domingo, 2 de julho de 2017

Lembrando Dr. Célio Loureiro: “As aparências enganam”...

Ultimamente ando mancando: com um pé na chinela de dedo e outo no sapato. Uma vizinha me indagou: "Perdeu um sapato ou está economizado?". Nem uma coisa, nem outra, respondi. Caí e torci o pé. 

Ainda em recuperação, resolvi dar uma volta lá pelas bandas Mosqueiro. Fui atacado por centenas de muriçocas. Pinicaram meu corpo até por cima de minhas roupas. A camisa de malha e as meias de algodão não impediram a ferocidade das picadas dos mosquitos. Resultado: passei a ter intermitentes ataques de coceira decorrentes de alergia. Uma comichão terrível que me irrita e deixa o corpo pintado. Tive que recorrer por duas vezes a uma clínica para debelar os efeitos alérgicos. Ainda  não estou curado; nem da torção do pé, nem da coceira.

Enquanto permaneço em casa, fico analisando velhos documentos e fotografias. E me divirto ao rever os arquivos.  Observadores íntimos afirmam que sou um acumulador de documentos.  Guardo velhos papéis que retratam passos de minha vida e de meus ancestrais. Daí o amigo Odilon Machado dizer que pareço um cavaleiro medieval, com aquelas armaduras, guardador das relíquias da família. Pois que seja!  É de minha natureza manter tais recordações e,  quando sobra um  tempinho, perscrutá-las.

Assim é que, remexendo meus arquivos, deparei-me com antigas charges publicadas pelo humorista Carlos Estevão na revista “O Cruzeiro”, em uma seção com o título “As aparências enganam”, na qual demonstrava as interpretações falsas provocadas por uma visão sombria dos fatos. Então apresentava dois desenhos de um mesmo fato, um com silhuetas e outro sem sombras, de modo evidenciar que as aparências enganavam. Um bom exemplo é a charge que retrata uma alegre festa de aniversário: quando evidenciada em sombras, as silhuetas nos levam ao erro de interpretar a cena como um fato sinistro; e em sentido contrário, a mesma cena sob o brilho das luzes mostra que não passa de uma divertida festa. 

As aparências enganam  - Carlos Estevão:

 

Ao continuar revendo meus arquivos, encontrei um Boletim de Notícias do BNB em que apareço em uma foto no encerramento do X Curso de Administradores de Agências patrocinado pelo Banco do Nordeste, em 1969. Com tal jornalzinho estavam arquivadas minhas provas daquele curso.  


Como uma recordação leva à outra, em minha bendita cachola fiz o liame entre o humor de Carlos Estevão e uma lição do saudoso Prof. Célio Loureiro Cavalcante, que era um importante advogado de Fortaleza, dirigia o Departamento Jurídico do Banco do Nordeste, o famoso DEJUR, e lecionava, com competência, cursos patrocinados pelo banco. 

Pois bem, em suas aulas de Direito Bancário, Dr. Célio costumava nos orientar a não esquecer que as aparências enganam e aproveitava o ensejo para lembrar de que as regras gerais sempre apresentam exceções.

Recordo-me que, certa vez, em sala de aula, um colega estava analisando um problema e concluiu pela subsunção do fato a um artigo de lei. Com seu gesto característico de esfregar calmamente as mãos, o Dr. Célio sugeriu cautela na conclusão, afirmando que a citação do dispositivo legal estava correta, mas “em termos”, ou seja, guardada as devidas proporções. Enfático, ele recomendava evitarmos nos curvar apressadamente às aparências, porque elas enganam. E com maestria apresentava exemplos esclarecedores de exceções à rega geral. O que me fazia lembrar dos provérbios populares, tão a gosto do meu saudoso pai: “Nem tudo que reluz é ouro” ou “Nem tudo que balança cai”.   

Nunca esqueci o elogio que o Dr. Célio me fez na última aula daquele curso. Ao entregar minha prova, olhou-me com seu sorriso peculiar – surpreso com o resultado, diante de minha discreta, quase imperceptível presença no decorrer das aulas – e afirmou:

-  Você, hem, caladinho e calmo no seu lugar, mas danado sabendo das coisas. E entregando-me a prova que rubricou a nota máxima, concluiu: As aparências enganam; parabéns!.

Na verdade, quem mereceu parabéns foi o ilustre professor. Embora minha aparência sugerisse alheamento ou falta de atenção aos ensinamentos do mestre, isto não correspondia a realidade.  As aparências enganavam. Eu estava atento e o meu silêncio era indicativo de que suas explanações não deixavam dúvidas. O mérito era dele que, com competência, sabia ensinar.

No encerramento daquele curso, o competente professor foi merecidamente agraciado pelos alunos com uma placa de prata.

Depois de relembrar estes fatos, tomei conhecimento - com muito pesar -  que o venerável Professor Célio Loureiro já não está em nosso convívio. Desde o final de abril deste ano, quando já contava com  88 anos de idade, ele passou para a dimensão celeste, deixando saudades.

O ilustre professor revive em nossas lembranças e, aqui, presto-lhe minha sincera e humilde homenagem.

Aracaju, 02/07/2017

Beto Déda

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O FRIO EM SIMÃO DIAS, O ‘VIN D’HONNEUR’ E A INESQUECÍVEL GAROTA DE ‘BABY-DOLL’.

Neste domingo chuvoso a temperatura baixou aqui em Aracaju e fiquei em casa convalescendo de uma torção no tornozelo e de alergia provocada pelas temíveis muriçocas do bairro Mosqueiro.

Em conversa, via internet, com minhas amigas Amanda Santos e Ana Maria Ferreira soube que a época de frio já chegou a Simão Dias e em Paripiranga. Naquela região, nos idos de minha juventude, a temperatura atingia 14 graus centígrados. É um frio gostoso, bom pra dormir e pra namorar.  É o tempo agradável de saborear um chocolate quente e um licor de jenipapo.

Nos invernos dos anos cinquenta, em noites de sábado, depois do cinema, lá pelas 22 horas, a rapaziada (eu, Zé Carlos Déda, Heraldo Guerra, Francisco Dias, Gildo Fraga, Gildo Matos,  Brício Matos, Sebastião Araújo e Oscarlito) se reunia no Bar de Pedro Mendes, em Simão Dias,  ou no Bar de Bezerrinha, em Paripiranga, para degustar um queijo de coalho  e brindar a amizade com copos de vinho tinto. Em um dessas noites apareceu um colega benebeano, conhecedor de fidalguias, que passou a qualificar aquela reunião com uma frase francesa que pronunciava fazendo biquinho: “Vin d’honneur”. E informava que no velho mundo o tal “Vin d’honneur” significava “vinho da honra”, no sentido de um evento comemorado com bons vinhos, acompanhado de queijos e outros petiscos.

Ao ouvir tal discurso, o saudoso Brício Matos, sempre gozador, acrescentava sua interpretação, em voz pausada:

- No meu modesto entendimento, a tradução real para esse tal ‘d’honneur’ é: danado. Porque reflete as consequências que teremos ao expurgá-lo, pelas vias superiores e inferiores, na ressaca de amanhã”.

E erguia uma taça antiga, brindando os colegas e expondo o vermelhão de seu rosto em uma gargalhada que contagiava toda turma.

Nas reuniões também eram servidas bebidas quentes, como  a famosa caipirinha ou um aguardente chamado “quentão”, que ardia na goela mas esquentava o corpo. E no Bar de Bezerrinha sempre tinha o apreciado tira gosto de uma galinha de capoeira. Coisas apreciáveis nos invernos de antão em minha terra natal e na vizinha cidade de Paripiranga, que carinhosamente chamávamos de Paris.

Ao lembrar o frio de minha terra, ocorreu-me também que, há cinco anos, estimulado pelo amigo Clínio Guimarães, comentei, aqui, minhas recordações de adolescente nas frias manhãs de sábado, quando eu andava literalmente por todas as ruas de Simão Dias, distribuindo o jornal "A Semana", editado por meu saudoso pai.

Nos meses de inverno era aquele frio gostoso, debelado pelo meu andar rápido de garoto. Para a maioria dos assinantes a entrega era feita por debaixo das portas, com o clarear dos primeiros raios de sol. Mas alguns deles invariavelmente aguardavam a minha passagem para a leitura matinal de "A Semana". Eram os habituês, como dizia João Jacó, locutor e projetista do Cine Brasil. Lembro-me agora de alguns deles. Na praça da Matriz, era o dentista Dr. Fraga Matos (pai de Dr. Gilson, Dr. Gildo e Auxiliadora), que com seu sorriso bonachão passava suas mãos por meus desalinhados cabelos, tal como fazia meu pai. Era um gesto que na minha mente representava o mais nobre sinal de carinho de um adulto para uma criança, era um elogio ao meu comportamento e me transmitia uma confiança enorme. Outros assinantes que também me aguardavam, esfregando as mãos para espantar o frio: na Rua da Feira, o Sr. Josino Barbosa; na Rua de Estância, Dr. Alceu Conceição (irmão de Durval, construtor do Cine Brasil); na Rua do Coité, D. Aldina (avó de Clínio); na Rua do Cine Ipiranga, Seu Inocêncio Nascimento (meu padrinho); na Rua Canafístula, Seu Zuzu (mecânico que cuidava da  usina elétrica); na Rua do Pastinho, Seu Coelho (lembro-me que era um senhor baixo, cabelos grisalhos, usava um pequeno chapéu e lia o jornal com um grande  interesse). E outros que se arriscavam a acordar cedo e enfrentar o frio do inverno, que não menciono aqui por falha na memória.

Como jornaleiro, lembro-me de outros dois fatos marcantes que registro aqui. O primeiro me irritava e afastava o frio que era tangido pela raiva. Tinha um colega, do Grupo Escolar, que quando me via entregando jornal, gritava para me pirraçar: -Jornaleiro, me dá um jornal feminino... Eu ficava puto da vida e tinha vontade de arremessar os jornais na cara do fi-da-p... Hoje, a lembrança me diverte.

O outro fato é de recordação sublime, que me deixa em estado de graça sempre que lembro. É o caso da garota que usava um fantástico baby-doll (uma curta e elegante roupa de dormir parecida com camisola). Foi assim: sabendo que a filha de um assinante acompanhava com vivo interesse matéria do jornal, eu fazia questão de entregar o exemplar pessoalmente. Escolhia a hora apropriada e anunciava em voz alta, para acordar a garota leitora: - Olha o jornal "A Semana"! E repetia até ouvir a voz melodiosa pedir que entrasse para entregar pessoalmente o jornal. Eu entrava e me deslumbrava ao ver a garota de baby-doll... As entregas e as maravilhosas visões se repetiram... E nessas ocasiões o frio não me incomodava. O Sangue fervia!

São lembranças gostosas de tempos felizes.

Aracaju, 22/06/2017

Beto Déda

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Comentando ofensas às prerrogativas dos idosos.

Na última semana recebi importantes e encorajadoras mensagens de amigos e parentes pela comemoração de meus setenta e seis anos. Ao se atingir esta idade um bom bocado de inquietações surge quando vislumbramos o futuro.

A verdade é que, ao avançarmos por esta fase da vida, conhecida com a “terceira idade”, as perspectivas são sombrias e, queiramos ou não, são pontilhadas de dor (na cabeça, no ombro, nas costas, nas pernas e em outras partes que não ouso falar). Esta é a fase que, com muita graça e razão, o dito popular consagra como a idade do condor, ou seja, a idade do “COM DOR” e, para outros, a idade da PVC – Porra de Velhice Chegando.

Como estamos na fase da vida que corresponde a uma decida de ladeira, com um abismo à vista, temos que nos proteger e procurar reforços para amenizar o declínio que tempo processa em nosso físico.  E essa proteção é encontrada quando esquecemos um pouco o futuro e nos dedicamos a viver intensamente o presente e a reviver, nas lembranças, os bons momentos do passado.  Não é à toa o interesse dos idosos em comentar partes alegres da vida. Os olhos faíscam de interesse, a conversa se alonga. Não importa que as lembranças sejam repetitivas, o que interessa é que elas nos revigoram.

Na verdade a vida do idoso é meio complicada e frágil ao enfrentar os múltiplos problemas que o atingem. Merece a compreensão de muitos e o amparo legal. Reconhecendo essa carência de defesa, nossa legislação – de modo específico o Estatuto do Idoso – apresenta regras importantes de proteção aos que passam dos 60 anos de idade. 

No entanto e infelizmente, o que se nota é a tentativa de arrefecimento daquilo que a legislação determina.

Não são poucas as vezes que nos deparamos com o descaso que os responsáveis por alguns estabelecimentos dão ao direito do idoso de ter prioridade em suas pretensões. Um exemplo revelador é o fato de escolherem justamente o local destinado ao atendimento do idoso para treinarem funcionários novos e inexperientes. Percebe-se, então, que furtivamente o ditame legal é detonado pelo atendimento lento, cheio de interrupções e indagações, frustrando o essencial esperado pelo idoso: a perspectiva de ser atendido com rapidez.

Pensando nisso, vem à baila, outro fato pitoresco que aconteceu recentemente com um velho amigo. Conto para vocês:

Apareceu em sua caixa de correspondências um reclame informando a inauguração de uma barbearia, em uma rua próxima.

Satisfeito com a proximidade do atendimento, ele foi ao salão cortar a reduzida cabeleira. Chegando lá, aguardou alguns minutos enquanto o cabeleireiro terminava seu quebra jejum e, logo em seguida, foi atendido. Quando transcorria mais ou menos a metade do corte, entrou um rapaz no salão e trocou algumas palavras com o barbeiro. Então este se virou para meu amigo e indagou:

- O senhor se incomodaria que eu fizesse agora um ligeiro acabamento no corte desse freguês? É coisa rápida, só um aprimoramento na costeleta...

Diante da inesperada indagação do profissional e pensando ser coisa rápida, o idoso amigo concordou.
Uma charge antiga para ilustrar um fato novo.

Veio então a surpresa. O barbeiro pediu que meu amigo saísse da cadeira. Ele saiu. Em seguida ele pediu que ele tirasse o avental (guarda pó ou guarda cabelo?). Ele tirou.

Passou o guarda-cabelo para o freguês, que se sentou calmamente na cadeira. 

Atordoado e surpreso com aquela atitude, o amigo observou que o cabeleireiro começou a conversar com o rapaz e a lhe fazer o corte do cabelo, calmamente, como se fosse uma ação normal.

Ao perceber que não se tratava de coisa rápida, mas um ato de estúpido desrespeito, o amigo foi fustigado pela impaciência dos que têm “pavio curto” ou do popular “caga-raiva”. E falou com seus botões: “Que merda é essa?... Vou protestar e fazer uma bagunça aqui nesse salão...”

Mas não o fez. O peso e a experiência dos mais de setenta anos aliviaram e apagaram seu pavio curto. E ele maneirou...

O amigo interrompeu o barbeiro e disse que infelizmente teria que sair, justificando que estava na hora de pegar seu neto. E andou em direção ao portão de saída. Foi quando o tal cabeleireiro “navalha-cega” completou seu desacato, ao exclamar com desdém:

- Que pressa de arrombar é essa?

A grosseria do barbeiro foi tanta que inverteu de quem era realmente a pressa: transferindo-a de seu prestigiado freguês para meu amigo.

Não obstante se trate de um fato real, de insulto ao idoso e de ofensa aos dispositivos legais que o amparam, meu amigo se nega a dizer onde fica esse salão e o nome do tal barbeiro.  Diz ele que o aprendizado acumulado em tantos anos de luta arrefeceu seu espírito aguerrido. Prefere olvidar totalmente locais e nomes de pessoas envolvidas em fatos que o maltrataram.

Daí, a pertinência de uma pergunta e o óbvio da resposta:

- Esquecer não seria um ato de permitir a impunidade e, consequentemente, de incentivo a novas ofensas?

- É possível, sim!

Mas hoje não podemos ignorar que a violência se tornou tão banal que arrefece ainda mais o fraco poder de defesa dos idosos.

Compreende-se, assim, a cautela do amigo.

Aracaju, 31-05-2017

BETO DÉDA

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A TEORIA ARGUMENTATIVA E OS FILÓSOFOS SIMÃODIENSES.

Nas últimas semanas estive longe das redes sociais. Passei alguns dias em Salvador e, no final do mês de abril, me dediquei a outras atividades que me lançaram longe da rotina.
Mesmo assim, não deixei de reservar algum tempo para uma boa leitura e não fiquei indiferente às proveitosas manifestações do dia 28 de abril, quando o povo foi às ruas manifestar sua discordância às lastimáveis reformas que o governo golpista e seus aliados tentam empurrar goela abaixo das classes menos favorecidas do país.
Nas minhas recentes leituras, deparei-me com um artigo publicado na revista Carta Capital, edição de 19/04/2017, escrito por Thomaz Wood Jr., Professor da FGV-EAESP, que comenta sobre a Teoria Argumentativa do Raciocínio, defendida por dois cientistas franceses (Hugo Mercier e Dan Sperber). Eles contestam o legado do filósofo René Descartes (1596-1650), considerado como o pai da filosofia moderna. Para melhor lembrar, Descartes era conhecido pela frase em latim: “Cogito, ergum sum”, ou seja, “Penso, logo existo”.
O tema abordado por Wood me interessou. E fui motivado pela lembrança que me transportou para o tempo de minha juventude, quando me animava em leituras nos compêndios da pequena e importante biblioteca de meu pai. Foi lá que pela primeira vez deparei-me com um exemplar do Discurso do Método, de Descartes. Li com entusiasmo e fazia questão de comentar com colegas e parentes próximos. O lema de Descartes era a busca da verdade e, para alcançá-la, recomendava se duvidar de tudo, fazendo indagações de modo a excluir qualquer parcela de incerteza.
Ao ler o artigo de Wood Jr., apressei-me em conhecer o que alegam os atuais contestadores do pensamento de Descastes. E eles apresentam argumentos importantes em defesa do que chamam Teoria Argumentativa, informando que o raciocínio e a razão não buscam a verdade, mas procuram sistematicamente argumentos que justifiquem nossos pontos de vistas ou ações.   Trocando em miúdos: eles asseguram que a capacidade de raciocinar é desenvolvida para permitir a interação social, de modo a defender nossas crenças e convencer outras pessoas a aceitarem nossos argumentos. O raciocínio adota o viés da confirmação: selecionando arrazoados que favoreçam nosso modo de pensar, desprezando os que lhe são contrários, independentemente de serem válidos.
Embora a Teoria Argumentativa seja motivo de discussão acadêmica, envolvendo controvérsia entre filósofos e psicólogos, o assunto fustigou minha memória para o tempo em que me dedicava a analisar com carinho a filosofia de simãodienses pensadores. 
E seguindo a máxima do grande Millôr Fernandes de que “Pensar-livre é só pensar”, dediquei-me a matutar sobre a Teoria Argumentativa envolvendo livres pensadores simãodienses, envolvidos em problemas metafísicos do torrão margeado pelas águas salobras que descem pelas curvas assimétricas do riacho Caiçá.  
Lembrei-me, então, de consagrados e conhecidos "filósofos" conterrâneos que esbanjavam argumentos para favorecerem seus pontos de vista. Encantava-me perceber o raciocínio de Domingos Bina, Negão Engraxate, Paulo José dos Santos, Avião e a garota Bolochinha. Todos eles apresentando argumentos fartos em defesa de seus interesses e ideais: o carnaval, o bom aguardente, a beleza de seus amores e suas preferências expostas; tudo sem preconceito, nem cor.
Eram livres pensadores e filósofos capa-bodes, que neste momento reluzem em minha memória e os vejo como exemplos da Teoria Argumentativa defendida pelos franceses Mercier e Sperber.
Dentre os lembrados filósofos simãodienses, ressalto aqui os argumentos expressos por Paulo José dos Santos, em seus longos e contundentes discursos que começavam na Rua da Palha, por trás do antigo Açougue Municipal. Ali, no início das noites de sábado, depois de tomar muitas biritas no Bar de Seu Júlio, o Paulo José dos Santos começava seus discursos famosos, demonstrando sua verve de orador e apresentando argumentos em defesa de seu gosto pela saborosa aguardente. Em todos seus discursos evidenciava a pureza dos barris de cachaça, procedentes dos engenhos de Laranjeiras, pendurados em cangalhas de mulas que desciam a Serra do Cabral, em comboios tangidos por tropeiros e que se dirigiam ao Norte, Sul, Leste e Oeste da cidade para benzer as gargantas secas dos bravos trabalhadores simãodienses.  E repetia sem cansar os pontos cardiais da cidade e os elogios à cachaça pura dos alambiques do Vale do Cotinguiba. Grande orador, excepcional bebedor. 
Mas deixemos de lado os populares pensadores da terra natal e passemos à realidade do que representa a teoria desenvolvida pelos professores franceses.
Pelo que se tem notícia, a teoria argumentativa saiu da raia dos advogados e, nos dias conturbados que atualmente assolam nosso país, tem sido venerada por parte de componentes do Poder Judiciário. O que se nota é que alguns procuradores e juízes não estão preocupados em raciocinar em busca da razão e da verdade. O interesse maior é a procura de argumentos que consolidem seus pontos de vista e suas ideologias. Agem despudoradamente e tomam decisões seletivas, usando meios duvidosos de pressão para conseguirem argumentos que respaldem suas preferências.
Quem são eles?
A resposta, como costuma dizer o Mino Carta: “é do conhecimento até do Mundo Mineral”.
Por esta e outras razões, dou um forte grito de VIVA aos "filósofos" simãodienses, que em outras eras praticavam sem preconceito a teoria argumentativa. Só que de forma mais clara e honesta do que a de alguns atuais e parciais julgadores.
ARACAJU, 07/05/2017
 BETO DÉDA

segunda-feira, 3 de abril de 2017

OS CURRAIS DE BOIS DE BARRO, A VILA SIDON E AS XILOGRAVURAS.

Nesta semana, para espantar a solidão, procurei abrigo em minha tenda de armengues e comecei a fazer um mini curral para bois de barro, encomendado por minha querida irmã Maura para presentear seu bisneto Guilherme.



A fazendinha de meu neto
Os encantos das brincadeiras com bois de barro nunca abandonaram minhas alegres lembranças de quando era criança. Tanto é assim que sempre passei essa tradição para meus filhos e netos. As fazendinhas de bois de barro de meus filhos eram denominadas “Vila Carlitos”, uma lembrança do nome da malhada que meu pai tinha lá pelas bandas do povoado Guiguiu, em Simão Dias. Para o curral de meu neto, usei o nome de nosso sítio: Lago Dourado. Agora, ao iniciar os trabalhos da encomenda feita por minha irmã, estou denominando a nova fazendinha de brinquedo como Vila Sidon, em homenagem ao sítio do meu sempre lembrado tio Paulo Déda, trisavô do garoto Guilherme.


Anúncio da Sidon no jornal A Semana - 29-10-1946


A Vila Sidon era o sítio de propriedade do meu tio Paulo, local de sua residência, de sua fábrica de artefatos de couro e do aloque ou curtume (estabelecimento em que se curtia e tingia couros para fabricação de calçados, selas, malas e arreios).  O terreno ficava ao lado da Feira dos Cavalos, na rua que passou a ser conhecida como Rua das Sete Casas (todas sete casinhas construídas por meu tio para os funcionários do curtume).


Minha mesa de diversão, iniciando o curral de Guilherme

Pois bem. Estava eu na minha oficina de armengues, construindo a fazendinha de brinquedos e enquanto entalhava o nome Vila Sidon no travessão da mini cancela, passei a me lembrar de meu pai fazendo as xilogravuras para o jornal “A Semana”.


Com meu pai aprendi muitas coisas, dentre elas as primeiras noções do uso do estilete no entalhe de madeiras. Naquele tempo eu ficava ao seu lado, absorto, observando o seu cuidado e maestria ao esculpir na madeira as charges que publicava na seção “Piada da Semana” do jornal. Ele fez mais de quatrocentas xilogravuras.



Foi com o estímulo do meu pai e mestre que me aventurei a entalhar algumas de suas charges. Tempos depois, quando ele nos deixou e passou para outra dimensão da vida, no glorioso mundo celeste, me aventurei a fazer algumas gravuras – diga-se de passagem: armengues, tal como são minhas obras de artesanato. Com o pseudônimo “Júnior” ousei publicá-las, no final de 1968, dando continuidade à seção “Piada da Semana”. (Na charge ao lado uma crítica à água salgada fornecida pela CAENE à população de Simão Dias).




São fatos alegres da vida que voltam à memória em consequência de um leve toque. E esta minha insistência em lembrá-los me distancia das amarguras dos dias atuais e me conduz a uma realidade mais amena da que se vive na atualidade de nosso Brasil.

Abarco com carinho tais lembranças e, feliz com elas, realizo, agora, o sonho de uma fazendinha de bois de barro para Guilherme, o trineto do meu querido tio Paulo. 

E narro essas lembranças, aqui e agora, sem acanhamento, para os amados parentes e amigos, especialmente os mais jovens, para que sejam preservadas como memória dos bons tempos.

Aracaju, 03/04/2017


BETO DÉDA

quarta-feira, 22 de março de 2017

BREVES LEMBRANÇAS DOS CINEMAS EM SIMÃO DIAS.

Dia desses fui indagado pelo professor e pesquisador conterrâneo Jorge Bastos sobre os cinemas de nossa terra. Gostei da indagação porque sempre fui fã da conhecida sétima arte. Frequentei com assiduidade o Cine Ypiranga e o Cine Brasil em minha terra natal e, também, os das cidades em que morei: em Aracaju (os cinemas Rex, Rio Branco, Vitória e Palace), em Salvador (o Guarani, o Excelsior e o Capri) e em Jequié (o Cine Auditório e o Cine Jequié).

Ultimamente assisto aos filmes na televisão ou no computador. E o bom filme, o que acho supimpa, eu costumo ver repetidas vezes, como é o caso dos dirigidos pelos geniais Fellini e John Ford. E quando faço isto, minha paciente Leninha indaga: - Quer decorar?

Tenho boas recordações dos cinemas de minha terra e algumas delas eu relembro aqui para os amigos.

Contava meu saudoso pai que quando o cinema teve início em nossa cidade, as fitas eram projetadas manualmente, em locais improvisados, e que as pessoas interessadas, além de pagar o ingresso, tinham que levar suas próprias cadeiras para assistirem às fitas confortavelmente sentadas.

O Cine-Jornal - folha editada pelo
Cine-Theatro Sylvio Romero
Naquele tempo predominavam as apresentações teatrais. Em 1918, foi inaugurado o Theatro Sylvio Romero, na Rua do Espinheiro, construído pelo o Cel. Felisberto Prata. Em 1921, aquela casa de espetáculos foi adaptada à projeção de filmes e passou a ser chamada de “Cine-Theatro Sylvio Romero”. Em 1923, sob a liderança de Arivaldo Prata (filho do Cel. Felisberto), surgiu o jornalzinho Cine-Jornal, que trazia logo abaixo do seu título a importante informação: “Folha de interesses locais e destinada a propaganda cinematográfica, editada pelo Cine-Theatro Sylvio Romero”.

Na década de 30, a aparelhagem do cinema foi vendida e surgiu na cidade o Cine Elite, que durou poucos anos.

O jornal “A Luta”, de Emílio Rocha, publicou várias notícias sobre o cinema em nossa terra.

Em 1943 o Sr. Pierre Freitas adquiriu nova aparelhagem e o prédio do Cine Theatro Sylvio Romero,  que mudou de nome, passando a ser denominado Cine Teatro Ypiranga.

Dez anos depois, em 1953, foi inaugurado um novo cinema na cidade, construído pelo Sr. Durval Conceição, com o nome de Cine Brasil.

Posteriormente o Cine Brasil foi vendido ao Sr. Antônio Borges; e o Cine Ypiranga vendido ao Sr. Edinho de Lagarto.  Com o passar dos anos e diante da concorrência da televisão, os cinemas fecharam.

Hoje temos apenas boas recordações daquelas casas de espetáculos. 

Aqui mesmo, já fiz relatos de minha presença no Cine Ypiranga, vendendo gibis, editados pela “Rio Gráfica Editora”, que meu irmão Carlos representava  em Simão Dias.

Ao falar sobre os cinemas de nossa terra, o principal fato que me vem à mente é o desabamento da “geral” do Cine Ypiranga. Em nossa terra, denominava-se “GERAL” a parte superior do cinema, com bancos desconfortáveis, e que se cobrava um valor menor pelo ingresso; era o local preferido pelos que tinham o hábito de soltar gases mal cheirosos e sonoros, ou seja, peidos fedorentos e estrondosos.
O Cine Ypiranga no traço e na lembrança de Beto Déda

Em uma noite de sábado, dia de feira na cidade, em 1961, o cinema estava lotado. Era exibido o filme brasileiro “A morte comanda o cangaço”. A fita mostrava uma luta sangrenta patrocinada pelos cangaceiros. Tiros, fumaça das armas, barulheira da artilharia dos jagunços e a plateia atenta, vibrando de emoção. Envolvidos no alvoroço da filmagem, os espectadores não notaram, de imediato, o estranho ruído e a fina poeira que desprendia da “Geral”.

Pois bem. Assim que perceberam que o som e a poeira não correspondiam aos efeitos especiais do filme, mas era o sinal de que a “geral” estava desabando, aí a plateia iniciou uma louca debandada no escuro, procurando saídas pela frente ou pelos fundos, por traz da tela, em direção à Rua dos Pinicos (era assim mesmo que era conhecida a rua que passava por trás do cinema).

Os que estavam nas filas próximas à entrada, seguiram a liderança de Dr. Fraga e Seu Manequinha, que eram pessoas bem conhecidas e admiradas na cidade. Eram corpulentos, então, diante do pânico, meteram as barrigas na grande porta da frente, quebrando os ferrolhos, escancarando-as em bandas, para dar passagem aos aflitos seguidores. O tumulto foi grande, mas, felizmente, não houve vítimas. Muitos perderam sapatos, chinelas e até chapéu, no entanto, nunca perderam o bom humor ao comentar a cena, sempre caprichando em satirizar o que se passou com cada um, sem esquecerem, ao final, mencionar a frase que se tornou frequente naqueles dias: “A morte comanda o cangaço, mas não comandou o Cine Ypiranga”...

O Cine Brasil na lembrança e no traço de Beto Déda
Lembro-me, agora, de outro fato que aconteceu no Cine Brasil e me foi contado por uma pessoa que admiro muito e que se viu em uma verdadeira “saia justa”. Certa noite o amigo foi ao cinema com sua mulher. Antes de iniciar o filme, foi projetado um documentário sobre uma tribo de índios no Xingu. A fita exibia indígenas nus, com as intimidades expostas. O recatado casal não gostou do que via e tentou sair discretamente. Quando se aproximavam da saída, foram abordados por seu Antônio, proprietário do cinema, que exclamou em voz alta, mencionando o nome do amigo, para que todos ouvissem:

 - “Meu amigo (...) se eu soubesse que nesta fita apareciam índios nus eu não permitiria a projeção...”

Surpreendidos pela quebra de privacidade da cautelosa saída, o envergonhado casal esgueirou-se porta a fora, ouvindo as gargalhadas e os gritos dos espectadores em consequência da espalhafatosa declaração do dono do cinema.

Aracaju, 22/03/2017


BETO DÉDA

segunda-feira, 13 de março de 2017

O  JORNAL  “PAPAGAIO DO FUTURO”


Há poucos dias tive o prazer de dialogar com o conterrâneo Delso Oliveira Andrade, filho de Damaris e neto de Seu Chiquinho Vito, que moravam na Avenida Coronel Loyola, antiga Rua da Feira, em Simão Dias.  O Delso saiu de nossa cidade quando era jovem para estudar em outras plagas e hoje ele reside no Vale do Cariri, no Ceará, elaborando projetos para desenvolvimento de pequenos produtores rurais.

Nossa conversa aconteceu via internet. Foi quando tomei conhecimento que, no início dos anos 80, jovens inteligentes, irrequietos e de vanguarda editaram, em Simão Dias, um interessante jornal com o título “PAPAGAIO DO FUTURO”, duplicado em mimeógrafo e divulgado com razoável tiragem.

Naquela época eu morava em Jequié, daí a razão de não saber da existência daquele jornal. Somente agora, passados quase 37 anos, mediante troca de mensagens com o Delso Andrade, recebi cópias dos dois primeiros números do jornalzinho, que reproduzo aqui para lembrança dos mais velhos e conhecimento dos mais jovens.
O jornalzinho era editado por Delso e outros líderes estudantis da época, todos com ideias novas e que sabiam expressar opinião sobre os problemas locais ou mesmo criticar os atos políticos dos dois partidos antagonistas existentes na cidade: os “Jacarés”, liderado por Dr. Celso Carvalho, e os Crocodilos, sob a liderança de Antônio Valadares.
  

Eram responsáveis e colaboradores do jornal os garotos: Delso Andrade, Humberto Oliveira, Marco Aurélio Déda, Marcelo Déda, José Silva, Enaldo Valadares,  Flamarion Déda, Gonzaga Varjão, Belivaldo Chagas, Écio Déda, Cícero Guerra Neto, Osvaldo Abreu e João Antônio Guerra.

No bate-papo que mantive com Delso, obtive informações de causos interessantes envolvendo os editores do jornal. Dele recebi autorização e repasso aos amigos do Facebook a interpretação que faço de alguns casos.

O primeiro deles refere-se a um entrevero que aconteceu entre um político e Humberto Oliveira, em decorrência de um artigo que criticava um grupo partidário. Na discussão, Humberto disse que o político era “bitolado”, então o homem ficou bravo, disse que não era, fez a maior zoada e depois, quando se acalmou, virou-se para o Prof. Udilson e indagou: - “O que significa mesmo essa tal palavra bitolado?”...

Em uma das edições do jornal, meu sobrinho Marco Déda escreveu um artigo com o título “Câmara dos Camarões”, no qual criticava os discursos e o desempenho dos vereadores da terra. Um edil leu o jornal, não gostou do artigo, vociferou contra os jovens e os ameaçou de dar bofetadas. Não passou de uma bazófia...

Como sempre aconteceu com os órgãos de imprensa, a opinião de alguns leitores sobre o jornal mudava em consequência dos artigos publicados: quando fazia críticas aos “Jacarés” era aplaudido pelos “Crocodilos”; e vice-versa. E isto acontecia também quando se criticava fatos que não envolviam políticos.

Um exemplo  de mudança de opinião ocorreu com o pároco daquela época: na missa de um domingo ele elogiou os editores do jornal e fez uma oração pedindo a Deus que iluminasse a cabeça daqueles jovens. No domingo seguinte, depois que o jornalzinho publicou um artigo criticando a administração do Cemitério – que estava sob a responsabilidade da paróquia – o padre ficou irritadíssimo e fez um duro pronunciamento censurando os jovens e afirmando que o “Papagaio do Futuro” era um panfleto difamador...

A lustração do “Papagaio do Futuro” era feita por Enaldo, filho de Nadinho do Bar Vesúvio. Em uma matéria que o jornalzinho criticava a atuação da diretoria do Caiçara Clube, o Enaldo apresentou uma interessante e cômica caricatura de um dos antigos diretores. Foi um sucesso. Em função desse artigo os jovens estudantes passaram a ter vez na diretoria do clube.

Conversei também com outros editores do jornal, entre eles o meu irmão Flamarion Déda (conhecido pelos familiares como Toínho). Cotou-me um fato interessante. Disse-me ele que certo dia a rapaziada teve um susto muito grande ao saber que o juiz da cidade (Dr. Emídio Nascimento) queria conversar com eles. Acreditavam que estariam movendo um processo contra os editores do jornal. Os mais pessimistas pensavam que seriam presos. Apreensivos, os jovens foram conversar com o juiz.  E naquele momento, em frente a autoridade máxima do judiciário da cidade, os estudantes tentavam desfaçar o receio. Cada um ao seu modo demonstrava seu estresse: esfregando as mãos para limpar o suor frio; piscando os olhos, intermitentemente, sem controle; mordendo as unhas, ou balançando as pernas como se tivesse com sezão.  E também tinha aquele que olhava cada colega com o riso maroto, aguardando o que diria o meritíssimo.  

Então surgiu a surpresa: o Dr. Emídio disse que queria conhecê-los para parabenizá-los pelo acerto em publicarem o jornalzinho. E o juiz cumprimentou cada um. 

Ufa! Foi um alívio formidável. Os estudantes recuperaram o fôlego que saíram confiantes do Fórum Gervásio Prata.

Não obstante sua curta duração, o "Papagaio do Futuro" empolgou os leitores de minha terra e, ao relembrar aqui sua passagem, fico imensamente feliz em notar que seus editores se tornaram importantes líderes  nas diversas atividades que escolheram. 

Todos eles são simãodienses que merecem nosso reconhecimento.

ARACAJU, 13/03/2017

BETO DÉDA