quarta-feira, 30 de agosto de 2017


O check-up de um "biriteiro"...

Tenho um amigo e conterrâneo que adora cerveja. Tudo é motivo a ser comemorado com uma taça da “loira gelada”. E não falta acontecimento para ele celebrar com um bom gole.

O fato é que essa paixão pela gostosa loira deixou intrigada a mulher do gajo bebedor. Não por ciúme (ela não era de ciumar). É que a dedicada esposa achou que o marido estava se excedendo nos goles e isto poderia causar-lhe algum problema de saúde. A preocupação foi crescendo à medida que os anos se passaram e a recomendação da mulher se tornando uma chatice. Todos os dias ela vociferava:

- Você tem que se cuidar. Este seu costume de todo dia levantar o copo não é bom pra saúde. Pratique exercícios físicos saudáveis.

E concluía em tom imperativo: Aprume-se, homem!

O amigo dava de ombros e virava o copo.


O certo é que a mulher começou a pensar que a saúde do marido estava fraquejando e insistiu que ele devia fazer um check-up médico.

A insistência da preocupada esposa convenceu o o paciente marido. Ele foi ao médico que o orientou a fazer uma bateria de exames.

No fim de semana anterior ao dia marcado para realização dos exames, ele não bebeu. E justificava que estava evitando a “loirinha” para que o teor alcoólico não influenciasse nos resultados.

Na manhã do dia programado ele compareceu ao laboratório antes mesmo do horário previsto para início do atendimento. Foi um dos primeiros da fila. A atendente era uma jovem simpática que anotou as requisições do médico e o cartão do plano de saúde.

Enquanto isto, ele debruçava-se no balcão, fixando os olhos gulosos na parte visível dos seios exuberantes da atendente. Estava desta forma, absorto em pensamentos maliciosos, quando foi surpreendido por uma indagação da moça:

- Veja bem, senhor, nesta relação de exames está um que o seu plano de saúde não cobre.  Nesse caso, se quiser fazê-lo, o senhor terá que pagar.

Ele tirou os olhos do bendito califom e, fitando o bonito rosto da moça, pediu informações sobre o tal exame. Mas não deixou que ela complementasse a resposta. Negou-se a pagar. Mandou que riscasse aquilo da lista. 

Uma senhora curiosa que estava ao lado não se conteve ao ouvir aquele diálogo. Era uma coroa que transparecia ser destas pessoas que dizem saber tudo sobre doenças, remédios e médicos. Então ela se virou para o amigo e o aconselhou a fazer o exame. “O custo não é grande e o resultado poderá ser importante”, disse ela.  E esclareceu, com muitos argumentos pessimistas, que não se deve economizar quando se trata de saúde.



Ao ouvi-la, o amigo meteu a mão em um dos bolsos, contou as cédulas correspondentes ao valor do exame, separando-as e guardando-as em outro bolso. Olhou bem para as duas, piscou para a alegre atendente,  e justificou:

- Se o plano de saúde não autoriza esse exame, eu também não vou autorizar. E o valor correspondente sai de um bolso e vai pra o outro, reservado ao pagamento de um engradado de cerveja para meu deleiteE começarei a bebericar ainda hoje, antes do almoço.

Não é pouco dizer que a coroa curiosa ficou boquiaberta, transparecendo malquerença, enquanto a simpática atendente esboçava um sorriso encantador.

Dito e feito, logo que recebeu o resultado dos exames o amigo saboreou uma loira gelada (sem colarinho) e eu o acompanhei com muito gosto. Enquanto virávamos o copo, contou-me ele que o médico nada indagara sobre o tal exame não realizado e, depois de analisar os resultados do check-up, afirmou que sua  saúde está nota dez.

...

PS- Ao finalizar cabe uma advertência: aqui não se faz apologia ao uso de bebidas alcoólicas, mas é uma história real e recente, que me foi contada por um simãodiense que aprecia moderadamente uma boa cerveja.  


Aracaju, 30/08/2017


Beto Déda

sexta-feira, 11 de agosto de 2017




A arte e a vida.

O desempenho de um bom artista me encanta e se ele é meu conterrâneo, aí então, eu fico maravilhado e me transformo em incondicional fã.  E ao dizer isto, confesso que fiquei imensamente alegre ao presenciar, recentemente, a atuação daquele que considero o máximo na arte de representar e que tenho uma grande admiração desde os velhos tempos. O artista é Harildo Déda.

E não é à toa esta minha confissão.  Além de ser um grande ator e reconhecido mestre da cena do teatro baiano, ele também é simãodiense, e, mais ainda, é meu primo, filho do meu sempre lembrado tio Paulo Déda.  

Também não é de agora que falo aos parentes e amigos sobre o orgulho que sempre tive e tenho ao vê-lo no teatro baiano, no cinema e em novelas da TV. 

Pois bem. Recentemente vibrei com a excelente apresentação de Harildo em um vídeo com o título “Morrer faz mal à saúde”, publicado no YouTube.  


                              
                 Harildo Déda em "Morrer faz mal à saúde" (ver no YuoTube).

E depois de assistir ao vídeo, veio-me a lembrança de um fato real que aconteceu lá pelas bandas da Rua do Curral, nas proximidades da Praça de São João, em Simão Dias.

Repasso para os amigos o acontecimento e o faço apurando cuidadosamente minha memória, isto porque o fato ocorreu há quase sessenta anos.

Maria de Tal era uma moça magra, alta, com cerca de trinta anos de idade, mas que aparentava ser mais velha, porque a dureza dos anos vividos começava, prematuramente, a dar sinais nas rugas do rosto comprido e prateando de alguns fios de seus longos cabelos. Ela não era bonita, mas transmitia simpatia e, embora fosse tantã da cabeça, era apreciável no seu modo de conversar.

Certa tarde, Maria estava suada, em frente a um quente fogão de lenha, torrando grãos de café, quando soube de uma notícia que abalou ainda mais seu pouco juízo. Soubera que seu noivado estava desmanchado. O traiçoeiro noivo já estava amancebado com outra e o projeto de casamento da infeliz moça tinha ido pra cucuias. 

A notícia causou-lhe uma tormenta no fraco juízo e ela reagiu puxando os próprios cabelos, dando pulos e gritos, alvoroçando os vizinhos. Descontrolada, partiu em disparada porta a fora e desceu ladeira abaixo em direção ao poço de tomar banho do Caiçá.  Chegando ao riacho, sentou-se à margem e baixou a cabeça entre os joelhos de suas compridas pernas.

Quem primeiro se aproximou, para satisfazer a insuperável curiosidade, foi um morador daquela redondeza, conhecido como Bão Preto, que indagou:

- Que diabo tá você fazendo aí na beira do Caiçá, moça?

Ela levantou a cabeça e com os olhos lacrimejando respondeu:

- Vim acabar com minha vida. Como eu tava torrando café e meu corpo tá muito quente, tou esperando esfriar pra pular no Caiçá e me afogar. Não quero mais viver... Mas prefiro morrer afogada e não estuporada...

Toma juízo, deixa de tuliça, muié, -  disse o velho Bão, que pegou no braço da frustrada suicida e cuidadosamente levou-a pra casa.

E ao passar, pelos curiosos, ele piscou o olho esquerdo e ditou: 

- Se afogá com o corpo quente faz má pra saúde, porque estupora...

ARACAJU, 11/08/2017


BETO DÉDA

terça-feira, 25 de julho de 2017

LEMBRANÇAS DA FESTA DE SANTANA EM SIMÃO DIAS.

O mês de julho é emblemático para os simãodienses, isto porque é nesta fase do ano que acontecem dois importantes acontecimentos em uma mesma semana: o primeiro corresponde ao ato religioso de culto à nossa padroeira, Nossa Senhora Santana; e o segundo porque é o mês que mais congrega os filhos da terra, em especial os que residem fora, numa confraternização formidável.

Embora fatores circunstanciais impeçam-me de comparecer este ano ao grande encontro com os conterrâneos, dediquei-me a relembrar de nossa festa ao longo de mais de cinquenta anos. E fiz isto relendo, no jornal "A Semana", a seção “Acontecimentos Sociais”, que, em 1959, era escrita por meu irmão Artur Oscar de Oliveira Déda; e que,  em 1966, eu era o redator.  Naquela época, escrevíamos no jornal usando pseudônimos, e o fazíamos seguindo o exemplo de meu pai que utilizava desse artifícios em muitos dos seus escritos. 


Na seção que noticiávamos assuntos sociais, Artur escrevia com o nome fictício de RAMÍRES, enquanto eu usava o pseudônimo CARLYLE.

  

Embora com uma diferença de dez anos, as reportagens sociais que escrevíamos sempre focalizavam o mesmo ponto de encontro dos simãodienses: o Cayçara Clube, que ficava na Rua Cônego Andrade, onde hoje é um prédio da Igreja Universal.
O prédio do Cayçara Clube

Os bailes eram realizados com conjuntos musicais da própria cidade e, nos grandes eventos, eram contratadas orquestras de renome de outras paragens.

Hoje não existe o Cayçara Clube, surgiram outros centros recreativos e as festas são encerradas em praça pública, com bandas modernas. Tudo no seu devido tempo. Os locais são diferentes, mas têm um ponto comum: a alegria. Com um detalhe: a praça reúne ainda mais os amigos.

Nossa padroeira, na semana que lhe prestamos homenagem, patrocina o  encontro cordial dos ilustres conterrâneos.

Assim é que, diante de impossibilidade de comparecer ao dia festivo, relembro de minha terra e de minha gente lendo velhas reportagens... 

E repasso, para lembranças dos amigos interessados,  recortes de nossas reportagens sobre as festas:


Em 1959, escrita por Artur Oscar Déda: 


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Em 1966, escrita por Beto Déda:




Aracaju, 25-07-2017

BETO DÉDA           

domingo, 2 de julho de 2017

Lembrando Dr. Célio Loureiro: “As aparências enganam”...

Ultimamente ando mancando: com um pé na chinela de dedo e outo no sapato. Uma vizinha me indagou: "Perdeu um sapato ou está economizado?". Nem uma coisa, nem outra, respondi. Caí e torci o pé. 

Ainda em recuperação, resolvi dar uma volta lá pelas bandas Mosqueiro. Fui atacado por centenas de muriçocas. Pinicaram meu corpo até por cima de minhas roupas. A camisa de malha e as meias de algodão não impediram a ferocidade das picadas dos mosquitos. Resultado: passei a ter intermitentes ataques de coceira decorrentes de alergia. Uma comichão terrível que me irrita e deixa o corpo pintado. Tive que recorrer por duas vezes a uma clínica para debelar os efeitos alérgicos. Ainda  não estou curado; nem da torção do pé, nem da coceira.

Enquanto permaneço em casa, fico analisando velhos documentos e fotografias. E me divirto ao rever os arquivos.  Observadores íntimos afirmam que sou um acumulador de documentos.  Guardo velhos papéis que retratam passos de minha vida e de meus ancestrais. Daí o amigo Odilon Machado dizer que pareço um cavaleiro medieval, com aquelas armaduras, guardador das relíquias da família. Pois que seja!  É de minha natureza manter tais recordações e,  quando sobra um  tempinho, perscrutá-las.

Assim é que, remexendo meus arquivos, deparei-me com antigas charges publicadas pelo humorista Carlos Estevão na revista “O Cruzeiro”, em uma seção com o título “As aparências enganam”, na qual demonstrava as interpretações falsas provocadas por uma visão sombria dos fatos. Então apresentava dois desenhos de um mesmo fato, um com silhuetas e outro sem sombras, de modo evidenciar que as aparências enganavam. Um bom exemplo é a charge que retrata uma alegre festa de aniversário: quando evidenciada em sombras, as silhuetas nos levam ao erro de interpretar a cena como um fato sinistro; e em sentido contrário, a mesma cena sob o brilho das luzes mostra que não passa de uma divertida festa. 

As aparências enganam  - Carlos Estevão:

 

Ao continuar revendo meus arquivos, encontrei um Boletim de Notícias do BNB em que apareço em uma foto no encerramento do X Curso de Administradores de Agências patrocinado pelo Banco do Nordeste, em 1969. Com tal jornalzinho estavam arquivadas minhas provas daquele curso.  


Como uma recordação leva à outra, em minha bendita cachola fiz o liame entre o humor de Carlos Estevão e uma lição do saudoso Prof. Célio Loureiro Cavalcante, que era um importante advogado de Fortaleza, dirigia o Departamento Jurídico do Banco do Nordeste, o famoso DEJUR, e lecionava, com competência, cursos patrocinados pelo banco. 

Pois bem, em suas aulas de Direito Bancário, Dr. Célio costumava nos orientar a não esquecer que as aparências enganam e aproveitava o ensejo para lembrar de que as regras gerais sempre apresentam exceções.

Recordo-me que, certa vez, em sala de aula, um colega estava analisando um problema e concluiu pela subsunção do fato a um artigo de lei. Com seu gesto característico de esfregar calmamente as mãos, o Dr. Célio sugeriu cautela na conclusão, afirmando que a citação do dispositivo legal estava correta, mas “em termos”, ou seja, guardada as devidas proporções. Enfático, ele recomendava evitarmos nos curvar apressadamente às aparências, porque elas enganam. E com maestria apresentava exemplos esclarecedores de exceções à rega geral. O que me fazia lembrar dos provérbios populares, tão a gosto do meu saudoso pai: “Nem tudo que reluz é ouro” ou “Nem tudo que balança cai”.   

Nunca esqueci o elogio que o Dr. Célio me fez na última aula daquele curso. Ao entregar minha prova, olhou-me com seu sorriso peculiar – surpreso com o resultado, diante de minha discreta, quase imperceptível presença no decorrer das aulas – e afirmou:

-  Você, hem, caladinho e calmo no seu lugar, mas danado sabendo das coisas. E entregando-me a prova que rubricou a nota máxima, concluiu: As aparências enganam; parabéns!.

Na verdade, quem mereceu parabéns foi o ilustre professor. Embora minha aparência sugerisse alheamento ou falta de atenção aos ensinamentos do mestre, isto não correspondia a realidade.  As aparências enganavam. Eu estava atento e o meu silêncio era indicativo de que suas explanações não deixavam dúvidas. O mérito era dele que, com competência, sabia ensinar.

No encerramento daquele curso, o competente professor foi merecidamente agraciado pelos alunos com uma placa de prata.

Depois de relembrar estes fatos, tomei conhecimento - com muito pesar -  que o venerável Professor Célio Loureiro já não está em nosso convívio. Desde o final de abril deste ano, quando já contava com  88 anos de idade, ele passou para a dimensão celeste, deixando saudades.

O ilustre professor revive em nossas lembranças e, aqui, presto-lhe minha sincera e humilde homenagem.

Aracaju, 02/07/2017

Beto Déda

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O FRIO EM SIMÃO DIAS, O ‘VIN D’HONNEUR’ E A INESQUECÍVEL GAROTA DE ‘BABY-DOLL’.

Neste domingo chuvoso a temperatura baixou aqui em Aracaju e fiquei em casa convalescendo de uma torção no tornozelo e de alergia provocada pelas temíveis muriçocas do bairro Mosqueiro.

Em conversa, via internet, com minhas amigas Amanda Santos e Ana Maria Ferreira soube que a época de frio já chegou a Simão Dias e em Paripiranga. Naquela região, nos idos de minha juventude, a temperatura atingia 14 graus centígrados. É um frio gostoso, bom pra dormir e pra namorar.  É o tempo agradável de saborear um chocolate quente e um licor de jenipapo.

Nos invernos dos anos cinquenta, em noites de sábado, depois do cinema, lá pelas 22 horas, a rapaziada (eu, Zé Carlos Déda, Heraldo Guerra, Francisco Dias, Gildo Fraga, Gildo Matos,  Brício Matos, Sebastião Araújo e Oscarlito) se reunia no Bar de Pedro Mendes, em Simão Dias,  ou no Bar de Bezerrinha, em Paripiranga, para degustar um queijo de coalho  e brindar a amizade com copos de vinho tinto. Em um dessas noites apareceu um colega benebeano, conhecedor de fidalguias, que passou a qualificar aquela reunião com uma frase francesa que pronunciava fazendo biquinho: “Vin d’honneur”. E informava que no velho mundo o tal “Vin d’honneur” significava “vinho da honra”, no sentido de um evento comemorado com bons vinhos, acompanhado de queijos e outros petiscos.

Ao ouvir tal discurso, o saudoso Brício Matos, sempre gozador, acrescentava sua interpretação, em voz pausada:

- No meu modesto entendimento, a tradução real para esse tal ‘d’honneur’ é: danado. Porque reflete as consequências que teremos ao expurgá-lo, pelas vias superiores e inferiores, na ressaca de amanhã”.

E erguia uma taça antiga, brindando os colegas e expondo o vermelhão de seu rosto em uma gargalhada que contagiava toda turma.

Nas reuniões também eram servidas bebidas quentes, como  a famosa caipirinha ou um aguardente chamado “quentão”, que ardia na goela mas esquentava o corpo. E no Bar de Bezerrinha sempre tinha o apreciado tira gosto de uma galinha de capoeira. Coisas apreciáveis nos invernos de antão em minha terra natal e na vizinha cidade de Paripiranga, que carinhosamente chamávamos de Paris.

Ao lembrar o frio de minha terra, ocorreu-me também que, há cinco anos, estimulado pelo amigo Clínio Guimarães, comentei, aqui, minhas recordações de adolescente nas frias manhãs de sábado, quando eu andava literalmente por todas as ruas de Simão Dias, distribuindo o jornal "A Semana", editado por meu saudoso pai.

Nos meses de inverno era aquele frio gostoso, debelado pelo meu andar rápido de garoto. Para a maioria dos assinantes a entrega era feita por debaixo das portas, com o clarear dos primeiros raios de sol. Mas alguns deles invariavelmente aguardavam a minha passagem para a leitura matinal de "A Semana". Eram os habituês, como dizia João Jacó, locutor e projetista do Cine Brasil. Lembro-me agora de alguns deles. Na praça da Matriz, era o dentista Dr. Fraga Matos (pai de Dr. Gilson, Dr. Gildo e Auxiliadora), que com seu sorriso bonachão passava suas mãos por meus desalinhados cabelos, tal como fazia meu pai. Era um gesto que na minha mente representava o mais nobre sinal de carinho de um adulto para uma criança, era um elogio ao meu comportamento e me transmitia uma confiança enorme. Outros assinantes que também me aguardavam, esfregando as mãos para espantar o frio: na Rua da Feira, o Sr. Josino Barbosa; na Rua de Estância, Dr. Alceu Conceição (irmão de Durval, construtor do Cine Brasil); na Rua do Coité, D. Aldina (avó de Clínio); na Rua do Cine Ipiranga, Seu Inocêncio Nascimento (meu padrinho); na Rua Canafístula, Seu Zuzu (mecânico que cuidava da  usina elétrica); na Rua do Pastinho, Seu Coelho (lembro-me que era um senhor baixo, cabelos grisalhos, usava um pequeno chapéu e lia o jornal com um grande  interesse). E outros que se arriscavam a acordar cedo e enfrentar o frio do inverno, que não menciono aqui por falha na memória.

Como jornaleiro, lembro-me de outros dois fatos marcantes que registro aqui. O primeiro me irritava e afastava o frio que era tangido pela raiva. Tinha um colega, do Grupo Escolar, que quando me via entregando jornal, gritava para me pirraçar: -Jornaleiro, me dá um jornal feminino... Eu ficava puto da vida e tinha vontade de arremessar os jornais na cara do fi-da-p... Hoje, a lembrança me diverte.

O outro fato é de recordação sublime, que me deixa em estado de graça sempre que lembro. É o caso da garota que usava um fantástico baby-doll (uma curta e elegante roupa de dormir parecida com camisola). Foi assim: sabendo que a filha de um assinante acompanhava com vivo interesse matéria do jornal, eu fazia questão de entregar o exemplar pessoalmente. Escolhia a hora apropriada e anunciava em voz alta, para acordar a garota leitora: - Olha o jornal "A Semana"! E repetia até ouvir a voz melodiosa pedir que entrasse para entregar pessoalmente o jornal. Eu entrava e me deslumbrava ao ver a garota de baby-doll... As entregas e as maravilhosas visões se repetiram... E nessas ocasiões o frio não me incomodava. O Sangue fervia!

São lembranças gostosas de tempos felizes.

Aracaju, 22/06/2017

Beto Déda

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Comentando ofensas às prerrogativas dos idosos.

Na última semana recebi importantes e encorajadoras mensagens de amigos e parentes pela comemoração de meus setenta e seis anos. Ao se atingir esta idade um bom bocado de inquietações surge quando vislumbramos o futuro.

A verdade é que, ao avançarmos por esta fase da vida, conhecida com a “terceira idade”, as perspectivas são sombrias e, queiramos ou não, são pontilhadas de dor (na cabeça, no ombro, nas costas, nas pernas e em outras partes que não ouso falar). Esta é a fase que, com muita graça e razão, o dito popular consagra como a idade do condor, ou seja, a idade do “COM DOR” e, para outros, a idade da PVC – Porra de Velhice Chegando.

Como estamos na fase da vida que corresponde a uma decida de ladeira, com um abismo à vista, temos que nos proteger e procurar reforços para amenizar o declínio que tempo processa em nosso físico.  E essa proteção é encontrada quando esquecemos um pouco o futuro e nos dedicamos a viver intensamente o presente e a reviver, nas lembranças, os bons momentos do passado.  Não é à toa o interesse dos idosos em comentar partes alegres da vida. Os olhos faíscam de interesse, a conversa se alonga. Não importa que as lembranças sejam repetitivas, o que interessa é que elas nos revigoram.

Na verdade a vida do idoso é meio complicada e frágil ao enfrentar os múltiplos problemas que o atingem. Merece a compreensão de muitos e o amparo legal. Reconhecendo essa carência de defesa, nossa legislação – de modo específico o Estatuto do Idoso – apresenta regras importantes de proteção aos que passam dos 60 anos de idade. 

No entanto e infelizmente, o que se nota é a tentativa de arrefecimento daquilo que a legislação determina.

Não são poucas as vezes que nos deparamos com o descaso que os responsáveis por alguns estabelecimentos dão ao direito do idoso de ter prioridade em suas pretensões. Um exemplo revelador é o fato de escolherem justamente o local destinado ao atendimento do idoso para treinarem funcionários novos e inexperientes. Percebe-se, então, que furtivamente o ditame legal é detonado pelo atendimento lento, cheio de interrupções e indagações, frustrando o essencial esperado pelo idoso: a perspectiva de ser atendido com rapidez.

Pensando nisso, vem à baila, outro fato pitoresco que aconteceu recentemente com um velho amigo. Conto para vocês:

Apareceu em sua caixa de correspondências um reclame informando a inauguração de uma barbearia, em uma rua próxima.

Satisfeito com a proximidade do atendimento, ele foi ao salão cortar a reduzida cabeleira. Chegando lá, aguardou alguns minutos enquanto o cabeleireiro terminava seu quebra jejum e, logo em seguida, foi atendido. Quando transcorria mais ou menos a metade do corte, entrou um rapaz no salão e trocou algumas palavras com o barbeiro. Então este se virou para meu amigo e indagou:

- O senhor se incomodaria que eu fizesse agora um ligeiro acabamento no corte desse freguês? É coisa rápida, só um aprimoramento na costeleta...

Diante da inesperada indagação do profissional e pensando ser coisa rápida, o idoso amigo concordou.
Uma charge antiga para ilustrar um fato novo.

Veio então a surpresa. O barbeiro pediu que meu amigo saísse da cadeira. Ele saiu. Em seguida ele pediu que ele tirasse o avental (guarda pó ou guarda cabelo?). Ele tirou.

Passou o guarda-cabelo para o freguês, que se sentou calmamente na cadeira. 

Atordoado e surpreso com aquela atitude, o amigo observou que o cabeleireiro começou a conversar com o rapaz e a lhe fazer o corte do cabelo, calmamente, como se fosse uma ação normal.

Ao perceber que não se tratava de coisa rápida, mas um ato de estúpido desrespeito, o amigo foi fustigado pela impaciência dos que têm “pavio curto” ou do popular “caga-raiva”. E falou com seus botões: “Que merda é essa?... Vou protestar e fazer uma bagunça aqui nesse salão...”

Mas não o fez. O peso e a experiência dos mais de setenta anos aliviaram e apagaram seu pavio curto. E ele maneirou...

O amigo interrompeu o barbeiro e disse que infelizmente teria que sair, justificando que estava na hora de pegar seu neto. E andou em direção ao portão de saída. Foi quando o tal cabeleireiro “navalha-cega” completou seu desacato, ao exclamar com desdém:

- Que pressa de arrombar é essa?

A grosseria do barbeiro foi tanta que inverteu de quem era realmente a pressa: transferindo-a de seu prestigiado freguês para meu amigo.

Não obstante se trate de um fato real, de insulto ao idoso e de ofensa aos dispositivos legais que o amparam, meu amigo se nega a dizer onde fica esse salão e o nome do tal barbeiro.  Diz ele que o aprendizado acumulado em tantos anos de luta arrefeceu seu espírito aguerrido. Prefere olvidar totalmente locais e nomes de pessoas envolvidas em fatos que o maltrataram.

Daí, a pertinência de uma pergunta e o óbvio da resposta:

- Esquecer não seria um ato de permitir a impunidade e, consequentemente, de incentivo a novas ofensas?

- É possível, sim!

Mas hoje não podemos ignorar que a violência se tornou tão banal que arrefece ainda mais o fraco poder de defesa dos idosos.

Compreende-se, assim, a cautela do amigo.

Aracaju, 31-05-2017

BETO DÉDA

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A TEORIA ARGUMENTATIVA E OS FILÓSOFOS SIMÃODIENSES.

Nas últimas semanas estive longe das redes sociais. Passei alguns dias em Salvador e, no final do mês de abril, me dediquei a outras atividades que me lançaram longe da rotina.
Mesmo assim, não deixei de reservar algum tempo para uma boa leitura e não fiquei indiferente às proveitosas manifestações do dia 28 de abril, quando o povo foi às ruas manifestar sua discordância às lastimáveis reformas que o governo golpista e seus aliados tentam empurrar goela abaixo das classes menos favorecidas do país.
Nas minhas recentes leituras, deparei-me com um artigo publicado na revista Carta Capital, edição de 19/04/2017, escrito por Thomaz Wood Jr., Professor da FGV-EAESP, que comenta sobre a Teoria Argumentativa do Raciocínio, defendida por dois cientistas franceses (Hugo Mercier e Dan Sperber). Eles contestam o legado do filósofo René Descartes (1596-1650), considerado como o pai da filosofia moderna. Para melhor lembrar, Descartes era conhecido pela frase em latim: “Cogito, ergum sum”, ou seja, “Penso, logo existo”.
O tema abordado por Wood me interessou. E fui motivado pela lembrança que me transportou para o tempo de minha juventude, quando me animava em leituras nos compêndios da pequena e importante biblioteca de meu pai. Foi lá que pela primeira vez deparei-me com um exemplar do Discurso do Método, de Descartes. Li com entusiasmo e fazia questão de comentar com colegas e parentes próximos. O lema de Descartes era a busca da verdade e, para alcançá-la, recomendava se duvidar de tudo, fazendo indagações de modo a excluir qualquer parcela de incerteza.
Ao ler o artigo de Wood Jr., apressei-me em conhecer o que alegam os atuais contestadores do pensamento de Descastes. E eles apresentam argumentos importantes em defesa do que chamam Teoria Argumentativa, informando que o raciocínio e a razão não buscam a verdade, mas procuram sistematicamente argumentos que justifiquem nossos pontos de vistas ou ações.   Trocando em miúdos: eles asseguram que a capacidade de raciocinar é desenvolvida para permitir a interação social, de modo a defender nossas crenças e convencer outras pessoas a aceitarem nossos argumentos. O raciocínio adota o viés da confirmação: selecionando arrazoados que favoreçam nosso modo de pensar, desprezando os que lhe são contrários, independentemente de serem válidos.
Embora a Teoria Argumentativa seja motivo de discussão acadêmica, envolvendo controvérsia entre filósofos e psicólogos, o assunto fustigou minha memória para o tempo em que me dedicava a analisar com carinho a filosofia de simãodienses pensadores. 
E seguindo a máxima do grande Millôr Fernandes de que “Pensar-livre é só pensar”, dediquei-me a matutar sobre a Teoria Argumentativa envolvendo livres pensadores simãodienses, envolvidos em problemas metafísicos do torrão margeado pelas águas salobras que descem pelas curvas assimétricas do riacho Caiçá.  
Lembrei-me, então, de consagrados e conhecidos "filósofos" conterrâneos que esbanjavam argumentos para favorecerem seus pontos de vista. Encantava-me perceber o raciocínio de Domingos Bina, Negão Engraxate, Paulo José dos Santos, Avião e a garota Bolochinha. Todos eles apresentando argumentos fartos em defesa de seus interesses e ideais: o carnaval, o bom aguardente, a beleza de seus amores e suas preferências expostas; tudo sem preconceito, nem cor.
Eram livres pensadores e filósofos capa-bodes, que neste momento reluzem em minha memória e os vejo como exemplos da Teoria Argumentativa defendida pelos franceses Mercier e Sperber.
Dentre os lembrados filósofos simãodienses, ressalto aqui os argumentos expressos por Paulo José dos Santos, em seus longos e contundentes discursos que começavam na Rua da Palha, por trás do antigo Açougue Municipal. Ali, no início das noites de sábado, depois de tomar muitas biritas no Bar de Seu Júlio, o Paulo José dos Santos começava seus discursos famosos, demonstrando sua verve de orador e apresentando argumentos em defesa de seu gosto pela saborosa aguardente. Em todos seus discursos evidenciava a pureza dos barris de cachaça, procedentes dos engenhos de Laranjeiras, pendurados em cangalhas de mulas que desciam a Serra do Cabral, em comboios tangidos por tropeiros e que se dirigiam ao Norte, Sul, Leste e Oeste da cidade para benzer as gargantas secas dos bravos trabalhadores simãodienses.  E repetia sem cansar os pontos cardiais da cidade e os elogios à cachaça pura dos alambiques do Vale do Cotinguiba. Grande orador, excepcional bebedor. 
Mas deixemos de lado os populares pensadores da terra natal e passemos à realidade do que representa a teoria desenvolvida pelos professores franceses.
Pelo que se tem notícia, a teoria argumentativa saiu da raia dos advogados e, nos dias conturbados que atualmente assolam nosso país, tem sido venerada por parte de componentes do Poder Judiciário. O que se nota é que alguns procuradores e juízes não estão preocupados em raciocinar em busca da razão e da verdade. O interesse maior é a procura de argumentos que consolidem seus pontos de vista e suas ideologias. Agem despudoradamente e tomam decisões seletivas, usando meios duvidosos de pressão para conseguirem argumentos que respaldem suas preferências.
Quem são eles?
A resposta, como costuma dizer o Mino Carta: “é do conhecimento até do Mundo Mineral”.
Por esta e outras razões, dou um forte grito de VIVA aos "filósofos" simãodienses, que em outras eras praticavam sem preconceito a teoria argumentativa. Só que de forma mais clara e honesta do que a de alguns atuais e parciais julgadores.
ARACAJU, 07/05/2017
 BETO DÉDA