terça-feira, 16 de junho de 2015

 
 
A história “penosa” da escova e do AVC
 
 
Dizia meu tio Paulo que nos velhos tempos, em Simão Dias, morava um casal simpático que não economizava palavras ao exaltar a paixão que os dominava. Dir-se-ia, sem exagero, que se completavam. A união era perfeita e as carícias mútuas eram uma constante. Dificilmente afastavam-se por muito tempo.
 
Aconteceu, porém, que determinada semana a mulher teve que viajar até esta Capital para resolver problemas de saúde. O apaixonado marido não pode acompanhá-la, porque estava envolvido em inadiáveis problemas de seu trabalho.
 
Entristecido com a ausência da consorte, o marido revelava ao meu tio o desalento que sofria naquelas noites de solidão. Confidenciou que passara dois dias sem dormir e somente na terceira noite é que conseguiu conciliar o sono. E o fez usando um refrigério meio estranho, mas que surtira um efeito sonífero magistral.
 
Interessado em saber a solução encontrada, meu tio indagou qual foi o tal do “refrigério” encontrado pelo amigo.
 
Então, o apaixonado marido dizia em voz baixa: - Peguei uma escova negra e grande, daquelas que se limpa sapatos, e coloquei na cama ao meu lado.
 
E explicava que ao se deitar, para aliviar a saudade, ele alisava suavemente os pelos da escova, lembrando-se da intimidade da amada...
...
Dizia meu tio que muitos anos depois, a idade não arrefeceu o amor e as carícias mútuas do simpático casal. Os probleminhas – que se tornam grandes entraves entre amantes comuns – não perturbavam o afeto e a ternura que dominava o amor recíproco daquele casal. Viviam bem, se amavam e se completavam.
 
Mas, como nem tudo são flores, uma noite, a sorte não os favoreceu. Depois de trocarem juras de amor, o marido sofreu um preocupante AVC (Acidente Vascular Cerebral). Atordoado com o inesperado ataque, com a boca meio torta, o apaixonado cidadão, olhou tristonho para a amada esposa e com a fala pastosa disse que todo seu lado esquerdo estava ficando dormente e insensível.
 
Diante de tão triste informação, a prestimosa e querida mulher não pensou muito, nem perdeu tempo. Lembrou-se do velho ditado: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.

E, sem perdas de tempo, antecipando-se aos efeitos do acidente vascular que começava a atingir o lado esquerdo do marido, procurou defender o que lhe interessava: meteu a mão na braguilha do enfermo e passou os já amolecidos “documentos” para o lado direito...
 
Aracaju, 06/05/2015.
Beto Déda
 

 

A mão esquerda, o corrimboque e o cafezinho.
Em outros escritos meus, contei que eu sou um admirador incondicional de meus saudosos tios. Encantava-me com suas histórias e ficava feliz ao perceber a paciência que eles tinham em me ouvir e me orientar com exemplos simples e maravilhosos.
Certa vez eu conversava com meu tio Paulo a respeito do hábito de fumar e lembrei-lhe que tio João Déda era o único da família que gostava de cheirar rapé, conhecido como torrado, que era o fumo moído e comercializado por Maria Pixilim, que morava na Rua da Palha, atrás do Açougue, lá em Simão Dias.
Tio João carregava o rapé em um corrimboque, conhecido também como tabaqueiro, feito da extremidade da ponta de boi ou de bode, com tampa de madeira e um laço de couro para facilitar a abertura. Ele tinha todo cuidado com o torrado e não permitia que ninguém o retirasse da caixinha de forma incorreta. Se uma pessoa pedia uma pitada ele oferecia o rapé de modo que o pedinte sempre usasse os dedos da mão esquerda. Se a pessoa insistisse com a direita ele passava o corrimboque para o lado esquerdo, insinuando ao sujeito que a pitada deveria ser retirada com os dedos da mão esquerda.

Perguntei ao tio João a razão daquele cuidado e ele me explicava que os dedos da mão direita traziam impurezas, porque eram usados pelo homem para pegar coisas íntimas ao satisfazer suas necessidades físicas: fazer xixi, por exemplo. Para ele os dedos da mão esquerda tinham menor sujeira.
Cocei a cabeça, pensei um pouco e indaguei:
 - Meu tio... e se o pedinte for canhoto?
- Ora, respondeu ele, os que me pedem a pitada são amigos e conhecidos. Eu sei quem é canhoto e, neste caso, o corrimboque vai para os dedos da mão direita. 
Assim que contei esse fato, o tio Paulo, com seu jeito simpático, disse-me que conhecia esse hábito de tio João e contou-me o causo que repasso pra vocês.




Tio Paulo era o proprietário de casa de calçados “Esquina da Economia”, situada entre as ruas João Pessoa e São Cristóvão.  Sempre que tinha uma folga ele ia até a Padaria Nossa Senhora do Socorro, que ficava próximo, tomar um cafezinho e fumar um cigarro, que sempre ficava preso entre seus lábios. A padaria era movimentadíssima e servia muito café pequeno. Para se resguardar, meu tio sempre pegava a xícara com a mão esquerda. Dizia ele que poucos usavam a mão esquerda, então o lado direito da xícara era menos impuro.
Contava-me, então, o bom tio que certo dia ele estava todo concho tomando seu cafezinho quando, de repente, alguém tocou em seu ombro e falou:

- Oi, ‘Palo’, você é como eu, toma o cafezinho com a mão esquerda. Você também é canhoto?
Meu tio virou-se e constatou que a pergunta fora feita por um tipo popular da cidade, conhecido por TÔ TE AJEITADO, que usava paletó, camisa florida e gravata espalhafatosa; vendia bilhetes de loteria e tinha os beiços feridentos, parecendo que estavam acometidos de aftosa.

Tio Paulo olhou bem para os lábios feridos de TÔ TE AJEITANDO e, sem desfaçar o susto, soltou incontinenti a xícara no balcão. Daquele dia em diante deixou de tomar cafezinho com a mão esquerda...

Aracaju, 27/04/2015.

Beto Déda

segunda-feira, 2 de março de 2015


De como me lembrei dos comerciantes de jabá,  leite in natura, colchas e ovos.


Recentemente fui almoçar com meu filho Bruno em um restaurante, lá pela zona de expansão de Aracaju, próximo ao Mosqueiro. Lamentavelmente não conseguimos matar a fone, porque o que nos foi servido estava ruim. Chamei o garçom e reclamei. Disse-lhe que a carne estava MOÍDA. Ele tentou justificar e perguntou:
- O filé não foi esmagado. Moída como?

Expliquei-lhe que a carne estava com gosto ruim, fedida, imprestável à alimentação.  
Resolvido o problema, comentei com meu filho que nos velhos tempos, em Simão Dias, a expressão “carne moída” significava que o produto estava começando a apodrecer.  Lembrei-me, então, de um caso em que tia Esterzinha usou com veemência essa expressão. Conto para vocês esse fato e, como uma lembrança leva a outra, também narro aqui outros causos de comerciantes de minha terra.

 
1.      Comprando jabá moída

Certa manhã tia Esterzinha me mandou comprar jabá no armazém de Seu Dominguinhos, um conhecido comerciante da cidade, proprietário de um estabelecimento de secos e molhados que ficava perto do Mercado da Carne.
Em minha memória de garoto, Seu Dominguinhos era um homem idoso, alto, branco, de nariz avantajado e voz rouca, sempre usando um boné parecido com o do humorista Chaves. Reclamava de tudo, sem deixar de ser engraçado.

Cheguei ao armazém e fui atendido pelo próprio comerciante. Pesada a carne, voltei rápido e a entreguei a tia Esterzinha. Ela abriu o pacote, olhou, cheirou a jabá, franziu a testa, torceu o nariz em sinal de desagrado e, olhando pra mim, exclamou:
- Esta carne está moída! Quem vendeu?
Diante de minha resposta, protestou e mandou-me voltar imediatamente ao armazém e procurasse dona Noquinha, a esposa do comerciante, para trocar a mercadoria. E repetia: - Está moída!
Voltei ao armazém e falei diretamente com dona Noquinha, dizendo que a jabá estava fedida. Ela pesou outro pedaço de charque na forma recomendada por minha tia e lançou um olhar de censura ao marido.
Então, com sua voz rouca, ele explicou sem disfarçar o sorriso e acrescentar seu refrão preferido:
- Não notei que a carne estava ou não moída. No mais, é bom lembrar que negócio é negócio, amizades à parte.
...
2.      Bebendo leite in natura com espuma
Era costume de algumas pessoas de Simão Dias acordar cedo e tomar leite in natura, quentinho, tirado na hora nos currais próximo à cidade.
Seu Dominguinhos, além de cuidar do armazém, era criador de vacas holandesas que ele mesmo ordenhava e vendia o leite in natura. O curral ficava no final da Rua do Mulungu, quase beirando a rua conhecida popularmente como a Ponta da Asa. Depois de ordenhadas, as vacas pastavam no outro lado da cidade. E todas as tardes, o rebanho era guiado para o estábulo, passando pela Rua dos Ribeiros, sujando as calçadas e atrapalhando nossos jogos com bola de meia.

Pois bem. Ele próprio ordenhava as vacas e, no momento em que enchia os copos da freguesia, era bem cauteloso, ou seja, segurava o copo longe das tetas da vaca. Dizia que era questão de higiene. Usando essa tática, o comerciante provocava bastante espuma, de sorte que, ao final, o freguês ficava com o copo com metade de leite e metade de espuma.  
Mas como para todo sabido tem sabido e meio. O pessoal descobriu que passando suavemente um pouco de manteiga no copo, o leite não espumava, mesmo ficando longe das tetas da vaca. E com isso livravam-se da esperteza da espuma. Só que não durou muito. O comerciante desconfiou da tática dos fregueses e, com sua voz rouca, se negava a atender aos que amanteigavam o copo.  Só vendia depois que tiravam a manteiga, justificando que era questão de “asseio”.

Tia Nice era uma das freguesas do leite das vacas de seu Dominguinhos. E eu ia com ela.
Um dia resolvi tomar leite com chocolate. Quando Seu Dominguinhos segurou meu copo e viu o que estava dentro, olhou-me de soslaio, dizendo que não permitia que se colocasse qualquer coisa dentro da vasilha e negou-se a me atender. Fiquei aflito diante daquela observação e somente me acalmei quando tia Nice veio em minha defesa. Seu incisivo protesto fez o comerciante retroceder, atendendo-me, sem, contudo, deixar de me advertir:

 - Garoto, na próxima vez traga seu chocolatinho em outra vasilha e só o coloque no copo depois que eu pôr o leite. Entendeu?
E complementava: - Negócio é negócio, meninos e amizades à parte...

...

3.     O festival "Idílio de Verão" e a 'penosa' das colchas e dos ovos

 
Antigo prédio da Prefeitura 
No ano de 1954, tia Francisquinha foi uma das organizadoras do festival de arte denominado “Idílio de Verão”, realizado em benefício da Sociedade de Assistência aos Lázaros de Simão Dias, da qual ela era presidente. O festival foi realizado no prédio da antiga Prefeitura.  Eu era garoto naquela época, mas lembro-me que, muito compenetrado, eu ajudei, como garçom-mirim, em uma barraca que servia doces, salgadinhos e refrigerantes.
A Semana noticia o festival "Idílio de Verão"

Na festa houve apresentação de artistas amadores da localidade. Um dos apresentadores foi o tio Paulo. Ele empolgou a todos com seu jeito admirável de contar “histórias penosas”.
Nesse dia, dentre muitas “penosas”, ele narrou os negócios realizados com dois conhecidos comerciantes da cidade e que, parece-me, estavam presentes àquela festa: o seu Dominguinhos, do armazém de secos e molhados, e Dona Zu, que tinha uma loja de tecidos.
Dizia, então, meu tio, que Seu Dominguinhos foi à casa de tecidos de Dona Zu, comprar umas colchas. Lá chegando pechinchou, pechinchou e no final conseguiu o preço que queria. Satisfeito com o negócio, ele fitou a dona da loja e lembrou que na semana anterior ela estivera no seu armazém e também pechinchara muito, conseguindo comprar ovos pelo menor preço. E risonho complementava:
- Naquele dia você me pegou nos ovos, mas hoje eu lhe peguei nas colchas...

Antes que as cortinas fechassem, meu tio interrompia os aplausos e, com seu modo engraçado, esclarecia:
- Não confundam colchas que se escreve com e CH, com coxas, com X, e nem ovos com... com... ora BOLAS... com  outros ovos!

E os risos e as palmas duplicaram-se...                

Aracaju, 10/fev/2015
Beto Déda

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015




Carregando a pronúncia do erre: no “atrrraso” e na “virrrilha”.
Um das verdades lembradas por uma amiga nossa é o ditado: “Gosto não se discute”. Ela tem absoluta razão. O que seria do verde, se todos, indistintamente, só gostassem do vermelho? Cada um tem suas próprias predileções. Uma das minhas preferências sempre foi a de ouvir, pacientemente e com alegria, os causos contados por meus pais, meus tios e meu sogro. Observava o prazer e o encanto que eles tinham em narrar suas histórias, algumas delas já repetidas, mas que lhes renovavam a mesma satisfação.

Se ontem os escutava, hoje sou eu que me empolgo em contar não só os fatos acontecidos comigo, mas também os que me foram narrados por meus saudosos parentes. E, muitas vezes, ouço a advertência de que estou sendo repetitivo. Mas... Fazer o quê?  Se isto me renova a satisfação...

Devo esclarecer, entretanto, que não sou um nostálgico, as lembranças que aqui apresento não estão associadas a um desejo sentimental de regresso. A palavra nostalgia vem do grego e tem o sentido de reencontro com a dor e o sofrimento, muito parecido com o termo melancolia, que significa morbidez, tristeza e depressão. Não é esse o meu caso. Meu sentimento é de aproveitar as boas coisas dos dias atuais e, na sobra de tempo, lembrar com alegria os velhos tempos e as pessoas que amávamos, “matando” a saudade.

Depois dessa reflexão de matuto simão-diense, vamos às lembranças que nos interessam.

Durante algum tempo, eu e meu sogro (Seu Antônio de Silva) nos reuníamos na casa de tio Paulo e com ele passávamos horas relembrando fatos ocorridos em Simão Dias.

Em uma dessas conversas, falávamos sobre as feiras aos sábados, na Avenida Cel. Loyola de minha cidade natal. Lembrei-lhes de personagens que se fixaram em minha mente de garoto (e até hoje permanecem): ferreiros, engraxates, comerciantes de feijão, de farinha, de amorosa, de bois de barro e, entre eles, um senhor que vendia requeijão na porta do velho mercado.


Pelo sotaque, caprichando na pronúncia dos erres, esse senhor, vendedor de requeijão, parecia ser estrangeiro. Minha memória o reteve como um homem forte, sempre de paletó e chapéu, que conversava alto e quando evidenciava os erres mostrava os dentes amarelos. Todas suas frases eram concluídas com o um: ô rrraio! Filho do rrraio! De tanto falar assim, o produto de seu comércio passou a ser conhecido como o requeijão do filho do RRRAIO.


Tio Paulo contando a história
 penosa da senhora dos ERRES.
Assim que relembrei este fato, tio Paulo se lembrou de uma senhora que também pronunciava com intensidade os erres. Então, com seu jeito inigualável de contar “histórias penosas”, ele passou a narrar os causos que tentarei repassar pra vocês.

Dizia meu alegre tio que nos anos quarenta/cinquenta morava em Simão Dias uma senhora engraçada que não tinha medo ou vergonha de se expressar. Ela sabia, como o velho do requeijão, dar uma entonação especial na pronúncia dos erres. Era do tipo que não tinha papas na língua. Quando tinha que dizer, dizia mesmo.

Quando ela se casou, sua idade já passava dos trinta anos, era uma fogosa balzaquiana. Seu noivo também era um coroa. Formavam um par expandindo idade.  No dia das núpcias, com sua franqueza, ela dizia ao noivo, sem reservas e para que todos a ouvissem, que aquela noite seria a grande oportunidade para os dois recuperarem o tempo perdido. Então ela repetia alegremente, em alto e bom som, carregando os erres:

 - Hoje vamos tirar o ATRRRAASO.

No dia seguinte à lua-de-mel, espargindo alegria, ela vangloriava-se, afirmando que a alcova tinha sido pequena para o movimento de amor e prazer e, sem cerimônia, repetia:

 - Ontem, a noite foi uma criança. Recuperamos todo o ATRRRAASO!
...

Meu tio contava a história e, ao final, ria muito, partilhando conosco sua alegria franca e contagiante. Ríamos da história, de seus gestos e também do seu riso. E ele não se fazia de rogado e nos contava outra “penosa” melhor.
Dizia ele que presenciou outro fato com aquela engraçada balzaquiana.

Em uma tardinha, quando garis varriam a rua em frente a sua casa, a senhora dos erres aproximou-se de uma delas para perguntar qualquer coisa. De repente – quando a suada varredora levantou o braço para mostrar algo ao longe, expondo a sovaqueira – a irreverente senhora afastou-se e, com as mãos tapando o nariz, exclamou sem medir o tom, caprichando nos erres:
- ARRRRE! Que catinga! Se as axilas estão assim, imaginem as VIRRRIILHAS!


Aracaju, 22/01/2015
Beto Déda


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Os rolos espalhadores de tinta da impressora, o velho tipógrafo e o artesão.

O jornal “A Semana” era editado por meu pai em tipografia própria, situada em um salão nos fundos da casa onde também funcionava seu escritório de advocacia: Rua Dr. Joviniano de Carvalho nº 37, em Simão Dias.
Impressora semelhante à d'A Semana
A impressora era uma rotativa francesa, antiga, movida a mão, com manivela igual as usadas nas casas de farinha do interior.
A tinta era espalhada na máquina de impressão através de rolos, espécies de cilindros em que o eixo de ferro era coberto com gelatina, de modo a receberem e distribuírem a tinta uniformemente sobre a matéria a ser impressa (a chapa com tipos e clichês).
O rolo de espalhar tinta
Os rolos que acompanharam a impressora se desgastaram e para reformá-los meu pai chamou o Sr. Monte Santo, que tinha sido tipógrafo, era conhecedor da arte, embora não mais apresentasse condições de exercer a profissão. O Monte era um senhor idoso, branquelo, com o rosto parecendo inchado, baixo, mancava de uma perna e usava muletas para andar.  Sempre que pegava qualquer coisa, aproximava bem dos olhos, para melhor enxergar. Ele era míope e, diante de nosso olhar curioso, dizia ter sido consequência da profissão, advertindo-nos para termos cuidados com nossa arte, senão também teríamos problemas de visão no futuro.
Para cobertura dos rolos, Seu Monte nos mandava cortar a gelatina em pequenos pedaços, colocava-os em uma lata, levando-os em seguida ao fogo para derreter. Os eixos dos rolos eram enrolados com cordas e colocados em fôrmas cilíndricas de zinco, besuntada de mel e, em seguida, enchidas com a gelatina derretida. Quando esfriava, o rolo era retirado da forma e estava pronto para receber a tinta.
Em um desses dias, o Luiz Santa Barbara, que era o chefe da tipografia, perguntou ao seu Monte porque não usar o óleo de mamona em lugar do mel para facilitar as retirada dos rolos das fôrmas.  E ele, compenetrado, dizia que óleo de qualquer espécie não era bom, o melhor mesmo era o mel porque dava mais consistência aos rolos.
Na verdade o mel era bom, mas não o melhor lubrificante. O certo é que era o preferido por seu Monte, que não deixava de levar a sobra para seu deleite. E ao lidar com os rolos, muitas vezes o velho era surpreendido lambendo as mãos sujas de mel, chupando os dedos com guloso prazer para limpá-las do doce melado.  E o Luiz, piscando o olho, dizia que assim estava justificado o uso do mel...
Lembro-me agora que uma das fôrmas para rolos estava imprestável, toda amassada e com furos. Então papai me chamou e mandou que eu a levasse ao seu José Machado para fazer outra igual, esclarecendo que já tinha conversado com ele sobre o assunto.
O Sr. José Machado era paraplégico, mas isso não limitava sua força de vontade de trabalhar e cuidar do sustento de sua família. Ele era um artesão que trabalhava com zinco e folhas-de-flandres, fazendo bicas, chocolateiras, copos, candeeiros, funil e várias espécies de utilidades, inclusive fôrmas de rolos. Era conhecido como Seu Zé Aleijado, mas, com justa razão, não gostava do qualificativo, porque o discriminava.
Pois bem. Fui até a casa do seu Zé Machado. As portas estavam abertas e avistei o chão coberto de peças por ele fabricadas. Bati palmas, chamei e ninguém atendeu. Então comecei a gritar: - Oi de casa, seu Zé Aleijado está?
Nada de resposta. Logo depois ele apareceu. Olhou para mim e disse que seu nome era José Machado, que não gostava de apelido, advertindo-me, com sua voz rouca:
– Garoto, não me venha com alcunha, entendeu?
Não entendi bem o que ele dissera, mas balancei a cabeça confirmando. Em seguida, observando a fôrma que eu lhe entregava, ele afirmou que já sabia do que se tratava. Então indaguei:
 - Quando a fôrma estará pronta, seu Zé Aleijado...
Ele voltou-se pra mim, balançou a cabeça, e exclamou: - Como é meu nome, menino?
E eu, apavorado, sem pensar, disse: - Desculpe seu Zé Aleijado!
O simples olhar do artesão fez-me perceber minha tripla mancada e acelerar minhas pernas em louca carreira em direção à tipografia, sem olhar pra trás.
Dias depois, quando papai mandou-me pegar a fôrma, fiz um pedido patético ao Luiz Carlos Santos (Luiz de seu Izídio), que era aprendiz como eu, transferindo-o a incumbência de ir até a casa do seu Zé Machado; advertindo-o, é claro, para não usar o tal apelido.
 E o Luiz Carlos atendeu-me, livrando-me de mais um vacilo...

Aracaju, 13/01/2015
Beto Déda

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014


A DOR-DE-COTOVELO DO POLÍTICO E DO SEU PARDAL...

Tenho muitas recordações do tempo que trabalhei no Banco do Nordeste. Alguns casos merecem registro e aqui vão dois deles, distantes em quase uma década entre um e outro.

Nos início dos anos 80 participei de uma reunião entre Dr. Camilo Calazans, então Presidente do Banco do Nordeste, e os Gerentes das unidades do BNB em Sergipe.

 Naquela reunião Dr. Camilo afirmou que no dia anterior recebera de um conhecido político um pedido incomum.   Esclareceu que o normal era atender solicitações em que reivindicavam atendimento de pleitos de seus municípios, mas que naquele caso, pela primeira vez, um político solicitava que não atendesse proposta de financiamento formalizada por uma determinada prefeitura para reforma de um mercado. Dizendo-se decepcionado, Dr. Camilo afirmava que, na tentativa de prejudicar o Prefeito, o político pretendia prejudicar toda população do seu município.

O gerente da Agência onde ocorrera o fato esclareceu a situação. Disse ele que se tratava de uma tremenda dor-de-cotovelo do político solicitante: os eleitores o abandonaram e seu candidato a prefeito perdera a eleição. Como vingança, pretendia cortar o crédito do município e inviabilizar a atuação do prefeito eleito, não se importando em causar prejuízos aos munícipes.

Enquanto Dr. Camilo concluía o seu pronunciamento, lembrei-me de um caso acontecido alguns anos antes. Foi o seguinte.

Certa manhã apareceu na Agência de Simão Dias um tipo muito engraçado, cabelos lisos, longos e puxados para cima, olhos miúdos, guarnecidos por óculos apoiados na ponta do nariz e seguros por um cordão parecendo cadarço de sapatos.

Recordo-me bem o primeiro dia que o avistei. Ele estava sentado no banco de espera, com as mãos cruzadas, segurando o joelho direito levemente levantado e balançando o pé.

Foi o saudoso colega e amigo José Américo que me sugeriu observar o novo cliente:

– Diga-me, Beto, se o sujeito ali, balançando o pé, parece ou não com o Prof. Pardal dos desenhos animados?

A figura lembrava realmente o personagem do Walter Disney. Tanto é assim que passou a ser conhecido entre os colegas como Seu Pardal.

Orientado por um comerciante pilhérico, que não gostava da bossa de alguns bancários, Seu Pardal chegou à Agência referindo-se cerimoniosamente ao Gerente como “Vossa Majestade” e aos funcionários com “Vossa Alteza”. Com jeito, foi dissuadido a deixar de usar tais pronomes e estimulado a substituí-los por “senhor”. Prontamente atendeu ao conselho e bem sério repetia: – Tá certo, “sôr”!.

Então o Seu Pardal foi fazer o cadastro com o colega mineiro Gilberto, que entre outras perguntas, indagou qual era a prole dele. 

Atordoado com a estranha pergunta, Seu Pardal coçou a cabeça, ajeitou os óculos, mexeu com os olhos, fixou-os no Gilberto, pensou cautelosamente e perguntou: – “Cuma é?”

E o colega, pacientemente, com um sorriso, esclareceu que ao perguntar-lhe sobre a prole queria saber quantos filhos e filhas ele tinha.

Animado com a explicação cuidadosa, Seu Pardal respondeu fazendo pose:

- Ói, sôr! Eu tenho uma prole e dois prolinhos...

Em pouco tempo ele se tornou conhecido de todos, fato que o desinibia a falar muito e em boa altura.

Um dia, assim que a Agência abriu, ele chegou ao balcão do setor rural, me chamou, exclamando em voz alta, exalando o cheiro do cravo-da-índia que mastigava para suavizar o ranço da noite mal dormida:

 – Seu Beto, eu venho fazer um pedido ao senhor. Peço que encarecidamente corte o crédito do Tonho Titó. Ele não merece crédito!

E antes mesmo que eu perguntasse a razão daquele singular pedido, ele bradou para que todos ouvissem:

- Pois não é que o desgramado do Tonho vestiu uma roupa vistosa, usou seu chapéu “cheque sem fundo”, embonecou seu burro com arreios novos e foi saçaricar no terreiro de minha casa. Lá, deu um assobio, e quando minha teúda e manteúda apareceu, ele pegou ela, assentou bem no cabeçote do animal e poeirou estrada afora. Fugiram... Ladrão de mulher, desgraçado! Não merece crédito...

E, exasperado, com os olhos miúdos faiscando, acrescentou:

- O pior: não tem um mês que levei a desgraçada até Aracaju, pra se receitar com um doutor que cuida das partes pudendas das mulheres. Gastei duzentos contos e ela ficou nos trinques. E mais: comprei o vestido caro e fino que a sem-vergonha usou no dia que se foi.  E o peste do Tonho é que vai gozar de tudo...

Diante do olhar incrédulo dos que escutaram o lamento, auxiliado por um amigo, Seu Pardal desceu as escadas do andar onde funcionava a carteira rural, com a cabeça baixa, alisando o cotovelo e repetindo: “O Tonho não merece crédito”...

E o colega Zé Américo, com seu modo peculiar de encarar os fatos, não perdeu a oportunidade, afirmando:

– “Tadinho do Seu Pardal. Para se defrontar com o azar não precisa pisar no rasto de outros “sofredores”, basta andar pra traz, cobrindo suas próprias pegadas...”

Aracaju, 30/11/2014

Beto Déda

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014


Lembranças do Atheneu

Estudei no Atheneu em 1961/62, onde cursei os dois primeiros anos do científico. O terceiro ano conclui em Salvador, em 1963, juntamente com outros cinco colegas sergipanos. Fomos selecionados em um concurso da SUDENE para participarmos do curso pré-vestibular de engenharia na Escola Politécnica da Bahia.

Quando estudei no Atheneu, eu morava na casa de meu cunhado Haroldo, na Avenida Simeão Sobral, zona norte da cidade, bem distante do colégio, que ficava na zona sul. Mesmo assim, sempre fiz o trajeto a pé, como era o costume da maioria dos estudantes da época. Aliás, lembro que tinha um colega japonês (Ryuichi Watanabe) que morava na Granja Pedro II, lá próximo ao atual Fórum Gumercindo Bessa, e ele também fazia o percurso a pé. Nos dias de aula de educação física, sempre ao amanhecer, íamos correndo, para não perder o horário. Quando chegávamos à quadra do colégio, o professor olhava para minha palidez suada e dizia que, pelo meu porte e aparência, era possível que já tivesse realizado todos os exercícios. Mas mesmo assim não me dispensava das aulas.

Pose para foto no monumento
na Praça Comerino
À tarde saíamos de casa logo depois do meio dia e – recordo bem esse detalhe – caminhávamos em direção ao Colégio escutando a voz inconfundível de Silva Lima, que comandava o Informativo Cinzano na Rádio Liberdade. Era o líder absoluto de audiência. Em quase todas as casas o rádio estava ligado em altura considerável que dava para ouvirmos na rua. 

Pensando no Atheneu, lembrei-me do nome de alguns colegas daquela época: Joviniano, Fausto, Tércio Tojal, Madressilva, Sônia, Luzinete, Lindinalva, Rildete, os irmãos Luiz Alberto e Aloísio Siqueira, Ryuichi, Henrique, Roosevelt, Bidias, Antonio Freitas, Gilson Simões, Gélio, os irmãos Byron e Ney, José Trindade, Antônio Valadares, Danilo e muitos outros que recordo a feição, mas a memória, momentaneamente, falha ao registrar os nomes.

Vários colegas de turma.
Recordo-me de vários causos do Atheneu. Ocorre-me, agora, um fato curioso com o colega Gilson, que morava na Rua de Laranjeiras, próximo ao Colégio de Uchoa. Ele parecia ser o mais novo da turma, era baixo, com cabelos lisos, loiros, cortados à escovinha, e usava óculos de grau. Gostava muito de inglês e não perdia as aulas da Professora Micol que – diziam – era esposa do Dr. Otávio Espírito Santos, também professor e que foi Diretor do Atheneu. A lembrança que tenho é que, àquela época, a professora já tinha passado da meia-idade.  Ela era branca, meio gorda, cabelos alvos e um riso fácil. Na verdade era muito simpática e nos encantava com seus repentes, usando ditos populares.


Nossa turma na Praça Camerino.
Pois bem. Em uma tarde, no início da aula de inglês, o colega Gilson chegou atrasado. Parou bem no centro da porta de entrada do salão e, mostrando suas faces vermelhas banhadas de suor, dirigiu-se à Professora se expressando em inglês: – Excuse, teacher.  I’m late. Sorry! (que no nosso linguajar significa: Com licença, professora. Estou atrasado. Desculpe-me!).

A boa professora, também usando a linguagem inglesa, elogiou alegremente o desempenho do ‘aplicado’ aluno, autorizando-o entrar e sentar-se no respectivo lugar.

Gilson, um gozador sem igual, se mostrou encantado com os elogios da mestra. Passado aquele momento, ele veio ao meu encontro, levantou a cabeça para me olhar por baixo dos seus óculos de grau e disse-me que repetiria a dose.

Três dias depois, ele assim o fez e recebeu outro elogio, embora desprovido do entusiasmo demonstrado na primeira vez. Podemos afirmar que foi uma aprovação formal, já que os gestos da professora demonstravam certa desconfiança.

Na semana seguinte, chega Gilson à porta da sala e, com a cara mais lisa do mundo, começou a repetir sua desculpa em inglês. A Professora Micol não aguentou, interrompeu-o bruscamente e exclamou:

 – Currapaco, paco paco! Você fica aí repetindo como papagaio. Decora a frase e vem aqui impressionar. Você pensa que babado é bico e que urubu é meu louro... 

Subitamente, a professora também foi interrompida por um gaiato no fim da sala, que  acrescentou: – Ele tá pensando que beira de pinico é biscoito fino e que beiço de jegue é pão-de-ló... E foi seguido pelo riso geral da estudantada.

Ao ouvir o inesperado aparte e o alvoroço das risadas, a Professora Micol não pestanejou e acabou o barato da turma com uma enérgica advertência:

– Vocês estão enganados com a cor da chita! Parem com isso! Ordem na sala!
E a classe, caladinha, voltou aos eixos...

 Aracaju, 30/11/2014
Beto Déda