segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019




Breve histórico do jornal "A SEMANA”

Por Beto Déda
                                                   
       
        O sonho de meu pai, jornalista José de Carvalho Déda, era editar seu próprio jornal em Simão Dias. Sua pretensão foi concretizada em 1946, quando firmou contrato com uma tipografia existente na cidade para impressão de um periódico, que denominou “A Semana”.          

O primeiro número do semanário circulou em um domingo, dia 08 de setembro de 1946, sob a direção dele e de seu irmão Francino Silveira Déda. 

Em seu primeiro editorial, meu pai expressou a linha a ser seguida pelo novo jornal:


1ª pagina da edição de 08.09.1946
“Conhecemos o caminho a percorrer, como sabemos as dificuldades e dissabores que nos esperam nas encruzilhadas... Seguiremos, a despeito de tudo quanto vier antepor-se ao nosso caminho, sem desprezarmos jamais a nossa linha de conduta honrada, a nossa coragem cívica e sobretudo a nossa honestidade, único cabedal que herdamos dos nossos honrados ascendentes e queremos conservar intacto para partilharmos com os nossos descendentes. ‘A Semana’, esta folha que agora entregamos ao público de nossa terra, é e será, deste modo, um fruto da nossa honestidade, da nossa moderação e uma afirmação de que somos capazes de assumir a defesa dos interesses desta hospitaleira terra de S. Ana”. 



Nesta primeira fase, “A Semana” circulou aos domingos, até 29 de junho de 1947, quando sua edição foi interrompida por força do encerramento do contrato de impressão, devido a alienação e transferência da tipografia para outra cidade.  

Sem condições financeiras para adquirir uma gráfica, seus diretores tiveram que suportar a interrupção do jornal. Entretanto, Carvalho Déda não deixou de escrever em outros periódicos e de cultivar o sonho de dar continuidade ao seu jornal. Já no início dos anos cinqüenta, andou em busca de alguma tipografia usada, anunciando esse seu interesse entre amigos. Em carta de 05.11.1951, seu amigo Dr. Carvalho Neto respondia do Rio de Janeiro seu pedido de informação:

“Tenho procurado muito uma tipografia. Preços inacessíveis. Mesmo maquinaria velha está custando preço exorbitante. O Orlando Dantas comprou uma máquina velha – só a máquina – por cinqüenta mil cruzeiros. Não deixo, porém, de procurar”.  

A oportunidade surgiu em 27.02.1953, quando adquiriu o maquinário em Leilão Público na cidade de Propriá, mediante Carta de Arrematação assinada por Dr. João Fernandes de Britto.

Dispondo de oficinas próprias na Rua Dr. Joviniano de Carvalho, nº 37, em Simão Dias, Carvalho Déda, conhecido na cidade como seu Zeca Déda, voltou a editar “A Semana” sob sua direção e gerência, em 18 de julho de 1953, ocasião em que reafirmou a orientação doutrinária:


1ª página da edição de 18/07/1953 
“Houve um hiato que não desejamos, porque queremos vida longa. Nunca, porém, apagou-se no nosso espírito a vontade de prosseguirmos... Volta ‘A Semana’ a circular com roupagem nova, isto é, tamanho maior, maior tiragem, mais completa materialmente... A orientação doutrinária é a mesma. A nossa pena estará sempre a serviço do povo simãodiense... No que diz respeito à política, podemos assegurar que jamais nos afastaremos da verdadeira ética."

O jornal seguiu em frente, publicado sempre aos sábados, com o feitio literário, noticioso e combativo. Como jornalista versátil, escrevendo sobre variados temas, Carvalho Déda usava vários pseudônimos para evitar a repetição de seu nome em uma mesma edição. Assinava Leonardo de Vinci, na seção “Retratos Femininos”; Carlos Eugênio, na “Seara Sergipana”; Marco Aurélio em reportagens; Pakéso, em artigos políticos; João Sem Terra, na “Coluna dos Lavradores”; Lynce, nos “Aspectos da Cidade”; Cazuza e Caduda em alguns artigos.  Nunca assinou ou usou pseudônimo em suas xilogravuras nem na coluna “Política em Pequenas Doses” que escreveu, ininterruptamente, até a véspera de sua morte.

 

Para ilustrar o jornal, a partir de 1959, passou a fazer xilogravuras com perfis de personalidades da época. Fez mais de quatrocentas charges que satirizavam fatos de repercussão local, estadual e municipal em uma seção sob o título “A Piada da Semana”. Poucos dias antes de falecer, resolveu assinar o pseudônimo Zélis em duas xilogravuras, publicadas na edição nº 811, de 21.08.68. 

Um companheiro inseparável foi o seu irmão, jornalista Francino Silveira Déda (Tio Sininho), que escrevia, ininterruptamente, uma crônica semanal sobre assuntos variados. Junto com meu pai, participei de toda a história d'A Semana, trabalhando como jornaleiro, tipógrafo, repórter, articulista e diretor. Também colaboraram com artigos: Antônio Conde Dias, Clarita Santana, Max Neto, Artur Oscar de Oliveira Deda, W. F. Santos, Renato Nunes, João Lima Filho, José Osvaldo Machado e Silva, Edson Caetano, Edson Carvalho Oliveira, Luiz Santa Bárbara, Antonio Ferreira Filho, Cláudio Dinart Déda Chagas e José Aloísio Freire. Àquela época, muitos jovens simãodienses prestaram colaboração ao jornal como aprendiz, sob a orientação dos tipógrafos Silvio, Valter Carvalho Oliveira e Luiz Santa Barbara; lembro-me de todos: Luiz Carlos Santos (que se tornou tipógrafo profissional), Raul Vieira, Cláudio Déda, Osmar Barreto, Manoel de Dona Tude, Daniel Guimarães, José Américo Rodrigues e José Oliveira Santos (Zé de João Baia).

 “A Semana” circulou, sem interrupção, até meados de 1967, quando, por motivo de saúde, papai teve que interromper sua circulação. Deixou sob minha responsabilidade todo maquinário. Passei a utilizar a tipografia na realização de serviços de impressão sob encomenda: notas fiscais (conhecidas como “Seu talão vale um milhão”), bilhetes de rifas, panfletos, santinhos, rótulos de vinagre e de vinho etc.

 Dois meses após a interrupção, sem disfarçar a tristeza pela falta do jornal, papai começou a me convencer da necessidade do retorno de “A Semana”, em nova fase, na qual ele seria o diretor responsável e eu assumiria a direção administrativa e financeira. E para ser convincente apresentava uma relação de pessoas (tendo à frente Dr. Salustino Neto) que o procuravam para pedir a volta do jornal. Olhando-me com firmeza dizia em tom que soava como uma ordem: – A Semana deve voltar!

Realizei uma pesquisa para quantificar e identificar os assinantes, patrocinadores e anunciantes interessados. O resultado foi incentivador. Realmente fiquei impressionado com o interesse e o estímulo da população para a volta do jornal.

Combinamos, então, em ampliar e melhorar a edição. Assim é que, em 16 de dezembro de 1967, reapareceu “A Semana” com nova roupagem, continuando, todavia, sem alterar sua ética e a cuidadosa orientação democrática, em defesa da cidade.  Jamais esquecerei a satisfação que meu pai demonstrou à tardinha daquela sexta-feira, dia 15.12.67, quando lhe apresentei o primeiro exemplar da nova fase do jornal. Ele folheou página por página e, revelando sua alegria, voltou-se para mim e disse com entusiasmo: – Continuamos editando o melhor jornal do interior de Sergipe!

Seguimos com as edições e no dia 01.09.1968, um domingo, ele deixou sobre a mesa de trabalho seu último editorial para A Semana, em que escrevera sobre "Reformas".  No dia seguinte, 02 de setembro de 1968, ele faleceu, contando com 69 anos de idade.

Naquela semana, amargurando a dor da imensa perda, preparei a edição especial do dia 07.09.68, em que A Semana noticiou e prestou uma homenagem ao pranteado fundador e diretor.
1ª página do jornal A Semana, edição de 07.09.1968

Sob minha direção, o jornal continuou circulando, inclusive mantive  – embora sem jeito – as seções “Política em Pequenas Doses” e “A Piada da Semana” que eram da lavra do meu pai. Mas a edição do jornal não durou muito. Minha atividade profissional, como funcionário do Banco do Nordeste, impediu-me de continuar dedicando-me à direção e edição do semanário. Assim é que, sem outra opção, com imensa tristeza tive que fechar “A Semana”. Seu último número foi editado em 25 de janeiro de 1969. Conservei a tipografia, por seis anos, na esperança de surgir alguém que se interessasse em continuar com o jornal. Dissipou-se a esperança em 1975, quando, por falta de alternativa, tive que me desfazer de todo o maquinário, em virtude de minha transferência para a cidade baiana de Jequié, onde fui chefiar o Setor de Crédito Rural da Agência do BNB naquela localidade.  

Na verdade, editamos um bom jornal e que foi referencial na imprensa sergipana. Veja o que escreveu Luiz Antônio Barreto:

A Semana é uma escola, no sentido de que ela ensina a fazer jornal e a tratar as páginas dos jornais com a dignidade da boa notícia, do comentário justo, da denúncia e da cobrança necessários e acima das questões locais. Mais que isto, A Semana tem arte em suas páginas, seja pelas charges, caricaturas, ou seja, pelas ilustrações que fizeram de Carvalho Déda um artista, que aliou no batente do jornal muitas qualidades requeridas pelo jornalismo. (BARRETO, Luiz Antônio. Carvalho Déda no batente do jornal. In www.infornet.com.br, 05.12.2008).

 Vivi intensamente, desde os 12 anos de idade, a vida desse jornal. Em 1953, assim que a tipografia foi instalada, levado por meu pai, passei a frequentar as oficinas e a redação de “A Semana”. Fui aprendiz, tipógrafo, entregador dos exemplares nas casas dos assinantes, vendedor, cobrador, articulista, repórter, gerente e, por fim, diretor. É verdade que se tratava de um pequeno jornal de interior, em que tudo era feito artesanalmente, com muito esforço, dedicação e amor. Para mim, entretanto, foi e sempre será o maior e melhor jornal do mundo.  Foi naquela redação/oficina – ouvindo o ruído da impressora rotativa manual e sentindo o cheiro da tinta fresca de impressão, que tive um convívio inesquecível de rico aprendizado com meu saudoso pai.

Agora, passados tantos anos, revivo com saudade aqueles bons tempos e fico muito feliz com toda essa lembrança...

Carlos Alberto de Oliveira Déda (Beto Déda)

                 PS - Estas informações fazem parte da edição digitalizada de todos os                                  exemplares do jornal "A Semana", de 1946 a 1969,  dispostos em                                   quatro DVDs,  disponibilizados em bibliotecas de Sergipe. 

 





















quinta-feira, 13 de dezembro de 2018


Saudades de Carlinhos...


Nesta quinta-feira senti a dor da partida de mais um sobrinho para outra dimensão. O querido Carlos Eugênio, que carinhosamente chamávamos de Carlinhos, nos deixou e foi ao encontro de outros familiares que já estão em paragens celestiais.
Foto do meu querido sobrinho Carlinhos. 

Na angústia da cerimônia do desenlace, ocorreu-me o pensamento de uma conversa que tive, há muito tempo, com meu primo Edson Carvalho, filho de tio Sissi. Lembro-me que estávamos em Simão Dias e o Edson indagou-me se eu acreditava na vida eterna, na imortalidade da alma.

Não titubeei, respondi que acreditava sim; mas não me furtei em esclarecer que algumas vezes minha mente era inquietada por uma atroz dúvida sobre a espiritualidade.

Meu primo então me socorria com seu senso de homem de fé, com ensinamentos por ele recebidos nas missas de domingo na Igreja do Mosteiro de São Bento, na Av. Sete, em Salvador. Dizia ele que seria simples demais ousarmos pensar que a morte era o fim de tudo. E afirmava que pensar desta forma seria uma dor insuportável para aqueles que passavam pelo trágico momento de presenciarem o final da vida de uma pessoa querida. 

Edson tinha razão.

A esperança da continuidade da vida em outra dimensão se transforma em um bálsamo que nos conforta. É justamente nestes momentos de angústia, quando sentimos o peso da morte de quem amamos, que cresce nossa fé na espiritualidade e não duvidamos que, inexoravelmente, em qualquer momento estaremos nos unindo em outra dimensão.

Pensando assim é que sinto que o meu querido Carlinhos está, agora, no mundo dos espíritos, entre nossos ancestrais, comentando os acontecimentos recentes dos familiares que aqui ficaram. Não duvido que nossos desencarnados e saudosos parentes estejam felizes e sorridentes com o otimismo de meu sobrinho e seu inconfundível jeito alegre de encarar os problemas e de transformar cada momento em um ato de humor inteligente.

Guardo maravilhosas recordações de Carlinhos. De ontem e da atualidade. Entre as lembranças do passado, revejo, agora, o tempo que passamos umas férias na Fazenda “Baixão” de seus pais Chico/Malô, em Paripiranga. Isto faz muito tempo. Ele tinha mais ou menos a idade de meu neto (entre 9 e 10 anos).

Em uma manhã peguei uma espingarda e fui caçar codorna. Carlinhos me acompanhou. Com seu olhar encantador, pediu-me para dar uma olhada na espingarda. Curioso, pegou, mirou um alvo e, depois, pediu-me para atirar. No primeiro momento neguei. Ele não se deu por vencido e, com seu modo simpático -  inconfundível mesmo  – insistiu no pedido.

Antes de permitir que ele atirasse em uma fruta de mandacaru, tomei todas as precauções, explicando-lhe sobre o modo e os cuidados no uso da espingarda.  Não acertou, mas vibrou com a experiência. Recomendei-lhe, então, que não deveria falar sobre isto com sua mãe, para não preocupá-la. Concordou, com um olhar maroto. Quando voltamos à casa sede, a primeira reação dele foi contar aos irmãos sobre o seu primeiro tiro de espingarda. Não tardou a notícia chegar aos ouvidos de sua mãe.

Não é pouco dizer que minha querida irmã Malô não deixou de me censurar, mas não conteve o riso quando Carlinhos me defendeu, afirmando que não tive como evitar sua magia de pidão.

Naquela época eu me divertia fazendo aquarelas. E em determinada tarde subi uma serra que ficava em frente à casa sede da fazenda e comecei a pintar uma tela. Ao final da pintura, Carlinhos examinou cuidadosamente o quadro, disse que uma árvore não estava no lugar exato e, depois, externou seu fino humor crítico, exclamando:

Fazenda Baixão de Francisco Dias Lima - Pintura de Beto Déda 1978
- Tio, em sua pintura, a sede do “Baixão” foi transformada em uma raquete de pingue-pongue... e resumia sua crítica com uma estrondosa gargalhada. 

E ele tinha razão. Ainda hoje tenho uma cópia desse quadro, que por muito tempo ornamentou a sala de jantar da casa de seus pais em Paripiranga.

Na última vez que me encontrei com Carlinhos, ele estava sentindo o furor do triste mal que lhe consumia. Estava sentado em um sofá, em posição que não provocasse mais sofrimento. Ali conversamos muito e, não obstante o sofrimento por que passava, encantou-me com seu otimismo, fazendo pilhéria de cada assunto abordado e nos fazendo rir à vontade. Um exemplo inesquecível...

Meu sobrinho era um encanto de pessoa. E como acredito na vida eterna, sei que será recebido no lugar sagrado e que levará aos nossos saudosos familiares a mesma alegria que nos encantou aqui neste mundo.

Até breve meu querido...

Aracaju, 13/12/2018
BETO DÉDA

terça-feira, 4 de dezembro de 2018


Lembranças do canavial  de  Johnny.

Contavam os antigos que a feira da cidade de Simão Dias era realizada na Rua do Comércio Velho, que antes era conhecida como “Rua de Baixo”, e atualmente é denominada Rua Cônego Andrade. Em 1847 a feira foi mudada para a Avenida Cel. Loiola e, muito tempo depois, ocorreu  nova mudança e a feira passou para o bairro Bonfim, onde acontece até os dias de hoje. 

Tenho boas lembranças da Rua Cônego Andrade. Quando eu era criança andava muito por aquela rua, de modo especial porque ali ficava a casa do sempre lembrado tio Sissi, que era irmão de minha saudosa mãe. Depois, já adulto, quando me casei, passei a morar naquele local, em casa que ficava próxima das residências de meu tio e de Barbosa/Anita Guimarães, pais do grande amigo Clínio, “o apreciador da boa cerveja”.

Estas lembranças foram proporcionadas pela conversa que tive recentemente com meu querido primo Zé Carvalho, filho de tio Sissi, que me honrou com uma visita no Sítio Lago Dourado.

Conversei durante todo o dia com o primo Zé e, como sempre, lembramo-nos de grandes façanhas dos bons tempos de nossa terra. Entre outras coisas recordamos do convite de um amigo para visitamos o canavial e saborearmos a boa cana-de-açúcar da fazenda de sua família. Repasso o fato para quem gosta de ouvir minhas malucas e reais aventuras. 


Rua Cônego Andrade - largo onde era armado o carrossel de Seu Messias.
Lá pelo idos dos anos 50, o Sr. Messias Cassimiro - que morava na Rua do Sobrado -  armava o carrossel (conhecidos como “cavalinhos”) na Rua Cônego Andrade, no largo entre a Padaria de Seu Joãozinho, o sobrado de Seu Janjão  e a Casa de Seu Antônio da Jaqueira. O carrossel – movido aos empurrões – era uma festa para todos nós. 

Lembro-me bem de certa noite que estávamos juntos em frente aos “cavalinhos de Seu Messias”: eu, meu irmão Carlos e os primos Zé, Edson e Valter. Chupávamos roletes de cana-de-açúcar, comprados por tio Sissi.  Então se aproximou um amigo nosso, apelidado de grande Johnny, que participava de nossas brincadeiras e conversas.

Notando que gostávamos de roletes de cana, o Johnny nos convidou para ir ao canavial de seus familiares, lá pelas bandas do povoado Saco Grande.

Convite aceito, partimos no dia seguinte em direção ao canavial do Johnny. Seguimos pela Rua das Louceiras, passando pela casa de Zezé do Vapor, seguindo até a fazenda. Lá, abrimos a porteira e seguimos a estrada que levava à casa sede. Quando estávamos próximos da casa, avistamos o Johnny no canavial, que nos acenava, chamando-nos.

Atendendo ao chamamento, nos desviamos da estrada que levava à casa sede e cortamos caminho em direção ao canavial. Súbito, ouvimos o rude bravejar de uma pessoa que estava no alpendre da casa grande, chamando-nos até lá. Atendemos meio desconfiados e, ao aproximarmos, dava para vislumbrar um senhor que nos parecia alto, com grandes botas, roupa cáqui (marrom amarelada), chapéu baeta, uma taca na mão esquerda, batendo compassadamente na bota.

Então aquele senhor com o timbre de voz pronunciado entre os dentes, falou e nos deixou trêmulos:
- Como é que vocês penetram na propriedade alheia, sem convite, e se desviam da casa sede, em busca do canavial? Que ousadia é esta?

Não lembro se foi Edson ou Valter que explicou que tínhamos sido convidados pelo grande Johnny. 

O certo é que o argumento não foi aceito. O homem de roupa cáqui bateu forte com a taca na própria bota e determinou que cobríssemos o nossos rastros. Exclamou com rispidez:
- Puxem por ali!  FORA!  

Na verdade, soubemos depois, o homem não gostava só de roupa cáqui; também tinha uma predileção pela límpida e destilada “água” de suas canas. Mas não sabia aproveitar um bom gole e se alegrar com os  momentos da vida. Em sentido contrário, ao saborear a destilada, parece que o mal despertava em seu íntimo e ele cerrava os dentes e esbravejava, perdendo a alegria e a cordialidade.

Foi uma meia volta e volver apressado. Saímos rápido, lamentando por não podermos saborear os doces roletes da boa cana caiana. Mas a volta foi divertida, descobrindo alegria em cada ponto da estrada. Bisbilhotamos cada Santa Cruz e admiramos os passarinhos e o revoar de cada perdiz ou nambu. O passeio não foi perdido...

Naquela mesma noite nos encontramos com o grande Johnny que se desculpou e nos assegurou que teria dito ao senhor de roupa cáqui que éramos pessoas conhecidas e confirmara que tinha nos convidado. Para nos consolar, tentando contornar o mal entendido, disse que o senhor prometera que iria conversar com papai e com o tio Sissi para se desculpar pelo acontecido. 

Até hoje não sei se aconteceu a conversa prometida. Acredito que não. Para nós foi melhor não ter acontecido. 

O importante mesmo foi a justificativa do grande Johnny. Valeu mais que qualquer conversa de adulto e ele continuou sendo nosso amigo. Longe do canavial, é claro!

Aracaju, 04/12/2018.


Beto Déda

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Tocando em Frente, por Almir Sater



TOCANDO EM FRENTE.

Hoje amanheci ouvindo boas canções e voltei a me lembrar dos bons tempos quando eu criança em Simão Dias. E para não esquecer que, através do serviço de alto-falantes TUPY, mandava músicas para garotas amadas,  faço de conta que estou naquela época e – embora utilizando a moderna tecnologia de hoje – envio uma música muito bonita para as garotas que continuam em minhas eternas lembranças.

Para elas, transcrevo duas estrofes dessa linda canção “Tocando em frente”, de Almir Sater:

“Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz,
De ser feliz.”
...
“Ando devagar, porque já tive pressa
E levo esse sorriso, porque já chorei demais,
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz,
de ser feliz.”

Que ouçam a nossa canção preferida e nunca esqueçam que sou um inveterado romântico.

Beijo no coração...

Aracaju, 29/10/2018

BETO DÉDA


quinta-feira, 25 de outubro de 2018


UNIÃO PARA PRESERVAR A DEMOCRACIA.


Nunca pensei que ao chegar aos meus 77 anos iria presenciar, mais uma vez, uma grave ameaça à nossa democracia.  Infelizmente é a realidade. Prega-se abertamente a violência, o preconceito, a intolerância e o ataque descarado e ameaçador aos preceitos básicos de liberdade.

Nestes dias turbulentos que antecedem o segundo turno das eleições, devemos esquecer as divergências e pensar no melhor para nosso país: a Democracia. Ela está ameaçada, quase que diariamente, pela intolerância e pelo ódio. Isto é péssimo e deve ser objeto da atenção de todos os democratas, independentemente de cor partidária. E neste ponto, transcrevo aqui o texto compartilhado por um amigo e conterrâneo em sua página no facebook:

"Agora não se trata mais do PT e de Haddad ou de grupos progressistas. Trata-se da democracia ameaçada por Bolsonaro. Quem discordar dele é cadeia ou exílio. A opção é democracia ou violência oficial, a ditadura. Temos que salvar as liberdades senão conheceremos uma tragédia nacional".

Concordo com a mensagem acima. Não posso acreditar que o ódio a um partido político seja tão acentuado que leve as pessoas – que nos parecem tão equilibradas e de bom senso – a defenderem e apoiarem o candidato que prega a agressividade, que propaga o uso de armas, ofende as minorias, se opõe aos direitos dos trabalhadores e estimula a intolerância e a segregação.


Neste segundo turno da eleição, a intolerância dos seguidores do Bolsonaro nos deixa apreensivo. Recentemente fui vítima de um deles e presenciei a agressão a outras pessoas. Um absurdo. Não podemos aceitar esse clima de violência estimulado por esse candidato que, em seus pronunciamentos, incita a intolerância e, conscientemente, põe em risco os fundamentos democráticos previstos em nossa Carta Magna.




É tempo de união dos que pensam em um país democrático, independentemente de preferências partidárias.

Não tenhamos dúvida: Haddad é a solução.


Aracaju, 25/10/2018

BETO DÉDA

sexta-feira, 28 de setembro de 2018


MEU CORAÇÃO CONTINUA VERMELHO.

Ao se aproximar o dia das eleições costumo repetir meu grito ideológico e solto a minha voz cantando no banheiro: “Meu coração é vermelho; vermelho é meu coração...”.

E como meu coração é realmente vermelho e estamos próximo ao embate eleitoral, renovei a bandeira que guarnece o meu chão e, novamente, nela desenhei um “M” bem grande, correspondendo à primeira letra do nome de familiares que tenho um imenso amor e presto minha homenagem.


É o “M” de: Miguel, Marina, Mateus, Marcelo, Marcela, Maura, Mônica, Malu, Malô, Maria, Marta, Manuel. Manuela, Márcia; e que representa também a “Memória” de meus grandes e eternos amores: pessoas muito queridas cujos nomes não começam com a letra “M”, mas que ocupam um imenso espaço no meu coração vermelho.

A cor do meu estandarte e do meu coração também abriga minha ideologia, meu sentimento político; esse imenso e inquebrantável pensamento que não se esmorece.

Quando eu canto esta música minha memória volta-se para as lembranças dos bons tempos, quando nos embates democráticos contávamos com a presença e liderança de meu querido e saudoso sobrinho Marcelo; e vivíamos sem medo de ser feliz.

Infelizmente, desde 2014, inconformados com o resultado da eleição, os patifes conspiraram para anular a preferência da maioria dos brasileiros e enfraquecer a democracia.

A pretensão se materializou com o golpe que destituiu uma presidenta eleita. Tomaram o poder para vilipendiar o país, em um golpe contra a democracia. Depois, em solerte conchave de poderosos dos três poderes da república, prenderam a maior liderança política do país para evitar sua participação na disputa eleitoral.

Prenderam sem provas homem, mas não sua ideia. Mesmo como prisioneiro político, Lula continua como o maior líder de nossa gente. Lula é Haddad, cujo programa de governo defende os mais fracos, luta pelo direito dos trabalhadores e sua arma é o livro, contrapondo aos que defendem a agressividade, ofendem as minorias, se opõem aos direitos dos trabalhadores, estimulam o ódio, a intolerância e propagam o uso de armas.

Nestes dias turbulentos, o grande “M” de meu estandarte também corresponde a primeira letra de Manuela D’Ávila, a vice na chapa de Haddad, tal qual a querida Eliana é a vice do conterrâneo Belivaldo.  São companheiros e continuamos juntos.

Lembrando os bons tempos com Marcelo, hoje me dediquei a ouvir mais uma vez a canção composta por Chico da Silva e, soltei a voz acompanhando a interpretação de David Assayag:


- Meu coração é Vermelho. Vermelho é meu coração...
  



Aracaju, 28/09/2018
BETO DÉDA

quarta-feira, 19 de setembro de 2018



A Praça de São João, Seu Nia e a festa dos Lambe-sujos e Caboclinhos.

Em minha infância a Praça de São João, em Simão Dias, foi meu mundo de brincadeiras, de fantasias e de encantos. Naquele local eu vi e participei de inesquecíveis acontecimentos, a maioria deles pontilhados pela aventura e alegria comum aos garotos da época. Diversão não faltava.

Nesta semana, depois do prazer da leitura de um bom livro, minha memória foi despertada para fatos que ocorreram na saudosa Praça ou Parque São João, no início dos anos 50.

O ponto que despertou minha memória para a praça foi um rapaz podando uma árvore e que caçoou de minhas advertências para evitar que cortasse o galho em que estava sentado.

Narrei para o improvisado lenhador o caso de um conterrâneo que, ao podar uma árvore da Praça São João, caiu junto com o galho (se descuidou e se sentou na extremidade que estava sendo cortada!).  Fraturou o braço e passou a ser chamado de “Hosana das Alturas”. E a queda foi motivo de gozação por muito tempo entre os moradores do local.

Na mente de um septuagenário de boa memória, uma lembrança leva a outra. E surgiram outras recordações que repasso aqui.

Lembrei-me também da aventura do amigo Hélio de Seu Otávio que, com medo de um boi cara preta, subiu em um pé de tamarindo e depois não sabia descer. Passou a chorar e gritar pedindo socorro. Seus gritos foram ouvidos pela saudosa Teté (Tefinha Alves) que chamou um senhor forte, conhecido como Seu Nia, e com ajuda dele socorreram o garoto.

Teté era uma querida amiga de minha família e morava na Rua do Coité, nas proximidades da Praça de São João.

Seu Nia era um negro simpático e muito comunicativo que trabalhava como magarefe e salgava carne do sol no matadouro municipal. Ele era de Laranjeiras e conhecia muito bem a tradição das festas daquele município sergipano. Falava muito dos folguedos de sua terra e, diante do interesse e curiosidade dos que lhe escutavam, organizou uma festa dos “Lambe-sujos e Caboclinhos” em nossa cidade. Uma verdadeira apresentação teatral a céu aberto.

O palco dos festejos era a Praça de São João. Tudo planejado e ensaiado com a devida antecedência. Na praça, no local onde jogávamos bola, foram erguidas as tendas ou ocas com varas de bambus trazidas da Fazenda “Chora Menino” do Desembargador Gervásio Prata. 

Rapazes e meninos da redondeza foram chamados para representarem os grupos dos negros e dos índios. Os representantes dos índios eram pintados com uma tinta parecida com “roxo e terra”, ornamentados com penas variadas e armados com arco e flecha. Os que representavam os Lambe-sujos eram pintados com uma mistura de melaço e uma tinta preta, que deixava a pele brilhante, e portavam uma foice de madeira.  O cacique dos índios era Pedro, filho de Dona Balbina, e o chefe dos negros era Seu Nia.

Participei dos ensaios e ainda hoje me lembro do refrão dos cânticos de ambos os lados. Os Lambe-sujos gritavam: “Samba negro, que branco não vem cá. E se vier pau há de levar!”. Enquanto o refrão dos caboclinhos era: “Prender negro? Rei dos Caboclos!”.

Fiz todos os preparativos para sair como um caboclinho. Além de participar dos ensaios, juntei as mais bonitas penas de galinhas, patos e pavões para fazer o cocar e as vestes de índio. 
O Caboclinho Beto

Mas não deu certo. Eu era muito magro, sofria da vesícula e minha mãe não aprovou minha pretensão. Justificou a desaprovação alegando que a tinta vermelha na minha pele poderia  provocar uma reação em meu frágil organismo. Fui forçado a entender sua preocupação e tive que repassar para o amigo Miraldo (filho de Zefinha de Zeca de Quincas) as penas escolhidas e bonitas que tinha colecionado. E o Miraldo não me poupou da inveja ao vê-lo com trajes de índio.

A festa ocorreu em uma tarde de domingo.  Lembro-me que no portão de minha casa foram colocadas várias cadeiras para meus pais e meus irmãos se sentarem e assistirem o desenrolar da batalha.

Era uma apresentação formidável, narrando a batalha que teve como origem o rapto de uma índia pelos negros. No centro da Praça, começava o embate entre o Cacique (Pedro de Dona Balbina) e o Chefe dos Negros (Seu Nia). O índio era o vencedor, libertava a princesa e aprisionava os negros. Então os caboclinhos saíam guiando os lambe-sujos para pedir aos assistentes uma moeda para alforria.

A festa dos Lambe-sujos não se tornou tradição em nossa terra, mas o espetáculo a céu aberto programado por Seu Nia se tornou um fato inesquecível para muitos rapazes e meninos que viveram naquela época nos arredores da Praça de São João.

Tais lembranças enriquecem o cabedal do meu viver e relembrá-las equivale a um prazer imenso; renovam minhas forças. Não é à toa que os meus familiares percebem o brilho nos meus olhos quando me dedico a recordar os bons tempos.

Aracaju, 19/09/2018.
BETO DÉDA