sexta-feira, 8 de abril de 2016



LEMBRANÇAS DO CIRCO NERINO E OUTROS ACONTECIMENTOS CIRCENSES EM SIMÃO DIAS.

Na última semana, quando escrevi sobre o serviço de alto-falantes de nossa cidade, dois fatos levaram-me a recordar de espetáculos circenses que aconteceram em nossa terra. Primeiro foi a lembrança de um vídeo com o saudoso Floriano Nascimento (fita em VHS que infelizmente ainda não consegui recuperar); depois foi um comentário do primo Heraldo Déda sobre o Circo Nerino.

Na entrevista que fiz com o Floriano, conversarmos sobre os serviços de alto-falantes existentes em de Simão Dias nos anos 50 e, de modo especial a TUPY, que tinha um horário dedicado ao programa “A Crônica do Dia”. Eram lidos artigos escritos sobre a cidade, muitos deles de autoria de meu pai e de tio Sininho.

Conservo em meus arquivos o original de um dos artigos escritos por meu pai e lido pelos locutores da Tupy: “Simão Dias e o Circo Nerino”. Ao escrevê-la meu pai usou o pseudônimo: Tio João.

O Nerino foi o maior circo que se apresentou em nossa cidade. Não só pelo tamanho, como pela variedade e qualidade do espetáculo, quer no picadeiro ou nas peças teatrais. Daquele tempo, recordo-me de alguns pontos marcantes: o palhaço Figurinha, a apresentação dos cavalos amestrados e uma peça teatral denominada “A louca do jardim”. Em um dos atos dessa peça aparecia uma das artistas, interpretando a louca, com os cabelos desgrenhados e que, a um só tempo, chorava e dava longas gargalhadas. Durante algum tempo, quando deparávamos com uma garota em exagerado choro, apelidávamos de “louca do jardim”, lembrando a personagem bipolar da peça circense.

Outra lembrança era a cestinha de vime, que bonitas garotas do circo portavam para vender guloseimas entre os espectadores. Foi a primeira vez que presenciei a venda de maçãs em Simão Dias: maçãs vermelhas, “in natura”, que irradiavam um perfume inconfundível (as frutas de hoje não exalam o cheiro como as de antigamente), e maçãs embebecidas em caldas de açúcar com anilina vermelha, espetadas em palitos de picolé, conhecidas como maçãs do amor. Tudo, mas tudo mesmo era uma novidade maravilhosa para os meninos, como eu, tabaréus do interior.

Depois do Nerino, muitos circos de menor tamanho se apresentaram na cidade. Cada estreia era motivo de contentamento para a gurizada. Geralmente os circos menores anunciavam os espetáculos por meio de seus palhaços, que percorriam as ruas da cidade, no alto de pernas de pau, empunhando um megafone artesanal (um cone de zinco parecendo um funil) para ampliar o som. O palhaço era seguido pela meninada, batendo pedras entre as mãos e cantando em coro. Lembro-me que eu também participei da turma que acompanhava o palhaço.

Certa vez, juntei-me aos colegas de futebol da Praça de São João: Tonho e João de Seu Manequinha, Miraldo de dona Zifinha, Sorrindo, Rosalvo, Zelito e outros. Fomos todos ao bairro Bonfim, onde o circo estava armado, para acompanhar o palhaço pelas ruas da cidade, batendo pedrinhas e respondendo suas chamadas em canto uníssono:
Oh, raia o sol, suspende a lua:
Olha o palhaço no meio da rua.

 Hoje tem espetáculo?
Tem sim, senhor!

Começa às oito horas de noite?
Começa sim, senhor!

Tem goiabada?
Tem sim, senhor!

 Tem marmelada?
Tem sim, senhor!

E o palhaço o que é?
Ladrão de mulher!

Arrocha meninada!

Ihhhhhhhhh (gritava a garotada). E ouvia-se o incentivo do palhaço: “Mais um pouquinho, turma...”, “Mas um bocadinho... E nossos gritos e o som da batida de pedras ecoavam pelas ruas de Simão Dias.

 Depois, o palhaço pintava o pulso de cada garoto com uma marca de tinta preta, de modo a permitir a entrada grátis no circo.

Naquele dia, eu fiz um esforço medonho enquanto tomava banho, de modo a não molhar o pulso e evitar que a marca desaparecesse.
Mas à noite, quando me preparava para o café com o delicioso cuscuz de milho ralado, minha mãe notou que meu pulso estava sujo. Olhou com cuidado e uma de minhas irmãs exclamou:

- É a marca dos meninos que batem pedra e gritam acompanhando o palhaço. Com essa marca entram no circo sem pagar.
Minha mãe desaprovou meu comportamento, levou-me ao lavatório próximo à sala de jantar, lavou meu pulso, apagou a bendita marca e passou-me um sermão.

Naquela noite não saí de casa. No entanto, embora fosse fã de espetáculos circenses, não fiquei chateado. O melhor já tinha acontecido, quando juntamente com meus colegas da Praça de São João acompanhei o palhaço, cantando alegremente e batendo pedrinhas na palma da mão.
Foram momentos de imensa alegria e que ainda hoje permanecem indeléveis em minha memória.

(PS – Estas lembranças eu dedico aos amigos e companheiros dos velhos tempos e, de modo especial, ao saudoso Floriano Nascimento).

ARACAJU, 08/04/2016
BETO DÉDA

A seguir cópia do artigo escrito meu pai. Vejam que beleza de artigo:


 
Primeira página da crônica escrita por Carvalho Déda: Simão Dias e o Circo Nerino.
 


Página 2 da crônica escrita por Carvalho Déda: Simão Dias e o Circo Nerino.

Página 3 da crônica  escrikto por Carvalho Déda: Simão Dias e o Circo Nerino.

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 7 de abril de 2016


AS PIRUETAS DE MEU NETO E AS LEMBRANÇAS DA CANÇÃO "MEU PRIMEIRO AMOR" TOCADA NO SERVIÇO DE ALTO-FALANTES TUPY.
 
Domingo passado, meu neto brincava sozinho e – fingindo que não estava me vendo – fazia caretas e gestos para que eu percebesse e risse.
 
 
Lembrei-me, então, que nos velhos tempos, eu fazia também minhas palhaçadas para admiração dos outros, sem demonstrar que os via, embora de soslaio me certificasse de que era percebido.
 
 Recordo-me, agora, das piruetas esquisitas que fiz para impressionar minha primeira namorada. Eu devia ter 12 anos de idade e a garotinha morava próximo a minha casa, na Rua dos Ribeiros. Era o tempo em que o namoro acontecia através da troca de discretos olhares. Somente depois de muita conversa e aproveitando-se de um descuido, conseguia-se um ligeiro e roubado beijo. Coisas dos meninos daquela época.
 
As lembranças de minhas peripécias como iniciante galanteador fizeram vir à memória dois pontos interessantes dos bons tempos: a canção “Meu Primeiro Amor”, cantada por Cascatinha e Inhana, e o serviço de alto-falantes denominado “TUPY”, que nos anos 50 funcionava em Simão Dias e tocava aquela saudosa música.
 
 A sede da Tupy ficava na Rua do Coité, em uma sala estreita, com um batente alto, próximo à casa de Dr. Belmiro Gois. O serviço de som era transmitido por diversos alto-falantes, distribuídos em pontos estratégicos da cidade: na Rua do Coité (em frente ao Bar de Valério), no Bonfim (em frente à casa de Dão Rodrigues), na Rua do Pastinho (em frente à tenda de Seu Caboclo), na Rua da Feira (entre a Prefeitura e a Loja de Elísia Montalvão) e outros lugares. Os principais locutores eram Floriano Nascimento e Demerval Guerra.
 
As pessoas iam à sede da Tupy, pagavam uma pequena taxa e faziam bilhetes parabenizando os aniversariantes e dedicando músicas de cantores de sucesso (Emilinha Borba, Orlando Silva, Marlene, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Sílvio Caldas, Carlos Galhardo, Ângela Maria, Ataulfo Alves e outros não menos apreciados). Os rapazes trocavam delicadezas com as moças, oferecendo músicas e enviando mensagens codificadas.
 
Não obstante minha pouca idade, lembro-me que mais de uma vez fui até a sede da Tupy e, sorrateiramente, deixava sobre o balcão, próximo ao locutor, um bilhete dedicando uma música para minha primeira namorada. E ficava atento, esperando que transmitissem a minha mensagem e tocassem a música escolhida.
Com um sorriso largo, olhando a garota a pouca distância, ouvíamos o inesquecível timbre de voz do Floriano Nascimento, ao anunciar minha mensagem:
- Para a garota de olhos meigos da Rua dos Ribeiros vai esta canção que lhe dedica um jovem admirador...
 
E rolavam o disco de Sílvio Caldas: “A Deusa da minha rua”.
 
 Acontecia, então, a apoteose do meu devaneio ao perceber o leve sorriso dos olhos meigos aprovando meu galanteio...
 
Aracaju, 02/04/2016
BETO DÉDA

quarta-feira, 16 de março de 2016


Relembrando o Grupo Escolar Fausto Cardoso.
Na última sexta-feira, dia 11, estive em Simão Dias, participando da Abertura da Exposição Fotográfica Déda Presente (Fotografias de Janaína Santos e de Marcelo Déda). A solenidade aconteceu no Grupo Escolar Fausto Cardoso, onde Marcelo estudou e naquele dia, se vivo estivesse, ele completaria 56 anos de idade.


A data foi escolhida para iniciar a fase itinerante da Exposição Fotográfica que homenageia a história de um homem e gestor público que, com apenas 53 anos de vida, realizou mudanças significativas na vida dos sergipanos.
 
Foi uma homenagem bonita, com interpretação de poemas de autoria de Marcelo e apresentação da orquestra de jovens do Bairro Santa Maria, de Aracaju, que ele foi um grande incentivador.
 
Não é demais dizer que me emocionei com as palavras dos oradores e, de modo especial, as de Belivaldo Chagas ao lembrar as brincadeiras dele e do meu saudoso sobrinho quando eram alunos daquela escola.  

 

O Grupo Escolar Fausto Cardoso nos encanta pela tradição do bom ensino e nos orgulha saber que alisaram seus bancos conterrâneos ilustres que honram Sergipe: políticos (governadores, senadores, prefeitos, deputados e vereadores), juristas (desembargadores, juízes e advogados), intelectuais (atores, poetas, escritores e jornalistas). Muitos deles imortalizados em Academias de Letras do nosso Estado. 
 
Já escrevi para os amigos do facebook e os leitores desse blog  algumas lembranças de nossa tradicional casa de ensino. Repasso algumas delas para avivar a memória dos conterrâneos.
 
Dizem os mais velhos que aquele prédio foi construído no século passado, lá pelos anos 20, e que a águia que encima o seu topo representava a marca do governo Graccho Cardoso. Era, e ainda hoje é, um prédio imponente, com suas escadarias, cujos corrimãos, também de cimento, deslizávamos em rápidas descidas, puindo os fundilhos de nossas fardas.
 
Muitas são as recordações que tenho do velho grupo escolar. Para início, vamos lembrar o hino e do jornalzinho de nossa escola.
O Canto Orfeônico

Além das aulas normais do curso primário, a querida Prof. Olda do Prado Dantas também ensinava canto orfeônico. E suas aulas transbordavam bondade e alegria. Aprendíamos os hinos pátrios e outros cantos, dentre os quais o que chamávamos de “pastorzinho que solfejava”, de refrão inesquecível:
“Havia um pastorzinho, que vivia a cantar: dó-ré-mi-fá...fá-fá... dó-ré...ré-ré... sol-fá-mi...mi-mi... do-ré-mi-fá...fá-fa”

Todos os dias, no início e no final do turno, tia Vina Déda ou d. Rosália tocava o sino e todos os alunos perfilavam-se no grande corredor para cantar o hino escolhido para dia (Hino Nacional, da Independência, da Bandeira etc.), culminando sempre com o hino do próprio grupo, de letra do meu saudoso pai, que além de outras atividades era inspetor escolar e foi diretor daquele Grupo. Relembro aqui os versos de nosso hino:
 "Somos do Grupo Fausto Cardoso/
Disciplinados estudantes.
Cada estudante, um corajoso
E cada mestre, um bandeirante.

 
A escola chama, a pátria quer
Que a juventude venha aprender/
Os nossos livros são os instrutores
Que nos ensinam a combater.

 
A pátria quer que o juvenil,
Estudioso e varonil,
Seja a defesa do Brasil."
 
E cantávamos, com muito garbo, sob a regência da querida professora Olda. Bons tempos, felizes dias...

O jornalzinho “O Ideal”
 Embora não tenha sido do meu tempo, dizem os que ali passaram em épocas anteriores, que o grupo escolar tinha um jornalzinho, intitulado “O IDEAL”, fundado no ano de 1934 pelos alunos do 4ª ano e publicado sob a supervisão do diretor da escola.
 
 É verdade! Sua publicação se estendeu até a primeira metade dos anos 40, conforme atesta o exemplar que escapou da voraz ação do tempo; uma edição de 1º/Out/1942, época que a cidade tinha o nome de Anápolis.
 
No ano de 1942 a diretoria do jornalzinho era composta dos seguintes alunos: o diretor era José Rosa Montalvão, irmão de Hélio, de Iolanda e tio de José Carlos Montalvão; o secretário era José Matias Neto – sobrinho de Francisco Matias–; o tesoureiro era Alexandre Cardoso da Silva, filho do José Leonel, irmão de Pedro, Cecília e Rita Cardoso.
 
Escreveram nesse exemplar que conservo em meus arquivos (número 36, de 1º/out/42): além dos diretores, os seguintes alunos: Valdeci Oliveira Fonseca (filha de Messias Fonseca, gerente dos Correios/Telegrafo), Maria Conceição Santos, Josefa Correia Santos, Marieta Fonseca, Valdeci Guerra (filha de Cícero Guerra), Zaíra Oliveira (filha de Milton Oliveira), Mariolanda, Francisco Teles e Diógenes Carvalho. Também tem um artigo de meu pai: “Reminiscências Anapolitanas”. Ele era o diretor do Grupo Escolar, orientador e supervisor do jornalzinho e nesse artigo usou o pseudônimo CARDÉ (sílabas iniciais de Carvalho Déda).

Vejam a seguir fotografias de formaturas dos anos 40 e 50 e as páginas do jornalzinho do Grupo Escolar Fausto Cardoso, de Simão Dias, que na época era denominada “Anápolis”.
Aracaju, 15/03/2016
Beto Déda


Turma de 1941

 


Turma de 1953
 
Primeira página da jornal O Ideal - do Grupo Escolar Fausto Cardoso. O artigo "Reminiscências Anapolitanas" foi escrito por Carvalho Déda, que era o Diretor do Grupo Escolar e que incentivou a publicação do jornalzinho.


Nesta segunda página, nota-se o Expediente do jornal, com os nomes dos alunos dirigentes, e notícias escritas pelos estudantes.

Na 3ª página vemos também outras notas e artigos escritos por estudantes.


Na 4ª página, o Balancete da prestação de contas e outros artigos escritos pelos alunos.
 


segunda-feira, 7 de março de 2016



“A PIADA DA SEMANA”

Na última sexta-feira tive a grata satisfação de relembrar os bons tempos que trabalhei editando um jornal com meu pai. Foi em conversa com minha filha Carla e o genro Flávio, logo depois de um jantar no apartamento deles. Não é demais dizer, aqui, a minha alegria ao perceber em suas expressões o interesse e curiosidade pelos fatos que narrava.

De modo que, repasso para eles, e também para os que se interessam pela imprensa de nossa terra, as lembranças das xilogravuras feitas por meu pai e publicadas no jornal “A SEMANA”, por ele editado em Simão Dias, no período de 1946 a 1969. Foi o primeiro jornal em Sergipe a publicar uma seção de charges.

Naquela época, para impressão de imagens em jornais, as fotos eram gravadas em relevo sobre zinco. Tais chapas para impressão eram denominadas clichês. A gravação de fotografia em clichê era realizada em Aracaju, em um laboratório que ficava na Rua 7 de Setembro ou Vitória Torta e, anos depois, nas oficinas da Gazeta de Sergipe, do saudoso Orlando Dantas. Muitas vezes eu fui àquelas oficinas com fotos para gravação em clichês.

De ver-se que tal gravação não só demandava tempo como também era dispendiosa ($$$$$$).

Essas duas importantes dificuldades estimulam a criatividade. E foi assim que meu bom pai (José de Carvalho Déda) resolveu dedicar parte do seu passatempo em fazer xilogravuras. 

O meu velho era folclorista, gostava de folhetos da literatura de cordel, e foi nas capas desses folhetos que ele conheceu a xilogravura: técnica de entalhar na madeira a figura que se pretende reproduzir.

Nos idos de 1959, em seu ostracismo político, depois de atuar por doze anos (1947/1958) como Deputado Estadual, meu pai aproveitava seus intervalos nas lides advocatícias fazendo xilogravuras para ilustrar o jornal “A Semana”, por ele editado.

Para realizar o intento, ele já contava com a habilidade no uso de estilete, adquirida quando ainda era jovem, no corte de moldes de pelica para fabricação de sapatos. Mandou cortar pedaços de madeira (peroba rosa) com espessura igual ao da altura dos caracteres tipográficos, e, em maio de 1959, iniciou suas xilogravuras.

Com muita imaginação e humor ele desenhava a figura na prancha de madeira e, pacientemente, usando um estilete, desbastava a tábua, deixando gravados, em relevo, apenas os traços da caricatura.

Com essa técnica, seu Zeca Déda, como era conhecido em Simão Dias, fez mais de quatrocentas xilogravuras, publicadas no jornal “A SEMANA”.

As caricaturas satirizavam fatos políticos de repercussão local, estadual ou nacional e foram publicadas em uma seção denominada “A Piada da Semana”.


São antológicas as charges sobre a alta de preços, a falta de iluminação na cidade, a votação de cacareco e do bode cheiroso, as disputas eleitorais, caso diplomático entre Brasil e França (pesca da lagosta) e a força dos militares no poder.

Para aperfeiçoar seus cartuns, inventou um processo artesanal de impressão em três cores e publicou por um período as charges coloridas.

Também desenhou perfis de personalidades políticas e militares para ilustrar as notícias publicadas.

Mesmo depois do falecimento do saudoso chargista, ocorrida em 02 de setembro de 1968, o jornal “A SEMANA”, sob nossa direção, continuou com a seção “Piada da Semana”, republicando algumas de suas charges, registrando o pseudônimo (Zelis), por ele escolhido e expresso às vésperas de nos deixar.

Lamentavelmente, perdeu-se com o passar dos tempos as pranchas de madeira (xilogravuras) originais, que o seu autor denominava de ”clichês artesanais”.

Não obstante a perda das pranchas originais, evoquei a lição de criatividade do meu pai para preencher a falta. Então, com paciência, fotografei e guardo em arquivo virtual todas as xilogravuras feitas por ele e publicadas no jornal.

Assim é que, nesta oportunidade, apresento aos amigos que gostam de boas lembranças uma pequenina parte do meu acervo.

Aracaju, 29/02/2016

BETO DÉDA

domingo, 10 de janeiro de 2016

O califom, a bolsa e o bolso
No primeiro domingo deste ano levei meus netos para curtir a iluminação do Parque da Sementeira, ornamentado em comemoração ao Natal.
Foi lá que avistei aquela senhora corpulenta, de fisionomia simpática e respeitável, com cabelos curtos, tingidos com um azulado bonito.  Aparentemente ela estava com os netos. Como a maioria das pessoas ali no parque, ela também tirava fotos das crianças,  usando um celular. Fotografou à vontade e depois, para minha surpresa, puxou o decote da blusa e colocou a máquina dentro de seu califom. Amparou o celular no calor de suas volumosas mamárias.
Lembrei-me então que em minha terra era costume das matronas usarem o califom como bolso. Embora atualmente o termo “califom” seja pouco usado, nos velhos tempos era assim que se chamava a peça íntima que as mulheres usavam para sustentar os peitos. Hoje é mais conhecido como sutiã. Outro dia ousei falar o velho termo e fui repreendido. Os mais novos pensavam que era um palavrão.
Mas ao pensar no uso do califom da simpática coroa, despertou-me três lembranças inesquecíveis de bolsas e bolso (Em Simão Dias era comum usava-se também o termo algibeira para designar bolso).

A primeira delas é uma recordação antiga: a bolsinha de níqueis do Padre Madeira. Era o tempo em que os padres usavam batina preta, com discretos  bolsos. Quando avistávamos o Padre Madeira, corríamos ao seu encontro e, estendo a mão, pedíamos a sua bênção.

O bondoso pároco nos abençoava, metia a mão no bolso e tirava uma bolsinha de couro marrom, que usava como porta-níqueis, e nos presenteava com tostões. E a alegria tomava conta de nossa mente. 
A segunda lembrança foi a bolsa que o Broco da Usina usava a tiracolo. Broco era o zelador da Usina Elétrica, que ficava na Praça de São João, em prédio vizinho à Cadeia Pública. A Usina fornecia energia para a cidade e era administrada por Seu Zuzu, um conhecido técnico em mecânica.
O Broco parecia com a figura de Dom Quixote desenhado por Gustave Doré (ilustrador da obra de Miguel de Cervantes: Dom Quixote de la Mancha). Era surdo, magro, barba rala com cavanhaque, usava um pequeno e surrado chapéu de couro e uma bolsa de pele de bode a tiracolo, onde carregava miudezas, fumo, cachimbo e um canivete. Caçoávamos do enigmático zelador, mas, ao vê-lo pegar a bolsa, corríamos pensando que ele estava sacando o canivete para nos atacar.  Medo sem sentido, coisa de criança. O Broco não fazia mal a ninguém. Usava o canivete para picar o fumo do cachimbo. Ademais era surdo, não ouvia a pirraça da meninada.
A terceira lembrança é a do bolso do paletó de meu pai.
 Certo dia minha querida irmã Maura ganhou uma bonita fita larga (antigamente as meninas usavam nos cabelos bonitos laços de fita coloridas). Para guardá-la, Maura procurou um lugar que as demais irmãs não ousassem malinar. Foi então até o guarda-roupa do quarto de casal e guardou a fita no bolso de um dos paletós de papai. Acontece que no dia seguinte meu pai usou justamente o paletó que serviu de cofre para Maura.
À tarde, na sala de visitas de nossa casa, meu pai estava conversando animadamente com seu amigo, o Desembargador Gervásio Prata, quando, de repente, começou a espirrar. Incontinenti meteu a mão no bolso do paletó para pegar o lenço. Quando puxou, veio a surpresa: ao invés do lenço estava a fita larga berrante.  Aí então os dois deram boas risadas. Depois, na hora do jantar,  meu pai não perdeu a oportunidade de chamar Maura para justificar a hilariante situação.
Daquele dia em diante, a meninada da família não mais ousou guardar quinquilharias em bolso de paletó.
Aracaju, 10/01/2016

Beto Déda

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O Frustrado Namoro na Ponte do Caiçá.


Tal um computador que guarda velhos arquivos, da mesma forma nossa cachola conserva lembranças que marcaram nossa vida. E um simples olhar ou apenas um fiasco de luz tem a magia de provocar em nossa mente o recuo do tempo e nos transportar ao passado, revivendo emoções.

Grupo Escolar Fausto Cardoso - Simão Dias - Sergipe
Recentemente, a centelha que ativou minha memória foi o rosto de uma mulher, provocando-me recordações bem antigas, da primeira metade dos anos cinquenta, quando eu estudava no Grupo Escolar Fausto Cardoso, em Simão Dias.

O que vou repassar para os amigos é um idílico caso que aconteceu quando os alunos do Grupo Escolar ensaiavam o desfile cívico que aconteceria no dia festivo da independência. Treinávamos a marcha, ouvindo o rufar dos tambores, em volta da Praça de Matriz e pelas ruas circunvizinhas.

Minha pose. Todo concho, envergando a farda
do Grupo Escolar Fausto Cardoso
Eu fazia parte de um grupo de cinco amigos, com idades entre 12 e 14 anos: eu, Zé Carlos, Hamilton, Aloísio e Dória.  Tínhamos namoradas que eram amigas comuns e sempre estávamos a marcar os lugares onde podíamos nos encontrar. Naquela época, em nossa idade, o namoro não ia além de um beijo rápido e um abraço furtivo. Embora se tratasse de namoros inocentes dos anos cinquenta, por razões óbvias, não revelo o nome das meninas. 
  
Em uma tarde, depois do treinamento para o desfile, nos reunimos com as garotas para marcar um encontro. Era nosso propósito conhecer a nova ponte sobre o Caiçá, que ficava próximo ao curtume de Seu Cassimiro, no início da estrada para Pinhão. Todos diziam que era uma vista maravilhosa. 

Acontece que apareceu um colega apelidado de Niño, que queria participar da turma. Não foi aceito. Em represália, saiu a espalhar boatos sobre o namoro, juntou-se a outros garotos e passaram a nos seguir. Separamo-nos das meninas e iniciamos uma correria sem limites. Saímos da Praça pela casa dos Dória, que ficava vizinha à de tio Sininho. Saímos pelo portão dos fundos, onde ficava o Sítio de Juca Matos, descemos pela ladeira de Roque e fomos parar na Praça São João, no portão de minha casa, despistando o grupo que nos seguia.  

Resolvido o problema da perseguição, surgiram outros bem maiores: os fuxicos e mexericos. Primeiro dos guris que imaginavam e inventavam situações que não aconteceram. Inclusive anunciando que fomos surpreendidos namorando embaixo da ponte do Caiçá, na estrada para Pinhão.

Um colega, que tinha o apelido de Ratinho, foi até à casa de uma de nossas Professoras e anunciou em voz escandalosa:
- Professora, sua irmã está ‘namorando’ o Aloísio embaixo da ponte do Caiçá...

Espalhado o boato, daí em diante o assunto escapou da alçada dos guris e passou a ser dominado pelos adultos, com os acréscimos próprios dos que atingiram a maioridade. E o pretenso caso do namoro na ponte transformou-se no comentário número um da cidade.

Então surgiram invenções com detalhes escandalosos: que foram encontradas calcinhas na beira do Caiçá; que avistaram um de nós correndo nu, com as calças na mão; além de outras invencionices impublicáveis...

E a notícia chegou aos nossos pais com as consequências previsíveis. Ao anoitecer daquele dia, escondido na sala da frente de minha casa, ouvi quando Seu Chico, que também morava na Rua dos Ribeiros, encontrou-se com meu pai e foi dizendo:
- Zeca, já soube do acontecido com nossas crianças na ponte do Caiçá?
E contou o que tinha ouvido dos outros, esclarecendo que já disciplinara seu filho Hamilton com uma boa surra.  Encerrou seu comentário com uma informação que sugeria sova para mim:
- O seu Beto também estava lá...

Evitei encontrar-me com papai. Procurei refúgio na casa de tia Nice, onde fui ajudá-la no pilão, a amassar arroz para fazer cuscuz para o jantar. Esperei o tempo passar e meu velho esquecer o fuxico. O certo é que papai foi cuidar de outros assuntos de maior urgência e eu me livrei da parte lisa do seu tamanco, que era sempre usado para nos disciplinar.
...

E hoje, mesmo sem esquecer a frustração do encontro na ponte, sentimos alegria ao recordar o riso simpático das queridas garotinhas dos bons tempos do Grupo Fausto Cardoso.

Aracaju, 20/12/2015

Beto Déda

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Mas afinal, quem era o intelectual “Simeon de Sá Bazu”?

Nesta semana andei lá pelo centro da cidade e, passando pela Praça Fausto Cardoso, lembrei-me do tempo que fui redator da Secretaria de Imprensa no Governo do Dr. Celso Carvalho, que era meu conterrâneo e padrinho. A Secretaria ficava no Palácio Olímpio Campos, em uma sala em frente ao Gabinete do Governador.  Os trabalhos de redação e divulgação eram comandados por um funcionário público que redigia bem, sabia discursar e, como era versado em ritos cerimoniais dos governos, também organizava os atos públicos em que o governador participava.
Lembro-me muito bem que o dito servidor era gordo, tinha uma barriga avantajada e um bigodinho que lembravam o Sargento Garcia dos filmes de Zorro. Mas, à boca miúda, a galera aplicava-lhe apelidos engraçados, alguns inconvenientes, realçando sua grande pança; outros evidenciavam que seu interesse estava mais ligado ao palácio do que aos governantes, atribuindo-lhe o apelido de “Gato de Palácio”.
A verdade é que ao redator-chefe tinha uma verve fantástica e sabia muito bem usá-la nos atos em que lhe permitiam a palavra. Gostava de discursar e, muitas vezes, mesmo estando sozinho em seu gabinete, ouvíamos seus brados inflamados, algumas vezes a verberar contra pessoas que fugiam de seu agrado, usando impropérios, acusando-os de comunistas.
Certa vez tive um desentendimento forte com o chefe de redação. Tudo porque eu usava as horas vagas para escrever artigos que eram publicados no jornal “A Semana”, editado por meu pai em Simão Dias.  Eram artigos simples, que escrevia sob o pseudônimo “Berto”, em que sempre focalizava um personagem de minha terra.
O artigo que escrevia e que deu origem à discussão com o redator-chefe.
Em uma manhã monótona em que nada se tinha a fazer, eu estava no meu birô, datilografando um artigo sobre o vendedor de quebra-queixo, quando se aproximou o chefe e, acintosamente, bisbilhotando o que eu fazia, iniciou uma discussão que culminou com ofensas mútuas. No mínimo fui chamado de comunista e, no vigor da minha juventude, respondi com firmeza e no mesmo tom de voz, usando os apelidos inconvenientes.  Foi um bafafá que repercutiu nas demais repartições do Paço Olímpio Campos. Saí da sala da imprensa dizendo que não mais trabalharia ali.   Fui socorrido por vários amigos, que me deram razão e se mostraram solidários, entre eles: o Secretário da Casa Civil e o Coronel Chefe da Guarda do Palácio.
O fato é que larguei o ofício de redator do Diário Oficial e fui promovido à Oficial de Gabinete do Governador. E a promoção não foi exclusivamente porque a razão estava ao meu lado. Eu era um simples garoto e o que realmente pesou foi nome do meu pai, que me deu irrestrito apoio, e o poder de decisão do meu conterrâneo e padrinho.
Passado o entrevero, mesmo desconfiados, tivemos que manter o diálogo e continuarmos a conversar por força do trabalho.
Pois bem. Como disse alhures, o redator-chefe adorava discursar e era considerado por muitos como um grande orador. Sabia dosar as palavras e gostava de citar grandes pensadores, dentre os quais um que sempre me deixou curioso: Simeon de Sá Bazu (ele fazia um biquinho para realçar a pronúncia francesa do “U” como se fosse um “i”).
Em seus discursos ele exclamava com ênfase:
- “Como dizia o grande filósofo e pensador francês ‘Simeon de Sá Bazu’, a vida nos apresenta momentos de grandes emoções...”
E por aí seguia seus inflamados discursos.
Em determinada tarde, impressionado ao ouvir a repetição do nome do ilustre pensador francês, minha curiosidade espanou o receito e, com esforço, ousei perguntar ao celebrado orador quem era realmente o filósofo Simeão de Sá Bazu.
Ele olhou-me sorridente, mostrando seus dentes frontais separados, e me surpreendeu com um resposta clara, simpática e sincera:
- Ora, ora, caro jovem. No mundo dos grandes oradores tudo é possível. Quando a memória falha, o improviso preenche a lacuna. Na verdade, o Simeon de Sá Bazii não é ninguém mais, nem menos, que o moleque SIMÃO, FILHO DE DONA BAZU, a baiana morena que vende acarajé e cocada ali na Rua de Pacatuba...
Aracaju, 08/12/2015

Beto Déda