sábado, 20 de junho de 2015


A Silabada e o apelo da colocação pronominal
 
Fui aluno de excelentes professoras no curso primário, no Grupo Escolar Fausto Cardoso, em Simão Dias. Foi lá que aprendi os primeiros ensinamentos escolares das inesquecíveis professoras: Olda do Prado Dantas, Iolanda Montalvão, Rita Guimarães e Mileta Oliveira.
 
Em 1957, realizei meu exame de admissão ao Ginásio Jackson de Figueiredo. Ao final de uma das provas orais, tive a alegria de ouvir da examinadora, Professora Zamor de Melo, um elogio merecido às minhas professoras do Grupo Fausto Cardoso.
Já estudando no Jackson, também tive a honra de ser aluno da Professora Zamor, que ensinava Português, e de sua irmã, Profª. Normélia Melo, que lecionava Matemática
.
Embora me dedicasse a acompanhar as lições de minhas mestras, a verdade é que, fora dos muros escolares, nunca tive tesão em me dedicar ao estudo cuidadoso de nossa gramática.
 
Nos primeiros dias no ginásio, em uma aula de Matemática, a Prof. Normélia determinou que eu lesse uma das questões para solução em sala de aula. Meio acanhado, levantei-me e comecei a ler:
- Determinar a medida do “IN...VO...LU...CRO”...
 
Fui imediatamente interrompido pela Professora, pedindo que pronunciasse cuidadosamente a última palavra.
 
Olhei para o livro e indaguei aos meus botões: - Que diabo de palavra é essa?
 
Vacilei um pouco e repeti: IN-VO-LUU-CRO, dando maior ênfase à sílaba “LU”, acreditando se tratar de uma palavra paroxítona.
 
Ouvi o zumbido do “UHHH” e as risadinhas da turma. Fiquei pálido. Amarelei. Com a cabeça baixa, a boca amarga, eu olhei para a professora que veio em meu socorro.
 
A Professora Normélia explicou-me, então, que aquela palavra era proparoxítona, ou seja, sua sílaba mais forte (sílaba tônica) é a terceira da direita para a esquerda, ensinando-me a pronúncia correta, que eu repeti para a turma: IN-VÓ-LU-CRO. Acrescentou ainda que o acento agudo na sílaba “”, antepenúltima sílaba, era um indicativo das palavras proparoxítonas.
 
Ciente da silabada cometida, a explicação da mestra foi o gancho para minha justificativa. Reanimei-me e esclareci que, infelizmente, a página do meu livro estava borrada e não aparecia o acento agudo, identificador das palavras proparoxítonas. Mostrei o livro à professora e fui redimido.
O certo é que em minha memória ficou gravado o vexame sofrido e nunca esqueci a pronúncia e o significado da tal palavra.
 
Ao me lembrar do tempo do Ginásio Jackson de Figueiredo e de regras de nossa gramática, recordo-me também de um fato pitoresco vivido pelo conterrâneo Jorge Almeida. Ele e muitos outros simãodienses foram meus colegas no internato daquele colégio.
 
Certa noite, depois de ser determinada a hora de silêncio, o Jorge continuou conversando e fazendo barulho no dormitório. O bedel, que cuidava da disciplina naquele local, percebendo que a norma do silencio fora desrespeitada, determinou o castigo: Jorge teria de ficar de pé, em frente à porta de entrada do dormitório.
 
O garoto se fez de rogado e não atendeu.
 
Então o encarregado falou grosso: - Vai atender ou não?
 
E a resposta do Jorge veio na forma da lição sobre colocação pronominal, aprendida na aula de Português daquele dia:
- Meu amigo, eu só vou porque PRÓCLISE pediu, MESÓCLISE implorou e ÊNCLISE determinou...
 
E o riso dominou a moçada do dormitório naquela noite, inclusive o bedel...
 
Aracaju, 18/06/2015
Beto Déda
 


terça-feira, 16 de junho de 2015


O fanho e a soda

Nos velhos tempos, quando tio Paulo tinha a fábrica de calçados SIDON, em Simão Dias, ele construiu sete casas para os operários, em área vizinha à loja da fábrica. A rua passou a ser conhecida como Rua das Sete Casas. Quando ele veio para Aracaju, transferiu a fábrica para um prédio que construiu na Rua Basílio Rocha, no Bairro Siqueira Campos, conhecido como bairro Aribé. Ali ele também ele construiu casinhas e quitinetes, anexos à fábrica, para facilitar a vida dos operários que vinham de Simão Dias.

Recentemente, em conversa com o querido sobrinho Déda, filho do meu cunhado Haroldo, ele lembrava um fato contado por tio Paulo.

Dizia meu tio que em uma das casas da fábrica, aqui em Aracaju, morava um jovem aprendiz de sapateiro que era fanho ou “foên”, como se dizia em Simão Dias. Além de parecer falar pelo nariz, o rapaz era dislálico, ou seja, sofria de um distúrbio da fala, apresentando dificuldade na articulação das palavras. Em sua pronúncia “foên” também trocava as letras, em consequência da dislalia. Dizia que estava aprendendo a fazer  “fapatu”, que gostava de “Tota-Tola” e tinha medo de “fapu”.

Para testar a pronúncia do garoto, tio Paulo provocava:
- Olá, Madeirinha, diga rápido, três vezes seguida, a frase: “Lombo cru”.
 Prestimoso e conhecendo o efeito da pronúncia rápida, o moço não se fazia de rogado, repetia a frase, trocando e omitindo letras, alterando o sentido.

Uma tarde, um colega do fanho pediu que ele fosse comprar um refrigerante SODA em um bar próximo ao prédio da fábrica, em frente à estação ferroviária.
 Com timidez, o garoto chegou ao bar e falou baixinho para a garçonete:
 - “Moça, eu quero uma fo...fo...da”.

Surpresa e duvidando do estranho pedido, a garçonete encarou o pobre mancebo e indagou o que realmente ele tinha pedido.

- Ora - disse ele - pedi a você uma foda, ligeirinho...

Ao ouvir a resposta e sentido que sua suspeita estava confirma, a moça fez um escarcéu danado e não tardou chegar o dono do bar que queria surrar o moço, pensando se tratar de um malandro tarado.

E ele não apanhou porque correu até a fábrica onde foi socorrido pelos colegas, que explicaram ao irritado proprietário do bar o distúrbio da fala do inocente “foên” que, dislálico, trocava a letra “S” por “F”.
 
Aracaju, 28/05/2015.
Beto Déda

 
O guardião fajuto, a memória fotográfica e o assassinato de “João Cândjo”
 
Dizia meu querido e saudoso sobrinho Marcelo Déda que eu era o guardião das lembranças da família. De igual modo, o escritor Odilon Cabral Machado, em uma de suas crônicas publicadas em blog da Infonet, reafirma esse meu o cuidado, comparando-me a “um destes templários cavaleiros medievais, trajando armadura invisível de guardião deste tesouro, conforme eterna promessa de missão, sem a qual, tudo estaria perdido, soterrado pela poeira do tempo, lacunas irrecuperáveis de voracidade da traça, tudo que é possível quando é permissiva a irresponsabilidade do homem”.
 
Fico honrado em divulgar o pensamento do sobrinho e do amigo escritor, porém tenho uma confidência a fazer: não fui um bom guardião. Perdi duas importantes fitas cassetes, com gravações de discursos de meu sobrinho Marcelo e com histórias hilariantes contadas por tio Paulo e por meu sogro Antônio de Silva.
 
Na década de 80, através do meu primo Zé Carvalho, que sempre viajava à Zona Franca de Manaus, eu adquiri um vídeo cassete JVC, que usava para assistir aos filmes do Vídeo Clube de Aracaju e gravar programas da TV local. Foi neste gravador de vídeo que gravei, da TV, a maioria dos programas políticos do saudoso sobrinho, desde quando ele foi candidato a prefeito de Aracaju. Lamentavelmente, por uma falha involuntária e até hoje amargurada, perdi a fita que continha importantes programas do querido Marcelo. E mais ainda, também perdi uma fita de áudio, gravada por mim, com antológicos causos contados por meu tio Paulo e meu Sogro, que se reversavam na posse do microfone.
 

Tela do artista Wellington Déda
Com essa confissão, nota-se que não fui nem sou um bom guardião, e de cavaleiro medieval, a que fui comparado pelo bom Odilon Cabral Machado, resta-me, para consolo, a minha semelhança com o personagem da tela “Cavaleiro da Triste Figura”, que embeleza uma das paredes de minha casa e foi pintado pelo parente e artista Wellington Déda. (Quando o quadro chegou em minha casa, perguntei ao neto Miguel: - Quem é esse? Não houve vacilo na resposta: - É o vovô Beto!).
 
Na verdade, para compensar a perdas das fitas, resta-me fustigar a memória e repetir as lembranças para os familiares. O pior, aqui pra nós, é que a repetição começou a encher-o-saco deles. Daí o motivo que passo a contar esses causos aos meus seguidores no facebook.
 
Dizia o saudoso amigo e colega do BNB Mário Jorge, casado com minha sobrinha Selma, que eu tenho uma memória fotográfica. E sacramentava: “Beto, você tem uma memória de Elefante”. Exagero do bondoso Mário Jorge. Apenas gosto de ativar as lembranças para que elas não tenham o mesmo destino das fitas cassete. E fico feliz quando encontro quem aprecie.
 
Agora, por exemplo, lembrei-me de mais um causo, contado por tio Paulo. Dizia ele que tinha um amigo não alfabetizado que costumava empolar as frases, fato que tornava sua conversa muito atrativa pela graça das pronúncias. Passou, então, a narrar dois momentos vividos com o amigo, sem deixar de imitar seus gestos e o modo de falar. Vejamos:
 
Certa vez o amigo chegou de mansinho e começou a dizer que o filho tinha feito uma reforma em sua casa. Com o ar compenetrado, afirmava vaidoso que foi uma obra porreta, realizada sem limitar despesas. 
E narrava os detalhes da reforma, com ligeiras pausas na pronúncia, como se quisesse, no seu estilo, evidenciar sua sabedoria na colocação pronominal: - “REBÔ...CÔLA”, “FÔR...RÔLA”, “PIN...TÔLA”, “ENCE..RÔLA” ... e “APRON...TÔLA”!...
 
Meu tio, então, concluía, afirmando que tinha vontade de dizer ao amigo que, com tantas “rôlas tolas”, o melhor era transformar a casa reformada em uma “gaiola”...

...

Em outra ocasião, esse engraçado senhor apareceu na loja de meu tio com os olhos esbugalhados de emoção. Ao pisar na soleira da porta já foi dizendo:
- Palo, você soube? O rádio anunciou agora mesmo que mataram João Cândjo...
 
Meu tio franziu a testa e indagou: -
Como foi isso? Sempre soube que ele era um homem pacato, de boa paz e que sempre soube cuidar tranquilamente de seus afazeres e comércio. Como aconteceu isso?
- Ora, Palo, dizem que foi questão política. Mandaram bala na cabeça...
 
Tio Paulo olhou para o amigo e disse: 

- Madeirinha, pelo que sei o João Cândido nunca foi político. O seu negócio sempre foi mungunzá e mingau. Você ouviu essa história direito? Mataram o nosso conhecido João Cândido de Simão Dias?
 
- Não, Palo. O fato aconteceu com o tal de João Candjo ou Kendjo, sei lá como se diz... Ele era o presidente dos estranjas americanos e sempre aparecia na televisão...
 
(Foi assim que meu tio tomou conhecimento do assassinato de John Kennedy, Presidente dos Estados Unidos da América, ocorrido em uma sexta-feira, 22 de novembro de 1963).
Aracaju, 14/05/2015
Beto Déda
 
 
A história “penosa” da escova e do AVC
 
 
Dizia meu tio Paulo que nos velhos tempos, em Simão Dias, morava um casal simpático que não economizava palavras ao exaltar a paixão que os dominava. Dir-se-ia, sem exagero, que se completavam. A união era perfeita e as carícias mútuas eram uma constante. Dificilmente afastavam-se por muito tempo.
 
Aconteceu, porém, que determinada semana a mulher teve que viajar até esta Capital para resolver problemas de saúde. O apaixonado marido não pode acompanhá-la, porque estava envolvido em inadiáveis problemas de seu trabalho.
 
Entristecido com a ausência da consorte, o marido revelava ao meu tio o desalento que sofria naquelas noites de solidão. Confidenciou que passara dois dias sem dormir e somente na terceira noite é que conseguiu conciliar o sono. E o fez usando um refrigério meio estranho, mas que surtira um efeito sonífero magistral.
 
Interessado em saber a solução encontrada, meu tio indagou qual foi o tal do “refrigério” encontrado pelo amigo.
 
Então, o apaixonado marido dizia em voz baixa: - Peguei uma escova negra e grande, daquelas que se limpa sapatos, e coloquei na cama ao meu lado.
 
E explicava que ao se deitar, para aliviar a saudade, ele alisava suavemente os pelos da escova, lembrando-se da intimidade da amada...
...
Dizia meu tio que muitos anos depois, a idade não arrefeceu o amor e as carícias mútuas do simpático casal. Os probleminhas – que se tornam grandes entraves entre amantes comuns – não perturbavam o afeto e a ternura que dominava o amor recíproco daquele casal. Viviam bem, se amavam e se completavam.
 
Mas, como nem tudo são flores, uma noite, a sorte não os favoreceu. Depois de trocarem juras de amor, o marido sofreu um preocupante AVC (Acidente Vascular Cerebral). Atordoado com o inesperado ataque, com a boca meio torta, o apaixonado cidadão, olhou tristonho para a amada esposa e com a fala pastosa disse que todo seu lado esquerdo estava ficando dormente e insensível.
 
Diante de tão triste informação, a prestimosa e querida mulher não pensou muito, nem perdeu tempo. Lembrou-se do velho ditado: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.

E, sem perdas de tempo, antecipando-se aos efeitos do acidente vascular que começava a atingir o lado esquerdo do marido, procurou defender o que lhe interessava: meteu a mão na braguilha do enfermo e passou os já amolecidos “documentos” para o lado direito...
 
Aracaju, 06/05/2015.
Beto Déda
 

 

A mão esquerda, o corrimboque e o cafezinho.
Em outros escritos meus, contei que eu sou um admirador incondicional de meus saudosos tios. Encantava-me com suas histórias e ficava feliz ao perceber a paciência que eles tinham em me ouvir e me orientar com exemplos simples e maravilhosos.
Certa vez eu conversava com meu tio Paulo a respeito do hábito de fumar e lembrei-lhe que tio João Déda era o único da família que gostava de cheirar rapé, conhecido como torrado, que era o fumo moído e comercializado por Maria Pixilim, que morava na Rua da Palha, atrás do Açougue, lá em Simão Dias.
Tio João carregava o rapé em um corrimboque, conhecido também como tabaqueiro, feito da extremidade da ponta de boi ou de bode, com tampa de madeira e um laço de couro para facilitar a abertura. Ele tinha todo cuidado com o torrado e não permitia que ninguém o retirasse da caixinha de forma incorreta. Se uma pessoa pedia uma pitada ele oferecia o rapé de modo que o pedinte sempre usasse os dedos da mão esquerda. Se a pessoa insistisse com a direita ele passava o corrimboque para o lado esquerdo, insinuando ao sujeito que a pitada deveria ser retirada com os dedos da mão esquerda.

Perguntei ao tio João a razão daquele cuidado e ele me explicava que os dedos da mão direita traziam impurezas, porque eram usados pelo homem para pegar coisas íntimas ao satisfazer suas necessidades físicas: fazer xixi, por exemplo. Para ele os dedos da mão esquerda tinham menor sujeira.
Cocei a cabeça, pensei um pouco e indaguei:
 - Meu tio... e se o pedinte for canhoto?
- Ora, respondeu ele, os que me pedem a pitada são amigos e conhecidos. Eu sei quem é canhoto e, neste caso, o corrimboque vai para os dedos da mão direita. 
Assim que contei esse fato, o tio Paulo, com seu jeito simpático, disse-me que conhecia esse hábito de tio João e contou-me o causo que repasso pra vocês.




Tio Paulo era o proprietário de casa de calçados “Esquina da Economia”, situada entre as ruas João Pessoa e São Cristóvão.  Sempre que tinha uma folga ele ia até a Padaria Nossa Senhora do Socorro, que ficava próximo, tomar um cafezinho e fumar um cigarro, que sempre ficava preso entre seus lábios. A padaria era movimentadíssima e servia muito café pequeno. Para se resguardar, meu tio sempre pegava a xícara com a mão esquerda. Dizia ele que poucos usavam a mão esquerda, então o lado direito da xícara era menos impuro.
Contava-me, então, o bom tio que certo dia ele estava todo concho tomando seu cafezinho quando, de repente, alguém tocou em seu ombro e falou:

- Oi, ‘Palo’, você é como eu, toma o cafezinho com a mão esquerda. Você também é canhoto?
Meu tio virou-se e constatou que a pergunta fora feita por um tipo popular da cidade, conhecido por TÔ TE AJEITADO, que usava paletó, camisa florida e gravata espalhafatosa; vendia bilhetes de loteria e tinha os beiços feridentos, parecendo que estavam acometidos de aftosa.

Tio Paulo olhou bem para os lábios feridos de TÔ TE AJEITANDO e, sem desfaçar o susto, soltou incontinenti a xícara no balcão. Daquele dia em diante deixou de tomar cafezinho com a mão esquerda...

Aracaju, 27/04/2015.

Beto Déda

segunda-feira, 2 de março de 2015


De como me lembrei dos comerciantes de jabá,  leite in natura, colchas e ovos.


Recentemente fui almoçar com meu filho Bruno em um restaurante, lá pela zona de expansão de Aracaju, próximo ao Mosqueiro. Lamentavelmente não conseguimos matar a fone, porque o que nos foi servido estava ruim. Chamei o garçom e reclamei. Disse-lhe que a carne estava MOÍDA. Ele tentou justificar e perguntou:
- O filé não foi esmagado. Moída como?

Expliquei-lhe que a carne estava com gosto ruim, fedida, imprestável à alimentação.  
Resolvido o problema, comentei com meu filho que nos velhos tempos, em Simão Dias, a expressão “carne moída” significava que o produto estava começando a apodrecer.  Lembrei-me, então, de um caso em que tia Esterzinha usou com veemência essa expressão. Conto para vocês esse fato e, como uma lembrança leva a outra, também narro aqui outros causos de comerciantes de minha terra.

 
1.      Comprando jabá moída

Certa manhã tia Esterzinha me mandou comprar jabá no armazém de Seu Dominguinhos, um conhecido comerciante da cidade, proprietário de um estabelecimento de secos e molhados que ficava perto do Mercado da Carne.
Em minha memória de garoto, Seu Dominguinhos era um homem idoso, alto, branco, de nariz avantajado e voz rouca, sempre usando um boné parecido com o do humorista Chaves. Reclamava de tudo, sem deixar de ser engraçado.

Cheguei ao armazém e fui atendido pelo próprio comerciante. Pesada a carne, voltei rápido e a entreguei a tia Esterzinha. Ela abriu o pacote, olhou, cheirou a jabá, franziu a testa, torceu o nariz em sinal de desagrado e, olhando pra mim, exclamou:
- Esta carne está moída! Quem vendeu?
Diante de minha resposta, protestou e mandou-me voltar imediatamente ao armazém e procurasse dona Noquinha, a esposa do comerciante, para trocar a mercadoria. E repetia: - Está moída!
Voltei ao armazém e falei diretamente com dona Noquinha, dizendo que a jabá estava fedida. Ela pesou outro pedaço de charque na forma recomendada por minha tia e lançou um olhar de censura ao marido.
Então, com sua voz rouca, ele explicou sem disfarçar o sorriso e acrescentar seu refrão preferido:
- Não notei que a carne estava ou não moída. No mais, é bom lembrar que negócio é negócio, amizades à parte.
...
2.      Bebendo leite in natura com espuma
Era costume de algumas pessoas de Simão Dias acordar cedo e tomar leite in natura, quentinho, tirado na hora nos currais próximo à cidade.
Seu Dominguinhos, além de cuidar do armazém, era criador de vacas holandesas que ele mesmo ordenhava e vendia o leite in natura. O curral ficava no final da Rua do Mulungu, quase beirando a rua conhecida popularmente como a Ponta da Asa. Depois de ordenhadas, as vacas pastavam no outro lado da cidade. E todas as tardes, o rebanho era guiado para o estábulo, passando pela Rua dos Ribeiros, sujando as calçadas e atrapalhando nossos jogos com bola de meia.

Pois bem. Ele próprio ordenhava as vacas e, no momento em que enchia os copos da freguesia, era bem cauteloso, ou seja, segurava o copo longe das tetas da vaca. Dizia que era questão de higiene. Usando essa tática, o comerciante provocava bastante espuma, de sorte que, ao final, o freguês ficava com o copo com metade de leite e metade de espuma.  
Mas como para todo sabido tem sabido e meio. O pessoal descobriu que passando suavemente um pouco de manteiga no copo, o leite não espumava, mesmo ficando longe das tetas da vaca. E com isso livravam-se da esperteza da espuma. Só que não durou muito. O comerciante desconfiou da tática dos fregueses e, com sua voz rouca, se negava a atender aos que amanteigavam o copo.  Só vendia depois que tiravam a manteiga, justificando que era questão de “asseio”.

Tia Nice era uma das freguesas do leite das vacas de seu Dominguinhos. E eu ia com ela.
Um dia resolvi tomar leite com chocolate. Quando Seu Dominguinhos segurou meu copo e viu o que estava dentro, olhou-me de soslaio, dizendo que não permitia que se colocasse qualquer coisa dentro da vasilha e negou-se a me atender. Fiquei aflito diante daquela observação e somente me acalmei quando tia Nice veio em minha defesa. Seu incisivo protesto fez o comerciante retroceder, atendendo-me, sem, contudo, deixar de me advertir:

 - Garoto, na próxima vez traga seu chocolatinho em outra vasilha e só o coloque no copo depois que eu pôr o leite. Entendeu?
E complementava: - Negócio é negócio, meninos e amizades à parte...

...

3.     O festival "Idílio de Verão" e a 'penosa' das colchas e dos ovos

 
Antigo prédio da Prefeitura 
No ano de 1954, tia Francisquinha foi uma das organizadoras do festival de arte denominado “Idílio de Verão”, realizado em benefício da Sociedade de Assistência aos Lázaros de Simão Dias, da qual ela era presidente. O festival foi realizado no prédio da antiga Prefeitura.  Eu era garoto naquela época, mas lembro-me que, muito compenetrado, eu ajudei, como garçom-mirim, em uma barraca que servia doces, salgadinhos e refrigerantes.
A Semana noticia o festival "Idílio de Verão"

Na festa houve apresentação de artistas amadores da localidade. Um dos apresentadores foi o tio Paulo. Ele empolgou a todos com seu jeito admirável de contar “histórias penosas”.
Nesse dia, dentre muitas “penosas”, ele narrou os negócios realizados com dois conhecidos comerciantes da cidade e que, parece-me, estavam presentes àquela festa: o seu Dominguinhos, do armazém de secos e molhados, e Dona Zu, que tinha uma loja de tecidos.
Dizia, então, meu tio, que Seu Dominguinhos foi à casa de tecidos de Dona Zu, comprar umas colchas. Lá chegando pechinchou, pechinchou e no final conseguiu o preço que queria. Satisfeito com o negócio, ele fitou a dona da loja e lembrou que na semana anterior ela estivera no seu armazém e também pechinchara muito, conseguindo comprar ovos pelo menor preço. E risonho complementava:
- Naquele dia você me pegou nos ovos, mas hoje eu lhe peguei nas colchas...

Antes que as cortinas fechassem, meu tio interrompia os aplausos e, com seu modo engraçado, esclarecia:
- Não confundam colchas que se escreve com e CH, com coxas, com X, e nem ovos com... com... ora BOLAS... com  outros ovos!

E os risos e as palmas duplicaram-se...                

Aracaju, 10/fev/2015
Beto Déda

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015




Carregando a pronúncia do erre: no “atrrraso” e na “virrrilha”.
Um das verdades lembradas por uma amiga nossa é o ditado: “Gosto não se discute”. Ela tem absoluta razão. O que seria do verde, se todos, indistintamente, só gostassem do vermelho? Cada um tem suas próprias predileções. Uma das minhas preferências sempre foi a de ouvir, pacientemente e com alegria, os causos contados por meus pais, meus tios e meu sogro. Observava o prazer e o encanto que eles tinham em narrar suas histórias, algumas delas já repetidas, mas que lhes renovavam a mesma satisfação.

Se ontem os escutava, hoje sou eu que me empolgo em contar não só os fatos acontecidos comigo, mas também os que me foram narrados por meus saudosos parentes. E, muitas vezes, ouço a advertência de que estou sendo repetitivo. Mas... Fazer o quê?  Se isto me renova a satisfação...

Devo esclarecer, entretanto, que não sou um nostálgico, as lembranças que aqui apresento não estão associadas a um desejo sentimental de regresso. A palavra nostalgia vem do grego e tem o sentido de reencontro com a dor e o sofrimento, muito parecido com o termo melancolia, que significa morbidez, tristeza e depressão. Não é esse o meu caso. Meu sentimento é de aproveitar as boas coisas dos dias atuais e, na sobra de tempo, lembrar com alegria os velhos tempos e as pessoas que amávamos, “matando” a saudade.

Depois dessa reflexão de matuto simão-diense, vamos às lembranças que nos interessam.

Durante algum tempo, eu e meu sogro (Seu Antônio de Silva) nos reuníamos na casa de tio Paulo e com ele passávamos horas relembrando fatos ocorridos em Simão Dias.

Em uma dessas conversas, falávamos sobre as feiras aos sábados, na Avenida Cel. Loyola de minha cidade natal. Lembrei-lhes de personagens que se fixaram em minha mente de garoto (e até hoje permanecem): ferreiros, engraxates, comerciantes de feijão, de farinha, de amorosa, de bois de barro e, entre eles, um senhor que vendia requeijão na porta do velho mercado.


Pelo sotaque, caprichando na pronúncia dos erres, esse senhor, vendedor de requeijão, parecia ser estrangeiro. Minha memória o reteve como um homem forte, sempre de paletó e chapéu, que conversava alto e quando evidenciava os erres mostrava os dentes amarelos. Todas suas frases eram concluídas com o um: ô rrraio! Filho do rrraio! De tanto falar assim, o produto de seu comércio passou a ser conhecido como o requeijão do filho do RRRAIO.


Tio Paulo contando a história
 penosa da senhora dos ERRES.
Assim que relembrei este fato, tio Paulo se lembrou de uma senhora que também pronunciava com intensidade os erres. Então, com seu jeito inigualável de contar “histórias penosas”, ele passou a narrar os causos que tentarei repassar pra vocês.

Dizia meu alegre tio que nos anos quarenta/cinquenta morava em Simão Dias uma senhora engraçada que não tinha medo ou vergonha de se expressar. Ela sabia, como o velho do requeijão, dar uma entonação especial na pronúncia dos erres. Era do tipo que não tinha papas na língua. Quando tinha que dizer, dizia mesmo.

Quando ela se casou, sua idade já passava dos trinta anos, era uma fogosa balzaquiana. Seu noivo também era um coroa. Formavam um par expandindo idade.  No dia das núpcias, com sua franqueza, ela dizia ao noivo, sem reservas e para que todos a ouvissem, que aquela noite seria a grande oportunidade para os dois recuperarem o tempo perdido. Então ela repetia alegremente, em alto e bom som, carregando os erres:

 - Hoje vamos tirar o ATRRRAASO.

No dia seguinte à lua-de-mel, espargindo alegria, ela vangloriava-se, afirmando que a alcova tinha sido pequena para o movimento de amor e prazer e, sem cerimônia, repetia:

 - Ontem, a noite foi uma criança. Recuperamos todo o ATRRRAASO!
...

Meu tio contava a história e, ao final, ria muito, partilhando conosco sua alegria franca e contagiante. Ríamos da história, de seus gestos e também do seu riso. E ele não se fazia de rogado e nos contava outra “penosa” melhor.
Dizia ele que presenciou outro fato com aquela engraçada balzaquiana.

Em uma tardinha, quando garis varriam a rua em frente a sua casa, a senhora dos erres aproximou-se de uma delas para perguntar qualquer coisa. De repente – quando a suada varredora levantou o braço para mostrar algo ao longe, expondo a sovaqueira – a irreverente senhora afastou-se e, com as mãos tapando o nariz, exclamou sem medir o tom, caprichando nos erres:
- ARRRRE! Que catinga! Se as axilas estão assim, imaginem as VIRRRIILHAS!


Aracaju, 22/01/2015
Beto Déda