segunda-feira, 7 de março de 2016



“A PIADA DA SEMANA

Na última sexta-feira tive a grata satisfação de relembrar os bons tempos que trabalhei editando um jornal com meu pai. Foi em conversa com minha filha Carla e o genro Flávio, logo depois de um jantar no apartamento deles. Não é demais dizer, aqui, a minha alegria ao perceber em suas expressões o interesse e curiosidade pelos fatos que narrava.

De modo que, repasso para eles, e também para os que se interessam pela imprensa de nossa terra, as lembranças das xilogravuras feitas por meu pai e publicadas no jornal “A SEMANA”, por ele editado em Simão Dias, no período de 1946 a 1969. Foi o primeiro jornal em Sergipe a publicar uma seção de charges.

Naquela época, para impressão de imagens em jornais, as fotos eram gravadas em relevo sobre zinco. Tais chapas para impressão eram denominadas clichês. A gravação de fotografia em clichê era realizada em Aracaju, em um laboratório que ficava na Rua 7 de Setembro ou Vitória Torta e, anos depois, nas oficinas da Gazeta de Sergipe, do saudoso Orlando Dantas. Muitas vezes eu fui àquelas oficinas com fotos para gravação em clichês.

De ver-se que tal gravação não só demandava tempo como também era dispendiosa ($$$$$$).

Essas duas importantes dificuldades estimulam a criatividade. E foi assim que meu bom pai (José de Carvalho Déda) resolveu dedicar parte do seu passatempo em fazer xilogravuras. 

O meu velho era folclorista, gostava de folhetos da literatura de cordel, e foi nas capas desses folhetos que ele conheceu a xilogravura: técnica de entalhar na madeira a figura que se pretende reproduzir.

Nos idos de 1959, em seu ostracismo político, depois de atuar por doze anos (1947/1958) como Deputado Estadual, meu pai aproveitava seus intervalos nas lides advocatícias fazendo xilogravuras para ilustrar o jornal “A Semana”, por ele editado.

Para realizar o intento, ele já contava com a habilidade no uso de estilete, adquirida quando ainda era jovem, no corte de moldes de pelica para fabricação de sapatos. Mandou cortar pedaços de madeira (peroba rosa) com espessura igual ao da altura dos caracteres tipográficos, e, em maio de 1959, iniciou suas xilogravuras.

Com muita imaginação e humor ele desenhava a figura na prancha de madeira e, pacientemente, usando um estilete, desbastava a tábua, deixando gravados, em relevo, apenas os traços da caricatura.

Com essa técnica, seu Zeca Déda, como era conhecido em Simão Dias, fez mais de quatrocentas xilogravuras, publicadas no jornal “A SEMANA”.

As caricaturas satirizavam fatos políticos de repercussão local, estadual ou nacional e foram publicadas em uma seção denominada “A Piada da Semana”.


São antológicas as charges sobre a alta de preços, a falta de iluminação na cidade, a votação de cacareco e do bode cheiroso, as disputas eleitorais, caso diplomático entre Brasil e França (pesca da lagosta) e a força dos militares no poder.

Para aperfeiçoar seus cartuns, inventou um processo artesanal de impressão em três cores e publicou por um período as charges coloridas.

Também desenhou perfis de personalidades políticas e militares para ilustrar as notícias publicadas.

Mesmo depois do falecimento do saudoso chargista, ocorrida em 02 de setembro de 1968, o jornal “A SEMANA”, sob nossa direção, continuou com a seção “Piada da Semana”, republicando algumas de suas charges, registrando o pseudônimo (Zelis), por ele escolhido e expresso às vésperas de nos deixar.

Lamentavelmente, perdeu-se com o passar dos tempos as pranchas de madeira (xilogravuras) originais, que o seu autor denominava de ”clichês artesanais”.

Não obstante a perda das pranchas originais, evoquei a lição de criatividade do meu pai para preencher a falta. Então, com paciência, fotografei e guardo em arquivo virtual todas as xilogravuras feitas por ele e publicadas no jornal.

Assim é que, nesta oportunidade, apresento aos amigos que gostam de boas lembranças uma pequenina parte do meu acervo.

Aracaju, 29/02/2016

BETO DÉDA

domingo, 10 de janeiro de 2016

O califom, a bolsa e o bolso
No primeiro domingo deste ano levei meus netos para curtir a iluminação do Parque da Sementeira, ornamentado em comemoração ao Natal.
Foi lá que avistei aquela senhora corpulenta, de fisionomia simpática e respeitável, com cabelos curtos, tingidos com um azulado bonito.  Aparentemente ela estava com os netos. Como a maioria das pessoas ali no parque, ela também tirava fotos das crianças,  usando um celular. Fotografou à vontade e depois, para minha surpresa, puxou o decote da blusa e colocou a máquina dentro de seu califom. Amparou o celular no calor de suas volumosas mamárias.
Lembrei-me então que em minha terra era costume das matronas usarem o califom como bolso. Embora atualmente o termo “califom” seja pouco usado, nos velhos tempos era assim que se chamava a peça íntima que as mulheres usavam para sustentar os peitos. Hoje é mais conhecido como sutiã. Outro dia ousei falar o velho termo e fui repreendido. Os mais novos pensavam que era um palavrão.
Mas ao pensar no uso do califom da simpática coroa, despertou-me três lembranças inesquecíveis de bolsas e bolso (Em Simão Dias era comum usava-se também o termo algibeira para designar bolso).

A primeira delas é uma recordação antiga: a bolsinha de níqueis do Padre Madeira. Era o tempo em que os padres usavam batina preta, com discretos  bolsos. Quando avistávamos o Padre Madeira, corríamos ao seu encontro e, estendo a mão, pedíamos a sua bênção.

O bondoso pároco nos abençoava, metia a mão no bolso e tirava uma bolsinha de couro marrom, que usava como porta-níqueis, e nos presenteava com tostões. E a alegria tomava conta de nossa mente. 
A segunda lembrança foi a bolsa que o Broco da Usina usava a tiracolo. Broco era o zelador da Usina Elétrica, que ficava na Praça de São João, em prédio vizinho à Cadeia Pública. A Usina fornecia energia para a cidade e era administrada por Seu Zuzu, um conhecido técnico em mecânica.
O Broco parecia com a figura de Dom Quixote desenhado por Gustave Doré (ilustrador da obra de Miguel de Cervantes: Dom Quixote de la Mancha). Era surdo, magro, barba rala com cavanhaque, usava um pequeno e surrado chapéu de couro e uma bolsa de pele de bode a tiracolo, onde carregava miudezas, fumo, cachimbo e um canivete. Caçoávamos do enigmático zelador, mas, ao vê-lo pegar a bolsa, corríamos pensando que ele estava sacando o canivete para nos atacar.  Medo sem sentido, coisa de criança. O Broco não fazia mal a ninguém. Usava o canivete para picar o fumo do cachimbo. Ademais era surdo, não ouvia a pirraça da meninada.
A terceira lembrança é a do bolso do paletó de meu pai.
 Certo dia minha querida irmã Maura ganhou uma bonita fita larga (antigamente as meninas usavam nos cabelos bonitos laços de fita coloridas). Para guardá-la, Maura procurou um lugar que as demais irmãs não ousassem malinar. Foi então até o guarda-roupa do quarto de casal e guardou a fita no bolso de um dos paletós de papai. Acontece que no dia seguinte meu pai usou justamente o paletó que serviu de cofre para Maura.
À tarde, na sala de visitas de nossa casa, meu pai estava conversando animadamente com seu amigo, o Desembargador Gervásio Prata, quando, de repente, começou a espirrar. Incontinenti meteu a mão no bolso do paletó para pegar o lenço. Quando puxou, veio a surpresa: ao invés do lenço estava a fita larga berrante.  Aí então os dois deram boas risadas. Depois, na hora do jantar,  meu pai não perdeu a oportunidade de chamar Maura para justificar a hilariante situação.
Daquele dia em diante, a meninada da família não mais ousou guardar quinquilharias em bolso de paletó.
Aracaju, 10/01/2016

Beto Déda

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O Frustrado Namoro na Ponte do Caiçá.


Tal um computador que guarda velhos arquivos, da mesma forma nossa cachola conserva lembranças que marcaram nossa vida. E um simples olhar ou apenas um fiasco de luz tem a magia de provocar em nossa mente o recuo do tempo e nos transportar ao passado, revivendo emoções.

Grupo Escolar Fausto Cardoso - Simão Dias - Sergipe
Recentemente, a centelha que ativou minha memória foi o rosto de uma mulher, provocando-me recordações bem antigas, da primeira metade dos anos cinquenta, quando eu estudava no Grupo Escolar Fausto Cardoso, em Simão Dias.

O que vou repassar para os amigos é um idílico caso que aconteceu quando os alunos do Grupo Escolar ensaiavam o desfile cívico que aconteceria no dia festivo da independência. Treinávamos a marcha, ouvindo o rufar dos tambores, em volta da Praça de Matriz e pelas ruas circunvizinhas.

Minha pose. Todo concho, envergando a farda
do Grupo Escolar Fausto Cardoso
Eu fazia parte de um grupo de cinco amigos, com idades entre 12 e 14 anos: eu, Zé Carlos, Hamilton, Aloísio e Dória.  Tínhamos namoradas que eram amigas comuns e sempre estávamos a marcar os lugares onde podíamos nos encontrar. Naquela época, em nossa idade, o namoro não ia além de um beijo rápido e um abraço furtivo. Embora se tratasse de namoros inocentes dos anos cinquenta, por razões óbvias, não revelo o nome das meninas. 
  
Em uma tarde, depois do treinamento para o desfile, nos reunimos com as garotas para marcar um encontro. Era nosso propósito conhecer a nova ponte sobre o Caiçá, que ficava próximo ao curtume de Seu Cassimiro, no início da estrada para Pinhão. Todos diziam que era uma vista maravilhosa. 

Acontece que apareceu um colega apelidado de Niño, que queria participar da turma. Não foi aceito. Em represália, saiu a espalhar boatos sobre o namoro, juntou-se a outros garotos e passaram a nos seguir. Separamo-nos das meninas e iniciamos uma correria sem limites. Saímos da Praça pela casa dos Dória, que ficava vizinha à de tio Sininho. Saímos pelo portão dos fundos, onde ficava o Sítio de Juca Matos, descemos pela ladeira de Roque e fomos parar na Praça São João, no portão de minha casa, despistando o grupo que nos seguia.  

Resolvido o problema da perseguição, surgiram outros bem maiores: os fuxicos e mexericos. Primeiro dos guris que imaginavam e inventavam situações que não aconteceram. Inclusive anunciando que fomos surpreendidos namorando embaixo da ponte do Caiçá, na estrada para Pinhão.

Um colega, que tinha o apelido de Ratinho, foi até à casa de uma de nossas Professoras e anunciou em voz escandalosa:
- Professora, sua irmã está ‘namorando’ o Aloísio embaixo da ponte do Caiçá...

Espalhado o boato, daí em diante o assunto escapou da alçada dos guris e passou a ser dominado pelos adultos, com os acréscimos próprios dos que atingiram a maioridade. E o pretenso caso do namoro na ponte transformou-se no comentário número um da cidade.

Então surgiram invenções com detalhes escandalosos: que foram encontradas calcinhas na beira do Caiçá; que avistaram um de nós correndo nu, com as calças na mão; além de outras invencionices impublicáveis...

E a notícia chegou aos nossos pais com as consequências previsíveis. Ao anoitecer daquele dia, escondido na sala da frente de minha casa, ouvi quando Seu Chico, que também morava na Rua dos Ribeiros, encontrou-se com meu pai e foi dizendo:
- Zeca, já soube do acontecido com nossas crianças na ponte do Caiçá?
E contou o que tinha ouvido dos outros, esclarecendo que já disciplinara seu filho Hamilton com uma boa surra.  Encerrou seu comentário com uma informação que sugeria sova para mim:
- O seu Beto também estava lá...

Evitei encontrar-me com papai. Procurei refúgio na casa de tia Nice, onde fui ajudá-la no pilão, a amassar arroz para fazer cuscuz para o jantar. Esperei o tempo passar e meu velho esquecer o fuxico. O certo é que papai foi cuidar de outros assuntos de maior urgência e eu me livrei da parte lisa do seu tamanco, que era sempre usado para nos disciplinar.
...

E hoje, mesmo sem esquecer a frustração do encontro na ponte, sentimos alegria ao recordar o riso simpático das queridas garotinhas dos bons tempos do Grupo Fausto Cardoso.

Aracaju, 20/12/2015

Beto Déda

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Mas afinal, quem era o intelectual “Simeon de Sá Bazu”?

Nesta semana andei lá pelo centro da cidade e, passando pela Praça Fausto Cardoso, lembrei-me do tempo que fui redator da Secretaria de Imprensa no Governo do Dr. Celso Carvalho, que era meu conterrâneo e padrinho. A Secretaria ficava no Palácio Olímpio Campos, em uma sala em frente ao Gabinete do Governador.  Os trabalhos de redação e divulgação eram comandados por um funcionário público que redigia bem, sabia discursar e, como era versado em ritos cerimoniais dos governos, também organizava os atos públicos em que o governador participava.
Lembro-me muito bem que o dito servidor era gordo, tinha uma barriga avantajada e um bigodinho que lembravam o Sargento Garcia dos filmes de Zorro. Mas, à boca miúda, a galera aplicava-lhe apelidos engraçados, alguns inconvenientes, realçando sua grande pança; outros evidenciavam que seu interesse estava mais ligado ao palácio do que aos governantes, atribuindo-lhe o apelido de “Gato de Palácio”.
A verdade é que ao redator-chefe tinha uma verve fantástica e sabia muito bem usá-la nos atos em que lhe permitiam a palavra. Gostava de discursar e, muitas vezes, mesmo estando sozinho em seu gabinete, ouvíamos seus brados inflamados, algumas vezes a verberar contra pessoas que fugiam de seu agrado, usando impropérios, acusando-os de comunistas.
Certa vez tive um desentendimento forte com o chefe de redação. Tudo porque eu usava as horas vagas para escrever artigos que eram publicados no jornal “A Semana”, editado por meu pai em Simão Dias.  Eram artigos simples, que escrevia sob o pseudônimo “Berto”, em que sempre focalizava um personagem de minha terra.
O artigo que escrevia e que deu origem à discussão com o redator-chefe.
Em uma manhã monótona em que nada se tinha a fazer, eu estava no meu birô, datilografando um artigo sobre o vendedor de quebra-queixo, quando se aproximou o chefe e, acintosamente, bisbilhotando o que eu fazia, iniciou uma discussão que culminou com ofensas mútuas. No mínimo fui chamado de comunista e, no vigor da minha juventude, respondi com firmeza e no mesmo tom de voz, usando os apelidos inconvenientes.  Foi um bafafá que repercutiu nas demais repartições do Paço Olímpio Campos. Saí da sala da imprensa dizendo que não mais trabalharia ali.   Fui socorrido por vários amigos, que me deram razão e se mostraram solidários, entre eles: o Secretário da Casa Civil e o Coronel Chefe da Guarda do Palácio.
O fato é que larguei o ofício de redator do Diário Oficial e fui promovido à Oficial de Gabinete do Governador. E a promoção não foi exclusivamente porque a razão estava ao meu lado. Eu era um simples garoto e o que realmente pesou foi nome do meu pai, que me deu irrestrito apoio, e o poder de decisão do meu conterrâneo e padrinho.
Passado o entrevero, mesmo desconfiados, tivemos que manter o diálogo e continuarmos a conversar por força do trabalho.
Pois bem. Como disse alhures, o redator-chefe adorava discursar e era considerado por muitos como um grande orador. Sabia dosar as palavras e gostava de citar grandes pensadores, dentre os quais um que sempre me deixou curioso: Simeon de Sá Bazu (ele fazia um biquinho para realçar a pronúncia francesa do “U” como se fosse um “i”).
Em seus discursos ele exclamava com ênfase:
- “Como dizia o grande filósofo e pensador francês ‘Simeon de Sá Bazu’, a vida nos apresenta momentos de grandes emoções...”
E por aí seguia seus inflamados discursos.
Em determinada tarde, impressionado ao ouvir a repetição do nome do ilustre pensador francês, minha curiosidade espanou o receito e, com esforço, ousei perguntar ao celebrado orador quem era realmente o filósofo Simeão de Sá Bazu.
Ele olhou-me sorridente, mostrando seus dentes frontais separados, e me surpreendeu com um resposta clara, simpática e sincera:
- Ora, ora, caro jovem. No mundo dos grandes oradores tudo é possível. Quando a memória falha, o improviso preenche a lacuna. Na verdade, o Simeon de Sá Bazii não é ninguém mais, nem menos, que o moleque SIMÃO, FILHO DE DONA BAZU, a baiana morena que vende acarajé e cocada ali na Rua de Pacatuba...
Aracaju, 08/12/2015

Beto Déda

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A Escandalosa e seu jeito de tudo resolver

Conheci uma garota em minha terra que era uma graça. Fugia aos padrões das demais meninas. Era conhecida como Escandalosa e tinha livre pensamento. Sem papas na língua, sem amarras; sabia expandir os limites de seus sonhos e desejos.
Indaguei certa vez se não se preocupava com o que os outros pensavam do que ela dizia e fazia. Respondeu-me, balançando a cabeça de lado, como se fizesse desdém: “Ora bolas! Os outros que se f... Faço o que bem entendo...
Quando queria satisfazer um desejo, não vacilava. Fazia. Se pensava em alegrar alguém, dando alguma coisa, não esperava o pedido. Oferecia, sem constrangimento, com um simples: “Quer? Tome...” E a oferta incluía até aquilo que não se fala junto aos castos...
Certa vez, eu e meu primo Zé Carlos, estávamos aqui em Aracaju, em pleno carnaval na Rua João Pessoa e ficamos surpresos ao avistar a irreverente garota de Simão Dias.  Lá estava ela, de melindrosa, pulando e marcando o frevo, com uma sombrinha em uma mão e um lança-perfume de plástico na outra.
No ritmo do arranjo que tocava os frevos pernambucanos do mestre Capiba, enquanto dava os passos mostrando as coxas com salpicos de confete, Escandalosa aproximou-se e indagou maliciosa: “Querem? Tomem... E rebolou a popança em nossa frente, bem juntinho, fustigando-nos. Ficamos boquiabertos com tal desfaçada oferta.
Escandalosa era persuasiva e não media esforços em suas conquistas. Em nossa terra se afeiçoou de um moço e tentou conquistá-lo. Usou todas as simpatias previstas para o dia de Santo Antônio, o padroeiro dos namorados. Não deu certo. Resolveu, então, usar uma mandiga forte: fez uma reza poderosa, pegou um retrato 3x4 do afeiçoado e colou nas costas de um sapo-cururu.  A reza talvez tenha surtido algum efeito; o sapo, não. O batráquio com o retrato do inditoso nas costas aproveitou o buraco do esgoto e fugiu da casa, descendo a Rua do Pastinho, sendo acossado pela meninada. E a mandiga gorou...
Na verdade o seu insucesso era consequência do pouco atrativo devido a ação voraz dos janeiros, que lhe subtraíram a capacidade de atrair. Mas ela não se dava por vencida.

Lembro-me agora e, embora não possa confirmar o fato, repasso para os amigos a força persuasiva de Escandalosa, conforme me fora contado pelo conterrâneo Serafim. Devo esclarecer que nos velhos tempos, o Serafim participava das brincadeiras na Praça de São João, onde ele costumava comer tanajuras torradas, igual ao que os ricaços fazem nos melhores restaurantes de Nova Iorque. Para mim, Serafim sempre será o maior repentista que conheci. Suas conversas eram versejadas. Quando eu mencionava seu nome, ele repetia com rima:
“Serafim, Serafim! Cuide de você que eu cuido de mim. E se quiser saber das coisas eu conto do começo ao fim...”


Pois bem. Dizia-me o Serafim que a Escandalosa ao se tornar coroa, sem contar com as vantagens que a mocidade lhe concedera, apaixonou-se por um mancebo, que morava lá pelas bandas do Bonfim, em direção ao campo de aviação. O moço não lhe dava bolas.

Escandalosa não se desanimou. Foi à luta. Em determinada tarde, ela embelezou-se com capricho e partiu para a conquista. Pacientemente, foi esperar o afeiçoado, lá na estrada perto do posto fiscal. Quando avistou o benquisto, exclamou aos berros:

 “Socorro! Este moço quer me agarrar a pulso. Me acudam...”

Surpreso com tal disparate, o sujeito se defendeu, dizendo que era impossível tal agressão. E justificou:

Senhora, mesmo que estivesse interessado, não é possível, não vê que estou com as mãos ocupadas, com um chuço, um bode, uma perua e um tacho...”

E a Escandalosa, para encerrar a conversa, deu um jeito, dizendo maliciosa e, como sempre, insinuante:

“Você querendo, bem pode:
Finca o chuço e amarra o bode;
Emborca o tacho...
Bota a perua debaixo!...”

Aí não teve jeito, o moço fincou o chuço...

Aracaju, 26/11/2015

Beto Déda

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Alexandre Caroso, tio João e a lamparina.
No último sábado, na feirinha do bairro Grageru, comentando com Wellington Aragão sobre os amigos da velha guarda de Simão Dias e Jequié, lembrei-me do Alexandre Caroso, outro jequieense que também partilhava da amizade do tio João, Dr. Salustino e Lapa.
Foto capturada do Google Map. Rua Alvares Cabral, Jequié- BA
Alexandre Caroso era um pecuarista que residia em Salvador, mas sempre estava em Jequié onde possuía sua propriedade rural. Na cidade sol, ele pernoitava em uma casa que tinha na Rua Álvares Cabral, próximo a minha residência. Foi lá que o conheci.

Ficamos amigos quando eu soube que ele conhecera minha terra e o tio João Déda, ao visitar Dr. Salustino, em companhia do Sr. Lapa.


Tio João Déda
Lembro-me das boas risadas do Alexandre ao me contar como conhecera meu tio. Repasso o causo aos amigos, procurando ser fiel ao que me foi relatado. Aliás, esse fato foi devidamente confirmado pelos demais participantes.
Dizia Alexandre que já conhecia, por ouvir dos amigos comuns, a paciência e os cuidados do tio João ao realizar os trabalhos de artesanato. Em companhia do Dr. Salustino e do Seu Lapa, fora conhecer meu tio em sua tenda. Os amigos ficaram observando ao longe, e sugeriram que o Alexandre fosse sozinho conhecê-lo e testar sua paciência.
O Alexandre foi mansamente entrando na tenda e observando os trabalhos em couro. Era tardinha e meu tio estava em frente ao seu balcão de trabalho, começando a acender uma placa (na época não existia energia elétrica em Simão Dias e se usavam as luminárias a querosene: placas ou lampiões, candeeiros e petromax).
O Alexandre aproximou-se, cumprimentou meu tio e indagou: “O senhor faz e vende jalecos como esse aí?”.
Meu tio virou-se para olhar o jaleco, então o Alexandre, sem o velho perceber, assoprou em direção à placa e apagou o pavio. Antes de responder, meu tio pegou o fósforo e voltou a acender a lamparina. O visitante continuou fazendo indagações para distraí-lo, aproveitou uma oportunidade e  mais uma vez apagou a luminária. Pacientemente meu tio pegou, em baixo do balcão, a caixa de fósforos e novamente acendeu o pavio.
Alexandre encompridou a conversa e, pela terceira vez, apagou o pavio da placa. Aí já dava pra notar que estava acontecendo alguma coisa errada. Meu tio franziu a testa, balançou levemente a cabeça de lado, então pegou em baixo do balcão, não o fósforo, mais o seu inseparável revólver 38, Smith & Wesson, conhecido na terra do Caiçá como “simite-oeste 38”, apontou para o assustado interlocutor, e lançou a enérgica advertência:
“Apague de novo seu peste, pra vê se eu também não lhe apago!...
Nesse instante, Dr. Salustino e Lapa entraram rapidamente na tenda e acalmaram tio João, esclarecendo a brincadeira.
E riram muito, lembrando a expressão de susto do Alexandre.
A paciência do meu tio tinha limites.
Aracaju, 11/11/2015

BETO DÉDA

quarta-feira, 4 de novembro de 2015


O INESQUECÍVEL HUMOR DO HOMEM DE  ESVOAÇANTES CABELOS BRANCOS.

Esta semana estava limpando a sela do cavalo “Guri”, para meu neto galopar no próximo domingo. Ao passar o óleo  nos arreios, lembrei-me das selas mineiras feitas em Jequié e que o Seu Lapa mandava para Dr. Salustino.

O Lapa era um senhor branco, de meia estatura, bem humorado e que tinha um traço marcante: seus cabelos brancos esvoaçantes.

Conheci Seu Lapa, em 1975, quando fui trabalhar na agência do Banco do Nordeste na cidade baiana de Jequié. Justo no final daquele ano, eu recebi de meu cunhado, Aristides Souza, um antigo baú de madeira de lei, que foi transportado pelo caminhão do conterrâneo Antônio Nunes, pai do saudoso Deputado Federal Pedrinho Valadares.

O caminhão que transportara o baú estava estacionado em frente à casa que eu aluguei e passei a residir, na Rua Álvares Cabral, vizinha a uma clínica denominada Serviços Médicos de Jequié - Semeje.

Então apareceu aquele senhor risonho de cabelos brancos e indagou:
“- Vocês que são de lá (referia-se a Simão Dias, que ele notara na placa do caminhão), digam-me:

        Na Rua das Louceiras ainda fabricam louça?
        Na Rua da Lama ainda tem muita lama?

        Na Rua dos Buracos ainda tem a buracama?
        Na Rua do Mulungu ainda é a Rua do mulherio?

        E na Rua do Pinico ainda se largam muitos urinóis?”.

Diante de tais questionamentos não restou dúvida que era alguém que conhecia a boa terra de Senhora Santana.

Com seus cabelos brancos esvoaçantes, o senhor Lapa respondeu que não era de Simão Dias, mas que conhecia a cidade e lá tinha dois bons amigos: Dr. Salustino Neto e João Déda.


Disse-me que conheceu os nomes das ruas lendo um livro que lhe fora presentado por Dr. Salustino: “Simão Dias- Fragmentos de Sua História”. E demonstrou alegria ao saber que o livro tinha sido escrito por meu pai e que eu era sobrinho de João Déda.

Ficamos amigos e quando eu viajava a Simão Dias ele sempre tinha encomendas para os dois amigos. Ao Dr. Salustino ele mandava sempre uma boa sela mineira, fabricada por um famoso artesão que morava no bairro Jequiezinho. Para tio João Déda a lembrança era uma surpresa muito chistosa, própria de seu incomparável humor.

Lembro-me, agora, do saudoso tio João narrando os inesquecíveis presentes do Seu Lapa.

Dizia meu tio que certo dia, bem cedinho, ele estava no curral de sua malhada, que ficava na Rua do Alambique, tirando leite de uma vaca, sentado em um velho caixote de madeira, daqueles que vendiam barras de sabão pintado. Apareceram por lá o Dr. Salustino e o Seu Lapa. Conversaram muito e Lapa ficou admirado com o equilíbrio de tio João ao usar como assento o frágil caixote de madeira.
Lapa não esqueceu aquela cena engraçada. Aproveitou uma das passagens do caminhão de Dão Rodrigues por Jequié e mandou para o meu tio um presente sui generis: um banco medindo 4 metros de comprimento e um bilhete com quatro palavras: “Para João tirar leite”.

Por muito tempo meu tio conservou o “banquinho” na entrada de sua casa.
De outra feita, chega o caminhão em frente à tenda de meu tio e o Dão Rodrigues anuncia: “Encomenda do Seu Lapa, de Jequié, para Seu João Déda”.

E desceu uma grande caixa, medindo aproximadamente um metro cúbico.
A caixa não pesava. Tio João olhou desconfiado e pensou com seus botões: “é mais uma brincadeira do Lapa”.

Começou abrir a caixa. Dentro da primeira tinha outra caixa e mais outra, e mais outra e passou foi tempo tirando caixas da caixa. Ao fim, chega a uma caixinha em que tinha a lembrança: um pequeno canivete marca corneta, que meu bom tio adornou com um traçado de pelica e passou a usar, daquele dia em diante, preso ao cinturão...
E comigo guardo com alegria estas e outras lembranças dos três inesquecíveis amigos comuns: Lapa, tio João Déda e Dr. Salustino.

Aracaju, 04/11/2015
Beto Déda