentar meu cabedal. Apostei uma moeda e ganhei outra. Estimulado, joguei mais e também ganhei. Logo depois comecei a perder. E passei a jogar pensando em recuperar as moedas perdidas. Não restou nada, fiquei “quebrado”. Ainda era o começo da tarde e não me restara um só centavo para a festa que começava. Então, pensei em pedir mais moedas ao meu pai, que tinha uma sacolinha cheia de quinhentos réis. E lá fui eu ao escritório que, naquela época,  ficava na Rua dos Ribeiros em uma casa que era do Seu Hilário. Em resposta ao meu pedido, o velho fez outra indagação: onde gastara tão rápido as moedas que ele tinha me dado? Respondi: “- Pensando em ganhar mais, joguei no barrufo e perdi tudo!” Então recebi uma lição inesquecível: - Nada de outras moedas e aprenda: jogo nunca mais!

Naquele Natal minha salvação foi o tio Sissi. Fui até a Prefeitura, onde ele trabalhava, e exclamei com a mão estirada, de pedinte: “-Minha bênção, tio Sissi”. Ele rindo, olhando para minha mão pidona, me abençoou e me deu  moedas suficientes para andar no balanço de Braúna, comer arroz de galinha, tomar amorosa e comer confeitos de castanha. E passar ao largo das bancas de barrufo, lembrando a lição importante do meu bom pai: Jogar apostado, nem pensar!

Aracaju, 11/12/2012

Beto Déda

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012


Por que eu voltei a  chorar... (Una  furtiva lagrima).
 
 

 

Estava neste momento ouvindo Pavarotti interpretar "Una furtiva lagrima", uma ária do último ato da ópera L'elisir d'amore do grande Donizetti, quando senti uma lágrima sombria umedecer meus olhos. E embora estejamos em dezembro e meu nascimento não tenha ocorrido no mês que se comemora o Natal, lembrei-me do que me contaram do dia em que apareci neste mundo. Diziam meus pais que eu nasci às dez horas do dia 25 de maio de 1941, na Rua dos Ribeiros, em Simão Dias. Este “grande” acontecimento foi registrado em Cartório, em certidão que teve como testemunhas os Srs. Marcos Ferreira de Jesus e Inocêncio Nascimento.


O couraçado Bismarck em chamas.
Naquela época o mundo estava envolvido em sangrenta guerra e, justo naqueles dias, desenrolava-se a batalha naval iniciada no Estreito da Dinamarca, em que a esquadra inglesa atacou e, dois dias depois, afundou o encouraçado Bismarck, que era o orgulho da marinha alemã comandada por Hitler. Talvez o horror por que passava a humanidade tenha retardado meu despertar para o mundo em sangrento conflito. O certo é que, ao nascer, demorei a expressar o sinal de vida, que é o choro normal das crianças quando aqui chegam.

Lembro-me agora, com saudade, de minha querida mãe embalando-me em seu colo, consolando-me de um dos meus choros inconsequentes. Eu já tinha noção da vida. Então, ela comentava que não entendia aquela minha reação efusiva em lágrimas. Argumentava que aquele procedimento não se ajustava ao que acontecera na manhã chuvosa daquele domingo do mês de maio, quando eu vim a “este vale de lágrimas”. E contava-me os detalhes. Eu nascera sem demonstrar sinal de vida. A simples palmada na bunda não me fizera chorar. Aflito com aquela situação, meu pai resolveu fazer ruído junto ao meu ouvido, batendo com um garfo em um prato, para me despertar. Foi o santo remédio, dizia ela, lembrando que eu abri os olhinhos pretos e comecei a chorar. Com esse precedente, argumentava ela, esperava-se que eu fosse um garoto resistente ao choro. Assim, não dava pra se entender porque eu sempre estava me esvaindo em prantos.

A verdade é que a minha reação retardada no dia do nascimento foi compensada depois, porque passei a chorar compulsivamente diante de qualquer dificuldade. De tal forma era meu choramingar que sempre estava sendo repreendido por meus pais. E fui sendo educado a controlar minhas emoções. Lembro-me, como se fosse hoje, o dia em que vendo minha mãe tentando consolar meu choro, meu pai disse-lhe: “Deixa chorar, é bom para os pulmões!”. E em seguida, fitando-me nos olhos orientou-me a controlar minhas emoções. Dizia ele que tinha “a caixa de sentimentalismo hermeticamente fechada para umas tantas coisas”, mas isto não significava que não tinha sentimentos. E acrescentava que também tinha seus momentos de emoções em que as lágrimas se rebelavam e desciam molhando seu rosto. Mas que se controlava e não deixava transparecer. E recomendava-me: - Controle suas emoções, filho!

De tanto ouvir aquelas observações passei realmente a controlar meu irritante choramingar. Assim é que minhas glândulas lacrimais secaram por um longo período. 

O choro contido só veio a me atormentar tempos depois, no meu primeiro dia como estudante interno do Colégio Jackson de Figueiredo, aqui em Aracaju.  Em nossa cidade, até o ano de 1957 não existia curso ginasial, então os garotos que concluíam o primário teriam que continuar os estudos aqui em Aracaju. Aprovado no curso de Admissão, um vestibularzinho que era exigido naquela época para se ingressar no ginásio, iniciei meus estudos como interno no Jackson de Figueiredo. No dia que cheguei, estavam todos os novos alunos no pátio da escola com seus teréns. E lá estava eu sentado na grande mala, aguardando na fila para receber o número de identificação (o meu número foi o 58) para as roupas, armários  etc.  Pois bem. Naquele primeiro dia, na fila ao meu lado, estava um garoto baixo, meio gordo, de feição sombria, sorriso escasso, aparentando idade menor da que realmente possuía – era o saudoso Almir Aguiar, que muitos anos depois também foi meu colega no BNB. De repente ele começou a chorar efusivamente.  Olhei espantado com a lamúria do colega e indaguei o porquê daquele choro. E ele, entre soluços, disse: “Saudade de minha mãe, meu pai, de meus”... Não deu para ouvir o resto, nem segurar a emoção, a lágrimas desceram copiosamente e, mesmo me controlando ao máximo, também chorei. Não um choro escandaloso, mas contido e muito sentido. Ainda hoje, quando me lembro daquela cena e do falecido Almir, lágrimas furtivas aparecem.

Depois daquele dia, poucas foram as ocasiões que chorei em público. Controlava minhas emoções como me ensinara papai. Somente em algumas ocasiões, à noite, no silêncio e na minha intimidade, eu soluçava, esforçando-me para controlar as lágrimas que molhavam o travesseiro.

Hoje, com o passar dos janeiros, não consigo manter tal controle e começo a ser surpreendido por longas lágrimas diante de simples emoções, mesmo que seja ao ouvir uma saudosa música de ritmo dolente (Una furtiva lagrima, por exemplo) ou um filme emocionante. E mais, tornei-me um solidário chorão ao presenciar uma pessoa amiga em prantos.

Assim, razão não existe para nos dias de hoje, diante de uma simples emoção, surpreenderem-se com meus soluços. O fato é que, com o correr de mais de setenta janeiros, cansei de controlar o choro. Dizem os entendidos que devemos evitar emoções, nunca reprimi-las. Sufocar o choro não faz bem às castigadas cordas cardíacas.

Então, que as glândulas lacrimais e o soluço externem meu sentimento diante das emoções inevitáveis que a vida nos apresenta.  E que sirvam de alívio ao meu sofrido coração...

Aracaju, 04/12/2012

Beto Déda

quinta-feira, 29 de novembro de 2012


O meu fusca azul celeste

 
 

Nesta semana o querido Humberto Oliveira fez-me lembrar dos anos setenta, quando morávamos em Simão Dias, ocasião em comprei o meu primeiro carro: um fuscão azul celeste.

Betinho e o fusca azul celeste

No início dos anos setenta o BNB aumentou o capital social, lançou novas ações na Bolsa de Valores e incentivou seus funcionários a serem acionistas, financiando a compra de ações nominativas. Com esse estímulo eu adquiri mil ações e, além de funcionário, passei a ser acionista do banco. Logo depois ocorreu um estouro na bolsa de valores, com uma elevação além do normal no valor das ações. As do BNB tiveram uma valorização sem precedentes, cada ação comprada ao preço de um cruzeiro, passara a valer quatorze vezes.  Assim, minhas mil ações valiam o preço de um carro popular da época. Não me contive. Fui a Salvador e, na cidade baixa, na Rua da Grécia, procurei um corretor indicado por um colega e fomos à Bolsa de Valores. Lá, vendi as mil ações. Com o dinheiro adquiri meu primeiro carro. Se esperasse mais alguns dias, o valor das ações daria para comprar dois carros; e se prolongasse mais, o valor não daria para nada, porque aconteceu o “Crash da bolsa de valores, finalizando todo processo especulativo das ações.

A pose da gurizada em frente ao fuscão

Foi sorte ter vendido, no tempo certo, minhas ações e adquirido o fuscão azul celeste, com os acentos de napa marrom claro imitando couro. E o meu carro só andava lotado, com a família e, especialmente, com os queridos sobrinhos. Com aquele fusca eu viajei milhares de quilômetros por esse Brasil imenso. De Simão Dias fui até Porto Alegre. A ida foi pelo litoral e a volta pelo interior. Uma aventura de muita alegria, visitando paisagens encantadoras. Depois fui até Fortaleza, participar de mais um curso patrocinado pelo BNB.   Esse foi o meu inesquecível primeiro carro, que os sobrinhos chamavam O Fusca de Tio Beto.

Em um tarde de domingo, lotei o fusca com meus sobrinhos. Na frente levava meu sogro que segurava Jacqueline no colo. No banco de trás ia a gurizada, mais de seis sobrinhos. Depois de rodar por toda cidade fui pela rodovia Simão Dias-Lagarto, e chegamos até a bodega do Dunga, que ficava logo depois da ponte do Jovêncio. Na volta, quase em frente à Fazenda São José, surgiu na estrada, inesperadamente, uma manada de carneiros... O choque foi inevitável.  Foi carneiro voar por todos os lados. A frente do fusca ficou retorcida e com os faróis quebrados. Mas ninguém sofreu um arranhão. Saímos ilesos. Somente a frente do fusca ficou destruída. A sorte é que o motor fica atrás, nada sofreu. Recuperados do susto e liberados os pneus da lataria amassada, voltamos a Simão Dias, sendo guiados por Dr. Salustino, que por ali passava e nos dera socorro, clareando a pista com os faróis de seu jipe.

E foi justamente sobre esse fusca, que esta semana, o meu querido Humberto me enviou  o escrito que transcrevo a seguir:

 
O Fusca de Tio Beto

Para começar, Beto não é meu Tio, mas para mim aquele Fusca era do Tio Beto. Eu era apenas um entre os meninos que eram sobrinhos do Tio Beto. Mas o Fusca era de todos nós. Era como se fosse nosso primeiro carro, tal a intimidade com a sua chegada. Claro que o Fusca era novinho, era azul celeste e combinava com Tio Beto, que tem a cor do céu. E era quase como o céu passear no Fusca de Tio Beto para os meninos que tinham nomes de Marco, Marcelo, César, Zezinho, Toinho, Zé Humberto. Era como ir a uma festa de aniversário. Tio Beto fazia graça para todos, era mais uma criança. Posicionava os meninos na garagem apertada para manejar o carro com a sua destreza de iniciante. No fundo da casa onde estava a garagem havia um beco bem estreito, ainda mais estreito que as ruas de Simão Dias. Sair da garagem sem um arranhão era uma vitória e não bater no muro do beco estreito era quase uma final de copa. Nessa algazarra Tio Beto colocava cada um de nós em uma posição para orientar sua manobra. Alguns relaxavam com a tarefa, olhando para o mundo, brincando. E lá vinha o grito de Tio Beto. Presta atenção rapaz! E descia e ameaçava não levar para passear. E tudo voltava a se organizar para a difícil tarefa de sair da garagem. Até o dia da batida no muro. Aquela batida que não se queria no currículo do novo motorista nem no para-choque cor de prata do Fusca Azul Celeste de Tio Beto. Mas, aconteceu. Foi o batismo, pois logo depois de provocar esse abalo que arrancou um pequeno pedaço do reboco do muro, o Fusca viria espalhar algumas ovelhas pelo ar na estrada de Simão Dias para Lagarto, salvando-se todos, inclusive as ovelhas. Não vi essa última cena, mas foi a notícia entre nós na semana, sobre o Fusca de Tio Beto. Hoje, quando me recordo de um Fusca, minha memória vai desenhando e colorindo de azul celeste o Fusca de Tio Beto, que afinal é meu primo e aqui no seu blog nos brinda com seus contos de infância e juventude. Mas, para muitos de nós, não é somente agora que ele nos proporciona essa alegria, com sua irreverência. Ele foi aquele Tio que eu também queria ter e, em certa medida, foi. Humberto Oliveira – primo e admirador (desde pequenininho).


As amáveis palavras de Humberto levam-me a pensar na grandeza de afeto de cada um daqueles meus sobrinhos, que ainda hoje permanecem ocupando lugar de destaque no meu coração idoso. E, para mim, o Humberto continua sendo sobrinho do Tio Beto...

Aracaju, 29/11/2012.

Beto Déda