quarta-feira, 20 de julho de 2016


HISTÓRIAS “PENOSAS” PARA OS DE MAIOR IDADE.
Antes de qualquer coisa, aqui vai uma pergunta pertinente para os dias atuais: quando se inicia a maior idade para se ouvir histórias “penosas”? Com 14, 16 ou 18 anos?  Não sei e não entro na discussão. Como sou da velha guarda, melhor é que menores de 18 anos não leiam estas “mal escritas linhas”. 
Para meu tio Paulo, que gostava muito de contar tais histórias, a palavra "penosa" tinha o sentido especial, ou seja, dava ideia de coisa maliciosa, picante, sensual. Um simples fato da vida era transformado por ele em uma “história penosa”, que usava para abrir sorrisos e alegrar os ambientes.  Para ele tais histórias não serviam para os de menor idade.
 Em uma de minhas conversas com tio Paulo, lembrando coisas de nossa cidade, falei sobre as balas envolvidas com figurinhas de jogadores de futebol, vendidas logo após a seleção brasileira ser campeã mundial, em 1958. Então ele lembrou o caso das famosas “Balas Bil”.
Dizia ele que, naquela época, apareceu em Simão Dias uma engraçada senhora carioca, com um sotaque forte, que impressionava as pessoas.  Esta senhora foi até o Bar de Valério comprar umas Balas Bil, muito apreciadas pela garotada, para distribuir com seus sobrinhos. Foi atendida por seu João Fontes que era balconista do bar. Depois de distribuir as balas com a meninada foi fazer o pagamento. Espantou-se com o valor informado por seu João, e manifestou seu espanto, deixando admirados os que estavam no bar e ouviram suas palavras. Exclamou ela em tom de protesto, formando um cacófato, em que ficava evidente um termo (xibiu) que, em nossa região, tem  o sentido chulo de vulva:
 - Xiiii Bil está muito caro nesta terra...
...
Meu tio sabia dosar com graça os causos que contava e o fazia transbordando humor. Aqui vai outra história penosa. Contou-me que uma vez apareceu na cidade um sujeito esperto que dizia saber falar com os animais. Era apenas um ventríloquo. Ele tinha parentes que trabalhavam na Fazenda "Chora Menino" e foi em direção àquele local juntamente com um garoto guia. No meio da estrada, para impressionar o guia, começou a usar sua especialidade como ventríloquo e simulava conversar com os animais. Primeiro com o boi, depois com o porco e  em seguida com um jumento. O guia ficou boquiaberto com aquilo e pensou: “Não é que o danado sabe falar com os bichos”. Continuaram caminhando, mas, de repente, o garoto ficou apavorado. É que lá na frente estava sua ovelha preferida e que ele usava para aliviar suas comichões. O visitante olhou a ovelha e percebeu o apavoramento do guia. Então exclamou: “Olá, amiga ovelha, como meu guia vem lhe tratando?” E ele mesmo começou a resposta: “Ora, tem me usado...” Então o rapazola interrompeu imediatamente a conversa:
-Moço, é melhor não conversar com esta ovelha. É uma bicha mentirosa e considerada como a maior ‘levantadeira’ de aleive desta redondeza. Esqueça a lanzuda, converse com o pato...
...
Dando o dedo pé
E tinha a historia de um menino danado de Simão Dias, cheio de sardas, que de tudo fazia uma molequeira. Dizia meu tio que o garoto era tão safado que sabia fazer pornografia com o dedo do pé.  Mostrava o dedo do pé imitando o que outros fazia com o da mão. Tudo que lhe perguntava, ele respondia usando uma pulha ou um palavrão. A maior satisfação do garoto sardento foi quando começou a estudar inglês no ginásio. Ele ficou vidrado quando a professora começou a ensinar o verbo “To Be”, especialmente quando ouviu a pronúncia “tu-bi”, igual ao termo usado na cidade para designar o órgão genital feminino. Em determinado dia, vendo a Professora de Inglês passar, ele não se conteve e exclamou: “Lá vai um grande tubi”. A mãe ouviu, não gostou e reclamou. A justificativa do garoto foi imediata: “Ora, ora, estou aprendendo inglês e dizendo que a professora é um grande tubi, ou seja, um grande ser. Sacou?...
Certa vez, para provocá-lo, tio Paulo indagou: “Madeirinha, faça uma rima com a palavra anão”. O garoto pensou um pouco e, não encontrando melhor rima, saiu-se com essa: “Anão, anão mais com uma pinta destamanhão” . E fazia um gesto separando as mãos para demonstrar o “destamanhão”...
Aracaju, 20/07/2016

BETO DÉDA

terça-feira, 12 de julho de 2016

Lições do passado.
Recentemente, depois de ler um de meus textos, um amigo disse-me que eu tinha um estilo parecido com o do meu pai. Especialmente no que diz respeito à linguagem simples e direta. Não foi a primeira vez que me disseram isto. Nem é preciso dizer que fiquei demasiadamente feliz com a grata comparação.
De meu pai tive um aprendizado muito grande. Desde garoto me acostumei a ler e gostar do que ele escrevia. E tem um detalhe importante: como aprendiz e tipógrafo, eu fazia questão de compor os textos por ele escritos, juntando no componedor os tipos de chumbo para edição do jornal “A Semana”. Foi um treinamento valioso para minha formação.
Lembro-me, agora, de uma das mais gratas lições do meu pai. Estava certa tarde na sala da frente da redação do jornal, lendo um gibi. Meu pai aproximou-se, olhou o que eu estava lendo, foi até uma de suas estantes, pegou um livro e me disse: “Se você quer conhecer boas histórias, leia este livro”.  Era um dos exemplares de sua coleção do escritor Malba Tahan, com o título “Lendas do céu e da terra”. Fiquei encantando com a leitura do primeiro livro. Daí em diante eu comecei a ser um assíduo leitor e admirador do autor de “O Homem que Calculava”; passei também a conhecer os encantos da biblioteca de meu pai.
Tempos depois, no final dos anos cinquenta, quando eu era aluno interno do Ginásio Jackson de Figueiredo, voltei a lembrar da lição de meu pai. O diretor Benedito Oliveira designou-me a comparecer ao Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe para assistir à palestra “A arte de contar história”, proferida pelo professor catedrático do Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, Júlio Cesar de Mello e Souza, que era mais conhecido pelo pseudônimo Malba Tahan, que usava ao escrever suas famosas histórias.  
Para mim foi uma satisfação imensa e, até hoje, não esqueço uma parte da explanação do grande escritor, na qual ele dizia que o simples fato da saber escrever não era suficiente para ser um bom contador de história. E apresentou um exemplo que ficou inculcado em minha memória.  Tentarei passar para os amigos o que ouvi do grande Malba Tahan.
Dizia ele que um garoto estudante, que vivia na roça, aproximou-se do pai e perguntou o que significava o vocábulo “FENÔMENO”, termo que a professora pedira para ele descrever como dever de casa. O pai não era letrado, mas sabia das coisas e tinha sua maneira própria de se fazer entender. Então, pensou um pouco, olhou para o filho e disse:
- Está vendo esta vaca? E antes que o filho dissesse qualquer coisa, ele completou: “Ela não é um fenômeno”.
- Está vendo aquela casa? E acrescentou: “Ela também não é um fenômeno”
E ante o olhar interrogativo do filho, concluiu:
- Mas, quando você notar que esta vaca subiu no telhado daquela casa, aí meu filho, você estará diante de uma raridade, uma coisa fora do comum: um FENÔMENO.  E fatos como este  serão  merecedores de admiração porque se incluem entre os que têm natureza fenomenal.
Ao finalizar, o conferencista fez uma explanação sobre a importância do uso da simplicidade na forma de contar histórias.
...
Ainda aproveitando o gancho deste causo, veio-me à lembrança um fato que ocorreu quando eu trabalhava no Banco do Nordeste e participava na Direção Geral, em Fortaleza, de um treinamento para elaborar apostilhas sobre ensino à distância (no meu caso: Crédito Rural). O Banco contratara uma professora paulista para nos ensinar. Na primeira aula, ela fez uma preleção sobre a necessidade de usarmos uma linguagem simples, de modo a facilitar o entendimento. Aproveitei a oportunidade e narrei o exemplo que nos foi ensinado pelo famoso Malba Tahan.
Depois que contei o caso, um colega desatento perguntou qual o sentido daquele fato para o treinamento. Fiquei triste e atordoado diante daquela pergunta, isto porque deu a entender que a minha narrativa tinha sido impertinente.
Recuperei-me ao ouvir a professora paulista esclarecer a pertinência de minha intervenção, e o fez usando exemplo simples, tal qual o ensinamento do mestre do Colégio Pedro II.

São lições inesquecíveis de pessoas que enriqueceram nosso conhecimento.

Aracaju, 11/07/2016

BETO DÉDA

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Conversando com Guilé, a vovó do caroço.
Esta semana lembrei-me da conterrânea Guilhermina, também conhecida por Guilé, ao admirar o desempenho da atriz americana Ann Ransey na comédia “Throw Momma from the Train”. No referido filme, a feição da atriz apresenta uma boa semelhança com a Guilé. A diferença é que a amiga simãodiense era mais simpática. A personagem interpretada por Ransey exigia um desempenho que demonstrasse uma constante intolerância e raiva. Não era o caso de Guilé; sua agressividade não era contínua: aflorava quando era importunada pelas crianças da escola que ficava próxima à sua casa. 
 
 
Dona Guilé era uma senhora baixinha, ligeiramente cacunda, de rosto enrugado, voz rouca devido ao aumento da tireóide (bócio). Morava em uma travessa entre as ruas Santana e Estância, bem atrás do Grupo Escolar Fausto Cardoso, em Simão Dias. Ela parecia ser uma pessoa sofrida, mas muito disposta, do tipo que não leva desaforo pra casa. Não tolerava insultos e ficava pê da vida quando os meninos lhe chamavam de “vovó do caroço”, apelido derivado de sua idade e do aparente nódulo que tinha no pescoço. Quando ela ouvia o inditoso apelido, o pau troava, chovia palavrões e a mãe da garotada era quem sofria os impropérios da ofendida “vovó”.
Em minha memória, vejo a Guilé caminhando curvada, a passos lentos, escolhendo onde firmar os pequenos pés, calçados em alpercatas fabricadas por “chiquiteiros” conterrâneos. Sempre usava um vestido de chita e um cinto fino, que ela afivelava um pouco acima da cintura, próximo aos seios. 
De vez em quando ela aparecia na casa de meu sogro, na Rua de Santana. Eu gostava de prosear com D. Guilé e, logicamente, isto acontecia quando ela estava calma. Certa vez perguntei-lhe se já tivera algum namorado. Rindo, respondeu-me que sim; mas que o ajuntamento não durou muito tempo. As qualidades pouco recomendáveis do amante forçaram o desenlace. Teve que largá-lo. E com um gesto peculiar, torcendo o beiço para o lado esquerdo da boca, onde lhe faltavam alguns dentes, ela relacionou os defeitos do gajo. E o fez puxando pelos erres e com tal desembaraço que indicava ter decorado de tanto repetir:
  - O traste era bonitinho, mas também era comedor, bebedor, jogador, fumador, namorador, cantor, dançador e conversador. Tinha um papo que era uma esparrela: me fez cair no logro. Quando percebi, fechei a porta e mandei o desgraçado pra longe. Vai-te, pinima!
Certo dia eu estava tomando uma cerveja e ela chegou de mansinho pelo portão da casa de meu sogro, que dava para travessa onde ela morava. Pilheriando, perguntei se ela queria um copo da “loura” geladinha. Ao recusar a oferta, acrescentou uma informação inesperada. Disse-me, demonstrando seriedade, que só tomava um único e diário cálice do “Conhaque Alcatrão de São João da Barra”. E justificou que bebia exclusivamente como remédio, com intuito de revigorar os nervos, inibir a falta de apetite e expandir a alegria.
Ao perceber meu indisfarçado riso, aproximou-se e confidenciou:
 - Preste atenção, meu rapaz, eu bebo apenas um tiquinho do bom remédio que, por sinal, também é usado por pessoas de muita leitura e largo conhecimento. 
Em seguida, para justificar ainda mais o uso do conhaque, apresentou um exemplo surpreendente, ao afirmar em voz baixa, quase ao pé do meu ouvido:
- Dona Dinha – que é uma pessoa inteligente, sabe escrever na máquina e trabalha no ofício de escrituras – bebe diariamente uma dose dessa bebida para expandir sua alegria.
Neste ponto eu não controlei o riso. E ela não gostou, saiu com a cara de poucas amigas, sem responder de onde obtivera tal informação...
Pelo que sei da Dinha, ela sempre foi e continua sendo abstêmia e alegre. Naquela época, contei-lhe este fato e rimos à vontade.
Na verdade as lembranças de Guilé me alegram. Especialmente por ser ela uma das minhas personagens inesquecíveis de Simão Dias, e que, do mesmo modo, certamente permanece na memória da garotada do Grupo Escolar Fausto Cardoso dos anos sessenta/setenta.
Valeu a pena a lembrança que a atriz americana me despertou.
Aracaju, 06/07/2016.

BETO DÉDA

quarta-feira, 29 de junho de 2016


 

Minhas lembranças de hoje se voltam para as festas juninas em Simão Dias. E a memória me transporta para a Rua dos Ribeiros, onde morávamos. Era a noite das fogueiras, dos fogos de artifícios e das comidas típicas: milho cozido, milho assado, canjica, manauê e pamonha. Iguarias que ao lembrar fico com água na boca.


Parece até que estou vendo a imagem de meu pai, em frente à mesa de jantar, separando os fogos de artifícios comprados de seu Agenor, um fogueteiro que também morava em nossa rua, quase em frente à casa de minha avó Olívia. Meu pai fazia a separação, formando pequenas rumas de traques, chuvinhas, estrelinhas, foguetinhos, coiós e umas bombas que recebiam uma denominação curiosa, devido ao som do seu estampido: peido-de-velho. Depois da divisão, ele distribuía tudo entre os filhos e netos. Fazíamos uma algazarra imensa e éramos dominados por grande alegria.


Soltávamos os fogos em frente a nossa casa, local em que meu pai acendia a tradicional fogueira de lenha em pé (em forma de feixe). Aliás, poucas eram as casas que não tinham uma fogueira acessa no dia de São João. Quando a lenha queimava, então começavam os compadrios. Os garotos e garotas ficavam compadres, com as mãos dadas, rodando em volta das brasas que sobravam da fogueira e cantando mais ou menos o seguinte:


 

 São João dormiu e


 São Pedro acordou;


 Fulana é minha comadre

 Porque São João mandou...”

 
Logicamente eu me refiro aqui aos bons e tradicionais tempos de minha infância. Atualmente as coisas mudaram. As tradições vão sendo postergadas, as fogueiras já são raras e não fazem as canjicas e os bolos de milho como antigamente: tudo é produzido em padarias e supermercados. Não tem o sabor natural, aquele gostinho formidável do que era feito em casa, no fogão de lenha e no tacho (entre meus irmãos disputávamos quem se deliciava comendo a raspa do tacho após a feitura da canjica).
 
Carvalho Déda - desenho feito pelo artista
J. Inácio em 1956.
A tradição vai desaparecendo e surgindo moda nova, com músicas diferentes (e aqui pra nós, muitas de um mau gosto insuportável).  

 
Na verdade, não é de hoje que percebemos as mudanças nos festejos juninos. Lembro-me que, às vésperas das comemorações juninas de 1956, meu pai já percebia que a tradição começava a ser esquecida.  E escreveu um bonito artigo com o título “CADÊ SÃO JOÃO”, que foi publicado no jornal “A Semana”, edição de 09 de junho de 1956, e consta no livro COLETÂNIA - CARVALHO DÉDA - VIDA OBRA (Gráfica Editora J. Andrade, 2008 – p. 201/203).

E viva a festa de São João...
 
Aracaju, 23/06/2016
BETO DÉDA

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Na natureza nada se perde tudo se transforma.
 Quando ainda era garoto, recebi de meu pai um ensinamento jamais esquecido. Ao perceber que eu chorava pedindo um brinquedo, papai consolou-me sugerindo que observasse em volta e encontraria um mundo de diversões. Então, pegou-me pela mão, levou-me até o quintal de nossa casa e disse-me que ali eu poderia encontrar dezenas de brinquedos. E para justificar sua observação, pegou um cabo de vassoura, amarrou um barbante em forma de rédea e exclamou: “Aqui está um bonito e fogoso cavalo alazão. Brinque à vontade, cavalgando e dando asas a sua fértil imaginação”.
Vendo-me alegre, a galopar no meu primeiro cavalo de pau, meu pai aproveitou o ensejo e explicou-me a famosa frase atribuída ao químico francês Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. 
Nunca esqueci este ensinamento do meu bom pai. Aliás, a frase do famoso francês era do conhecimento comum de meus tios, que repetiam para mim. Tio Paulo me ensinou a transformar meias descartadas em bolas de futebol; com tio João aprendi a transformar cordão ou tiras de couro em tranças fortes e bonitas; tio Sininho, que tinha uma pequena oficina de marcenaria no quintal de sua casa, ensinou-me a tornear e fazer brinquedos de madeira (eu e o primo Zé Carlos fazíamos revólveres de madeiras, para brincar de caubói ou para trocá-los por mangas com os netos de Juca Matos).


Este maravilhoso aprendizado eu transmito sempre para meus filhos e netos. Também tenho minha oficina de “armengos”, onde me dedico a realizar transformações.  Transformo: tubos emprestáveis em “mensageiros do vento”, tabocas em torneiras automáticas; casco de coco em vaso de planta;  jornais lidos em barcos e aviões e também transformo pedaços de madeira em novidades que agradam as crianças.


 
O tronco de um cajueiro perdido foi transformado em dinossauros
Durante esta semana, observando um tronco de cajueiro morto, vislumbrei a oportunidade de realizar um trabalho de fajuto escultor. Com um cinzel e usando a imaginação, transformei o velho tronco carcomido de cupins em figuras que lembram dinossauros. Na verdade um “armengo” que serviu para a garotada brincar e usar a imaginação, lembrando os filmes infantis cujos temas são os dinossauros.
Ao notar a curiosidade e a satisfação da criançada, senti o doce encanto da alegria em saber que meu feito agradou. Então, lembrei-me do meu saudoso sogro, Antônio Bebém, que, ao admirar um “armengo” de minha fabricação, dizia com graça que me deixava feliz:
“Beto, você é um artista!”

Aracaju, 13/06/2016

Beto Déda

sábado, 4 de junho de 2016

LENDO “NAVIOS ILUMINADOS”, O ROMANCE DE RANULFO PRATA.
Recentemente, quando repousava no sítio Lago Dourado, divertindo-me com os netos nos trabalhos da pequena horta, ou mesmo “armengando” em minha bagunçada oficina de artesanato, aproveitei as horas vagas para ler o romance “Navios Iluminados”, do sergipano Ranulfo Prata. O livro foi um presente do amigo e colega Gilberto Duarte, que reside em São Paulo.
Foto de Ranulfo Prata - exposta na 5ª Edição do romance
Navios Iluminados - (Com Arte e Edusp)
 

O romancista Ranulfo Prata nasceu em Lagarto (SE), em 1896, e faleceu com apenas 46 anos, na cidade de Santos (SP), em 1942. Iniciou seus estudos em Sergipe e deu continuidade em Salvador, transferindo-se depois para o Rio de Janeiro, onde se formou em medicina. Exerceu atividade médica aqui em Aracaju e foi o responsável pela organização do gabinete radiológico, no governo Graccho Cardoso.
Anos depois fixou residência em Santos, clinicando na Santa Casa de Beneficência Portuguesa daquela cidade paulista. Nas horas vagas de seu trabalho como médico dedicou-se à literatura, escrevendo contos, documentários e os romances “O triunfo”; Dentro da  Vida, “O lírio na torrente” e “Navios Iluminados”.  
Capa da 5ª Edição do livro de Ranulfo Prata
“Navios iluminados” é um romance social dos anos 30, em que o autor sergipano narra a história de Severino, principal personagem, que deixa a cidade baiana de Patrocínio do Coité (hoje Paripiranga), fugindo da miséria que imperava no nordeste brasileiro daquela época. Na narrativa, o Severino foi tentar a vida no sul, trabalhando nas Docas de Santos (SP), local onde a pobreza e o sofrimento continuaram marcando seu triste destino. Ali ele presencia fatos que nos fazem lembrar as mazelas das sociedades industrializadas denunciadas por Karl Marx e Friedrich Engels (por favor, não confundam nem troquem Engels por Hegel – Georg Wilhelm Friedrich Hegel –, como fizeram, “por açodamento e burrice”, três promotores públicos de São Paulo ao justificarem a ilegal e arbitrária prisão preventiva do ex-presidente Lula).
O exemplar que o Gilberto me enviou de “Navios Iluminados” é a 5ª Edição, publicada em 2015 pela Universidade de São Paulo-USP (Com-Arte/Edusp), e é apresentada pela Professora Marisa Midori Deaecto, docente do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP.
Em sua apresentação, a Professora Marisa Midori afirma, com categoria, que Ranulfo Prata - ao descrever as vicissitudes da vida de Severino e de tantos outros pobres sofredores vindos de todas as partes -  insere o romance “Navios Iluminados” em outra vertente da literatura social: aquela que concebe os fatos dentro da categoria da luta de classes, na oposição clássica entre o capital e o trabalho ou entre o burguês e o operariado. E faz uma  indagação, ao dizer que este fato “nos conduz a uma questão insolúvel, talvez o grande dilema da humanidade, certamente, de todo historiador: afinal, o que pode o homem diante das estruturas que a um só tempo o sustentam e o oprimem?”
Trata-se ou não de uma questão sem solução? Não sei.  Mas a situação vivida por nosso Brasil nestes últimos dias nos leva a lutar contra as “estruturas” que lideram o golpe e nos encorajam a encontrar uma resposta que proteja os menos favorecidos e oprimidos.
Após a leitura de “Navios Iluminados”, percebo “que já era o tempo de se redescobrir a obra de tão raro quilate”, tal e qual previu a Profª Marisa Midori Deaecto, no encerramento da apresentação do romance. E ela tem absoluta razão...
Meus agradecimentos ao Gilberto por esse importante livro.

Aracaju, 04/06/2016

BETO DÉDA

terça-feira, 31 de maio de 2016


FESTEJANDO MEUS 75 ANOS.

Desde o dia 25 até ontem, estive no sítio Lago Dourado, distraindo-me com a família e, de modo especial, com meus queridos netos. Foi lá que tive a alegria de comemorar os meus 75 anos. Relembrei de muitas aventuras, de variados lugares e de pessoas queridas.

Foto do lago dourado, onde comemorei e relembrei meu 75 anos.
Na quietude do sítio, ao relembrar os meus 75 “maios”, revi a contabilidade dos “teres” e “haveres” do meu tesouro (e aqui faço uma ressalva: os “teres” e “haveres” que me refiro não são bens materiais; eles fazem parte de um patrimônio intangível e riquíssimo que guardo no meu trepidante coração: as lembranças das pessoas que comigo conviveram e convivem). Este valioso cabedal preservo com muito cuidado. Sempre estou a admirá-lo e, como um mago, faço essas pessoas rejuvenescerem e, revigoradas, tornam-se perenes no meu pensar.

As lembranças têm o dom especial de tornarem as pessoas imortais. No meu pensamento as pessoas queridas, que participaram da minha caminhada nesses 75 anos, continuam vivas, compartilhando meus bons e agradáveis momentos. Para mim são imortais.

Recordo-me, agora, de minha querida mãe, acariciando-me em seu colo, com um sorriso inigualável, contando-me como foi o dia em que nasci. Dizia ela que aconteceu em uma manhã chuvosa de um domingo de maio de 1941. Eu nascera sem demonstrar sinal de vida. A palmada na minha bunda não me fez chorar. Chamaram meu pai e ele, aflito, pegou um garfo e começou a bater forte em um prato, fazendo ruído junto ao meu ouvido. Foi o santo remédio, dizia ela, lembrando que eu abri os olhinhos pretos e comecei a chorar. Como se nota, demorei um pouquinho para entrar neste mundo.

Esse acontecimento justifica parte da minha lentidão em entender o que se passa em minha volta. Na linguagem dos jovens significa que demoro a perceber o toque da ficha que cai. É verdade, mas em termos.

Pois bem, o meu aniversário ocorreu quarta-feira passada, e um montão de pessoas amigas enviaram mensagens através do Facebook. Entretanto somente agora é que tive a alegria de ler e sentir o carinho de cada palavra ali expressa.

Mas a demora em perceber as mensagens não foi a minha lentidão de nascimento. O fato é que o sítio Lago Dourado não dispõe do serviço de internet. Somente hoje, quando cheguei em casa e liguei o computador, é que tive a alegria de ler as bondosas mensagens de parentes, amigos e amigas. Fiquei sensibilizado, muito feliz mesmo e, porque não dizer, senti o calor das lágrimas descendo sobre meu rosto. Lágrimas de alegrias. E isto foi muito bom: fiquei feliz.

Embora com um pouco de atraso, agradeço a todos que me honraram com suas manifestações de apreço.

Aracaju, 30/05/2016
BETO DÉDA