segunda-feira, 15 de outubro de 2012


A ameaça de empastelamento do jornal “A SEMANA”

 

Narrarei para vocês um dos fatos inesquecíveis de minha vida, ocorrido quando eu contava com 12 anos de idade.

Foi precisamente numa manhã de domingo, dia 06 de setembro de 1953, quando eu e meu pai estávamos na redação do jornal “A Semana”, situado na Rua Dr. Joviniano de Carvalho, nº 37, em Simão Dias. Ele estava datilografando um artigo sobre o deputado Francisco Porto, a ser publicado na edição do sábado seguinte, na seção “Seara Sergipana”, na qual usava o pseudônimo de Carlos Eugênio (inspirado no nome de meu irmão).

Como era domingo, as portas da redação do jornal estavam fechadas e lá estávamos somente eu e meu pai. Ouvimos bater e meu pai mandou verificar quem era. Voltei assustado, exclamando: “É o Pedro Cuia e outras pessoas... parece que estão feridos”. Papai também se assustou. Foi atendê-los pessoalmente. Lá estavam cerca de dez pessoas. Sentaram-se em volta de sua mesa de trabalho e passaram a contar a triste desventura, mostrando, além das escoriações nos rostos, suas costas roxas das pancadas recebidas. Curioso, ouvi atentamente o que narraram. O fato é que na noite anterior eles tinham sido arbitrariamente presos pela polícia local, comandada pelo Sargento Isidoro, e levados para as margens do rio Vaza-Barris, onde foram perversa e covardemente surrados e lá deixados. A razão disto: por andarem à noite pela cidade, sem documentos.
Papai anotava tudo, não só para seus cuidados como advogado, como também para a reportagem de “A Semana”, que seria publicada no sábado seguinte, com sua assinatura, “para evitar que a outros fosse atribuída a redação da notícia” e recebessem injustas represálias. Deixou tudo providenciado e, na segunda-feira, viajou a Aracaju, para continuar seu trabalho como deputado na Assembleia Legislativa.

 Na terça-feira, antes do meio-dia, estávamos na oficina do jornal, quando minha irmã Helena, pálida e aflita, chegou exclamando “- A polícia vai invadir o jornal! Vamos embora. Já fechei as portas da frente. Gente, vamos, depressa!”.  Naquela época, quando papai viajava, era Helena quem cuidava da tipografia e do escritório. Ela recebera a notícia de que a polícia iria invadir e empastelar o jornal, para evitarem a publicação de reportagem sobre a agressão sofrida pelos rapazes. Quando saímos, constatamos muitas pessoas em frente ao Cartório de tio Sininho. Soubemos, então, que quando o Sargento Isidoro e seu destacamento se dirigiam ao jornal, percebendo que um dos rapazes agredidos prestava depoimento, invadiram o Cartório do 2º Ofício, destruindo peças processuais e, pela segunda vez, espancaram uma de suas vítimas.  A violência praticada ali e a presença de muita gente na rua desviaram a intenção dos arbitrários policiais. Desistiram de invadirem o jornal. Do cartório, voltaram a se aquartelar.

Embora naquela ocasião o delegado civil da cidade fosse o Sr. Otávio Andrade, sabia-se, por fontes seguras, que ele não estava envolvido nos acontecimentos e que, “desde alguns dias, o Sargento vinha desobedecendo aquela autoridade”. Aliás, naquele mesmo dia, o Sr. Otávio foi ao Cartório prestar solidariedade ao tio Sininho.

O fato teve uma grande repercussão na cidade. Algumas pessoas sugeriram invadir o quartel para  desarmar e prender os policiais, ideia que felizmente não foi adiante pelos riscos óbvios de uma tragédia de maiores dimensões...

Na Assembleia Legislativa, meu pai fez um longo pronunciamento, denunciando as irregularidades policiais praticadas em nossa cidade. Seu veemente discurso recebeu apoio do plenário, com grande repercussão em todo estado. Também fora enviado telegrama de deputados  ao Ministro da Justiça, informando os acontecimentos. O certo é que as providências foram tomadas imediatamente: um delegado regional foi nomeado e o destacamento anterior foi conduzido ao quartel-geral em Aracaju.

 A cidade voltou à tranquilidade na quinta-feira, dia 10 de setembro de 1953, quando tomou posse o novo delegado regional, Capitão Petronilo Lima, que imediatamente iniciou o inquérito contra os policiais arbitrários.  

No sábado, 12/09/53, o jornal “A Semana” trazia as seguintes manchetes, na primeira e quarta páginas:

 “INCRÍVEIS CENAS DE GESTAPO NAS BARRANCAS DA VAZA-BARRIS – ESPANCAMENTO DE INOFENSIVOS OPERÁRIOS – A CIDADE REVOLTADA – UM MENOR ACAMADO. PNEU! PNEU!

Por Carvalho Déda

Um jornal do povo não pode silenciar fatos quando a cidade, de ponta a ponta, se manifesta revoltada contra as cenas brutais da noite de sábado, cuja responsabilidade recai positivamente no destacamento local, senão no seu comandante, Sargento José Isidoro. Doze rapazes foram agarrados e levados numa camioneta para as barrancas do Vaza-barris, na altura da Fazenda Riachão, onde sofreram incríveis sevícias. Quase todos operários...(Ao lado, cópia da primeira página do jornal "A Semana").
          (...)

“ULTRAJE À JUSTIÇA!... AFRONTA À SOCIEDADE!... AS FAÇANHAS DE UM SARGENTO DE POLÍCIA - PONTA-PÉS.

 POLICIAIS ARMADOS INVADEM O CARTÓRIO DO 2ª OFÍCIO E RASGAM UM PROCESSO – UMA DAS VÍTIMAS ESPANCADA DENTRO DO RECINTO DO CARTÓRIO – COMO REPERCUTIRAM OS FATOS NA CAPITAL DO ESTADO – VEEMENTE PROTESTO DO DEPUTADO CARVALHO DÉDA NA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA - APOIO E SOLIDARIEDADE DA ASSEMBLEIA AO POVO SIMÃNDIENSE – O TRIBUNAL DE JUSTIÇA EM SESSÃO PLENA REUNIU-SE SECRETAMENTE PARA ASSENTAR MEDIDAS EM DEFESA DO JUDICIÁRIO ULTRAJADO – “A SEMANA” ESTEVE AMEAÇADA DE EMPASTELAMENTO -   A PRESENÇA DO CAPITÃO PETRONILO FAZ RESTABELECER A TRANQUILIDADE.
(Ao lado, cópia da 4ª página d'A SEMANA,edição de 12 de setembro de 1953)

 

Naquele dia o jornal era esperado com grande ansiedade. A edição histórica esgotou logo cedo e fiquei satisfeito porque meu serviço de jornaleiro foi rápido. E logo depois estava eu comendo um gostoso prato de mungunzá no bar de “Seu” João Cândido, ouvindo os comentários do pessoal sobre os desvarios dos policiais...

Aracaju, 15 de outubro de 2012

Beto Déda

quinta-feira, 11 de outubro de 2012


Cavalgando, caindo e tomando conhaque de alcatrão...

 
Tio João Déda
Recentemente tenho dedicado parte dos fins de semana a ensinar meus netos e sobrinhos a andarem em um bonito cavalo mestiço da raça pônei/piquira, que dei o nome de “Guri”. A alegria deles fez-me lembrar do meu tempo de criança, quando tio João Déda me ensinou a cavalgar. Aliás, foi ele quem ensinou muitos sobrinhos a andar a cavalo. Pois bem, aos domingos, cedinho, lá estava eu na casa dele, tentando acompanhá-lo em passeio ao povoado “Pau de Leite”, onde ele tinha uma pequena propriedade, chamada “Candeal”. O bom tio não resistia ao meu olhar pidão e lá íamos, cavalgando alegremente, eu, ele e o primo Armando.

A feira do “Pau de Lei” acontecia aos domingos, era onde merendávamos um amanteigado bolachão de canela com caldo de cana e o meu tio tomava uma dose de uma bebida chamada “Rabo de Galo” e cheirava um rapé, torrado por Maria Pixilim, que tirava de um corrimboque (tabaqueira feita da ponta de boi).  Nas bodegas daquela região era costume presenciar alguém lendo em voz alta o jornal “A Semana”, sendo ouvido por outras pessoas. Eu me alegrava com aquilo e vez por outra me deparava com algum freguês que, na sábado, comprava-me jornal avulso. Eu era o jornaleiro do semanário editado por meu pai.

    Tio João ensinando Olívia Déda a cavalgar 
Voltávamos à tarde e tia Pequena nos aguardava com um gostoso de almoço. Lembro-me que em um domingo meu tio indagou-me se gostava de feijão preto (seria servida uma feijoada). Respondi prontamente:
- Gosto sim, mas tem um problema...
 
 - Que problema? Interrompeu-me, sorrindo.
 
 - É que fica difícil saber quando uma mosca cai no prato, porque a cor dela se confunde com o feijão.  Respondi meio encabulado.
 
 Minha resposta provocou em meu tio uma larga risada, compartilhada por todos ali presentes.  Ainda hoje parece que vejo seu modo de sorrir. Inesquecível mesmo...

Quando não participávamos da cavalgada, cuidávamos de levar os cavalos para a malhada de Dr. Salustino, que ficava logo depois do posto fiscal e da ponte sobre o riacho Caiçá, na estrada real Simão Dias-Paripiranga. Foi justamente num desses acontecimentos que ruiu minha fama de bom montador de cavalo. Vou contar como aconteceu.

Em uma tarde de domingo, esperamos a chegada de meu tio para levarmos os animais para a o sítio de Dr. Salustino. Nesse dia lá estavam vários garotos, entre eles o primo Wellington e nosso amigo Simão (diziam que seu nome foi uma homenagem de seus pais à nossa cidade). O maior número de garotos impunha que cada cavalo levasse dois. Eu montava um cavalo mangalarga e, na garupa, ia o Simão, pouco afeito à montaria. E lá fomos nós.  Quando chegamos em frente à malhada, o cavalo assustou-se com inesperada e estridente buzina de uma caçamba que passava velozmente por perto. Com o espanto do cavalo, o Simão desequilibrou-se, caiu, e como estava se segurando em mim, levou-me também na queda. Bati com a cabeça em uma pedra e perdi os sentidos. Lembro-me que aos poucos, como saísse do nada, ressuscitando, comecei a ouvir vozes na escuridão: “Oi Beto, acorda! Vejam, ele está acordando e olhando pra gente!. Saindo da escuridão, eu olhava para baixo e começava a enxergar meus pés   e a  ver a minha alpercata de sola e raspa de pneu, comum naquela época. Recobrei os sentidos e, ainda meio tonto, fomos soltar os animais.
No caminho de volta, passamos pelo riacho Caiçá para lavar as mãos, usando as frutinhas de uma frondosa árvore ali existente, que chamávamos “Sabonete”, porque suas sementes faziam espuma quando as esfregávamos nas mãos. Lavei minha cabeça, molhando bem o local do ligeiro ferimento causado pela queda. Depois, por sugestão de Wellington – que era o mais velho da turma – fomos a uma bodega da rua do curral, procurar um lenitivo para minha tontura. O senhor que nos atendeu, disse que não tinha “Melhoral” (o remédio do jingle: Melhoral, melhoral, é bom e não faz mal!). Então, o bodegueiro recomendou, e eu tomei, um pouco de Conhaque de Alcatrão de São João da Barra, indicado para curar todos os males. Com o gole do conhaque minha tontura se agravou e os companheiros me levaram para casa. Fui direto para cama, vomitando que nem um urubu novo, como dizia Haroldo. Mamãe ficou aflita, chamaram Dr. Aguiar que recomendou minha tia Nice aplicar-me uma injeção de Super-Glicose-A.
À noite, já um pouco aliviado, recebi a visita de tio João que foi logo exclamando:
 - Como aconteceu isso? Logo você, que eu acreditava ser um dos melhores cavaleiros da turma!.


Para os familiares, minha fama de bom montador tinha ido para o brejo. Não adiantaram minhas justificativas de que fora o Simão que caiu e me levou com ele. Amargurei uma longa quarentena sem poder andar a cavalo. Quando arriscava a pedir permissão a papai, sempre ouvia a resposta negativa, lembrando a queda que levei. Meses depois, diante de meus pedidos e das constantes justificativas de que fora derrubado, o tio João resolveu reconsiderar. Disse-me, entretanto, que para voltar a andar a cavalo teria que ter o consentimento de meu pai. Então, fui conversar com ele. Contei com detalhes como aconteceu a queda e afirmei, insistentemente, que eu era seguro na montaria. Não sei se foram meus argumentos, ou as explicações que ele recebera anteriormente de meu tio, que o levaram a consentir com meu pedido.  Vibrei com a resposta de papai e voltei a cavalgar, sem esquecer-me de aplicar, daquele dia em diante, a lição duramente aprendida com o Simão: não permitir a parceria de quem quer que fosse à garupa de meu cavalo. E com tio João e o primo Armando continuamos fazendo inesquecíveis passeios...

São fatos que ficaram registrados na minha memória de garoto e que voltam à lembrança como se fossem hoje. E lembrá-los me deixa alegre e com saudade...

Aracaju, 08/10/2012


Beto Déda

sábado, 6 de outubro de 2012


Uma aventura no Povoado Ilhota

 Neste fim de semana, ouvindo minha secretária Rosa falando sobre a surra que dera em seu filho, ocorreu-me a lembrança da primeira e única sova que levei, merecidamente, do meu saudoso pai. Aconteceu no início dos anos 50, quando eu contava com mais ou menos 11 anos de idade. E tudo ocorreu por causa de um “presente” que nos foi oferecido, com a melhor das intenções, por D. Zefinha, que morava na casa de tia Nice. Vou contar como aconteceu.

Naquela época, D. Zefinha era professora de uma escola rural no povoado Ilhota, no município de Simão Dias. Certo dia, ela e tia Nice preparavam-se para ida àquele povoado, onde iriam arrumar o prédio onde funcionava a escola. Eu e meu primo Wellington (dois anos mais velho que eu) estávamos brincando por ali e presenciamos as conversas sobre os preparativos para o passeio. Percebendo nosso interesse, elas prometeram que nos levariam. O certo é que conversaram com mamãe e tia Vina e, no dia seguinte, fomos ao passeio.  

Na Ilhota, o fato marcante foi a admiração que tivemos ao ver uma jumenta e seu filhote pastando ao lado do prédio escolar. O jeguinho era uma beleza de deixar qualquer garoto admirado, enquanto a mãe-jumenta mancava e tinha uma bicheira na coxa esquerda, defeitos que nos causavam dó, mas que acreditávamos passíveis de recuperação. Compartilhando de minha curiosidade, Wellington não se conteve e foi indagar quem era o dono daqueles animais. D. Zefinha disse que não tinham dono, apareceram ali na escola há algum tempo e, sorrindo, fez uma oferta sem maiores pretensões: - “Se vocês quiserem, o filhote é de Beto, que é o mais novo, e a jega é sua, porque você é mais velho”.  Lembro-me que pulamos de alegria. Não sabíamos, nem tampouco D. Zefinha, que aquela oferta em tom de brincadeira traria resultados surpreendentes e doloridos para nossas mãos.

Voltamos para cidade no início da tarde daquele mesmo dia. À noite fui à casa de vovó Olívia, na Rua dos Ribeiros, e lá estavam meu irmão Carlos e os primos Alfeu e Wellington. Assim que fui me aproximando, Alfeu, o mais velho da turma, foi dizendo: - “É verdade o que Wellington tá dizendo? Vocês ganharam uma jumenta e o filhote?”. Confirmada a indagação, Alfeu tratou do plano de ir buscar os animais. Planejamos tudo. Fomos todos à casa de Gervásio, o aguadeiro, irmão de Arlinda, e alugamos um jegue, para servir de montaria e facilitar a vinda dos outros, afirmava Alfeu.


Os aventureiros: Carlos, Alfeu, Beto e Wellington
No sábado cedinho, sem avisar a ninguém, partimos para Ilhota. Alfeu, no comando, Carlos com subcomandante, Wellington e eu como comandados. E rumamos à aventura. Como era o mais novo tinha direito a ir sempre montado na garupa do jegue alugado, com os demais sempre se reversando na frente. O Alfeu, mais sabido, passava mais tempo montado e só descia quando as reclamações dos companheiros tomavam ares de motim.

Chegamos à Ilhota e ficamos em frente à escola rural, cuidando dos animais. Poucas lembranças restam do tempo que passamos no povoado. Recordo-me apenas de uma cena: estávamos sentados no alpendre da escola, todos tentando reavivar um passarinho sofrê, que fora vítima do badogue de um dos aventureiros. Não deu certa a tentativa e foi uma frustração para todos.

Enquanto isso, em nossas casas, os familiares estavam em agonia, sem saber onde andávamos. Não aparecemos para o almoço e somente à tardinha é que tiveram notícia. O Gervásio apareceu por lá em busca do seu jegue e informara a tia Esterzinha o nosso plano de ir à Ilhota.  Mandaram pessoas nos encontrar, mas foi providência em vão...

 A volta para casa foi cansativa, o enfado do dia era visível no rosto de cada um. Mas voltamos trazendo a jumenta, o filhote e o jegue de Gervásio.  Mal sabíamos o que nos esperavam...

Chegamos ao anoitecer, exaustos. Alfeu e Wellington cuidaram de guardar os animais. Eu e Carlos fomos para casa. Em frente ao bangalô de Seu Pierre, encontramos Haroldo e Artur que, entre sorrisos e mangação, avisavam que papai nos aguardava e a palmatória já estava preparada (na verdade era um tamanco). Foi o sinal para eu começar a chorar.

Fomos pela Praça de São João, entramos em casa pelo portão dos fundos. Sorrateiramente nos escondemos embaixo da grande mesa de jantar. Papai logo chegou e aí eu já desaguava em choro. Fui o primeiro e ser chamado, indagado, advertido pela aflição causada à família e, por fim, surrado com meia dúzia de bolos dados com a parte lisa do tamanco. Depois foi a vez de Carlos. Papai o mandou abrir a mão. Ele não abriu. Diante da ameaça de receber os bolos por cima dos dedos, cedeu. Mas não chorou, embora eu, embaixo da mesa, gritasse insistentemente, entre soluços: - “Chora Carlos, chora!” Por ser mais velho recebeu uma dúzia de bolos, mas não chorou. Com a décima segunda pancada, duas longas lágrimas desceram pelos olhos. Depois do acontecido, esse feito foi contado com sucesso na reunião da turma. E Carlos, satisfeito, empinava o nariz...

Tio João Déda cuidou de disciplinar Alfeu e Wellington. Parece que também receberam uns cocorotes. Alfeu, por ser o mais velho e o comandante da turma, foi obrigado a levar os animais de volta. No dia seguinte, quando nos reunimos na casa de vovó, disse ele que não foi até a Ilhota. Deixou os jegues no tanque da missão, na saída da cidade. E dava uma gostosa risada, balançando a cabeça para tirar os cabelos louros dos olhos...

Pouco depois, soubemos que os animais foram apreendidos pela Prefeitura e, parece-me, levados a leilão.

E assim aconteceu nossa aventura na Ilhota  e a inesquecível surra de tamanco liso...

Aracaju, 06/10/2012

Beto Déda

 

 

 


 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012


O BNB, o Cometa Kohoutek, a imprensa “marrom e o fim do mundo...

Recentemente, ao comentar sobre uma fotografia no facebook, o colega Moacir Néri usou o termo MODéda, o que me fez recordar do tempo que trabalhei no Banco do Nordeste do Brasil, órgão conhecido na região  como BNB(bê-ene-bê) e os seus funcionários eram chamados “benebeanos”. Diziam os colegas que eu tinha uma memória fotográfica, que conhecia com detalhes todos os clientes e que sabia decorado o Manual de Operações de Crédito do BACEN (MOBacen) e o Manual de Operações de Crédito Rural do BNB (MODERUR). Certamente era um comentário exagerado. Na verdade meu trabalho exigia sempre a leitura daqueles manuais, e isso e me dava um bom conhecimento das operações bancárias. Daí a razão de alguns colegas como o Moacir me apelidarem de MODéda.

Guardo boas recordações do tempo do BNB. E aqui vai uma delas. No ano de 1973 eu trabalhava em Simão Dias, minha terra natal, onde aconteceu um fato curioso que narro para conhecimento de minha querida neta Marina, que começa a decifrar meus escritos.


Foto do Cometa Kohoutek tirado em janeiro de 1974 e publicado pela Wikipédia-Enciclopédia livre 

No final daquele ano a imprensa mundial cuidava da notícia do Cometa KOHOUTEK, assim chamado em homenagem ao seu descobridor, o astrônomo checo Lubos Kohoutec. Anunciava-se que aquele seria o “cometa do século” e que apresentaria uma visão surpreendente, de beleza inigualável, seria um verdadeiro espetáculo celeste, bem maior do que aconteceu com o Cometa Halley, no início do século XX. A imprensa sensacionalista ou “marronzista” – como dizia o Odorico Paraguaçu, personagem de Dias Gomes – anunciava que o Kohoutek entraria em choque com a Terra e tudo explodiria. Seria o fim do mundo! Com sói acontecer, os delírios da imprensa marrom favoreceram os especuladores, e estes, pensando em maiores lucros, também propagavam com detalhes a suposta catástrofe, incentivando a ação precipitada dos crédulos.

Eu era o chefe do setor de crédito rural do BNB em Simão Dias, uma das maiores agências do polígono em financiamentos para agropecuária. Não esqueço um fato que ocorreu com uma cliente do município de Pinhão. Ela era uma senhora viúva que impunha respeito não só pela idade, mas também pelos princípios religiosos que defendia e pelo seu porte de trabalhadora incansável. Era uma cristã fervorosa que cuidava com muito esmero e honradez da educação de seus filhos e de sua pequena gleba rural. Certa manhã ela apareceu na agência e pediu-me para calcular o saldo devedor de seu financiamento de longo prazo, para efeito de pagamento antecipado.  Surpreendido, indaguei porque motivo pretendia pagar antecipadamente um financiamento resgatável em cinco anos, com juros fixos de 7% ao ano, sem qualquer outro encargo, cujas prestações, no futuro, seriam de valor insignificante.  E a senhora, olhando-me nos olhos, disse-me, mais ou menos, o seguinte: “Seu Beto, ouvi no rádio que o mundo vai acabar! Me disseram que ainda este mês uma tal estrela ‘corruteque’ vai cair na Terra e destruir tudo. Não quero ter o pecado de saber que vou morrer logo, deixando dívida. Uma boa crista não morre devendo. Vou vender tudo e pagar ao banco...”

Era o efeito da imprensa “marronzista” e de aproveitadores do Cometa Kohoutek influenciando uma crédula sertaneja. Foi preciso muita conversa e argumentos para convencer aquela honesta e inocente trabalhadora a evitar a venda de seus bens e antecipar pagamentos. Com muito esforço ela resolvera aguardar alguns dias, o que foi suficiente para desmascarar a falácia do Cometa e livrá-la de prejuízos. Pouco depois, foi divulgado que os cientistas já sabiam, com antecedência de mais de dois meses (desde outubro de 1973) que o Kohoutek não era nada daquilo que fantasiosamente publicavam. Tudo não passou da imaginação fértil da imprensa marrom e que repercutiu no pensamento religioso de uma lavradora do interior de Sergipe.

O Cometa do Século passou a ser conhecido como o “Fiasco Sideral do Século”. E os sertanejos, sem esconder o contentamento, diziam: “- O Cometa ‘corruteque’ deu chabu, broxou!”...

Aracaju, 28/09/2012

Beto Déda

 

O FUTEBOL EM SIMÃO DIAS


Já faz algum tempo li e admirei um artigo que meu sobrinho Marcelo escreveu no Jornal da Cidade, comentando sobre sua iniciação como torcedor do Flamengo. O seu texto, muito bem escrito e com ricos detalhes, reavivou minhas lembranças como torcedor de futebol na época em que vivemos em Simão Dias. Comentei pra ele as recordações do futebol de nossa terra e repito aqui, desta feita em atenção especial ao amigo e primo Humberto Oliveira, que é um vascaíno que não nega a camisa, exposta na sua página no facebook.

Não tenho ideia de quando comecei a torcer pelo Flamengo, sei apenas que tudo começou quando eu era aprendiz de tipógrafo nas oficinas do Jornal “A Semana”, editado por meu pai. E uma das minhas alegrias futebolísticas aconteceu quando o rubro-negro foi tricampeão carioca (1953/54 e 55), com uma equipe que até hoje não esqueci a escalação: Garcia, Tomírez e Pavão, Jadir, Dequinha e Jordão, Joel, Índio, Rubens, Evaristo e Zagalo, este último era chamado pelos torcedores, como eu, de Zé Galo, ele substituiu o grande Esquerdinha.

Àquela época acompanhávamos os jogos através do rádio, no bar de Abel Jacob dos Santos, um amigo comerciante que mais tarde foi eleito prefeito da cidade e deputado estadual.

Como torcedor, tempos depois, estimulei todos meus sobrinhos  que comigo conviveram em Simão Dias a torcerem pelo Mengo e os presenteava com uma camisa rubro-negra. Daí porque todos são flamenguistas (Marcelo, Marco, Zezinho, César, Cristiano, Cacau, e, sem a menor dúvida meus filhos). Diz Marco que não se liga muito em futebol, mas continua torcendo pelo Mengão. Uma vez Flamengo...

Atualmente evito assistir aos jogos do time, devido ao meu problema de pressão alta e taquicardia. Só vejo o jogo quando o Mengo está ganhando com folga de gols e, concomitantemente, faltam poucos minutos para encerrar o match.

Por falar na palavra “match”, em nossa terra, naquela época, era comum se usar  expressões em inglês (o futebol tem origem Britânica). Lembro-me de algumas delas: goalkeep = goleiro; back = zagueiro;  fullback = zagueiro central; Half (esquerdo e direito) e centerhalf = linha intermediária; center for = artilheiro; fall = falta; corner = escanteio, etc.

Lembro-me, também, que nos anos cinquenta os simão-dienses viveram intensamente a emoção do futebol, com quatro clubes: Flamengo, Vasco, Vitória e Lira. Em 1956 aconteceu um campeonato com esses clubes, disputado no gramado do Bairro Bonfim, que nos dias de jogos era cercado com lona (uma empanada parecendo um circo sem o teto), vigiado por “mata-cachorro”, e tinha o nome garboso de Estádio José Barreto. Os jogadores tinham apelidos marcantes: Cotó, Dié, Xinoca, Bacalhau, Bacalhauzinho, Done, Buscarré, Seça, Motorzinho, Itaporanga, Dedinho, Pé de Tábua, Zé de Marocas, Zé de Zilda, Zé de Silvina e muitos outros.

Para minha tristeza, o Vasco foi o campeão e houve uma grande festa patrocinada pelo Presidente do time, Benedito de Arnor.

Tio Sininho (Francino Silveira Déda) era torcedor do Vasco. Fez uma reportagem sobre a última partida do campeonato, publicada n’A Semana, e editou um encarte (ver ao lado) que registrava o escudo, a bandeira e a letra do hino de sua autoria (assinava como Sineta), com o seguinte refrão:

 "Vasco da Gama/
Nosso brasão
De nossa terra
És campeão...
Vasco da Gama
Tens simpatias/
És campeão/
De Simão Dias”.

Infelizmente, logo em seguida, tudo acabou. A ideia de se pagar aos jogadores e se misturar futebol com política foi o passo decisivo para o fechamento dos clubes.
 

Anos depois surgiu o Cruzeiro e a construção do Estádio Luciano Cardoso, onde ocorreram grandes jogos com o Leônico (de Salvador), o Sergipe, o Confiança (de Aracaju), o Santa Cruz (de Estância), o Canta Galo (de Itabaiana) e os times das cidades da região. A grande rivalidade mesmo era quando jogava a seleção local contra os times de Lagarto e de Paripiranga. De vez em quando o “match” terminava em briga...

 São lembranças estimuladas pelo primo Humberto e o sobrinho Marcelo. Mas tenho outras do futebol de Simão Dias, que contarei depois, se assim me permitirem o tempo e a paciência...


 Aracaju, 21/09/2012

Beto Déda

O hino e o jornalzinho do Grupo Escolar Fausto Cardoso

Recentemente meu sobrinho Paulo César Déda e o amigo Clínio Guimarães, usando o facebook, levaram-me a lembrar de minha adolescência, quando enfrentava o frio de Simão Dias, entregando o jornal “A Semana” pelas ruas da cidade. Comentando sobre esta recordação, o conterrâneo J. C. Góes Montalvão traz-me a lembrança de nosso querido Grupo Escolar Fausto Cardoso.

Prédio do Grupo Escolar Fausto Cardoso em S. Dias
Dizem os mais velhos que aquele prédio foi construído no século passado, lá pelos anos 20, e que a águia que encima o seu topo era a marca do governo Graccho Cardoso.   Era, e ainda hoje é, um prédio imponente, com suas largas escadarias, cujos corrimãos, também de cimento, deslizávamos em rápidas descidas, puindo os fundilhos de nossas fardas.

Alisaram os bancos daquela escola grandes vultos da vida política e intelectual de Sergipe: Governadores, Presidentes de Tribunais, Senadores, Deputados e imortais da Academia Sergipana de Letras.
Muitas são as recordações que tenho do velho grupo escolar. Para início, vamos lembrar do hino e do jornalzinho.

O CANTO ORFEÔNICO
Além das aulas normais do curso primário, a querida Prof. Olda do Prado Dantas também ensinava canto orfeônico. E suas aulas transbordavam bondade e alegria. Aprendíamos os hinos pátrios e outros cantos, dentre os quais o que chamávamos de “pastorzinho que solfejava”, de rifão inesquecível: - “Havia um pastorzinho, que vivia a cantar: dó-ré-mi-fá...fá-fá... dó-ré...ré-ré... sol-fá-mi...mi-mi... do-ré-mi-fá...fá-fa”  

Todos os dias, no início e no final do turno, tia Vina Déda ou d. Rosália tocava o sino e todos os alunos perfilavam-se no grande corredor para cantar o hino escolhido para dia (Hino Nacional, da Independência, da Bandeira etc.), culminando sempre com o hino do próprio grupo, de letra do meu saudoso pai, que além de outras atividades era inspetor escolar e foi diretor daquele Grupo. Relembro aqui os versos de nosso hino:

"Somos do Grupo Fausto Cardoso/
                      Disciplinados estudantes.
                      Cada estudante, um corajoso
                      E cada mestre, um bandeirante.

A escola chama, a pátria quer
                      Que a juventude venha aprender/
                      Os nossos livros são os instrutores
                      Que nos ensinam a combater.

A pátria quer que o juvenil,
                      Estudioso e varonil,
                      Seja a defesa do Brasil."

E cantávamos com muito garbo sob a regência da querida professora Olda. Bons tempos, felizes dias...
O JORNALZINHO “O IDEAL”
Embora não tenha sido do meu tempo, dizem os que ali passaram em épocas anteriores, que o grupo escolar tinha um jornalzinho, intitulado “O IDEAL”, fundado no ano de 1934 pelos alunos do 4ª ano e publicado sob a supervisão do diretor da escola. É verdade! Sua publicação se estendeu até a primeira metade dos anos 40, conforme atesta o exemplar que escapou da voraz ação do tempo; uma edição de 1º/Out/1942, época que a cidade tinha o nome de Anápolis. No ano de 1942 a diretoria era composta dos  seguintes alunos: o diretor era José Rosa Montalvão, irmão de Hélio, de Iolanda e tio de José Carlos Montalvão; o secretário era José Matias Neto – sobrinho de Francisco Matias–; o tesoureiro era Alexandre Cardoso da Silva, filho do José Leonel, irmão de Pedro, Cicília e Rita Cardoso. Escreveram nesse exemplar que conservo (número 36, de 1º/out/42): além dos diretores, os seguintes alunos: Valdeci Oliveira Fonseca (filha de Messias Fonseca, gerente dos Correios/Telegrafo), Maria Conceição Santos, Josefa Correia Santos, Marieta Fonseca, Valdeci Guerra (filha de Cícero Guerra), Zaíra Oliveira (filha de Milton Oliveira), Mariolanda, Francisco Teles e Diógenes Carvalho.  Também tem um artigo de meu pai, “Reminiscências Anapolitanas”. Ele era o diretor do grupo escolar, orientador e supervisor do jornalzinho e nesse artigo usou o pseudônimo CARDÉ (sílabas iniciais de Carvalho Déda).

Como diz a canção: “ ...velhos tempos, belos dias...” 

Por enquanto é só, mas tenho muitos causos de nosso Grupo para contar, quando folga tiver de meus “trabalhos” no Lago Dourado...

Aracaju, 06/09/2012

Beto Déda
 

Entregando "A Semana" no frio de Simão Dias

Recentemente, meu caro amigo Clínio Carvalho Guimarães comentou no facebook sobre os dias frios em nossa cidade e sua observação fez-me lembrar do meu tempo de adolescente e das manhãs frias dos dias de sábado, em Simão Dias, quando eu andava literalmente por todas as ruas da cidade, distribuindo o jornal "A Semana", editado por meu saudoso pai.

 Nos meses de inverno era aquele frio gostoso, debelado pelo meu andar rápido de garoto. Para a maioria dos assinantes a entrega era feita por debaixo das portas, com o clarear dos primeiros raios de sol. Mas alguns deles invariavelmente aguardavam a minha passagem para a leitura matinal de "A Semana". Eram os habituês, como dizia João Jacó, locutor e projetista do Cine Brasil. Lembro-me agora de alguns deles. Na praça da Matriz, era o dentista Dr. Fraga Matos (pai de Dr. Gilson, Dr. Gildo e Auxiliadora), que com seu sorriso bonachão passava suas mãos por meus desalinhados cabelos, tal como fazia meu pai. Era um gesto que na minha mente de garoto representava o mais nobre sinal de carinho de um adulto para uma criança, era um elogio ao meu comportamento e me transmitia uma confiança enorme. Outros assinantes que também me aguardavam, esfregando as mãos para espantar o frio: na Rua de Estância, Dr. Alceu Conceição (irmão de Durval, construtor do Cine Brasil); na Rua do Coité, D. Aldina (avó de Clínio Guimarães); na Rua da Feira, Seu Inocêncio Nascimento (meu padrinho); na Rua Canafístula, Seu Zuzu (mecânico que cuidava da  usina elétrica); na Rua do Pastinho, Seu Coelho (lembro-me que era um senhor baixo, cabelos grisalhos, usava um pequeno chapéu e lia o jornal com um interesse sem igual). E alguns outros que se arriscavam a acordar cedo e enfrentar o frio do inverno.

 Como jornaleiro, lembro-me de outros dois fatos marcantes que registro aqui. O primeiro me irritava e afastava o frio que era tangido pela raiva. Tinha um colega, do Grupo Escolar, que quando me via entregando jornal, gritava para me pirraçar: - Jornaleiro, me dá um jornal feminino... Eu ficava p. da vida e tinha vontade de arremessar os jornais na cara do fi-da-p... Hoje, a lembrança me diverte.

 O outro fato é de recordação sublime, que me deixa em estado de graça sempre que lembro. É o caso da garota do fantástico baby-doll (uma curta e elegante roupa de dormir parecida com camisola). Foi assim: sabendo que a filha de um assinante acompanhava com vivo interesse matéria do jornal, eu fazia questão de entregar o exemplar pessoalmente. Escolhia a hora apropriada e anunciava em voz alta, para acordar a garota leitora: - Olha o jornal "A Semana"! E repetia até ouvir a voz melodiosa pedir que entrasse para entregar pessoalmente o jornal. Eu entrava e me deslumbrava ao ver a garota de baby-doll... As entregas e as maravilhosas visões se repetiram... E nessas ocasiões o frio não me incomodava. O Sangue fervia!

E foi assim que um comentário do amigo Clínio despertou em minha memória uma feliz recordação do frio em Simão Dias.

Aracaju, 23.08.2012

Beto Déda