segunda-feira, 8 de maio de 2017

A TEORIA ARGUMENTATIVA E OS FILÓSOFOS SIMÃODIENSES.

Nas últimas semanas estive longe das redes sociais. Passei alguns dias em Salvador e, no final do mês de abril, me dediquei a outras atividades que me lançaram longe da rotina.
Mesmo assim, não deixei de reservar algum tempo para uma boa leitura e não fiquei indiferente às proveitosas manifestações do dia 28 de abril, quando o povo foi às ruas manifestar sua discordância às lastimáveis reformas que o governo golpista e seus aliados tentam empurrar goela abaixo das classes menos favorecidas do país.
Nas minhas recentes leituras, deparei-me com um artigo publicado na revista Carta Capital, edição de 19/04/2017, escrito por Thomaz Wood Jr., Professor da FGV-EAESP, que comenta sobre a Teoria Argumentativa do Raciocínio, defendida por dois cientistas franceses (Hugo Mercier e Dan Sperber). Eles contestam o legado do filósofo René Descartes (1596-1650), considerado como o pai da filosofia moderna. Para melhor lembrar, Descartes era conhecido pela frase em latim: “Cogito, ergum sum”, ou seja, “Penso, logo existo”.
O tema abordado por Wood me interessou. E fui motivado pela lembrança que me transportou para o tempo de minha juventude, quando me animava em leituras nos compêndios da pequena e importante biblioteca de meu pai. Foi lá que pela primeira vez deparei-me com um exemplar do Discurso do Método, de Descartes. Li com entusiasmo e fazia questão de comentar com colegas e parentes próximos. O lema de Descartes era a busca da verdade e, para alcançá-la, recomendava se duvidar de tudo, fazendo indagações de modo a excluir qualquer parcela de incerteza.
Ao ler o artigo de Wood Jr., apressei-me em conhecer o que alegam os atuais contestadores do pensamento de Descastes. E eles apresentam argumentos importantes em defesa do que chamam Teoria Argumentativa, informando que o raciocínio e a razão não buscam a verdade, mas procuram sistematicamente argumentos que justifiquem nossos pontos de vistas ou ações.   Trocando em miúdos: eles asseguram que a capacidade de raciocinar é desenvolvida para permitir a interação social, de modo a defender nossas crenças e convencer outras pessoas a aceitarem nossos argumentos. O raciocínio adota o viés da confirmação: selecionando arrazoados que favoreçam nosso modo de pensar, desprezando os que lhe são contrários, independentemente de serem válidos.
Embora a Teoria Argumentativa seja motivo de discussão acadêmica, envolvendo controvérsia entre filósofos e psicólogos, o assunto fustigou minha memória para o tempo em que me dedicava a analisar com carinho a filosofia de simãodienses pensadores. 
E seguindo a máxima do grande Millôr Fernandes de que “Pensar-livre é só pensar”, dediquei-me a matutar sobre a Teoria Argumentativa envolvendo livres pensadores simãodienses, envolvidos em problemas metafísicos do torrão margeado pelas águas salobras que descem pelas curvas assimétricas do riacho Caiçá.  
Lembrei-me, então, de consagrados e conhecidos "filósofos" conterrâneos que esbanjavam argumentos para favorecerem seus pontos de vista. Encantava-me perceber o raciocínio de Domingos Bina, Negão Engraxate, Paulo José dos Santos, Avião e a garota Bolochinha. Todos eles apresentando argumentos fartos em defesa de seus interesses e ideais: o carnaval, o bom aguardente, a beleza de seus amores e suas preferências expostas; tudo sem preconceito, nem cor.
Eram livres pensadores e filósofos capa-bodes, que neste momento reluzem em minha memória e os vejo como exemplos da Teoria Argumentativa defendida pelos franceses Mercier e Sperber.
Dentre os lembrados filósofos simãodienses, ressalto aqui os argumentos expressos por Paulo José dos Santos, em seus longos e contundentes discursos que começavam na Rua da Palha, por trás do antigo Açougue Municipal. Ali, no início das noites de sábado, depois de tomar muitas biritas no Bar de Seu Júlio, o Paulo José dos Santos começava seus discursos famosos, demonstrando sua verve de orador e apresentando argumentos em defesa de seu gosto pela saborosa aguardente. Em todos seus discursos evidenciava a pureza dos barris de cachaça, procedentes dos engenhos de Laranjeiras, pendurados em cangalhas de mulas que desciam a Serra do Cabral, em comboios tangidos por tropeiros e que se dirigiam ao Norte, Sul, Leste e Oeste da cidade para benzer as gargantas secas dos bravos trabalhadores simãodienses.  E repetia sem cansar os pontos cardiais da cidade e os elogios à cachaça pura dos alambiques do Vale do Cotinguiba. Grande orador, excepcional bebedor. 
Mas deixemos de lado os populares pensadores da terra natal e passemos à realidade do que representa a teoria desenvolvida pelos professores franceses.
Pelo que se tem notícia, a teoria argumentativa saiu da raia dos advogados e, nos dias conturbados que atualmente assolam nosso país, tem sido venerada por parte de componentes do Poder Judiciário. O que se nota é que alguns procuradores e juízes não estão preocupados em raciocinar em busca da razão e da verdade. O interesse maior é a procura de argumentos que consolidem seus pontos de vista e suas ideologias. Agem despudoradamente e tomam decisões seletivas, usando meios duvidosos de pressão para conseguirem argumentos que respaldem suas preferências.
Quem são eles?
A resposta, como costuma dizer o Mino Carta: “é do conhecimento até do Mundo Mineral”.
Por esta e outras razões, dou um forte grito de VIVA aos "filósofos" simãodienses, que em outras eras praticavam sem preconceito a teoria argumentativa. Só que de forma mais clara e honesta do que a de alguns atuais e parciais julgadores.
ARACAJU, 07/05/2017
 BETO DÉDA

segunda-feira, 3 de abril de 2017

OS CURRAIS DE BOIS DE BARRO, A VILA SIDON E AS XILOGRAVURAS.

Nesta semana, para espantar a solidão, procurei abrigo em minha tenda de armengues e comecei a fazer um mini curral para bois de barro, encomendado por minha querida irmã Maura para presentear seu bisneto Guilherme.



A fazendinha de meu neto
Os encantos das brincadeiras com bois de barro nunca abandonaram minhas alegres lembranças de quando era criança. Tanto é assim que sempre passei essa tradição para meus filhos e netos. As fazendinhas de bois de barro de meus filhos eram denominadas “Vila Carlitos”, uma lembrança do nome da malhada que meu pai tinha lá pelas bandas do povoado Guiguiu, em Simão Dias. Para o curral de meu neto, usei o nome de nosso sítio: Lago Dourado. Agora, ao iniciar os trabalhos da encomenda feita por minha irmã, estou denominando a nova fazendinha de brinquedo como Vila Sidon, em homenagem ao sítio do meu sempre lembrado tio Paulo Déda, trisavô do garoto Guilherme.


Anúncio da Sidon no jornal A Semana - 29-10-1946


Vila Sidon era o sítio de propriedade do meu tio Paulo, local de sua residência, de sua fábrica de artefatos de couro e do aloque ou curtume (estabelecimento em que se curtia e tingia couros para fabricação de calçados, selas, malas e arreios).  O terreno ficava ao lado da Feira dos Cavalos, na rua que passou a ser conhecida como Rua das Sete Casas (todas sete casinhas construídas por meu tio para os funcionários do curtume).


Minha mesa de diversão, iniciando o curral de Guilherme

Pois bem. Estava eu na minha oficina de armengues, construindo a fazendinha de brinquedos e enquanto entalhava o nome Vila Sidon no travessão da mini cancela, passei a me lembrar de meu pai fazendo as xilogravuras para o jornal “A Semana”.


Com meu pai aprendi muitas coisas, dentre elas as primeiras noções do uso do estilete no entalhe de madeiras. Naquele tempo eu ficava ao seu lado, absorto, observando o seu cuidado e maestria ao esculpir na madeira as charges que publicava na seção “Piada da Semana” do jornal. Ele fez mais de quatrocentas xilogravuras.



Foi com o estímulo do meu pai e mestre que me aventurei a entalhar algumas de suas charges. Tempos depois, quando ele nos deixou e passou para outra dimensão da vida, no glorioso mundo celeste, me aventurei a fazer algumas gravuras – diga-se de passagem: armengues, tal como são minhas obras de artesanato. Com o pseudônimo “Júnior” ousei publicá-las, no final de 1968, dando continuidade à seção “Piada da Semana. (Na charge ao lado uma crítica à água salgada fornecida pela CAENE à população de Simão Dias).




São fatos alegres da vida que voltam à memória em consequência de um leve toque. E esta minha insistência em lembrá-los me distancia das amarguras dos dias atuais e me conduz a uma realidade mais amena da que se vive na atualidade de nosso Brasil.

Abarco com carinho tais lembranças e, feliz com elas, realizo, agora, o sonho de uma fazendinha de bois de barro para Guilherme, o trineto do meu querido tio Paulo. 

E narro essas lembranças, aqui e agora, sem acanhamento, para os amados parentes e amigos, especialmente os mais jovens, para que sejam preservadas como memória dos bons tempos.

Aracaju, 03/04/2017


BETO DÉDA

quarta-feira, 22 de março de 2017

BREVES LEMBRANÇAS DOS CINEMAS EM SIMÃO DIAS.

Dia desses fui indagado pelo professor e pesquisador conterrâneo Jorge Bastos sobre os cinemas de nossa terra. Gostei da indagação porque sempre fui fã da conhecida sétima arte. Frequentei com assiduidade o Cine Ypiranga e o Cine Brasil em minha terra natal e, também, os das cidades em que morei: em Aracaju (os cinemas Rex, Rio Branco, Vitória e Palace), em Salvador (o Guarani, o Excelsior e o Capri) e em Jequié (o Cine Auditório e o Cine Jequié).

Ultimamente assisto aos filmes na televisão ou no computador. E o bom filme, o que acho supimpa, eu costumo ver repetidas vezes, como é o caso dos dirigidos pelos geniais Fellini e John Ford. E quando faço isto, minha paciente Leninha indaga: - Quer decorar?

Tenho boas recordações dos cinemas de minha terra e algumas delas eu relembro aqui para os amigos.

Contava meu saudoso pai que quando o cinema teve início em nossa cidade, as fitas eram projetadas manualmente, em locais improvisados, e que as pessoas interessadas, além de pagar o ingresso, tinham que levar suas próprias cadeiras para assistirem às fitas confortavelmente sentadas.

O Cine-Jornal - folha editada pelo
Cine-Theatro Sylvio Romero
Naquele tempo predominavam as apresentações teatrais. Em 1918, foi inaugurado o Theatro Sylvio Romero, na Rua do Espinheiro, construído pelo o Cel. Felisberto Prata. Em 1921, aquela casa de espetáculos foi adaptada à projeção de filmes e passou a ser chamada de “Cine-Theatro Sylvio Romero”. Em 1923, sob a liderança de Arivaldo Prata (filho do Cel. Felisberto), surgiu o jornalzinho Cine-Jornal, que trazia logo abaixo do seu título a importante informação: “Folha de interesses locais e destinada a propaganda cinematográfica, editada pelo Cine-Theatro Sylvio Romero”.

Na década de 30, a aparelhagem do cinema foi vendida e surgiu na cidade o Cine Elite, que durou poucos anos.

O jornal “A Luta”, de Emílio Rocha, publicou várias notícias sobre o cinema em nossa terra.

Em 1943 o Sr. Pierre Freitas adquiriu nova aparelhagem e o prédio do Cine Theatro Sylvio Romero,  que mudou de nome, passando a ser denominado Cine Teatro Ypiranga.

Dez anos depois, em 1953, foi inaugurado um novo cinema na cidade, construído pelo Sr. Durval Conceição, com o nome de Cine Brasil.

Posteriormente o Cine Brasil foi vendido ao Sr. Antônio Borges; e o Cine Ypiranga vendido ao Sr. Edinho de Lagarto.  Com o passar dos anos e diante da concorrência da televisão, os cinemas fecharam.

Hoje temos apenas boas recordações daquelas casas de espetáculos. 

Aqui mesmo, já fiz relatos de minha presença no Cine Ypiranga, vendendo gibis, editados pela “Rio Gráfica Editora”, que meu irmão Carlos representava  em Simão Dias.

Ao falar sobre os cinemas de nossa terra, o principal fato que me vem à mente é o desabamento da “geral” do Cine Ypiranga. Em nossa terra, denominava-se “GERAL” a parte superior do cinema, com bancos desconfortáveis, e que se cobrava um valor menor pelo ingresso; era o local preferido pelos que tinham o hábito de soltar gases mal cheirosos e sonoros, ou seja, peidos fedorentos e estrondosos.
O Cine Ypiranga no traço e na lembrança de Beto Déda

Em uma noite de sábado, dia de feira na cidade, em 1961, o cinema estava lotado. Era exibido o filme brasileiro “A morte comanda o cangaço”. A fita mostrava uma luta sangrenta patrocinada pelos cangaceiros. Tiros, fumaça das armas, barulheira da artilharia dos jagunços e a plateia atenta, vibrando de emoção. Envolvidos no alvoroço da filmagem, os espectadores não notaram, de imediato, o estranho ruído e a fina poeira que desprendia da “Geral”.

Pois bem. Assim que perceberam que o som e a poeira não correspondiam aos efeitos especiais do filme, mas era o sinal de que a “geral” estava desabando, aí a plateia iniciou uma louca debandada no escuro, procurando saídas pela frente ou pelos fundos, por traz da tela, em direção à Rua dos Pinicos (era assim mesmo que era conhecida a rua que passava por trás do cinema).

Os que estavam nas filas próximas à entrada, seguiram a liderança de Dr. Fraga e Seu Manequinha, que eram pessoas bem conhecidas e admiradas na cidade. Eram corpulentos, então, diante do pânico, meteram as barrigas na grande porta da frente, quebrando os ferrolhos, escancarando-as em bandas, para dar passagem aos aflitos seguidores. O tumulto foi grande, mas, felizmente, não houve vítimas. Muitos perderam sapatos, chinelas e até chapéu, no entanto, nunca perderam o bom humor ao comentar a cena, sempre caprichando em satirizar o que se passou com cada um, sem esquecerem, ao final, mencionar a frase que se tornou frequente naqueles dias: “A morte comanda o cangaço, mas não comandou o Cine Ypiranga”...

O Cine Brasil na lembrança e no traço de Beto Déda
Lembro-me, agora, de outro fato que aconteceu no Cine Brasil e me foi contado por uma pessoa que admiro muito e que se viu em uma verdadeira “saia justa”. Certa noite o amigo foi ao cinema com sua mulher. Antes de iniciar o filme, foi projetado um documentário sobre uma tribo de índios no Xingu. A fita exibia indígenas nus, com as intimidades expostas. O recatado casal não gostou do que via e tentou sair discretamente. Quando se aproximavam da saída, foram abordados por seu Antônio, proprietário do cinema, que exclamou em voz alta, mencionando o nome do amigo, para que todos ouvissem:

 - “Meu amigo (...) se eu soubesse que nesta fita apareciam índios nus eu não permitiria a projeção...”

Surpreendidos pela quebra de privacidade da cautelosa saída, o envergonhado casal esgueirou-se porta a fora, ouvindo as gargalhadas e os gritos dos espectadores em consequência da espalhafatosa declaração do dono do cinema.

Aracaju, 22/03/2017


BETO DÉDA

segunda-feira, 13 de março de 2017

O  JORNAL  “PAPAGAIO DO FUTURO”


Há poucos dias tive o prazer de dialogar com o conterrâneo Delso Oliveira Andrade, filho de Damaris e neto de Seu Chiquinho Vito, que moravam na Avenida Coronel Loyola, antiga Rua da Feira, em Simão Dias.  O Delso saiu de nossa cidade quando era jovem para estudar em outras plagas e hoje ele reside no Vale do Cariri, no Ceará, elaborando projetos para desenvolvimento de pequenos produtores rurais.

Nossa conversa aconteceu via internet. Foi quando tomei conhecimento que, no início dos anos 80, jovens inteligentes, irrequietos e de vanguarda editaram, em Simão Dias, um interessante jornal com o título “PAPAGAIO DO FUTURO”, duplicado em mimeógrafo e divulgado com razoável tiragem.

Naquela época eu morava em Jequié, daí a razão de não saber da existência daquele jornal. Somente agora, passados quase 37 anos, mediante troca de mensagens com o Delso Andrade, recebi cópias dos dois primeiros números do jornalzinho, que reproduzo aqui para lembrança dos mais velhos e conhecimento dos mais jovens.
O jornalzinho era editado por Delso e outros líderes estudantis da época, todos com ideias novas e que sabiam expressar opinião sobre os problemas locais ou mesmo criticar os atos políticos dos dois partidos antagonistas existentes na cidade: os “Jacarés”, liderado por Dr. Celso Carvalho, e os Crocodilos, sob a liderança de Antônio Valadares.
  

Eram responsáveis e colaboradores do jornal os garotos: Delso Andrade, Humberto Oliveira, Marco Aurélio Déda, Marcelo Déda, José Silva, Enaldo Valadares,  Flamarion Déda, Gonzaga Varjão, Belivaldo Chagas, Écio Déda, Cícero Guerra Neto, Osvaldo Abreu e João Antônio Guerra.

No bate-papo que mantive com Delso, obtive informações de causos interessantes envolvendo os editores do jornal. Dele recebi autorização e repasso aos amigos do Facebook a interpretação que faço de alguns casos.

O primeiro deles refere-se a um entrevero que aconteceu entre um político e Humberto Oliveira, em decorrência de um artigo que criticava um grupo partidário. Na discussão, Humberto disse que o político era “bitolado”, então o homem ficou bravo, disse que não era, fez a maior zoada e depois, quando se acalmou, virou-se para o Prof. Udilson e indagou: - “O que significa mesmo essa tal palavra bitolado?”...

Em uma das edições do jornal, meu sobrinho Marco Déda escreveu um artigo com o título “Câmara dos Camarões”, no qual criticava os discursos e o desempenho dos vereadores da terra. Um edil leu o jornal, não gostou do artigo, vociferou contra os jovens e os ameaçou de dar bofetadas. Não passou de uma bazófia...

Como sempre aconteceu com os órgãos de imprensa, a opinião de alguns leitores sobre o jornal mudava em consequência dos artigos publicados: quando fazia críticas aos “Jacarés” era aplaudido pelos “Crocodilos”; e vice-versa. E isto acontecia também quando se criticava fatos que não envolviam políticos.

Um exemplo  de mudança de opinião ocorreu com o pároco daquela época: na missa de um domingo ele elogiou os editores do jornal e fez uma oração pedindo a Deus que iluminasse a cabeça daqueles jovens. No domingo seguinte, depois que o jornalzinho publicou um artigo criticando a administração do Cemitério – que estava sob a responsabilidade da paróquia – o padre ficou irritadíssimo e fez um duro pronunciamento censurando os jovens e afirmando que o “Papagaio do Futuro” era um panfleto difamador...

A lustração do “Papagaio do Futuro” era feita por Enaldo, filho de Nadinho do Bar Vesúvio. Em uma matéria que o jornalzinho criticava a atuação da diretoria do Caiçara Clube, o Enaldo apresentou uma interessante e cômica caricatura de um dos antigos diretores. Foi um sucesso. Em função desse artigo os jovens estudantes passaram a ter vez na diretoria do clube.

Conversei também com outros editores do jornal, entre eles o meu irmão Flamarion Déda (conhecido pelos familiares como Toínho). Cotou-me um fato interessante. Disse-me ele que certo dia a rapaziada teve um susto muito grande ao saber que o juiz da cidade (Dr. Emídio Nascimento) queria conversar com eles. Acreditavam que estariam movendo um processo contra os editores do jornal. Os mais pessimistas pensavam que seriam presos. Apreensivos, os jovens foram conversar com o juiz.  E naquele momento, em frente a autoridade máxima do judiciário da cidade, os estudantes tentavam desfaçar o receio. Cada um ao seu modo demonstrava seu estresse: esfregando as mãos para limpar o suor frio; piscando os olhos, intermitentemente, sem controle; mordendo as unhas, ou balançando as pernas como se tivesse com sezão.  E também tinha aquele que olhava cada colega com o riso maroto, aguardando o que diria o meritíssimo.  

Então surgiu a surpresa: o Dr. Emídio disse que queria conhecê-los para parabenizá-los pelo acerto em publicarem o jornalzinho. E o juiz cumprimentou cada um. 

Ufa! Foi um alívio formidável. Os estudantes recuperaram o fôlego que saíram confiantes do Fórum Gervásio Prata.

Não obstante sua curta duração, o "Papagaio do Futuro" empolgou os leitores de minha terra e, ao relembrar aqui sua passagem, fico imensamente feliz em notar que seus editores se tornaram importantes líderes  nas diversas atividades que escolheram. 

Todos eles são simãodienses que merecem nosso reconhecimento.

ARACAJU, 13/03/2017

BETO DÉDA

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O carnaval e os foliões de Simão Dias.
Pensando em aliviar o amargor que passa nosso país na atualidade, o bom mesmo é lembrar os antigos carnavais e ouvir os frevos de Capiba. 

Nos velhos tempos em minha terra natal era comum, nos dias que antecediam o carnaval, as crianças pegarem argila no Tanque Novo, reservatório de água que abastecia a cidade, para fazer moldes de máscaras. Esculpia-se na argila um rosto e, quando o barro endurecia, colavam-se várias folhas de jornais sobre o molde que, depois de certo tempo de secagem e de uma ligeira pintura, o papelão transformava-se em uma interessante máscara de carnaval. Fiz muitas máscaras usando essa técnica elementar. 
Lembro-me que, no carnaval de 1960, meu pai usou a argila do Tanque Novo para moldar e fazer uma máscara de Jânio Quadros. No domingo de carnaval, com paletó azul-marinho, gravata, uma vassoura na mão e a máscara do Jânio, eu saí pelas ruas de Simão Dias cantando a marchinha “O homem da vassoura vem aí”.   Fazia muito calor naquele dia e, para amenizar, tomei alguns goles de aguardente Zinebra. O resultado final foi uma ressaca sem limites... Para meus pais eu disse que ficara desarranjado por ter tomado água quente do Tanque Novo. Minha mãe olhou-me com sorriso e perguntou:
- “Bem, agora o pessoal está dando o nome de Tanque Novo a aguardente, não é?
Fiz um beicinho de desconsolo e o resultado já era esperado: na noite daquele dia não fui ao baile do Caiçara Clube.
Mas como uma lembrança leva a outra, recordo-me que em fevereiro de 2013, escrevi neste blog sobre os filósofos foliões de minha terra. 
Dos bons carnavais de Simão Dias, guardo lembranças de conterrâneos que marcaram presença.
Dentre eles, os notáveis batuqueiros Negão e Tonho do Areal, ambos engraxates. O Negão era um talento em batucar com a escova em sua caixa de limpar sapatos, que ficava na calçada do açougue municipal, confronte a redação do jornal “A Semana”. O Tonho do Areal tinha sua caixa de engraxar perto do Bar de Valério. Ambos eram bons foliões. Com um detalhe, o Negão mancava, tinha um problema na perna e não podia sambar, seu forte era cantar e batucar. Enquanto o Tonho era um grande re-bo-la-dor e, quando o bloco passava pela Rua do Sobrado, ele cantava pra sua mulher, que se chamava Luzia, a marcha de Braguinha:
  “Anda, Luzia,
    Pega um pandeiro, vem pro carnaval
    Anda, Luzia
    Que essa tristeza lhe faz muito mal...”


Outro inesquecível folião chamava-se Pedro Retraído, sobrenome que recebera por ser um homem reservado, que mais escutava que falava. Era um senhor de meia idade, galego, alto, magro, com um bigodinho aprumado, olhos meio caídos, fala mansa e de poucas palavras.

Sóbrio, sem ser tímido, Seu Pedro Retraído animava os carnavais da cidade transfigurando-se em dois personagens ao mesmo tempo. Fazia isto traçando uma linha divisória em seu próprio corpo, do alto da cabeça, passando pela metade do nariz indo até a virilha. De um lado, o direito, era ele próprio, com sua feição normal e o olhar perdido no horizonte. Cobria essa parte do corpo com metade de paletó, de camisa e de  calça, e no pé um sapato preto e branco. Do outro lado, o esquerdo, era o inverso: cortava o cabelo rente, com máquina zero, até a linha divisória, raspava uma sobrancelha, parte do bigode e pintava essa face do rosto com uma espécie de cera branca. Nesse lado do corpo mostrava uma camiseta sem manga, calção parecendo cueca samba canção, deixava a perna comprida nua e usava uma chinela no pé. Trazia pendurado na cintura um pinico com doce de leite, imitando cocô de criança. E na boca, do lado esquerdo, soprava um apito chamado “língua de sogra”. 
Com seu lado sério intocado, sem uma única palavra, lá ia ele pelas ruas da cidade com seu inconfundível andar de longas pernas. Parava em cada esquina e, pelo lado esquerdo de sua boca, soprava o apito língua de sogra, estirando-o em direção aos curiosos. Depois, com uma pequena colher de pau, saboreava um pouco do doce de leite que estava no pinico...
Despreocupado, o Retraído filosofava e encarnava a simbologia da dualidade, da dúvida e da contradição existentes na humanidade. Em sua fantasia, ele representava a tristeza e a alegria, o feio e o bonito, o bem e o mal, a pobreza e a riqueza, a verdade e a falsidade, a luz e as trevas, a seriedade e o devaneio. Sua exposição esbanjava filosofia. Inesquecível...
...
Nos anos cinquenta, a situação estava difícil aqui no Nordeste. O povo vivia com a barriga amarrada ao espinhaço. Mesmo assim, nossa gente não deixou de brincar nas ruas e no clube da cidade.
Intrigado com aquela contradição, especialmente com as despesas do carnaval, meu pai, jornalista Carvalho Déda, procurou saber como era possível se comemorar um carnaval tão animado, tão sacudido e tão rebolado, quando a cidade se debatia numa crise danada. E perguntava:
-Como aquela gente conseguiu fazer uma festa tão porreta sem dinheiro? 
Para entender essa façanha, ele entrevistou o folião Domingos Bina, que na quarta-feira de cinzas estava ressacado, no oitão do Cine Brasil, acocorado, fazendo cruz na boca. O diálogo foi o seguinte, publicado na seção “Aspectos da Cidade”, que ele escrevia sob o pseudônimo de Lynce no jornal “A Semana” (Edição de 18.02.1956),  no artigo que teve o título: “A Filosofia de Domingos Bina”:
“ – Como se faz carnaval sem dinheiro, “seu” Domingos?
O “filósofo” respondeu sem pestanejar: – Oxente! É só pegá um pedaço de papelão, fazê dele um funil, chamá Negão e Alfredo Engraxate, metê a cara na rua e a turma acompanha. Todo mundo sai atrás do funil...
- Mas “seu” Domingos, (insisti) sem correr nada no funil?
Com um riso malandro, o filósofo da bandurra explicou: - Basta oiá pro funil! Todo mundo já ta avinhado!...
 E a última pergunta: - Mas "seu" Domingos, bom carnaval sem dinheiro? E a religião como é?
O "filósofo" não titubeou: - Oxente! Depois de feito, Deus dá um jeito!...”
...
Estas são lembranças e lições de vida de inesquecíveis foliões e “filósofos” de minha terra.
Hoje, pensando e lembrando deles, não me resta dúvida de que eram pessoas ricas em sabedorias e faziam de seu humor carnavalesco o contraponto ao amargor de seus desencantos. Sem querer, eles expressavam o pensamento do grande criador de Carlitos, o imortal Charles Chaplin, que dizia ao comentar sobre o humorismo e a seriedade:
 “O humorismo alivia-nos das vicissitudes da vida, ativando o nosso senso de proporção e revelando-nos que a seriedade exagerada tende ao absurdo.”
São fatos que nos alegram e relembrá-los não faz mal a ninguém.
E viva a alegria para esquecer os dissabores que, na atualidade, recebemos diariamente goela abaixo.
ARACAJU, 22/02/2017
BETO DÉDA

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Meu sonho frustrado de violonista e a performance de meus sobrinhos-netos.

Recentemente estive em Salvador, revendo os lugares que frequentei na primeira metade dos anos 60 quando estudei no Colégio Duque de Caxias, no Bairro Liberdade. Foi lá que conclui meu curso científico. Naquela época, também participei do curso preparatório para o vestibular de engenharia, patrocinado pela SUDENE e realizado na Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, no Bairro Federação.  Pela manhã participava do curso pré-vestibular e, à noite, concluía o curso Científico.   

Na época, morava na Praça Rockfeller, próximo a Praça das Piedade, em Barris, no apartamento que denominamos de “República dos Carvalho & Oliveira”, residência de jovens parentes. Todos muito unidos, responsáveis e que tínhamos como “presidente” o querido primo Zé Carvalho Oliveira.

Foi ali que tive minha grande frustração como violonista. Com as economias do valor da bolsa de estudos que recebia da SUDENE, comprei um bonito violão na loja “Duas Américas”, na Rua Chile. Pretendia aprender a tocar, mas fui forçado, por decreto do “presidente da república”, a me desfazer, incontinenti, do instrumento.  O primo Zé justificou seu “decreto” como um ato preventivo, destinado a evitar prejuízos ao tempo que eu dedicaria aos estudos. O decreto era determinante: “Desfaz do violão ou volta pra Simão Dias”.  E eu segui à risca, desistindo de aprender música. No mesmo dia presenteei o violão a uma colega sergipana do curso pré-vestibular.

Não é pouco dizer que até hoje fico pensando porque não tive o tesão necessário para espantar esse episódio e ter insistido na aprendizagem musical. Sobre esta minha aventura, dediquei algumas linhas, aqui postadas em 21/10/2012, com o título “E o mundo perdeu um grande violonista”.

Pois bem. Depois de reviver essas lembranças, de volta a Aracaju, encontrei uma resposta formidável para compensar minha frustração. O conforto reparador surgiu aqui nas redes sociais, ao perceber que dois queridos sobrinhos realizaram meu sonho, ao dedilharem com maestria o pinho. Para mim, que além de pai corujão, também sou um tio coruja, fico babando, ao ver e ouvir o desempenho dos garotos Tarcísio e Daniel Oliveira como exímios violonistas.

Peço permissão aos dois queridos sobrinhos-netos para replicar para os parentes e amigos o vídeo feito por eles e postado no Youtube. Eles tocam com maestria a cansão “Romance de amor” (ver no seguinte site:
https://www.youtube.com/watch?v=wyfbGJYZoM0).

Não é demais dizer que estou feliz. E fico mais alegre ainda, ao pensar no tamanho da felicidade de seus pais (Marco-Neire) e de sua avó (minha querida irmã Nancy).

E o primo Zé Carvalho – que agora deve usar um fio dental, porque já não existem as camisas “volta ao mundo” para ele tirar linhas para limpar os dentes – certamente estará dizendo:

- Tudo no seu devido tempo!


ARACAJU, 10/02/2017

BETO DÉDA

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

As garotas de minha rua e a dança do “es-qui-tim-pam-pã”

Muitas vezes minha cachola é surpreendida com lembranças chistosas de minhas peraltices na Rua dos Ribeiros, em Simão Dias. Lá pelas três horas da madrugada de hoje, acordei-me com recordações de meus amores platônicos com as garotas da vizinhança.

Em nossa rua o número de meninas suplantava o de pivetes. E elas enchiam de alegria as noites, com suas brincadeiras inesquecíveis: “cipozinho-queimado”, “boca-de-forno", “cadê-o-grilo”, “manja”, “esconde-esconde”, “pinto-galo”, “adivinhações”, “rodas” e uma dança chamada “isquitim-pampã”.

Lembrei-me, então, da garotinha meiga que gostava de brincar de “pinto-galo”. Para presenteá-la e fazer-me notar, resolvi colher sementes da árvore mucunã, conhecidas como olho-de-boi. Colhi cinco sementes bonitas, muito apreciadas pelas meninas no jogo “pinto-galo” (em que, com a mão direita, atirava-se uma pedra ou semente para o ar e a amparava, depois de recolher ligeiramente outra pedra para o lado da mão esquerda apoiada no chão em forma de “U” invertido). Não esqueço o gesto simples da simpática garota, levando os dois dedos à boca, como a me dirigir um beijo de agradecimento. Beleza pura!

Das brincadeiras próprias de meninos uma delas me recordo com alegria. Era coisa simplória, dessas que tem na imaginação o principal ingrediente: guiar um arco de pneu gasto, fazendo-o girar com um gancho de arame. E deixava o pensamento voar, com se estivesse andando em uma potente motocicleta ou dirigindo um robusto carro “studebaker”. Eu corria pelas calçadas, fazendo rolar o arco de pneu, imitando o ronco de um carro e fazendo curvas quase impossíveis, especialmente quando notava que estava sendo observado por uma de minhas garotas encantadoras. 
  
Na solidão dessa madrugada insone, lembrei-me do dia que brinquei de esconde-esconde acompanhando uma menina que eu simpatizava. Ela era esperta e eu compartilhei do seu esconderijo. Ficamos os dois juntinhos e, ao ouvimos a gritaria da meninada, já saindo do escondido, a esperta segurou em minha mão e me aconselhou:

 - “Agora devemos fazer xixi”.

 Ela fez e eu também. 

E sua sugestão tinha sentido. Para sortear os participantes que teriam que se esconder, fazia-se um sorteio, com as seguintes palavras, com intervalo em cada sílaba, apontando para cada um dos contendores:

“Pan-da-ro-le-ta,
 pan-da-pi-ta,
 pi-ta-pir-ru-je...
 Vá-pra-ca-ma dor-mir,
que-não-ti-que-ro a-qui.
Vá fa-zer xi-xi”

Seguimos à risca a última recomendação da regra da manja: fizemos xixi.

Depois, lembrei-me para valer daquela garota risonha, que adorava dançar e aprendia com facilidade os passos de qualquer folguedo. Ela era maravilhosa e se esmerava em danças ligeiras. Mas o bom mesmo era apreciá-la dando saltinhos, com as mãos nas cadeiras, quase de cócoras, levantando a saia e  cantarolando a dança em voga entre meninas da época. Os passos tinham uma ligeira semelhança com a dança dos cossacos. As crianças adotaram um nome esquisito para a dança: “is-qui-tim-pam-pã”, por reproduzir o ritmo da música que orientava os passos. E a garota sabia cantar, pronunciando com simpatia cada sílaba, sonorizando seus ritmados saltinhos.
Vê-la cantar e dançar o “is-qui-tim-pam-pã”, espanando o vestido, era um verdadeiro espetáculo. Beleza pura!

As calçadas da Rua dos Ribeiros guardam causos inesquecíveis.

E minha noite insone se transformou em um agradável despertar de felizes recordações.

ARACAJU, 27/01/2017

BETO DÉDA